sexta-feira, 21 de janeiro de 2005

Dr. Kersten, o médico de Himmler

Até onde podemos imaginar que o destino rege nossas vidas? Há mesmo algum destino? E quanto a alguma habilidade especial, um dom, que seja individual e inerente a apenas uma pessoa em todo o mundo justamente por que será preponderante no seu destino e no seu papel perante a história? Ou tudo é apenas uma mera coincidência?

São essas as questões que emergem na mente após terminar a leitura dessa excelente história, que bem poderia ser um filme fantástico, aliás, me foge do entendimento o porquê desse livro não ter virado um. Retomando, é inevitável que esse tipo de questionamento não acabe ocorrendo, a vida de Felix Kersten, personagem principal dessa biografia, médico especializado numa milenar técnica de massagem oriental, é algo de muito especial e interessante.

Kersten é um estoniano que tem nacionalidade oficial finlandesa e tem como país preferido a Holanda. É um médico extremamente bem sucedido, que divide suas agendas entre Haia e Berlim naqueles doidos tempos, na iminência da Segunda Guerra Mundial. Era além disso um ignorante em política, e pouco se lhe dava sobre quem governava a Alemanha e o que pretendia, néscio que era em assuntos de política e as tensões daquela época.

Entretanto, pouco antes de começar a guerra uma parte da sociedade germânica já antevia a catástrofe se desenhando no horizonte, a morte, a destruição e o desrespeito diante dos mais singelos e antigos princípios de humanidade por parte do regime nazista. Um homem, o segundo no comando, exatamente abaixo do então todo-poderoso Führer alemão, o chefe das forças para-militares do partido nacional-socialista alemão, as Waffen SS, Heinrich Himmler, era o responsável direto, como Ministro do Interior do III Reich, pela perseguição, confinamento e morte dos inimigos do regime.

Apesar de toda a soberba advinda das pregações fanáticas da corja mais alucinada que o mundo já teve notícia, a respeito da sua superioridade enquanto raça, Himmler era um homem baixo, careca, que usava óculos e ainda sofria de homéricas crises estomacais, que lhe rendiam dolorosos acessos de cãibras pelo corpo.

Aliás, lendo o livro você que sempre se perguntou: "diabos, Hitler não era loiro, alto nem tinha olhos azuis, porque dizia então que quem era assim era superior?" vai descobrir que o austríaco baixinho invocado que queria dominar o mundo, na verdade, ficara ainda mais aloprado porque tinha sífilis em estado avançado na última fase da guerra, quando os exércitos de Von Paulus eram varridos pelos soviéticos em Stalingrado e quando a investida suicida de Von Rundstedt na Floresta Negra contra as forças aliadas desembarcadas meses antes na Normandia deu em nada e a sorte da Alemanha, dessa forma, estava decidida. Eram duas frontes para se vencer, algo muito difícil, mesmo para a Wehrmacht. Um erro estratégico ou o mais puro sintoma da loucura de Adolf Hitler e seus sequazes?

Voltando ao doutor e seu paciente. Kersten acabou sendo indicado junto ao Reichsführer, Himmler, para tratar-lhe desses problemas estomacais e, de uma hora pra outra, se vê envolvido numa atmosfera de perigo, incertezas, medo, onde todo e qualquer oficial representa um perigo, um espião. Kersten, dado o sucesso de seu tratamento e a gratidão que este proporciona a Himmler, acaba virando confidente e, porque não, amigo do general supremo das SS.

Himmler, além da constituição física frágil, tinha o mesmo problema a respeito de sua constituição mental, psíquica. Pela amizade e gratidão que começou a cultivar pelo simpático doutor, ele que sabia - apesar do fanatismo - ser responsável direto pelo infortúnio de milhares de almas, naquele clima pesado e de tensão em que vivia, encontrava no bonachão Felix Kersten, aquilo que jamais teve: um amigo, um confidente. Por essa razão, acabava durante os tratamentos por ser sugestionado, induzido a fazer coisas que agradassem ao já horrorizado doutor que começa a descobrir os horrores do nazismo e cobrar suas consultas com vidas poupadas em prisões da Gestapo e em campos de concentração.

Essa influência que Kersten conquistou perante ao Reichsführer lhe garante feitos heróicos que salvaram, sem sombra de dúvida, mais de meio milhão de pessoas de morte certa. Um dos serviços mais marcantes foi sua interferência em relação à decisão de Hitler de deportar todo o povo holandês para a Polônia, a troco de que a Resistência Holandesa estava custando caro na sua encarniçada luta contra os invasores.

Sendo holandês de origens e de coração, Kersten consegue induzir Himmler a desistir da idéia, que certamente significaria a morte de grande parte do povo germânico (ué?) da Holanda. Já no apagar das luzes, ou melhor, no cagar dos pintos, bem melhor, da Segunda Guerra, Kersten conseguiu algo de insuperável. Uma entrevista entre Heinrich Himmler e um delegado do Conselho Mundial Judaico, em favor da libertação de alguns milhares de judeus dos campos de concentração. Judeus que foram libertados, diga-se.

Ao simpático e gorducho doutor Kersten é atribuída a responsabilidade direta pelas vidas de mais de 60.000 judeus e um incontável número de holandeses, poloneses, finlandeses e noruegueses que salvou durante o período em que tratou de Himmler. O livro, "Dr. Kersten - o Médico de Himmler" foi escrito por um jornalista, o Joseph Kessel, que desempenha com precisão e extrema competência o serviço de narrar a vida desse combatente da Segunda Grande Guerra, o doutor que foi um tipo de soldado muito mais eficiente que bombas, tiros e outras modalidades não menos pavorosas de morte, destruição e intolerância.

Li esse livro tem um tempo já. Encontrei-o num sebo em Curitiba e comprei, obrigando-me dessa forma a reler essa história fantástica. Entretanto não pretendia escrever a respeito, mudei de idéia com as crescentes ocorrências de imbecis fazendo apologia ao nazismo. Fiz minha parte, faça você a sua.