domingo, 27 de dezembro de 2009

Rádio: Nina Simone - Feeling Good

Ah, o jazz.


sábado, 26 de dezembro de 2009

Universo é démodé

Estava eu nas intermináveis conversas de família por ocasião do Natal quando o assunto descambou, em função de caipirinhas e caipironas ingeridas aos borbotões, na origem do Universo. Pelo-me de medo de tocar em qualquer assunto que remotamente ataque as sólidas e sisudas tradições católicas da família, questionador e porra-louca que sou.

Envergonho-me a não mais poder que tenha quem, no seio da minha família, sustente que o mundo veio da inspiração indecifrável, insolúvel, até aqui tudo bem, e idiota de um criador onisciente e infinito. Os mais esclarecidos, sim, dizem algo sobre o Big-bang. É uma melhora, sem dúvida, mas estão também redondamente enganados, a dar-se fé nas teorias mais recentes, o big-bang foi um estalinho, um pipoco, um flato de menores consequências na longa caminhada disso tudo que nos obsseca interminávelmente: o nada.

Porque dizer que o mundo e tudo em volta nasceu da vontade de uma divindade é uma muleta fabulosa - no sentido de fábula - que servia bem na aurora dos tempos e na infância do nosso pensamento, onde não tinham florescido nem o método científico e nem a ciência em si, abstração que nos viria ao mundo muito depois dos hebreus condensarem centenas de mitos pagãos - é, pagãos são sempre os outros - no livro que apelidaram de Gênesis, começando com a criação do universo em seis dias e encerrando com a misericordiosa aniquilação da vida na Terra pelo Deus bonzinho que fodeu com tudo porque é misericordioso a não mais poder, e se arrependeu, embora seja alardeado senhor de todas as respostas e de todas as perguntas, de nos criar, humanos, e tudo o mais. Resolveu nos aniquilar misericordiosamente abaixo de 40 dias e 40 noites de chuvas incessantes, que inundaram tudo.

E também porque dizer que viemos de uma explosão bizarramente devastadora é muito bonitinho e explica o universo antes dito em constante expansão. Mas não explica o que vinha antes. E a isso os irrequietos econtraram teoria que desse jeito, esses bravos cientistas, compilando suas abstrações em tratados, regrados e plenos de método, e faltos de certeza. Deficiência esta que, aliás, os põe em perigosa paridade com os textos religiosos, cheios de ignorâncias, fraquezas e achismos e, mais uma vez, nenhuma certeza.

A teoria que explica o que vinha antes não é tão simpática como a do Big-bang, caros. Não há como lhe pôr nome em onomatopeia, como o do famoso relógio londrino, que desponta numa torre e juram os ingleses, nunca atrasa. Diz a teoria, que é uma fusão de outras duas menos votadas, que o universo, para ser verificável matematicamente, teria de ser composto por 11 dimensões e que é a coexistência dessas numerosas dimensões nos colocou aqui. Sempre me pego, distraído, pensando o que nos reservariam as sete que desconheço.

O evento que deu origem ao nosso universo seria o choque de duas dessas dimensões, unindo-as em uma coisa só. Destarte - saudade de usar essa palavra - o Big-bang não deixou de acontecer. A diferença é que ele foi um evento muito menor que nossa empáfia sempre nos levou a crer, sendo, na verdade, um esbarrão de duas dimensões perdidas na vastidão interminável e inolvidável do nosso multiverso. Universo é démodé, portanto, senhores, porque a verdade é que estamos todos perdidos girando a buzilhões de quilômetros numa coisa monstruosamente maior e infinita - pense nisso: o universo, infinito, dentro do multiverso, infinito - chamada de multiverso, uma coleção de universozinhos.

A lamentar-se o fato de ninguém ter entendido muito bem a preroração onde resgatei bagatelas do tempo em que me interessava por espaço, física e o grande "por quê?" - mas lúcido, percebi que não seria eu que encontraria a resposta, e abandonei a questão, engavetando os rudimentos teóricos no fundo da memória, para quando fosse o caso de puxá-los, como um dossiê, em conversas de bares, cantadas em estudantes de Física, ou discussões ignóbeis com a família. Meus grandes por quês hoje são a que horas sai o ônibus e se por lá, onde quer que seja, teremos cerveja e mulheres.

Na conversa de Natal, enfim, faria bem melhor eu se tivesse concordado que em um dia Deus criou tudo. Evitaria tanto latim gasto e olhares de reprovação dos bastiões da fé da minha família. Justo no Natal.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Rádio: Cássia Eller - Por Enquanto

Comecei a gostar dessa música porque ela fala em voltar para casa, e eu vivo voltando para a casa, é um hábito de quase uma década. Hoje já gosto porque ela me diz mais que voltar para a casa:


O dia em que cresci

Incidentalmente, enquanto fazia meus traslados e intermináveis conexões, para despencar de São Paulo para casa da família, testemunhei um episódio na vida de duas pessoas pelo qual eu já passei três vezes, em idades e condições diferentes, mas que me marcaram da mesma maneira que, suponho, deve ter marcado as pessoas.

A troco de calibrar o suspense e caprichar em recursos narrativos nunca dantes experimentados, irei, a princípio, traçar em poucas penadas, a figura das personagens para as quais deitaremos agora os curiosos olhos e a paciente imaginação: imagine um senhor dos seus 50 anos, roliço, pele bastante corada como a de gente que trabalha ao sol, embora eu possa dizer que desconfio que o vermelho que lhe tingia as expressões não vinha das inclemências do sol, mas de alguma condição genética ou, espero que não, mas não recuso a possibilidade, que fosse do consumo do alcool. Era calvo. Daquelas calvícies que começam na parte dianteira do crânio e daí se espalham, como as clareiras pela Amazônia. Ressalto que não afianço a origem do tom rubro da sua pele ao sol. Tenho razões para atribuir a outro fator o vermelhão e essas razões serão descobertas conforme este texto for amadurecendo.

De outro lado, a personagem número dois, era um menino. Arrisco-lhe 12 anos. Posso estar estupidamente enganado, visto que tanto quanto mais nova ou mais velha a pessoa, mais difícil de lhe atestar a idade ao olhar. Aceitemos, pois, que a criança tem 12 anos, tendo em vista que pode ter 15. Ou 8. Quem sabe? Ela. Mas não perguntei. De resto, o menino tinha olhos castanhos, sorria como toda a criança e lembro de que seus cabelos eram encaracolados, quase pichaim, como pouco se vê. Era esguio, leve. E falava sem moderar o tom, quase aos gritos, mas não dava por isso. Aprendemos a engolir as palavras e moderar os tons só com a idade. A tão festejada inocência infantil é, no fim das contas, resumível a falar aos berros.

Continua...

Acaba, anos 1980, acaba!

A-ha anuncia que volta ao Brasil, um ano depois, para mais uma turnê. E essa é a última do grupo.

Uhuuu! Menos uma banda dos anos 1980!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Rádio: Placebo - Song to Say Goodbye

Adoro essa canção. O clip é sensacional. Infelizmente não posso embutir no post a versão de 4 minutos, por conta das políticas da EMI. Mas posso postar a versão extendida, com 8 minutos, que também é muito boa, afinal de contas. Caso queira ver e ouvir a versão menor, clique aqui.



"Now I'm breaking down your door, to try and save your swollen face"...

domingo, 20 de dezembro de 2009

O mal que o racismo causa

Foi como levar um soco no estômago. Ao ver o vídeo que segue, curto e breve, destruidor e avassalador como um tsunami de retórica sobre o ódio, o racismo, o fracasso da nossa civilização, me senti mal, agredido, ofendido. Nosso mundo é uma merda, nossa civilização fede, nossos valores são ridículos. Triste, muito triste:


Revolução

Chega de verso rejeitado
Vamos todos nos unir;
chegaremos em bandos
e antes de você sentir
unidos te venceremos!
onde quer que estiveres
estupraremos seu gado
e espantaremos suas mulheres.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Fuga

A garota te sorriu!
ora essa!
antes que seja tarde,
olhe pro lado,
finja que nem viu.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Epitáfio belchioriano

Aqui jaz o verso
aqui a letra se desfaz
onde a música não toca
me bate o remorso
do dia que me sai torto e disperso
e o poema pelo qual tanto me esforço.
Jaz-me em mim todas as coisas
tudo que foi fugidio
a manhã sorridente, o vento e o tempo.
Aqui jaz tudo que não fui capaz.
É o féretro de um jovem rapaz
que se deu à ingrata tarefa
de amar e mudar as coisas
especialmente o que lhe interessava mais.

Escatologias

Hoje serei escatológico
vou ingerir prosa
digerir mágoas
peidar poemas
que fedem ressentimentos.
Aí me cago nos versos
arrotei músicas
Até dediquei uma gloriosa
pisei em excrementos
e escarrei as rimas
que esporrei numa
poesia preguiçosa.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Aforismos - Darwinismo de boteco

O louva-a-deus, aquele bicho verde, possuidor de um nome tão simbólico, vinculado ao formato de sua anatomia, que nos recorda um fiel ajoelhado louvando uma divindade, pequeno, frágil e esguio, qual um graveto verde caído de uma árvore qualquer numa ventania inclemente, na sua modalidade masculina, é incapaz de copular enquanto possui a cabeça conectada ao corpo. Diante dessa impraticabilidade absolutamente negativa a qualquer ambição da espécie de evolução, ou modesto perpetuamento - o que mais lhe cabe, tendo em vista a pequena margem de manobra que detém na dura e inclinada escada da cadeia alimentar - as fêmeas dos louva-a-deus, pois, não têm outro recurso que não seja arrancar as cabeças dos distintos machos para, assim, copular.

Diante de mais essa constatação irrefutável das injustiças naturais, não há nada mais que dizer que, louva-a-deus são, em última análise, a metáfora mais bem acabada da vida natural dividida em gêneros que suportamos nós, os homens, e da qual refestelam-se às largas elas, as mulheres. No mundo que conhecemos, elas arrancam cabeças, matam os machos, jantam os tarântulos, executam o zangão. E nós, homens, somos pavimentados naquilo que convencionei chamar em foro íntimo: a asfaltização dos homens pelas mulheres. Não há nada mais indômito que um rolo compressor.

Não me surpreende, pois, o nome do bicho. Só louvando, e muito, para tolerar a vida assim (aliás, é simbólico também que ao que mais louva, mais desgraças e injustiças se abatém. Deus e natureza são duas instituições para lá de injustas e desequilibradas, a dar-se fé que Deus exista mesmo, coisa cada vez mais difícil de sustentar nos tempos que correm). O louva-a-deus não discute as relações, ele dá a vida por elas. O louva-a-deus, se amasse, seria apenas objeto do desfrute da sua fêmea. Aos louva-a-deus não cabem, em hipótese nenhuma, analogias de sexo forte, de dominação ou de bravura. O louva-a-deus é mais próximo ao homem do que o golfinho, que é a única criatura, exceto nós, que faz sexo por prazer. O louva-a-deus seria poeta se escrevesse, filósofo se pensasse, luminar se fosse meio vagalume. O louva-a-deus é o exemplo sintético mais bem acabado da injustiça e da entropia das relações.

O louva-a-deus, antes de tudo, de inseto, de fiel abnegado, é o mártir de toda uma classe.