segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Rádio: Rogério Skylab - Moto-serra

O poeta Skylab. Morro de rir na parte de "Vênus de Milos":


Hai-kai nº 21

Não me levo a sério
um pouco clichê
verso ruim e mistério.

Dizem que o haikai tem certas regras. Uma delas é fugir do "eu". E acabei de quebrá-la. Outra é que, via de regra, os três versos devem formar uma imagem na cabeça do leitor e, embora não necessariamente, devem preferencialmente estar vinculados, portanto, à natureza, coisa que eu dificilmente faço. Me esforço, mesmo, para respeitar a contagem de sílabas nos versos, sempre 7-5-7, ou 5-7-5. De resto, avacalho completamente com o conceito de haikai e mesmo assim os chamo de haikai por pura vontade de se prevalecer dessa nobre arte oriental. E porque os versos, embora lamentáveis, são meus e os chamo como quiser.

Quatro versos e nenhuma novidade

O tempo é tudo
e nada também
O tempo é um velho
e tudo que me convem.

Hai-kai nº 20

Formicida com gelo
porre de vida
vomitei versos e medo.

Hai-kai nº 19 (sem métrica)

Eu quis compor um haikai
sem natureza
outro verso de incerteza.

Rádio: Screaming Trees - Sworn and Broken

A melhor música da melhor banda de Seattle. E ponto.



"... another promise sworn and broken".

domingo, 29 de novembro de 2009

Dos males, o maior

O grande mal de ler poesias é acabar apaixonado por elas.

sábado, 28 de novembro de 2009

Rádio: Placebo - Every You, Every Me

Só para corrigir uma injustiça e postar, enfim, uma música do Placebo:


sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Aforismos - Arrependimento

Eu não me arrependo. Eu dou risada do fatídico.

Eu sou foda. Às vezes.

Rádio: Wander Wildner - Amigo Punk

"O meu destino é Woodstock, mas eu chego".


Cicatriz

Quando penso em você, pesa-me no peito
algo que faz com que meus olhos risquem minhas veredas
corram o espaço atrás de outras estrelas,
e voltem a cismar porque nada há que dê jeito
e transforme a incerteza das minhas alamedas
em rumos novos, plenos de certezas,
onde se consumam em pavimento todas as mentiras,
endireitem-se as curvas do destino, e tudo seja perfeito:

Não vivo mais pela beleza. Troco perfeição por verso concreto,
Me renego e me bato por este meu coração abjeto.
Ondeio como seus cabelos lisos ao vento, a ignorar as minhas revoluções
De resto, está tudo dito, esqueço do nosso adeus em seu gesto,
corro com meus olhos pelos meus versos de singeleza,
procuro nas entrelinhas qualquer coisa nova, onde possa expiar toda a minha tristeza.

Ou coisa parecida.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Rádio: New Order - Blue Monday

Não sou fã de muita coisa dos anos 1980. Praticamente detesto quase tudo. Sempre que penso nessa década lembro de coisas desagradáveis, como sintetizadores exagerados sobrepondo a voz, o som propriamente dito, Dragon Ball (desenho infame), A-Ha, Duran Duran, Bauhaus, enfim, você sabe do que estou falando. Aliás, tirando algumas comoções políticas, bons thrillers do Forsythe no período que marcou a derrocada da URSS, uma década excepcional para a Fórmula 1, as trilogias "De Volta Para o Futuro" e "Indiana Jones", "Caverna do Dragão", os anos 1980 foram um pé nos ovos e o melhor que fizeram foi mesmo terem acabado.

Escrevi tudo isso para me contradizer aqui e postar essa música, uma das poucas do período que eu gosto. E nem lembro porque, acho que foi trilha sonora de um jogo de video-game, e eu gostei. Tenho dessas coisas. E como postar músicas é minha muleta preferida quando ando sem assunto, aí vai, enfim "Blue Monday" do álbum "Power, Corruption & Lies" (em libérrima tradução, "Poder, corrupção e mentiras"), com o "New Order", que era o que hoje chamaríamos de hype, e foi formada pelos ex-integrantes do "Joy Division", banda que se dissolveu em virtude do suicídio de seu vocalista, imbecilmente dividido pelo amor de duas mulheres:


quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Rádio: Louis Armstrong - We Have All The Time in The World

Nós temos todo o tempo do mundo, como lembra Louis Armstrong. Ou ao menos até que chegue a morte, ou coisa parecida, e nos arraste moços, sem ter visto a vida, conforme não deixa de nos avisar o sabido Belchior.


Toyota não é de nada

E a Toyota, que vem a ser, assustem-se leigos, a maior montadora de automóveis do mundo, anunciou hoje o maior recall de todos os tempos. Serão convocados 3,8 milhões de veículos (!) nos EUA porque, e aí é reside o absurdo, o pedal do acelerador pode enroscar nos tapetes do veículo, e os gabaritados motoristas norte-americanos são incapazes de lidar com essa assombrosa contingência, podendo, portanto, emborrachar-se ridiculamente nos muros, postes, árvores e outros Toyotas que abundam no país. Situação desagradável, porque os perspicazes motoristas acabariam tendo ganas de processar a fábrica nipônica que, naturalmente, se sentiria desconfortável em arcar com intermináveis indenizações.

Lendo mais sobre a notícia, descobri que a montadora irá retirar do mercado uma picape que pode ter o chassi corroído pelo sal (!!), situação que pode fazer com que o pneu estepe caia, e cause as mais complicadas situações para o cidadão que vem atrás, dirigindo algum SUV esdruxúlo, ou um daqueles sedãs enormes, gastadores e desajeitados, tão caros ao "american way of life". Além disso, os sempre precavidos japoneses conceberam um chip que cortará o motor quando os sempre evoluídos, competentes e astutos motoristas dos EUA pisarem simultaneamente no acelerador e no freio - manobra conhecida como "punta-tacco" e extremamente utilizada, além de importante, no mundo do automobilismo de competição - mas bastante ignóbil e deslocada num veículo comum de rua.

E, sim, pasmem, a Toyota é a maior montadora do mundo.

Eu não queria ser o FHC

Às pessoas com mais discernimento não tem escapado que recentemente Lula tem recebido líderes do Oriente Médio, aquele enorme balaio de confusões étnicas, religiosas, diplomáticas, sociais, culturais e militares. Não vai ser Lula que dará jeito nessas querelas milenares, por certo, mas se ele der um passo que seja de progresso em relação a isso, impondo mais uma vez a diplomacia brasileira no cenário mundial, e a sua figura como estadista, tenho certeza, passará pela cabeça empoada de FHC a ideia de um melancólico haraquiri.

Filmes nos Campos Gerais

Quando me espevito com alguma curiosidade, vou a fundo, perco sono e tempo, mas não descanso até ter descoberto tudo que me interessa. Foi assim com o Programa Apollo uns anos atrás, com a Segunda Guerra Mundial, com a trajetória de Churchill e com a derrocada das aristocracias européias por advento da Revolução Francesa. Sou um sujeito muito curioso. Muito curioso.

E eis que "D'gajão Mata Para Vingar", filme estilo western-spaghetti de José Mojica Marins, bateu-me à porta meio inusitadamente. O filme foi rodado em Porto Amazonas, no interior do Paraná, que é um lugarejo de história muito rica - que me valeu o ensejo de um livro-reportagem - cidade pequena, onde o tempo parece ter se esquecido de passar, e que possui um passado impressionante, presente melancólico e futuro sombrio. E onde eu nasci.

Fui mordido pela ânsia da curiosidade, e que tinha um bicho específico, sempre mencionado nos romances de capa e espada de Alexandre Dumas que fiz questão de esquecer, justamente agora que me cabia muito bem citá-lo eu. O fato é que a curiosidade me tocou e que já fiz meus progressos na pesquisa.

A curiosidade, depois de exaustivas e sucessivas googladas, me levou a saber que D'gajão é o terceiro filme de uma triologia, composta de "A Sina do Aventureiro", de 1958 e que ainda não logrei exito em descobrir onde foi rodado, seguida por "O Diabo de Vila Velha", este de 1965, e que filmou-se em Ponta Grossa, aproveitando o cenário oferecido pelas escarpas de arenito do Parque Estadual de Vila Velha. "D'gajão Mata Para Vingar" é o terceiro filme, filmado em 1972, a exemplo do que é "Três Homens em Conflito" para a trilogia do dólar, de Sérgio Leone, que é, aliás, o diretor e filmes, que cunharam o gênero de western-spaghetti, em razão de serem bang-bangs rodados na Sicília italiana durante os anos 1960, ainda que contassem com atores e produção norte-americana. Clint Eastwood apareceu nessa trilogia, que vos recomendo. Ennio Morricone também, aliás (ouça aqui a trilha que marcou "Três Homens em Conflito").

E se eu soubesse disso há uns anos, talvez, fizesse outro livro, com a mesma Porto Amazonas de fundo. Mas em lugar de me debruçar sobre a história da cidade, centraria o foco nessa produção esquecida do cinema nacional.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Aí sim fomos surpreendidos novamente

E eis que eu tropecei em D'gajão mata para vingar. É o nome de um filme rodado por José Mojica Marins, o nosso conhecidíssimo Zé do Caixão, que se diz western - o filme, bem entendido. A glória maior dessa nobre peça da sétima arte reside na ventura que esta tem de ter sido rodada, no distante ano de 1972, em Porto Amazonas, Paraná, localidade onde eu, mais ou menos 12 anos depois, entrava no mundo urinando no obstetra que era, na verdade pediatra - dizem as memórias de gente que testemunhou o ocorrido que fui motivo de gáudio em todo o hospital, por conta de ter nascido roxo, quase sufocado (por mais alguns instantes e eu teria ainda mais graves debilidades mentais), tudo resultado da inépcia de um cidadão que não era obstetra de ofício e estava ali para tapar buraco, provisóriamente, como mais ou menos tudo nessa minha vida. Sendo, enfim, o jato de urina a minha primeira realização no mundo que suportamos todos, prestou-me o mijo como atestado de que eu nascia capaz de uma ou outra mobilidade e que, com um pouco de sorte, capaz de todas, como veio a se verificar mais tarde, mas que não podia se aferir com certeza naquele momento, o que livra por completo tanto a maternidade como o distinto esculápio de complicações legais e sina de profissional de meia pataca.

Mas não tergiversemos. Falemos de D'gajão: de hoje em diante começa aí uma nova cruzada que dará tino a minha existência: encontrar o filme, assisti-lo e dizer se, enfim, além da glória de ter sido rodado nos Campos Gerais, em Ponta Grossa e Porto Amazonas, há na fita algo mais a ser mencionado.

MSN

Então, não sei se faço a viagem com a galera da minha turma depois do fim das aulas.

Acho que você não devia ir, há três anos de faculdade pela frente, de repente você pode curtir mais o passeio padrão da família.

Ah, mas acho que seria legal ir, conhecer um lugar novo com a galera, eu poderia até conhecer o amor da minha vida lá!

Mais um bom motivo para você não ir.

Amanhecendo

Sonhei que um dia eu amanhecia,
que da tarde de que eu fugia
restava só um sabor adocicado,
de cada verso meu que não foi provado
Sonhei que numa noite tudo foi perfeito.
E que pra tudo deu-se um jeito,
houve espaço na sala para uma nova tentativa
e que do coração só ouvi soluços, desses que a gente cativa.

Parece que é difícil, mas é

Alguns versos parecem tão fáceis de fazer. Mas alguém precisa fazê-los para que percebamos isso:

"De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo."

Vinicius de Moraes.

Considerações sobre o Demosul 2009

A lista de considerações abaixo é fruto de um fim de semana em Londrina, num festival de rock, com grandes amigos.

Observação primeira:

- Caso alugue um carro, considere que custos vinculados a confortos que você provavelmente entende como frescura, como direção hidráulica, ar condicionado e um par de portas extras na porção final do veículo, podem fazer uma grande diferença ao colocar oito pessoas dentro de um Clio 1.0.

- Na hipótese de expremer oito pessoas dentro do carro certifique-se de que uma delas esteja com as chaves do mesmo em mãos.

- Subidas e motores de pouca cilindrada não dão boas experiências. Sempre tenha isso em mente.

- Certifique-se de que alguém saiba, mesmo, como sair da cidade.

- Se for falar com Rogério Skylab no intervalo de algum show, lembre que ele é mais baixo que você e que, portanto, não vai te ouvir.

- Nunca subestime o poder de sedução de seu amigo mais bonito: se houver uma cachorra por perto, é para ele que ela dará atenção. Vale para mulheres também.

- Dormir ao relento é muito underground. Dormir no supra citado Clio 1.0 é muito mais inteligente. Dentro do carro, com todo o aperto, há a certeza de que chuva nenhuma chega. Lembre disso.

- Conhecendo os amigos de seu amigo mais non-sense você acaba entendo porquê ele é non-sense.

- Caso vá a um bar que se chama "Pé na Cova", justamente porque fica em frente a um cemitério, sob hipótese alguma, vá com camisas da seleção argentina de futebol. Você não fará sucesso com a coleção de diplomatas, bacharéis, filósofos e engenheiros que compõem a sociedade do lugar.

- Via de regra, tudo que sobe, desce. Lembre disso ao jogar uma lata vazia de cerveja para cima.

- Instrua seus amigos menos praticantes de direção que o serviço "Sem Parar" dos pedágios existe e há uma carrada de bons motivos para não tentar passar por eles com um carro alugado, sem direito ao serviço e com a carteira de habilitação vencida.

- Você já sabia disso, mas não custa lembrar: seguranças de festivais de rock não têm senso de humor.

- Coca-cola não é sorvete.

- Quando seu amigo Gafanhoto Jr. estiver na boléia, ele se perderá. Quando ele se perder, diga "cara, faça a volta no posto". Não importa se há um posto. Ele vai acabar encontrando um e, ainda assim, entrará na rua errada.

- Em momentos de grande esturpor, desespero e que tudo parece dar errado, remate a situação com: "aí sim fomos surpreendidos novamente".

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Epitáfio de aniversário

Meus dias de festa não são os mesmos
procuro seu sorriso nos meus,
não encontro seu jeito adocicado
que vinha me lembrar de quantos anos já são meus.

Ironia socrática

Fui o homem que sabia demais.
Gritei aos quatro ventos todas as certezas fundamentais,
desandei a duvidar das verdades, das poesias,
padeci nas desgraças do amor, a maior de todas as heresias.

Hoje resta o sujeito que não sabe de nada,
desconfia de tudo, cofia a barba, dá de ombros.
Hoje não digo que sei, hoje digo que desconfio e versejo,
e que floresce em mim vida em meio aos escombros.

E poesias ruins em meio as desconfianças,
alívio às memórias e saudades mansas
que me acometem com o menor dos ensejos,
e que me lembram de esquecer de tudo,
correr o mundo, rimar e ser mudo,
porque de resto, hoje, nada sei,
digo apenas que o que deixei guardado por aí,
em algum caminho descaminhado,
em algum recesso ignorado
onde meu suspiro fez-me tropeçar,
onde sorri, olhei, caí

é tudo aquilo que soube como ninguém.

Digo que hoje, à luz da dúvida
e da certeza de que nada me convem
padecer de dúvida e de medo 
é moléstia da qual só se levanta uma vez.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Sujeito de sorte

Belchior chegou chegando em minha vida há uns anos, dizendo tudo, falando muito, rimando soberbamente e dando tino e sentido, prumo e sabor, a tanta coisa que guardamos aqui dentro e que, destituídos da veia poética, não sabemos expressar. Belchior me fez um sujeito de sorte por tê-lo como porta-voz.

Selecionei trechos diversos de pura poesia, em que o cearense bigodudo e sumido fala por mim. Fala, aliás, por todos que um dia vestiram calças, se apaixonaram e, evidentemente, se decepcionaram. Porque uma coisa obriga a outra, afinal de contas.

"Tenho sangrado demais,
tenho chorado pra cachorro,
ano passado eu morri
mas esse ano eu não morro".
(Sujeito de Sorte)

"Eu sou apenas um rapaz latino-americano
sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior".
(Apenas um Rapaz Latino-americano)

"Não quero o que a cabeça pensa, quero o que a alma deseja".
(Coração Selvagem)

"Amar e mudar as coisas me interessa mais".
(Alucinação)

"Eu tenho medo e medo está por fora
O medo anda por dentro do teu coração
Eu tenho medo de que chegue a hora
Em que eu precise entrar no avião".

(Pequeno Mapa do Tempo)

"E vou viver as coisas novas, que também são boas
o amor, o humor das praças, cheias de pessoas,
agora eu quero tudo, tudo outra vez".
(Tudo Outra Vez)

"A noite fria me ensinou a amar mais o meu dia
e pela dor eu descobri o poder da alegria
e a certeza de que tenho coisas novas
coisas novas pra dizer".
(Fotografia 3x4)

"Tenho 25 anos de sonho e de sangue
e de América do Sul
Por força desse destino um tango argentino
me vai bem melhor que um blues".
(À Palo Seco)

"Como é perversa a juventude do meu coração
que só entende o que é cruel, o que é paixão".
(Paralelas)

"Bebi, conversei com os amigos ao redor de minha mesa
não deixei o cigarro se apagar pela tristeza
é sempre dia de ironia no meu coração".
(Não Leve Flores)

"No centro da sala,
Diante da mesa,
No fundo do prato,
Comida e tristeza.
A gente se olha,
Se toca e se cala
E se desentende
No instante em que fala.
Medo, medo, medo..."
(Na Hora do Almoço)

"E eu ainda sou bem moço
Pra tanta tristeza.
Deixemos de coisas,
Cuidemos da vida,
Senão chega a morte
(ou coisa parecida)
E nos arrasta, moços
Sem ter visto a vida
Ou coisa parecida".
(Na Hora Almoço)

"Já faz tempo
E eu vi você na rua
Cabelo ao vento
Gente jovem reunida
Na parede da memória
Esta lembrança
É o quadro que dói mais..."
(Como Nossos Pais)

"Quando eu não tinha o olhar lacrimoso, que hoje eu trago e tenho;
Quando adoçava meu pranto e meu sono, no bagaço de cana do engenho;
Quando eu ganhava esse mundo de meu Deus, fazendo eu mesmo o meu caminho,
por entre as fileiras do milho verde que ondeia, com saudade do verde marinho".
(Galos, Noites e Quintais)

"Não fico mais nervoso
Você já não grita
E a aeromoca, sexy
Fica mais bonita..."
(Medo de Avião)

"Não sou feliz,
mas não sou mudo:
hoje eu canto muito mais"
(Galos, Noites e Quintais)

"Eu tenho medo de abrir a porta
Que dá pro sertão da minha solidão"
(Pequeno Mapa do Tempo)

"Mesmo vivendo assim, não me esqueci de amar
que o homem é pra mulher e o coração pra gente dar,
mas a mulher, a mulher que eu amei
não pôde me seguir não".
(Fotografia 3x4)

"Você não sente não vê
Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo
Que uma nova mudança em breve vai acontecer
O que há algum tempo era jovem novo,
Hoje é antigo
E precisamos todos rejuvenescer"
(Velha Roupa Colorida)

"Em cada luz de mercúrio
vejo a luz do teu olhar
Passas praças, viadutos
Nem te lembras 
de voltar, de voltar, de voltar".
(Paralelas)

Rádio: Belchior - Como Nossos Pais

"...Na parede da memória
esta é a lembrança é o quadro

que dói mais...".


"Garrett, você é um bom amigo"

Eu achava que o conceito de amizade não teria novidades e que do assunto eu sabia o suficiente. Descobri, contudo, que sabia bem pouco ao sentir na pele as comoções que sentiu um amigo e ver que, no fim das contas, o bom de ter amigos é mesmo ter em quem se apoiar e confessar nossas misérias. Sou feliz com os amigos que tenho e não os troco por nada. Nada mesmo.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Um cavalo... com chifres?

Eu dizia que no post abaixo não estava as mais engraçadas gravações do rádio da F1. E não estava errado:


Top 5 das comunicações entre equipes e pilotos da F1

É o chamado "team radio" da F1, que em observância ao meu carinho pela digna e bela língua portuguesa precisei traduzir no título enorme que apelida este post. Fosse literal, "team radio", em libérrima tradução, é rádio do time, e ninguém entenderia porcaria nenhuma, como provavelmente não entenderá de todo jeito, primeiro porque na F1 fala-se inglês, segundo porque rádios amadores chiam, depois porque não dá para ser claro e eloquente com um capacete amordaçando o sujeito a 300 por hora, no caso, evidentemente, dos pilotos. Os engenheiros são incompreensíveis por inveja.

Tropecei nessa seleção de momentos e, levando em consideração que fazem já duas eras glaciais que não falo de Fórmula 1 a título de espantar metade de meus 7 leitores, resolvi que vinha bem a calhar a postagem. Provavelmente estes não são os cinco melhores flagras do rádio na F1, mas são aqueles que podemos perscrutar, então nos conformemos. Segue abaixo o vídeo e, posteriormente, uma breve explicação de cada fala e momento, assim todos podem entender a piada. Ou não.



1- Jean Todt e Rubens Barrichello: o francês narigudo vestido de vermelho é o Todt, que na época, 2001, era diretor esportivo da equipe Ferrari, e recentemente, foi eleito presidente da Federação Internacional do Automóvel, a FIA, que tem sede em Paris, na "Place de la Concorde", de tão amarga lembrança para as aristocracias europeias, e que a competência jornalística brasileira adora chamar de "Federação Internacional do Automobilismo", embora não seja o caso, posto que a instituição cuida de tudo que anda sobre 4 rodas, desde segurança em rodovias a normas de redução de emissão de poluentes, e não apenas o campeonato mundial de F1. Diz ele, Todt, na gravação: "deixe Michael (Schumacher) ultrapassar, pelo campeonato, Rubens. Naquele momento da corrida, há uma volta do fim, Barrichello estava em segundo lugar e Schumacher era o terceiro, a troca de posições foi feita. Um ano depois, no mesmo circuito, outra troca aconteceu. Só que nesta segunda ocasião ninguém gravou a conversa e Barrichello abriu mão de uma vitória, coisa não muito bonita e defensável.

2- Felipe Massa e Rob Smedley: a piada é que no GP da Malásia desse ano caiu um aguaceiro sem precedentes, tão forte que a corrida foi interrompida e declarada finalizada em face a água que caía torrencialmente e que impossibilitava que os carros singrassem o asfalto, porque antes disso, deslizavam na lâmina d'água, e acabavam melancolicamente atolados nos gramados ou nas cada vez mais raras caixas de brita, o que, certamente, é bastante desagradável, porque fosse esse o destino de todos os competidores e assim não haveria corrida do mesmo jeito. Na incerteza de a corrida recomeçar ou não, Massa pede energicamente pelo rádio viseiras claras, transparentes, porque com as que estava não enxergava nada. O engenheiro responde "Felipe, baby, stay cool...": "Felipe, bebê, fica calmo... relaxa".

3- Juan Pablo Montoya: durante o Grande Prêmio da Bélgica de 2002 Montoya suou para ultrapassar Raikkonen e desabafou dizendo "fuck you, Raikkonen, what a funcking idiot". O que, presumo, dispensa tradução. E que para manter ilibada a imagem deste espaço não tenho escolha, senão omitir que, em libérrima tradução, o colombiano invocado disse "foda-se, Raikkonen, seu idiota de merda".

4- Mark Webber tem a marca de ser o piloto que mais disputou provas até vencer a primeira. E isso explica a gritaria. Há uma vertende que sustenta que a emoção do australiano ao cruzar em primeiro a chegada do GP da Alemanha desse ano foi tanta que esta lhe teria causado engulhos e que são esses os ruídos que ouvimos em meio a gritaria. Ninguém se pronunciou positivamente sobre o caso, de modo que considerem isso, até segunda ordem, como boato.

5- Jarno Trulli: no GP da Turquia de 2008 o engenheiro da Toyota diz a Trulli que ele estava três segundos atrás de Coulthard e pelo menos mais um atrás de Rosberg, e que precisava, portanto, andar mais para tentar alcançá-los. Jarno Trulli responde "don't worry, I'm pushing like a hell", o que, mais uma vez em libérrima tradução, equivale a "não esquenta, estou acelerando pra cacete". Não é tão engraçado fora de contexto, mas num mundinho tão asséptico, de declarações ensaiadas e pessoas lobotizadas como a Fórmula 1, acaba sendo algo tão non-sense que rende o esturpor do engenheiro.

Postumices

Por que escrever tanto?

"Para a posteridade, minha cara, para a posteridade".

Ressabiado

Há uma coisa dentro de nós que não sabemos o nome, e é isso o que somos. A frase, mais ou menos nesses termos, é de Saramago, num dos Ensaios, e aí não me há fosfato que chegue para distinguir qual dos dois, se o da cegueira ou da lucidez, embora tanto num como outro o enfoque tenha sido, sempre, a nossa cegueira, nem branca, nem negra, mas sim coletiva, individual, social, filosófica. O que conta dizer é que a frase não é minha, coisa que não precisa ir longe para saber, afinal não há luz nessas ideias que iluminem tanto a ponto de desabrocharem em tão singelo aforismo. Sou bom de sugar as frases dos outros, não de fazê-las eu mesmo. E essa frase serve para explicar, por exemplo, este texto. É algo do que sou, que vou tratar de expelir.

Não é exatamente sobre Saramago que vim escrever, em todo caso. Já escrevi muito sobre o lusitano, e desconfio de coração aberto que ainda o farei muito e que por mais que faça, nunca chegarei perto de retribuir um décimo do deleite, prazer e satisfação que lê-lo ao longo desses anos tem-me ensejado. Não sendo sobre Saramago, contudo, que ia eu aqui escrever algo, eis que escapam já dois parágrafos sobre o bom português, e a isso espero que a audiência sempre solicita em ler minhas bobagens perdoe. Não sou bom em fazer sentido, por mais que me esforce. Pelo-me por entender o mundo. E, de outra parte, por ser compreendido, mas a verdade é que ambas cruzadas não levaram-me muito longe. De alento resta a certeza de que, entretanto, nessas lutas desesperadas não vou sozinho enfrentando meus moinhos-de-vento: está aí Belchior que, agora mesmo, no ouvido me diz que "amar e mudar as coisas me interessa mais", e que há pouco dizia ainda, de peito aberto, "ainda sou estudante da vida que eu quero dar". E é bem por aí.

Não sei bem, essa é a verdade, o que quero dizer neste post. Há, sempre, muito a ser dito. Mas nunca é o momento, ou sempre falta a ocasião, porque na falta dela, a fazemos nós e vamos, via de regra, vivendo absolutamente arrependidos por tê-las feito, as ocasiões, onde não cabiam. E aí só resta, mesmo, esgrimir com palavras, espremer ideias, lustrar frases. Sonhar em verso, coagular em prosa, viver em discurso. E sobreviver de aforismos, vendendo filosofias com usura e sem garantia. O Procon que nos perdoe. Em todo caso, conta a meu favor vender minhas redundâncias gratuitamente, o que é outra hipocrisia, porque antes falei em usura - e se sabe que o mau vezo da usura só nasce de onde há cobrança e lucros assim ilícitos, mas estou com preguiça de revisar o parágrafo e aparar mais este disparate. Entendam como quiser. Não é por escrever com clareza que muita gente garantiu seu galardão no mundo da palavra, por isso mesmo, me dou o direito de fazer um pouco de mistério. E, como de ordinário, embora tamanha disposição pessoal em contrário, nenhum sentido.

Na verdade esse texto sem rumo, sem motivo, sem fim, sem vistas está aí a solta porque preso por aqui ele já não pode mais ficar. É como disse alguém certa vez, que se escrevia, apenas o fazia para não sufocar. Tem gente que vai no analista, que fofoca, tem gente que ignora, transforma em recalque e depois de anos entra em crise de meia idade. Eu escrevo, pois. É míster expulsá-lo, portanto, este texto, porque aí a vida fica mais leve. Vou mais longe, ando mais rápido quando não carrego peso nas costas, filosofia esta que não é nenhuma novidade e, literalmente, só pode ser mais antiga que andar pra frente.

Queria dizer, na verdade, que nada do que tenho a dizer merece ser dito. Calo. Baixo a cabeça, bato no peito, me visto de hipocrisias e sigo o caminho. "Quando eu adoçava meu pranto e meu sono no bagaço de cana do engenho", conta Belchior. Belchior fez bem em sumir. A gente tende a dar valor ao que perde, o que não pode ter, o que teve e esnobou, aquilo que você deita pela janela, defenestra, portanto, e já ali se arrepende, porque então dá-se conta de que faz falta. O ser humano é capaz de muita burrice e mesquinharia. Mesquinharia dói. Burrice devia doer, mas não dói e isso explica o porquê do mundo estar do jeito que está.

"E eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza, deixemos de coisas, cuidemos da vida, senão chega a morte, ou coisa parecida, e nos arrasta moços, sem ter visto a vida, ou coisa parecida". Belchior sabe das coisas. Já eu que vos escrevo, por outro lado, não sei de muita coisa, mas desconfio. Como desconfio.

Rádio: Raul Seixas - Movido a Álcool

"Veja, um poeta inspirado em coca-cola,
que poesia mais sem graça ele iria expressar?
É triste ver que tudo isso é real,
porque assim como os poetas, todos temos que sonhar".

Grande Raul.


No soy yo

Minha assessoria de imprensa criou-me um tuíter. Saliento aos caros que é um fake.

Minha alma não cabe em esquálidos 140 caracteres.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Alguns kbytes de senso comum

A vida é um baile de máscaras.
Tanto pra quem se esconde e mente
como pra quem não dá as caras e oculta a covardia
atrás de uma máscara de IP,
achando que assim esquece do que sente.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

À luz de velas

Ontem São Paulo apagou. E antes que me acusem um inusitado paulistanocentrismo, moléstia que faz com que órgãos de imprensa e boa parte de tudo que reside na pauliceia olhe para si como se o próprio umbigo fosse o centro do mundo, saibam que se me refiro a metrópole o faço porque estava e estou aqui. Tivesse eu testemunhado o apagão em Pindamonhangaba, iria falar de lá. Mas não é o caso.

Eram pouco mais de 10 da noite, e eu me preparava para comer algo. A luz piscou, resistiu mais alguns segundos alternando em intensidade tanto no prédio onde estou como nos arredores, o que significa que algumas fases da tensão já tinham caído e que, inevitavelmente, todas as fases iam cair, coisa que aconteceu uns 30 segundos depois e, assim, ao contrário do que teria dito o deus de muita gente na aurora dos tempos como nos acostumamos a contá-los, "desfaça-se a luz".

E assim foi. A escuridão forçada e compartilhada com todos, indistintamente entre os mais humildes e os mais bem providos vizinhos dos Jardins nos traz uma porção de boas oportunidades para colocar tudo em perspectiva. A gritaria dos bares próximos. As pessoas nas janelas e varandas olhando umas para as outras como perguntando-se "e agora?". Gente na rua, cirenes, carros da CET esgrimindo o trânsito caótico em todas as circunstâncias e absurdamente incontrolável quando falham os semáforos. Tudo igual, tudo para todo mundo. A democracia da luz apagada.

Centenas de piadas inevitáveis nos ocorrem. Guerra. Apagaram o Brasil. Alienígenas. Apagão, como aquele que rematou os melancólicos anos de FHC no poder e seu tucanato empoado e plutocrata que desmontou o país e o vendeu numa bandeja a interesses escusos poderia reeditar sua visita a história nacional agora, no fim do megalomaníaco e contraditório governo Lula, que se não nos vendeu e nos desmontou foi porque sobrou muito pouco para vender e desmontar.

Há um vácuo inevitável, porque o homo-sapiens sapiens carece de informação, do contrário regride ao australopiteco mais modesto. Não há internet. Tv. O celular acusa rede e sinal, mas não funciona. Rádio. A única salvação da cristandade e daqueles mortais que não possuem um gerador de energia. Rádio. As redes corriam as autoridades, sacudiam seus repórteres provavelmente em casa para que dessem suas contribuições, sobre como estão as coisas por aí, na zona sul, na zona oeste. Nos bairros. Tudo igual, escuro.

Como há poucas décadas faziam, nos reunimos para ouvir do aparelho e das redes noticiosas o que acontecia. Caos. Nas saídas de estações de metrô estavam acontecendo arrastões. Nossa primeira preocupação foi com amigos que estavam na rua, enviamos mensagens, tentamos várias vezes telefonar, saber se estava tudo bem. Nos preocupamos com os nossos, pensei em comer meu jantar. Desisti, adaptei para um sanduíche, pão com mortadela, ketchup, pimentão picado. Regredi, pois, como meus pares, aos degrais mais baixos da evolução.

As rádios devem ter batido recordes de audiência ontem, sobretudo as noticiosas. Informações desencontradas iam e vinham, mas ficava apenas a certeza de que o problema era muito maior do que podíamos supor de nossa curta visão da varanda. São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Brasília, Mato Grosso do Sul, Paraná. Tudo apagado. E agora?

O espírito de jornalista me bateu. Pensei em quantas pessoas naquele exato momento estavam presas em elevador. E nas que ficaram no meio de algum túnel do metrô, tiveram que descer da composição, caminhar no passeio do túnel escuro até a estação mais próxima, para aí ganhar os ares e as ruas, também escuras, iluminadas por uma ou outra luz de emergência, e os farois dos automóveis. Pensei nos hospitais, que por certo possuem geradores, mas até que ponto eles são capazes de ir? São a diesel? Se forem desses a combustão, o caso é só não descuidar e ter combustível disponível. Mas se não forem desses? E se não existir postos por perto? Gente preparada para contornar esse problema? E os aeroportos? Sobretudo o de Congonhas, encravado na mancha urbana? Como funciona um aeroporto num blecaute como esse? Tem geradores, e se um avião ia no justo momento em que tudo apagou pousar? As luzes da pista estão lá?

Pensei no pessoal da Companhia de Engenharia de Tráfego. O trabalho cruel de engenhar um fluxo inclemente de veículos numa cidade como São Paulo à noite e sem energia. Caos. Pensei em todas essas pessoas e me dei conta na riqueza que uma matéria bem escrita sobre esse dia traria. Um parágrafo centrado em cada uma das personagens dos cenários que imaginei, como encararam a situação, o que sentiram, em que pensaram? O que faziam e pretendiam fazer no instante exato onde suas prioridades e planos imediatos foram alterados porque faltou-nos a todos luz?

Pensei, também, na dimensão filosófica do escuro. Fosse no interior, de onde vim, o escuro estaria acompanhado de silêncio. Em São Paulo não. Buzinas, gritos, automóveis, tudo, enfim, fazendo barulho, gemendo, gritando, falando. O som e a luz são duas forças da natureza, e estão dissociadas uma da outra, sabedoria essa que o empirismo de interior não me tinha ainda possibilitado. Mas a vida em São Paulo sim. Dizem que São Paulo não pára. Pára sim. São Paulo, na verdade, não se cala.

No escuro a gente pensa no caos. Lembrei de José Saramago, porque lembrei do seu ensaio do caos humano, o ensaio do desespero, o retrato da loucura no seu romance maiúsculo, da sua prosa lustrada, e do seu senso de análise e de percepção do humano, demasiado humano. É evidente que amanhã, caso ainda estejamos sem energia, pra bem ou pra mal, o sol estará lá e, ao menos, enxergaremos, não precisaremos andar por aí as apalpadelas para atinar com nossos rumos, caminhos e desacaminhos, mas por certo, ao menos por algumas horas, acho que senti o que sentimos todos que lemos o Ensaio Sobre a Cegueira. Não me senti cego, mas me senti sozinho, meio que perdido, assim como meu próximo. Insuportávelmente próximo, dividindo a mesma desdita, a mesma incapacidade.

Bebemos algumas cervejas mal geladas, esperamos com alguma ansiedade os amigos voltarem. Nos reunimos na laje, com velas, câmera fotográfica, risos, conversa, violão, proximidade, música. A luz foi voltando aos poucos, algumas quadras já estavam acesas, mas nós continuamos nosso isolamento. À luz de velas não jantamos qual amantes. À luz de velas dividimos um momento que não teríamos se a energia estivesse a prover-nos de isolamento pós-moderno. O máximo que faríamos seria trocar frases pelo msn.

Na rádio seguia ouvindo e pensando. E é curioso confessar onde vai parar seu primeiro pensamento. Pensar é uma merda, não pensar é pior. Sentir é um inferno, não sentir é um tédio. Pensar é inevitável, aliás, no escuro. Não há o que enxergar, não há estimulos para os olhos, a internet dorme, a tv se nega a bombardear os olhos com luz. Os olhos apagam-se porque não há luz, e a ausência dela é o escuro. E no escuro, caros, só há a mente, e daí vem todo o conceito de iluminismo, que nos faça enxergar alguma coisa. Fosse eu mais poeta, arriscaria um desfecho em prosa-poética para esse post, relacionando os conceitos, as ideias, e tudo mais, só para dizer que uma luz que não se apaga é aquela do que pensamos, do que enxergamos quando fechamos os olhos.

As vezes é preciso fechá-los, os olhos, para enxergar melhor.

Dei-me conta da nossa sorte quando um amigo, depois que a luz já tinha voltado, discordou que descessemos para o apartamento. "Lá a gente não vai conversar". Ele tinha razão.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Coisas que irritam

Na vida de jornalismo, irritação não falta. Uma das coisas que mais me revolta é aquela fonte para sua matéria, garimpada e que certamente contribuiria muito, deixando seu entendimento do assunto mais claro e sua facilidade em reportá-lo bem maior, desde que falasse contigo, retornar seus contatos justamente minutos depois que você entregou a matéria para o seu editor.

O dia em que cresci

Eu nunca parei para pensar muito no que vem saindo dessa mente tortuosa nessa seção do blogue, que apelidei de "O dia em que cresci" e fiz porque percebi que vinha aqui depositando reminiscências, lembranças e episódios marcantes da vida. E no mais, o blogue é meu, sou o senhor disso aqui e, não, embora estime os leitores que cativei, não me preocupo muito com o interesse de vossas senhorias em ler-me, e isso explica, por exemplo, minha bizarra insistência em poesias, que antes de atrair leitores, os espanta com enorme eficácia. Melhor que pop-up.

Mas nunca tinha me acontecido algo de recente para escrever nessa seção. Tudo que tinha escrito, eram coisas da adolescência, da infância. Até sábado. Na iminência de vir a São Paulo seguir a vida, resolvi fazer uma visita a meu avô, o último vivo, e que convalesce de uma extração de apêndice - e que já foi personagem deste blogue aqui, o célebre caso do homem dos dois nomes. Nada demais, visitar o avô e uma cirurgia, não fosse o caso de ele contar já 84 anos, e sabe-se que a essas alturas, qualquer visita no médico é potencialmente arriscada. Os esculápios, o tempo e as mulheres, conforme é cantado pelos poetas desde há muito, não perdoam.

Eu sempre pensei no meu avô como numa rocha. Não conferia a ele a imortalidade, mas aquela sensação de certeza, de perenidade difícil de explicar. Só conheci esse avô, o outro, paterno, faleceu 3 anos antes de eu nascer. Pensando numa definição melhor sobre meu avô não econtrei frases melhores que as de Kevin Arnold, um dos grandes filósofos contemporâneos, que ao falar do seu, disse que ele era "Hércules de bifocais, um super-homen de suspensórios". Meu avô sempre foi algo assim. Tão velho como o tempo. Tão certo como o dia.

E nessa visita que fiz conversamos sobre memórias. As dele, evidentemente, que as minhas, por certo, não rendem uma página. Contei que vinha, mais uma vez pra São Paulo e talvez para ficar, ele sorriu e disse uma frase que já vi ele falar diversas vezes "você está na água, tem que nadar, se não afoga". As suas memórias cobrem 84 anos. Dos quais, 61, mais do que vive muita gente, ocupados na boleia de um caminhão, ou ainda, de vários, unindo e desunindo os pontos cardeais, colaterais e subcolaterais, redesenhando rotas, atravessando caminhos de tropeiros que não eram ainda estradas, vendo rodovias surgirem, cidades nascerem, dormindo na estrada, debaixo do caminhão, vendendo, comprando, trabalhando. Vivendo.

Meu avô viu de tudo. E fosse a memória mais pródiga, o corpo humano mais resistente e a idade menos cruel, teria mais detalhes para contar. Acho curioso a maneira como os assuntos e as memórias de meu avô fluem, com a maior das facilidades, saltando anos, décadas, eventos, e no fim, quando julgo que mais que a memória, ele já perde a faculdade de conectar ideias, ele me surpreende, dando fecho a todas as histórias, por conta das personagens envolvidas, que em sua maioria já faleceram e das quais ele parece lembrar com sincero pesar. Meu avô fala de gente que nunca conheci como se eu as conhecesse. Antes me constrangia com isso, hoje, não importa.

Saí de nossas quase duas horas de conversa atrasado para viajar. Mas não importava. Gostaria de ter ficado mais. Aliás, gostaria de ter conhecido mais meu avô. E é engraçado, porque isso é um tremendo clichê, e você do outro lado da tela, se galhardamente chegou até aqui na leitura, deve estar pensando que sou bobo, que não me dou conta que todos um dia sentem isso. Bobagem, sei que é assim. Sei porque já senti, senti com meu pai, que foi-se da vida, e me deixou lacunas. Não sei o que ele fez na década de 1960 e 1970. Os caminhos, as idas e vindas, com quem convivia, o que pensava, que música ouvia.

Sei, por certo, de alguns eventos do período. Mas não conheço meu pai (e, aliás, a única justificativa para mais de 5 anos de blogues é a minha intenção de deixar um registro, escritos, memórias, que contem, para filhos - talvez? - o sujeito que fui. O jovem que não fui, enfim, e que não nos censuremos mutuamente e em foro íntimo por termos sido estranhos uns aos outros). Não sei quem foi meu pai porque ele não disse e eu não perguntei. Passei um bom tempo dizendo que não tive tempo, ele foi embora. Mas eu tive, só fui deixando pra depois. Assim como fiz com meu avô, assim como fiz com minha mãe, assim como provavelmente farei com muitas pessoas. As pessoas não mudam.

E tomar consciência disso assim que saí da casa de meu avô, deixando-o na cadeira de balanço, se refazendo da cirurgia, reclamando de dores e das complicações inerentes ao seu estado de saúde, que inspira tantos cuidados, foi, imagino, o que pensei quando um dia resolvi falar dos dias em que cresci. Cresci, sim, ao atinar com a falta, a sensação desagradável, de lamentar-se, porque avô e neto não se conhecem tão bem, embora estimem-se tanto.

E a ironia é que eu poderia, fosse um sábado comum, ficar por lá conversando durante horas. Eventualmente gravar a conversa, sou jornalista, gosto de pessoas, me instigo por histórias, por memórias. Sou obcecado, na verdade, por memórias de gente comum. Só que eu não podia, do outro lado, a vida urge, o destino chama, o tempo não volta mais, a gente não muda. E o tempo apaga tudo, quem sabe até mesmo essa lição.

Um 20 de junho

Onde você estará
Quando a manhã chegar
e o café não estiver na mesa
O que te restará
quando não houver beleza?

Restará olhar para trás
deixar as chaves perto da estante.
E os versos pra depois...

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Abril de volta, e que não feche mais

Com que, então, novembro será Abril. Como um dia foi janeiro;

Só que dessa vez não é por cotas.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Spom-ema

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