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sábado, 15 de abril de 2017

O ano da virada

O processo  de crescimento, sobretudo no caso masculino, é permeado por letargia, golpes do destino e a voz rouca de referenciais externos, que podem ser bem bizarros. Eu lembro de ter lido, e já vão alguns anos, uma frase de Nick Hornby em um de seus livros e que dizia algo no sentindo de que passamos a vida toda achando que crescer e amadurecer são processos automáticos e inevitáveis conforme o tempo passa. Um leva ao outro e você não tem poder nenhum para detê-los e controlá-los.

Aí Hornby conclui que, agora ele sabe, o processo está longe de ser assim porque, na verdade, o ato de amadurecer, de se transformar diante das situações da vida, tem mais a ver com escolhas, posturas e, sobretudo, situações. Crises diversas apresentam situações únicas para esse processo de crescimento pessoal e, por infrequentes na nossa vida, cabe a cada um de nós escolhermos se aproveitamos as aberturas do destino, ou não. Tenho impressão que a máxima se sustenta para boa parte da humanidade, embora o processo seja menos tumultuado entre as mulheres, que amadurecem antes e de forma mais saudável, o que faz de boa parte delas exímias mestras na arte da manipulação e da mágica da transferência de culpa. Descontadas, claro, as raras exceções de praxe.



"I used to believe, although I don't now, that growing and growing up are analogous, that both are inevitable and uncontrollable processes. Now it seems to me that growing up is governed by the will, that one can choose to become an adult, but only at given moments. These moments come along fairly infrequently-- during crises in relationships, for example, or when one has been given the chance to start afresh somewhere-- and one can ignore them or seize them".


Talvez eu discorde apenas do "tornar-se um adulto". Acredito que crescemos e evoluímos, de uma forma ou de outra, sempre em direção à pessoa que desejamos nos tornar, seja ela quem for, seja ela o somatório de uma porção de qualidades e potenciais, seja ela o resto de uma subtração orquestrada pelas circunstâncias da vida, que acabam nos tolhendo de algumas possibilidades, de algumas fortunas. O termo adulto, acho, acaba dando um contorno determinista a algo que é subjetivo: o perfil acabado de uma pessoa que se constrói ao longo do tempo, à luz das dificuldades da vida, fazendo as escolhas que tem de fazer para seguir em frente, mesmo durante as crises mais duras.

Crise, aliás, se não me falham os poucos conhecimentos etimológicos que eu nunca tive, tem origem na palavra grega para oportunidade. Parece bobajada de auto-ajuda, mas atravessar as portas que você pode abrir, ainda que a fórceps, em tempos de crise tende a render frutos: assim que passa o turbilhão de problemas e emoções à flor da pele, o tamanho dos dramas diminui aos seus olhos, enquanto crescem as suas perspectivas e a sua resiliência.

Há um outro caráter interessante sobre o processo de amadurecimento, ao menos na metade masculina da espécie humana, e que diz respeito aos referenciais externos: uma figura paterna, um ídolo, um livro, uma frase do Hornby que volta à memória, um amigo, um estranho, um arrazoado de Internet que mostra, na ponta do lápis, o quanto o tempo de vida que temos é escasso para dar conta dos nossos projetos, prazeres e para dividir com quem amamos, enfim, qualquer um ou algo que apareça com argumentos para colocar uma situação sobre um ângulo que você nunca explorou - porque provavelmente não sabia que ele estava lá - pode ter o mesmo efeito que você experimentaria na esteira de uma catástrofe pessoal. A partir do momento em que você enxerga a mensagem desse referencial, e se coloca nessa posição nova diante da vida, se dispõe a mudanças dramáticas de comportamento e se coloca nessa postura inflexível de quem vai chutar o balde. E é sempre bom chutar o balde.

Mas, no geral, as pessoas tendem mesmo a amadurecer na porrada, já que essa coisa do referencial externo depende de quanto você está disposto a ouvir outras pessoas, a abrir suas perspectivas. No meu caso, por exemplo, embora tenha colhido por aí a injusta fama de imaturo, as catarses foram todas na esteira de eventos decisivos nesse processo de construção da minha personalidade, todos relacionados com situações, e não referências: morte de meu pai muito cedo, desastre familiar e falhas e decepções amorosas e profissionais para as quais eu não estava preparado me fizeram muito melhor do que uma análise superficial tende a mostrar - tragédias e dores colossais não me abalam tanto: eu me compadeço do avião que cai com todo um time de futebol por pura negligência técnica, mas não posso dizer que fico de coração partido porque eu sei que perdas e mortes doem, e doem diferente para cada pessoa, para cada família e que, a seu tempo, todos teremos nossa vez com esse tipo de dor; uns antes, outros depois. O grande mal da morte é que ela é banal e não há espetáculo que mude essa realidade para quem a viu tão cedo e de jeitos tão marcantes, como foi o meu caso. Aprendi também a não esperar muito do amor e a desconfiar de quaisquer sentimentos que me fizessem enxergar o mundo cor-de-rosa - não porque os sentimentos sejam ruins em si, mas porque a realidade das coisas é sempre em tons de cinza - e ainda tenho comigo essa lição de forma eminentemente positiva.

Mas, atualmente, estou num curso novo desse processo de engrandecimento, ainda bem que ninguém precisou morrer para isso, que veio de uma mistura de porrada e referenciais, tudo num sincronismo bastante interessante e que me recoloca num caminho que eu havia deixado de trilhar já há alguns anos: o da busca.

Recentemente, por exemplo, experimentei inclusive o processo inverso ao das tragédias: felicidade como combustível para essa eterna construção do homem do amanhã. Ao me permitir amar, no ano passado, mudei algumas coisas e abandonei uma porção de lastro no processo (heranças malditas e não tão risonhas dos amores de antanho), tornando-me algo muito próximo daquilo que eu quero e preciso ser no momento: um tipo de trebuchet de razão, um aríete de decisão, uma alabarda de força e coragem, porque a vida está por aí esperando que nós a encaremos a 100%, e esperar não é saber. Nem sonhar: por anos, achei que sonhos eram inocentes e inofensivos - e, em geral, eles são - mas essas quimeras, se não controladas no reino dos sonhos, permeiam a realidade e nos colocam numa posição catatônica diante dos desafios e da exigências da vida. Você para de se arriscar, se confunde com o que é honesto esperar da realidade e deixa de buscar seus verdadeiros objetivos. Sonhar é importante, mas, como tudo na vida, precisa ser feito com parcimônia. O ponto é saber separar as coisas, sonhos de metas, e correr atrás das últimas, sem deixar de ter as primeiras.

Outro elemento no processo que me traz essa nova forma de ver a vida, nessa vontade de vencer, é um referencial externo: um aprofundado artigo de Internet mostra que o tempo de vida que temos restando é exíguo, que temos que aproveitar tudo ao máximo das nossas possibilidades. Especialmente a companhia de quem amamos e os prazeres que nos deixam felizes. Não há tempo a se perder. Essa soma de clareza proporcionada por aceitar meus sentimentos, de se permitir à felicidade, de buscar ajuda para me compreender pela ação de uma psicóloga, de me encontrar com a conta fria e indiscutível da escassez do tempo que me sobra e às injustiças gerais do fim de um relacionamento são as molas que me empurraram para esse novo estado de consciência, essa perspectiva sobre quem eu sou, sobre o que eu quero e o que eu preciso fazer.

Os prognósticos são bons, a continuar galgando os degraus dessa curva ascendente iniciada por, quem diria, o poder transformador do amor que, agora eu sei, é um tremendo agente galvanizador de mudança para o bem. O ano de 2017, o primeiro do resto da minha vida, me parece, ainda promete bastante. Descobri, um pouco surpreso, que há uma grande paz de espírito a ser encontrada no reexame das suas prioridades, na definição de metas (lição esmagadora desse jovem ano para parar de sonhar e passar a planejar) e na busca por objetivos maiores e realmente dignificantes são a minha inusitada promessa não de ano novo, mas de vida nova. Todos objetivos que enfoquem o que realmente é importante porque não há mais tempo a se perder. Cansei de reclamar, cansei de esperar, cansei de não fazer nada e dizer que nada dá certo. É o fim do derrotismo.

As mudanças são até palpáveis. Auto-estima também entra na conta porque me sinto bem comigo, tenho feito de 50 a 60 quilômetros de caminhada por semana, perdido peso, me exercitado. Eu, basicamente, me sinto o polímata que sempre esperei que seria, quando tinha lá meus 17 anos, e começavam a esbranquiçar os cabelos que nunca antes tinha pintado.

Depois de muitos anos, eu posso dizer que tenho um plano. Tenho ideias, saídas, soluções e estou inclusive preparado para as contingências da vida porque o que o homem põe, o elusivo altíssimo dispõe, a dar-se fé nos antigos ditados. Mudança de área profissional em curso, viagens, trilhas, novos rumos, cidade nova para morar, tudo são infinitas possibilidades, acenando com perspectivas do futuro que me acostumei a esperar sentado nos últimos anos. Foda-se a espera, porque agora eu vou atrás das coisas, das metas, dos objetivos, não dos sonhos.

Amadurece-se em algumas semanas, só por que é ano novo? Não. É um processo de transformação, de conquista, de afirmação, e eu venho subindo esse escada há alguns meses. O que pode acontecer, se você se der conta das coisas que está encarando, das transformações que está alimentando, é essa sensação gostosa de poder, de capacidade de orientar o próprio rumo e de acelerar um processo de crescimento que só tende a potencializar essas coisas boas na vida. Sempre subestimei a capacidade de uma mudança de ano - evento aleatório e sem sentido na grande escala das coisas cósmicas - em propiciar a mudança e abrir portas para o novo e hoje me sinto feliz em reconhecer que estava enganado. Proposições de ano novo nunca me pareceram tão atingíveis e certeiras.

Revigorado, estou decidido a fazer e não mais esperar. Como dizia a canção, "eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar e não posso ficar aí parado".

domingo, 12 de março de 2017

Mangas, cachorros e lições

Numa das minhas andanças recentes, cortei um pedaço de mata porque o dia já ia avançado e eu precisava de civilização, de café e, mais importante de tudo, de uma estrada, porque a bateria do celular ia se acabar e eu, explorador de apartamento, não tinha bússola e dependia do GPS para não errar o rumo e acabar andando muito mais que o necessário. Esmagava a relva, essa coisa indizível que são anos e anos de folhas em decomposição, resto de vida, troncos de árvore que se esfacelam ao toque da mão, matéria, lama, terra, pedra, sedimentos, ninhos, cascas, o testemunho indisputável da segunda lei da termodinâmica, aquela da entropia, que explica porque crescemos, porque morremos, porque nada volta a ser como era, porque, dando tempo necessário, tudo mais se confunde num emaranhado de coisas desfeitas, de mistura, de energia transformada, de matéria decrépita, de fracassos e vitórias, porque a ciência da física também sabe ser poética, é tudo uma questão de saber como lê-la. E seguia, inabalável e inexorável, como um transatlântico sem freio, sem controle, indo de encontro ao cais, que todo cais é uma saudade de pedra, arrebentar-se na amurada, subir a terra, trilhar no meio de todos esses sedimentos o meu caminho, com essa quilha de aço, que é firme, que é sobre o que se lança e se constrói todo navio que, altaneiro e ambicioso como eu, tenciona, um dia, singrar as águas desse e de todos os outros oceanos, que são muitos, que são grandes, que nos levam, há vezes em que nos trazem, que nos buscam. E que, não cuidando, nos afogam. Como votava a todos os diabos a perspectiva de precisar tentar, eu disse tentar, me orientar com ajuda da posição do sol e outras aleatoriedades cósmicas, porque se navio sou, sou de eras mais recentes, todo dependente da cobertura dos insuspeitos satélites, esses que lá dos céus, enfim, nos dizem de onde viemos, para onde vamos e quando por lá chegaremos, está visto aí que o elusivo deus existia, era tudo uma questão de, de fato, inventá-lo e de enfim manda-lo à órbita, porque não há espaço na superfície desse mundo para mais um deus, tanto mais um que seja de verdade. No meio dessas e de outras considerações, estava claro que era preciso estabelecer alguma forma de contato com outras pessoas, e quem sabe, eu disse quem sabe, garantir uma xícara de café. Não que a situação fosse assim tão desesperada, o interior do Paraná é densamente povoado, não estou no Saara, que se estivesse, a verdade é que o café tenderia a ser desse tipo árabe, que afiançam os entendidos, é mais saboroso. Mas no Saara é difícil dar com os beduínos e deles arrancar algum café, então nos contentemos com o café inferior, mas mais certeiro, que se encontra nas casas do Paraná. Acima de tudo, mais do que a necessidade de rumo e de café, aborrecia-me a ideia de ter de acampar naquele dia, cansado e despojado que ia dos instrumentos e acepipes necessários, e, pior de tudo, sem café, com o cantil seco de água como, aliás, também ia a garganta. Decidido, portanto, mudei o rumo e fui em direção a uma clareira que tinha avistado uma hora antes, que lá do cume me parecia tão perdida no meio da mata e que, como se verá adiante, julguei corretamente como local de algum traço civilizatório que persiste em meio às bracatingas e araucárias.

Fui parar num campo, que fazia parte de uma pequena propriedade que, depois fiquei sabendo, fora um dia uma fazenda enorme, dissolvida ao longo das décadas e das gerações. À distância, ficava uma casinha que me parecia tão familiar e que já vira dias melhores, familiar pelo estilo da construção, não que tenha eu por ela passado antes, mas é o caso de ver algo que já vimos antes, é bater os olhos sobre curvas, paisagens, sobre estradas e monumentos, aquela sensação de que quem já viu uma coisa, já viu todas, porque não há muita margem de manobra pela qual a capacidade humana de edificar possa surpreender, as casas variam em tamanho, idade, acabamento e cores, mas no geral, são feitas das mesmas coisas que sempre foram feitas, têm as mesmas janelas, as portas, os vidros, os móveis e as pessoas, justiça seja feita, também não variam tanto assim. Uma casa, por exótica que seja, é análoga direta à sua próxima e é por isso que faz sentido chamar a ambas de casas, porque se fossem extremamente diferentes entre si, teríamos de encontrar outros nomes para dar conta de todas. A casinha em questão não fazia jus ao diminutivo, porque o ângulo pelo qual a desvendei pela mata a desfavorecia, fazia parecer menor, porque me mostrava apelas a perna menor do “L” que a sua forma tomaria, se vista do céu pelas divindades que operam os GPSs. Pela localização em terra rica de colonos poloneses e ucranianos, pelos traços ornamentais recorrentes dos trabalhos em madeira de procedência das escolas estéticas dessas duas pátrias eslavas, já calculava que o sangue que moldara aquela morada tinha muito em comum comigo, com o que pulsa, quente e vivo, pelas minhas e veias, com o que besunta as minhas engrenagens, empurra a massa violenta das minhas vontades, esse que me inspira. A casa já vira momentos mais gloriosos, o descuido e os anos de vida se denunciavam com facilidade no desgaste amargo da precariedade das coisas submetidas à marcha irredutível e obcecada do tempo, tudo isso se fazia cada vez mais evidente pelo recibo dessas coisas impresso na madeira, que eu divisava com cada vez maior riqueza de detalhes conforme avançava a marcha. Os detalhes, as feridas, as cicatrizes, os talhos e rachaduras, casca morrida da vida passada dessa casa dá o que pensar e me permite arriscar dizer que está em pé há mais de 80 anos, vê-se claramente nos adereços à borda das calhas o corte eslavo nos lambrequins, que também não proíbem a morada de ter sido erguida por italianos, povo que também deu esse tipo de acabamento às suas moradas brasileiras, mas rareiam as colônias italianas por esses lados e o coração, esse meu coração de sístoles e diástoles contatas à cavalos-vapor, que empurra o óleo vermelho viscoso da minha vontade, que enxerga tudo a seu jeito, já decidiu que a casa é eslava, que é ucraniana, gosta de pirogue, de charuto e que lembra com carinho de quando, em meio às suas paredes, falavam ucraniano, quando alguém ali lia o jornal da colônia, todo escrito no alfabeto cirílico, aquele normalmente associado aos russos, mas também usado por outras nacionalidades eslavas, e que tem por curiosidade maior o fato de ter 33 letras. Aos disparates do coração, vem em socorro a mente, que chama a atenção para a armação das janelas, que é decididamente antiga, mas nada ali garante a origem da morada, a pintura lascada deixa enxergar outras cores, outras épocas, o encardido de onde a madeira era branca, nas janelas e molduras das portas, denuncia o pouco cuidado com que a casinha, decididamente de sangue e motivos eslavos que cantam mais fundo nesse meu coração que comunga do sangue desses ortodoxos em favor das cantigas italianas, vem recebendo pela melhor parte da sua vida.

Mas não fora para julgar a qualidade da morada, tampouco o desvelo dos seus moradores, que me dirigia à porta francamente aberta naquele fim de tarde. Havia fumaça na chaminé, com certeza um fogão à lenha reina soberano na cozinha, deixando água e bule aquecidos para o café da tarde. Eu já projetava que me ofereceriam um café porque estava morrendo de vontade de um e, de fato, bastou que escalasse os dois degraus de cimento que endereçam o visitante à soleira da porta dos fundos, que escancarada leva à cozinha, dissesse o gentil e solene “ô de casa”, que herdei das vezes em que fazia passeios semelhantes com meu pai e que ele sempre usava para abordar lares de pessoas simples e desconhecidas, para sentir o cheiro inconfundível do café fresco. O uso da frase, aliás dita e não respondida, a não ser pelos latidos e corrida preocupante de seu emissor ao meu encontro, carreira que me pôs em situação de alerta, se dilataram as pupilas e se inundou o coração de adrenalina, me vi ferozmente estático naquela soleira, enquanto a reminiscência de meu pai me trouxe imediatamente a recordação de outra caminhada, dessa vez não assolada por sede de café, mas por fome de proporções etíopes, adjetivo dito aqui sem a tenção de dizer que cheguei à beira de morrer de fome um dia, e que também não denuncia qualquer forma de desrespeito do autor para com as penúrias encaradas por esse, e tantos outros, povo africano, que fome é doída, e, embora me compadeça da miséria que suportam os etíopes, empresto de seu suplício apenas um adjetivo, não um juízo de valor. Na caminhada da fome de proporções bíblicas, que se é para ofender alguém, que seja o deus que se esqueceu de existir, abrindo espaço para as divindades satélite, caminhamos meu pai e eu aos estertores do que nós conhecíamos por fome, e que fomos nos contentar em comer uns pães duros, sobrados numa choupana, provavelmente esteio de pescadores sazonais à beira das lagoas que o Iguaçu que, nas estações favoráveis do ano, enche generoso para deleite da pesca preguiçosa, que junta peixes com as mãos nos acúmulos de água formado pelos transbordes do rio nessas épocas. Pães ressecados e seguramente insalubres que, no entanto, devoramos os dois com os narizes, a dentadas vigorosas que, imagino, dariam cabo de pedaços de madeira na falta daqueles pães velhos e petrificados, tamanha era a fome. Bons maus tempos que, me apercebo agora, estou reeditando solitariamente. O cão, que dá testemunho do velho dito de que, quem ladra, não morde, apenas se avizinhou, ressabiado e alerta, das minhas pernas, cheirou, mediu, calculou e se conformou com a minha invasão.

Na morada, me encontrei com Miguel e Rosa, casal que soma 45 anos de união e que nunca, em toda vida, encontrou razão para sair do município, algo que não chega a propriamente me surpreender. Talvez exceto pela saúde, porque é comum que a gente que vive isolada no interior recorra às cidades maiores para tratar-se, sobretudo na terceira idade, de sorte que me admira o casal não ter seguido a moda. Aposentados sob as bem folgadas leis que regem o negócio da aposentadoria rural, que no entanto não se verificam em forma proporcional no que tange à quantidade de dinheiro legada a quem assim se desobriga do trabalho remunerado, o casal vive do que planta, das galinhas que rareiam no galinheiro, de um ou outro porco comprado de vez em quando para engorda e abate, outra deliciosa referência que me lembra a minha avó, que falava ucraniano comigo, e que eu ia correndo visitar umas quatro vezes por dia, até que um dia ela teve um derrame, faleceu, e a infância nunca foi a mesma, porque a vó Ana era doce, a vó Ana era incrível, a vó Ana era uma força da natureza. A compra e abate dos porcos é uma oportunidade que ocorre normalmente atrelada a datas santas, quando convidam os filhos e netos todos para tomarem parte da festança. Do contrário, vão todos comungar das penitências e folgas nas deliciosas festas de igreja, que descontados os aborrecidos e inúteis ritos religiosos, todos dedicados ao elusivo altíssimo, que nunca, ao contrário dos santos dos GPS, disse uma palavra sobre para onde vou, são uma das grandes delícias ignoradas do interior paranaense.

Miguel quis saber quem eu era, o nome da minha família, o que fazia da vida e porque fora parar ali, parecia tão cansado, se tinha andado muito e, enfim, por que o tinha feito, sendo que a chave do carro, dependurada numa das alcinhas que suportam o sinto da bermuda, denunciavam que eu tinha meios de locomoção mais ágeis, confortáveis e menos cansativos que as minhas pernas para ir chegar até lá. Dei a todas as perguntas respostas sinceras e corretas, mas, em proteção a interesses meus, me vi forçado a omitir minhas razões para o passeio. Miguel não pareceu ter-se apercebido da estratégia e me deu a impressão de ser um daqueles sujeitos em quem se confia instintivamente e que simplesmente esperam o melhor dos outros, mesmo se eles forem estranhos, se dispuserem a andar quilômetros no meio do mato, mesmo que possuam automóveis a seus serviços.

O café não veio, mas eu não me importei, porque me engajei numa conversa interessante com o morador, de fácil conversa. De pele escurecida de sol, olhos castanhos, nenhum sinal de calvície e grande profusão de rugas, Miguel era magro e me explicava que trabalha bastante ainda, seja na propriedade, seja na de vizinhos e na de um dos filhos, que mora mais adiante, coisa de 12 quilômetros, seguindo a estradinha no sentido da serra, que ele garante, em tempo limpo, que não é o caso desse dia cinza, se avizinha vasta e calma, no horizonte, quase a abraçar a casa, porque os morros aqui fazem curvas. Falamos muito sobre a região, sobre os vizinhos, sobre as paisagens, os rios, cachoeiras e cavernas da área que, ainda bem, ninguém conhece. Miguel tentava torcer a conversa para o campo, as lavouras, a produtividade, as dificuldades, problemas de mão-de-obra, da vadiagem da juventude, que nas contas dele, não quer mais suar debaixo de sol e com enxada às mãos. Não pude, entretanto, amadurecer esses tópicos porque não conheço rigorosamente nada da vida do campo. Quando o assunto era as belezas da região, tive cuidado de não deixar transparecer meu entusiasmo porque minhas peregrinações por esses rincões têm como objetivo sondar a área, ensaio comprar uma propriedade por ali e gosto de conhecer tudo no entorno. Não quis que Miguel soubesse porque me preocupo que as minhas inclinações, sendo conhecidas pelos proprietários, acabarem influenciando os preços. De mais a mais, é inevitável, que nas minhas caminhadas acabe invadindo inadvertidamente uma porção de propriedades e não quero que circule por aí a informação de que um moço da cidade, que o cabelo não é mais grisalho, anda por aí.

A conversa ia tão boa e Miguel é um senhor de tão fácil diálogo que não dei por mim, e o tempo, esse que sempre passa por não saber fazer outra coisa, fez chegar a noite. A troca de horário, apenas há poucas horas, havia me pego desprevenido e, no meio do escuro, não poderia regressar ao mirante. Sem precisar dizer um ai, pedir nada e tocar no assunto, a dona Rosa me fez lembrar que há quartos de sobra na casa, que ao contrário do que o ângulo em que vira o casarão pela primeira vez quando da minha chegada, é grande e que todos os três quartos que, hoje, sobejam foram dos filhos do casal em algum momento. Ainda antes de Miguel e Rosa comprarem a área quando recém-casados, a casa já estava em pé porque fora morada de uma fazenda, antes bem maior, mas que foi sendo engolida pela necessidade de gerações e gerações de descendentes de seus fundadores em repartir heranças, apaziguar brigas de famílias e dar ao termo êxodo rural o sentido que tem.

Gastamos as poucas horas da noite em que o casal idoso se dispõe a ficar em pé conversando mais, dessa vez sobre o passado. Rosa, percebi cedo, não tinha muito assunto para dividir comigo, embora eu tenha lhe perguntado sobre a comida da janta, um caldo de mandioca realmente saboroso, ensejo de dividir seus truques de cozinha e de tempero que, aparentemente, lhe deram enorme prazer. Mais tarde, na sala de estar, repleta de imagens de santos, um pequeno armário à janela e uma mesinha em que repousa um televisor de 20 polegadas que deve contar seguramente mais de 25 anos, as conversas foram amainadas porque a rotina televisiva do casal estava em plena marcha: Silvio Santos, aquele Fantástico genérico da Record e as intermináveis novenas, rezas e similares da Rede Vida que o deus inexistente gosta de se fazer lembrado e, aparentemente, me castiga porque descobri da sua farsa, e atinei com seus verdadeiros adversários, os GPS, a divindade feminina, que ao meu ouvido, diz para onde devo ir, quanto tempo vou levar para chegar, como devo proceder para chegar ao meu destino da forma mais rápida. Ao sinal de que iam os meus anfitriões dormir, não eram ainda onze horas, pedi licença para me retirar, tomei um banho e fui descansar no quarto que me fora designado.

Dormi um pouco mal, não nego de forma alguma, eu tenho certa dificuldade em me acostumar com lugares estranhos para dormir e sofro miseravelmente para descansar no calor. E por ter dormido mal, acabei levantando cedo demais, não era 5h30 da manhã, quando abri a porta do quarto, depois de um bom tempo acordado olhando para o escuro, cheguei à sala coberta de imagens de santos. Deixei, aos pés de nossa senhora porque a jovem fé do GPS e do santo sacro satélite ainda é imberbe demais para recrutar suas santidades, cinquenta reais como forma minha de dizer que apreciara a gentileza da acolhida, da sopa à noite, da conversa, da singeleza e gentil hospitalidade de quem não espera o mal nas pessoas. Não escondo que ir embora assim é incompatível com a acolhida, mas confesso que, completamente desperto e sem sono, me entediava profundamente e me angustiava esperar o casal se levantar para poder ir embora. Em direção à porta, me dei conta de que teria de destrancá-la e que não poderia trancá-la novamente do lado de fora, o que me fez hesitar: o cão que vira ontem, embora animado a latir a plenos pulmões, e a correr ao meu encontro de forma agressiva, não me parecia guarda suficiente para guarnecer a segurança do casal, já que depois da desabalada carreira, chegou-se aos meus pés, e antes de rosnar e interrogar de forma agressiva minhas intenções, simplesmente abanou o rabo e me pareceu, como outros cães que conheci, me olhar como quem sugere para irmos brincar de eu atirar coisas para que ele fosse busca-las: o bicho era pacífico, curioso, brincalhão e cheio de energia e nada na sua expressão me impunha o respeito que se deve ter para com um guarda - mas, quem sou eu para julgar as disposições do bicho, que pode apenas ter se afeiçoado à minha pessoa, que talvez toda essa simpatia esconda um aspirante à lobo, sanguinário, violento e vingativo, sedento de sangue e de presas afiadas a ameaçar intrusos? Estou longe de ser especialista em cães, à verdade, na vida, conheci três, mas gosto de pensar que com esses me entendi, que uma delas até me chamava para ir latir no gradio de outra casa e de outra vida, ou ao menos era assim que eu lhe interpretava, porque ela vinha me buscar, ia até a beira da grade, latia, e em seguida, me olhava como quem convida - nunca tive a coragem, ou a atenção, de lhe fazer essa vontade. No fim desse raciocínio, estava eu em pé diante da porta que, percebi, não apenas estava destrancada, como entreaberta. Ou o povo da roça, de fato, madruga de verdade, ou o casal se esqueceu de fechá-la. A porta aberta me deu o ensejo de fuga porque poderia fechá-la e arquitetar um plano: antes de sair e trancar a porta, abriria uma janela porque não só flagrara a inexistência de deus, como provaria a ele que sou ainda melhor, que vou abrir uma porta e uma janela. De fora, com a porta trancada, poderia colocar a chave tranquilamente sobre um balcão que repousa perto da janela e abriga a imagem da santa, guardiã dos cinquenta reais. Com a chave devolvida, é possível fechar, do lado de fora, janela e venezianas.

Pelo sim, pelo não, o descuido ou vestígio de que a segunda-feira nasce mais cedo no interior, foi a porta aberta que acabou me encorajando a sair e dar continuidade à minha fuga vespertina. Na saída, o dia já fazia alguma luz, e eu podia enxergar a estradinha por onde cortaria caminho, porque para andar pelo mato teria que esperar mais uma hora, e aí o casal estaria de fato acordado, e eu não gosto de despedidas, e não queria vê-los constrangidos, recusando o dinheiro que sei que será bem gasto e que, presumo, faria falta. A estradinha era, então, o melhor rumo para tomar em direção ao mirante onde deixara o carro, estacionado protegido no abrigo amplo e generoso do posto de gasolina, que vinha se tornando esteio das minhas andanças. Rematado leitor de thrillers de espionagem, sabia muito bem que minha frequência na região acabaria levantando suspeitas e, sem recurso, precisei abrir o jogo com o dono do estabelecimento: sou da cidade, gosto de mato, lembro de visitar a região tantas e tantas vezes quando era criança, penso em comprar uma propriedade por esses lados, talvez em breve, e estou investigando o lugar para saber se vem a calhar que o faça, quem sabe o senhor não teria algum endereço para me recomendar? Não no momento? Mas não tem problema, peço-lhe que seja discreto, no entanto, não quero influenciar a cotação do alqueire. E fique descansado, que quando for fazer uso do posto para guardar o carro, terei sempre o cuidado de avisá-lo e, escusado dizê-lo, pagá-lo pelo incomodo. Como se vê, quando fico com preguiça de carregar mochila, barraca e outros apetrechos que tais pelas minhas andanças, as excursões ficam bem mais caras: há o custo que me imponho pelo abrigo e o da segurança do carro.

Mas antes de chegar ao posto, uns 10 quilômetros de caminhada me esperavam. E antes de todos eles, vinham todos os metros que me separavam da propriedade e da estradinha. Livre da soleira da porta, e fazendo força para erguer a porta que, oprimida pela construção em madeira que vai vergando e sofrendo a ação do próprio peso e arranha o assoalho num urro medonho toda vez que gira nos engonços, me assaltou a preocupação da fome no percurso. Tomava todas as precauções para não denunciar minha fuga quando me peguei sobressaltado: e o cachorro?

Iria dar escândalo? Rosnar, me atacar, morder minhas canelas? Me fazer correr?

Como que para responder ao meu susto, o bicho que, dizem, pode farejar o medo, se achegou perto e começou a me cheirar, curioso e entretido. Não latiu, não rosnou, não lambeu, apenas ficou ao meu lado, olhando instigado e interessado. Para selar a paz promissora dessa abordagem discreta, lhe acariciei a cabeça e senti o calor oleoso da sua pelagem cinzenta. Estávamos os dois em paz e nosso contrato selado: não vamos acordar ninguém, que ainda é cedo demais e hoje é segunda-feira. Deixemos que durmam aqueles dois.

O cachorro, que não tive oportunidade de conhecer por nome até o momento, foi me seguindo conforme eu caminhava. Não sei se seu interesse era me escoltar ou, talvez, certificar-se de que eu estava mesmo indo embora, que não provocaria nenhum dano na casa. No percurso pelo carreiro que levava à porteira, guarnecida de um mata-burro, engenho definitivamente brasileiro e que eu não via há mais de 20 anos, me deparei com uma frondosa e carregada mangueira.

Dez quilômetros de caminhada se avizinhavam e minha garrafinha de água ia cheia, mas teria fome, e munido de canivete, decidi-me a furtar uma manga, que Miguel e Rosa me perdoariam a folga, tanto mais porque 50 reais davam-me o direito de abusar assim da boa vontade dos meus anfitriões, que a árvore vai carregada dessas frutas, é impossível que os dois velhinhos tenham apetite para tanta manga, ainda que vivam de geleias, sucos e tortas feitas da fruta, vai sobrar muita manga a apodrecer no chão. E na hipótese improvável de que colham a fruta e façam dela comércio, e digo improvável porque aí dificilmente o incomodo de trepar na árvore nessa idade se justifica, é só uma mangueira, e uma só mangueira vai gerar faturamento baixo demais para pagar o esforço e o risco, que quedas na terceira idade abreviam a vida do acidentado; mas, em todo caso, admitindo que Miguel guarde agilidade e firmeza de sobra para escalar a árvore e capturar as frutas para vende-las, podemos ficar tranquilos, para isso me sobejam os cinquenta reais confiados à guarda sagrada da nossa senhora ainda há pouco, que pagam bem essa minha fome futura de manga e, de certa forma, espero, indenizam a falta de educação e a tamanha liberalidade com que me decidi ao crime de tirar proveito daquilo que não pedira a ninguém. No fundo, nós somos capazes de justificar e racionalizar tudo, até mesmo o furto de uma manga.

Encontrei uma taquara feita para apoiar o varal e, munido dela, comecei a escalar a árvore para buscar a manga que sorveria no percurso em direção ao posto de gasolina. No lusco-fusco da manhã que chega com preguiça, subir aquela árvore foi algo trabalhoso, tanto mais que precisava levar comigo a vara e encontrar onde apoia-la sempre que galgava outro galho, ia em busca de patamar mais elevado, tentando no escuro quase total criado pela cobertura de folhas e galhos, divisar onde estavam as melhores mangas. Aos pés da árvore, intrigado, meu companheiro canino se deitara e, de vez em quando, dirigia olhares interessados para onde eu estava.

Enquanto escalava o melhor que podia as nodosas e umedecidas galhadas da árvore, o dia foi se amanhecendo. Não percebi os humores da casa que ganhava vida, da fumaça que se animara em escapar novamente pela chaminé, nos ruídos da madeira que estala sob o peso da morada que desperta para mais um dia. Só me denunciara o avanço da manhã a descoberta de que meu cúmplice canino fora, a trote acelerado, abanar o rabo com sofreguidão à porta da cozinha da casa, porque ouvem todo um universo de sons, vozes e ânimos os cães, fora para a porta onde certamente se planta todos os dias para esperar o primeiro contato com o casal com que divide seus dias. Feijão, faltou dizer que era Feijão o nome do cachorro, que embora cinza na idade adulta, nascera preto e com uma massa de pelos brancos na barriga, igualzinho ao grão, ia bater ponto à porta toda manhã porque era nesse horário que ganhava o primeiro carinho e a primeira refeição. Miúdos de galinha e restos da ceia eram o seu desjejum e, de súbito, minhas aventuras sobre a árvore lhe desinteressavam olimpicamente. Aos cães, nada mais interessa que a comida.

Enfim, eu chegara a um galho torcido na horizontal, a meia altura da árvore, onde podia me sentar com segurança, enquanto manejava a vara feito lança para alcançar a manga perfeita que, agora, na luz do amanhecer, seria fácil de interrogar aos galhos da mangueira. Embora a risco de ser surpreendido pelo casal a qualquer instante, decidi arcar com a vergonha de ter de me explicar por ser fujão e ladrão de frutas, porque me desanimava ser flagrado em processo de descida da árvore, me acabrunhava ter de me explicar e ainda dizer que desistira. Se vou precisar pedir desculpas e sustentar o olhar decepcionado dessa boa gente, que ao menos seja com uma manga nas mãos, que de fracassos eu ando farto, então para salvar esse de um falhanço total e esmagador, é preciso ir encarar a vergonha munido da manga. Justificamos e racionalizamos tudo, até mesmo os agravos. Com afinco, afastei folhas, olhei em todas as direções, mexi com as frutas interessantes e fui elegendo, uma a uma as minhas opções. Um quarto de hora depois, com o meticuloso exame realizado, me vi descoberto por Miguel, que acordara e terminara seu café, e dando por minha falta, viera, na companhia de Feijão, descobrir o que eu estava fazendo.

Miguel desejou-me bom dia, e se ficou incomodado com a minha indelicada tentativa de fuga na madrugada, dela não fez menção. Também não pareceu aborrecido com a liberdade que eu assumira de ir saquear sua mangueira e, com legítimo tom de curiosidade e surpresa na voz, veio, enfim, a questionar enquanto eu me contorcia e me desdobrava para me manter em pé, firme, e com força e mira suficientes para endereçar a ponta da vara onde queria, tudo parecia mais fácil antes de subir na árvore, agora me parecia que estava a um escorregão da queda, com risco potencializado por essa lança, que teria facilidade em me atravessar o abdômen, que forma estúpida de morrer, longe de tudo e de todos, roubando manga, aos 32 anos de idade: “mas o que o moço está fazendo aí em cima, a perigo de cair no chão, de se escorregar enquanto se equilibra e segura essa vara?” Expliquei que tinha me preparado para ir embora, mas que vi tantas mangas na árvore que decidira tomar uma para a caminhada.

- Sim, isso eu entendi, mas por quê?

- Para o caso de ter fome e são tantas, e tão maduras, na árvore.

- Mas... moço, elas caem sozinhas.

Ao chão, bastava olhar para o outro lado, o rosa das frutas ao pé das raízes da mangueira pontilhava as nesgas de grama e a terra.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Eis o homem

Há pessoas na nossa vida, você provavelmente conhece alguém, que parecem ter tudo, sempre, na mão: elas são centradas, otimistas, tudo dá certo, sempre parecem se sair muito bem de qualquer problema. As coisas que mais te assombram e confundem, como amor, relacionamento, futuro, dinheiro e família, elas resolveram há décadas com naturalidade, tirando de letra. São rolos compressores de afirmação e sucesso e, em quem se tropeça buscando esse nível de acerto, são motivos de inveja.

Claro, nem tudo é simples. A maioria dessas pessoas sofreu, chorou, quebrou a cara, se decepcionou, errou, voltou atrás, pediu desculpas, foi injustiçada, praticou injustiças, quebrou corações e teve o seu partido diversas vezes. Algumas, apesar das aparências, são infelizes e tão confusas e problemáticas quanto o seu próximo. Mas a gente gosta de olhar sempre para os resultados e abstrair as dificuldades que não enxergamos de longe, daí a impressão de que elas são invencíveis.

Mas, querendo ou não, justamente por esses resultados alvissareiros, essas são as pessoas que devem ter algum truque secreto na manga, certo? Alguma milenar prática oriental que as faz sempre saber o que fazer, não importa o tamanho do problema. Elas assumem, aos seus olhos, esses contornos de oráculo mágico idealizado de sucesso a quem você sempre admira, se perguntando se um dia teria como beber dessa sabedoria e tirar dali as informações necessárias para ser você também um caso de sucesso de provocar inveja em todos.

Aí você se encontra numa encruzilhada da vida, não sabe direito que caminho tomar, e resolve consultar essas pessoas-oráculos. Expor um pouco das suas dificuldades para vislumbrar o que essa gente mágica faria no seu lugar, o que escolheriam, como enfrentariam uma situação ruim, o que não fariam e etc.

E aí você fala com essas pessoas e, na verdade, percebe que nem sempre elas têm todas as respostas, que tudo o que você projeta nelas é só mais uma forma louca que a sua mente tem de reforçar os seus sonhos do que é felicidade para você. Mas, ainda que as conversas não sejam tão positivas como você presumia antes, se depara com uma porção de percepções e descobertas que, se por um lado te engrandecem, por outro, te diminuem. É difícil, por vezes, se ajustar com essa coisa sem nome que somos, que fica exposta quando nos examinamos, mostrando num mesmo enquadramento nossos maiores defeitos e nossas maiores qualidades:

O fato de você ser romântico e não ter medo dos seus sentimentos. A sua timidez. A insegurança que nunca existiu e apenas escondia problemas mais sérios. O medo de errar. O seu zelo sobre-humano a respeito dos seus valores. A vontade de proteger a todos à sua volta, bizarramente até de você mesmo. A sua ânsia para ocultar (puta que pariu! Agora você sabe!) a depressão masculina que te estragou anos de vida sem diagnóstico, a bonita história de combate inadvertido à depressão por meio do amor, a fraqueza da irascibilidade, o fato de que você não tem nada de perfeccionista, mas sim de um tirano crítico de si mesmo desde os 7 anos de idade; a confusão entre sonhos e metas, a falta de decisão. O fato de considerar o amor como precioso demais. Até que ponto seus erros são imaturidade, até que ponto eram vergonha de estar deprimido. A tendência a não enxergar falhas onde elas existem. O fato de que você caiu de pé mesmo quando vítima de situações impossíveis na adolescência e acabou se esquecendo de como é forte, corajoso, raçudo, um vitorioso adormecido, resiliente. O medo de fracassar. A pressão a que você mesmo se coloca, àquela que transfere aos outros. A injustiça de que foi vítima. A dor das mágoas que provocou e as dores das que carrega calado. A bonita visão que você tem das pessoas que ama. A visão sombria que você tem de rejeição, essa postura apática, oriunda da depressão, que fez você criar uma visão platônica da vida que, sem que você percebesse, foi consumindo as coisas boas que você tinha sempre com você. O medo de se conformar. A dificuldade de entender a solidão. O seu senso de justiça, a generosidade. Ficar apavorado ao ouvir a palavra depressão. Ficar feliz ao entender. O individualismo que você nem sabia que tinha e que é um enorme problema, o egoísmo, a raiva como seu jeito de batalhar o mundo, não as pessoas. A crise dos princípios. A grande dificuldade em se abrir sobre coisas que você reconhece em você com as outras pessoas, a dificuldade de dissociar valores e ideais de pessoas. O fato de você ter vergonha de admitir seus erros. O grande descompasso entre seus desejos e atitudes. Você se pacifica com a auto-estima que sempre teve, mas que achava feio admitir; se olha no espelho diferente, valoriza a inteligência, a cultura, a boa vontade, o entusiasmo pelas novidades, a vontade de aprender, a facilidade enorme de aprender coisas novas, a versatilidade, a resiliência, a humildade. Precisa reconhecer que se ama, mesmo. A empatia. A vontade renovada de se entregar por amor sem medo; o risco de fazê-lo com quem não estará disposto a entendê-lo. A vontade de mudar, o susto, o medo de não ser capaz, de recair no lado sombrio da existência. A percepção clara de que a recaída estará sempre à espreita. A percepção de que o seu caso é banal, que você cresceu como milhões de outros caras, dividido entre expectativas da sociedade e modelos inatingíveis - e nada saudáveis - de comportamento e a realidade de uma vida que foge do controle e para qual poucos saem de casa preparados de verdade, tanto mais aqueles que se perdem em responsabilidades enormes em tenra idade. A doce descoberta de que você é racional e é capaz de se orientar nesse emaranhado de novas e velhas percepções sem se machucar mais. A paz de ter se entendio. A tristeza de ter demorado. O conformismo de ter custado tanto. A vontade de chutar o balde para recuperar alguma ilusão de controle sobre a própria vida afetiva. Enfim, todas essas e outras coisas que você sempre soube sobre si mesmo, mas nunca achou que fossem importantes, as que nunca soube, as que preferia não ter descoberto, as que te deixaram feliz e forte por ter achado e reencontrado. A ânsia de voltar no tempo com tudo isso nas mãos. Tudo num golpe de retórica, de lições, de atraso, de demora, de tempo perdido que deixam você meio sem ação por dias. “É de enlouquecer, mesmo, relaxa”, ouvi de uma psicóloga conhecida da família. É olhar para esse caleidoscópio de qualidades e defeitos, de traumas e vitórias, e sentir-se intimamente apresentado a si mesmo: ecce homo.

É um pouco desesperador se dar conta dessas coisas - e não só pelo atraso em percebê-las - mas pela sensação desagradável do quanto não temos controle sobre nossas vidas, de até que ponto estamos todos iludidos a respeito do que somos, do que queremos, do que fazemos e dos porquês. Catarses nos fazem amadurecer e são eventos positivos na vida, mas também lembram aquela doce máxima que afiança que ignorância é felicidade.

Aí você sai desse estado catatônico em que a vida, você achava, tinha te jogado há anos e anos e percebe que tudo foram problemas que você e outras pessoas criaram sem querer. Que os estragos estão feitos, que o tempo não volta e que seu único consolo é escrever à sangue todas essas lições para não esquecê-las, para ser uma pessoa melhor, para virar o homem do amanhã, para não se permitir mais errar desse jeito no futuro. E seguir em frente.

É sempre um processo de alguma coragem, é saudável, e ajuda muito a nos recolocar em equilíbrio e recalibrar nossas prioridades: de onde você menos espera, começam a brotar sorrisos, planos, ideias, vontades renovadas porque você se percebe empoderado, revigorado, com as mãos nas rédeas do próprio futuro e, de repente, mudar de área profissional passa a ser trivial, a vaga na universidade está a uma matrícula de distância, mudar de cidade não assusta e os sonhos começam a virar metas, objetivos, algo que você pode ver, ainda que de longe, como possível, como realizável. De repente, não se sente mais no limbo, isolado e desprezado: se vê como forte, amado, desejado, corajoso e renovado.

A vida é um troço curioso.


De triste só fica mesmo a sensação de tempo perdido com burrice, com covardias, esse atávico senso de desperdício de energia em coisas infrutíferas e em se dar conta de que as coisas que você aprendeu a aceitar e encarar como normais estão bem longe de o serem, que tristeza não é bonito em si, niilismo é legal nos livros, que não adianta ter o amor como extremamente precioso se você, ciente dos riscos, não o colocar para crescer, que seus mecanismos de defesa estão todos ultrapassados e que, na verdade, para crescer e ser o polímata que você esperava ser aos 17 anos é preciso, antes e acima de tudo, passar a encarar a vida com outros olhos. É ficar impaciente, querer correr os caminhos do mundo para realizar coisas, para mudar, para viver, ser feliz, conquistar, amar, vencer, ser; porque algo me diz que tudo vai dar certo, de uma forma ou de outra. É viver assumindo os riscos e sem mecanismos de defesa porque viver dói e se furtar a sentir essas dores é morrer um pouco a cada dia.

E que doa essa vida, porque eu aguento. Agora eu sei. Não importa o quanto doa, amanhã sempre nasce outro dia.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Esses sonhos de menina

"É que talvez você não tenha se dado conta, mas esses seus sonhos de futuro, vida a dois e tudo mais, querendo ou não, são uma pressão enorme para qualquer pessoa. Mesmo que ela pense como você e queira a mesma coisa, de um jeito ou de outro, acho que você transfere uma cobrança enorme para que tudo dê certo, para que funcione, para que o futuro se confirme, para que você não se decepcione com algo que saia do planejado, que não seja como você imagina que deva ser numa fantasia idealizada na sua cabeça. É uma forma de defesa, porque você não quer abrir mão de coisas que você sabe que são importantes para definir a qualidade da sua vida no futuro. É uma pressão dos diabos para que ela seja sempre perfeita e as coisas também sejam sempre perfeitas. Não é pouca coisa".

"E se for isso mesmo, explica muita coisa, né? Porque sempre que você vê algo que comprometa essa pressão pela perfeição, mesmo as coisas mais simples e banais, você tem duas alternativas: transferir cobranças injustas e ficar com cara de imbecil por se comportar como uma criança, exigindo perfeição onde isso não existe, ou engolir a sua frustração, algo que pode levar a irritação, raiva momentânea, explosões. Ou pode se acumular em anos e anos de covardia e de falta de diálogo, levando a crises de meia idade, implante de cabelo e casos com adolescentes daqui uns anos".

"Mas não se assuste. Não é o primeiro caso. Nem o último. Aliás, fique tranquilo porque poderia ser bem pior: o fato de você estourar desse jeito mostra que você, no fundo, reconhece que as suas pressões são injustas e que não se sente em posição de impô-las a ninguém, que o mundo e a vida não são para serem perfeitos. Ter essa percepção é mais que meio caminho andado para parar de ser idiota, a outra metade do caminho você começa agora, descobrindo o teu problema".

"A sua solução é simples. Passe a encarar a vida com realismo e sem fatores deterministas. Faça os seus sonhos, inclusive esses de menina, virarem metas, porque metas a gente atinge, sonhos a gente apenas fica desejando, desejando, desejando. Meta: morar no lugar X. Sonho: ganhar na loteria, viu a diferença? Assuma o controle da sua vida, das coisas que almeja pelas razões que forem e deixe as hipóteses que te fariam feliz, mas fogem do seu controle, nas mãos do destino. Confundir metas com sonhos é uma puta cagada porque quando se sonha, sonha, sonha e não conquista, no fim, você fica com cara de imbecil, culpando tudo e a todos, menos você mesmo que é, via de regra, o grande culpado por ter visto a vida passar e não ter feito porra nenhuma pra aproveitá-la e fazer dela algo que preste".

Lucidez. Vem tarde, na carona de um aguaceiro dos diabos, lá no topo da serra. Mas vem.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Subidas e descidas

Hoje eu me dei o dia de folga. Peguei o carro e percorri uns 70 quilômetros que me levam até a cadeia montanhosa mais próxima, que nós outros chamamos de Serra da Esperança. Não se trata de paragens extremamente conhecidas, não só porque quem já viu uma serra já viu a da Esperança, mas principalmente porque suas escarpas não remontam as assombrosas alturas, precipícios e quedas que as mais agraciadas demonstrações do relevo terrestre oferecem. A rigor, a Serra da Esperança é das de meia-pataca.

Mas é o que temos, menos de uma hora, você está se confrontando com a natureza. Com essa calma que parece agraciar as regiões serranas do país, onde as grandes conurbações urbanas não podem acontecer. Onde o relevo preserva a mata, o campo, a vida tranquila, o silêncio, o tempo que passa mais devagar, como se fosse ali um outro cosmos, como se ali valessem outras leis físicas para o tempo e para a entropia de todas as coisas.

Na serra, deixei o carro em um lugar bastante escondido, recomendei-o a atenção do proprietário do terreno e lhe fiz o mais do que justo agrado de pagar-lhe pelo incomodo com bom dinheiro, prometendo igual quantia quando desfizesse minhas andanças e cismas e decidisse ir embora.

Ao sujeito, tenho certeza, toda essa sofreguidão para se embrenhar no mato, vencer os morros e chegar no topo de alguns deles parece ocupação vã, tolice do moço da cidade que, sem nada melhor para fazer, vem se aborrecer no meio do mato. É a velha história da casa de ferreiro e espeto de pau: ele deve apreciar os confortos da cidade a que eu desdenho enormemente, na mesma proporção em que eu me apaixono pela vida calma a que ele tem direito, rodeado por uma paisagem de doce desolação verde e sossego.

Me desfiz das roupas de cidade. Coturno para andar no mato fechado, peguei o facão afiado. A mochila com cantil e frutas, a barraca desarmada. Dei a volta pela estrada de chão fazendo meus cálculos de que, provavelmente, poderia almoçar umas maçãs no topo do primeiro morro, caso fizesse tempo bom e o caminho não estivesse por demais impraticável, que esses diabos de morrinhos sem graça da serra tem um vezo para ficarem encharcados que é de dar com a cabeça nas paredes.

E assim foi. Para subir uns 800 metros levei cinco horas e meia. Escorreguei, rasguei a camiseta, me arranhei numa árvore, morri de medo de cair com a barriga no facão e morrer idiotamente, perdido no mato. Recomendei a todos os demônios e infernos de que fui capaz de lembrar o desazo de ter ido subir o morro, dei razão ao desprezo do homem que guardava o carro. Suei, quis desistir, pensei que não valia nada a pena, que na última vez que fiz algo do tipo era bem mais jovem, escoteiro, tudo numa trilha bem mantida.

Foi o caos.

Mas eu persisti. De alguma forma, subir aquele morro era uma questão de vida ou morte. Estavam em jogo, nessa atividade, todos os caminhos do meu destino, o futuro que se fixa na sua frente em uma estrada sólida, a vida que você precisa resolver. Tudo dependia desse esforço, desse rito de passagem, dessa prova intima de que, querendo, você vai longe. Que a gente se bate, mas vence. Que a vida é bandida, a tristeza ameaça, a dor inevitável, o sofrimento opcional. E que a gente vence, porque no cume, nada disso importa.

Cinco horas e meia de tombos, pragas, ameaças, desdem intimo, dúvidas, medo, vontade de desistir, mas de persistência, de vontade, de raça, de coragem, de sorrir na cara do perigo, de seguir em frente, apesar das circunstâncias, e eu venci, finalmente, a mata e a subida: estava no cucuruto do morro, como diria o meu pai.

De lá, descortinou-se a bonita vista da qual eu devo ter tirado umas 50 fotos. Emoldurava o horizonte uma cortina de água escura de fazer a alma vergar em sinal de respeito à majestade da natureza. A chuva negra, talvez há uns 10 quilômetros de onde eu a via, tomava todo o horizonte distante e dava ao verde, ao recortado das propriedades, o serpentear das estradas e as reentrâncias dos rios uma imagem de propósito, de plenitude: era como se o mundo todo se debruçasse para que eu visse: planalto, planície, vento, água, chuva, raios, trovões, marcas da ação do homem, tudo cabia naquele recorte que meus olhos alcançavam.

A chuva, e isso era facilmente observável, estava a caminho e me atingiria, tornando o caminho de volta muito pior do que fora na vinda. Mas não tive medo. Sentei-me, me aconcheguei com as minhas coisas em volta, e me ocupei de meditar. De não pensar em nada, de apenas apreciar o momento, de me sentir feliz e orgulhoso de ter chegado, de me sentir receptivo à essa sensação de solitude que só quem já acampou completamente sozinho e isolado sente, essa de ver o mundo de um ângulo privilegiado, longe de amores, paixões, problemas, dificuldades, ódios, mágoas, de tudo e todos, se sentindo como que inexoravelmente sozinho no mundo: só eu vi aquela paisagem, aquela chuva, aquelas nuvens daquele jeito. Vão passar milhões de anos, e ninguém poderá dizer que as viu como eu vi. Naquele instante, só existia uma pessoa em todo o mundo.

Almocei as minhas maçãs, que estavam todas batidas pelos acidentes do percurso. Limpei o melhor que pude o espaço que escolhera para a barraca, removi galhos, folhas secas e mortas, arranquei um pé de qualquer coisa que não sei do que se tratava e fiquei feliz de encontrar um pedaço de rocha em que pude apoiar a cabeça à noite, no maior conforto, usando a roupa suada como travesseiro. Não dormia tão bem e tão mal há um bom tempo.

Mas antes de pensar em dormir, me vi acometido da face ruim da solitude, essa que nos deixa entediados. A euforia de ter chegado, de ter visto uma paisagem única e uma apresentação exclusiva da natureza tinha, enfim, passado e perdido o efeito. Me percebi desejando companhia, me vi pensando em como seria divertido ter compartilhado a aventura, estar agora comentando a beleza, mas também o pavor que causa essa chuva monstruosa que se move tão rápida, tão inevitável, tão displicente ao meu encontro.

E aí você se encontra com aquelas coisas todas das quais vem tentando fugir. Dos problemas e das soluções, do fato de que não há o que se fazer, dessa dor esquisita que é se afastar, se proibir, se isolar, que é amar em silêncio, que é viver nesse limbo em que nada que você faz parece fazer sentido, em que tudo é inconsequente e inútil.

Amar é muitas coisas, você ouvirá milhões de definições diferentes, dependendo do estágio em que alguém está na paixão e no amor por alguém, mas talvez não exista uma mais certeira, mais universal, mais comum - e comum porque é sentida por qualquer um que ama - do que essa mistura de saudade do futuro que você espera com essa coisa de querer compartilhar seus melhores e piores momentos com alguém que você quer demais.

E foi embalado nesses pensamentos e nas minhas filosofias vãs sobre como definir amor e nas limitações da língua portuguesa, essa que se sente tão especial pelo charme do termo "saudade", mas que não foi capaz de criar verbo que desse tino dessa coisa, dessa falta, dessa ausência, dessa loucura que é amar e não poder, que vi a chuva chegar, avassaladora.

Gosto de banho de chuva e não me preocupei em me esconder na barraca. Tirei a roupa e fiquei nu, recebi a cortina de água de braços abertos e me vi sorrindo, imaginando um satélite que conseguisse vislumbrar, mesmo com as nuvens no caminho, meu corpo nu no topo da montanha, recebendo a chuva como se o abraço gelado dela me levasse para lá, onde eu agora queria estar.

Venho revisitando uma porção de convicções nos últimos tempos, mas tem uma que eu nunca confronto e que é a ideia de que não devo forçar minha mente a nada. Não acredito, por exemplo, em jogos mentais para esquecer, acho errado me forçar a odiar, cultivo minhas memórias com zelo e me intrigo com quem vai no caminho contrário, tão feliz em jogar no lixo suas experiência, relativizar seu passado, odiar por mecanismo de defesa, por imaturidade. Esquecer, nunca. O que passou, o que ficou retido nas prateleiras empoeiradas da memória é o que nos define, o que diz quem somos. E eu tenho um amor desmedido pelas minhas lembranças e, portanto, pelo que eu sou.

E todas essas disposições de espírito, essa calma, essa complacência à que a natureza conduz, me deram paz. Foi vitória ter subido, foi inesquecível ter visto a paisagem, foi libertador tomar aquele banho de chuva, foi rejuvenescedor ficar em paz com meus sentimentos e me apaixonar, mais uma vez, pela doçura das minhas memórias.

No dia seguinte, pela manhãzinha, o garoto que subiu a montanha percebeu, surpreso, que era o homem que descia, leve, uma pequena colina.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Lições

Quando era jovem, eu namorei uma garota que adorava, mas no fim, não éramos as pessoas certas um para o outro. Antes de chegar a essa conclusão, no entanto, essa pessoa, ainda que involuntariamente, me ensinou a lição mais importante de todas as da minha vida amorosa, a que eu sempre tento carregar comigo, mas que sozinha, sem outros conhecimentos do ofício, não dá em nada.

Lembro que já namorávamos por um tempo. Um dia, comentei numa postagem de Orkut, sobre uma outra garota da qual não lembro o contexto, mas era uma celebridade tipo B e a conversa se dava num fórum de amigos. Os mais suscetíveis de vocês, por favor, se contenham, porque o comentário foi machista e usava um bordão de um antigo programa “humorístico”: arruma um jeito de ela dar pra nóis.

Totalmente desnecessário, infantil, mas eu era pouco mais que adolescente na época. Estava numa rodinha com amigos, ainda que virtual. E o comentário entrava no tom de deboche próprio da fauna ali reunida e do grupo em si. Era apenas besteira, nada mais.

A garota ficou sabendo porque seus sabujos farejaram o sangue e ela veio na minha jugular para tirar satisfações. Ainda que vendo exageros na reação, na hora, me preocupei unicamente em me desculpar, desculpar e desculpar, enquanto ela insistia em me por contra a parede, como sacana e fator de profunda vergonha pessoal na vida dela. Insisti em transpirar sinceridade nesse momento, cometendo o erro muito comum de quem é jovem e confunde sinceridade com honestidade.

A lição que aprendi no episódio, especialmente em virtude da conclusão que viria depois da nossa incompatibilidade, é a de que pedir desculpas é fundamental quando você erra, mas para por aí. Quando somos inseguros em relação a quem amamos, acabamos entrando num parafuso de pedir desculpas indefinidamente, muitas vezes até pelo que somos e pelo que não fizemos – algo muito comum na juventude masculina e, acho, que também entre as mulheres. Desculpas, sobretudo se sinceras, são importantes e fazem parte de uma relação equilibrada com as pessoas que nos cercam, mas chega um ponto em que a repetição delas, especialmente se estivermos falando de uma ofensa menor como a que cometi, começam a soar como desespero.

Se tivesse sido honesto, e não apenas obsessivamente sincero, teria me desculpado, sim. Mas a partir da insistência na cobrança, poria a honestidade para funcionar, e diria que, embora respeitando o direito dela se sentir ofendida, precisava chamar a atenção para que o comentário fora nada mais que uma brincadeira em meio aos meus amigos. Que se o tom de deboche desse tipo de situação a deixava desconfortável, o problema tinha muito mais a ver com a insegurança dela em relação à sua imagem e em relação ao meu comportamento. Pronto, uma saída de homem: pedido de desculpas sincero porque não tinha intenção de aborrecer à pessoa a quem amava, mas, em face a insistência no assunto, faz questão de mostrar a futilidade da querela e em se mostrar equilibrado sobre o problema.

E ser honesto com quem você ama envolve uma coragem dos diabos, intimidade e linhas de diálogo extremamente abertas. Precisa coragem para admitir os seus defeitos, mas muito mais para contar algo ruim que você fez na vida, precisa de coragem colocar as necessidades do outro antes das suas, tem que ter coragem para, nesse mundo doido, assumir que quer viver a vida com uma única pessoa e com ela ter filhos e embarcar em todos os tipos de devaneios da vida a dois. Se você não tiver coragem no amor, você não o busca e não botará fé nele e em suas perspectivas de sobrevida, você não estará de olhos abertos para reconhecer suas falhas e, o mais grave, o lapso que existe entre a realidade das coisas e da vida e as fantasias que você constrói: é preciso coragem para sintonizar essas discrepâncias e, sair do outro lado, em paz, sabendo que você ainda ama a pessoa que não era exatamente como você projetou, aceitando essas diferenças como fatores de uma vida entre adultos, não pontos de conflito que você precisa fazer vergar. Coragem é fundamental. O lado bom é que eu venho construindo isso aos poucos, e se você tiver sorte mesmo, pode aumentar seu estoque de cojones com a colaboração da sua companhia. O lado ruim é que parece nunca ser suficiente: a gente sempre tem colhões de menos do que as situações que surgem parecem exigir.

Apesar da lição sobre não carregar nas desculpas ter ficado comigo, fiquei muito tempo sem saber direito a hora da sinceridade e da honestidade, provocando algumas situações indesejáveis de estresse emocional nas pessoas que vieram depois e das quais me envergonho (das situações, não pessoas), em um claro reflexo dessa falta de coragem. Fico feliz em, hoje, mais maduro, ter consciência disso e saber que essa dinâmica do “sempre pedir desculpas, mas nunca pelo que você não fez” é um conhecimento bem assentado por aqui.

Outra lição, e essa bem mais recente e sem relação com a garota de anos atrás, embora esteja ligada com essa coisa de desculpas e honestidade, tem a ver com o fato de que não adianta desculpar-se, honesta e sinceramente, quando você faz bobagem e magoa a quem ama. Aliás, adianta no sentido de que é o mínimo que você deve fazer, mas não vai muito mais longe do que isso. Você pode argumentar, mostrar que não teve, mesmo, intenção e que suas reações foram frutos de circunstâncias de momento, mas nada disso faz muita diferença porque o estrago emocional já está feito e, no fim das contas, a gente não tem o menor direito de dizer o que pode e não pode magoar o outro. Não legislamos sobre como nossas atitudes serão encaradas por quem está ao nosso redor, mesmo que a sua intenção seja absolutamente transparente: a de não arredar o pé da vida de quem você escolhe para viver contigo o resto dos seus dias. A conclusão, é que, não diga!, melhor que pedir desculpas, e precisar se equilibrar entre ser sincero e honesto, é nunca magoar a quem você ama!

Minha genialidade é realmente assustadora. Se você fizer silêncio, pode escutar as engrenagens do meu enorme cérebro emocional girando e produzindo essas verdadeiras luzes do conhecimento ocidental.

Amar é um cão dos diabos, dizia o poeta. É trabalho, mesmo se você tiver sorte de achar alguém realmente especial. Envolve concentração em detalhes, coragem (que você pode construir se tiver diálogo com a outra pessoa) e um zelo enorme para que linhas de diálogo sejam amplas para que todos os sentidos de qualquer atitude e declaração possam ser compreendidos por quem você gosta. Esse parágrafo todo parece senso comum, todas as pessoas dirão que comunicação é fundamental, previne todo tipo de problema e que a grande maioria dos casais se separa porque falta papo, abertura. Mas é sempre bom escrever isso e ter esse valor em mente porque a gente, em geral, só lembra dele quando é tarde, bem tarde.

domingo, 4 de maio de 2014

Senna

Eu, sinceramente, achava que nunca mais iria redigir alguma linha sobre Ayrton Senna. Mas os últimos dias foram pródigos em me lançar, ainda outra vez, aos tempos de menino, ao que pude acompanhar da carreira do tricampeão, do que ele significou por tanto tempo, dias que me lembram do sujeito que hoje sou, profundamente marcado pela paixão por carros e corridas, que nasceu em 1990/1991. Num tempo em que Ayrton Senna, um tipo de força da natureza, dobrava o destino e o mundo à sua vontade. E vencia.

Vinha ensaiando esse texto nos últimos dias, mas o que me incentivou de verdade a escrevê-lo foi um depoimento, de Emerson Fittipaldi, que li dias atrás. Em inglês, ele diz, sobre Senna, "penso nele todos os dias e sinto muito a sua falta". A declaração me pegou desprevenido, porque eu lembro de Senna com grande frequência. Não como a divindade, mas como o gênio que era de um esporte que eu aprendi a amar com reverência.

A percepção de que Senna era, e é, muito mais do que um piloto já me incomodou, assim como incomoda a muita gente, notavelmente fãs mais sisudos da F1 e jornalistas tarimbados, que esperneiam contra o endeusamento, as proporções sobre humanas a que os fãs, não só brasileiros, fazem questão de excelsar uma criatura que, na verdade, era apenas um homem.

Compreendo essa reação. Eu mesmo comungo da ideia de que fazer de Senna um herói, mito, santo, messias, o que mais couber entre esses absolutos, é despi-lo da sua fascinante personalidade, da riqueza do sujeito capaz de dar milhões para ajudar a quem precisa da mesma forma que era capaz de bater, de propósito, para embolsar um campeonato de F1. Senna é ainda mais fascinante como personagem quando observado à luz de seus defeitos e falhas. É o campeão, o melhor de todos os tempos, o cara que arrisca o pescoço pra socorrer o Erik Comas, mas veta um companheiro de equipe porque não queria ver as atenções do time divididas. Senna é humano, contraditório, problemático, genial e escroto, humilde e exagerado. Senna é uma manifestação da natureza.

Mas sem embarcar nas tortuosas linhas dessa filosofia de boteco e do entendimento do fenômeno de mídia que transforma um tremendo atleta em profeta, tenho mesmo é que recordar. Senna influenciou profundamente a minha geração e a comoção nacional por conta de sua morte, em 1994 e agora, 20 anos depois, dão a dimensão disso.

Eu lembro que era absolutamente natural ter a F1 no convívio diário. Meu pai via os Grande Prêmios, era um fã dos brasileiros na categoria, tendo começado a acompanhar corridas nos tempos de Fittipaldi. Minha primeira recordação de F1 se passa em 1988/89: estávamos na casa de um tio, em Porto Amazonas, e passava uma corrida na TV. Meu pai assistia com meu tio e discutiam as possibilidades de Senna na prova e eu lembro, perfeitamente, do carro costurando algumas curvas que me lembram Hockenheim.

Em casa, era com meu pai que eu dividia o sofá para ver as corridas. Lembro que, ao fim delas, ele já estava ocupado com a churrasqueira. E lembro também que era meio raro eu acordar para ver as corridas. Eu gostava muito de dormir e Senna era eterno. Sempre existiria outro GP.

No fim das contas, descobri, com oito anos de diferença, que nenhum dos dois viveria para sempre.

Quando comecei a acompanhar corridas, de verdade, em 1991, Senna media forças contra a Williams de Nigel Mansell. Embora longe do brilho das batalhas contra Prost, os duelos dos dois iluminavam a minha pulsante imaginação de criança. Eu lembro que, na escola, tomava os balanços com os colegas. Eu era o Senna. Ao lado, no balanço azul, ia Prost ou Mansell. Mais tarde, em 1992, nossos GPs ganharam a participação de um alemãozinho que começava, um certo Chumaquer, como escrevíamos. Nossos GPs duravam um recreio e, honestamente, não sei como medíamos vitoriosos e derrotados. Sei, contudo, que eu me esforçava para fazer a balança ir mais alto e mais longe do que as outras. Eu era Senna, tinha toda aquela vontade de vencer por trás, e eu ia mais alto por causa disso.

Para as crianças da época, Senna era essa tradução de vontade. Ele era o herói. Era o Jaspion de verdade. O cara que vencia corridas com carros que pareciam naves espaciais, que era tão forte, capaz e que nada se colocava no seu caminho. Era talento, determinação, invencibilidade em tais níveis que o cara parecia mesmo capaz de salvar o mundo, de ser herói só porque era bem sucedido num dos esportes mais mesquinhos do planeta. Senna e suas vitórias despertaram em mim a vontade de virar piloto. Lembro de ter sofrido muito quando percebi que o sonho era impossível.

Em relação a todos aqueles garotos, eu acabei diferente. A esmagadora maioria era fã de Senna, não de corridas, não da Fórmula 1. Com a morte, todos debandaram. Corridas deixaram de ser assunto nos recreios e ninguém estava interessado a assumir os cockpits nos balanços com nomes tão distantes, como Hill, Coulthard, Barrichello, Herbert, Verstappen. Eu, que adorava Ayrton Senna e chorei copiosamente pela sua morte, não. Eu gostava muito de Fórmula 1, tinha uma curiosidade insuportável sobre a história do esporte, curiosidade que só foi possível saciar com a chegada da internet. Foi Senna que me levou a gostar de F1, o que me levou a me interessar por carros, tecnologia e outras manifestações do esporte a motor.

Eu sou apaixonado por velocidade. A ideia de ir além do limite, de percorrer distâncias em lapsos de tempo, de controle e de fusão com a máquina, são incrivelmente sedutoras. Eu tenho certeza que teria dado um excelente piloto.

Nada à sombra de Ayrton Senna, que não pode ser explicado e medido apenas pelo talento. Senna, como eu me acostumei a vê-lo, dentro de um carro, era uma força da natureza. Imparável, inexorável e invencível.

domingo, 31 de julho de 2011

Pequena coleção de mim

Estava eu mexendo em meus guardados para encaixotá-los e, se tudo correr bem, desempacotá-los em poucos dias, em meu novo endereço. Fiquei feliz em notar que meus livros, meu bem sortido acervo, encheu sozinho cinco caixas de papelão. Eu juntei muitos livros na vida por sempre conservar o hábito de comprar os livros que tinha ganas de ler e raramente emprestá-los das outras pessoas. Também se mostrou, com o passar dos tempos, bastante saudável para este acúmulo o costume de não emprestá-los a qualquer um.

Também encontrei lembranças e miudezas que usei na outra vida ou que eram ítens de decoração do lugar onde vivi. Meus canequinhos de chope, roubados honestamente do Bar do Alemão em Curitiba. Duas bolas de bilhar que, naquele bom e inocente tempo dos porres homéricos, daqueles pileques de criar bicho, roubei dos botecos por onde estive a afogar as desgraças e embalar as alegrias, porque também as tive. Imãs de geladeira que comprei em Buenos Aires. O relógio de pulso que usei de três dias após a morte de meu pai até não lembro mais onde e que só larguei em favor do visor do celular. E muitas outras coisas que não quis ter o trabalho de fotografar, mas que vão comigo.

É tudo um pouco do passado que a gente não sabe bem se quer lembrar, se quer esquecer, se quer resgatar. O que eu sei é que, brincando, já faz tempo. Os primeiros canecos eu tenho há seis anos. Os imãs são um pouco mais novos. Das bolas de bilhar, honestamente, nem lembrava. Meu primeiro livro é de 1998, ganhei de aniversário de meu pai, "O Homem que Matou Getúlio Vargas". E há no meio disso tudo, mais antigos, comprados em sebos e herdados de um infeliz incêndio.

É um pouco do passado que guardei numa caixa. Um tipo de capsula do tempo que fechei quando me formei. A capsula foi reaberta e de dentro dela saiu nostalgia, saudade, lembranças, memórias, recordações, suspiros, tristeza e risos. Vou levar esse passado rico e cheio de marcas comigo, como de resto tenho feito com tanta coisa mais, que vai aqui, mais ou menos calada dentro do peito. Enfim, é bom dizer, joguei hoje muita coisa fora. Ou ao menos a faceta física de algumas coisas, porque já tinha expurgado dos recessos mais profundos do coração e da memória muita coisa assim. Coisas que há uns anos, supor desfazer-se, seria uma dor atroz a cortar o coração. Hoje é ato corriqueiro, de quem joga fora o que não presta mais. Fico feliz em poder jogar fora o que é lixo e conservar o que é uma ponte para o que de bom se passou.

É sempre bom exercitar o desapego para não se apegar novamente. Aprendi, como tudo na vida, da pior maneira. Eu tenho 4 fotos da infância e isso me ensinou que recordações, boas e más, são importantes. Mas que nem todas merecem ganhar vida nas capsulas do tempo que construímos e acumular poeira pelas prateleiras da vida.

sábado, 27 de novembro de 2010

Saudade pesa

Seu Nino. Era um vizinho. Era um amigo. Era ele o Alfredo e eu o Totó desse outro Cinema Paradiso que é a minha vida, em que se pese que o fim, até aqui, de onde dá para se vislumbrar o que pode vir da fita que corre preguiçosa no projetor que esboça trepidantes imagens dos meus dias, não pareça tão alvissareiro quanto o experimentado pelo par no imorredouro filme italiano. E que doravamente me fará chorar copiosamente, porque a analogia com Nino, com meu pai, minha mãe e eu mesmo será infinita e saborosamente entristecedora. Cinema Paradiso é, talvez, a única coisa certa que os italianos fizeram depois da Maseratti - dizem que a massa é criação dos chineses.

Eu devia ter escrito antes sobre Seu Nino. Ou ainda, eu devia ter conservado mais de Seu Nino comigo, mas não pude. Nos primeiros anos da minha vida, o aborrecia. Lembro muito pouco do nosso convívio porque era muito pequeno e a memória não chega para dizer o que comi ontem, que dirá, absurdo, alcançar os primeiros três ou quatro anos de vida. Lembro apenas que nos vinte e tantos anos que sucederam a este tempo não faltaram recordações repetidas sempre pelos meus pais com gentileza, gratidão, saudade, esse timbre de apreço único que vem impresso na voz das boas memórias

Seu Nino era, ou imigrante, ou decendente direto, e pelo que se conta, muito cioso das tradições italianas. Era, acima de tudo, um amigo.

Morava naquele tempo numa casa, que ainda está de pé, grande e antiga, que se debruça sobre a rodovia BR-277, na cidade de Campo Largo. Era uma casa grande que apenas reconheço por fotos e de vagas e turvas lembranças de quando, muitos anos depois, já morando em outra cidade, passávamos em frente pela estrada e meu pai sempre comentava daqueles outros tempos e imaginava como estaria passando o Seu Nino?

Numa dessas vezes paramos e fomos procurar o vizinho querido, a quem meus pais devotavam sincera afeição e devoção. Diziam que era um homem carinhoso, gentil, simples e sempre disposto a ajudar, conversar. E que gostava muito de mim. Que não se furtava em dividir comigo seu tempo, paciência, histórias e atenção.

Dessa visita lembro um pouco. Do Seu Nino em si, da voz e de alguma conversa. Mas é tudo. As memórias deste outro tempo são, de resto, fugidias e me entristece o coração não ser capaz de lembrar mais coisas. Pensando no assunto agora, levando em consideração a importância que este cidadão pode ter tido na minha vida, na minha formação, e sabendo o quanto fora querido, considero quase uma ofensa, um achaque lembrar dele tão pouco a ponto de ser incapaz de bosquejar aqui um retrato mais fiel, digno.

Sinto-me em dívida com esse amigo, o primeiro da minha vida, e que repousa em algum lugar do meu passado, em algum recesso obscurecido pelo tempo do meu coração. É bem possível que ele não more mais lá, muito mais que tenha até morrido, porque na época da segunda visita ele me parecia já bastante velho. E eu tenho pouco a dizer que não seja que sinto saudades, que não me lembro dele e que gostaria que tudo fosse diferente.

Seu Nino, de quem, vejam o tamanho do acinte, não sei o nome verdadeiro, voltou-me à memória hoje. Voltou e trouxe consigo saborosas lembranças de um tempo que não volta mais, de uma vida que não é mais minha e de memórias que se esvanecem, que desbotam em mim. Memórias não de nossa vivência, mas de viagens com meu pai, histórias de minha mãe, fotos que não tenho mais, a casa, a cor roxa das paredes, os detalhes em branco, o campo ao fundo, a rodovia, a neblina, o frio, o bode em quem eu me agarrava para domir, sem medo, sem preocupação, a vida que foi, que era, e que nunca mais será.

O maior crime do tempo não é ser implacável, inexorável. O maior crime do tempo é que ele passa.

domingo, 21 de novembro de 2010

O dia em que cresci

Eu tinha 9 para 10 anos e achava a catequese um tremendo disperdício de tempo. Perdia desenhos, treinos de Fórmula 1 e substanciais horas de sono, muito caras até hoje, e ainda lamentadas. Aliás, ainda acho catequese uma perda de tempo, a diferença é que naquele tempo pensar dessa maneira era um sacrilégio passível do fogo eterno, do fim das promessas de redenção eterna em algum paraíso onde não se precisasse acordar cedo e todos os desenhos estivessem disponíveis à quem aprouvesse assisti-los. Era no sábado. Provavelmente o cerne do desencanto da religião nas pessoas esteja, além dos rituais enfadonhos, no péssimo senso de tempo de padres, cardeais e congêneres, que escolheram para desempenhar seu ofício dias e horários para lá de ingratos. A catequese, enfim, consistia em lições nada inovadoras e bagatelas reducionistas para crianças. Ao que tudo indica, Deus só te recebe no paraíso dele caso você sacrifique uma porção de finais-de-semana durante a infância, acredite cegamente nas coisas que são ditas e nunca, sob hipótese alguma, questione.

Eu lembro pouco desse tempo sombrio. Onde a grande missão era engolir, sem mastigar, uma hóstia. Corpo de Cristo, diziam os fanáticos. Por ser o Corpo de Cristo diziam que não se podia deixar nada na boca, que seria como um desrespeito, um desperdício, um tipo de sacrilégio. É lógico que eu não tinha o repertório de hoje naquele tempo, caso o tivesse, poderia pensar: "mas não é mais sacrilégio comer o corpo de um cara morto?". De certa forma, a ideia de "engula isso sem mastigar" é uma excelente metáfora para todo o discurso religioso. Engula tudo, aceite todas os devaneios, mitos e lendas sem questionar. Não mastigue, não pense, não encha o saco e não esqueça de contribuir com o dízimo ou engrossar as fileiras dos defensores sagrados do Senhor.

O mês de setembro é ingrato na região sul do Paraná. Época de ventanias e de desarranjos de ordem metereológica dos quais não arrisco a menor noção, causam tempestades, chuvas fortes, granizo. Aconteceu naquele ano. Lembro que foi uma das grandes chuvas de granizo que presenciei - e tive a casa destelhada numa que veio quatro anos depois. Esta que resgato aqui, contudo, poupou nossa casa. Mesma sorte não tiveram alguns vizinhos, um posto de gasolina, onde o gelo pesou no amplo telhado de zinco e o fez vergar sob o peso. Lembro de danos menores à comunidade, como alguns carros danificados, um ou outro acontecido. Entre mortos e feridos, até onde iluminam os vagalumes da minha memória, sobreviveram todos.

Também foi vítima dos grãos de gelo a igreja onde eu frequentava os serviços, por pura imposição da catequista. Três faltas não justificadas à missa eram passíveis de reprovamento, e reprovar na catequese - feito que meu irmão conseguiu inadvertidamente - me parecia tristeza demais para uma vida só. Ia concenciosamente onde mandavam, confessava, ingeria o corpo de um deus morto há dois mil anos e não fazia perguntas.

Até que sucedeu a tempestade de granizo que escolheu a Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro como vítima. E não foi só o gelo que avacalhou o templo, caíram raios que causaram alguns danos, embora o edifício fosse guarnecido com boa provisão de pára-raios.

O sinistro nos poupou da catequese até que reparos fossem feitos às expensas da comunidade. O que é um absurdo, considerando que igrejas não pagam qualquer imposto e sejam para lá de proverbiais os fundos de que dispõem as autoridades da Igreja. Nada disso me passou pela cabeça.

Contudo lembro de perguntar à catequista o por quê. Por que Deus tinha decidido avacalhar com sua morada? Não era, aliás, mais condizente com sua figura de defensor, pai, e em última análise, benfeitor de toda a humanidade que fizesse o cataclismo abater-se sobre alguém reconhecidamente mal? Ou talvez num descampado, onde os danos não fossem maiores que capim amassado? Talvez nos mares, onde a chuva de gelo não passaria de distração às populações de peixes, intrigadas com o fenômeno de pedregulhos que se desfazem em contato com a água? Ela respondeu com "são mistérios de Deus".

Não questionei à fundo, mas lembro que a resposta da catequista me deixou insatisfeito, porque quando eu desandava, meus pais exigiam explicações e eu precisava dar motivos. Assim como meu pai me explicava pacientemente porque não tínhamos carro e o quanto custava um, presumi que Deus deveria, dado o seu caráter paternal, obrigação semelhante na hipótese de desastres se abaterem sob aqueles que não podem muito para impedi-los. Considerei, portanto, absolutamente insatisfatórias as respostas da catequista e julguei que a falta de capacidade dela em sanar minhas dúvidas residia no fato de que fosse uma autoridade muito baixa em questões que alcançavam às excelsas altitudes do mistério da mente de Deus.

A conclusão de que precisava de alguém mais gabaritado no tema levou-me à presença do padre. Não lembro muito do cidadão, mas lembro da conversa. Perguntei a ele, em primeiro lugar, o que havia perguntado à catequista. A resposta veio mais ou menos nos mesmos termos, e não convenceu. Aí, ainda crente na sua capacidade de decifrar assuntos desse quilate, lhe perguntei: "Se a igreja é a casa de Deus, por que ela precisa de pára-raios? Qual é o medo?"

"A natureza", respondeu. "Mas Deus não é Deus da natureza também?", "Ele é Deus de tudo que existe!". Nada mais saiu dessa conversa, me despedi, e desde então, embora tenha continuado católico por inércia ao longo dos anos que vieram, nunca mais me senti realmente crente na religião e naquilo que pregava, dizia e recomendava. Como acontece com todo mundo, questionamentos e bom senso mataram a minha fé. 

A catequista disse que são mistérios de Deus e que ninguém poderia perscrutar a mente dele. Não cheguei a questionar a ideia, que hoje, é evidente, parece absurda. O padre jogou com a minha curiosidade infantil, julgando que ela se calaria e se acomodaria com qualquer palavra atirada ao ar, porque encontraria o mérito não na resposta em si, mas na autoridade.

Se não somos capazes de compreendê-lo, a despeito dos nossos mais abnegados esforços, por que nos damos ao trabalho? E se somos incapazes de entendê-lo, porque veio Deus nos prover de um livro justamente dedicado, dizem, para compreender os desígnios e metas do altíssimo para a humanidade?

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Cresça!

... e são duas coisas muito diferentes, o estudar e o aprender... quem só estuda, decora, bitola-se, fica reduzindo perspectivas para encaixá-las nas suas formas reducionistas de ver o mundo... quem aprende, instiga, caminha, aprofunda-se e descobre quão maravilhoso pode alguém vir a ser depois da jornada do auto-conhecimento.