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domingo, 17 de setembro de 2017

Felicidade pura

Essa nova janela de tempo prolongada de vida no interior tem me colocado em contato com uma antiga paixão: a astronomia. Venho lendo, estudando, observando e coletando novas impressões sobre essa ciência em virtude do céu que aqui, limpo, não é tão perturbado pelas luzes da cidade.

Mais do que olhar para estrelas, acompanhar o noticiário científico das descobertas, os podcasts e o que mais for, tenho renovado o já portentoso catálogo de documentários e vídeos sobre o tema. Investigando umas deliciosas transmissões ao vivo da Nasa, me deparei com essa pequena montagem:



O detalhe que mais me chama atenção no vídeo são as demonstrações de felicidade dos engenheiros e cientistas de cada missão bem sucedida. É felicidade pura, alegria que nasce de um feito que não diminui ninguém: ao contrário de uma comemoração de gol, por exemplo, o triunfo de quem manda sondas, robôs e rovers para um outro planeta não machuca ninguém, não representa infelicidade de outra pessoa.

Um dos compromissos que eu tenho comigo mesmo é de ensinar crianças, não necessariamente os meus filhos, esse carinho e essa sensibilidade para com a ciência. Se, um dia, uma criança escolher a astronomia, ou qualquer outra ciência em virtude dessa percepção do lado humano em cada uma dessas conquistas, eu terei sido uma pessoa feliz e bem sucedida.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Viagem no tempo

Se construirmos um telescópio suficientemente poderoso, aqui, na Terra, e um enorme espelho perfeito, posicionado a 22 anos-luz daqui, poderemos, no ano que vem, assistir ao vivo à chegada do homem na Lua.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Matemática explica meu gosto por Reckoner, In Rainbows e Radiohead

Tudo é matemático nesse universo em constante transformação. Para Newton, Deus era um grande matemático, noção essa que o puritano extraiu de seus princípios matemáticos e não houve o que o demovesse dela. Para Einstein, Ele não jogava dados com o universo. Já para o grego Euclides, o mesmo que inventou a geometria, havia uma relação muito profunda entre existência e os números. E sendo a arte aquilo que dá à existência timbre e permite ao artista a fuga da equizofrênia, nada mais justo que haver matemática em tudo que é belo, que todas as manifestações artísticas acabem transbordando matemática de uma forma ou de outra.

Tanto é assim que foi a Euclides que coube a descoberda do chamado Número de Ouro. Trata-se de uma razão universal em qualquer sólido que garante a ele proporcionalidade, fazendo-o agradável de se admirar. O Número de Ouro de Euclides, que é quase que insinto matemático, vem sendo usado nos últimos séculos como boa diretriz para artistas plásticos e para definir os gostos da cristandade. Seu valor é um número irracional - como poderia ser diferente? - 1,618 e foi obtido pela primeira vez quando seu descobridor se viu às voltas com o curioso desafio de solucionar uma questão, naquele momento, definitiva: qual é a proporção idela para se dividir uma reta em pedaços não congruentes? Chegou no tal número, que acabou sendo usado em tudo quanto é arte. Ele está na fachada do Paternon da Acrópole, por exemplo.

Todo o preâmbulo para dizer que encontrei o Número de Ouro de Euclides embutido numa música e num disco. Isso explica porque, em especial, a canção e o álbum me são tão caros.

A canção é Reckoner, o álbum é In Rainbows, a banda é Radiohead. Aos 2:49 de Reckoner, ponto que é precisamente o Número de Ouro do disco, se levar em conta o somatório da duração de todas as faixas, um coro irrompe cantando "In Rainbows" ao fundo. A referência, claro, foi proposital. Sim, eu sou frio e calculista a ponto de me atrair por simetria matemática até em música.

Interessante notar que, traduzindo, reckoner no bom português quer dizer calculista.

Muita gente ignora solenemente a canção que, no entanto, é precisamente um das minhas preferidas. Fico imensamente contente de ter tanto tempo livre, tanta cultura inútil e tanta inquietação para tirar de um gosto puramente subjetivo uma razão puramente matemática. Interessante descobrir tudo isso. De alguma forma, agora, parece que gostar de Radiohead, In Rainbows e Reckoner faz muito mais sentido.

Também é interessante considerar que esse tipo de refinamento estético, infelizmente, vai longe da efervescente, dizem, cena musical nacional, com seu irrefreável mais-do-mesmo temático e sonoro.

Qualquer um dos caros oito curiosos leitores pode, agora, ouvir Reckoner e concordar comigo a respeito da qualidade da música.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Finding our true bearings in the cosmos

Quem me cerca e não é cético, ou ao menos, tanto quanto eu, parece extremamente desafiado pela ideia de que eu devote minha vida e lucidez a traçar complicadas linhas de argumentação, que dêem sustentação à minha visão de universo, ou na frase de Carl Sagan de difícil tradução em português: "our true bearings in the cosmos". É esse "bearings" ali que desafia todo o pouco inglês que nunca soube. Um tiro de 12 (shotgun, pois não? Não! Abrasileiremos, o mais que pudermos, que já começamos o post com título em inglês, e isso não há de cair bem na minha campanha contra a terminologia inglesa em todos os nossos diálogos. Digamos, então, no mais brasilzão que pude, "um tiro de 12, dessas espingardas de matar viado na curva". Seria, pois, veado? Palavra que já não sei e tenho urticárias e resistência física à tracejar origens etimológicas, motivo pelo qual, rendo-me, e estabeleço que o dito popular referia-se aos sujeitos nascidos homens mas que, em dada circunstância, abraçam outra orientação sexual, transformando-se naquilo que o humor mais fácil do outro tempo, tão caro a mim que vivo de regar o passado de mortas flores, resolveu chamar de "pula-pocinhas". Não há nada mais viado que chamar quem quer que seja de pula-pocinhas) feita a digressão, voltemos ao texto. A frase do Sagan, pois, dá um belo de um balaço de espingarda de matar viado na curva no meu bem pouco lustrado léxico da língua saxônica que não vai mais, parece, dominar o mundo. O idioma, não o meu léxico, que modesto como tudo que é meu, não vai nunca se meter a besta. Dá para traduzir "bearings" para coordenadas, mas eu acho que perde sentido. Enfim.

Mas eu não sou ateu e racional integralmente e, não, zombar e fazer escárnio com religiosos não é sequer um hobby. Nem mesmo uma distração que justifique o tremendo esforço e paciências, se preparem para a hipérbole, bíblicas exigidas na tarefa.

É só um senso de justiça, um tipo de indignação. Eu, por exemplo, sai da escola com dúvidas bem razoáveis sobre o Big-Bang, sobre a existência do átomo. Sai da escola ponderando que as previsões de Nostradamus poderiam fazer sentido, que ninguém poderia claramente afirmar que astrologia não era real. Sim, eu era uma toupeira.

Toda vez que esgrimo deboche e comentários ácidos à quem dedica tanto tempo e sentimentos a entidades metafísicas inexistentes não estou sendo perverso, ou procurando dar vazão a um hobby, procurando brigas ou demonstrando ansiedade para exibir todo o conhecimento que colhi de livros de divulgação, destinados para leigos, nerds e curiosos em geral.

Pode não ser a melhor política no tema, mas é a minha forma de chocar idiotas e procurar fazê-los enchergar a razão. Descobrir um universo absolutamente fantástico de ciência, causa, efeito, fenômenos e beleza incrivelmente complexa e abandonar as trevas do deus que te castiga por um pecado, da crença de que fé transforma a suas perspectivas, ou do fato de que estrelas explodindo indiferentes a bilhões de anos-luz daqui têm qualquer coisa que ver com sua personalidade, mau humor sazonal, ou o fato de que você teima em comer fritura.

Eu sai da escola, onde deveria ter aprendido algo sobre ciência, tão ilustrado nos mistérios do universo como um monge franciscano. E, anos depois, mais iluminado no que tange aos nossos "true bearings in the cosmos", sinto um tipo de alegria indiferente que gostaria de extender a todos. Gostaria de poder apresentar esse admirável universo novo a todos. É um lugar fantástico.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Farsas

"Estrelas piscam".

"Não, elas não piscam".

"Uma vez disseram na escola que as estrelas piscavam no céu e os planetas não".

"É, disseram, mas nenhum dos dois pisca".

"Não é o que parece".

"Não piscam. São oscilações atmosféricas que distorcem a luz e dão a sensação de variação que você entende como piscar".

"Só estrelas piscam".

"Nenhum dos dois pisca. E a atmosfera não distingue planeta de estrela, portanto, de bater o olho, não dá pra diferenciar um do outro. A não ser que você saiba onde está cada um deles".

"Sempre achei que estrela piscava..."

"Mas não pisca, elas explodem em regime constante. Ja viu o Sol explodir um pouco menos e piscar?"

"... enfim, sempre achei que planeta não piscava e estrela sim. Sempre".

"Pois é, sua vida inteira foi construída sobre uma farsa".

domingo, 1 de abril de 2012

A ti mesmo

"Na vastidão, do espaço e na imensidão do tempo, é uma alegria eu poder partilhar um planeta e uma época com você, Annie". Esta frase não brotou de algum poeta apaixonado, ou do cancioneiro de gosto duvidoso. É uma breve dedicatória que consta num livro de ciência, redigido por um astrofísico, e que se debruça ao honesto exercício de especular e traduzir o universo de descobertas científicas ao homem comum. Gente como eu e você, curiosa a não mais poder sobre origens, destinos, possibilidades, desencontros e encontros de um lugar que chamamos de universo.

A bela dedicatória é um tapa na cara de quem vincula ciência com objetividade e falta de humanidade. Pelo contrário. Na constelação de luminares que chamamos de ciência, talvez, não por acaso, a que mais condense subjetividade seja a astronomia. Há quem diga que a astronomia é uma experiência constante de humildade e de construção de caráter - não há palco mais substancial que ela para colocar no lugar as vaidades, temores e crenças antropocêntricas do homem.

E há mais poesia na singela homenagem de um cientista que conheceu o amor balizado por limites de espaço e tempo, do que 90% dos mau traçados versos impressos hoje em dia. Há mais sentimento em concluir de que somos uma manifestação do universo e, portanto, uma forma dele conhecer a si mesmo, do que boa parte das músicas que empolgam a gente ligada na "cena". Não que eu vá julgar gostos pessoais.

Preciso sempre render tributos ao pouco que sei, ou julgo que sei, de ciência e à figura de Carl Sagan, que me levou a pensar que nós, feitos de poeira de estrelas, como ele gostava de dizer, somos também uma forma do universo amar a si próprio.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Desmotivacional do amor

Nunca subjugue seus impulsos amorosos. Viver com o fardo do arrependimento de uma aventura é ainda mais saboroso que resistir ao peso dos anos amargados pelo remorso da ação não tomada, da palavra não dita, do email não enviado.

Nunca cale o amor no fundo de si. Faça com que frutifique, ainda que em lágrimas suas. O amor é o que nos move, resgata o que há de bom em nós, dignifica nossas existências, torna o humano ainda mais humano. O amor, as lágrimas do amor, sublimam o que há de mais belo no homem. Não se acanhe de chorar por amor de alguém.

Mas se possível, tome providências para que as lágrimas sejam delas, aquelas vadias.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Discordiano e desmotivacional

Segundo a astronomia, há um relevante lapso de tempo a se considerar quando observamos uma estrela. O que nos chega é a luz que elas emitiram há tantos e tantos anos. São fótons há muito expelidos que nos tocam em nossa retina. O lapso que vale para os astrônomos, vale também para os mais distraídos e sonhadores quando fazem um desejo para uma delas.

Em geral, elas estão a centenas de milhares de anos de distância. Então, é preciso considerar, que ao fazer um desejo a uma estrela ela já pode estar morta.

Assim como todos os seus sonhos.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Design inteligente

Fanáticos religiosos importunam a todos com a sua concepção de que o nosso universo é fruto da criação inspirada e precisa de alguma divindade. Inclusive têm a pachorra de classificar a criação como "design inteligente". Discordo.

Por exemplo, dos oito planetas que conhecemos, sete não podem suster a vida humana. Para além disso, a esmagadora maioria do universo é hostil à vida: em lugares assim você morreria instantaneamente por fatores físicos, como calor, frio, pressão e radiação. E, mesmo assim, em geral, os religiosos gostam de dizer que a "precisa sintonia das forças que desenham nosso universo é prova de existência de deus".

Além disso, estrelas estouram em supernovas e se você estiver na mira da ejeção de radiação gama, você será torrado. Nossa galáxia está em rota de colisão com Andromeda, galáxia vizinha. O universo, devido as leis da termodinâmica, está em vias de se resfriar até que tudo seja frio e escuro (isso se desontarmos outras possibilidades teóricas igualmente catastróficas).

Isso apenas no universo.

Centrando o foco na Terra, você precisa encarar o fato de que o design inteligente desenhou um planeta que oferece apenas 2/3 de sua superfície para os humanos habitarem. Para além disso, o planeta é assolado por fenômenos naturais e apresenta um eixo demasiadamente inclinado.

Prova da inadequação deste planeta à vida está o fato de que aproximadamente 90% das criaturas que um dia viveram no planeta estão extintas. Além de tudo, este planeta levou 3.5 bilhões de anos para criar vida multicelular. Estima-se que a Terra tenha 4.6 bilhões de anos. Não é, portanto, um projeto que esbanja eficiência.

E isso tratando superficialmente do nosso planeta.

Há, claro, nós, humanos. O triunfo da criação. Religiosos costumam vibrar ao reconhecer a genialidade e o verdadeiro assombro de engenharia e complexidade que permite o olho humano funcionar. Mas, alguém aí enxerga em infra-vermelho? Em ultra-violeta? Raio-X?

Todos estes termos significam espectros de luz que nos são invisíveis, mas que existem. São tão luz como a que emana da tela de seu computador agora. A rigor, enxergamos uma parcela vergonhosamente exígua do espectro de luz e somos, proporcionalmente, tão cegos quanto um morcego, levando em conta a quantidade de luz que nos escapa.

Além disso, precisamos nos alimentar com enorme frequência. Um jacaré, por exemplo, come um coelho por mês e sobrevive sem precisar se alimentar novamente. Uma criatura que precisa de cinco refeições por dia é eficiente? É fruto de um design inteligente?

Comemos, respiramos e falamos por um único buraco. Esta falha de engenharia garante que uma considerável quantia de nós engasgue e morra todos os anos. Golfinhos, por exemplo, possuem uma via para cada atividade: alimentação, respiração e comunicação.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Desistir é viver

Há uns dias eu disse a colegas de trabalho que viver e crescer é desistir das coisas. Que numa maternidade você encontra gênios em potencial. A rigor, cada bebê pode ser o próximo grande físico que dará respostas a origem de tudo, o biólogo que esclarecerá a origem da vida, o músico que irá significar um novo paradigma na música, na mesma medida em que Mozart fez. Mas que por uma série de razões e contingências, todos vamos desistindo na vida, abrimos mão de uma porção de coisas em que temos um verdadeiro talento, sequer descobrimos outros tantos e nos acostumamos com a vida mais ou menos lobotizada, a existência mais ou menos ordenada que a maioria das pessoas leva. Desistimos e nos agarramos naquilo que sobra.

Pode não ser a visão mais afirmativa da vida possível, mas quem disse que a vida precisa ser afirmativa? O bastante fato de você estar lendo este texto já é em si uma ridicularia estatística. O raciocínio foi recebido com riso, fui chamado de pessimista. Passaram uns dias, e a provocação frutificou nos incautos, que hoje dão razão a esta percepção que, a rigor, não acredito que seja minha. Devo tê-la visto, lido por aí.

E mesmo que seja fruto verdadeiro das minhas ponderações e observações, recuso-me a reclamar a paternidade do insight. Acredito que é senso comum estender nosso inúmeros fracassos, o longo processo de tentativa e erro, mais erro que tentativa em alguns casos, que acaba nos transformando naquilo que somos.

Se eu tivesse tempo de conversar mais com eles sobre o assunto, teria exposto que embora bem pouco triunfal, a ideia do fracasso como agente modelador da nossa vida não é, em si, algo triste. Se somos uma ridicularia estatística que veio a respirar e viver, então, de alguma forma, somos um triunfo.

Explico: remontando geração atrás de geração, a ordem exata de eventos e circunstâncias que garantiu a linhagem da qual você descende, a exata seleção de cada porção de DNA das mulheres e homens que deram origem a cada ancestral seu, o fato também assustadoramente raro de um amontoado de carbono e água pensar, escrever e ler é, em si, um triunfo da estatística sobre a matemática fria. As possibilidades de que você exista são ridículas: fosse pela vontade matemática, você não estaria aqui.

Mas isso não exclui o fato de que, mesmo improváveis, passemos a vida de desistência em desistência. No caso de o seu coração ser fraco demais para enxergar uma vida sem deus, redenção da alma e a dureza das desistências que constroem o seu futuro, ora, olhe para a improbabilidade da vida, da consciência e do absurdo do viver.

A vida, o universo e tudo mais

Quando você ouvir falar de "teoria das cordas", membranas e coisas do gênero e não conseguir condensar uma imagem mental da abstração de 10 dimensões espaciais, de membranas tridimensionais que dão existência, se não mesmo sentido, às coisas, lembre dessa imagem. É mais ou menos isso, mas elevado a um nível de complexidade e beleza que estouram os neurônios no duro processo de imaginar a coisa toda.

Meu antigo exemplo era de hélices girando, que possuem em suas extremidades, outras hélices girando. Todas elas rotacionando juntas formariam um sólido bizarro que é a tradução de múltiplas dimensões como instâncias da realidade. É, eu sei, meu exemplo é uma merda.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Custo/benefício

Se for verdade que um deus, qualquer que seja a divindade antropomórfica a qual você vote fidelidade, tenha criado todo este universo podemos concluir que lhe falta maior noção da escala das coisas e que ele não etende porcaria nenhuma de custo/benefício. Isso sim, senhores, é um ser inteligente:

terça-feira, 10 de maio de 2011

Táquions

Eu, arbitrariamente, escolhi a estrela de neutrons como a coisa mais bizarra do universo, ou ao menos a que mais me fascina e desperta curiosidade. Mas poderia ter escolhido os táquions. Ou, na verdade, não. Não há indícios de que existam, e nem mesmo de que não existam. Até aqui, ao contrário das estrelas de neutrons, táquions são construções ideológicas que fermentaram na vibração das cordas das teorias mais recentes sobre a natureza do universo e suas origens. É um recurso para explicar coisas que não se entende, mais ou menos na mesma proporção que, um dia, calhou se dizer que o trovão era a expressão da irritação de algum deus.

Mas, caso existam, táquions são incrívelmente bizarros. Seriam partículas que viajam com velocidade maior que a da luz. Pois é. Diria alguém que, não pode, nada vai mais rápido que a luz. Na verdade, nada acelera para além da luz. De repente, pode ser, uma partícula viaja mais rápido que a luz porque essa é a sua natureza, porque ela já se formou assim e contra isso nem Einstein pode nada.

Os táquions existiriam, então, num tempo próprio imaginário. Dada a particularidade de fluirem mais velozes que a própria luz, se você encarasse um em sua direção, não o veria. Só depois que ele passasse, você veria duas imagens indo em direções opostas: uma delas o rastro da trajetória percorrida pela partícula, algo como o "rastro de luz deixado pelo caminho", e de outro o rastro deixado pelo avanço inexorável de algo que pode viajar na velocidade do instante. É um Efeito Doppler anabolizado.

Caso existissem, fossem mensuráveis e controláveis, eventualmente, táquions poderiam significar avanços avassaladores na atual tecnologia. Computadores que trabalhariam quanticamente à velocidades superiores à da luz romperiam absolutamente todos os paradigmas científicos construídos em séculos, se não mesmo milênios de humanidade, em questão de horas. A rigor, um computador de táquions poderia processar coisas no passado, mais ou menos no sentido de que você poderia usar os táquions para mandar mensagens para trás na linha do tempo: praticamente, conversando com você mesmo no passado.

O tempo, então, não existe nos táquions. Experimentos da física quântica indicam que os táquions existem (e frise-se que indícios não são evidências). Se existem e carregam informações, era de se esperar que cá conosco tivessemos recados do futuro? Talvez já o tenhamos. Ou, mais provavelmente, os táquions viajam com velocidade maior que a luz, mas não a informação. Ou ainda, anda a informação no mesmo compasso, mas quando por aqui chegam, não aparecem, são indefectíveis, informação e táquions. E talvez, ora, que bom que o sejam. Não há muito proveito em se saber demais do próprio futuro, sobretudo nós, quando o melhor que fazemos é esquecer-nos do passado.

Se táquions existem, viajam assim, correm a todo o canto precedendo causas e efeitos. Cofio os bigodes e, cá comigo, pondero que se existem os táquions nestes termos, ora, pra quê Big Bang?

sexta-feira, 6 de maio de 2011

E Einstein tinha razão

É preciso certo distanciamento histórico para avaliar o diâmetro de alguns eventos. É o caso, por exemplo, do anúncio feito pela Nasa, divulgando os resultados da Sonda Gravitacional B - ou Gravity Probe B. Um tremendo dispêndio de recursos, engenharia, tecnologia, tempo e ciência. A sonda levou duas gerações de cientistas para ficar pronta - é de longe o maior programa espacial em termos de tempo - e tinha o pouco audacioso objetivo de medir e comprovar as teorias gravitacionais de Einstein.

É preciso tempo porque, embora, sim, tenha-se comprovado que a Terra distorce o espaço-tempo a seu redor a ponto de criar um vórtice nas suas imediações, por outro, esperava-se que a sonda fosse capaz de medições com 0,01% de margem de erro (para se ter uma ideia, a sonda foi capaz de medir desvios de pentelhésimos de arco: a escala foi de milhares de miliarcosegundos (um miliarcosegundo é a largura de um fio de cabelo humano visto de uma distância de 16 km). Na verdade, verificou-se que o número ficou mil vezes acima deste 0,01%. Nada que comprometa o experimento, mas aproxima muito seus resultados de tudo aquilo que já se tinha mensurado através de equipamentos muito mais simples e baratos.

Na coletiva que anunciou os resultados do experimento, Clifford Will declarou que "este é um resultado épico. Um dia isto será escrito nos livros como um dos experimentos clássicos na história da física". O experimento, independente do mérito de seus dados colhidos nestes anos, é um absoluto triunfo de engenharia e de simplicidade: a ideia foi mandar ao espaço giroscopios - a grosso modo, esferas perfeitas que giram livres num recipiente de vácuo com hélio superfluido - e apontá-los para uma estrela. Se Einstein estivesse errado, os giroscópios não oscilariam e manteriam-se eternamente apontados para a estrela de referência. Se, por outro lado, estivesse correto, a distorção espacial causada pela Terra perturbaria o movimento das esferas dos giroscópios.

O problema é escala e margem de erros. As esferas foram anunciadas como as quatro esferas mais perfeitas um dia produzidas pelo homem. E são. Fossem elas ampliadas até o diâmetro da Terra e teriam, no máximo, escarpas de 3 metros de altura. São virtualmente perfeitas. Mas mesmo esse grau de refinamento não foi suficiente.

Pode mesmo ser verdade. A exemplo de Eddington que, inglês, se embrenhou nas matas africanas em plena Primeira Guerra Mundial, para efetuar medições da órbita de Mercúrio e que vieram a comprovar os primeiros grandes saltos de Einstein, que de resto, era alemão, vivia ainda na Alemanha, adversária dos ingleses em campos de batalha. O trabalho de Eddington provou que Newton, inglês, estava errado. Era ruim para a propaganda de guerra que o maior físico de todos os tempos estivesse errado e tivesse que ceder passo, justamente, para um alemão.

O tempo passou, Einstein tinha razão em muitas coisas - são os princípios que descobriu que fazem, por exemplo, o GPS de seu automóvel preciso. Pode ser que este experimento abra veredas novas no avanço para se descobrir o que é a gravidade, o espaço e o tempo nisso tudo, a exemplo de Eddington e Einstein no princípio do século passado. Mas isso só o tempo vai nos dizer.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Demócrito

Demócrito era de Abdera, cidade que em seu tempo era o pano de fundo preferido das anedotas, mais ou menos como hoje nos é Portugal e seu povo para nós. Demócrito viveu em 450 a. C. Demócrito foi o pensador que determinou que tudo que havia no mundo devia ser constituído de partículas últimas e indivisíveis, os átomos (que, hoje, conhecemos de outra maneira, mas a conclusão de sua lavra de que as coisas são feitas de partículas ínfimas que não se pode dividir estava mais ou menos correta). Demócrito dizia também que no espaço deviam abundar outros mundos, uns habitados, outros tantos não. Que tudo que havia era material: ou átomos e vácuo e que nossa inteligência e capacidade de sentir derivava de complexas interações materiais, mas nunca da inspiração divina ou de alguma alma embotada em nós. Que somos frutos da evolução e que em tempos passados, neste mundo, devem ter vivido tantas e tantas outras espécies animais, que em virtude de sua falta de capacidades, acabaram extintas - uma notável antecipação da Seleção Natural de Darwin. Demócrito antecipara, também, a Teoria dos Limites, donde brota o Cálculo Diferencial e Integral, da qual depende toda a engenharia moderna, e por natural extensão, toda a nossa moderna tecnologia. O cálculo integral só seria descoberto mais de 1000 anos depois, no tempo de Newton e Leibniz. Fora até Atenas para apresentar-se à Sócrates, mas, tímido, sentira-se indigno de tamanho favor. Fora amigo de Hipócrates, aquele do juramento prestado por todo médico. Demócrito considerava as religiões de seu tempo más e obtusas, renegava superstição na vida cotidiana e, de resto, vindo de uma terra de anedotas, defendia que a vida era matéria para se usar em busca da alegria, felicidade e satisfação. Com efeito, Demócrito dizia que o riso torna o homem sábio, e seu legado de riso e satisfação influenciou o filósofo mais irreverente daqueles tempos de efervescência de ideias, Epicuro, donde nasce a ideia de epicurismo. E o festejado Platão queria todos os seus escritos queimados e esquecidos. E tanto fez por isso que conseguiu. Dos 73 livros que Demócrito escreveu, sobre os mais diversos aspectos da humanidade e da natureza, não sobrou nenhum. Tudo que se sabe sobre suas ideias são esparsos fragmentos, dos quais a maioria trata sobre a ética humana, que de resto, parece ter faltado ao Platão, artífice da destruição da obra de Demócrito.

Suas ideias, contudo, morreriam na mão de místicos e supersticiosos. Suas descobertas que levariam a matemática e engenharia a outro nível antes mesmo do nascimento de Cristo foram esquecidas. Não fossem e quem sabe hoje já não estaríamos nos estabelecendo nos mundos outros que, conforme Demócrito adivinhou, eram inabitados e infinitos a nosso redor. 

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Erastótenes

Erastóstenes foi um sábio grego, diretor da Biblioteca de Alexandria, que deduziu a circunferência da Terra. Lera num antigo papiro que, no dia 21 de julho - solstício - um pilar fincado na vertical na cidade de Siena, ao sul de Alexandria, não produzia sombra alguma. Erastóstenes, por seu turno, observou que à mesma hora e data, um pilar produzia sombra em Alexandria. Considerou que isso indicava que a Terra não poderia ser plana, que se o fosse, as sombras seriam iguais em tamanho e ângulo, não importanto o ponto em que fossem medidas. Se, por outro lado, a Terra tivesse qualquer outro formato, as sombras teriam tamanhos diferentes.

Sem preconceitos de ordem teológica e ideias pré-concebidas, Erastótenes intuiu que a Terra devia ser redonda. A associação provavelmente veio de se deparar com o formato circular no cosmos: Sol e Lua, por exemplo - e fora esta a ideia, a associação entre as formas, que passou pela mente de outro sábio, muito mais antigo que Erastótenes: Pitágoras. Ele supora a forma da Terra sendo esférica, sem, contudo, ter-se ocupado de calcular sua circunferência.

A ideia de Erastótenes, a partir da observação da diferença das sombras entre as duas cidades, foi, então, calcular a circunferência da Terra. Ou seja, quantos e quantos quilômetros perfazem uma volta na superfície do planeta. Para isso, ele precisava de dois números: o ângulo desenhado pela sombra da vareta à 21 de junho, meio-dia, em Alexandria e a distância de Alexandria a Siena. Contratou um homem que fizesse o percurso e contasse a distância. O valor da distância era de algo em torno de 800 quilômetros e o ângulo aferido foi de 7 graus.

Na imagem, considere as varetas de Alexandria e Siena com prolongamentos que se encontram no centro da Terra. A é o ângulo da sombra e o ângulo entre as duas varetas prolongadas: A = 7º. Considerando que a distância entre as duas cidades é de 800 km, Erastótenes concluiu que cada 7º da Terra valem 800 km. Os tais 7º são aproximadamente 1/50 dos 360º de uma circunferência. Ou seja, a circunferência da Terra devia ser igual a 50 vezes a distância de Alexandria a Siena. Então, 7º x 50 = 360º (aproximadamente). E, portanto, 800 km x 50 = 40.000 km!

Erastótenes errou por 72 km. O valor é 40.072 km na altura da linha do equador.

Entretanto, a humanidade preferiu o preconceito bíblico por séculos. Desmistificado apenas por Colombo, que também por intuição, precisou cruzar um oceano para mostrar que a Terra não era plana, que não era sustentada no lombo de algum Deus. E que o curioso e abnegado esforço de Erastótenes, fruto apenas do intelecto e imaginação, estava correto.

Não fossem as religiões e os preconceitos científicos e hoje, talvez, já teríamos colonizado as estrelas.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Antropocentrismo

Eu sou um amontoado mais ou menos ordenado de carbono, água, cálcio e um mosaico quase interminável de moléculas orgânicas chamado Tertuliano Máximo Afonso (não que a esta altura minha identidade seja um grande segredo para boa parte dos meus oito leitores, mas mantenhamos, o mais que pudermos, as aparências). Você é um conjunto de carbono, água, cálcio, moléculas orgânicas, mas com um rótulo diferente.

Muitos consideram essa compreensão da natureza humana degradante. Entendem que a visão desapegada de alma e subjetividade, em última análise, descaracteriza-nos como centros do universo, como triunfos da criação.  Eu, por outro lado, acho absolutamente fascinante que de um big-bang, de estrelas que explodiram e planetas que se formaram, possa ter saído porções de matéria capazes de se perguntar sobre suas origens, conjecturar sobre o que os forma e contemplar o que os cerca. 

Você não é o centro do universo

O que mais me aborrece, muito mais que ervilhas, cobradores, gente passional e fanáticos religiosos, são os geocentristas. Gente que procura sentido em tudo e crê, piamente, que o universo se dá pela nossa existência e acompanha a história desse pequeno e pálido ponto de luz azul.

terça-feira, 12 de abril de 2011

50 anos do homem no espaço

Hoje comemora-se - e sim, há o que comemorar - os 50 anos do primeiro voo espacial tripulado por um ser humano, a partir da base, então soviética, de Baikonur. A epopéia de uns poucos minutos de Gagarin, há cinquenta anos, meio século, expandiu os horizontes do ser-humano, levou nossa imaginação muito além do esteio e da segurança desse planeta que, revelaram as retinas de Gagarin, é azul.

Gagarin com sua pequena viagem ao redor do globo, perto demais para ter a concepção da insignificância desse planeta perante a vastidão cósmica, longe o suficiente para compreender a pequenez das ambições humanas, talvez tenha sido nossa primeira chance de nos entendermos com o universo. Nós somos feitos pelo universo, somos parte dele tanto como uma galáxia, somos feitos de matéria e energia que se manifestam em planetas, estrelas, explosões e buracos negros, e como conlcui Sagan, na poesia que lhe era peculiar e que todos invejamos, no fim das contas, somos uma manifestação da matéria e da energia, uma forma do universo compreender a si mesmo. Se o universo é um oceano, mesmo depois de 50 anos, apenas molhamos os calcanhares na água. E o primeiro passo foi dado por Gagarin.

Mas, com efeito, há muito que a exploração do espaço pela nossa espécie carece de esforços. E investimentos. Os EUA desmobilizam paulatinamente sua frota de ônibus espaciais, admitindo o gargalo tecnológico em que as naves se transformaram e a verdade é que ninguém na Nasa sabe muito bem para que lado caminhar. Os russos usam exatamente o mesmo modelo de foguete e capsula que usaram com Gagarin, a Shoyuz e a Vostok, apenas aprimorados com a tecnologia que expandiu-se a valer nas últimas 5 décadas. A exploração espacial precisa não de uma corrida, mas de impulsos, de um novo Von Braun e de um Korolev. A gravidade, que ironia, é a força fraca das leis universais, mas é mais cruel, porque insiste em segurar os sonhos e devaneios da nossa espécie na Terra. Vencer a gravidade ainda é tarefa para explosões e dispendiosos e enormes aparelhos, cujas concepções datam da própria invenção da pólvora e dos primeiros foguetes balísticos da Segunda Guerra.



Mas além de saltos tecnológicos, precisamos também de uma nova mentalidade. Gasta-se muito, mas muito mais, com orçamentos militares do que com exploração espacial. O progresso tecnológico em nosso sistema aparece onde há recurso humano e massivos investimentos financeiros. Ir ao espaço, à luz da compreensão crescente da nossa verdadeira posição no cosmos, o que somos, significamos e importamos ao universo não é ir embora ou dar vazão a desnecessários instintos nômades e exploratórios. Ao irmos às estrelas não estaremos indo embora, estaremos voltando.

Hora de viajar
desbravar um novo universo
molhar as canelas no oceano cósmico
vibrar nas supercordas um novo verso
É hora de viajar
vislumbrar o que há lá fora
De correr a todo canto
porque ao irmos às estrelas
não estaremos indo embora
estaremos voltando.



quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Debacle

Hoje eu finalmente entendi o Efeito Doepfler e a Relatividade Geral.

E daí?