sábado, 24 de setembro de 2011

Rádio: Mark Lanegan - Strange Religion

Para os amores impossíveis:


 

Aforismos - Fé 3

A fé remove montanhas, mas eu prefiro a dinamite.

sábado, 10 de setembro de 2011

Canhão e couraça

A Batalha do Prata, travada no alvorescer de 13 de dezembro de 1939 foi o primeiro confronto naval relevante da Segunda Guerra Mundial, na embocadura do Rio da Prata, perto de Montevidéu, e opôs um encouraçado de bolso, o Admiral Graf Spee, a uma pequena força-tarefa inglesa, comandada pelo então comodoro Henry Harwood, que compunha-se de três cruzadores leves, o Achilles, o Ajax e o Exeter.

Foi a última batalha naval da história nos moldes clássicos deste quilate de confronto bélico: o embate entre o canhão e a couraça, sem mísseis e dispositivos eletrônicos, sem radares, sem submarinos, monitoramento via satélite, aviões espiões não tripulados.

Os britânicos venceram, sobretudo pela boa antecipação dos movimentos do inimigo de Harwood, pela vantagem de número, 3 vs 1, e pelo destino, que sempre significa a sorte de esquadrilhas, pelotões e naves de guerra. Os canhoaços do Graf Spee, de assombrosas 11 polegadas, castigaram o mais que puderam o Exeter, fortemente danificado no embate. As armas de menor calibre do navio germânico vergastavam como podiam o Ajax e o Achilles, conforme estes se moviam e, por seu lado, concentravam o fogo nos alemães.

O confronto arrebentou a valer o Graf Spee, que vitimado por uma rajada certeira vinda provavelmente do Exeter, teve à proa o casco perfurado metros acima da linha de flutuação. A avaria se sentia grave na medida que se acelerava a nave a alto mar: as grandes ondas que o esguio casco do navio precisava cortar acabavam entrando pelo buraco sem a menor cerimônia. Sem reparo no casco, o Graf Spee não poderia correr em mar alto, sob pena de acabar afundado. Este tiro selou o destino do encouraçado de bolso germânico que, ferido de morte, precisou negar fogo e refugiar-se no porto de Montevidéu.

Foram dadas 72 horas para o Graf Spee deixar seus 36 tripulantes mortos e 60 feridos em terra e fazer-se ao mar em virtude da neutralidade do Uruguai em relação ao conflito. Ciente de que a matilha lhe esperava a lamber os beiços a poucas milhas, o capitão do Graf Spee, Hans Langsdorff, com um navio manco, não teve outro recurso que abandonar o porto, levar o navio além das águas territoriais do Uruguai e o afundá-lo, suicidando-se dias depois, com a segurança de sua tripulação garantida em Buenos Aires.

Graf Spee era o nome do valente almirante imperial da Alemanha na Primeira Guerra Mundial, campeão da batalha de Coronel - escaramuça travada ao largo da costa do Chile - em que sua esquadra desmantelara os rivais britânicos, em 1 de novembro de 1914, custando à sua majestade a perda de 1570 homens e dois cruzadores, Monmouth e Good Hope. Os alemães contaram em seus diversos vasos de guerra apenas três feridos.

Em 14 de dezembro de 1914, mais de um mês depois, a esquadra de Graf Spee encontrou-se com o destino e com o inimigo, mais uma vez, desta feita perto das ilhas Malvinas. A Batalha das Malvinas selou a derrota de Spee, que perecera no confronto em companhia dos dois filhos, que serivam como oficiais em navios da sua esquadra. É irônico, porque Coronel foi um dos primeiros confrontos navais da Primeira Guerra, vencida por Spee, que morreria no Atlântico Sul, perto das Malvinas, em 14 de dezembro de 1914. Em 1939, na véspera do aniversário de 25 anos destes sucessos, um Graf Spee, desta vez o navio que levava seu nome, sofreria o mesmo destino, também em uma das primeiras batalhas navais da guerra, em águas próximas do local onde o almirante Spee morrera.

Churchill precisava de uma vitória e fez um tremendo carnaval com o sucesso de seus cruzadores no Atlântico, ele que, àquela altura, ainda não assumira o gabinete e era então o Primeiro Lorde do Almirantado, função equivalente ao que seria o Ministro da Marinha na época em que o Brasil dispunha de ministérios separados e exclusivos a cada uma de suas forças bélicas. Sucesso que seria seguido pelo clamoroso desastre da campanha da Noruega, que abreviou o governo de Chamberlain, colocou Churchill no cargo de primeiro ministro, logo ele, responsável maior pelo malogro e pela aventura na costa norueguesa.

Na Alemanha, o desgosto pelo insucesso do Graf Spee reafirmou o velho conceito de que travar a guerra em mar alto com naves e táticas convencionais era atalho para um retumbante fracasso, conforme amargamente demonstrara a campanha naval da Marinha Imperial Alemã na Primeira Guerra Mundial. Em virtude disso, passaram boa parte da guerra estaleirados e ancorados em águas alemãs os grandes encouraçados e cruzadores que haviam sido armados com enorme criatividade no sentido de não derrubar as cláusulas do Tratado de Versalhes e que deviam ser os sequazes de Hitler na guerra do mar. Foram desencorajados projetos de superfície, como o porta-aviões Graf Zeppelin, que jamais foi concluído pelos nazistas e serviu, depois da guerra, como elemento de prática de tiro naval à marinha soviética.

Desencorajadas as ações de superfície e confinada a marinha nazista a seus portos, ganhou respaldo e incentivo o Almirante Doenitz, a quem agastava violentamente o investimento feito em navios de superfície, caros e de menor mobilidade, se comparados aos submarinos, que a Alemanha fabricou em ritmo assustador durante boa parte da guerra. A noção de mobilidade e agilidade destes meios navais aos quais os britânicos não estavam bem preparados para enfrentar, soberanos que eram na superfície dos mares nos últimos 300 anos, foi quase decisiva no resultado da guerra. Em certa altura, os u-boats alemães afundavam mais navios do que era capaz a Inglaterra de repor. Churchill admitiria, anos depois, que só temeu perder a guerra para as matilhas de submarinos germânicos que vergastavam as rotas navais e causavam prejuízos quase insustentáveis ao país e, especialmente, ao esforço de guerra.



Este texto caiu-me dia desses de um livro que coloquei na estante. Era um manuscrito muito semelhante, só fiz breves correções e pequenas adições de conteúdo. Fora uma dissertação que eu escrevera no tempo em que sonhava em entrar para o Colégio Naval e seguir carreira na Marinha do Brasil. O que só prova que a pré-adolescência é a mãe de todas as péssimas ideias.

domingo, 4 de setembro de 2011

Meus projetos

Um dia terei dois veleiros e todo o tempo disponível para, em alto mar, me aborrecer enormemente dentro deles. Ou ao menos dentro do maior, que batizarei de Hornblower. O menor, para passeios costeiros mais inconsequentes e adestramento conveniente nas artes da marinharia, será o Papillon. Ou Sputnik, há ainda disputas para se resolverem nesse quesito. Papillon é borboleta em francês, mas acima de tudo, recorda o filme homônimo de 1973, com Steve McQueen e Dustin Hoffman. O personagem de Steve é Papillon, um sujeito absolutamente obcecado com a ideia de liberdade, tal qual seria eu dentro de um veleiro com 7 mares e todos os oceanos para desbravar. E que além disso, ao fim do filme, foge de uma ilha flutuando num pontão feito de barris. Sputnik significa em russo amigo. É também o nome do primeiro satélite artificial que o homem lançou ao espaço, e assim seria eu com meu veleiro, minha primeira excursão em um outro mundo, esse das abissais distâncias, dos perigos e das veredas intermináveis dos oceanos.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Uma ideia na mão e uma câmera na cabeça

E uma ideia sensacional. Descobri a história visitando um de meus blogues preferidos, conduzido por Flávio Gomes. Trata-se de um filme francês de 1976, "C'était un rendez vous", que em libérrima e desavergonhada tradução dá em "Foi um encontro", um curta, realizado por Claude Lelouch em 1976.



Assistiu? Pois é, é o limite da irresponsabilidade e da arte. Deu cadeia, inclusive, quando o filme foi lançado e ia devidamente assinado por Lelouch, que como todo o artista, fez absoluta questão de vincular seu nome ao filme/crime.

A cidade, supondo que você não a tenha identificado, é Paris. Às 5 da madrugada. O carro, uma Mercedes 450SEL, dublada por uma Ferrari 276 GTB. A bordo, dois assistentes de audio apavorados, uma câmera no para-choques e um Claude Lelouch muito louco na boléia. Ele confessou que teve a ideia ao longo daquela noite, e homem de ação que é, não postergou nada, saiu alucinado pelas ruas de Paris para fazer seu curta de um take.

É genial. Mas é irresponsabilidade. Alguém poderia ter se machucado. Há lugares para doidos como esses na nossa sociedade, e eles não são dotados de um motor a explosão e de um volante. Mas Lelouch fez o filme pelo cinema, pela arte. Alguém poderia argumentar que Mengele pintava olhos castanhos de azul com tinta em nome de uma concepção estética também da vida, e nem por isso era menos monstro.

Vendo o curta, não pude deixar de lembrar do caso do sujeito maluco que arrancou com o automóvel para cima de uma multidão de ciclistas em Porto Alegre no começo do ano. A rigor, os exageros de Lelouch e do gaúcho são iguais: irresponsabilidades ao volante, a intenção manifesta de transgredir e, com isso, colocar a vida de outros em risco. Crimes, no resumo.

Mas é curioso. No caso de Lelouch, não canso de achar a inutilidade genial - o filme é inútil. Mas é transgressor, coloca um conceito em cheque e isso, mais ou menos, é o resumo da arte pós-moderna, a ideia de reiventar e colocar tudo em questão, de ruptura. E para quem gosta de carros e de simuladores, onde pode libertar o Lelouch que há dentro de você, a ideia de percorrer uma cidade como se não houvesse amanhã não deixa de parecer sensacional.

É, também, um sinal dos tempos. Hoje, na era do politicamente correto, há limites auto-impostos muito mais severos no que tange o que pode ou não ser arte. Não vivemos em tempos de um Claude Lelouch. Qualquer cineasta contemporâneo, com uma ideia tão irresponsável quanto, seguramente pensaria duas vezes antes de colocá-la em prática. E isso faz de "C'était un rendez vous" um filme ainda mais adorável. O olhamos como um resumo de um tempo onde indignação, insatisfações e frustrações diversas encontravam o solo fértil da arte e ali frutificavam e, falo por mim, lamentamos que já não seja assim. Eram tempos diferentes. Vivemos tempos de maus filmes e de uma moral duvidosa, que berra por liberdade de expressão à toda esquina, mas te crucifica se você fizer uma piada de gosto duvidoso. O gosto, o filme, o livro, tudo pode ser de gosto questionável na arte. E deve ser questionável. O que não pode é ser proíbido. 

Por fim, o grande barato deste filme é dividir as pessoas entre aquelas que invejam o passeio de Lelouch e as que o execram. Eu o invejo.