segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Dia D

Eu nunca fui muito Drummond. Verdade que gosto de muitos poeminhas do gentil mineiro, mas verdade seja dita, ele é feliz demais. Assim como Quintana, que no entanto, é mais sensível. Sou mais Nicanor Parra, Vinícius, Eugénio de Andrade, Benedetti. Eu sempre fui um melodrama do Alexandre Dumas lamentando o tremendo azar de nascer uns 200 anos atrasado.

O fato de eu ser menos gauche na vida, no entanto, não impede que venha aqui hoje, no dia em que o genial Drummond faria 109 anos - dia escolhido para o Dia D: Dia de Drummond - publicar, ou neste caso republicar, mais um poema de minha lamentável lavra:


Droit na vida

E quando eu nasci
um desses anjos de sombra,
veio e me disse:

se droit na vida, campeão
tá aqui esse déizão,
vai na padaria,
me compra uma pinga,
cigarro da tabacaria,
e traz o resto em dadinho.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

27 anos sem graça

Na iminência de completar 27 anos, ou cometê-los, sempre questão de ponto de vista, o que mais me aborrece é não ter uma canção para celebrar, se há o quê, mais uma vez questão de ponto de vista, a data e o ano vindouro onde terei de me conformar em dizer que tenho não 25, não 26, mas 27 anos.

E isso tudo sem entrar no mérito do capítulo de realizações deste 1/4 de século mais dois anos. Mas apenas a título de comparação, é interessante constar que Alexandre, O Grande, aos 25, já tinha conquistado todo o mundo conhecido, o que era realmente muita coisa. Não que eu tenha qualquer desejo do tipo de governar o mundo, dou-me por enormemente satisfeito por governar, ser a lei, senhor de 55 metros quadrados onde cabem todo o meu mundo conhecido. Talvez o problema seja esse: falta de ambição para conquistar o mundo.

Deixando esta querela de lado, o que realmente me aborrece é a ausência de canções para rematar a nova idade. Aos 25 anos eu tinha "A Palo Seco" de Belchior para gritar que contava "25 anos de sonho, de sangue e de América do Sul". Me desfiz dos 25 anos e me encontrei com o Tremendão, que diz "26 Anos de Vida Normal".

Diante da inexistência de verso que abarque estes 27 anos, inicio a aproximação final da data sem muita gana de festar e muito preocupado por romper a tradição de uma canção para cada aniversário. Cismo muito com mudanças que sou obrigado a fazer à revelia. Me pelo de medo delas. Aliás, as três coisas que mais temo na vida são: dinossauros, juros e mudanças.

Fazer 27 anos não tem, até aqui, a menor graça.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Rádio: Belchior - Tudo Outra Vez

"É o fim do termo saudade como charme brasileiro..."

Como mariposas

As mariposas, que começam a irromper a valer por esses dias conforme o tempo aquece, se atraem pela luz e calor das fogueiras. Talvez, lá no fundo, no âmago do seus bulbos que fazem às vezes de cérebros, elas saibam que o fulgor daquela luz toda, que o calor que ondeia pelo ar e lhes atrai o voo vai destruí-las, mas ainda assim elas seguem resolutas em direção da força que as irá consumir de maneira inapelável, num voo que de lá não sai chamuscado, mas sim consumido. Esse sou eu com as mulheres.

domingo, 23 de outubro de 2011

Dúvida tecnológica

Upgrade intenso do PC ou notebook novo?

domingo, 16 de outubro de 2011

Mercados

Vemos aí o gestar de um novo tempo. Jovens, velhos, sonhadores e gente comum, tão importante e heroica quanto os demais, se revoltam em todo o globo contra o despotismo esclarecido exercido por financistas e sua capacidade homérica de gerar riqueza e nos empobrecer, gente normal, no processo.

Não se sabe se os protestos e o despertar de uma gente, sobretudo em países mais avançados, acostumada ao guarda-chuva eficiente do estado de bem-estar contra o financismo dos mercados vá dar em alguma coisa, em um sistema mais justo e estabelecido no real da economia. São pessoas que sentem na carne o apertar de cintos que FMIs e "mercados" orientam no momento de crise. Eles não querem perder direitos, não se sentem felizes com a hipótese de perda de qualidade no serviço público e, só agora, sentem o desgosto que foi ser brasileiro em boa parte dos últimos 30, 35 anos.

É um povo revoltado e disperto contra a ameaça do financismo que desmontou o mundo nos últimos vinte anos e fortaleceu o pináculo da pirâmide social, onde equilibram-se faceiros os tubarões de Wall Street e adjascências na falida "aldeia global".

Que venha, pois, este admirável mundo novo. Sem as alavancagens mirabolantes que, na calada da noite, resolvem a sorte de famílias, empresas, países. Sem a venda de "papéis". Sem a ilusão de um dinheiro que não se paga e se multiplica na ganância ilimitada de uma gente que devota sua vida a multiplicar e não a fazer. O que não é demérito. Demérito é nos empobrecer a todos, inofensivos, que desejamos da vida um tanto de conforto e outro tanto de dignidade. Eles multiplicam bits em um computador que não existem em cofre algum, mas podem ser sacados em qualquer caixa num processo exclusivo por natureza e nada edificante, como a sucessão de bancarrotas e empobrecimento coletivo no primeiro mundo e na Europa não cansam de atestar.

O processo todo de debacle do capitalismo, não diga, nasce da cobiça que moldou a perversão humanística que veio a ser chamada de neoliberalismo. Nos países vergastados pela atual fuga de crédito a origem dos problemas está na pólvora que se converteu o financiamento imobiliário. A intenção, vá lá, não era ruim. A ideia era dar condições a mais ou menos qualquer um de bancar, via crédito, a morada da sua vida, a casa própria.

O problema é que dívida, de estados, países e pessoas, pode ser um bom negócio. É lucrativo ser credor quando a perspectiva de ser pago em dia, e com os juros acordados, é boa. Só que ao vender crédito a praticamente todo mundo, você abre mão de garantias sólidas, porque os mais pobres podem ter problema para pagar. E quando eles não pagam, e você é credor de uma multidão de gente que não paga.

Mas antes de isso ser necessáriamente um problema, a oferta crescente de imóveis, acelerada pelo crédito imobiliário barato e irrestrito, não para de subir. Assim como os preços. Então você compra uma casa que não pode pagar em hipótese alguma - e normalmente o banco sabe disso. Passam os meses, e ela vale mais do que o valor que você está pagando. Então compensa vendê-la para outro idiota financiar, pagar sua dívida original com o dinheiro da venda e embolsar o lucro. Dois problemas disso: idiotas são um recurso vasto, porém limitado. E a dívida só muda de mãos, um dia ela quebra um idiota que não encontra comprador para o imóvel e os bancos porque perdem a perspectiva de serem pagos. Olhos abertos, porque no Brasil algo muito semelhante está em curso.

E quem conserta a monumental cagada é o estado. Ou ao menos ele tenda algo assim, como tentou em 2008. E claro que não dá certo, porque a saída dos governos, incapazes de peitar os financistas que, em última análise, os colocaram no poder, é jogar dinheiro novo nos bancos que, claro, irão aspirá-lo em vigorosos haustos com os quais continuarão soprando ar no balão que se chama crédito.

Isso se explica porque os principais bancos do mundo, lotados nos EUA ou com negócios lá, comemoram uma década de liberação de um freio legal que os impedia de usar dinheiro de correntistas em operações de alavancagem (é a mágica que bancos fazem para multiplicar dinheiro e emprestá-lo ao mercado). Isso insuflou essa bolha que, hoje, paira sobre nossas cabeças e ao estourar há de nos consumir todos.

O grande problema de um panorama deste está em não nascer daí uma catarse. De se derrubar o edifício do capitalismo, minando na mesma hecatombe as fundações da democracia, que é bem ruim, mas é o que de melhor temos. Abrir mão do capitalismo financista não é ruim. Perder a liberdade e o direito de escolha, é muito ruim. Um cenário em que as sociedades confrontadas com a ameaça de perda de direitos garantidos há décadas busquem guarita em velhos, mofados e empoeirados discursos da velha direita radical. É um risco que já se verificou na aurora do século passado e que resultou, ao menos diretamente, em 60 milhões de mortos na Segunda Guerra Mundial. Isso descontados os tantos milhões que pereceram em escaramuças paralelas e menos relatadas na Manchúria, no Oriente Médio, na África. Não se admira que da porção dos 60 milhões aniquilados estejam notoriamente o holocausto judeu que são reconhecidos, como eram naquele tempo, como notáveis financistas.

O mundo precisa aprender a inverter a lógica do dinheiro. A mantê-lo como meio de troca e intermediação de negócios, o que pressupõe sua escassez, mas impedir que seja ferramenta de dissolução de valor real, de emprego, de dignidade, de sonhos e de vida de tanta gente que, cansada, confronta-se com o noticiário de nova crise com um sorriso triste no rosto de quem diz "mais uma vez e até quando?"

Só o tempo vai dizer. Temos Wikileaks, Anonymous, Occupy Wall Street e o Democracia Yá!. São movimentos vigorosos e de grande repercussão que ajudam na marcha em direção a uma revisão da desgraça de mundo que fomos capazes de criar. Eu espero o triunfo das pessoas normais, mas não posso deixar de fazer eco das palavras do penseroso filósofo eslavo Slavoj Zizek que, em visita ao protesto contra Wall Street nos diz:

"A única coisa que eu temo é que algum dia vamos todos voltar para casa, e vamos voltar a encontrar-nos uma vez por ano, para beber cerveja e recordar nostalgicamente como foi bom o tempo que passámos aqui. Prometam que não vai ser assim".

É preciso, no resumo, saber querer. E não ter medo de querer um mundo um pouco melhor. 

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Medos e soluções

Morro de medo de duas coisas na vida: dinossauros e juros. Quanto aos primeiros, não posso fazer muita coisa. Quanto aos juros, bem, chegou a hora. De agora para frente não. Chega de ser fodido pelos juros, é hora de fodê-los.

domingo, 2 de outubro de 2011

Planos

E se nada disso der certo?

Bem, eu sempre posso voltar a viver como um ser primitivo, sem escovar os dentes, pentear os cabelos, aparar a barba, bebendo como maluco, urrando pelas ruas e comendo comida estragada.