Coincidências povoam nossas vidas, e ultimamente algumas têm me assaltado. Vejam por vocês mesmos.
Na sexta-feira passada, uma amiga me disse que no sábado anterior tinha visto Juventude Transviada na madrugada da Globo, e que tinha assistido ao filme e flagrado um ator mui semelhante com o trapizongas que lhes escreve nesse instante. Eu vi Juventude Transviada (Rebel Without Cause, 1955) - deve ser daí que vem a expressão "rebelde sem causa") já fazia algum tempo. Era um dos meus rompantes de cinéfilo culto, ver um clássico antigo. Como o filme conta com James Dean no papel principal, um dos maiores mitos do cinema até hoje, fiquei extremamente esperançoso que a semelhança fosse com ele. Entretanto, sabendo que Dean era loiro e eu grisalho, fiquei menos convicto. E de fato, me sentiria honrado em ser como James Dean. Foi o único a receber indicação póstuma do Oscar na história (por duas vezes!) e tinha arroubos de roqueiro nos tempos mais belos do rock, na minha rabugenta opinião. Era jovem, desejado e morreu cedo num acidente com um Porsche prateado.
Aluguei o filme. Me senti como Tertuliano Máximo Afonso, personagem de José Saramago no romance "O Homem Duplicado", que li há pouco tempo. Tertuliano, sem mais o que fazer, aluga um filme qualquer e descobre nele um personagem menor que era simplesmente uma cópia sua. Daí Tertuliano traça uma cruzada para descobrir o nome desse ator, alugando outros filmes e criando os mais variados meios para descobri-lo sem denunciar-se, e, enfim, conhecê-lo (livro excelente, como naturalmente são os do Saramago). Vi o filme, que é sim muito bom, mostra as desesperanças da juventude daqueles doidos tempos de Elvis, carros com rabo-de-peixe, brilhantina e desilusões do pós-guerra. Apresenta o jovem nisso tudo, é um bom filme. Foi indicado ao Oscar de melhor roteiro, ou melhor roteiro adaptado, ou ainda coisa que o valha.
Foi um dos primeiros que a Warner rodou em CinemaScope. Teve algumas cenas rodadas em preto e branco mas para prestigiar a nova tecnologia acabaram refazendo tudo a cores. O orçamento do filme foi de modestos e encolhidos 1,5 milhão de dólares, uma bagatela se compararmos as produções contemporâneas. No terço final do filme há uma piscina vazia, que tinha sido usada em "O Crepúsculo dos Deuses". Não há cinéfilo que se preze que não tenha visto "O Crepúsculo dos Deuses" (clássico de 1950, narra o fim de uma grande estrela do cinema mudo, crente de que pode dar a volta por cima num desvario amalucado mui melancólico, mas para meu humor negro, extremamente engraçado), desconfio que a mansão da piscina seja também a mesma, mas isso não lhes garanto.
Vendo a fita busquei esse meu alter-ego e o encontrei no coadjuvante, que vim a descobrir, atende ou atendia pelo nome de Sal Mineo. Não só pelo nome, mas pela aparência do dito cujo, acredito tratar-se dum descendente de italiano. A semelhança, de fato, existe, vá lá (embora eu teime em protestar, Quero ser James Dean!*), mas não é assim tão profunda. O personagem de Sam é "Platão", apelido, ou John Crawford como o chamam vez ou outra no filme. O melhor amigo, senão o único, de James Stark, personagem do outro James, o Dean - Sam morre no final, aliás, John. Pelo que pude pesquisar em sites de cinema daqui e de lá, parece que Sam não fez mais filmes em que figurasse com alguma primazia no cast. Suspeito que virou artista de tv nos states, porém me falta acesso aos programas de tv daquele tempo, sobretudo os norte-americanos para confirmar a impressão. Contudo, fez uma boa atuação o Mineo o típico loser dos filmes de adolescentes norte-americanos.
A diferença minha e de Tertuliano reside no fato de que o personagem de Saramago ficou absolutamente desconcertado, eu apenas curioso. Vi o filme, achei o cara, e ponto. Me ocorreu agora, é curioso, mas nas férias escrevi sobre o fato de que numa noite sonhei que eu era o novo James Bond, o novo 007 e no dia seguinte estava a correr pelas ruas de Ponta Grossa atrás dum assaltante de bolsas femininas. Guardadas as devidas proporções, como defendi a Lei e a ordem, desconfiei que o sonho e o causo eram mais que circunstânciais e que eram predições do meu futuro. Agora me vem essa de parecer com um ator. Coincidência, seguramente.
Ontem ainda encontrei outra amiga e fui convidado a ser figurante num filme que estão rodando por aqui. O filme é um curta. Seguramente de modestas aspirações, mas digam vocês o que disserem, continua sendo um filme. Alguém pode ver e dizer: "ei, aquele figurante é a cara do James Dean!", outro dirá: "é mais o Sal Mineo", e outro: "hum, sei não, mas ficaria bem como 007". Essas coisas acontecem. Aconteceram com um ator famoso, das antigas, que eu nem lembro mais o nome. E como a história é apenas uma eterna repetição do mesmo, poderia muito bem ocorrer comigo.
Um dos meus melhores amigos é a cara do Russel Crowe (ou do Nicolas Cage no tocante ao olhar-de-peixe-morto, mas isso não sou eu quem digo) e chamei ele para ser figurante no mesmo filme. Enfim, são todas coincidências que, sem dúvida nenhuma, me credenciam para o cinema. Daqui uns poucos anos quando eu estiver ganhando o Oscar ficarei feliz em dizer no meu discurso de vencedor que vocês, meus queridos oito leitores, foram decisivos e preponderantes na minha tragetória. Os três ou quatro que estudam Jornalismo comigo fiquem certos de que serão contratados para serem meus assessores de imprensa e meus relações públicas.
Digam o que quisserem, mas de perfil guardo lá um quê de James Dean...
*Sim. Trocadilho pedante em relação ao ótimo "Quero Ser John Malkovitch".

