terça-feira, 7 de junho de 2005

Diário de um Poeta Corrompido XIII - Das Coincidências


Coincidências povoam nossas vidas, e ultimamente algumas têm me assaltado. Vejam por vocês mesmos. Na sexta-feira passada, uma amiga me disse que no sábado anterior tinha visto Juventude Transviada na madrugada da Globo, e que tinha assistido ao filme e flagrado um ator mui semelhante com o trapizongas que lhes escreve nesse instante. Eu vi Juventude Transviada (Rebel Without Cause, 1955) - deve ser daí que vem a expressão "rebelde sem causa") já fazia algum tempo. Era um dos meus rompantes de cinéfilo culto, ver um clássico antigo. Como o filme conta com James Dean no papel principal, um dos maiores mitos do cinema até hoje, fiquei extremamente esperançoso que a semelhança fosse com ele. Entretanto, sabendo que Dean era loiro e eu grisalho, fiquei menos convicto. E de fato, me sentiria honrado em ser como James Dean. Foi o único a receber indicação póstuma do Oscar na história (por duas vezes!) e tinha arroubos de roqueiro nos tempos mais belos do rock, na minha rabugenta opinião. Era jovem, desejado e morreu cedo num acidente com um Porsche prateado.

Aluguei o filme. Me senti como Tertuliano Máximo Afonso, personagem de José Saramago no romance "O Homem Duplicado", que li há pouco tempo. Tertuliano, sem mais o que fazer, aluga um filme qualquer e descobre nele um personagem menor que era simplesmente uma cópia sua. Daí Tertuliano traça uma cruzada para descobrir o nome desse ator, alugando outros filmes e criando os mais variados meios para descobri-lo sem denunciar-se, e, enfim, conhecê-lo (livro excelente, como naturalmente são os do Saramago). Vi o filme, que é sim muito bom, mostra as desesperanças da juventude daqueles doidos tempos de Elvis, carros com rabo-de-peixe, brilhantina e desilusões do pós-guerra. Apresenta o jovem nisso tudo, é um bom filme. Foi indicado ao Oscar de melhor roteiro, ou melhor roteiro adaptado, ou ainda coisa que o valha.

Foi um dos primeiros que a Warner rodou em CinemaScope. Teve algumas cenas rodadas em preto e branco mas para prestigiar a nova tecnologia acabaram refazendo tudo a cores. O orçamento do filme foi de modestos e encolhidos 1,5 milhão de dólares, uma bagatela se compararmos as produções contemporâneas. No terço final do filme há uma piscina vazia, que tinha sido usada em "O Crepúsculo dos Deuses". Não há cinéfilo que se preze que não tenha visto "O Crepúsculo dos Deuses" (clássico de 1950, narra o fim de uma grande estrela do cinema mudo, crente de que pode dar a volta por cima num desvario amalucado mui melancólico, mas para meu humor negro, extremamente engraçado), desconfio que a mansão da piscina seja também a mesma, mas isso não lhes garanto.

Vendo a fita busquei esse meu alter-ego e o encontrei no coadjuvante, que vim a descobrir, atende ou atendia pelo nome de Sal Mineo. Não só pelo nome, mas pela aparência do dito cujo, acredito tratar-se dum descendente de italiano. A semelhança, de fato, existe, vá lá (embora eu teime em protestar, Quero ser James Dean!*), mas não é assim tão profunda. O personagem de Sam é "Platão", apelido, ou John Crawford como o chamam vez ou outra no filme. O melhor amigo, senão o único, de James Stark, personagem do outro James, o Dean - Sam morre no final, aliás, John. Pelo que pude pesquisar em sites de cinema daqui e de lá, parece que Sam não fez mais filmes em que figurasse com alguma primazia no cast. Suspeito que virou artista de tv nos states, porém me falta acesso aos programas de tv daquele tempo, sobretudo os norte-americanos para confirmar a impressão. Contudo, fez uma boa atuação o Mineo o típico loser dos filmes de adolescentes norte-americanos.

A diferença minha e de Tertuliano reside no fato de que o personagem de Saramago ficou absolutamente desconcertado, eu apenas curioso. Vi o filme, achei o cara, e ponto. Me ocorreu agora, é curioso, mas nas férias escrevi sobre o fato de que numa noite sonhei que eu era o novo James Bond, o novo 007 e no dia seguinte estava a correr pelas ruas de Ponta Grossa atrás dum assaltante de bolsas femininas. Guardadas as devidas proporções, como defendi a Lei e a ordem, desconfiei que o sonho e o causo eram mais que circunstânciais e que eram predições do meu futuro. Agora me vem essa de parecer com um ator. Coincidência, seguramente.

Ontem ainda encontrei outra amiga e fui convidado a ser figurante num filme que estão rodando por aqui. O filme é um curta. Seguramente de modestas aspirações, mas digam vocês o que disserem, continua sendo um filme. Alguém pode ver e dizer: "ei, aquele figurante é a cara do James Dean!", outro dirá: "é mais o Sal Mineo", e outro: "hum, sei não, mas ficaria bem como 007". Essas coisas acontecem. Aconteceram com um ator famoso, das antigas, que eu nem lembro mais o nome. E como a história é apenas uma eterna repetição do mesmo, poderia muito bem ocorrer comigo.

Um dos meus melhores amigos é a cara do Russel Crowe (ou do Nicolas Cage no tocante ao olhar-de-peixe-morto, mas isso não sou eu quem digo) e chamei ele para ser figurante no mesmo filme. Enfim, são todas coincidências que, sem dúvida nenhuma, me credenciam para o cinema. Daqui uns poucos anos quando eu estiver ganhando o Oscar ficarei feliz em dizer no meu discurso de vencedor que vocês, meus queridos oito leitores, foram decisivos e preponderantes na minha tragetória. Os três ou quatro que estudam Jornalismo comigo fiquem certos de que serão contratados para serem meus assessores de imprensa e meus relações públicas.

Digam o que quisserem, mas de perfil guardo lá um quê de James Dean... 

*Sim. Trocadilho pedante em relação ao ótimo "Quero Ser John Malkovitch".

quinta-feira, 24 de março de 2005

A marinha do Paraguai

Assistindo nessa mesma noite ao Jornal da Globo, sem a petulante Ana Paula Padrão, a quem considero um poço de arrogância, vi uma notícia bem curiosa, referindo a circunstância porque passa a nossa desditosa fronteira com o Paraguai.

Ocorre que numa tentativa de revidar aos fiscais brasileiros, que de um tempo pra cá resolveram dignificar os seus soldos com as mais variadas maneiras de fiscalização, os paraguaios mandaram a marinha ocupar a ponte.

Ao menos a sua metade, como é de se supor, se viessem a ocupar a nossa metade estaria configurada aí uma invasão de territórios, e ainda que sem más tenções, seria motivo suficiente para se declarar guerra ao estado vizinho, enviar uma embaixada com ilustres diplomatas (coisa curiosa, generais, almirantes, brigadeiros e diplomatas sempre têm nomes pomposos, não há nesses cargos nenhum José da Silva, embora José da Silva não seja exatamente um nome, mas uma instituição nacional), eu dizia, com ilustres diplomatas, que não tendo o que fazer, precisariam ocupar o tempo, ao presidente vizinho, declarando que nós brasileiros ansiamos por manter as mais afetuosas, cordiais e excelentes relações com nossos vizinhos e hermanos, entretanto, se não chegássemos a um bom entendimento sobre essa invasão, nos veríamos na triste contingência de invadir-lhe o território e arrancar-lhe os olhos.

Ora, o Paraguai, pelo que consta aos meus surrados conhecimentos geográficos, constituí-se de uma porção de terra cercada por argentinos, bolivianos, chilenos e brasileiros, de sorte que não lhes resta qualquer tiquinho de mar para que pudessem avorar-se de ter uma marinha. É uma nação interior, portanto.

Ainda que houvesse a necessidade de patrulhar o rio Paraná e o rio da Prata, bem como as suas eventuais adjacências, creio que seria menos ostensivo e mais digno delegar semelhantes funções a um exército, por exemplo. Será que eles esperam um ataque marinho, aliás, um ataque fluvial ou até mesmo lacustre? Deve ser a mania de grandeza de quem muito pequeno é porque um dia quis justamente o que hoje não possui, acesso ao mar.

Que o diga Solano Lopes.

Hum, quem sou eu para sugerir alguma coisa na organização militar do Paraguai?

sexta-feira, 21 de janeiro de 2005

Dr. Kersten, o médico de Himmler

Até onde podemos imaginar que o destino rege nossas vidas? Há mesmo algum destino? E quanto a alguma habilidade especial, um dom, que seja individual e inerente a apenas uma pessoa em todo o mundo justamente por que será preponderante no seu destino e no seu papel perante a história? Ou tudo é apenas uma mera coincidência?

São essas as questões que emergem na mente após terminar a leitura dessa excelente história, que bem poderia ser um filme fantástico, aliás, me foge do entendimento o porquê desse livro não ter virado um. Retomando, é inevitável que esse tipo de questionamento não acabe ocorrendo, a vida de Felix Kersten, personagem principal dessa biografia, médico especializado numa milenar técnica de massagem oriental, é algo de muito especial e interessante.

Kersten é um estoniano que tem nacionalidade oficial finlandesa e tem como país preferido a Holanda. É um médico extremamente bem sucedido, que divide suas agendas entre Haia e Berlim naqueles doidos tempos, na iminência da Segunda Guerra Mundial. Era além disso um ignorante em política, e pouco se lhe dava sobre quem governava a Alemanha e o que pretendia, néscio que era em assuntos de política e as tensões daquela época.

Entretanto, pouco antes de começar a guerra uma parte da sociedade germânica já antevia a catástrofe se desenhando no horizonte, a morte, a destruição e o desrespeito diante dos mais singelos e antigos princípios de humanidade por parte do regime nazista. Um homem, o segundo no comando, exatamente abaixo do então todo-poderoso Führer alemão, o chefe das forças para-militares do partido nacional-socialista alemão, as Waffen SS, Heinrich Himmler, era o responsável direto, como Ministro do Interior do III Reich, pela perseguição, confinamento e morte dos inimigos do regime.

Apesar de toda a soberba advinda das pregações fanáticas da corja mais alucinada que o mundo já teve notícia, a respeito da sua superioridade enquanto raça, Himmler era um homem baixo, careca, que usava óculos e ainda sofria de homéricas crises estomacais, que lhe rendiam dolorosos acessos de cãibras pelo corpo.

Aliás, lendo o livro você que sempre se perguntou: "diabos, Hitler não era loiro, alto nem tinha olhos azuis, porque dizia então que quem era assim era superior?" vai descobrir que o austríaco baixinho invocado que queria dominar o mundo, na verdade, ficara ainda mais aloprado porque tinha sífilis em estado avançado na última fase da guerra, quando os exércitos de Von Paulus eram varridos pelos soviéticos em Stalingrado e quando a investida suicida de Von Rundstedt na Floresta Negra contra as forças aliadas desembarcadas meses antes na Normandia deu em nada e a sorte da Alemanha, dessa forma, estava decidida. Eram duas frontes para se vencer, algo muito difícil, mesmo para a Wehrmacht. Um erro estratégico ou o mais puro sintoma da loucura de Adolf Hitler e seus sequazes?

Voltando ao doutor e seu paciente. Kersten acabou sendo indicado junto ao Reichsführer, Himmler, para tratar-lhe desses problemas estomacais e, de uma hora pra outra, se vê envolvido numa atmosfera de perigo, incertezas, medo, onde todo e qualquer oficial representa um perigo, um espião. Kersten, dado o sucesso de seu tratamento e a gratidão que este proporciona a Himmler, acaba virando confidente e, porque não, amigo do general supremo das SS.

Himmler, além da constituição física frágil, tinha o mesmo problema a respeito de sua constituição mental, psíquica. Pela amizade e gratidão que começou a cultivar pelo simpático doutor, ele que sabia - apesar do fanatismo - ser responsável direto pelo infortúnio de milhares de almas, naquele clima pesado e de tensão em que vivia, encontrava no bonachão Felix Kersten, aquilo que jamais teve: um amigo, um confidente. Por essa razão, acabava durante os tratamentos por ser sugestionado, induzido a fazer coisas que agradassem ao já horrorizado doutor que começa a descobrir os horrores do nazismo e cobrar suas consultas com vidas poupadas em prisões da Gestapo e em campos de concentração.

Essa influência que Kersten conquistou perante ao Reichsführer lhe garante feitos heróicos que salvaram, sem sombra de dúvida, mais de meio milhão de pessoas de morte certa. Um dos serviços mais marcantes foi sua interferência em relação à decisão de Hitler de deportar todo o povo holandês para a Polônia, a troco de que a Resistência Holandesa estava custando caro na sua encarniçada luta contra os invasores.

Sendo holandês de origens e de coração, Kersten consegue induzir Himmler a desistir da idéia, que certamente significaria a morte de grande parte do povo germânico (ué?) da Holanda. Já no apagar das luzes, ou melhor, no cagar dos pintos, bem melhor, da Segunda Guerra, Kersten conseguiu algo de insuperável. Uma entrevista entre Heinrich Himmler e um delegado do Conselho Mundial Judaico, em favor da libertação de alguns milhares de judeus dos campos de concentração. Judeus que foram libertados, diga-se.

Ao simpático e gorducho doutor Kersten é atribuída a responsabilidade direta pelas vidas de mais de 60.000 judeus e um incontável número de holandeses, poloneses, finlandeses e noruegueses que salvou durante o período em que tratou de Himmler. O livro, "Dr. Kersten - o Médico de Himmler" foi escrito por um jornalista, o Joseph Kessel, que desempenha com precisão e extrema competência o serviço de narrar a vida desse combatente da Segunda Grande Guerra, o doutor que foi um tipo de soldado muito mais eficiente que bombas, tiros e outras modalidades não menos pavorosas de morte, destruição e intolerância.

Li esse livro tem um tempo já. Encontrei-o num sebo em Curitiba e comprei, obrigando-me dessa forma a reler essa história fantástica. Entretanto não pretendia escrever a respeito, mudei de idéia com as crescentes ocorrências de imbecis fazendo apologia ao nazismo. Fiz minha parte, faça você a sua.