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terça-feira, 20 de junho de 2017

Revelações

Houve um começo de fevereiro em que me sentei com a dura missão de escrever, custasse o que custasse, o que eu sentia, como me sentia e o que se passava comigo, amortecido de amor e saudade, de carinho, de felicidade, de esperança, mas assombrado de medos, de pessimismo, de um juízo que gritava: cara, para com isso, vai lamber essas feridas, se recolhe, porque o tempo virou, vem chuva aí, daquelas de lavar a alma e cortar a pele, e a tua pele anda tênue, anda fina, não vai se escapelar nessa água feito lâmina. Porque vem tormenta por aí. Se protege porque ninguém vai proteger você.

Saiu dessa missão um texto, um longo texto, do qual só conservei fragmentos num exercício que, hoje, me parecia treino para essa missão de selecionar as lembranças que eu quero, e gosto de ter, enquanto deleto o que machuca, o que não deu certo, o que doeu.

Nesse texto, longo texto, refleti com calma a cada palavra e me propus a escrever dando resposta à pergunta primeira: por que, por que eu me sinto dessa forma, e nessa intensidade, e desse jeito a respeito de alguém que não me quer por perto? O resultado foi uma coleção de confissões, de epifanias, de palavras e mais palavras, de 43 páginas, de um extrato completo, sincero e sem restrição alguma do que sou, sinto, penso, preciso, quero e do que pretendo. A minha verdade, sem tirar, nem por.

Mas a passagem mais importante foi mesmo a resposta para a pergunta que abriu essa comporta, resposta que veio calma, a princípio, parecia uma meada, um novelo que eu ia desfiando no escuro, enquanto, às apalpadelas, seguia o rumo quieto de uma floresta fria e silenciosa. Puxando essa meada eu percebi que eu não estava, necessariamente e somente, amando a alguém. Eu estava em processo de paixão: aquele arrebatamento ensandecidos que nos consome a alma, que nos balança o juízo, que nos arrasta num vórtice de loucura, de doce loucura. Eu estava completamente apaixonado por uma pessoa a quem eu já amava. O fio tênue de raciocínio, de memória e sentimentos logo se converteu em algo que parecia mais com um corrimão e, da floresta escura e silenciosa, eu saí numa clareira ensolarada de onde, ao longe, eu divisava o meu futuro.

A conclusão da paixão que brota a despeito de já haver amor pode parecer trivial e, a quem nunca encarou esse diâmetro de sentimentos, até inocente, sequer reveladora. Mas não é nada disso. A percepção de que eu me apaixonara novamente pela mulher que amava, já naquela altura de forma decidida e firme, me colocou em parafuso porque me apresentou a uma série de verdades duras acerca da minha vida, das minhas circunstâncias, do tempo.

Mas, acima de tudo, me encheu de força, de alegria e eu me peguei chorando, vertendo lágrimas que não eram de dor, de tristeza, que não eram de felicidade: eram de emoção, era como se a percepção clara de que eu me apaixonara por aquela criatura viesse a tocar em algum recesso da anatomia humana, profundamente ignorado e intimamente ligado com o que quer que temos dentro de nós e que conduz as nossas emoções. Eu vertia lágrimas como se fossem o suor, o suor do meu coração calejado que, à luz dessa revelação, da esmagadora importância dessa epifania, enxergava-se, enfim, na sua totalidade. Naquele momento, meu coração conheceu a si mesmo.

Essa foi a maior, a mais doce, a mais dolorida, a mais esmagadora vitória de toda a minha vida: eu enxerguei, pela primeira vez, o que é amar abnegadamente uma pessoa e me senti livre, me senti feliz, me senti pleno porque eu não só me reconhecia capaz de sentir algo desse tamanho, como era capaz de isolar o fragmento de tempo, como se tempo fosse uma substância que pegamos e guardamos no bolso, o fragmento exato de tempo em que eu, sentado à mesa simples, houvera me apaixonado pela mulher que eu mais amei na vida.

Há uma força transformadora no amor, há uma liberdade incrível na capacidade de sentir, identificar, catalogar e viver seus sentimentos com clareza, com firmeza e sinceridade.

Se uma divindade, se uma força qualquer do cosmos, me desse um poder absoluto para que eu fizesse alguma alteração qualquer no mundo, eu garantiria que à todas as criaturas que vivem, amam, se decepcionam e tentam de novo nesse universo tivessem garantidas na sua existência passar por essa revelação ao menos uma vez. Tenho certeza de que o universo seria um lugar muito mais justo e a vida muito mais doce, as pessoas muito mais compreensivas e gentis, caso esse tipo de amor e paixão brotasse em todos nós.

Nem que fosse apenas uma vez na vida. Nem que fosse para uma miragem.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

No colo da serra

Elisângela me me parecia como uma heroína. A mulher era uma expressão de bom gosto, mas acima de tudo, ela era uma força da natureza porque nada a derrubava, nada tirava o seu foco e eu vivia, convencido e inebriado, de que, dentro daquela criatura, morava esse super poder, essa habilidade de fazer a vida acontecer. Elisângela não era só força, ela fazia questão de parecer forte. E eu lembro de tantas vezes em que, no contraste das minhas claudicantes intenções para vida, me preocupar porque ninguém pode ser assim, tão vibrante para sempre, e que, em algum momento, ela iria cansar e perder o embalo.

Mas antes dos meus terrores sobre as forças volúveis, ou não, de Elisângela, veio a vida. Elisângela, um dia, me contou assustada que estava grávida e não sabia o que fazer. Que a vida, agora, era outra e nós dois precisávamos de decisão. Dentro de mim, tudo abalou, tudo desmoronou, porque eu me sentia incapaz de ser pai naquele momento porque andava doente, andava desempregado, porque eu não queria trazer uma criança para minha vida desequilibrada. Porque eu não tinha coragem. E eu calei.

Mas eu queria ter dito, queria ter encontrado a coragem de dizer, de encarar como me sentia, e de explicar: Elisângela, veja só, esses são os problemas. Mas, acima dos problemas, meu amor, eu sou louco por você, você é a criatura que define a minha vida e você seria mãe dos meus filhos, de um jeito ou de outro. Se o primeiro é por acidente, que seja, só vamos precisar nos unir, muito muito mesmo, para que isso dê certo e eu estou, aqui, abrindo essa porta. Eu tenho medo, Elisângela, muito medo mesmo, mas eu confio em você e espero que você confie em mim também. Então, casa comigo?

Mas não foi nada disso. Porque, nessas horas, eu me escondo, eu me perco, nessas horas eu penso que preciso defender alguma coisa, nessas horas eu fraquejo, nessas horas eu perco a ação. Eu não tenho coragem, eu não vibro.

Elisângela abortaria aquela criança. Elisângela foi, mais uma vez, coragem e força, foi o que eu não fora. Elisângela nunca me perdoou, não pelo aborto, mas pela minha incerteza.

Algum tempo depois, sentia que ela me tratava com frieza. Via nela uma desatenção tão estranha, uma falta de jeito, uma falta de paciência que nunca fora aquela criatura, que das tantas inconstâncias, das tantas hipocrisias que sempre a definiu, essa nunca fora uma delas. Mas, relevei.

Um dia, acordei e não a encontrei em casa. Na mesa, uma chave e um endereço, anotado no papel com orientações de seguir a rota impressa, de não checar o caminho do GPS. Peguei o carro na garagem, notei que ela tinha tido a precaução de completar o tanque, e segui as orientações: nada de GPS e naveguei-me apenas pelo percurso, impresso naquela folha de papel.

A jornada, no fim, consumiu quase 170 quilômetros. Cheguei no destino, uma chácara, um lugar adorável, o colo de serra em que eu embalo os meus sonhos com essa mulher desde que a conheço. Não havia uma casa, nada, só campo, mato e belas paisagens. Entro pela estradinha pouco usada, recoberta de vegetação, e a sigo até uma clareira adorável, de onde desponta uma vista para o vale e para vilas e cidades.

Sentada, de pernas cruzadas, ela me espera e me sorri: “O que é isso tudo? O que está acontecendo?”

“Olha, eu cansei. Cansei, cansei, cansei. E como eu sei que você nunca teria essa coragem, essa força, passei os últimos meses pesquisando e achei esse lugar. Eu comprei ele nessa semana, são anos de parcelas para pagar. Não tem casa aqui. Vamos ter que começar tudo...”

Antes de ela continuar me explicando, calma e da forma impositiva que eu morria de medo que ela percebesse que eu amava nela, interrompi com as minhas fraquezas e derrotismos, me convulsionando internamente porque eu estava à beira de morrer de amor, de enfartar de paixão por aquela mulher e enquanto costurava os argumentos imbecis, que iam do “você perdeu completamente a noção”, do “cara, como nós vamos pagar isso?” para o “e construir uma casa aqui! Vai sair uma fortuna!”, algo urrava dentro do meu peito para eu calar a boca, deita-la naquele campo, e amá-la com toda a paixão que eu sentia naquele momento.

Ela ouvia calma, serena, sem reação.

“Acabou?”

“... olha só, eu...”

Antes que eu continuasse, que encontrasse mais imbecilidades para dizer, desmoronei.

Sentei-me ao lado de Elisângela, abracei-a e, pela primeira vez nos grandes momentos da nossa vida, falei exatamente como me sentia: “Desculpe-me por ser tão imbecil. Eu valorizo muito você, eu sei que você fez isso aqui por amor, eu sei que você tem coragem para comprar um castelo à prestações, se você achar que a ideia é boa. E eu sei que você não é louca, que você sempre tem um plano, eu não sei o que toma conta de mim às vezes e eu queria que você soubesse que, embora com ciência dos riscos que nós corremos, que estou do seu lado e que você pode confiar em mim. Eu amo você, e posso dizer que hoje amo mais do que sempre amei, o que nunca foi pouco, e eu peço desculpas por me comportar como se não me sentisse assim às vezes”.

“Eu sei, eu sei, Mas você é tão difícil às vezes”.

Eu queria ter dito que, sim, eu sei, que o pior de tudo é que eu sei que eu sou um saco às vezes, que eu não consigo me controlar, nem explicar o que toma conta de mim. Mas se eu pudesse arriscar um palpite, diria que é essa dor de viver ensombrecido, esse medo de nunca bastar, essa impressão de que tudo acaba, de que não importa o que eu faça, se me esforce ou não, que nada vai dar certo no final e que, muito antes de ter a percepção de entender que, no meio do caos da vida o único erro é se furtar de viver as coisas e de assumir os riscos, acabo letárgico e estragando a vida. Queria dizer para ela que eu venho percebendo essas coisas e que eu vou melhorando.

Que me assusto quando percebo o quão ligado estou à ela e que, na verdade, o meu maior terror é perceber que os sonhos de amor intenso por alguém, aqueles que eu conservei tão bonitos dentro de mim por tanto tempo, viraram realidade. Eu amo profundamente, mas o que eu nunca soube antecipar é que amor, amor intenso assim, exige entrega e coragens que eu nunca me preocupei em criar.

Eu devia ter impedido o beijo que ela me deu no momento mais forte dessa epifania, que foi se perder na sofreguidão com que a abracei e a deitei naquele campo, porque nada pode calar a sede que eu tenho daquela mulher. Nem mesmo as revelações mais profundas de toda uma vida.

domingo, 21 de maio de 2017

Quando eu tinha 85 anos

Faltava um mês para que eu completasse 86 anos e, assim, superasse em um ano completo a minha meta, a minha estimativa, o número de anos que, um dia, ainda muito jovem, eu tinha decidido arbitrariamente que seria a quantidade ideal para viver. Para ver o mundo, para amar, para chorar, para vencer, para perder, para construir essa coisa nossa, essa coisa de história, de vida, essa estranha sensação de precisar seguir em frente, de precisar experimentar a vida e o mundo, essa sensação tão estranha de, diante de um universo indiferente, de um universo frio, de um universo que nos faz insignificantes, precisar amar, crescer, sorrir, chorar e ser.

Aos 85 anos, como sempre fiz na vida, não era novidade, portanto, dei-me à tarefa de olhar para trás, de fazer os meus balanços porque, a partir de agora, eu recebo o fim e a morte de braços abertos, porque de agora em diante, o que vier me abraçar é lucro, é sobra.

E nesses balanços encontro tanto para sorrir e me orgulhar que me confunde essa sensação agridoce de quem se vê apresentado ao ocaso e ao fim; me deparo com a alegria que me trazem, hoje, os netos e que senti tão esmagadora nos beijos das minhas crianças. Me deparo liberto de tristezas porque dos meus remorsos fiz escada para procurar novas paragens e construir as minhas moradas em fundações mais sólidas.

Olho para o passado e sorrio, com satisfação, diante dos meus processos, tenho orgulho dessas minhas cicatrizes, do que me cortou profundo, mas me fez mais firme, mais inteiro, mais pronto. Hoje, velho, sem muito que esperar da vida, não me sinto sozinho, não me sinto desamparado, tampouco sou fraco que ainda mora em mim o rapaz que não sabia amar, o rapaz que tinha medo, o sujeito que se deprimiu, aquele que soube desistir, levantar, e começar tudo outra vez. Há uma força enorme que ainda sobrevive na fragilidade estranha desses meus ossos, há uma grandeza e vontade de vida que palpita no coração a cada sístole cansada dessas décadas.

Resta um mês para terminar o primeiro ano, o primeiro ano do resto da minha vida.

domingo, 12 de março de 2017

Mangas, cachorros e lições

Numa das minhas andanças recentes, cortei um pedaço de mata porque o dia já ia avançado e eu precisava de civilização, de café e, mais importante de tudo, de uma estrada, porque a bateria do celular ia se acabar e eu, explorador de apartamento, não tinha bússola e dependia do GPS para não errar o rumo e acabar andando muito mais que o necessário. Esmagava a relva, essa coisa indizível que são anos e anos de folhas em decomposição, resto de vida, troncos de árvore que se esfacelam ao toque da mão, matéria, lama, terra, pedra, sedimentos, ninhos, cascas, o testemunho indisputável da segunda lei da termodinâmica, aquela da entropia, que explica porque crescemos, porque morremos, porque nada volta a ser como era, porque, dando tempo necessário, tudo mais se confunde num emaranhado de coisas desfeitas, de mistura, de energia transformada, de matéria decrépita, de fracassos e vitórias, porque a ciência da física também sabe ser poética, é tudo uma questão de saber como lê-la. E seguia, inabalável e inexorável, como um transatlântico sem freio, sem controle, indo de encontro ao cais, que todo cais é uma saudade de pedra, arrebentar-se na amurada, subir a terra, trilhar no meio de todos esses sedimentos o meu caminho, com essa quilha de aço, que é firme, que é sobre o que se lança e se constrói todo navio que, altaneiro e ambicioso como eu, tenciona, um dia, singrar as águas desse e de todos os outros oceanos, que são muitos, que são grandes, que nos levam, há vezes em que nos trazem, que nos buscam. E que, não cuidando, nos afogam. Como votava a todos os diabos a perspectiva de precisar tentar, eu disse tentar, me orientar com ajuda da posição do sol e outras aleatoriedades cósmicas, porque se navio sou, sou de eras mais recentes, todo dependente da cobertura dos insuspeitos satélites, esses que lá dos céus, enfim, nos dizem de onde viemos, para onde vamos e quando por lá chegaremos, está visto aí que o elusivo deus existia, era tudo uma questão de, de fato, inventá-lo e de enfim manda-lo à órbita, porque não há espaço na superfície desse mundo para mais um deus, tanto mais um que seja de verdade. No meio dessas e de outras considerações, estava claro que era preciso estabelecer alguma forma de contato com outras pessoas, e quem sabe, eu disse quem sabe, garantir uma xícara de café. Não que a situação fosse assim tão desesperada, o interior do Paraná é densamente povoado, não estou no Saara, que se estivesse, a verdade é que o café tenderia a ser desse tipo árabe, que afiançam os entendidos, é mais saboroso. Mas no Saara é difícil dar com os beduínos e deles arrancar algum café, então nos contentemos com o café inferior, mas mais certeiro, que se encontra nas casas do Paraná. Acima de tudo, mais do que a necessidade de rumo e de café, aborrecia-me a ideia de ter de acampar naquele dia, cansado e despojado que ia dos instrumentos e acepipes necessários, e, pior de tudo, sem café, com o cantil seco de água como, aliás, também ia a garganta. Decidido, portanto, mudei o rumo e fui em direção a uma clareira que tinha avistado uma hora antes, que lá do cume me parecia tão perdida no meio da mata e que, como se verá adiante, julguei corretamente como local de algum traço civilizatório que persiste em meio às bracatingas e araucárias.

Fui parar num campo, que fazia parte de uma pequena propriedade que, depois fiquei sabendo, fora um dia uma fazenda enorme, dissolvida ao longo das décadas e das gerações. À distância, ficava uma casinha que me parecia tão familiar e que já vira dias melhores, familiar pelo estilo da construção, não que tenha eu por ela passado antes, mas é o caso de ver algo que já vimos antes, é bater os olhos sobre curvas, paisagens, sobre estradas e monumentos, aquela sensação de que quem já viu uma coisa, já viu todas, porque não há muita margem de manobra pela qual a capacidade humana de edificar possa surpreender, as casas variam em tamanho, idade, acabamento e cores, mas no geral, são feitas das mesmas coisas que sempre foram feitas, têm as mesmas janelas, as portas, os vidros, os móveis e as pessoas, justiça seja feita, também não variam tanto assim. Uma casa, por exótica que seja, é análoga direta à sua próxima e é por isso que faz sentido chamar a ambas de casas, porque se fossem extremamente diferentes entre si, teríamos de encontrar outros nomes para dar conta de todas. A casinha em questão não fazia jus ao diminutivo, porque o ângulo pelo qual a desvendei pela mata a desfavorecia, fazia parecer menor, porque me mostrava apelas a perna menor do “L” que a sua forma tomaria, se vista do céu pelas divindades que operam os GPSs. Pela localização em terra rica de colonos poloneses e ucranianos, pelos traços ornamentais recorrentes dos trabalhos em madeira de procedência das escolas estéticas dessas duas pátrias eslavas, já calculava que o sangue que moldara aquela morada tinha muito em comum comigo, com o que pulsa, quente e vivo, pelas minhas e veias, com o que besunta as minhas engrenagens, empurra a massa violenta das minhas vontades, esse que me inspira. A casa já vira momentos mais gloriosos, o descuido e os anos de vida se denunciavam com facilidade no desgaste amargo da precariedade das coisas submetidas à marcha irredutível e obcecada do tempo, tudo isso se fazia cada vez mais evidente pelo recibo dessas coisas impresso na madeira, que eu divisava com cada vez maior riqueza de detalhes conforme avançava a marcha. Os detalhes, as feridas, as cicatrizes, os talhos e rachaduras, casca morrida da vida passada dessa casa dá o que pensar e me permite arriscar dizer que está em pé há mais de 80 anos, vê-se claramente nos adereços à borda das calhas o corte eslavo nos lambrequins, que também não proíbem a morada de ter sido erguida por italianos, povo que também deu esse tipo de acabamento às suas moradas brasileiras, mas rareiam as colônias italianas por esses lados e o coração, esse meu coração de sístoles e diástoles contatas à cavalos-vapor, que empurra o óleo vermelho viscoso da minha vontade, que enxerga tudo a seu jeito, já decidiu que a casa é eslava, que é ucraniana, gosta de pirogue, de charuto e que lembra com carinho de quando, em meio às suas paredes, falavam ucraniano, quando alguém ali lia o jornal da colônia, todo escrito no alfabeto cirílico, aquele normalmente associado aos russos, mas também usado por outras nacionalidades eslavas, e que tem por curiosidade maior o fato de ter 33 letras. Aos disparates do coração, vem em socorro a mente, que chama a atenção para a armação das janelas, que é decididamente antiga, mas nada ali garante a origem da morada, a pintura lascada deixa enxergar outras cores, outras épocas, o encardido de onde a madeira era branca, nas janelas e molduras das portas, denuncia o pouco cuidado com que a casinha, decididamente de sangue e motivos eslavos que cantam mais fundo nesse meu coração que comunga do sangue desses ortodoxos em favor das cantigas italianas, vem recebendo pela melhor parte da sua vida.

Mas não fora para julgar a qualidade da morada, tampouco o desvelo dos seus moradores, que me dirigia à porta francamente aberta naquele fim de tarde. Havia fumaça na chaminé, com certeza um fogão à lenha reina soberano na cozinha, deixando água e bule aquecidos para o café da tarde. Eu já projetava que me ofereceriam um café porque estava morrendo de vontade de um e, de fato, bastou que escalasse os dois degraus de cimento que endereçam o visitante à soleira da porta dos fundos, que escancarada leva à cozinha, dissesse o gentil e solene “ô de casa”, que herdei das vezes em que fazia passeios semelhantes com meu pai e que ele sempre usava para abordar lares de pessoas simples e desconhecidas, para sentir o cheiro inconfundível do café fresco. O uso da frase, aliás dita e não respondida, a não ser pelos latidos e corrida preocupante de seu emissor ao meu encontro, carreira que me pôs em situação de alerta, se dilataram as pupilas e se inundou o coração de adrenalina, me vi ferozmente estático naquela soleira, enquanto a reminiscência de meu pai me trouxe imediatamente a recordação de outra caminhada, dessa vez não assolada por sede de café, mas por fome de proporções etíopes, adjetivo dito aqui sem a tenção de dizer que cheguei à beira de morrer de fome um dia, e que também não denuncia qualquer forma de desrespeito do autor para com as penúrias encaradas por esse, e tantos outros, povo africano, que fome é doída, e, embora me compadeça da miséria que suportam os etíopes, empresto de seu suplício apenas um adjetivo, não um juízo de valor. Na caminhada da fome de proporções bíblicas, que se é para ofender alguém, que seja o deus que se esqueceu de existir, abrindo espaço para as divindades satélite, caminhamos meu pai e eu aos estertores do que nós conhecíamos por fome, e que fomos nos contentar em comer uns pães duros, sobrados numa choupana, provavelmente esteio de pescadores sazonais à beira das lagoas que o Iguaçu que, nas estações favoráveis do ano, enche generoso para deleite da pesca preguiçosa, que junta peixes com as mãos nos acúmulos de água formado pelos transbordes do rio nessas épocas. Pães ressecados e seguramente insalubres que, no entanto, devoramos os dois com os narizes, a dentadas vigorosas que, imagino, dariam cabo de pedaços de madeira na falta daqueles pães velhos e petrificados, tamanha era a fome. Bons maus tempos que, me apercebo agora, estou reeditando solitariamente. O cão, que dá testemunho do velho dito de que, quem ladra, não morde, apenas se avizinhou, ressabiado e alerta, das minhas pernas, cheirou, mediu, calculou e se conformou com a minha invasão.

Na morada, me encontrei com Miguel e Rosa, casal que soma 45 anos de união e que nunca, em toda vida, encontrou razão para sair do município, algo que não chega a propriamente me surpreender. Talvez exceto pela saúde, porque é comum que a gente que vive isolada no interior recorra às cidades maiores para tratar-se, sobretudo na terceira idade, de sorte que me admira o casal não ter seguido a moda. Aposentados sob as bem folgadas leis que regem o negócio da aposentadoria rural, que no entanto não se verificam em forma proporcional no que tange à quantidade de dinheiro legada a quem assim se desobriga do trabalho remunerado, o casal vive do que planta, das galinhas que rareiam no galinheiro, de um ou outro porco comprado de vez em quando para engorda e abate, outra deliciosa referência que me lembra a minha avó, que falava ucraniano comigo, e que eu ia correndo visitar umas quatro vezes por dia, até que um dia ela teve um derrame, faleceu, e a infância nunca foi a mesma, porque a vó Ana era doce, a vó Ana era incrível, a vó Ana era uma força da natureza. A compra e abate dos porcos é uma oportunidade que ocorre normalmente atrelada a datas santas, quando convidam os filhos e netos todos para tomarem parte da festança. Do contrário, vão todos comungar das penitências e folgas nas deliciosas festas de igreja, que descontados os aborrecidos e inúteis ritos religiosos, todos dedicados ao elusivo altíssimo, que nunca, ao contrário dos santos dos GPS, disse uma palavra sobre para onde vou, são uma das grandes delícias ignoradas do interior paranaense.

Miguel quis saber quem eu era, o nome da minha família, o que fazia da vida e porque fora parar ali, parecia tão cansado, se tinha andado muito e, enfim, por que o tinha feito, sendo que a chave do carro, dependurada numa das alcinhas que suportam o sinto da bermuda, denunciavam que eu tinha meios de locomoção mais ágeis, confortáveis e menos cansativos que as minhas pernas para ir chegar até lá. Dei a todas as perguntas respostas sinceras e corretas, mas, em proteção a interesses meus, me vi forçado a omitir minhas razões para o passeio. Miguel não pareceu ter-se apercebido da estratégia e me deu a impressão de ser um daqueles sujeitos em quem se confia instintivamente e que simplesmente esperam o melhor dos outros, mesmo se eles forem estranhos, se dispuserem a andar quilômetros no meio do mato, mesmo que possuam automóveis a seus serviços.

O café não veio, mas eu não me importei, porque me engajei numa conversa interessante com o morador, de fácil conversa. De pele escurecida de sol, olhos castanhos, nenhum sinal de calvície e grande profusão de rugas, Miguel era magro e me explicava que trabalha bastante ainda, seja na propriedade, seja na de vizinhos e na de um dos filhos, que mora mais adiante, coisa de 12 quilômetros, seguindo a estradinha no sentido da serra, que ele garante, em tempo limpo, que não é o caso desse dia cinza, se avizinha vasta e calma, no horizonte, quase a abraçar a casa, porque os morros aqui fazem curvas. Falamos muito sobre a região, sobre os vizinhos, sobre as paisagens, os rios, cachoeiras e cavernas da área que, ainda bem, ninguém conhece. Miguel tentava torcer a conversa para o campo, as lavouras, a produtividade, as dificuldades, problemas de mão-de-obra, da vadiagem da juventude, que nas contas dele, não quer mais suar debaixo de sol e com enxada às mãos. Não pude, entretanto, amadurecer esses tópicos porque não conheço rigorosamente nada da vida do campo. Quando o assunto era as belezas da região, tive cuidado de não deixar transparecer meu entusiasmo porque minhas peregrinações por esses rincões têm como objetivo sondar a área, ensaio comprar uma propriedade por ali e gosto de conhecer tudo no entorno. Não quis que Miguel soubesse porque me preocupo que as minhas inclinações, sendo conhecidas pelos proprietários, acabarem influenciando os preços. De mais a mais, é inevitável, que nas minhas caminhadas acabe invadindo inadvertidamente uma porção de propriedades e não quero que circule por aí a informação de que um moço da cidade, que o cabelo não é mais grisalho, anda por aí.

A conversa ia tão boa e Miguel é um senhor de tão fácil diálogo que não dei por mim, e o tempo, esse que sempre passa por não saber fazer outra coisa, fez chegar a noite. A troca de horário, apenas há poucas horas, havia me pego desprevenido e, no meio do escuro, não poderia regressar ao mirante. Sem precisar dizer um ai, pedir nada e tocar no assunto, a dona Rosa me fez lembrar que há quartos de sobra na casa, que ao contrário do que o ângulo em que vira o casarão pela primeira vez quando da minha chegada, é grande e que todos os três quartos que, hoje, sobejam foram dos filhos do casal em algum momento. Ainda antes de Miguel e Rosa comprarem a área quando recém-casados, a casa já estava em pé porque fora morada de uma fazenda, antes bem maior, mas que foi sendo engolida pela necessidade de gerações e gerações de descendentes de seus fundadores em repartir heranças, apaziguar brigas de famílias e dar ao termo êxodo rural o sentido que tem.

Gastamos as poucas horas da noite em que o casal idoso se dispõe a ficar em pé conversando mais, dessa vez sobre o passado. Rosa, percebi cedo, não tinha muito assunto para dividir comigo, embora eu tenha lhe perguntado sobre a comida da janta, um caldo de mandioca realmente saboroso, ensejo de dividir seus truques de cozinha e de tempero que, aparentemente, lhe deram enorme prazer. Mais tarde, na sala de estar, repleta de imagens de santos, um pequeno armário à janela e uma mesinha em que repousa um televisor de 20 polegadas que deve contar seguramente mais de 25 anos, as conversas foram amainadas porque a rotina televisiva do casal estava em plena marcha: Silvio Santos, aquele Fantástico genérico da Record e as intermináveis novenas, rezas e similares da Rede Vida que o deus inexistente gosta de se fazer lembrado e, aparentemente, me castiga porque descobri da sua farsa, e atinei com seus verdadeiros adversários, os GPS, a divindade feminina, que ao meu ouvido, diz para onde devo ir, quanto tempo vou levar para chegar, como devo proceder para chegar ao meu destino da forma mais rápida. Ao sinal de que iam os meus anfitriões dormir, não eram ainda onze horas, pedi licença para me retirar, tomei um banho e fui descansar no quarto que me fora designado.

Dormi um pouco mal, não nego de forma alguma, eu tenho certa dificuldade em me acostumar com lugares estranhos para dormir e sofro miseravelmente para descansar no calor. E por ter dormido mal, acabei levantando cedo demais, não era 5h30 da manhã, quando abri a porta do quarto, depois de um bom tempo acordado olhando para o escuro, cheguei à sala coberta de imagens de santos. Deixei, aos pés de nossa senhora porque a jovem fé do GPS e do santo sacro satélite ainda é imberbe demais para recrutar suas santidades, cinquenta reais como forma minha de dizer que apreciara a gentileza da acolhida, da sopa à noite, da conversa, da singeleza e gentil hospitalidade de quem não espera o mal nas pessoas. Não escondo que ir embora assim é incompatível com a acolhida, mas confesso que, completamente desperto e sem sono, me entediava profundamente e me angustiava esperar o casal se levantar para poder ir embora. Em direção à porta, me dei conta de que teria de destrancá-la e que não poderia trancá-la novamente do lado de fora, o que me fez hesitar: o cão que vira ontem, embora animado a latir a plenos pulmões, e a correr ao meu encontro de forma agressiva, não me parecia guarda suficiente para guarnecer a segurança do casal, já que depois da desabalada carreira, chegou-se aos meus pés, e antes de rosnar e interrogar de forma agressiva minhas intenções, simplesmente abanou o rabo e me pareceu, como outros cães que conheci, me olhar como quem sugere para irmos brincar de eu atirar coisas para que ele fosse busca-las: o bicho era pacífico, curioso, brincalhão e cheio de energia e nada na sua expressão me impunha o respeito que se deve ter para com um guarda - mas, quem sou eu para julgar as disposições do bicho, que pode apenas ter se afeiçoado à minha pessoa, que talvez toda essa simpatia esconda um aspirante à lobo, sanguinário, violento e vingativo, sedento de sangue e de presas afiadas a ameaçar intrusos? Estou longe de ser especialista em cães, à verdade, na vida, conheci três, mas gosto de pensar que com esses me entendi, que uma delas até me chamava para ir latir no gradio de outra casa e de outra vida, ou ao menos era assim que eu lhe interpretava, porque ela vinha me buscar, ia até a beira da grade, latia, e em seguida, me olhava como quem convida - nunca tive a coragem, ou a atenção, de lhe fazer essa vontade. No fim desse raciocínio, estava eu em pé diante da porta que, percebi, não apenas estava destrancada, como entreaberta. Ou o povo da roça, de fato, madruga de verdade, ou o casal se esqueceu de fechá-la. A porta aberta me deu o ensejo de fuga porque poderia fechá-la e arquitetar um plano: antes de sair e trancar a porta, abriria uma janela porque não só flagrara a inexistência de deus, como provaria a ele que sou ainda melhor, que vou abrir uma porta e uma janela. De fora, com a porta trancada, poderia colocar a chave tranquilamente sobre um balcão que repousa perto da janela e abriga a imagem da santa, guardiã dos cinquenta reais. Com a chave devolvida, é possível fechar, do lado de fora, janela e venezianas.

Pelo sim, pelo não, o descuido ou vestígio de que a segunda-feira nasce mais cedo no interior, foi a porta aberta que acabou me encorajando a sair e dar continuidade à minha fuga vespertina. Na saída, o dia já fazia alguma luz, e eu podia enxergar a estradinha por onde cortaria caminho, porque para andar pelo mato teria que esperar mais uma hora, e aí o casal estaria de fato acordado, e eu não gosto de despedidas, e não queria vê-los constrangidos, recusando o dinheiro que sei que será bem gasto e que, presumo, faria falta. A estradinha era, então, o melhor rumo para tomar em direção ao mirante onde deixara o carro, estacionado protegido no abrigo amplo e generoso do posto de gasolina, que vinha se tornando esteio das minhas andanças. Rematado leitor de thrillers de espionagem, sabia muito bem que minha frequência na região acabaria levantando suspeitas e, sem recurso, precisei abrir o jogo com o dono do estabelecimento: sou da cidade, gosto de mato, lembro de visitar a região tantas e tantas vezes quando era criança, penso em comprar uma propriedade por esses lados, talvez em breve, e estou investigando o lugar para saber se vem a calhar que o faça, quem sabe o senhor não teria algum endereço para me recomendar? Não no momento? Mas não tem problema, peço-lhe que seja discreto, no entanto, não quero influenciar a cotação do alqueire. E fique descansado, que quando for fazer uso do posto para guardar o carro, terei sempre o cuidado de avisá-lo e, escusado dizê-lo, pagá-lo pelo incomodo. Como se vê, quando fico com preguiça de carregar mochila, barraca e outros apetrechos que tais pelas minhas andanças, as excursões ficam bem mais caras: há o custo que me imponho pelo abrigo e o da segurança do carro.

Mas antes de chegar ao posto, uns 10 quilômetros de caminhada me esperavam. E antes de todos eles, vinham todos os metros que me separavam da propriedade e da estradinha. Livre da soleira da porta, e fazendo força para erguer a porta que, oprimida pela construção em madeira que vai vergando e sofrendo a ação do próprio peso e arranha o assoalho num urro medonho toda vez que gira nos engonços, me assaltou a preocupação da fome no percurso. Tomava todas as precauções para não denunciar minha fuga quando me peguei sobressaltado: e o cachorro?

Iria dar escândalo? Rosnar, me atacar, morder minhas canelas? Me fazer correr?

Como que para responder ao meu susto, o bicho que, dizem, pode farejar o medo, se achegou perto e começou a me cheirar, curioso e entretido. Não latiu, não rosnou, não lambeu, apenas ficou ao meu lado, olhando instigado e interessado. Para selar a paz promissora dessa abordagem discreta, lhe acariciei a cabeça e senti o calor oleoso da sua pelagem cinzenta. Estávamos os dois em paz e nosso contrato selado: não vamos acordar ninguém, que ainda é cedo demais e hoje é segunda-feira. Deixemos que durmam aqueles dois.

O cachorro, que não tive oportunidade de conhecer por nome até o momento, foi me seguindo conforme eu caminhava. Não sei se seu interesse era me escoltar ou, talvez, certificar-se de que eu estava mesmo indo embora, que não provocaria nenhum dano na casa. No percurso pelo carreiro que levava à porteira, guarnecida de um mata-burro, engenho definitivamente brasileiro e que eu não via há mais de 20 anos, me deparei com uma frondosa e carregada mangueira.

Dez quilômetros de caminhada se avizinhavam e minha garrafinha de água ia cheia, mas teria fome, e munido de canivete, decidi-me a furtar uma manga, que Miguel e Rosa me perdoariam a folga, tanto mais porque 50 reais davam-me o direito de abusar assim da boa vontade dos meus anfitriões, que a árvore vai carregada dessas frutas, é impossível que os dois velhinhos tenham apetite para tanta manga, ainda que vivam de geleias, sucos e tortas feitas da fruta, vai sobrar muita manga a apodrecer no chão. E na hipótese improvável de que colham a fruta e façam dela comércio, e digo improvável porque aí dificilmente o incomodo de trepar na árvore nessa idade se justifica, é só uma mangueira, e uma só mangueira vai gerar faturamento baixo demais para pagar o esforço e o risco, que quedas na terceira idade abreviam a vida do acidentado; mas, em todo caso, admitindo que Miguel guarde agilidade e firmeza de sobra para escalar a árvore e capturar as frutas para vende-las, podemos ficar tranquilos, para isso me sobejam os cinquenta reais confiados à guarda sagrada da nossa senhora ainda há pouco, que pagam bem essa minha fome futura de manga e, de certa forma, espero, indenizam a falta de educação e a tamanha liberalidade com que me decidi ao crime de tirar proveito daquilo que não pedira a ninguém. No fundo, nós somos capazes de justificar e racionalizar tudo, até mesmo o furto de uma manga.

Encontrei uma taquara feita para apoiar o varal e, munido dela, comecei a escalar a árvore para buscar a manga que sorveria no percurso em direção ao posto de gasolina. No lusco-fusco da manhã que chega com preguiça, subir aquela árvore foi algo trabalhoso, tanto mais que precisava levar comigo a vara e encontrar onde apoia-la sempre que galgava outro galho, ia em busca de patamar mais elevado, tentando no escuro quase total criado pela cobertura de folhas e galhos, divisar onde estavam as melhores mangas. Aos pés da árvore, intrigado, meu companheiro canino se deitara e, de vez em quando, dirigia olhares interessados para onde eu estava.

Enquanto escalava o melhor que podia as nodosas e umedecidas galhadas da árvore, o dia foi se amanhecendo. Não percebi os humores da casa que ganhava vida, da fumaça que se animara em escapar novamente pela chaminé, nos ruídos da madeira que estala sob o peso da morada que desperta para mais um dia. Só me denunciara o avanço da manhã a descoberta de que meu cúmplice canino fora, a trote acelerado, abanar o rabo com sofreguidão à porta da cozinha da casa, porque ouvem todo um universo de sons, vozes e ânimos os cães, fora para a porta onde certamente se planta todos os dias para esperar o primeiro contato com o casal com que divide seus dias. Feijão, faltou dizer que era Feijão o nome do cachorro, que embora cinza na idade adulta, nascera preto e com uma massa de pelos brancos na barriga, igualzinho ao grão, ia bater ponto à porta toda manhã porque era nesse horário que ganhava o primeiro carinho e a primeira refeição. Miúdos de galinha e restos da ceia eram o seu desjejum e, de súbito, minhas aventuras sobre a árvore lhe desinteressavam olimpicamente. Aos cães, nada mais interessa que a comida.

Enfim, eu chegara a um galho torcido na horizontal, a meia altura da árvore, onde podia me sentar com segurança, enquanto manejava a vara feito lança para alcançar a manga perfeita que, agora, na luz do amanhecer, seria fácil de interrogar aos galhos da mangueira. Embora a risco de ser surpreendido pelo casal a qualquer instante, decidi arcar com a vergonha de ter de me explicar por ser fujão e ladrão de frutas, porque me desanimava ser flagrado em processo de descida da árvore, me acabrunhava ter de me explicar e ainda dizer que desistira. Se vou precisar pedir desculpas e sustentar o olhar decepcionado dessa boa gente, que ao menos seja com uma manga nas mãos, que de fracassos eu ando farto, então para salvar esse de um falhanço total e esmagador, é preciso ir encarar a vergonha munido da manga. Justificamos e racionalizamos tudo, até mesmo os agravos. Com afinco, afastei folhas, olhei em todas as direções, mexi com as frutas interessantes e fui elegendo, uma a uma as minhas opções. Um quarto de hora depois, com o meticuloso exame realizado, me vi descoberto por Miguel, que acordara e terminara seu café, e dando por minha falta, viera, na companhia de Feijão, descobrir o que eu estava fazendo.

Miguel desejou-me bom dia, e se ficou incomodado com a minha indelicada tentativa de fuga na madrugada, dela não fez menção. Também não pareceu aborrecido com a liberdade que eu assumira de ir saquear sua mangueira e, com legítimo tom de curiosidade e surpresa na voz, veio, enfim, a questionar enquanto eu me contorcia e me desdobrava para me manter em pé, firme, e com força e mira suficientes para endereçar a ponta da vara onde queria, tudo parecia mais fácil antes de subir na árvore, agora me parecia que estava a um escorregão da queda, com risco potencializado por essa lança, que teria facilidade em me atravessar o abdômen, que forma estúpida de morrer, longe de tudo e de todos, roubando manga, aos 32 anos de idade: “mas o que o moço está fazendo aí em cima, a perigo de cair no chão, de se escorregar enquanto se equilibra e segura essa vara?” Expliquei que tinha me preparado para ir embora, mas que vi tantas mangas na árvore que decidira tomar uma para a caminhada.

- Sim, isso eu entendi, mas por quê?

- Para o caso de ter fome e são tantas, e tão maduras, na árvore.

- Mas... moço, elas caem sozinhas.

Ao chão, bastava olhar para o outro lado, o rosa das frutas ao pé das raízes da mangueira pontilhava as nesgas de grama e a terra.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Foi-se o tempo em que eu me dava ao trabalho de te ouvir

"Foi-se o tempo em que eu me dava ao trabalho de me encher de hipocrisia para ouvir as tuas idiotices".

“Você descobre exatamente o que dizer quando é tarde demais”, disse. É como a feliz descrição que deu Douglas Adams de uma tarde cheia de trovoadas em um de seus divertidos livros. Depois de uns vinte minutos, quando a tormenta já acalmou, você ouve, lá ao longe, o ribombar de alguns trovões retardatários, que soam como aquele sujeito que perdeu uma discussão, mas vinte minutos depois, munido de uma contra-argumentação para lá de sólida, volta dizendo "e tem outra coisa...".

Foi o que aconteceu com Ernando. Dono do pior nome possível já enunciado em má literatura digital, nosso anti-heroi - pudera, com um nome desses - teve a epifania quando ela já era totalmente escusada. Escalou o Everest da discussão, no pico admirou a compreensão do todo e respirou fundo, com a certeza da vitória na discussão. O problema é que já não tinha mais discussão, ela enrubescera subitamente e se fora. Ensombrecido por qualquer desses tropeços financeiros que nos amargam a existência e por uma infeliz discussão que encerrara há pouco, Ernando, o homem a quem muita falta faz um F, por qualquer uma dessas artes do destino que regula as frequências e o ordenado caos das sinapses, foi lembrar dela, justo dela.

E para inundar este texto de referências que o autor não tem, vale colocar mais uma, puxada pelo gancho que é este "justo dela". Num só momento, Ernando, o homem do nome mais esdrúxulo já pensado, lembrou de Humphrey Bogart. Qual era o filme? Ah sim, Casablanca. O portentoso Casablanca, o esmagador, inoxidável “e único filme em preto e branco que vale perder tempo assistindo”, dizia consigo. Era aquela cena em que ela, sempre tem ela, entra no bar e Bogart diz qualquer coisa com "com todos os butecos do mundo, ela entra no meu, justo no meu". A frase pode parecer meio besta, mas é preciso considerar alguns atenuantes. Primeiro, é Casablanca. Segundo, é Bogart. E terceiro, o homem diz o diabo da frase com toda e tanta verve que não há como não considerar este um dos pontos mais altos do cinema no século XX.

Ela não entrou no buteco de Ernando por uma série de motivos, dos quais o principal é fato de que ela não vai a butecos. Ou não ia. Onde ela entrou, e não devia, foram nos pensamentos de Ernando, que podem ter, e provavelmente têm, todos os defeitos deste mundo, mas ainda não estão avacalhados que cheguem ao ponto de serem comparados a um bom boteco de esquina. Ela esgueirou-se para dentro das sinapses com tons de escarlate que não eram seus. Ernando involuntariamente se vê dono da melhor frase que poderia ter dito meia-hora atrás, no calor da escaramuça verbal: "foi-se o tempo em que eu me dava ao trabalho de me encher de hipocrisia para ouvir tuas idiotices".

Ernando sempre se considerou um sujeito de péssimo desempenho em confrontações. “Não é comigo, tenho uma sina, um defeito de não saber me defender”. Ernando não é do tipo indefeso, porque o ar blasé de quem parece já ter visto tudo esconde uma mente febril e imaginativa. Quando quer, sabe ser sagaz. Fisicamente, embora não fosse ilustrado em nenhuma dessa brutalidades que se dá o hipócrita título de arte marcial, tinha lá físico aquinhoado o suficiente para opor resistência a quem quer que fosse. O problema de Ernando era não saber dispor corretamente de seus predicados e isso o fazia sempre presa fácil na mão de rufiões da adolescência e, agora, de mulheres histéricas. “Eu não sei discutir, eu não sei reagir, eu não sei me defender”. “Pareço uma menininha indefesa”. Ernando considerava, de longe, este o seu maior defeito e se desafiava pensando como pudera escolher uma carreira no Direito. “Tenho a vantagem de que no tribunal fala um de cada vez. Fosse o tribunal como os meus relacionamentos e as humilhações que sofri na adolescência, onde todo mundo fala e grita ao mesmo tempo, e eu estava bem fodido”. “Não que não esteja especialmente fodido agora”.

"Foi-se o tempo em que eu me dava ao trabalho de me encher de hipocrisia para ouvir as tuas idiotices".

É importante o uso do "tuas", pensou. "Dá um relevo, algo de solene, de definitivo", diz consigo mesmo, para logo se escusar, "agora é tarde. Não há mais nada para ser dito, devia ter pensado nisso antes. Mas nunca penso. Em geral, a gente nunca pensa, nunca está preparado para dizer a coisa certa na hora certa". Ciente de que a peleja verbal com a agora ex estava inapelavelmente perdida, Ernando pegou-se pensando nos odores que os corpos exalam. Vivos, suor, flatos, secreções, pus. Mortos, músculos relaxam e há quem peide e cague depois de morto. Ernando tropeça em relatos desses com frequência quando mete-se a defender casos de assassinos. “A melhor prova de que a vida é uma merda é o fato de que, mortos, a gente ainda tem a liberdade de dar uma cagada”.

Algo fedia no ar.

Ernando, o homem a quem fez muita falta um escriturário responsável, pensava, antes de tudo, nos problemas financeiros e no desazo que teve ao investir na compra do apartamento que vê, agora, estragado para todos os fins e propósitos. "Vai desvalorizar". Ao mesmo tempo, embala suavemente o copo de uísque para ouvir as três pedras de gelo bater no vidro e fazer barulho: “chocalho”. "Essa merda vai desvalorizar pra caralho, aliás". Dá uma olhada para o centro da sala, como quem diz "fodeu". Remata a conclusão com um suspiro e um gole generoso no uísque, que constata, está já aguado demais.

Ernando não tinha planos para acabar o dia meio sentado, meio deitado no sofá, camisa desabotoada, e o uísque de má qualidade fazendo hora extra diante de suas fuças. Nem pensar nela, muito menos armar-se do argumento definitivo para expulsar mais um namoro cancerígeno quando é tarde. “Pior de tudo, foi o tumor que veio me expulsar de sua vida, mas dessa merda eu me livrei, te extirpei”, diz como que falando para ela. Sempre tem ela. Além do amargo encontro, Ernando não tinha a menor intenção de verr o investimento de uma vida desvalorizado. "Pior que doença".

O homem a quem fez muita falta mais sanidade e critério dos pais na hora da escolha do nome calculou que os próximos dias seriam mais amargos e insossos que o uísque que decantava no seu copo todos os seus remorsos. “Meu nome... minha avó morreu me chamando de Fernando. Nunca soube se por algum tipo de birra de gente velha e ranzinza ou se, simplesmente, porque não lhe cabia na cabeçorra que seu filho era retardado demais para batizar uma criança”.

Na sala, à luz do fim de tarde lento e sossegado daquela quinta-feira, Ernando foi acostumando o corpo com o lugar e a circunstância. Desafiava-se a si mesmo para ficar imóvel, feito uma pedra, "você tem um coração de pedra", ela tinha dito num dos tentos que logrou na discussão de meia-hora atrás e ao qual não encontrou Ernando resposta. “A merda é que perdi de goleada, se você for pensar”. "Você tem um coração de pedra", pensou Ernando que, se ele tinha um sedimento rochoso fazendo às vezes de miocárdio, era de se presumir que ela carregasse dentro do peito um buraco negro de atenção, fraqueza, frivolidade e total ausência de sentimentos. "Mulheres", disse.

"Foi-se o tempo em que me dava ao trabalho de me encher de hipocrisia para ouvir as tuas idiotices".
"Fora do contexto", pensou, "é só uma frase de impacto, mas que não diz rigorosamente nada". "Porra nenhuma, aliás". "Como aquela vadia, que latia e latia, mas no final não dizia nada que não fosse inútil". À luz das macambúzias ideias da tarde e dos efeitos do uísque disse uma frase, ou variação dela, que já sibilou pelos dentes de qualquer criatura que vista calças e faça a barba: "Amor não é comigo, é pior que doença".

"Pelo menos ela tinha peitões". Ernando lembrou da adolescência e de quando começou a se interessar pelas curvas, apêndices e particularidades anatômicas que determinam o dimorfismo sexual e fazem das mulheres a poesia que são. Lembrou que não tinha muito interesse em seios, gostava deles e daria 10 anos de sua vida para apertá-los todos os pares que se revelavam a seus olhos gulosos nos corredores do colégio, não há dúvida quanto a isso, mas a questão é que não dava aos peitos a importância que hoje dá. Via neles determinantes anatômicos que classificavam as garotas como gostosas ou não, em diversos níveis e patamares, que eram, e ainda são, definidos mediante consenciosa e extensa lista de requisitos, que sopesa aí além dos supramencionados pares de tetas: coxas, textura da pele, tipo de cabelo, bunda, voz, cor dos olhos, espessura da cintura e graça ao sorrir e principalmente, andar.

Ernando nunca alterou sua lista de determinantes, mas o que mudou, percebe-se agora, é a equivalência de cada ítem e a hierarquia deles. Se antes os peitos valiam menos que uma bunda escultural, hoje, reconhece, valem tanto quanto. O que teria acontecido? "Envelheci, foi isso". E, de mais a mais, Ernando reconhece que os tempos de colégio não lhe foram prodigiosos na arte da conquista, fruto das chacotas de que era alvo em virtude do nome ridículo que ostentava, acabou caindo em uma fase especialmente depressiva e isolada do mundo. À ele bastava imaginar-se dedilhando os peitos, bundas, coxas e cinturas que via pela frente naquele tempo de ebulição hormonal que nos devora as entranhas, fazendo de reclame de lingerie justificativa mais que suficiente para uma rápida, sôfrega, lambuzada e gloriosa, punheta.

"Aquelas vadias", pensou. Se houvesse um deus e ele seguisse seus escritos ao pé de todas as letras, com certeza, Ernando já estaria condenado aos infernos antes da maioridade por conta dos litros de esperma que derramou por criaturas rasas, nos casos das vadias da escola, bidimensionais, em caso de fotos e gravuras impressas, e digitais e magnetizadas, por conta dos não poucos VHS que lhe acompanharam a fase e lhe deram toda a sorte de criatividade para todas as horas de solidão. "Pior que doença".

No cômodo, sentado e meio deitado no sofá, Ernando olhava a marca deixada na parede pela ausência do sabre. “Ganhei do meu pai, que era oficial naval”. “Sendo bem prático, gosto do sabre, não gosto de meu pai”. Ernando tinha poucas fotos de família e nenhuma com o pai.

Tornando a pensar na vadia, deu o grito de libertação que irrompe no peito espezinhado e pavimentado de todo homem mais ou menos são depois de um rompimento. “Eu vou avacalhar tudo nesse apartamento. Vou criar ratazanas nos lençóis, vou alimentar baratas na louça. Que se foda, eu vou virar essa merda toda de pernas pro ar. Não vou deixar a janela aberta, aqui não nasce mais sol. Que se foda. Vai brotar mofo na penumbra estéril daquele quarto. Meu desodorante será o formol, meu sorriso decadência.  Eu quero anarquia, desordem, odor”. Ela era tarada por organização. “E eu estou ficando por liberdade”.

Já razoavelmente embrutecido pelo uísque, desconfiava que lá fora algo muito bonito se desenrolava para quem tivesse a coragem de levantar e ir até a varanda admirar o sol deitar-se. "Aquele ar vermelho em torno da estrela é um espetáculo muito desvalorizado, porque comum demais e gratuito". O ar vermelho lhe comovia a dar uma olhada, porque não o entendia. Sabia que qualquer bagatela ótica explicaria o fenômeno, mas já via-se velho demais para saciar essas curiosidades. Dava-se por satisfeito em admirar o evento sempre que podia.

O que não acontecerá hoje, porque ela lhe estragou o dia. "Mais que isso, essa vadia conseguiu o que todas tentaram, ela me estragou a vida". Ela tinha o costume de ser agressiva demais nas palavras e nos gestos, "mas era fria como um cadáver na cama", e Ernando reputa a esse conjunto de defeitos o desfecho do relacionamento. Na discussão de algum tempo atrás, fora a agressividade dela que selara o destino. Não havia mais tempo, não havia mais jeito de contornar a situação e, muitas vezes, basta uma bem concatenada cadeia de eventos que começa num ataque verbal "você é um canalha, um banana, tenho vergonha de ter um dia te conhecido", passa por um escorregão e uma tentação irrefreável de, por um momento em toda a vida, ver-se na posição de dominante de uma situação de confronto. Alguém poderia dizer que o desfecho da situação toda, com o lapso que trouxe a frase de efeito muito tempo depois, é a sina do argumentador de meia pataca e afiança a pouca prática que Ernando tem na arte. Ele passou muito tempo escondido atrás da vergonha do nome, que o moldou desde a infância, para aprender a exercitar os músculos da fala e da discussão.

O ar vermelho não reluzia pela sala porque a cidade tinha muitos outros prédios separando o apartamento de Ernando do horizonte, onde o sol se escondia. Ainda assim, por outros mistérios de ótica, algo da luz do dia ainda chegava àquela sala, onde Ernando jazia imóvel, fiel a sua determinada resolução de ficar estirado no sofá da forma que desabara, depois do fim do relacionamento e da discussão. "Que merda vai ser quando me der vontade de mijar". "Vou levantar e as pernas não vão funcionar direito, porque estarão amortecidas". "É culpa daquela vadia". Olhou para o chão.

Ali, empapuçando o tapete que viera como presente da mãe uns anos antes, viu o sangue começar a enrijecer à meia-luz do ocaso daquela quinta-feira. A mancha desdobrava-se como um rio que encontrou seu veio, cortando a superfície desta outra Terra qual adaga separando duas metades de uma maçã. Ou sabre, de onde, minutos antes, tinha brotado este outro Amazonas da cor de vinho, mas que já não tinha força para causar marolas, porque o veio de onde nascia o curso estava imobilizado e trespassado peço aço frio. Sabre que reluzia, agora, às últimas luzes do sol desta quinta, sol que sobranceiro, espiava tudo que acontecia naquela sala de suas excelsas alturas e distâncias que orçam em 150 milhões de quilômetros.

"Mira perfeita", pensou Ernando.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

(CONTO) O Restaurante dos Velhos, dos Moribundos e dos Sumidos

Era de uma maneira incerta, vacilante, insegura com que progredia a passos nada lestos aquele pobre velho. Caminhava com a dificuldade ordinária dos humanos que já fazem parte da terceira idade e que se deparam com os seus momentos derradeiros de vida, nesse que é, dizem, o outono dela, da vida: o limiar da morte. Diante de tamanho peso nas costas, de todos anos que viveu e que, não diga, são muitos, aquele senhor, que vendo-o pintado por estas letras, nos parece tão carente, frágil e digno de pena, caminha.

Digno de sentimentos nobres, como a ternura que nos inspiram, de formas e intensidades absolutamente diversas, a criança, o ancião e a amante, ele ia avançando contra a impactante indiferença da massa de pessoas que por ele passam. Mas não são más e insensíveis esses que aqui e ali rumam para o caminho oposto. Talvez por não dividirem conosco esse ponto de vista, entendem que aquele velho é só mais um, e aonde vai ele, donde vem, ora, não nos apraz disso fazer caso.

Indiferente dessa situação por ser dela refém e não causador, prosseguia sua caminhada rumo ao fim da esquina. Chegará lá daqui a esbaforidos instantes – e esbaforidos, que se frise, não por sua velocidade, que está bem aquém dos padrões mais ligeiros da caminhada humana, mas sim pelo peso que suporta, aquele já sobredito dos anos. Mas dizíamos, ia à esquina, e está indo porque é um restaurante, restaurante esse freqüentado, assim como as praças da cidade e seus bancos, por uma mui seleta sociedade de outros velhos que lá vão não por não saberem cozinhar, e é bem sabido que os idosos dominam bem as artes da culinária, vão lá para se encontrarem, para que tenham o ensejo de sair de suas casas, andar um pouco e conversar outro tanto.

Vão lá para que se avistem e que digam, uns aos outros, “bem, cá estamos”, “e agora, que se faz por aqui?” “Bem, nada”.“Apenas nos entediamos?” “É. Nos entediamos. Aliás, entediemo-nos, meu caro, entediemo-nos à farta!” Consiste, indubitavelmente, à grande maioria dos velhos o tédio como maior ocupação, não sendo isso precisamente culpa deles, nem nossa, sequer algo digno de reproche aos que no tédio se refestelam, mas apenas e tão somente uma fatalidade do jeito humano de levar a vida.

Entretanto, nosso bravo dirigia-se a um restaurante. Muito embora ficasse ele, o restaurante, não nos arrabaldes, não nas cercanias, mas justamente no centro da cidade, que não é das pequenas, sabe-se lá porque melindre sócio-econômico não é freqüentado de costume por jovens, nem por empresários, nem por crianças, mas pelos velhinhos. É como um bastião inacessível que os idosos vieram levantar nesta terra, um ponto avançado no front, que parece dizer, desafiando a nós outros com nossas poucas idades e vãs pretensões de sabermos viver; “aqui estamos, nós que velhos somos e que vós desdenhais. Aqui estamos nós velhos bem debaixo de suas barbas e daqui não sairemos”.

É natural que restaurantes tenham o vezo de buscar nas mais diferentes culturas motivos para gerarem apelo ao apetite dos comensais – como se pudesse haver apelo maior que a fome – há os que se bordam de verde, branco e vermelho, escolhendo nomes italianos para dizerem veladamente aos nossos estômagos: cá temos a melhor massa. Outros que vestem-se de cores e alusões nipônicas para valorizar o bom preparo que sabem dar a peixes e demais frutos do mar. Não ficam atrás os que se pelam em parecer franceses, mexicanos e outros menos votados valores culturais da culinária.

Contudo, não se sabe se de uma maneira inteligente, ou muito idiota, nosso restaurante resolveu misturar um pouco de tudo que há de elogiável no mundo da culinária. Há bandeirinhas da França, outras da Itália, no cardápio sugere-se como prato do dia na terça-feira sushi – há até a possibilidade de se comer hambúrguer e batatas fritas, desde que apeteça ao freguês esperar por alguns minutos a confecção do lanche, só não encontramos nesse outro Atlas geográfico quaisquer referências a Inglaterra, o que é perfeitamente escusado: como se sabe, a maior capacidade dos ingleses na cozinha ainda é ferver água para o chá. Enfim, não conseguimos descobrir se assim é, o restaurante que tanto agrada aos apetites dos velhos, para tentar buscar novos clientes, agradando o maior número possível de preferências culturais, ou se assim é por desmedida ignorância do proprietário, quer resolveu abarcar tudo que lhe agradasse em matéria de bandeirinhas, cores, bonecos e pratos.

Nosso bravo chega e toma lugar a mesa. Estranhamente ele tem a preferência de sentar sempre ao fundo, na última mesa, com os olhos voltados para a porta, como fazem os personagens das novelas de espionagem: sempre atentos para quem possa entrar no lugar. Não que ele seja agente secreto, é demasiado idoso para as peripécias cinematográficas que o cinema nos faz crer que se acometam nas vidas atribuladas desses espiões, não que ele tenha sido espião, o que escusaria o hábito há muito conquistado e, justamente por essa razão, difícil de se esquecer. Senta sempre nessas mesas de fundo por um instinto que não compreende porque jamais tentou entender, a ele consta apenas obedecer-lho. Senta-se lá e percebe o restaurante vazio. Pensar no que vai comer? Ora, é inútil. Conforme verificar-se-á em breve, o velho faz timbre em constar sempre o mesmo pedido ao garçom.

Entretanto, desta vez, para desdizer o troca-letras que conta esta anedota, pediu antes de tudo, para recompor-se da caminhada antes de deitar suas atenções à refeição, “um copo de água, sem gelo, por favor”. Pegou do copo e deitou o líquido de uma só vez garganta abaixo. Satisfeito, pediu, freguês conhecido dos últimos tempos que era, “o de sempre”, que consistia, no seu caso, numa sopa de legumes que, com algum esforço, se poderia encontrar boiando umas côdeas de carne.

Pouco esperou e chegou a sopa fumegante de vapores bem cheirosos à mesa. Comeu com a lentidão que nos caracterizou em parágrafo de antanho sua caminhada. Do tempo que levou comendo, pensou na vida, pensou na morte, raciocínios estes que tinha nos últimos tempos, por mais que se espere que os velhos só pensem nisso, saibam que este, pelo que parece, fugia a regra, havia se esquecido desses amuamentos. Coincidentemente eles haviam surgido desde que descobrira por indicação de amigos o restaurante, e por mais uma vez, e última, teve a conclusão de que apenas morremos um dia de cada vez. Nada mais.

Indicação que veio, e lembra-se perfeitamente, num dia de sol na praça. Qualquer coisa roncava em seu cérebro dizendo (o estômago?) que “estás com fome, seu bisbórrias. Trate de comer”, expondo aos demais o que há pouco lhe conferenciara a mente, ouviu dos colegas de ócio contemplativo que “meu caro, aqui perto há um restaurante ótimo”. “Comida boa que não sacrifica em demasia nossas surradas burras”, disse alguém. “E nem nossos intestinos”, rematou outro. “E mais, parece um exilo, aliás, asilo. Malditas palavras parecidas que por vezes me escapam... enfim, lá só vão velhos como nós, sem algazarra e música barulhenta”. Estranho. Pensando agora e remoendo essas memórias, dá-se que o velho enfim percebe o prodigioso fato de que todos os seus colegas daquele dia e dessas frases acima, abandonados pelas suas famílias e pela nossa sociedade não apareciam e não se sabia deles há tempos. “Sumidos”, murmurou por fim.

O velho nunca mais foi visto pelos seus.

Percebe-se que esse restaurante tinha qualquer coisa de especial, que era inaudito. Não apenas pela sua composição próxima a da ONU, ou naqueles tempos idos, Liga das Nações, com representações dos mais diversos países, não apenas por ser de ordinário freqüentado apenas pelos velhos da cidade e inspirá-los a pensar na existência e conquistar a capacidade de desenvolver aforismos, tampouco é inaudito por dar-me o ensejo desta história. Não, não é nada disso. Ele tinha consigo uma fascinação. Fascinação pelo mistério que encerrava no seu ambiente obscuro e aconchegante. De certa forma, todos, velhos, jovens, crianças, adultos, ricos e pobres, enfim, sabiam o que se passava ali.

Conta-se ainda hoje, e fazem já muitos anos que o restaurante, a exemplo do velho, sumiu, que naqueles pratos que misturavam do churrasco dos pampas ao molho tártaro das Europas, do sushi à mussarela derretida, enfim, tinham a incrível capacidade de fazer sumir os velhos que por lá almoçavam ou jantavam. Sumiam sem deixar rastros. Sumiam sem dor, sem tristeza e sem remorso. Sequer eram eles chorados pelas famílias, reclamados pelos vizinhos. A polícia, que já hoje nos falta por ter tantos bandidos para correr empós, nunca se soube de um caso sequer de sumiço desses velhos e precisamente por jamais conhecer qualquer um desses sumiços, jamais os investigou.

Alguns demoravam para desaparecer coisa de meses. A outros bastava a primeira refeição para que jamais fossem vistos. Dessa história incrível há a teoria de que rejuvenesciam todos, daí a não serem vistos, posto que se, vistos fossem, não seriam reconhecidos – e donos de sua nova cara, novo corpo, iam viver, e viver plenamente, senhores que eram da experiência de anos de labuta, ah, saberiam bem como conduzir o fio da existência sem tropeçar nas mesmas mazelas, fariam, indubitavelmente, por progredir o jeito humano, aquele que mencionei como responsável pelo tédio nauseabundo que envolve a velhice – e talvez conseguissem encerrar com esse vício do tédio aos velhos e outros tantos que ainda nos amolam a vida dos jovens, dos velhos e mesmo delas, pobres, as crianças.

Mas nem tudo são flores, diz o poeta e a literatura preguiçosa que me proíbe de achar frase melhor, há outra teoria para o caso, teoria dos mais miseráveis, estes misantropos que põe defeito em tudo e não vêem sequer uma bondade na terra, sequer uma magia, diziam estes últimos que acontecia era de os velhos morrerem envenenados, e que o dono do restaurante era de uma modalidade de fascismo a quem ojerizava os velhos e por isso matava-os. E quanto aos corpos, nada mais simples, cozinhava-os. O que explica a multinacionalidade do restaurante, afinal, os velhos eram também das mais variadas origens e esta era uma maneira mórbida de honrá-los. Não sei.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Saudade de Pedra

Aí está. Eu diria que trata-se de um imperdível atentado contra o jornalismo, contra a literatura e, por que não, contra as minhas possibilidades de me formar este ano.

É uma grande reportagem com inúmeras liberalidades no que tange a escrita, relatando o período da navegação fluvial a vapor pelo rio Iguaçu no Paraná, sobretudo na perspectiva da cidade de Porto Amazonas, enfocando no declínio da atividade sob a ótica de seus protagonistas.

Resultado de um ano de pesquisa e escrita, eis aí meu livro:

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Para efetuar o download você precisa clicar no link que lhe levará ao servidor onde o arquivo em pdf está armazenado - recomendo que você o abra em uma nova janela. Aparecerá o site mediafire.com. Basta esperar e clicar em "Click here to start download" e baixar o arquivo.

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P.s.: embora ainda não tenha colocado as insígnias nem no livro, nem aqui no blogue, todo o conteúdo está registrado em Creative Commons, ou seja, não há como se apropriarem. A este Tertuliano vocês não sacaneam!

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

(CONTO) E Caiu um Disco Voador

Era um daqueles dias normais, comuns, pessoas esparramavam suas misérias e suas esperanças pelas ruas da cidade, iam pra lá, vinham para cá. Nada de novo no front. Nada nessa tempestade prometia o ensejo de algum acontecimento extraordinário, o que sem dúvida daria muito que fazer, e procurar, aos jornalistas, às fofoqueiras e aos aposentados das praças, que desesperados trocariam olhares de pasmo e diriam uns aos outros, em incrível demonstração de desespero e desalento: O que há?

Nada. E esse era o problema. Tudo normal, incrivelmente normal. Contudo, seja para comprometer o fio que tomava esta história, seja para atrapalhar o autor, eis que no momento inesperado, ruge dos céus um som perturbador, como quinhentos motores v8 a gorgolejarem em plena rotação, detonando os tímpanos presentes a um raio de três quilômetros da praça, faltou dizer que é uma praça que nos serve de cenário, de onde observamos toda a cidade, ensurdecendo esses pobres miseráveis sem que ao menos soubessem como e porquê.

O motivo do ruído era um disco. Não mais voador, porque acaba de rebentar-se contra o chão, esparramando muitos escombros e muita fumaça oriunda da poeira que levantou, caiu, sem, no entanto, explodir, como seria mais plausível, aceitável até numa catástrofe de semelhante dimensão. Mas se há algo que se vê como falho e extremamente maleável na história dos sucessos inauditos dessa nossa humanidade é o lógico. A lógica esqueceu-se, decididamente, de participar dos momentos ímpares da história humana, e isso desde os tempos imemoriais, que precisamente por serem imemoriais, fazemos uso da literatura preguiçosa, e escusamo-nos cá de referi-los.

Fez-se silêncio. Silêncio desolador, agravado pela multidão de surdos, da qual poucos deram pelo objeto, não mais voador, entretanto ainda pertencente à classe dos não-identificados (embora tenhamos já, em parágrafo anterior, a audácia de identificá-lo: disco voador). Dizíamos que o silêncio era aterrador, os surdos erravam pelas ruas às apalpadelas, em pleno desespero, como se em lugar de perder o dom de ouvir, tivessem perdido a faculdade de ver.

Começou-se a juntar gentes à roda do aparelho, desconfiamos de livre vontade que seja um, que admiravam o acontecido. Os aposentados, que dadas certas particularidades do modo humano de definhar, já não eram contados entre os maiores e mais capazes ouvintes do gênero, agora que eram surdos de vez, trocavam olhares de felicidade – que era o que lhes restava, os olhos – olhares de júbilo, extremamente eloqüentes, como se a falta da audição houvesse feito desses olhinhos diapasões que reverberavam: viste? Embora, agora, não pudessem mais contar tudo o que verão, surdos que são. Sim, eles têm consigo a ciência de falar, visto que não são surdos de nascimento, mas queremos crer que os locutores de semelhante sucesso só teriam prazer em relatá-lo se tivessem consigo a capacidade de ouvir-se. Diante disso, o máximo que esses basbaques fazem é olharem-se. Nada mais.

Apareceram seitas. Apareceram pessoas que queriam implodir o disco, outras que o queriam como um monumento. Houve quem sugerisse desmontá-lo para estudo e evolução de nosso exército, que é, evidentemente, a prioridade de qualquer sociedade contemporânea. Passaram dias, semanas. Ninguém arredou pé, o disco também manteve-se imóvel. A chusma só fazia crescer. A administração pública, cônscia dos seus sacro-santos deveres de proteção do populacho, considerava criar por lá uma sub-sede da prefeitura, e cônscia de outros deveres, não tão sacros, estudava sob que alegação lograriam cobrar impostos dos acampados da praça, nome pelo qual ficou conhecida aquela sociedade. O juiz daquela vara instalou, em lugar de um antiguíssimo boteco, um tribunal para mediar os pequenos conflitos que jamais faltam num aglomerado de gentes das mais distintas e distantes orientações. Decidia os conflitos em meio às mesas, cadeiras, mesas de bilhar, balcões e engradados. Muitas anedotas se fizeram a respeito, dizendo que o juiz queria mesmo era encher a cara e não pagar.

O exército estava de prontidão. As tevês. Os hippies, os yuppies, os ermitãos que voltaram à casa, conhecedores de que, agora, meu caro, que há semelhante novidade na cidade, não há mais que se fazer no meio do nada, das cavernas e do campo, onde justamente alguns deles, há anos, esperavam pouso de disco voador. Vieram toda a sorte de formas e maneiras de se ver o mundo também, tomando ruas, casas, prédios. Houve enorme procura por janelas com vistas para o sinistro, o que tornou a especulação imobiliária algo de muito proveitoso e feliz naqueles dias no entorno daquela praça convertida em campo de pouso.

Embora a defesa civil desaconselhasse, as árvores do lugar passaram a abrigar grande população de curiosos arborícolas, dos quais já havia os mais engenhosos que, pregando aqui e ali fizeram um confortável poleiro. O ser humano, sempre solícito, dono de espírito extremamente inventivo, já começava a alugar os poleiros para os desafortunados a quem faltou espaço nas árvores, o que semeou muita discórdia, posto que os corretores de imóveis viram-se na infeliz contingência de terem uma concorrência ferrenha com um modelo de habitação mais prático, próximo e barato do foco de atenção. Sentiram-se ultrajados e, pelo que se soube, se não fosse a presença de forças repressoras e o grande número de pessoas aglomeradas no entorno da praça, teriam partido para as vias de fato e tomado para si o novo e promissor empreendimento imobiliário. Entendiam eles que os direitos de exploração sobre qualquer forma de locação de imóveis lhes era garantido pelo bom senso e por qualquer lei, que seguramente havia uma. Como se sabe, fazer justiça é sempre uma maneira de cometer uma injustiça em causa própria.

Entretanto, a longa vigília já fatigava, começavam uns a considerar levantar acampamento. E os militares, que haviam tomado para si as responsabilidades do local, ouviam os apelos para uma resolução mais prática, e sempre respondiam que: não é hora ainda, tenham calma. Sendo que o alto comando mandava para os diabos o desazo que teve essa merda de nave em cair justo no meio de uma cidade. Que caísse esta desgraça em um campo, o dos ermitões, por exemplo, seriam poucos pra silenciar e poderíamos fazer o que bem nos aprouvesse dessa joça. Os militares faziam ouvidos moucos à voz do povo, ainda que seja ela a voz de Deus. Aliás, talvez precisamente por ser ela de quem é, é que lhe eram indiferentes os fardados em verde oliva. Que não se olvide jamais que, de Deus ou não, a voz que botou o Cristo na cruz foi dele, do povo.

Os soldados se aborreciam visivelmente. Começava-se a temer que o populacho exaltado rompesse o cordão de isolamento, mandasse às favas as prevenções militares, bem como seus fuzis, e descobrisse, enfim, o que havia lá dentro daquele disco. Se é que nele havia algo.

Um conselho foi formado, democraticamente, claro está, com representantes de todas as comunidades envolvidas na observação para que decidissem o que se fazer. E decidiu-se.

Decidiu-se tentar comunicar-se com o disco. Poderia ter acontecido de morrerem na queda todos os tripulantes e, pior, poderia ter o disco esmagado alguns infelizes que estavam na praça. E, cabe que se reprove este povo, pois só foram dar pelo fato agora, dias e dias depois. Egoísta e falha é a alma humana. E que se louvem os misantropos, que nesse quesito, sempre estão um passo a frente, a saber: maldizer toda a vida e o que de humano há nela, o egoísmo, principalmente.

Embora a decisão fosse no sentido de se estabelecer contato com a nave, havia ainda que decidir qual seria a forma desse contato, o que deu muita, mas muita, dor de cabeça. Uns eram do parecer que se deviam dar uns canhoaços, afinal, o exército está aí para coisas desse tipo, atirar em naves alienígenas das quais ninguém conhece o poder de reação. A outros figurava imperiosa a necessidade de se tentar contato de maneiras mais cautelosas, só não eram capazes eles de dizerem quais. Um bêbado meteu-se na discussão, sim, porque não lembraram de representar a classe dos bêbados na conferência, e o sabe toda a gente, menos os digníssimos do conselho, que praça em centro de cidade é de propriedade deles, dos ébrios. Ao bêbado figurava que deviam era ir todos para casa, porque aquilo já lhe dava nos ovos, faltava-lhe onde amaldiçoar a vida nas noites frias, desalojado que estava da privacidade necessária para ocupação tão meritória. Aliás, ao dar com o meritíssimo, que obviamente era figura do conselho, lembrou-se que este lhe seqüestrara indefinidamente o boteco, e isso tornou-o, coitado, irascível.

Levaram o bêbado para recompor-se. Enquanto reencetavam as tergiversações, uma criança, que ninguém viu de onde veio, e cumpre que se faça justiça, ninguém viu pra onde foi, rompeu o cordão, o circo de discussões sem que dessem por ela, apropinqüou-se do malfadado disco, tomou na mão de um escombro, pedaço de calçada, provavelmente, fez mira, e tal como o moleque que despedaça uma vidraça, descarregou no disco.

Fez um enorme barulho. Barulho seco, de pedra grande batendo em lata, lata oca. Todos, tudo, aliás, silenciou, como na ensurdecedora aparição da nave. Até o bêbado que ainda discutia com alguém sobre a cor do céu, que lhe parecia vinho e não azul, calou. Correu como podia e abraçou-se a uma árvore, dizendo: ah, querida, enfim te reencontro. Com que, então, morro?

Da nave, lentamente, surgiu um pequeno ruído. Baixo, foi subindo o barulho lentamente. Quando ouviu-se o típico zunido dos filmes de ficção no momento em que a porta de um disco voador se abre. Entretanto, fosse coincidência, fosse para comprometer toda a arte cinematográfica, esse foi o primeiro disco voador que viu a humanidade, ou parte dela, em que ao abrir a porta não prometeu aos olhos de ninguém luz branca ofuscante.

Não. Havia por trás da abertura um breu. Breu pleno. Nessa abertura foi se assomando, lento e cambaleante, um pequeno ser. Seu andar titubeante e as apalpadelas, algo incerto como quem acorda, rendeu comentários do bêbado: rá, olha aí, ali também temos quem aprecie a vida. Riu-se tanto o bigorrilhas que errou da árvore que há pouco era a sua amada que tornava do mundo dos mortos, e num misto de choro e riso, antes de cair aniquilado pelo porre, ainda pôde dizer: marcianos ou não, esses são já dos meus...

A liliputiana criatura chegou enfim à porta. Era baixo, não diga, tinha duas pernas e braços. Não chegou até nós traços mais definitivos e esmiuçados de sua figura, e do muito que se disse até hoje, só se pôde verificar como constante a alusão à presença de duas pernas, tronco, cabeça e braços, e é quanto nos basta. Olhou e, já acostumado com a claridade, viu homens, mulheres, a criança que lhe havia incomodado o sono, os militares, os hippies, os góticos, os pobres, os ricos, as árvores, o bêbado, o general apavorado, os canhões voltados a si, assim como as câmeras e, instintivamente, não logrou descobrir de que deveria ter mais medo. Só pôde dizer:

- Opa.