terça-feira, 28 de novembro de 2017

Nostalgias do futuro

Viver tem sido sonhar com o dia em que, meio velho, você pega no telefone, se eles ainda existirem, e liga para os filhos no meio do dia, sem a menor razão específica, para dizer que morre de saudades do tempo em que eles lhe sorriam com as bocas cheias de janelinhas; tudo isso enquanto sabe da improbabilidade geral dessas coisas e fica aí, cismando consigo mesmo, que já seria um bom começo adotar um desses.

E, no fim das contas, não fazer nada disso porque encarar a vida, sorrir, simplificar e adicionar leveza são todas as coisas que você pode fazer enquanto se ilude a respeito de ter algum controle do que faz, sente, deseja e, no fim das contas, realmente obtém das buscas e lutas nossas de todos os dias.

A vida é um troço engraçado.

domingo, 19 de novembro de 2017

Radiohead - Man of War

Trata-se de uma faixa refugo do OK Computer, lançada só agora, 20 anos depois. E que coloca as coisas em perspectiva de um disco tão importante diante do fato de que essa música, um rejeito, é uma das minhas preferidas.

Eu considero a crítica musical uma das coisas mais insuportáveis da crítica cultural. Em geral, textos sobre músicas, álbuns e artistas são cheios de pedantismo insuportável e eu me pelo de pudores e censuras para nunca, jamais, posar como conhecedor, como crítico, para sair por aí resenhando músicas, álbuns e artistas, quer voluntariamente ou não. Como dizia o Raul, eu acho toda essa gente um saco.

Toda essa resistência está relacionada com o ambiente tóxico e ególatra de artistas e críticos, que se engajam num relacionamento promíscuo de grupos que deviam manter um distanciamento sadio em virtude do que produzem.

Mas acabei gostando tanto da canção que me permiti ler resenhas sobre. Tive engulhos em apenas dois parágrafos da crítica laudatória da Rolling Stones, suficientes para me recordar do porquê de achar o jornalismo cultural, em especial aquele que se debruça sobre música, uma das coisas mais insuportáveis do mundo pós-moderno. Eu ando velho, não me critiquem, me deixem pregar ao deserto, que aqui é quentinho e eu, para falar a verdade, nasci cagando para a claque.


Entretanto, vou reconhecer que a jornada foi útil porque me deixou descobrir que "Man of War" esteve a ponto de ser o tema de Spectre. Algo que faz todo sentido: a música tem uma batida bem James Bond, que eu não teria percebido por minha conta. A título de curiosidade, os produtores do filme, embora tenham gostado da peça, desistiram dela em virtude do fato de que a música não seria original para o filme, algo que tornaria a disputa por um Oscar impossível para Spectre.

Drift all you like
From ocean to ocean
Search the whole world
But drunken confessions
And hijacked affairs
Will just make you more alone


segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Guillaume le Gentil

Guillaume le Gentil. Astrônomo, francês, século 18. Le Gentil, mas que nome, viveu num tempo em que o mundo científico colhia os primeiros frutos da Era da Razão, do Iluminismo, cuja grande agenda para a astronomia estava em medir a escala do sistema solar e obter as distâncias que separam a Terra de todos os vizinhos. Para dar conta desse colosso aritmético era preciso alguns referenciais e o melhor deles é a medição do trânsito de Vênus, entre nós e o Sol, visto a partir de diversos pontos da Terra: com a cronometragem precisa do tempo que o planeta vizinho leva para percorrer o disco dourado do sol, é possível se calcular a distância relativa de Vênus à Terra. Com esse número, os astrônomos puderam presumir a escala do sistema solar.

O problema é que Vênus atravessa o nosso caminho de tal forma que possamos vê-lo eclipsando porção insignificante do sol em períodos de oito anos a cada século. O último trânsito ocorreu na janela em 2012, precedido por um igual em 2004, e novo episódio do tipo só no século que vem: 2117 e 2225.

Fica aí, aliás, mais uma ideia de romance histórico: as dezenas de expedições que, em 1760, correram o mundo em busca dos pontos ideais de observação. O Capitão Cook, por exemplo, encarregado pela coroa britânica de ir ver Vênus passar a partir do Taiti na janela de 1769, tropeçou na então desconhecida Austrália no caminho de volta. Na Sibéria, derretiam-se as neves e conta-se que os astrônomos europeus embebedaram os mujiques para que esses não negassem fogo na hora de atravessar, de trenó, as tênues camadas de gelo de lagos congelados.

Nenhuma dessas histórias é tão interessante quanto a de Gentil.

Le Gentil foi designado pela academia de ciências da França para ir até a Índia, onde o reino tinha então colônia, e de lá fazer suas aferições. Equipado com telescópios, lunetas e cronômetros, o astrônomo embarcou mais de um ano antes da data, realizando viagem contornando a África e aportando em Madagascar. Ainda nessa perna da jornada, seria atacado pela marinha britânica em virtude da Guerra dos Sete Anos. Na ilha, procuraria um navio que tomasse o rumo da Índia.

No percurso dessa escaramuça a que se deu o nome de Guerra dos Sete Anos (e que rendeu a Dumas romances deliciosos), os ingleses tomaram da França o pedaço de terra na Índia que vinha a ser destino de Le Gentil. Em virtude disso, no meio do caminho até esse ponto, o francês foi convidado a fazer a volta e desistir de desembarcar.

Teve de observar o trânsito de Vênus no meio do Índico. Como, em geral, barcos balançam ao sabor das ondas, as medições e registros feitos por Le Gentil não tinham precisão e utilidade nenhuma, servindo apenas de curiosidade inofensiva. Além disso, para serem consideradas no esforço mundial, as informações precisavam vir acompanhadas de precisas coordenadas geográficas a respeito de onde foram tomadas, algo que a navegação rudimentar do tempo, sem o abraço redentor dos GPS e Glonass, impedia.

Apesar do insucesso, Le Gentil não se abateu. De volta à África, decidiu esperar onde estava os oito anos para o próximo trânsito do século, em 1769, abrindo mão de regressar à França, onde tinha vida como catedrático e naturalista, termo com que se classificavam no atacado todos os cientistas do tempo, além de família, interesses e amantes. Mas, com o mundo pacificado em virtude da guerra que acabaria dia ou outro, imaginava, teria outra chance de colher as informações em nova tentativa, dessa vez na ilha de Manila.

Passaram os anos, Le Gentil fez-se novamente ao mar, mas o governador espanhol à cargo da ilha escolhida como ponto não achou muita graça na ideia e, sob recomendação dos franceses, Le Gentil resolveu ir embora porque, além de hostilizado, considerava que Manila poderia não oferecer boas condições climáticas para acompanhar a passagem venusiana sobre o disco solar. Para não perder o fenômeno astronômico que consumiria 11 anos de sua vida, dirigiu-se então, mais uma vez, para a Índia. Fora, inclusive, de bom ânimo com o prognóstico de tempo bom durante o período para poder acompanhar o evento com boa visibilidade.

Fez um mês de tempo bom e céu limpo, algo que aliado ao fato de estar em solo ostensivamente francês, pôs o astrônomo no melhor dos ânimos. Até que não fez mais. Em Pondicherry, local da observação de Gentil, no dia, no exato dia em que Vênus desfila perante o Sol, e segundo memórias de Gentil e do governador da colônia, nos minutos exatos que antecediam o trânsito, fechou-se o tempo e um céu de chumbo encobriu completamente a visão da passagem do planeta. Le Gentil, naquele momento, tinha devotado uma década de sua vida para não conseguir acompanhar um evento que, somando as duas datas separadas por oito anos, dura seis horas. Algum tempo depois, o francês ficaria sabendo que seus colegas postados em Manila, ao contrário do que Gentil havia presumido, observaram todo o trânsito em perfeitas condições atmosféricas.

Registra-se que, em seu diário, o francês anotou que se atirou de cabeça à cama, e anotou: "tal é a sorte dos astrônomos!".

Guillaume le Gentil, com toda a razão, enlouqueceu.

Passou uns meses se aborrecendo enormemente com a crueldade da vida, morando em plagas distantes da Índia, até que resolveu voltar para a França. Contraiu disenteria, sobreviveu a tempestades e naufrágios, cruzou um mar infestado de corsários em pé de guerra (Espanha, França e Inglaterra entrariam em campo dali a uns meses para decidir quem se classificaria para as Guerras Napoleônicas décadas mais tarde). Chegou a Paris para descobrir que fora dado como morto, que sua mulher tinha achado outro, que não tinha mais propriedades. Passou anos em tribunais e recorreu ao poder do rei para que intercedesse em seu favor.

Morreria uns 20 anos mais tarde, bem a tempo de evitar a roda de guilhotina que com certeza engoliria sua cabeçona azarada e adornada por aquela cabeleira inexplicável, típica da aristocracia francesa daquele entardecer de velha ordem.

Esse é um resumo da sua aventura, presente nas suas deliciosas memórias “A Voyage in the Indian Ocean”, livro que é assaz raro, infelizmente, e que me deixa com aquela sede de leitura e curiosidade assanhada, algo que está para mim como a pachorra abnegada estava para Gentil. O livro, no entanto, é mais que um relato dos azares todos porque, pelo que se pesquisa, vai ainda mais longe, fala do interesse que Gentil desenvolveu pela cultura africana, pelo seu esforço de mapear a ilha de Madagascar e uma série de outros projetos que ocuparam-no ao longo dos anos em que esperou as órbitas de Terra, Vênus e Sol se realinharem.

A anedota sobre o azar esmagador de Gentil é engraçada, curiosa, foi o que eternizou seu nome, provoca riso e vai trazer lições de vida, se você estiver procurando por elas, mas o que mais me instigou a ler esse livro impossível e em conhecer a vida de Guillaume Le Gentil foi em me encontrar com esse modelo de homem, no sentido do coletivo da raça, que sabe de tudo: que se orienta pelas estrelas, que domina aritmética, astronomia, tem noções de navegação, de marinharia, de caça e de cozinha. De cartografia. História. Capaz de desenhos lindos de paisagens e de ruínas que fora visitando no meio do caminho. Que ergue uma casa no meio do mato. Para quem nada é tão desafiador e insolúvel e todas as coisas se medem pelo compasso aberto da razão. Que triunfa sobre a natureza e sobre si: o perfeito renaissance man.

Mais do que um grande azarado, do que um estoico na melhor acepção dessa virtude, Le Gentil foi um desses renaissance man, o polímata, o tipo de homem que eu sempre quis ser.

Ah sim. Os dados colhidos pelos colegas mais afortunados de Le Gentil, em observações espalhadas pelo mundo todo naquele intervalo de oito anos, foram aplicados a métodos matemáticos presumidos século antes por Halley (aquele mesmo, do cometa) e que mostraram que estamos a 148 milhões de quilômetros do sol. Um erro de menos de 1% do valor real, que só seria aferido séculos mais tarde com o auxílio da tecnologia.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

1998

Eu nunca tive uma ideia muito clara das dificuldades que afligiram meus pais ao longo da minha criação. E elas existiram, mas nós, ocupados em crescer, não temos a perspectiva do todo, de forma que eu sempre tive uma vaga ideia dos apertos, mas nada muito tangível. Até que hoje eu tive uma ideia da dimensão de alguns sacrifícios a partir de um comentário bobo de minha mãe.

Não recordo sobre o que falávamos, mas ela lembrou que, em 1998, eu tinha enfiado na cabeça que queria o novo livro do Jô Soares. Eu, naquela época (como agora) devorava livros em velocidades assombrosas. E, retrato de um tempo sem internet e de adolescência, tinha em Jô Soares meu parâmetro de escritor. Melhorei.

Em todo caso, o livro custava 49 reais, o que na época era proporcionalmente muito mais dinheiro do que são 49 reais hoje. Insisti, insisti, insisti no livro. Nunca tinha ganho um livro de presente, eu queria um livro de presente de aniversário, não um videogame.

Nesse comentário, minha mãe recordou a história, dizendo que era um sacrifício comprar aquele presente, porque era caro demais, porque naquela época nós tínhamos condições limitadas, porque outras coisas eram prioritárias. Eu só fui entender e dar-me conta anos mais tarde, porque eu não me importava (e não me importo agora), mas eu passei grande parte da vida escolar com apenas um conjunto de uniforme.

Nesse quadro, sair comprando livros recém lançados de famosos não é uma alocação sabia de recursos escassos.

Em todo caso, ganhei o livro.

Recordando essa passagem, minha mãe lembra o quanto eu fiquei contente com o presente. Pensou, inclusive, que estaria livre de precisar gastar tanto com meus caprichos por um tempo. Três dias depois minha voracidade por leitura poria tudo abaixo: eu já tinha lido o livro inteiro. Mas, para nossa sorte, a produtividade de Jô Soares como escritor decaiu vertiginosamente e eu acabei não mais pedindo livros de presente.

Segundo minha mãe, aliás, foi a última coisa que eu pedi: o livro.

O tenho, aliás, até hoje, e sempre que olhava para a sua lombada na estante me recordava da origem: presente, aniversário, 1998. Reli-o algumas vezes, é até engraçado e a história, se levada como entretenimento sem compromisso, não é ruim.

Mas o que fica da anedota toda não é a graça do romance sobre o homem que teria matado Getúlio Vargas. O que fica, de hoje em diante, é essa janela aberta para a gratidão, o entendimento e o valor que damos ao carinho, dedicação, sacrifício e esforço dos nossos pais.