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sábado, 30 de outubro de 2010

Os Reds de Reed

É engraçado, e um pouco triste, assistir "Reds", de 1981. De um lado, o jornalismo nos bons tempos imediatamente anteriores à ditadura do "lead", da torpeza da objetividade que se vende como lei de ouro, e que não passa de brilho fulgaz de pirita a enganar os tolos, o jornalista e o jornalismo em estado de arte, militantes da transformação social do mundo. A vida de um ícone do jornalismo literário, o autor de "Dez dias que abalaram o mundo", John Reed. E também o florescer da Revolução Russa, a tomada do poder pela maioria de fato, a queda das oligarquias num primeiro momento, a chegada do tempo em que, acreditava-se, as rédeas dos destinos da humanidade seriam de todos, e que a igualdade seria um bem comum.

E de outro lado, o debacle inerente de todas essas coisas. O reconhecimento de que a União Soviética foi um imenso fracasso moral, social, político e principalmente humano. A convicção de que o jornalismo morre a cada manchete mal resolvida, a cada lapso, digamos assim, de golpismo, de truculência e de decadência luzídia.

Luzídia, sim, para nos lembrar que nem tudo que reluz é, de fato, ouro.

Bom filme. Bom filme.

terça-feira, 18 de maio de 2010

O melhor site do mundo é...

... aquele em que você trabalha. Ok, péssimo lugar para fazer propaganda, mas vamos lá. Deem uma olhada no novo site da Placar: http://placar.abril.com.br

Modéstia à parte, um trabalho legal pra cacete.

[/fim da auto-promoção]

Prometo que não faço mais, distinta comunidade de sete leitores.

segunda-feira, 29 de março de 2010

A serviço secreto de sua excelência

Esqueçam o que eu disse aqui quanto a ocupação do cidadão que carrega a policial ferida. Na verdade trata-se de um policial à paisana, e não de um professor, como identificou a priori a Agência Estado. Coisa de regimes fascistas, confere?

José Serra é o nosso Putin.

quinta-feira, 18 de março de 2010

A onda agora é protestar

Já falei sobre o assunto neste post, mas não posso deixar de falar umas poucas linhas a mais sobre. Tropecei nesta matéria, que dá conta da indignação das celebridades cariocas por conta da revisão do modelo de partilha dos royalties de petróleo.

Esportistas e artistas radicados na cidade maravilhosa resolveram ir às ruas protestarem porque o estado perderá parte substancial de sua receita, caso a reforma no sistema seja aprovada. Pois é. Dentre as declarações indecentes colhidas pela reportagem, há uma bem emblemática: "Não podemos deixar que o bairrismo de uma pessoa afete o Rio. Nós sambistas temos que colaborar com isto, pois o samba recebe recursos do governo”, diz-nos o chefe de bateria da Unidos da Tijuca, que nem merece seu nome citado aqui - detalhe: bairrismo, para ele, é universalizar os dividendos do petróleo, quando, na verdade bairrismo é o contrário; mantê-los restritos a estados mal administrados e sem projeto de longo prazo. O pessoal das escolas de samba, depois que perdeu os fundos perdidos dos bixeiros, entrou na verba fácil do governo. É a indignação comprada pelas lágrimas de crocodilo do governador Sérgio Cabral.

É esse o problema. Grana. Financiamento público para os eternos bailes da Ilha Fiscal, onde as socialaites e as celebridades de ocasião possam se refestelar com toda a dignidade, abastecendo por sua vez o noticiário de fofoca, tão caro às massas. Ninguém ali está muito preocupado com um projeto de nação, com o desenvolvimento de um país, com a construção de uma sociedade. E é sintomático que a manifestação destes, vazia em propósito e em ideias tenha mais respaldo midiático que a greve dos professores de São Paulo, que foram mordaçados pelo autoritário governador, quase candidato a presidência, José Serra, contra o qual ninguém diz nada.

Vou vomitar.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Profeta do diálogo

A diplomacia brasileira tem se tornado relevante no cenário mundial como nunca foi. Em grande parte por meter o nariz em tudo que lhe diz respeito com equilíbrio e propósito, o que limita as escorregadelas.

A ponto de um jornal israelita dizer que Lula, que fará visita ao Oriente Médio, Israel, Jordânia e Palestina, é o profeta do diálogo. A matéria trazida às nossas luzes pela BBC Brasil (como pode, aliás, uma organização estrangeira fazer o melhor jornalismo do Brasil?) cita que o jornal diz que Lula precisa ser amado por todos na região, independente da bandeira a que se dipõem a matar-se. O jornal exalta a imparcialidade de Lula que, ao conceder entrevista a jornalistas árabes e israelenses, resolveu a questão de quem perguntaria primeiro no par-ou-ímpar.

No dia de hoje, também, um jornal dos EUA, Miami Herald, repercute a possibilidade de Lula buscar a Secretária Geral da ONU, posto de prestígio e enorme destaque a que muitos estadistas almejam. Foi intenção do FHC, que é um pavão, como todos sabemos, mas que não pôde conquistar em vista de suas realizações bastante tímidas.

Isso tudo me faz lembrar de um post do ano passado, onde imaginei FHC cometendo um sombrio haraquiri, depois de tão esmagadores sucessos daquele que foi seu maior antagonista. Nada mais justo; seus livros foram queimados, ele mesmo disse para esquecer o que dizia antes, seu espectro político está desorganizado, sem projeto de país, sem relevância política, sem apoio popular.

É o crepúsculo dos deuses.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Não contem para o Boris

Nas estripulias que estão na ordem do dia, afinal, é carnaval, encontrei essa fotografia:


Dilma Rousseff, séria candidata a presidência, dançando com um gari na Sapucaí na noite de ontem, í. Se Boris Casoy ver isso, uma das primeiras personagens da República dançando com um dos "representantes da escala mais baixa do trabalho", nas palavras do terrorista de direita e reacionário ex-caçador de comunistas, provavelmente cometerá um haraquiri - quanto í - o que estará bem longe de desagradar as massas e ser uma grande perda, afinal de contas.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Um filme sobre a realidade

Descobri Network, filme de 1976, aqui no Brasil rebatizado para "Rede de Intrigas" e me impressionei pela riqueza da peça. O roteiro, o discurso, o nível de consciência dos nossos tempos sendo mostrado consistentemente há 34 anos.

O filme trata a respeito da desmoralização do negócio de mídia, e do jornalismo no bojo disso tudo, ao mostrar o cenário de caos que se instala, a falta de regra e de limite que advém de um mundo onde o único objetivo aceitável é a audiência e o lucro.

Tudo começa com a ameaça de demissão do personagem Howard Beale. Beale era um âncora de sucesso na tv, mas que recentemente estava perdendo números importantes de ibope e, em vista das dificuldades pelas quais passa a emissora em que trabalha, é anunciado que será demitido em duas semanas. Beale, literalmente, surta.

E na esteira do absurdo do âncora sisudo do jornal noturno de família que anuncia que irá se suicidar em público, frente as câmeras, todo um roteiro de caos assustadoramente presumível emerge. Beale antes de ser direcionado para tratamento, como seus amigos e superiores defensores do padrão de qualidade de jornalismo dentro da emissora defendem, é transformado numa celebridade, num profeta do caos, do absurdo. Sua loucura e eminente suicídio deixam de ser problemas da esfera pessoal de Beale e transformam-se em chamarizes para a audiência.

Um absurdo verdadeiro, diga-se. A capacidade de Beale mobilizar as pessoas dando voz às frustrações coletivas contagia qualquer um e tem paralelos com "Um Dia de Fúria", clássico oitentista do cidadão de bem que se revolta contra o estabilishment.

Só que Network é um grande filme porque não pára por aí. Beale e sua odisséia é uma parte fundamental do filme, mas mais que isso, encontramos dilemas morais e éticos de uma transição praticamente constante no jornalismo. O idoso e renomado jornalista, por exemplo, envolve-se num caso com a mulher que transformara o demissionário Beale, seu amigo, doente e carente de cuidados, como uma estrela. Os diálogos entre essas duas personagens têm em si qualquer coisa de geniais.

É sintomática após a primeira explosão de fúria de Beale ao ar (na qual ele entra no estúdio de pijamas e sobretudo, depois de ter tomado chuva pelas ruas - veja no vídeo abaixo) que o noticiário tenha se tornado num programa de notícias. Na lógica programa de auditório, as notícias perdem qualquer apego ao senso de informação e transformam-se em apelos idiotizantes de um programa que ainda conta com o histrionismo de Beale. Não precisa ir muito longe para encontrar semelhanças com a proposta aqui mesmo, no Brasil.



Outra trama decorre quando a personagem maquiavélica de Faye Dunaway conduz a produção de uma série de documentários sobre um grupo ultra radical de esquerda que aje sequestrando e roubando bancos - numa pura e consistente lógica de reality show, que poluem as tvs do mundo hoje em dia. Os documentários no filme industrializam noções e ícones de forma sensacional. Algo que, mais uma vez, nos traz aos dias de hoje.

Network é um filme sensacional. Pouco conhecido, ao que consta, mas que deveria compor a cinegrafia obrigatória de qualquer jornalista e, mais que isso, de qualquer um que um dia já se incomodou com "essa caixa que só diz mentiras", segundo Beagle em uma das suas messiânicas e impactantes explosões. Todos esses componentes kafkianos, esse absurdo do cotidiano, leva o filme a um desfecho impressionante e sombrio - sobretudo dados os paralelos com a mídia de hoje que o filme, a exemplo do personagem Beagle, conseguiu profetizar com invejável acurácia.

Apenas para concluir: outro momento genial e inesquecível dá-se no diálogo de um desvalido Beagle com o executivo da rede de TV, que lhe afiança que o mundo, a democracia, a sociedade, a política, a ideologia, nada disso, existe. O que existem são as corporações e o dinheiro - você pode acompanhar isso aqui, mas apenas em inglês - isso tudo em 1976, anos antes de Reagan e do Consenso de Washington. Incrível.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Sapo e Princípe

Numa inauguração recente, Lula disse a palavra "merda". Inauguravam obras de saneamento básico e Lula disse que não interessava a ele o partido do prefeito daquela ou de qualquer outra cidade, interessa saber se "o povo está na merda, e quero tirá-lo da merda em que se encontra".

Curto e grosso, sem eufemismos. Claro que muita gente se horrorizou, afinal, é o presidente da república. E claro que a gente que se horrorizou é a que não compreende que um sujeito como esse, vindo de onde veio, sem diploma, nenhum pouco poliglota, que ainda fala errado, tem vícios de linguagem constrangedores e metáforas ignóbeis tenha mais de 80% de popularidade aqui no Brasil.

Essa gente não entende nada. Cheguei a essa conclusão. Esse povinho está orbitando numa outra galáxia. O presidente falar merda os choca, os ex-presidentes, como FHC e Sarney, que só fizeram merda, não os constrange.

Falando ou não merda, Lula foi escolhido pelo "El País", atualmente considerado por muita gente de tino o melhor jornalismo do mundo, o personagem do ano. Nas publicações mais sérias do planeta, não importa o matiz que as norteia, o presidente que fala em tirar o povo da merda é festejado como estadista e líder contemporâneo incontestável. As posições de Lula são consideradas em qualquer debate mundial, o Brasil está no mapa.

Ao tucanato empoado e plutocrata que desmontou o país, e não falou em merda, mas a fez em proporções industriais, nenhuma mísera linha em qualquer lugar.

Lula foi, sim, vulgar no que disse. Mas que bom que é no que diz. Triste mesmo é quem sempre foi vulgar no que fez, e sempre contou com a gentil guarida de uma imprensa preconceituosa e abobalhada, que ainda hoje tece teorias e elipses para entender um operário presidente. E estadista.

O sapo não é, pois, o que fala merda. Esse, boquirroto, é o príncipe. O sapo é o que só fez merda e não entendeu nada.



quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Morreu Alborghetti

Um reacionário a menos no mundo. Morreu hoje Alborghetti, o que deve ser motivo de gáudio para muita gente togada que o processava em virtude da sua, digamos, pouca fineza no trato acerca de questões diametralmente maiores que a bitola da mente meio bronca de quem dizia "bandido bom é bandido morto". Não comemoro falecimento de ninguém, ao contrário dele que cantava "Aleluia" de Handel sempre que um bandido era dado como morto. Apenas me compadeço, porque sem suas escatológicas exortações o mundo me ficará um pouquinho mais sem graça.

Deve ter morrido de overdose, como todos os ídolos da minha geração. Abaixo você acompanha alguns dos grandes momentos do mestre Dalborga.

Vá a merda, porra!



Isso é uma putaria!



Ééééééééé boa noite!


O obscurantismo de Bento XVI

Há uns anos, 2005, acho, quando a Igreja Católica reunida em conclave escolheu o atual papa, considerando que podiam ter naquele instante escolhido um negro, um asiático ou até um latino-americano, ou ao menos alguém de perfil moderno e liberal, e optaram por um alemão conservador, ex-membro da Juventude Hitlerista, a quem um show de rock não é uma manifestação cultural, mas sim um culto ao satanismo, dentre outras idiotices, eu disse cá com minhas teclas cor-de-marfim: "a Igreja deve ter chegado a conclusão de que tinham fiéis de mais e que poderiam perder pelo menos a metade".

Bento XVI, que não é nome de pontífice, é nome de caipira, disse ontem, perante o monumento do Imaculado Coração, lembrado no dia de ontem em cerimônia, que a imprensa, a comunicação e a mídia, ao noticiarem o caos em que o mundo se encontra, são, na verdade, culpados do estado das coisas. Para o papa, as notícias das catástrofes hediondas que compõem o rosário de misérias da vida cotidiana "endurecem o coração dos homens". O papa, portanto, presume que o homem só pode ser feliz se nada souber. Ao papa, às luzes que iluminam a mente do homem e o dão a conhecer o mundo são nefastas.

É impressionante. Pessoas morrem de fome na Etiópia. A mídia notícia, e a culpa, segundo os tortuosos e obscuros recursos mentais de sua santidade só pode ser de quem reporta. Ao papa convem culpar os meios de comunicação por observarem e reportar o mundo, mas jamais, sob hipótese alguma, perceber que a instituição que comanda, a Igreja Católica, tem parcela de culpa incomensuravelmente maior em muita desgraça que se desenrola sob os nossos pés. Curiosamente, no entanto, a Igreja que ele comanda dispõe de um canal no YouTube (onde podemos vê-lo dizendo que a mídia é um mal do mundo), redes de TV e sites de notícia pelo mundo todo. E as suas declarações ignóbeis só chegam aos ouvidos dos seus fiéis porque há uma mídia para reportá-las - grande parte dessa mídia é aparato do Vaticano, inclusive. Esse papa é muito burrinho.

O papa, ao dizer que é o fato de conhecer o mal das coisas que nos faz frios e de corações endurecidos, parece pegar na bandeira do obscurantismo, centelha às avessas tão cara às organizações de caráter didatorial e obscurantista, como são, via de regra, todas as religiões. Ao dizer que é o fato de dar a conhecer o que vai mal às sociedades que faz com que o mal se perpetue, o papa parece se abraçar na ideia de que se conhecermos menos, melhores seremos, mais aquecidos são nossos corações. Se eu não souber de uma catástrofe, então, tenho coração melhor. Se eu não souber de um crime chocante, mais capaz de piedade eu serei - quando é justamente o contrário, me dei conta do horror do mundo, e ainda penso nisso, quando um menino morreu arrastado num assalto ano passado. Ao papa convem que sejamos ignorantes acerca do que nos cerca, assim seremos melhores, mais integros, quiçá felizes. Na verdade ele não é burrinho, essa lógica é a que permite a subsistência da Igreja: medo, ignorância, temor pela liberdade advinda das luzes, das ideias. Ao papa interessa que ignoremos a realidade do mundo, e fiquemos a contemplar a beleza incidental das flores que rebentam dos botões no campo por obra divina.

Num único discurso aquele que é o depositário da imagem de bondade e integridade que tanta gente procura em ícones - e o papa é um - desmente mais de 400 anos de filosofia ocidental. Joga no lixo o iluminismo, a liberdade pelas ideias, desmente o progresso humano na esteira das noções de liberdade e igualdade que andam juntas, de mãos dadas, aos tropeços, mas sempre unidas, de saber e ser livre. Noções que desaguaram em catástrofes, não há dúvida, mas que permitem, por exemplo, hoje uma mulher usar calças e ir trabalhar. Ou eu dizer que o papa é burrinho e não ser queimado vivo como herege.

Ao papa, sinceramente, minhas condolências. Que ele suponha que sua massa cada vez menor de seguidores o creia e dê fé nas sandices que declara de vez em quando não me surpreende. Mas que espere que gente de discernimento compre ideias tão derrotadas e ultrapassadas é algo que merece apenas minha mais profunda piedade. E pasmo: porque até poucos anos atrás o Vaticano e a gente de batina e solidéu dizia que tudo que o papa proferia vinha da boca do Deus presumido. O princípio da infalibilidade papal que era, e ainda é, porque há quem o defenda, absolutamente imbecil. O papa não é deus e nem está em conexão com um, qualquer que seja ele. O papa é humano, demasiado humano.

Não é atoa que Schopenhauer disse que as religiões são como vagalumes: precisam da escuridão para brilhar. E é isso que Bento XVI nos demonstra, que o mundo sem saber do que é o mundo é o lugar ideal, porque só aí nasce bondade e o bem. Para sua santidade conhecer e saber não liberta, não engrandece. A Igreja, não se enganem, precisa de escuridão, medo da morte, crença na punição, dualidade entre o bem e o mal, a fé no demônio para existir. A Igreja não me inspira à piedade pelos homens, a Igreja me inspira à piedade por ela, Igreja, tão desengonçada e alheia da realidade. A Igreja me dá pena, porque é uma das instituições com maior potencial de unir e congregar pessoas em torno de coisas realmente boas e importantes, mas o faz apenas para louvar a Deus, o que pode ser muito bonito e válido em algumas culturas, mas é de uma redundância atroz: se eu sou Deus e tenho consciência disso, pra que raios preciso de multidões bradando meu nome e me lembrando do quão fodão eu sou, se eu já sei?

Sempre achei presunção demais supor que um ser infinito, um ser indefinível pelas medidas que damos às coisas do nosso mundo, carecesse do nosso louvor.

É aquele velho aforismo: se há um deus indiferente a nossa dor, não sofreremos, porque a ele tanto se lhe dá o que fazemos ou não fazemos. Se há um deus justo, nesse caso, podemos todos ficar tranquilos, porque ele não poderá nos punir pelo uso honesto e consciensioso da racionalidade. E nem da mídia como forma mais ou menos eficiente de nos informar-mos sobre o mundo. Mas se, por fim, há um deus injusto, aí sim, devemos todos temer, tal como o cristão de quatro costados, porque o desequilíbrio dessa entidade poderá nos cegar e nos avacalhar miseravelmente. Poderá esse deus dizer que, enfim, saber é mal, que o homem que resolve conhecer as coisas mediante a observação e a ponderação da realidade que o rodeia terá o coração endurecido e merece o fim ignominioso que se dá àqueles que pensam diferente.

Diante disso, voto no deus justo. Ou no deus de "um sábado qualquer". Ou ainda em deus nenhum.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Toyota não é de nada

E a Toyota, que vem a ser, assustem-se leigos, a maior montadora de automóveis do mundo, anunciou hoje o maior recall de todos os tempos. Serão convocados 3,8 milhões de veículos (!) nos EUA porque, e aí é reside o absurdo, o pedal do acelerador pode enroscar nos tapetes do veículo, e os gabaritados motoristas norte-americanos são incapazes de lidar com essa assombrosa contingência, podendo, portanto, emborrachar-se ridiculamente nos muros, postes, árvores e outros Toyotas que abundam no país. Situação desagradável, porque os perspicazes motoristas acabariam tendo ganas de processar a fábrica nipônica que, naturalmente, se sentiria desconfortável em arcar com intermináveis indenizações.

Lendo mais sobre a notícia, descobri que a montadora irá retirar do mercado uma picape que pode ter o chassi corroído pelo sal (!!), situação que pode fazer com que o pneu estepe caia, e cause as mais complicadas situações para o cidadão que vem atrás, dirigindo algum SUV esdruxúlo, ou um daqueles sedãs enormes, gastadores e desajeitados, tão caros ao "american way of life". Além disso, os sempre precavidos japoneses conceberam um chip que cortará o motor quando os sempre evoluídos, competentes e astutos motoristas dos EUA pisarem simultaneamente no acelerador e no freio - manobra conhecida como "punta-tacco" e extremamente utilizada, além de importante, no mundo do automobilismo de competição - mas bastante ignóbil e deslocada num veículo comum de rua.

E, sim, pasmem, a Toyota é a maior montadora do mundo.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Jogos são legais

Normalmente as pessoas tendem a não enxergar, ou a ver com preconceitos, a indústria dos games. Ninguém tende a levar muito a sério algo que nasceu como brinquedo e que foi crescendo ao longo das décadas e hoje, além de ser uma indústria milionária mais lucrativa que o cinema, tem enveredado no ramo da criação de produtos e desenvolvimento de conteúdo cada vez mais complexos e bem elaborados.

Hoje jogos simulam mais do que corridas de carro, estratégia em jogos onde você brinca de deus, morte e destruição em games de tiro. Vai muito além. Há, por exemplo, muito mais crítica social e inteligência no último GTA do que na grande parte dos nossos jornais.

Não é minha intenção, entretanto, fazer uma profissão de fé no sentido do real valor inexplorado dos jogos eletrônicos, que ainda perturbam a ideia de educadores e psicólogos retrógrados, que tendem a explicar o vazio existêncial de um adolescente violento e problemático por meio de influência dos jogos.

É aquela velha história: se a minha geração tivesse sido influenciada por jogos como Pac-man, estaríamos todos correndo em salas escuras, ouvindo músicas repetitivas e engolindo pílulas. É, eu sei, há quem faça exatamente isso em raves, dirá alguém. Aí eu contradigo, porque eu joguei também Super Mario e não me lembro de sair por aí pulando em cima de tartarugas, engolindo cogumelos e desafiando a gravidades em abismos medonhos.

Jogos não são mais negativos que, por exemplo, assistir o Pânico. Ou uma novela.

E tudo isso porque lia eu sobre novidades em matéria de games. Preciso renovar o estoque, logo lançam o Modern Warfare 2, eu mal comecei o Batman e o Need for Speed Shift tem tudo para me tomar tempo demais. Aí encontrei esse vídeo abaixo, da Scientific American, que explica a evolução da aplicação dos conceitos físicos nos jogos:


sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Olimpíadas no Rio - quem é sério, é contra

E o COI escolheu o Rio de Janeiro. Sobrevida para Nuzman e outros câncers da política esportiva do Brasil. Um país onde apenas 12% das escolas dispõem de quadras poliesportivas e um Pan-americano é superfaturado em 400%, com as furadeiras mais caras do universo, vai, enfim, sediar, para contemplar o ego devastador de Nuzman e a sanha dinheirista de alguns safados, uma edição das Olimpíadas.

Outra coisa que enoja enormemente é o oba-oba. As Organizações Globo vão encampar escrotamente o evento. Não haverá espaço para críticas, para relativização e discussão da organização, agora inevitável, dessa megalomania discabível num país onde ainda morre-se de fome. Como não houve, e não há, uma linha, uma matéria de folego na rede Globo explorando o manacial quase que inesgotável de absurdos que permeiam a vida pública do câncer chamado Carlos Arthur Nuzman e da organização dos ridículos jogos Pan-americanos de 2007. Para refrescar a memória, teve jogos de softbol cancelados porque a arena de jogo virou o lodaçal, além de torcida carioca fazendo escândalo em esportes onde o silêncio e concentração são preponderantes.

Nesses momentos eu não entendo porque as pessoas ficam chocadas com fraudes, dopping, escândalos no esporte de alto desempenho. Virou negócio. E dos mais sujos. Se o que norteasse a escolha do COI fosse a decência, a lógica e a racionalidade, os jogos de 2016 passariam muito longe do Rio de Janeiro.

Olimpíadas é para quem tem política esportiva, e não o contrário. Os jogos coroam um trabalho de décadas, não fomentam um de poucos anos para preparação de atletas que não existem hoje e, tenham certeza, inexistirão amanhã.

Absurdo.

E eu perco a fé na humanidade.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

No tempo em que ruim era o jazz

Jazz é legal. Ou, pelo menos, Miles Davis é legal. E Herbie Hancock também. Sempre tive pouco contato com o jazz. As poucas referências do estilo eram Lisa Simpson, Jô Soares falando no assunto nas suas intermináveis auto-entrevistas, uma música esparsa aqui e ali. Nunca fui além disso.

Recentemente, ou nem tanto assim, cursando a faculdade, ouvimos falar de um tal filósofo aí, meio assim, Theodor Adorno. Da galerinha da Escola de Frankfurt, que contava com senhores como Habermas, Horkheimer, Walter Benjamin, Marcuse e outros menos votados. Adorno é, provavelmente, o maior expoente deste movimento do pensamento humano da primeira metade do século passado. O dono da bola. O vocalista da banda ("Adorno e seus Filósofos"?) - ou do grupo de samba ("Filósofos do Samba"?), dado o número de integrantes. No movimento de cunho filosófico, pode-se dizer que ele, Adorno, fazia o papel de anão zangado entre os escolásticos pensadores culturais daquela milenar cidade alemã.

Adornava, e adorna, por assim dizer e para não perder o hábito de trocadalhos do carilho com nomes e obras filosóficas (este blogue se batiza por um trocadilho, é vício que remonta aos ancestrais tempos da internet discada e do blogger.com.br), mas eu dizia que Adorno(a) a memória daqueles sujeitos que muito ponderavam o mundo, a sociedade e suas relações com os bens culturais. A Escola de Frankfurt foi um movimento filosófico que pensava a cultura na era da sua industrialização - fenômeno que começava naqueles doidos, e doídos, anos 1930. Foi quando, resumindo, a cultura passou a ser negócio, vendável e estrondosamente lucrativa. Em linhas gerais, os teóricos de Frankfurt são uma pedra angular na concepção da comunicação. Tertuliano, enfim, também é cultura.

(Vim a perceber isso muito tempo depois, mas o interessante da maioria dos cursos da área de Ciências Humanas é isso: te ensinam nulidades e bagatelas como essa sem as quais você viveria perfeitamente bem e feliz. Talvez, se lesse os livros percebesse e aprendesse por si mesmo. Mas o fato é que você se sente inteligente por saber coisas que não importam muito, não fazem a menor diferença e não resolvem nada).

Nos longínquos idos de 2004, que foi quando tomei meus rudimentos de conhecimento acerca das teorias do pensamento que norteiam as concepções presentes da comunicação e, portanto, também fiz minhas primeiras incursões acerca do filósofo tedesco, luminar destas sobreditas teorias, sempre a adorná-las com sua índole pessimista e carrancuda, pensava eu, sempre, como deveria ser complicado ser aluno do sujeito. Pelo teor, substância e desesperança das coisas que escrevia, devia ser, Adorno, um sujeito muito Teodoro. Sempre invoquei com o nome Teodoro. Nunca confie em alguém chamado Teodoro. Em qualquer idioma. Pessoas que se chamam Teodoro não sorriem.

Imaginava que levar um esporro do professor Adorno seria uma experiência assaz amarga. Afinal, munido de todos os traquejos argumentativos do filósofo, elevados exponencialmente pelas particularidades da língua germânica, tanto em inflexão e fonética, quanto em gramática e complexidade, Adorno devia saber como desmontar argumentos, egos, pessoas e ideias exemplarmente. Levem em consideração que nosso filósofo bávaro, e bravo, além de sobreviver ao nazismo, lecionava na Sorbonne em Paris no Maio de 1968...

(Momento wikitertuliano: Maio de 1968; movimento de rebeldia daquela geração que, muitos achavam, e ainda acham, garantiria liberdade às mulheres, mas o mais que fez foi lhes garantir o direito de se exibir tanto quanto os homens. Não me trucidem, ó leitoras: digo isso sem machismo, com ou sem Maio de 1968 mulheres são oprimidas mundo à fora, o que mudou é que podem fazer top-less no mundo dito livre, andar de mini-saia e frivolidades que tais, e antes não podiam. Para gáudio de nós, homens opressores, frise-se. Hum, você é mulher e discorda? Ora, as mulheres queimaram sutiãs como protesto contra a opressão, ainda que simbólico, mas não maridos ou executivos machistas. Pensen nisso, ou me processem).

... e sempre pensei como ele reagiu à primeira jovem de vergonhas expostas. Se o seu niilismo de quatro costados sobreviveu ao teste. O que terá ele dito pelos corredores da secular universidade francesa? Teria, em algum lapso, sentido falta dos tempos de disciplina do autoritarismo que o perseguia e a seus asseclas? Teria ele suspirado e dito: "ah, a nos tempos da Gestapo..."?

Outra coisa que me ficou na mente sobre Adorno foi seu pavor patológico relacionado ao Jazz, e eis que aqui vou regressando ao que, em princípio, era a ideia desse post: jazz. Gênero que o pensador alemão classificava como exemplo de "música rápida". E, acredite, você não quer ser clássificado de amante de música rápida por Adorno. É evidente que é uma questão de conceitos da época em que Dodô jogava no Andaraí, bairro frankfurtiano. Dodô é curruptela para o Theodor-Teodoro, nos tornamos íntimos de algumas pessoas ou entidades com muita facilidade, brasileiros que somos, e eis meu caso com Dodô. Dizia eu que o horror ao jazz votado por Dodô era da época, em virtude do que ele tinha a sua disposição para balizar seus pensamentos a respeito da cultura reprodutível.

E hoje, como se sabe, o jazz se tornou uma manifestação cultural altamente elitizada. Para horror das caveiras de Dodô que devem chacoalhar virulentamente onde quer que tenha sido sepultado - eu chuto Paris - sempre que o ritmo de origem afro é festejado neste mundo. É cult gostar e apreciar jazz. Sorte de Adorno que fosse ateu, do contrário sua alma vagaria por aí, se lamentando pela inversão de valores que, veja só, começou justamente no Maio de 1968, e que hoje nos faz selvagens embrutecidos escutadores de jazz. O que, claro, não quer dizer que jazz seja bom, necessariamente. Quer dizer, apenas, que o jazz é elitizado e, normalmente, ouvido e promovido por classes mais bem prevalecidas.

Penso que se vivo fosse, Adorno não se ocuparia desancando jazz e seus amantes. Ele gastaria seu fosfato com o sertanejo, o pop, pagode, axé e tantas outras manifestações que a contemporaneidade nos obriga a suportar. Rapaz, ele teria urticárias com música eletrônica, dessa feita em pc. Acho que ele gostaria de jazz se fossemos contemporâneos. Sobretudo se ouvisse Herbie Hancock. Não dá pra não gostar de Hancock. Ou Miles Davis.

Adorno era um sábio. Morreu antes das coisas piorarem muito. Em 1969, na onda de Woodstock e dos tempos loucos que seriam os anos 1970. No tempo dele ruim era o jazz.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Criatividade

O vídeo abaixo é uma peça publicitária da Olympus. Recebi a dica por email. Consta que foram batidas 60 mil fotos, das quais revelou-se 9600 para o filme. Dessas, 1800 foram utilizadas para compor o belo trabalho abaixo. O mais incrível é que trata-se de uma colagem, sem pós-produção alguma. Sensacional:

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Quando as coisas ficam sérias e saem do controle

Felipe Massa sofreu um grave acidente nos treinos para o Grande Prêmio da Hungria de F1 no sábado. Grave acidente porque a coisa de uns 280 km/h ele chocou-se com uma mola, que pesa umas 800 gramas, e que vinha na mesma direção, mas em sentido contrário - ou seria o inverso? - a uns 200 km/h. A referida mola acertou-o na altura do supercílio esquerdo e não precisa ser um gênio da física para calcular que o impacto não foi bonito.

Se você acompanhou ao vivo ao acidente deve ter testemunhado o clima de velório que tomou a transmissão. Sabe-se que o narrador, Galvão Bueno, é chegado às luzes da ribalta. Ele gosta de ser amigo de todo mundo. Direito dele, ninguém tem nada com isso. O problema é que a compulsão de Galvão - e isso vale como regra para basicamente todo o jornalismo esportivo da Globo, que é um grande oba-oba e não tem nada que se assemelhe com um jornalismo que cobra, fiscaliza e investiga - acaba prejudicando a informação em situações extremas, que fogem do comum do cotidiano esportivo. É o caso desse episódio. No momento do acidente saiu de cena o locutor e entrou o amigo pessoal. Saiu a informação e entrou o senso comum, o clichê.

O esporte é tratado na Globo de maneira infantil, rasa e descompromissada. De maneira pueril. Ninguém ali questiona o poder instituido, no caso, CBF, CBA, organização ridícula da Stock Car, federações de outros esportes, o Nuzman, o Ministério dos Esportes, o COB e por aí à fora. O jornalismo da Globo se contenta em chamar todo mundo de bobo, chutar pra baixo o nível da cobertura e se contentar com placares, ufanismos e bobagens do gênero.

É por isso que a cobertura do estado de saúde de Massa foi, em última análise, uma vergonha. Uma aula de como não ser profissional e, pior, competente. Nas primeiras 48 horas de internamento do piloto as notícias de outras fontes e de veículos internacionais davam conta da gravidade do quadro. Médicos da equipe do hospital hungaro falavam em risco de morte. A Globo preferiu entrevistar o Dr. Dino Altman, que foi do Brasil a Budapeste como consultor da família Massa, para arrancar dele que "acredito que, no momento, não há risco de morte eminente", para evitar o que se dizia àquele momento. A Globo fez de tudo pra ocultar a gravidade da coisa toda, o que é ridículo.

Ridículo porque não é um jogo onde você apela para o emocional das pessoas para que torçam e liguem a TV. O vício profissional de só cuidar do esporte em sua dimensão lúdica parece ter afetado a coordenação do departamento da emissora, porque o enfoque deixou de ser no fato de que o quadro era grave, falava-se em morte, possibilidade de sequelas, para estar centrado na "torcida", ou nas orações do Brasil, na família do piloto e no que um médico externo, o Dr. Altman, tinha a dizer. Ridículo, amador.

O interessante é que a Globo assumiu no caso uma postura de emissária de notícias unicamente alvissareiras, de querer "tranquilizar o torcedor brasileiro". Não tem que tranquilizar. Tem que veicular a verdade, doa a quem doer, seja ela qual for. Se o cara dá com a ideia numa mola em alta velocidade, tem o impacto presumido de 150 kg na cabeça em pentelhésimos de segundo, sofre afundamento craniano, precisa de cirurgia para remover fragmentos ósseos, é colocado em coma e, por fim, tem risco de morte presumido pela equipe que o atende, então a coisa é grave e não há como escapar disso.

O bom nisso tudo é que Massa vai melhorando, distante da palhaçada que se tornou a cobertura da sua convalescença em termos de incompetência de uma parte e sensacionalismo de outras da imprensa. E o jornalismo esportivo no Brasil, está tudo dito, realmente inexiste. É antes de tudo muito bom para todos e também muita sorte, mesmo, tendo em vista a gravidade do acidente, que a equipe médica tenha afastado o risco de morte hoje. Mas fico pensando: e se as coisas dessem realmente mal? Como que a Globo iria se justificar?

Diriam o quê? Ontem ele estava bem e, de uma hora pra outra, piorou?

Quer saber? Diriam. E todo mundo aceitaria.

domingo, 26 de julho de 2009

Rumo ao grunhido

Eu desdenho do Twitter porque acho uma bobagem desnecessária demais. E a vida é feita de bobagens, por isso tendo a dedicar o meu tempo àquelas que, ao menos, primam por não serem desnecessárias.

E José Saramago deu uma entrevista ao jornal O Globo. Sobre internet, blogues e outras bossas. Perguntaram ao lusitano, que tal é, essa coisa aí, meio assim, de Twitter. Se lhe apeteceria ter uma conta no serviço de microbobagem, digo... microblog. Disse Saramago:

"Nem sequer é para mim uma tentação de neófito. Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido".

O "grunhido" foi grifo meu. É impressionante. Eu me debato escrevendo, escrevendo, escrevendo e pensando no assunto. O português vai lá e, numa frase, diz o que eu queria.

Impressionante.

sábado, 18 de julho de 2009

Aprendendo a ser Gay

Impensável. Ao menos sempre foi assim que vi a possibilidade de, um dia, ter a chance de conhecer, ouvir, respirar do mesmo ar, conviver no mesmo espaço no mesmo tempo com Gay, de Gaetano, Talese - e isso aconteceu! Ontem, no MASP. O maior jornalista vivo, segundo minhas contas. Provavelmente o maior repórter de todos os tempos. Mas é uma generalização meio perigosa, porque parando para pensar, ao longo dos tempos, muita gente boa já se meteu a fazer jornalismo. E o fez bem. Talese entre esses.

Ponto, parentêsis. É, o homem é bom. Leiam. Fecha parentêsis.

Antes que metade dos meus 8 leitores que, desconfio via de regra, não são jornalistas - muito embora, hoje, segundo as equilibradas ponderações do
s homens togados, qualquer um possa se classificar como jornalista, tendo a crer que não estão por aí fazendo isso a torto e a direito - e resolvam abortar a leitura deste post por conta do caráter vocacionado do tema, saibam que o que faz de Gay Talese o mestre que é a sua capacidade de transformar o texto jornalístico interessante na medida que escreve-o como sendo ficção, só que de fatos reais. Há quem chame de literatura de não-ficção, de romance de realidade. Chamam também de jornalismo literário, doutrina defendida e amada por este que vos escreve. É, em suma, a junção de literatura e jornalismo. De um lado entram os recursos e aprumos estéticos próprios da arte e dos grandes ficcionistas, de outro o foco na verdade e naquilo que importa e pode fazer diferença que, em teoria, é perseguido pelo jornalista.

E quando tudo isso encontra uma mente como a de Talese o resultado é sucesso de crítica e de vendas. Talese é perfeito, um dos grandes escritores contemporâneos.

Iniciei este post para dizer que nunca tinha cogitado a oportunidade de vê-lo ao vivo. Pois eu vi. Ontem, numa palestra gratuita no MASP (cabem aqui mais parênteses remissivos, comecei esse post há mais de uma semana nas minhas peregrinações e por uma série de circunstâncias, só fui terminá-lo hoje). A distribuição dos ingressos
começava às 18:30, e às 15:30 já havia fila sob o vão livre do museu. Nas palavras de Talese sobre o Brasil, disse que ficou encantado com a FLIP (Festival de Literatura de Paraty, onde esteve), porque nunca tinha visto, nem mesmo em Nova Iorque onde reside, "tanta gente atrás de livros e autores. Falei para 700 pessoas, e fora outras acompanhavam tudo pelo telão".

Gay Talese tem uma especial atração pela pesso
a comum. Pelo ordinário, mas sua elegância no trato com a palavra escrita, sua facilidade para entender a dimensão da vida humana, do ser humano e seus caminhos, ideias e teimosias faz de cada personagem, e embora reais, os são de todo direito, uma aula sobre observação. Sobre humanidade mesmo, porque cada uma das centenas, milhares de pessoas talvez, que Talese entrevistou e esmiuçou em seus geniais trabalhos nos ensinam sempre um pouco mais sobre o humano, demasiado humano.

A primeira

Talese contou como foi sua primeira matéria para o The New York Times, em 1953, quando estreou como jornalista. Ele era então uma espécie de office-boy, do jornal. Mas, como ele mesmo mostra no seu "O Reino e o Poder", uma grande reportagem sobre a história do NYT, esse foi o primeiro passo na carreira de muitos grandes jornalistas norte-americanos do século passado.

Ele conta: "um dia na hora do meu almoço, andando vi um letreiro composto de milhares de lâmpadas. Era ali, na Times Square, onde o letreiro ficava mostrando as manchetes do dia. Aquilo me fascinou, fui até o prédio e entrei. Subi, e no final de uma escapa, no terceiro andar, vi um homem solitário com um controle na mão, manejando-o com os dedos. Fui até ele e perguntei o que fazia".

O homem compunha, com os dedos e anônimo - o anonimato é tudo na obra de Talese - as manchetes que fascinaram-o no exterior do prédio. "Perguntei a quanto tempo ele fazia aquilo, ele me disse que há 25 anos. Sua primeira manchete tinha sido sobre as eleições daquele ano, a vitória de Hoover, eleito então presidente. Pensei 'esse é um grande trabalho!', e perguntei se poderia escrever sobre ele. O homem disse que sim, ainda que não visse nada demais no que fazia e nem a possibilidade de alguém se interessar pelo seu trabalho. Tomei minhas notas".

Talese voltou ao trabalho. Depois do expediente emprestou uma máquina de escrever e compôs o texto, que foi mostrado a um repórter e a um editor. Gostaram. Publicaram, e o resto é hitória. Uma história recheada de talento, brilho, simplicidade e elegância.

"Temos como jornalistas que procurar a verdade. E defendo que o jornal deve trazer algo mais do que o relato objetivo. O texto, a palavra escrita, precisa de uma dimensão estética". Foi um sentimento de catarse ouvir isso, tenho uma história com professores recalcados que vomitavam precisamente o contrário na minha época de graduação.

"A internet é o fast-food da informação".

A lamentar: não pude tirar uma foto com ele. Ninguém poderia, evidentemente. E não consegui um autógrafo. Abonados que foram a Paraty, sim.

Inveja.

Leia mais aqui!

* Curiosidade: o bigorrilhas que assina este blogue aparece na segunda foto. De costas, mas está ali. Fotos retiradas deste álbum aqui do Flickr. As minhas ficaram horríveis.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Não precisa, mesmo, de diploma pra fazer isso

Eu voto um desprezo carnal extremamente violento e inconsolável, a ponto de dar com a cabeça nas paredes quando me deparo com o pássaro azul a gorjear. É asco ao twitter, tuíter, ou gorjar, conforme já tive o ensejo de demonstrar. E, por inconsolável, evidentemente, continuo eu muito feliz, sozinho é verdade, mas feliz em não fazer parte dessa grande bobagem.

E dia desses, em uma das minhas correrias, tive um tempinho para ler a home do UOL e estava lá: Marcelo Tas e Luciano Huck discutem pelo twitter, tuíter, ou gorjear. Finalmente! A revolução da comunicação, em 140 caracteres, a agilidade do admirável mundo novo, enfim, chegou de fato: dois egos se chocam, e não falta quem queira testemunhar o episódio. Seguir, dizem os neófitos.

Aí fica difícil aceitar a justificativa dos aceclas, esses também seguidores, do microblogue. Dizem eles que o serviço traz uma inaudita agilidade - pra quê? - à difusão de informação. Neste caso "A informação", digna de espaço no portal mais visitado da internet brasileira, é o ego, o confronto de vaidades, que vemos todos os dias na internet. No orkut, em blogues, no MSN. As pessoas gritam "olhem pra mim!", vejam como sou legal. Mas como é no tuíter, a nova onda, aí vale primeira página.

Marcelo Tas e Huck se degladiaram, sempre em 140 caracteres, descaracterizando levemente o até então tido como imortal ditado que nos dizia que, cronológicamente, a pena, a caneta, ou vá lá, a palavra, fere mais que a espada. Tenho pra mim que dependendo do tamanho da lâmina, 140 caracteres já não chegam para ferir, como faz o aço frio quando bem manejado. Bateram-se os dois num duelo de palavras, um dizendo que o outro forjava seus estratosféricos números e estatíticas de seguidores, que onde é que já se viu, fazer uma coisa dessas, querer vender aos demais que se têm mais popularidade do que realmente possui.

O mundo está cheio de gente besta. E isso não é propriamente uma novidade. A história da burrice humana inunda capítulos e capítulos da história da civilização e é um processo, um eterno retorno, sempre em constante evolução. A peleja de Tas e Huck é só mais uma pequena vírgula.

O problema, o busílis, é que o mundo sempre esteve cheio de gente besta, mas normalmente inofensiva. E o twitter, tuíter, gorjear, veio a armar os bestas de 140 caracteres, reputações ignóbeis, audiência vasta e passiva, vazio e uma falsa sensação de informação. O muito é pouco, diz o poeta. E o eterno retorno, enfim, é religião.

E não para - para de parar, estragaram o idioma, como se sabe, o que somado com tantos sinais, só pode ser sinal do apocalipse que nos bate à porta - por aí. A crise entre as duas celebridades vira notícia, manchete. É o suprassumo da fofoca. Vai para a primeira página do site mais lido da internet no Brasil, nos informar que, sim, somos todos vaidosos, implicitamente, evidentemente. O foco é sempre o factual, não o absurdo: Marcelo Tas e Huck brigam via tuíter porque... porque... porque um diz ter mais seguidores que o outro, maduros que são.

Dois pavões se exibindo, enfim, é notícia. E ainda me perguntam por que eu, jornalista de canudo nas mãos, sou contra o diploma. Por falta de argumentos. E se for buscar, vou acabar tropeçando nessas situações, que me dão argumentos para ser totalmente contra. Como defender o diploma de jornalista para fazer uma bobagem dessas? Se o critério de notícia é esse, ora, qualquer um faz. Jornalista não precisa, mesmo, de diploma. Precisa de juízo, mas é um artigo em falta e que rareia mais a cata "tuítada" da internet.

A vida num mundo onde tanta gente se arma de tuíters não vale à pena ser vivida.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Quem lê tanta notícia?

Eu tinha prometido a mim mesmo que não tocaria no assunto. Mas levando em consideração que não tenho absolutamente nenhum que preste no momento, não há muito que se fazer a respeito. Paciência.

Caiu, enfim, a obrigatoriedade do diploma para exercer a profissão de jornalista. Alguns conhecidos e familiares vieram me perguntar, em tom de choro, o que eu pensava. Eu disse, "não faz a menor diferença". Para alguns com quem sou mais informal, "tô cagando e andando".

Sejamos francos: o jornalismo no Brasil está longe, mas muito longe, de ser a profissão de glamour que as pessoas tendem a pensar. Para cada William Bonner por aí existem centenas, talvez milhares, de subempregados da mídia, para usar o termo de um amigo.

Em suma o jornalismo sempre foi uma profissão zoada. A diferença é que agora fica um pouco mais. Qualquer irresponsável pode pegar um microfone e dizer asneiras na TV, nas rádios, na internet que ele estará respaldado pelo fato de que o STF julgou desnecessária a formação acadêmica e humanista para exercer o jornalismo.

Só que parando para pensar, isso já acontece. Sempre aconteceu. Não precisamos ir muito longe, mesmo quem vive em grandes centros deve conhecer algum programa de "informação" que se especializa em distribuir senso comum, preconceitos e ignorância. Se nos embrenharmos no interiorzão desse nosso Brasil sem fim, meus amigos, é absurdo que não tem, também, fim algum. É cada uma que vou te contar...

Ou seja, a rigor, não muda muita coisa. Até porque nós jornalistas sofremos de uma fraqueza crônica no que concerne a organização da profissão - algo que até médicos e advogados sabem fazer - e que não é propriamente um defeito, mas é indício do porquê somos desvalorizados coletivamente como uma massa ignóbil, que ganha mal, mente e desmente conforme orientam os humores dos nem sempre bem intencionados veículos que nos contratam.

O que muda é que a profissão fica um pouco mais desvalorizada. Algo réles, comum, sem efeito, porque qualquer graduado em datilografia agora pode editar um veículo de comunicação que atinja uma grande massa. Mas no fundo, ainda que disparidades como essas aconteçam, não é o tipo de problema que nós, agora falando da sociedade como um todo, devemos nos preocupar tão gravemente.

E no fim das contas, algum deputado ou senador apresentará ainda um Projeto de Lei que nos qualifique novamente. Aí a lei tramita, eventualmente é aprovada, entram com recursos, outro coronél no STF julga inconstitucional e segue o cortejo. Insisto, meus caros, relaxem.

E para quem é jornalista, de currículo e outros que tais, e lê isso, ora, relaxa mais. Vá se preocupar com a defesa do São Paulo, com o meio de campo do Guarani, com a relação de causa e efeito no Universo, a finitude, nossa insignificância perante a vida. Os lugares onde sempre valeu à pena trabalhar continuarão exigindo - exigindo é a palavra - o diploma como ítem sine-qua-non na formação do sujeito que almeje o direito de trocar letras por aí.

E no mais, que seja, eu sempre fui partidário da tese de que "Jornalismo é muito legal, mas o que estraga são as aulas" - no tempo de faculdade. E é verdade. O que mais aprendi, e muito, na época de universidade foi numa mesa de bar, conversando com colegas sobre tudo um pouco, com um copo bem provido de cerveja. Eu não tenho vergonha de dizer que me graduei nos botecos, entre uma ou outra ressaca, e que o que aprendi de ética, juízo e equilíbrio, que hoje me têm levado tão bem pela profissão veio daí.

Não fui nenhum aluno notável no quesito notas. Mas lembro com bastante emoção o que foi sentir na pele um problema social ao ouvir de uma criança de rua que um amigo entrevistara: "o que você quer ser quando crescer? Quero ser como as pessoas que me ajudam, como vocês". Ou a tarde que passei numa construção, dividindo marmitas com pedreiros, tudo para uma reportagem da qual me orgulho muito. Ou a noite em que entrevistei um homem que se chamava Katia - mas eu não quero falar sobre isso. Essas coisas a gente carrega pra sempre.

E possuir essas referências é uma vantagem que eu e todos que já passaram pela Universidade cursando jornalismo temos. Ninguém nos tira. Nem o STF.