Numa das minhas andanças recentes, cortei um pedaço de mata porque o dia já ia avançado e eu precisava de civilização, de café e, mais importante de tudo, de uma estrada, porque a bateria do celular ia se acabar e eu, explorador de apartamento, não tinha bússola e dependia do GPS para não errar o rumo e acabar andando muito mais que o necessário. Esmagava a relva, essa coisa indizível que são anos e anos de folhas em decomposição, resto de vida, troncos de árvore que se esfacelam ao toque da mão, matéria, lama, terra, pedra, sedimentos, ninhos, cascas, o testemunho indisputável da segunda lei da termodinâmica, aquela da entropia, que explica porque crescemos, porque morremos, porque nada volta a ser como era, porque, dando tempo necessário, tudo mais se confunde num emaranhado de coisas desfeitas, de mistura, de energia transformada, de matéria decrépita, de fracassos e vitórias, porque a ciência da física também sabe ser poética, é tudo uma questão de saber como lê-la. E seguia, inabalável e inexorável, como um transatlântico sem freio, sem controle, indo de encontro ao cais, que todo cais é uma saudade de pedra, arrebentar-se na amurada, subir a terra, trilhar no meio de todos esses sedimentos o meu caminho, com essa quilha de aço, que é firme, que é sobre o que se lança e se constrói todo navio que, altaneiro e ambicioso como eu, tenciona, um dia, singrar as águas desse e de todos os outros oceanos, que são muitos, que são grandes, que nos levam, há vezes em que nos trazem, que nos buscam. E que, não cuidando, nos afogam. Como votava a todos os diabos a perspectiva de precisar tentar, eu disse tentar, me orientar com ajuda da posição do sol e outras aleatoriedades cósmicas, porque se navio sou, sou de eras mais recentes, todo dependente da cobertura dos insuspeitos satélites, esses que lá dos céus, enfim, nos dizem de onde viemos, para onde vamos e quando por lá chegaremos, está visto aí que o elusivo deus existia, era tudo uma questão de, de fato, inventá-lo e de enfim manda-lo à órbita, porque não há espaço na superfície desse mundo para mais um deus, tanto mais um que seja de verdade. No meio dessas e de outras considerações, estava claro que era preciso estabelecer alguma forma de contato com outras pessoas, e quem sabe, eu disse quem sabe, garantir uma xícara de café. Não que a situação fosse assim tão desesperada, o interior do Paraná é densamente povoado, não estou no Saara, que se estivesse, a verdade é que o café tenderia a ser desse tipo árabe, que afiançam os entendidos, é mais saboroso. Mas no Saara é difícil dar com os beduínos e deles arrancar algum café, então nos contentemos com o café inferior, mas mais certeiro, que se encontra nas casas do Paraná. Acima de tudo, mais do que a necessidade de rumo e de café, aborrecia-me a ideia de ter de acampar naquele dia, cansado e despojado que ia dos instrumentos e acepipes necessários, e, pior de tudo, sem café, com o cantil seco de água como, aliás, também ia a garganta. Decidido, portanto, mudei o rumo e fui em direção a uma clareira que tinha avistado uma hora antes, que lá do cume me parecia tão perdida no meio da mata e que, como se verá adiante, julguei corretamente como local de algum traço civilizatório que persiste em meio às bracatingas e araucárias.
Fui parar num campo, que fazia parte de uma pequena propriedade que, depois fiquei sabendo, fora um dia uma fazenda enorme, dissolvida ao longo das décadas e das gerações. À distância, ficava uma casinha que me parecia tão familiar e que já vira dias melhores, familiar pelo estilo da construção, não que tenha eu por ela passado antes, mas é o caso de ver algo que já vimos antes, é bater os olhos sobre curvas, paisagens, sobre estradas e monumentos, aquela sensação de que quem já viu uma coisa, já viu todas, porque não há muita margem de manobra pela qual a capacidade humana de edificar possa surpreender, as casas variam em tamanho, idade, acabamento e cores, mas no geral, são feitas das mesmas coisas que sempre foram feitas, têm as mesmas janelas, as portas, os vidros, os móveis e as pessoas, justiça seja feita, também não variam tanto assim. Uma casa, por exótica que seja, é análoga direta à sua próxima e é por isso que faz sentido chamar a ambas de casas, porque se fossem extremamente diferentes entre si, teríamos de encontrar outros nomes para dar conta de todas. A casinha em questão não fazia jus ao diminutivo, porque o ângulo pelo qual a desvendei pela mata a desfavorecia, fazia parecer menor, porque me mostrava apelas a perna menor do “L” que a sua forma tomaria, se vista do céu pelas divindades que operam os GPSs. Pela localização em terra rica de colonos poloneses e ucranianos, pelos traços ornamentais recorrentes dos trabalhos em madeira de procedência das escolas estéticas dessas duas pátrias eslavas, já calculava que o sangue que moldara aquela morada tinha muito em comum comigo, com o que pulsa, quente e vivo, pelas minhas e veias, com o que besunta as minhas engrenagens, empurra a massa violenta das minhas vontades, esse que me inspira. A casa já vira momentos mais gloriosos, o descuido e os anos de vida se denunciavam com facilidade no desgaste amargo da precariedade das coisas submetidas à marcha irredutível e obcecada do tempo, tudo isso se fazia cada vez mais evidente pelo recibo dessas coisas impresso na madeira, que eu divisava com cada vez maior riqueza de detalhes conforme avançava a marcha. Os detalhes, as feridas, as cicatrizes, os talhos e rachaduras, casca morrida da vida passada dessa casa dá o que pensar e me permite arriscar dizer que está em pé há mais de 80 anos, vê-se claramente nos adereços à borda das calhas o corte eslavo nos lambrequins, que também não proíbem a morada de ter sido erguida por italianos, povo que também deu esse tipo de acabamento às suas moradas brasileiras, mas rareiam as colônias italianas por esses lados e o coração, esse meu coração de sístoles e diástoles contatas à cavalos-vapor, que empurra o óleo vermelho viscoso da minha vontade, que enxerga tudo a seu jeito, já decidiu que a casa é eslava, que é ucraniana, gosta de pirogue, de charuto e que lembra com carinho de quando, em meio às suas paredes, falavam ucraniano, quando alguém ali lia o jornal da colônia, todo escrito no alfabeto cirílico, aquele normalmente associado aos russos, mas também usado por outras nacionalidades eslavas, e que tem por curiosidade maior o fato de ter 33 letras. Aos disparates do coração, vem em socorro a mente, que chama a atenção para a armação das janelas, que é decididamente antiga, mas nada ali garante a origem da morada, a pintura lascada deixa enxergar outras cores, outras épocas, o encardido de onde a madeira era branca, nas janelas e molduras das portas, denuncia o pouco cuidado com que a casinha, decididamente de sangue e motivos eslavos que cantam mais fundo nesse meu coração que comunga do sangue desses ortodoxos em favor das cantigas italianas, vem recebendo pela melhor parte da sua vida.
Mas não fora para julgar a qualidade da morada, tampouco o desvelo dos seus moradores, que me dirigia à porta francamente aberta naquele fim de tarde. Havia fumaça na chaminé, com certeza um fogão à lenha reina soberano na cozinha, deixando água e bule aquecidos para o café da tarde. Eu já projetava que me ofereceriam um café porque estava morrendo de vontade de um e, de fato, bastou que escalasse os dois degraus de cimento que endereçam o visitante à soleira da porta dos fundos, que escancarada leva à cozinha, dissesse o gentil e solene “ô de casa”, que herdei das vezes em que fazia passeios semelhantes com meu pai e que ele sempre usava para abordar lares de pessoas simples e desconhecidas, para sentir o cheiro inconfundível do café fresco. O uso da frase, aliás dita e não respondida, a não ser pelos latidos e corrida preocupante de seu emissor ao meu encontro, carreira que me pôs em situação de alerta, se dilataram as pupilas e se inundou o coração de adrenalina, me vi ferozmente estático naquela soleira, enquanto a reminiscência de meu pai me trouxe imediatamente a recordação de outra caminhada, dessa vez não assolada por sede de café, mas por fome de proporções etíopes, adjetivo dito aqui sem a tenção de dizer que cheguei à beira de morrer de fome um dia, e que também não denuncia qualquer forma de desrespeito do autor para com as penúrias encaradas por esse, e tantos outros, povo africano, que fome é doída, e, embora me compadeça da miséria que suportam os etíopes, empresto de seu suplício apenas um adjetivo, não um juízo de valor. Na caminhada da fome de proporções bíblicas, que se é para ofender alguém, que seja o deus que se esqueceu de existir, abrindo espaço para as divindades satélite, caminhamos meu pai e eu aos estertores do que nós conhecíamos por fome, e que fomos nos contentar em comer uns pães duros, sobrados numa choupana, provavelmente esteio de pescadores sazonais à beira das lagoas que o Iguaçu que, nas estações favoráveis do ano, enche generoso para deleite da pesca preguiçosa, que junta peixes com as mãos nos acúmulos de água formado pelos transbordes do rio nessas épocas. Pães ressecados e seguramente insalubres que, no entanto, devoramos os dois com os narizes, a dentadas vigorosas que, imagino, dariam cabo de pedaços de madeira na falta daqueles pães velhos e petrificados, tamanha era a fome. Bons maus tempos que, me apercebo agora, estou reeditando solitariamente. O cão, que dá testemunho do velho dito de que, quem ladra, não morde, apenas se avizinhou, ressabiado e alerta, das minhas pernas, cheirou, mediu, calculou e se conformou com a minha invasão.
Na morada, me encontrei com Miguel e Rosa, casal que soma 45 anos de união e que nunca, em toda vida, encontrou razão para sair do município, algo que não chega a propriamente me surpreender. Talvez exceto pela saúde, porque é comum que a gente que vive isolada no interior recorra às cidades maiores para tratar-se, sobretudo na terceira idade, de sorte que me admira o casal não ter seguido a moda. Aposentados sob as bem folgadas leis que regem o negócio da aposentadoria rural, que no entanto não se verificam em forma proporcional no que tange à quantidade de dinheiro legada a quem assim se desobriga do trabalho remunerado, o casal vive do que planta, das galinhas que rareiam no galinheiro, de um ou outro porco comprado de vez em quando para engorda e abate, outra deliciosa referência que me lembra a minha avó, que falava ucraniano comigo, e que eu ia correndo visitar umas quatro vezes por dia, até que um dia ela teve um derrame, faleceu, e a infância nunca foi a mesma, porque a vó Ana era doce, a vó Ana era incrível, a vó Ana era uma força da natureza. A compra e abate dos porcos é uma oportunidade que ocorre normalmente atrelada a datas santas, quando convidam os filhos e netos todos para tomarem parte da festança. Do contrário, vão todos comungar das penitências e folgas nas deliciosas festas de igreja, que descontados os aborrecidos e inúteis ritos religiosos, todos dedicados ao elusivo altíssimo, que nunca, ao contrário dos santos dos GPS, disse uma palavra sobre para onde vou, são uma das grandes delícias ignoradas do interior paranaense.
Miguel quis saber quem eu era, o nome da minha família, o que fazia da vida e porque fora parar ali, parecia tão cansado, se tinha andado muito e, enfim, por que o tinha feito, sendo que a chave do carro, dependurada numa das alcinhas que suportam o sinto da bermuda, denunciavam que eu tinha meios de locomoção mais ágeis, confortáveis e menos cansativos que as minhas pernas para ir chegar até lá. Dei a todas as perguntas respostas sinceras e corretas, mas, em proteção a interesses meus, me vi forçado a omitir minhas razões para o passeio. Miguel não pareceu ter-se apercebido da estratégia e me deu a impressão de ser um daqueles sujeitos em quem se confia instintivamente e que simplesmente esperam o melhor dos outros, mesmo se eles forem estranhos, se dispuserem a andar quilômetros no meio do mato, mesmo que possuam automóveis a seus serviços.
O café não veio, mas eu não me importei, porque me engajei numa conversa interessante com o morador, de fácil conversa. De pele escurecida de sol, olhos castanhos, nenhum sinal de calvície e grande profusão de rugas, Miguel era magro e me explicava que trabalha bastante ainda, seja na propriedade, seja na de vizinhos e na de um dos filhos, que mora mais adiante, coisa de 12 quilômetros, seguindo a estradinha no sentido da serra, que ele garante, em tempo limpo, que não é o caso desse dia cinza, se avizinha vasta e calma, no horizonte, quase a abraçar a casa, porque os morros aqui fazem curvas. Falamos muito sobre a região, sobre os vizinhos, sobre as paisagens, os rios, cachoeiras e cavernas da área que, ainda bem, ninguém conhece. Miguel tentava torcer a conversa para o campo, as lavouras, a produtividade, as dificuldades, problemas de mão-de-obra, da vadiagem da juventude, que nas contas dele, não quer mais suar debaixo de sol e com enxada às mãos. Não pude, entretanto, amadurecer esses tópicos porque não conheço rigorosamente nada da vida do campo. Quando o assunto era as belezas da região, tive cuidado de não deixar transparecer meu entusiasmo porque minhas peregrinações por esses rincões têm como objetivo sondar a área, ensaio comprar uma propriedade por ali e gosto de conhecer tudo no entorno. Não quis que Miguel soubesse porque me preocupo que as minhas inclinações, sendo conhecidas pelos proprietários, acabarem influenciando os preços. De mais a mais, é inevitável, que nas minhas caminhadas acabe invadindo inadvertidamente uma porção de propriedades e não quero que circule por aí a informação de que um moço da cidade, que o cabelo não é mais grisalho, anda por aí.
A conversa ia tão boa e Miguel é um senhor de tão fácil diálogo que não dei por mim, e o tempo, esse que sempre passa por não saber fazer outra coisa, fez chegar a noite. A troca de horário, apenas há poucas horas, havia me pego desprevenido e, no meio do escuro, não poderia regressar ao mirante. Sem precisar dizer um ai, pedir nada e tocar no assunto, a dona Rosa me fez lembrar que há quartos de sobra na casa, que ao contrário do que o ângulo em que vira o casarão pela primeira vez quando da minha chegada, é grande e que todos os três quartos que, hoje, sobejam foram dos filhos do casal em algum momento. Ainda antes de Miguel e Rosa comprarem a área quando recém-casados, a casa já estava em pé porque fora morada de uma fazenda, antes bem maior, mas que foi sendo engolida pela necessidade de gerações e gerações de descendentes de seus fundadores em repartir heranças, apaziguar brigas de famílias e dar ao termo êxodo rural o sentido que tem.
Gastamos as poucas horas da noite em que o casal idoso se dispõe a ficar em pé conversando mais, dessa vez sobre o passado. Rosa, percebi cedo, não tinha muito assunto para dividir comigo, embora eu tenha lhe perguntado sobre a comida da janta, um caldo de mandioca realmente saboroso, ensejo de dividir seus truques de cozinha e de tempero que, aparentemente, lhe deram enorme prazer. Mais tarde, na sala de estar, repleta de imagens de santos, um pequeno armário à janela e uma mesinha em que repousa um televisor de 20 polegadas que deve contar seguramente mais de 25 anos, as conversas foram amainadas porque a rotina televisiva do casal estava em plena marcha: Silvio Santos, aquele Fantástico genérico da Record e as intermináveis novenas, rezas e similares da Rede Vida que o deus inexistente gosta de se fazer lembrado e, aparentemente, me castiga porque descobri da sua farsa, e atinei com seus verdadeiros adversários, os GPS, a divindade feminina, que ao meu ouvido, diz para onde devo ir, quanto tempo vou levar para chegar, como devo proceder para chegar ao meu destino da forma mais rápida. Ao sinal de que iam os meus anfitriões dormir, não eram ainda onze horas, pedi licença para me retirar, tomei um banho e fui descansar no quarto que me fora designado.
Dormi um pouco mal, não nego de forma alguma, eu tenho certa dificuldade em me acostumar com lugares estranhos para dormir e sofro miseravelmente para descansar no calor. E por ter dormido mal, acabei levantando cedo demais, não era 5h30 da manhã, quando abri a porta do quarto, depois de um bom tempo acordado olhando para o escuro, cheguei à sala coberta de imagens de santos. Deixei, aos pés de nossa senhora porque a jovem fé do GPS e do santo sacro satélite ainda é imberbe demais para recrutar suas santidades, cinquenta reais como forma minha de dizer que apreciara a gentileza da acolhida, da sopa à noite, da conversa, da singeleza e gentil hospitalidade de quem não espera o mal nas pessoas. Não escondo que ir embora assim é incompatível com a acolhida, mas confesso que, completamente desperto e sem sono, me entediava profundamente e me angustiava esperar o casal se levantar para poder ir embora. Em direção à porta, me dei conta de que teria de destrancá-la e que não poderia trancá-la novamente do lado de fora, o que me fez hesitar: o cão que vira ontem, embora animado a latir a plenos pulmões, e a correr ao meu encontro de forma agressiva, não me parecia guarda suficiente para guarnecer a segurança do casal, já que depois da desabalada carreira, chegou-se aos meus pés, e antes de rosnar e interrogar de forma agressiva minhas intenções, simplesmente abanou o rabo e me pareceu, como outros cães que conheci, me olhar como quem sugere para irmos brincar de eu atirar coisas para que ele fosse busca-las: o bicho era pacífico, curioso, brincalhão e cheio de energia e nada na sua expressão me impunha o respeito que se deve ter para com um guarda - mas, quem sou eu para julgar as disposições do bicho, que pode apenas ter se afeiçoado à minha pessoa, que talvez toda essa simpatia esconda um aspirante à lobo, sanguinário, violento e vingativo, sedento de sangue e de presas afiadas a ameaçar intrusos? Estou longe de ser especialista em cães, à verdade, na vida, conheci três, mas gosto de pensar que com esses me entendi, que uma delas até me chamava para ir latir no gradio de outra casa e de outra vida, ou ao menos era assim que eu lhe interpretava, porque ela vinha me buscar, ia até a beira da grade, latia, e em seguida, me olhava como quem convida - nunca tive a coragem, ou a atenção, de lhe fazer essa vontade. No fim desse raciocínio, estava eu em pé diante da porta que, percebi, não apenas estava destrancada, como entreaberta. Ou o povo da roça, de fato, madruga de verdade, ou o casal se esqueceu de fechá-la. A porta aberta me deu o ensejo de fuga porque poderia fechá-la e arquitetar um plano: antes de sair e trancar a porta, abriria uma janela porque não só flagrara a inexistência de deus, como provaria a ele que sou ainda melhor, que vou abrir uma porta e uma janela. De fora, com a porta trancada, poderia colocar a chave tranquilamente sobre um balcão que repousa perto da janela e abriga a imagem da santa, guardiã dos cinquenta reais. Com a chave devolvida, é possível fechar, do lado de fora, janela e venezianas.
Pelo sim, pelo não, o descuido ou vestígio de que a segunda-feira nasce mais cedo no interior, foi a porta aberta que acabou me encorajando a sair e dar continuidade à minha fuga vespertina. Na saída, o dia já fazia alguma luz, e eu podia enxergar a estradinha por onde cortaria caminho, porque para andar pelo mato teria que esperar mais uma hora, e aí o casal estaria de fato acordado, e eu não gosto de despedidas, e não queria vê-los constrangidos, recusando o dinheiro que sei que será bem gasto e que, presumo, faria falta. A estradinha era, então, o melhor rumo para tomar em direção ao mirante onde deixara o carro, estacionado protegido no abrigo amplo e generoso do posto de gasolina, que vinha se tornando esteio das minhas andanças. Rematado leitor de thrillers de espionagem, sabia muito bem que minha frequência na região acabaria levantando suspeitas e, sem recurso, precisei abrir o jogo com o dono do estabelecimento: sou da cidade, gosto de mato, lembro de visitar a região tantas e tantas vezes quando era criança, penso em comprar uma propriedade por esses lados, talvez em breve, e estou investigando o lugar para saber se vem a calhar que o faça, quem sabe o senhor não teria algum endereço para me recomendar? Não no momento? Mas não tem problema, peço-lhe que seja discreto, no entanto, não quero influenciar a cotação do alqueire. E fique descansado, que quando for fazer uso do posto para guardar o carro, terei sempre o cuidado de avisá-lo e, escusado dizê-lo, pagá-lo pelo incomodo. Como se vê, quando fico com preguiça de carregar mochila, barraca e outros apetrechos que tais pelas minhas andanças, as excursões ficam bem mais caras: há o custo que me imponho pelo abrigo e o da segurança do carro.
Mas antes de chegar ao posto, uns 10 quilômetros de caminhada me esperavam. E antes de todos eles, vinham todos os metros que me separavam da propriedade e da estradinha. Livre da soleira da porta, e fazendo força para erguer a porta que, oprimida pela construção em madeira que vai vergando e sofrendo a ação do próprio peso e arranha o assoalho num urro medonho toda vez que gira nos engonços, me assaltou a preocupação da fome no percurso. Tomava todas as precauções para não denunciar minha fuga quando me peguei sobressaltado: e o cachorro?
Iria dar escândalo? Rosnar, me atacar, morder minhas canelas? Me fazer correr?
Como que para responder ao meu susto, o bicho que, dizem, pode farejar o medo, se achegou perto e começou a me cheirar, curioso e entretido. Não latiu, não rosnou, não lambeu, apenas ficou ao meu lado, olhando instigado e interessado. Para selar a paz promissora dessa abordagem discreta, lhe acariciei a cabeça e senti o calor oleoso da sua pelagem cinzenta. Estávamos os dois em paz e nosso contrato selado: não vamos acordar ninguém, que ainda é cedo demais e hoje é segunda-feira. Deixemos que durmam aqueles dois.
O cachorro, que não tive oportunidade de conhecer por nome até o momento, foi me seguindo conforme eu caminhava. Não sei se seu interesse era me escoltar ou, talvez, certificar-se de que eu estava mesmo indo embora, que não provocaria nenhum dano na casa. No percurso pelo carreiro que levava à porteira, guarnecida de um mata-burro, engenho definitivamente brasileiro e que eu não via há mais de 20 anos, me deparei com uma frondosa e carregada mangueira.
Dez quilômetros de caminhada se avizinhavam e minha garrafinha de água ia cheia, mas teria fome, e munido de canivete, decidi-me a furtar uma manga, que Miguel e Rosa me perdoariam a folga, tanto mais porque 50 reais davam-me o direito de abusar assim da boa vontade dos meus anfitriões, que a árvore vai carregada dessas frutas, é impossível que os dois velhinhos tenham apetite para tanta manga, ainda que vivam de geleias, sucos e tortas feitas da fruta, vai sobrar muita manga a apodrecer no chão. E na hipótese improvável de que colham a fruta e façam dela comércio, e digo improvável porque aí dificilmente o incomodo de trepar na árvore nessa idade se justifica, é só uma mangueira, e uma só mangueira vai gerar faturamento baixo demais para pagar o esforço e o risco, que quedas na terceira idade abreviam a vida do acidentado; mas, em todo caso, admitindo que Miguel guarde agilidade e firmeza de sobra para escalar a árvore e capturar as frutas para vende-las, podemos ficar tranquilos, para isso me sobejam os cinquenta reais confiados à guarda sagrada da nossa senhora ainda há pouco, que pagam bem essa minha fome futura de manga e, de certa forma, espero, indenizam a falta de educação e a tamanha liberalidade com que me decidi ao crime de tirar proveito daquilo que não pedira a ninguém. No fundo, nós somos capazes de justificar e racionalizar tudo, até mesmo o furto de uma manga.
Encontrei uma taquara feita para apoiar o varal e, munido dela, comecei a escalar a árvore para buscar a manga que sorveria no percurso em direção ao posto de gasolina. No lusco-fusco da manhã que chega com preguiça, subir aquela árvore foi algo trabalhoso, tanto mais que precisava levar comigo a vara e encontrar onde apoia-la sempre que galgava outro galho, ia em busca de patamar mais elevado, tentando no escuro quase total criado pela cobertura de folhas e galhos, divisar onde estavam as melhores mangas. Aos pés da árvore, intrigado, meu companheiro canino se deitara e, de vez em quando, dirigia olhares interessados para onde eu estava.
Enquanto escalava o melhor que podia as nodosas e umedecidas galhadas da árvore, o dia foi se amanhecendo. Não percebi os humores da casa que ganhava vida, da fumaça que se animara em escapar novamente pela chaminé, nos ruídos da madeira que estala sob o peso da morada que desperta para mais um dia. Só me denunciara o avanço da manhã a descoberta de que meu cúmplice canino fora, a trote acelerado, abanar o rabo com sofreguidão à porta da cozinha da casa, porque ouvem todo um universo de sons, vozes e ânimos os cães, fora para a porta onde certamente se planta todos os dias para esperar o primeiro contato com o casal com que divide seus dias. Feijão, faltou dizer que era Feijão o nome do cachorro, que embora cinza na idade adulta, nascera preto e com uma massa de pelos brancos na barriga, igualzinho ao grão, ia bater ponto à porta toda manhã porque era nesse horário que ganhava o primeiro carinho e a primeira refeição. Miúdos de galinha e restos da ceia eram o seu desjejum e, de súbito, minhas aventuras sobre a árvore lhe desinteressavam olimpicamente. Aos cães, nada mais interessa que a comida.
Enfim, eu chegara a um galho torcido na horizontal, a meia altura da árvore, onde podia me sentar com segurança, enquanto manejava a vara feito lança para alcançar a manga perfeita que, agora, na luz do amanhecer, seria fácil de interrogar aos galhos da mangueira. Embora a risco de ser surpreendido pelo casal a qualquer instante, decidi arcar com a vergonha de ter de me explicar por ser fujão e ladrão de frutas, porque me desanimava ser flagrado em processo de descida da árvore, me acabrunhava ter de me explicar e ainda dizer que desistira. Se vou precisar pedir desculpas e sustentar o olhar decepcionado dessa boa gente, que ao menos seja com uma manga nas mãos, que de fracassos eu ando farto, então para salvar esse de um falhanço total e esmagador, é preciso ir encarar a vergonha munido da manga. Justificamos e racionalizamos tudo, até mesmo os agravos. Com afinco, afastei folhas, olhei em todas as direções, mexi com as frutas interessantes e fui elegendo, uma a uma as minhas opções. Um quarto de hora depois, com o meticuloso exame realizado, me vi descoberto por Miguel, que acordara e terminara seu café, e dando por minha falta, viera, na companhia de Feijão, descobrir o que eu estava fazendo.
Miguel desejou-me bom dia, e se ficou incomodado com a minha indelicada tentativa de fuga na madrugada, dela não fez menção. Também não pareceu aborrecido com a liberdade que eu assumira de ir saquear sua mangueira e, com legítimo tom de curiosidade e surpresa na voz, veio, enfim, a questionar enquanto eu me contorcia e me desdobrava para me manter em pé, firme, e com força e mira suficientes para endereçar a ponta da vara onde queria, tudo parecia mais fácil antes de subir na árvore, agora me parecia que estava a um escorregão da queda, com risco potencializado por essa lança, que teria facilidade em me atravessar o abdômen, que forma estúpida de morrer, longe de tudo e de todos, roubando manga, aos 32 anos de idade: “mas o que o moço está fazendo aí em cima, a perigo de cair no chão, de se escorregar enquanto se equilibra e segura essa vara?” Expliquei que tinha me preparado para ir embora, mas que vi tantas mangas na árvore que decidira tomar uma para a caminhada.
- Sim, isso eu entendi, mas por quê?
- Para o caso de ter fome e são tantas, e tão maduras, na árvore.
- Mas... moço, elas caem sozinhas.
Ao chão, bastava olhar para o outro lado, o rosa das frutas ao pé das raízes da mangueira pontilhava as nesgas de grama e a terra.