Eu não esboço a menor reação
meu peito calejado não sente
eu só penso
e me ressinto da vida
e me arrependo
e penso: quero que tudo seja diferente
mas nada é
me resguardo
e, cá comigo, fico cismando
que já não há esperança
é no fundo do peito
apago a última lembrança
e lamento mais este dia
escorro pela vida
me culpando pelo jeito
esse jeito meio decepcionado
tão meu
de olhar para dentro de mim mesmo
e me ver acabado.
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
Niilismo do fim
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
Gênio político
Lula caiu muito no meu conceito com o apertar de mãos com Maluf e pela desastrada maneira pela qual geriu egos, pessoas, recursos e fatos envolvidos na organização de Copa do Mundo e Olimpíadas que, por infelicidade dolorida, serão mesmo no Brasil. Com essa, sim, não há quem possa.
Mas há de se reconhecer o gênio político que se imbui no iletrado ex-metalúrgico, que bienalmente, convida à baila todos os idiotas da objetividade nababescamente remunerados pela mídia, reacionários de plantão, a gente que esconde a farda e os estranhos onanistas do tempo do verde oliva, do brasil-il-il, ameooudeixeo.
Armaram, eles, o julgamento do Mensalão, que verdade seja dita, devia, antes de tudo, ter se debruçado sobre a questão: "deveria, ou não, o PT pagar roylaties ao PSDB pela evidente usurpação de seu legado político?" - fosse eu FHC, arquiteto da edificação e destruição do tucanato empoado e plutocrata que desmontou o país, esse monumento do nada ao nada, estaria agora me debatendo em artículos, discursos e entrevistas expondo o que é, na mais pura definição do termo, pirataria.
Outra verdade acerca do tema, firmemente impressa no juízo nacional, solenemente ignorado pela mesma mídia, é a de que, via de regra, o cidadão comum está cagando e andando para o mensalão. Prova disso foi a coça de urna que deu Lula em Alkmin no ano de 2006. A de 2010, quando fez de peã, rainha do tabuleiro político e a de agora, quando, esperamos nós, jogou a pá de cal em cima do cadáver, há muito moribundo, de José Serra, dito democrata social, dono de truculência e de delicadezas que só encontram paralelo na gentileza de um esquilo estuprado por um elefante.
Mas dizia eu que Lula é um gênio político do maior calibre. Marcou-se o carnaval do mensalão para o período pré-eleitoral - que curiosa coincidência o veredito sair justo na semana do segundo turno. Lula, antevendo o passo há meses, adiantou-se e escalou o PT com caras novas, completamente desapegadas de qualquer eventual nódoa, porque manchas ficaram, vinculadas com o mensalão.
Resultado: venceu 16 cidades com mais de 200 mil eleitores, que se somam à retumbante vitória do primeiro turno. E, agora, irá resolver como fará para segurar seu projeto, legado e plano político no poder em 2014, enquanto os idiotas da objetividades se agarram em tímidas vitórias regionais - quem deveria comemorar a eleição de ACM como prefeito de Salvador é o país todo, livre que fica de sua presença no legislativo, e não os solteropolitanos e nossos imaculados colunistas - se fia de tímidas análises, se agarra a preconceitos e lamenta-se por esse povinho tão estranho que, parece, desaprendeu a votar, desapegado que anda dos sociólogos, economistas, poliglotas e plutocratas que ela, a mídia, quer tão bem.
às 18:42 0 comentários Marcadores: Atualidades, Política
sábado, 27 de outubro de 2012
Meu ódio, quando explode a vingança, será a herança do Facínora
Eu acabei desenvolvendo uma afeição inexplicável por westerns depois de velho. Bem velho. Diversas coisas me arrebatam nessas produções que, verdade seja dita, já estão longe da ordem do dia quando o assunto é cinema que preste nos tempos que correm.
Uma das coisas mais interessantes sobre esses filmes são os nomes que acabaram recebendo no Brasil. Como o auge desse tipo de produção definhou nos anos 1970, as versões nacionais eram verdadeiras licenças poéticas, quando não simples e libérrimas traduções do inglês:
Exemplos:
"The Wild Bunch" - No Brasil, o excelente bang-bang de Sam Peckinpah - excelente mesmo, considero um dos melhores de todos os universos e tempos - ficou com o para lá de sangrento título de "Meu Ódio Será a Sua Herança". Nada a ver com o filme e, principalmente, com o título, que dá, numa tradução sem qualquer devaneio, "O Bando Rebelde". Muito menos extravagante, sem dúvida, que o escolhido no Brasil.
"The Good, The Bad and The Ugly" - Um dos retumbantes e esmagadores clássicos de Sérgio Leone, meu diretor preferido, é conhecido no mundo todo com esse nome, até mesmo aqui no Brasil: muita gente se refere ao filme, estrelado por Clint Eastwood, como "O Bom, O Mau e O Feio", o que seria, precisamente, a tradução do nome original em italiano e da versão norte-americana. Contudo, por motivos que me escapam totalmente, no Brasil, o filme foi batizado de "Três Homens em Conflito".
"Duck, You Sucker" - Talvez, talvez, seja meu filme preferido. E, como os demais, foi batizado de modo desastrado por algum compatriota. Aqui, no Brasil, o longa ficou com o exuberante título de "Quando Explode a Vingança". Nome pastelão que desconstrói o título original, uma frase feita que sempre sai da boca do personagem de James Coburn, alertando seu comparsa para se abaixar. Na tradução, "pra baixo, idiota".
"The Magnificent Seven" - Uma exceção. No caso do filme que moldou muito do imaginário masculino na metade final do século 20, o nome brasileiro até que não joga contra: "Sete Homens e Um Destino". Para quem não conhece, vale a recomendação: é a maior concentração de testosterona e macheza por frame já encontrada no cinema. No fim das contas, deu origem há décadas de propagandas para a Marlboro.
"True Gritt" - O filme tem duas versões, a original, dos anos 1960, com John Wayne, e a de 2010, com Jeff Bridges. Ambas usaram os mesmos nomes, tanto lá como cá. No Brasil, o filme ficou batizado como "Bravura Indômita", nome meio incomum para as versões nacionais atualmente, mas que casa perfeitamente com o perfil dos filmes de John Wayne. Nesse caso, simpático o gesto de manter o mesmo nome dos anos 1960.
"The Man Who Shot Liberty Valance" - Em resumo, esse longa dos anos 1950 coloca John Wayne na pele de um mocinho que vai lá e mata o tal Valance, que era um tremendo de um escroto e, de repente, merecia mesmo levar uns tirinhos. No Brasil devem ter achado que traduzir o título para algo sem criatividade, como "O Homem que Matou Liberty Valance", esvaziaria os cinemas inapelavelmente. Daí a terem resolvido florear um pouco o título para "O Homem que Matou o Facínora". Notem bem: O Facínora, não foi qualquer um desses facínoras meia-bomba do oeste, FOI O FACÍNORA.
às 03:32 0 comentários Marcadores: Cinema
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Aforismos - Ciência e religião
Rick Gervais é um comediante inglês. Ateu de quatro costados, lá não é feio ser ateu, disse ele, na última semana, via Twitter:
"Querida religião, nessa semana eu soltei com sucesso um homem da borda do espaço enquanto você deu um tiro na cabeça de uma criança que queria ir para a escola.
Sinceramente, Ciência".
Rick se referia a isso e isso.
às 15:38 0 comentários Marcadores: Aforismos
domingo, 7 de outubro de 2012
Porque "Império do Sol" é um filme inesquecível
Eu lembro de, deitado sobre a barriga de meu pai, assistir pela primeira vez à "Império do Sol". Lembro da sala, da luz amarela da lâmpada, lembro que era um sábado à noite, que o filme estava sendo exibido pela Globo e que o televisor que tínhamos era bem antigo, um Telefunken, marca da Alemanha Oriental que não existe mais. Televisor que seria mais ou menos surrupiado por um eletricista de má índole, ou fora abandonado nas mãos dele por falta de dinheiro na hora de pagar o conserto. Nunca logrei decifrar esse mistério de família. A quebra desse aparelho, aliás, fez com que eu e meu pai fossemos para o Paraguai em 1994, comprar uma tv de outra marca obscura, desta vez Eltec, que não fulgurara sob o julgo da foice ou do martelo e, talvez bem por isso, não se sabe nada sobre seu destino. Devia ser apenas uma estripulia asiática que emulava aparelhos de concorrentes de mais nome e apenas colocava no produto um nome qualquer que, nesse caso, calhou de ser Eltec.
Não era sobre o meu histórico com aparelhos televisores que queria escrever. Era, na verdade, sobre "Império do Sol". Esse filme marcou minha vida, é seguramente um dos registros mais antigos de cinema que eu tenho comigo, devo tê-lo assistido aos 6 ou 7 anos de idade. E guardei comigo profundas impressões de diversas cenas do filme, muito embora tenha demorado alguns anos para que pudesse, enfiar, altaneiro, dizer a todos que sim, entendia direitinho toda a história do longa de Spielberg.
No resumo, "Império do Sol" conta a vida de um garoto britânico que reside na China. Filho de aristocráticos ingleses, está acostumado à boa vida, a tudo ter, aos brinquedos caros e aos mimos que, ainda em 1939, soaram para este jovem Tertuliano como impressionantes.
O menino é Jamie, vivido por Christian Bale. Naquela época, o ator que hoje é muito conhecido por dar vida a Batman, já mostrava a veia para o drama, para a carga psicológica. O garoto vivia encantado, vejam vocês, pelos pilotos e aeronaves japonesas, frutos de um império, o japonês, que já naquela altura acenava com as intenções belicosas de conquistar para si todo o Pacífico. O objetivo causaria, como causou, enormes insatisfações a outro império, o britânico, do qual Jamie e seus pais faziam parte. A vibração da criança pelos aeronautas japoneses durante o filme é um toque sútil de ironia, e muito bem calculado: crianças não se preocupam com geopolítica, ao guri aprazia torcer pelos aviões japoneses porque os admirava. Não lhe passava pela cabeça que eventuais vitórias dos nipônicos poderiam significar até mesmo sua morte.
Com o passar do tempo, os japoneses lançam-se sobre a China, num episódio conhecido como guerra da Manchúria. Ao invadir a cidade, Jamie e sua família precisam fugir às pressas do ataque japonês e do risco de acabarem prisioneiros em um campo de concentração. Por diversos desencontros, os pais de Jamie fogem, ele não.
E é nesse momento que o filme, de fato, começa. Jamie, mimado e acostumado à boa vida, vê se num cenário de guerra onde é alvo, abandonado e sem perspectiva, precisa encarar a vida e a luta pela sobrevivência de frente. Com coragem e criatividade.
O diapasão do filme passa a se centrar nesse desenvolvimento. De certa maneira, "Império do Sol" é uma boa fábula para a perda da inocência. Jamie acaba deixando de ser criança quando precisa se virar para comer restos, quando precisa convencer pessoas a não o abandonarem. Quando acaba num campo de concentração e desenvolve um talento especial para esgueirar-se pelas difíceis e comprimidas instituições que florescem como podem dentro de uma sociedade confinada entre grades, arames, armas e inimigos.
"Império do Sol" é um belo filme de Spielberg. Há muita gente que torça o nariz por conta de suas produções, mas é preciso reconhecer onde o diretor acertou. O filme todo constroi uma sensação de absurdo tão sútil, que fica difícil ignorar.
Algumas cenas de "Império do Sol" me acompanharam por mais de 15 anos, até que dia desses eu revisse o filme: Jamie rastejando na sarjeta por uma aposta. A respiração boca a boca em um cadáver. A fuga do campo. A relação de amizade proibida e muda com um cadete da força aérea imperial. O interesse nas aeronaves e a cena do ataque ao campo no arco final da narrativa. Tudo isso, mestre Spielberg, imprimiu em algum recesso da minha mente. Conheço uma meia-dúzia de diretores melhores que Steven, mas, confesso, nenhum desses soube imprimir um filme no meu coração de menino.
às 22:01 0 comentários Marcadores: Cinema, Cultura, Memórias
