domingo, 30 de dezembro de 2007

Folha Alerta: Venezuela domina a fronteira com o Brasil

Pare. Pare absolutamente tudo que estiver fazendo nesse momento. Se prepare. Depois do "Fantástico" ter mostrado dia desses como será a invasão militar venezuelana ao Brasil, a Folha, depois de meses de investigação, depois de estudos abalizados e extremamente aprofundados na conjuntura de equilíbrio de forças no continente, depois de consultar os mais gabaritados estrategistas militares deste e do outro tempo, vaticina: perdemos o controle da fronteira com a Venezuela.

A Venezuela, conforme se sabe, é uma das maiores potências militares do momento. Todo cuidado é pouco. Os belicosos vizinhos do norte dispõe da mais avançada tecnologia militar, sendo capazes de construir seu próprio armamento. E além disso, no frigir dos ovos, conforme se sabe, na hora de decidir a batalha, desde as Termópilas, vence aquele que tem mais soldados para empregar na peleja. E a Venezuela, oh meu Deus, estamos fadados a ser uma "colônia bolivariana", possui impressionantes, incríveis, esmagadores 21 milhões de pessoas, todas capazes de pegar em armas, evidentemente. Os 186 milhões que somos, conforme se sabe, jamais conseguiriam se impor a contento perante esses 21 milhões de carniceiros de sedes assíricas que são os venezuelanos.

Ou seja, se tem família, meu caro leitor, busque estar com ela. Estoquem víveres e se puder, peça já de antemão exílio no exterior. De repente na Rússia ou no Paquistão, depositários da tão defendida democracia da Folha e demais porcarias de análogo jaez.

A Folha diz que a presença militar venezuelana é "ostensiva". Ostensiva de 45 soldados para cobrir os 500 quilômetros que o fôlego da reportagem pôde acompanhar - "armados", garante o jornal, e nós, cá perguntamos onde é que já se viu soldado armado perto de fronteira? - mas ao que parece, os 45 soldados, seguramente dispostos a tudo e a encampar a vanguarda da invasão ao Brasil no front, que constituem a ameaça real de menos de um soldado por quilômetro, são o que basta para o jornal publicar a "anedota". Me recuso terminantemente a considerar isso uma reportagem.

Enfim, só que esquece a Folha que a fronteira entre Brasil e Venezuela é uma faixa de terra de 2199 quilômetros. Ao "analisar" apenas 500 quilômetros, a Folha ignora solenemente 88% da área de fronteira entre os dois países, ou em valores absolutos 1699 quilômetros de terra.

Ridículo.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Vem comigo!

Goulart de Andrade vai sair do ar. Eu li aqui.


É curioso, mas no momento o que conta mesmo no circuito "informativo e objetivo" de Folha, UOL e congêneres é dizer que Glória Maria estará fora do Fantástico em 2008. Comparar Goulart e seu senso de reportagem e capacidade de aproveitar ao máximo pautas interessantes com a pieguisse e o padrão Globo de "relevância" representados pela anciã Glória Maria é uma desmedida crueldade.

Enquanto Glória Maria é pauta da Caras e congêneres, na interminável conjectura de quantos anos ela têm (meu palpite é que passam dos 70), Goulart não figura como uma "celebridade". Seu programa, com qualidade superior a esmagadora maioria das pautas da "revista eletrônica" (!) dominical da Globo, que vivia no ostracismo, agora, encerra as atividades.

Vou sentir falta do Goulart. Lembro de inúmeras reportagens bacanas. Teve uma que ele mostrou, antes da queda, evidentemente, as entranhas do World Trade Center em Nova Iorque. Recordo de quando, no mesmo estilo da visita às torres, ele mostrou a Catedral da Sé em São Paulo, ou ainda uma mais recente, o dia-a-dia a bordo de um submarino da Marinha do Brasil. A mais sensacional, no entanto, foi a dos trabalhadores que consertam quilômetros e quilômetros de linhas de metrô pelas madrugadas à fora em São Paulo.

Numa abordagem digna do refinamento e elegância de um Talese, o registro dos caras cortando trilhos de ferro maciço e substituindo-os madrugada a dentro marcou-me.

Mas nada vai suplantar a importância de saber, afinal, quantos anos terá Glória Maria?


sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Patacoadas jornalísticas

Manchete da Gazeta do Povo, jornal do estado do Paraná, para amanhã:

"Estudo de ciclistas afirma que pedalar é mais barato que andar de ônibus e de táxi"


Séééééério???


E depois me aparece um recalcado pra dizer que editar é ficcionar.


Ainda bem que estou saindo da universidade. Não tenho mais fígado pralgumas coisas.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Pra lembrar FHC

Tá por fora? Clica aqui!

Em resumo, FH foi dizer que Lula faz mal uso do idioma português. O que para alguns, não é meu caso, é preconceito de classe. Até acho que seria preconceito se Lula soubesse de fato usar o idioma. Mas há algumas metáforas e outras frases que doem no ouvido, e só colam porque Lula tem toneladas de carisma a mais que FHC.

Agora, a coisa mais curiosa desta estulta e inapreensível crítica política, extremamente abalizada e contundente é que, ao criticar Lula pela maneira com que este se dá com a língua portuguesa, FHC errou dizendo "melhor preparado" em lugar de "mais bem preparado".

O que hoje vem bem a calhar: o país galga a inédita honra de fazer parte do grupo de nações de alto desenvolvimento humano - é claro, isso são apenas índices estatísticos que, por exemplo, não contam que um estádio caiu domingo, matou gente, que os oligopólios de mídia não atacam a CBF por conta do sinistro. Os índices também não contam que uma juíza e um delegado enjaularam uma menina com duas dezenas de homens. Por isso que estatísticas só estão aí para ser relativizadas, a não ser que você seja um certo professor meu que não enxerga muito mais que elas, as estatísticas.

Mas eu dizia, hoje o Brasil é parte das nações mais privilegiadas do planeta, embora ainda esteja atrás da Argentina. E é aquela coisa, não caiu mais nenhum avião, o Brasil não quebrou e a Venezuela não invadiu o nordeste, encontraram uma cavalar reserva de petróleo por aí. Só resta mesmo a esse povinho sair por aí arrotando preconceito e erudição contra quem não a possui, como se isso fosse crítica num país onde a média de leitura anual é de um livro por cabeça.

Vai criar porco, FH.

sábado, 24 de novembro de 2007

De vento em popa

Maré de sorte inédita, algumas novidades excelentes, uma melancolia pelo que dará saudade amanhã e a saudade enorme daqueles que não estão aqui para ser parte deste auspicioso futuro.

Nada mal para quem sempre achou a vida um troço muito chato.

sábado, 17 de novembro de 2007

Internet Explorer vs Mozilla Firefox

Internet Explorer é um navegador ultrapassado na versão que tenho, a 6.0. E na versão 7.0 é uma má sucedida cópia do Firefox, que é o que uso.

Este post é um comparativo entre os dois. No Internet Explorer este blogue fica feio de doer, além de ser mais lento, no Firefox, ao menos aqui, fica de visual mais leve e abre mais rápido, compare:

INTERNET EXPLORER:
















MOZILLA FIREFOX



quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Hino da alma

Se "Nessun Dorma" (Que Ninguém Durma) de Puccini é um hino da alma, esses caras devem ser os anjos:





Eu vou sentir falta do gorducho bonachão da ponta. Se achar que vale à pena, veja o outro vídeo, só com Pavarotti, e perceba o controle que ele tem das notas só variando a abertura da boca, além de extender ao máximo os últimos momentos dessa aria.




E depois vem alguém dizer que o Potts é melhor. É o fim da rosca.

(CONTO) O Restaurante dos Velhos, dos Moribundos e dos Sumidos

Era de uma maneira incerta, vacilante, insegura com que progredia a passos nada lestos aquele pobre velho. Caminhava com a dificuldade ordinária dos humanos que já fazem parte da terceira idade e que se deparam com os seus momentos derradeiros de vida, nesse que é, dizem, o outono dela, da vida: o limiar da morte. Diante de tamanho peso nas costas, de todos anos que viveu e que, não diga, são muitos, aquele senhor, que vendo-o pintado por estas letras, nos parece tão carente, frágil e digno de pena, caminha.

Digno de sentimentos nobres, como a ternura que nos inspiram, de formas e intensidades absolutamente diversas, a criança, o ancião e a amante, ele ia avançando contra a impactante indiferença da massa de pessoas que por ele passam. Mas não são más e insensíveis esses que aqui e ali rumam para o caminho oposto. Talvez por não dividirem conosco esse ponto de vista, entendem que aquele velho é só mais um, e aonde vai ele, donde vem, ora, não nos apraz disso fazer caso.

Indiferente dessa situação por ser dela refém e não causador, prosseguia sua caminhada rumo ao fim da esquina. Chegará lá daqui a esbaforidos instantes – e esbaforidos, que se frise, não por sua velocidade, que está bem aquém dos padrões mais ligeiros da caminhada humana, mas sim pelo peso que suporta, aquele já sobredito dos anos. Mas dizíamos, ia à esquina, e está indo porque é um restaurante, restaurante esse freqüentado, assim como as praças da cidade e seus bancos, por uma mui seleta sociedade de outros velhos que lá vão não por não saberem cozinhar, e é bem sabido que os idosos dominam bem as artes da culinária, vão lá para se encontrarem, para que tenham o ensejo de sair de suas casas, andar um pouco e conversar outro tanto.

Vão lá para que se avistem e que digam, uns aos outros, “bem, cá estamos”, “e agora, que se faz por aqui?” “Bem, nada”.“Apenas nos entediamos?” “É. Nos entediamos. Aliás, entediemo-nos, meu caro, entediemo-nos à farta!” Consiste, indubitavelmente, à grande maioria dos velhos o tédio como maior ocupação, não sendo isso precisamente culpa deles, nem nossa, sequer algo digno de reproche aos que no tédio se refestelam, mas apenas e tão somente uma fatalidade do jeito humano de levar a vida.

Entretanto, nosso bravo dirigia-se a um restaurante. Muito embora ficasse ele, o restaurante, não nos arrabaldes, não nas cercanias, mas justamente no centro da cidade, que não é das pequenas, sabe-se lá porque melindre sócio-econômico não é freqüentado de costume por jovens, nem por empresários, nem por crianças, mas pelos velhinhos. É como um bastião inacessível que os idosos vieram levantar nesta terra, um ponto avançado no front, que parece dizer, desafiando a nós outros com nossas poucas idades e vãs pretensões de sabermos viver; “aqui estamos, nós que velhos somos e que vós desdenhais. Aqui estamos nós velhos bem debaixo de suas barbas e daqui não sairemos”.

É natural que restaurantes tenham o vezo de buscar nas mais diferentes culturas motivos para gerarem apelo ao apetite dos comensais – como se pudesse haver apelo maior que a fome – há os que se bordam de verde, branco e vermelho, escolhendo nomes italianos para dizerem veladamente aos nossos estômagos: cá temos a melhor massa. Outros que vestem-se de cores e alusões nipônicas para valorizar o bom preparo que sabem dar a peixes e demais frutos do mar. Não ficam atrás os que se pelam em parecer franceses, mexicanos e outros menos votados valores culturais da culinária.

Contudo, não se sabe se de uma maneira inteligente, ou muito idiota, nosso restaurante resolveu misturar um pouco de tudo que há de elogiável no mundo da culinária. Há bandeirinhas da França, outras da Itália, no cardápio sugere-se como prato do dia na terça-feira sushi – há até a possibilidade de se comer hambúrguer e batatas fritas, desde que apeteça ao freguês esperar por alguns minutos a confecção do lanche, só não encontramos nesse outro Atlas geográfico quaisquer referências a Inglaterra, o que é perfeitamente escusado: como se sabe, a maior capacidade dos ingleses na cozinha ainda é ferver água para o chá. Enfim, não conseguimos descobrir se assim é, o restaurante que tanto agrada aos apetites dos velhos, para tentar buscar novos clientes, agradando o maior número possível de preferências culturais, ou se assim é por desmedida ignorância do proprietário, quer resolveu abarcar tudo que lhe agradasse em matéria de bandeirinhas, cores, bonecos e pratos.

Nosso bravo chega e toma lugar a mesa. Estranhamente ele tem a preferência de sentar sempre ao fundo, na última mesa, com os olhos voltados para a porta, como fazem os personagens das novelas de espionagem: sempre atentos para quem possa entrar no lugar. Não que ele seja agente secreto, é demasiado idoso para as peripécias cinematográficas que o cinema nos faz crer que se acometam nas vidas atribuladas desses espiões, não que ele tenha sido espião, o que escusaria o hábito há muito conquistado e, justamente por essa razão, difícil de se esquecer. Senta sempre nessas mesas de fundo por um instinto que não compreende porque jamais tentou entender, a ele consta apenas obedecer-lho. Senta-se lá e percebe o restaurante vazio. Pensar no que vai comer? Ora, é inútil. Conforme verificar-se-á em breve, o velho faz timbre em constar sempre o mesmo pedido ao garçom.

Entretanto, desta vez, para desdizer o troca-letras que conta esta anedota, pediu antes de tudo, para recompor-se da caminhada antes de deitar suas atenções à refeição, “um copo de água, sem gelo, por favor”. Pegou do copo e deitou o líquido de uma só vez garganta abaixo. Satisfeito, pediu, freguês conhecido dos últimos tempos que era, “o de sempre”, que consistia, no seu caso, numa sopa de legumes que, com algum esforço, se poderia encontrar boiando umas côdeas de carne.

Pouco esperou e chegou a sopa fumegante de vapores bem cheirosos à mesa. Comeu com a lentidão que nos caracterizou em parágrafo de antanho sua caminhada. Do tempo que levou comendo, pensou na vida, pensou na morte, raciocínios estes que tinha nos últimos tempos, por mais que se espere que os velhos só pensem nisso, saibam que este, pelo que parece, fugia a regra, havia se esquecido desses amuamentos. Coincidentemente eles haviam surgido desde que descobrira por indicação de amigos o restaurante, e por mais uma vez, e última, teve a conclusão de que apenas morremos um dia de cada vez. Nada mais.

Indicação que veio, e lembra-se perfeitamente, num dia de sol na praça. Qualquer coisa roncava em seu cérebro dizendo (o estômago?) que “estás com fome, seu bisbórrias. Trate de comer”, expondo aos demais o que há pouco lhe conferenciara a mente, ouviu dos colegas de ócio contemplativo que “meu caro, aqui perto há um restaurante ótimo”. “Comida boa que não sacrifica em demasia nossas surradas burras”, disse alguém. “E nem nossos intestinos”, rematou outro. “E mais, parece um exilo, aliás, asilo. Malditas palavras parecidas que por vezes me escapam... enfim, lá só vão velhos como nós, sem algazarra e música barulhenta”. Estranho. Pensando agora e remoendo essas memórias, dá-se que o velho enfim percebe o prodigioso fato de que todos os seus colegas daquele dia e dessas frases acima, abandonados pelas suas famílias e pela nossa sociedade não apareciam e não se sabia deles há tempos. “Sumidos”, murmurou por fim.

O velho nunca mais foi visto pelos seus.

Percebe-se que esse restaurante tinha qualquer coisa de especial, que era inaudito. Não apenas pela sua composição próxima a da ONU, ou naqueles tempos idos, Liga das Nações, com representações dos mais diversos países, não apenas por ser de ordinário freqüentado apenas pelos velhos da cidade e inspirá-los a pensar na existência e conquistar a capacidade de desenvolver aforismos, tampouco é inaudito por dar-me o ensejo desta história. Não, não é nada disso. Ele tinha consigo uma fascinação. Fascinação pelo mistério que encerrava no seu ambiente obscuro e aconchegante. De certa forma, todos, velhos, jovens, crianças, adultos, ricos e pobres, enfim, sabiam o que se passava ali.

Conta-se ainda hoje, e fazem já muitos anos que o restaurante, a exemplo do velho, sumiu, que naqueles pratos que misturavam do churrasco dos pampas ao molho tártaro das Europas, do sushi à mussarela derretida, enfim, tinham a incrível capacidade de fazer sumir os velhos que por lá almoçavam ou jantavam. Sumiam sem deixar rastros. Sumiam sem dor, sem tristeza e sem remorso. Sequer eram eles chorados pelas famílias, reclamados pelos vizinhos. A polícia, que já hoje nos falta por ter tantos bandidos para correr empós, nunca se soube de um caso sequer de sumiço desses velhos e precisamente por jamais conhecer qualquer um desses sumiços, jamais os investigou.

Alguns demoravam para desaparecer coisa de meses. A outros bastava a primeira refeição para que jamais fossem vistos. Dessa história incrível há a teoria de que rejuvenesciam todos, daí a não serem vistos, posto que se, vistos fossem, não seriam reconhecidos – e donos de sua nova cara, novo corpo, iam viver, e viver plenamente, senhores que eram da experiência de anos de labuta, ah, saberiam bem como conduzir o fio da existência sem tropeçar nas mesmas mazelas, fariam, indubitavelmente, por progredir o jeito humano, aquele que mencionei como responsável pelo tédio nauseabundo que envolve a velhice – e talvez conseguissem encerrar com esse vício do tédio aos velhos e outros tantos que ainda nos amolam a vida dos jovens, dos velhos e mesmo delas, pobres, as crianças.

Mas nem tudo são flores, diz o poeta e a literatura preguiçosa que me proíbe de achar frase melhor, há outra teoria para o caso, teoria dos mais miseráveis, estes misantropos que põe defeito em tudo e não vêem sequer uma bondade na terra, sequer uma magia, diziam estes últimos que acontecia era de os velhos morrerem envenenados, e que o dono do restaurante era de uma modalidade de fascismo a quem ojerizava os velhos e por isso matava-os. E quanto aos corpos, nada mais simples, cozinhava-os. O que explica a multinacionalidade do restaurante, afinal, os velhos eram também das mais variadas origens e esta era uma maneira mórbida de honrá-los. Não sei.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Saudade de Pedra

Aí está. Eu diria que trata-se de um imperdível atentado contra o jornalismo, contra a literatura e, por que não, contra as minhas possibilidades de me formar este ano.

É uma grande reportagem com inúmeras liberalidades no que tange a escrita, relatando o período da navegação fluvial a vapor pelo rio Iguaçu no Paraná, sobretudo na perspectiva da cidade de Porto Amazonas, enfocando no declínio da atividade sob a ótica de seus protagonistas.

Resultado de um ano de pesquisa e escrita, eis aí meu livro:

Clique aqui!


Para efetuar o download você precisa clicar no link que lhe levará ao servidor onde o arquivo em pdf está armazenado - recomendo que você o abra em uma nova janela. Aparecerá o site mediafire.com. Basta esperar e clicar em "Click here to start download" e baixar o arquivo.

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P.s.: embora ainda não tenha colocado as insígnias nem no livro, nem aqui no blogue, todo o conteúdo está registrado em Creative Commons, ou seja, não há como se apropriarem. A este Tertuliano vocês não sacaneam!

sábado, 10 de novembro de 2007

Idiotices do dia-a-dia

Há uma enorme fauna de reacionários de cabelo em pé com o Chávez, que se arma. Se por um lado a razão história penda sempre para o fato de que, inegavelmente, após uma corrida armamentisa estoura um conflito, por outro lado, não sejam parvos, Chávez não ameaça a soberania brasileira. Queria eu ver ele, com 10 milhões de habitantes, ocupar o Brasil.

Mas o fenômeno tem de ser estudado com cuidado. O governo fala em adquirir um novo porta-aviões - embora a estratégia contemporânea diga que supremacia naval não garante mais ninguém - além da retomada dos investimentos maciços no submarino nuclear.

Estaríamos nós, daqui há poucos anos, em pé de guerra com os vizinhos?

Se for este o futuro, parem. Parem tudo. Desliguemos o mundo.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Por que você veio até aqui? (Outubro)

Seguindo a tradição deste blogue, seguem aqui algumas tags (buscas) que renderam visitas no mês de outubro.

  • "Paul Potts" - e correlatos. O inglês rendeu 16 acessos. E isso só atesta o poder midiático. Ele era um fenômeno já passado e, com a recente exposição que ganhou nos comerciais da SomLivre pelo lançamento do cd em plagas brasileiras, voltou à ordem do dia.
  • 2001 ouvir casamento zarathustra - eis aí a mais curiosa. Provavelmente alguém confundiu a peça de Richard Strauss com a Marcha Nupcial de sei lá eu quem.
  • bruxaria para conseguir emprego - o que só comprova a que ponto chegamos com essa crise social que não fustigou o pessoal do Cansei. A falta de emprego assola realmente o país. E a prova disso é que, potencialmente, sou um desempregado.
  • marcos historicos que aconteceram todos os anos desde 1962 ha 2007 - lamento ter frustrado este internauta que buscava algo próximo a uma enciclopédia.

No mais, o tema "reforma ortográfica" rendeu 26 visitas. Muitos também por aqui vieram guiados por curiosidades acerca do tema "queda da URSS", que esmiucei num post de antanho. Em números totais, pelo mês de outubro, o blogue teve 131 acessos mediante buscas em serviços de pesquisa da internet. Destas pesquisas, monopólio absoluto do Google, com 126 buscas. Yahoo em segundo, tendo oferecido 3 pesquisas. Uma foi via MSN.com e a restante pelo serviço de busca de imagens do Google.

sábado, 3 de novembro de 2007

Frases, literatura e um pouco de vida

Remexendo entre meus guardados, econtrei antigas anotações de frases específicas que me chamaram a atenção ao longo de anos e anos de leitura. Algumas ainda excelentes, por conseguirem me dizer algo, outras já de sentido turvo e esquecido, que não mais me fulguram na mente.

À elas:

“Bata em um cão e ele irá ganir, corte uma arvore e ela irá chorar, ofenda um homem, ele irá crescer.”

"... a morte, por si mesma, sozinha, sem qualquer ajuda externa, sempre matou muito menos que o homem."

''O que tem religião não é o que crê numa Escritura Sagrada, mas o que não precisa dela e seria, ele próprio capaz de fazê-la.''

"Nem a juventude sabe o que pode nem a velhice pode o que sabe."

"Sabes o nome que te deram, mas não sabes o nome que tens."

"Jesus: ninguém têm tantos pecados na vida que mereça morrer duas vezes." - esta, tenho certeza, é de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de mestre Saramago, na passagem onde Maria Madalena pede ao Cristo que este ressuscite Lázaro, ao que ele responde assim.

"As palavras proferidas pelo coração não têm língua que as articule. Retém-nas um nó na garganta e só nos olhos é que se pode ler."

"Mesmo que a rota da minha vida me leve a uma estrela, nem por isso fui dispensado de percorrer os caminhos do mundo."

"Como sabeis, o crânio é uma caixa óssea que contém o cérebro, o qual vem a ser, por sua vez, conforme podemos apreciar neste mapa anatômico a cores naturais, nem mais nem menos que a parte superior da espinhal medula. Esta, que ao longo do dorso vinha de apertada, tendo encontrado espaço ali, desabrochou como flor de inteligência."

"Não dormiu bem, sonhou com uma nuvem de palavras que fugiam e se dispersavam enquanto ele as ia perseguindo com uma rede de caçar borboletas e lhes rogava Detenham-se, por favor, não se mexam, esperem aí por mim. Então, de repente, as palavras pararam e juntaram-se, amontoaram-se umas sobre as outras como um enxame de abelhas à espera de uma colmeia onde se deixassem cair, e ele, com uma exclamação de alegria, lançou a rede. Tinha apanhado um jornal."

"Mal informados sobre a natureza profunda da Morte, cujo outro nome é fatalidade, os jornais têm-se excedido em furiosos ataques conta ela, acusando-a de impiedosa, cruel, tirana, malvada, sanguinária, vampira, imperatriz do mal, drácula de saias, inimiga do gênero humano, desleal, assassina, traidora, serial killer, outra vez, e houve até um semanário, dos humorísticos, que, espremendo o mais que pôde o espírito sarcástico dos seus criativos, conseguiu chamar-lhe filha-da-puta."

"Em verdade, em verdade vos digo, não há limites para a malícia das mulheres, sobretudo as mais inocentes."

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Saudade III

Caros oito leitores, aí ao lado a capa do meu primeiro livro.

Saudade II

E o meu cais envelheceu...

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Saudade

"Ah, todo cais é uma saudade de pedra" - Álvaro de Campos.

Caríssimos oito leitores, esta é, na minha opinião, a frase mais linda de todo o idioma português.

sábado, 27 de outubro de 2007

Ainda sobre a idiotice do post anterior, eu que não sou político, penso:

Pra que serve um balão de ensaio desses, se não para fortalecer a oposição?

A política brasileira se compõe de centenas de idiotas. Uns mais, outros menos.

Profundamente enojado

Construir algo nos caóticos tempos que correm não é algo fácil. Construir uma casa, um projeto, uma família, uma vida. Nada costuma cair do céu à enorme maioria das pessoas que compõe o mundo. E isso não é novidade nenhuma.

E tão difícil como construir cada uma das coisas que ilustram o parágrafo anterior é construir uma nação. Um país é uma coisa. Uma nação é algo completamente diferente.

E com a derrocada das ideologias, com o fim das utopias que foram por terra junto com o Muro de Berlim (ainda que a idiotia tenha erguido outro no Oriente Médio), o mundo que vivia na dura luta entre o equilíbrio da ordem bipolar e sem nenhuma certeza, ao menos, ganhou uma.

A de que as nações se controem pelas mãos das pessoas, do povo. E se é pelo povo que elas podem ser eregidas nada mais justo que dar a ele, o povo, os plenos e sagrados direitos de governar suas respectivas nações. A verdade, caros, é que o caminho para a construção de um grande país passa obrigatoriamente pelo respeito e preservação irrestritas dos preceitos da democracia.

Não sou cientista político, jovem demais também para ter vivido sob a ditadura, mas posso imaginar sozinho que deveria ser bem ruim. E isso me faz prezar a liberdade que hoje desfruto e que estimo muito que meus filhos, netos, bisnetos e por aí a fora possam desfrutar.

E é precisamente por este motivo que ler essa matéria da Folha mexeu com todos os meus princípios e vestiu meu coração de indignação.

Há muito que eu não me sentia ultrajado pelas peripécias dos nossos políticos em fazer cagada e vangloriar-se aos quatro ventos de como é gostoso legislar em causa própria arrebentando com o país que um dia será dos seus herdeiros.

Mas ler esse absurdo, sentir mais uma vez a sagrada divisa* que me motiva, todo maldito outubro de escrutínio a ir à urna segredar meu Nulo, só posso manifestar a revolta que me toma.

Não é possível que haja quem tenha a desfaçatez de dizer um absurdo desses.


*Não se pode votar em ninguém porque simplesmente, a rigor, não conheço o sujeito e me parece muito irracional delegar meu poder de escolha a alguém que absolutamente não conheço.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Fórmula 1 - vou sentir falta

A repercussão no mundo esportivo foi das melhores. Há muito tempo que o Brasil não organizava um GP tão perfeito como esse. Interlagos revigorado, uma ameaça de paddock surgindo no aperto do ancestral autódromo. E para finalizar, uma corrida sensacional das que serão lembradas anos e anos depois.

Mas o maior barato foi hoje, encontrar essa imagem no banco da agência Sutton:


A curiosidade? Simples, a legenda da foto identifica: fãs de Alonso no GP do Brasil.

Não tenho muita certeza se eram mesmo fãs do asturiano...


sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Elvis é assim

Tem como não curtir um cara assim?





Grande Elvis.



Brasil Revisitado ou Brasil Inexistente?

Essa semana seria de se sair a estourar fogos pelos bons ventos e bons augúrios que, infelizmente, não vemos nos jornais. Correção, não vemos todos. Ou se os vemos, os vemos porcamente interpretados, o que aos mais incautos seria o mesmo que não estar lá uma vírgula sobre, por exemplo, o fato de que Octavio Barros, diretor de pesquisas e estudos econômicos do Bradesco dizer: "O Brasil voltou para o radar".

Os grandes grupos de mídia do Brasil estão a brincar com a população. Só que são anacrônicos demais. Folha, Estadão e o grupo da vênus platinada não estão mais no inalcançável púlpito que a ditadura lhes garantiu - especialmente no caso das Organizações Globo - púlpito este que se antes lhe possibilitava o ar da verdade inconteste e da credibilidade ilibada, hoje já demonstra desgaste e que, afinal, nem o melhor mármore está livre de abrir rachaduras e perder o fulgurante brilho da sua textura conforme passa o tempo.

Poderíamos cá lembrar de dúzias de casos. Apontar centenas de indícios de que a informação hoje não é mais de mão única e não sai apenas da cabeça tortuosa dos editores e dos oligarcas da comunicação deste país. Ao invés disso, o que faremos é listar aqui as boas novas que ensejam foguetórios, conforme dito na abertura deste texto. Imbuído da boa nova de que o dólar, moeda norte-americana que ainda domina o mundo, decaiu perante o real à sua mais baixa cotação desde o ano 2000, faremos um repertório dessas boas novidades da economia. E aí Miriam Leitão, o Brasil não ia quebrar?

Citei o diretor de pesquisas do Bradesco não por acaso. O Bradesco é uma das instituições financeiras que mais lucram no Brasil. É o nosso maior banco privado. E na esteira do Plano Real cresceu. Segundo Joelmir Betting a situação é tão favorável às instituições financeiras que hoje no Brasil nada lucra tanto como um banco mal administrado. Evidente que lucram ainda mais os medianamente e os bem administrados, mas o fato é que aos bancos o céu tem sido de brigadeiro desde os primeiros momentos do real.

E Octavio, pela posição que ocupa e pela instituição que representa, não seria de estranhar que fizesse parte do cansaço coletivo que assaltou o país em agosto. Não sabemos nada sobre suas inclinações políticas e senso de ridículo. Sabemos contudo que ele disse, esta semana em uma palestra no 3º Congresso Nacional de Crédito que:

  • O Brasil está na lista de compra de todos os investidores globais.
  • O apetite para a tomada de risco do setor privado brasileiro é forte – é o que mostra uma pesquisa com 1 mil 200 empresas clientes do Bradesco.
  • Esse apetite para tomar risco tem hoje o seu melhor momento, desde que Barros montou a série, três anos atrás.
  • Se eu (Barros) fosse classificador de risco dava grau de investimento ao Brasil.
  • A crise do sub-prime americano já “deixou o mundo para entrar na História”. (parênteses meu: o que diverge da opinião dos ilibados analistas da grande imprensa)
  • Desde 17 de julho – quando a crise eclodiu – para cá, o valor de mercado dos 50 maiores bancos europeus e dos 50 maiores bancos americanos já voltou aos níveis anteriores a 17 de julho.
  • Os Estados Unidos são 33% do PIB mundial, embora, hoje, a China tenha um impacto maior sobre a economia mundial que os Estados Unidos. A duvida é: os Estados Unidos vão crescer 2% ou 1% em 2008? O mais provável é que cresçam 2% e o mundo inteiro vai ficar feliz.
  • O cenário para as commodities é positivo – especialmente por causa da China.
  • E esse cenário de commodities – por causa da China – vai durar ainda 10/15 anos.
  • Brasil, Argentina, Austrália, Nova Zelândia, Canadá, África, exportadores de commodities, vão se beneficiar com isso. (O Governo chinês decidiu que toda cidade com mais de três milhões de habitantes tem que ter metrô. A China tem 72 cidades com mais de três milhões de habitantes ...)
  • Nenhum país emergente tem o conjunto fantástico de commodities para vender que o Brasil tem: açúcar, etanol, soja, milho, café, cobre, minério de ferro, frutas, bauxita e que tais.
  • Também nenhum outro país emergente – nem a China – tem uma indústria de transformação apoiada sobre commodities como tem o Brasil (o etanol, a Vale do Rio Doce...)
  • O crescimento do PIB será de 4,9% em 2007.
  • Entre 1999 e 2003, o crescimento da economia foi, na media, de 1,9% ao ano. (Outra vez, eu. Saudades do FHC? alguém?)
  • Entre 2004 e 2007, 4,3%. (Insisto, alguém? Ninguém? O cavalheiro iludido pela Folha e a Globo ali, mais alguém?)
  • Hoje, há 22 trimestres consecutivos há crescimento do PNB: é o maior ciclo de crescimento econômico dos últimos 15 anos.
  • Nos últimos 12 meses, entraram no Brasil US$ 50 bilhões em investimentos estrangeiros diretos.
Respire fundo agora:

  • A dívida externa brasileira é de US$ 30 bilhões. Dentro de alguns meses, o Brasil vai ZERAR a dívida externa!
Pode voltar ao normal:
  • O Brasil se abriu ao comércio exterior: desde 2002 triplicou o volume de importação e exportação.
  • Nenhum país emergente tem uma exportação tão diversificada: o Brasil exporta em percentuais parecidos para os Estrados Unidos, Mercosul, Europa, Ásia - A China nem a Índia têm isso. (Eu novamente: o que nos lembra o contraste das viagens de Lula e as de FHC. Fernando Henrrique viajava para que lhe afagassem o ego no exterior conferindo-lhe comendas ignóbeis. Fernando Henrrique, bajulado e empavoado por natureza, se crê, desde Roosevelt, o maior estadista já nascido. Torno à carga, alguém manifesta saudades do FH?)
  • Os juros vão cair inexoravelmente.
  • Em 2008, a Selic será de um dígito. (Coitados dos "Mencheviques do Morumbi", perderão aqui uma das suas justas reclamações).
  • O percentual do crédito no PIB passou de 22% em dezembro de 2002 para 33%, hoje.
  • O crédito cresceu 30% para a pessoa física nos últimos doze meses.
  • O crédito imobiliário – que está muito forte – é apenas 1,7% do PIB. Isso não é nada. Na Espanha, o crédito hipotecário é 50% do PIB; na Holanda, 90%. E o Brasil tem um déficit de 8 milhões de moradias. Resumindo, caríssimos, há espaço para crescer.
  • Como o mercado de trabalho – emprego – vive a melhor situação dos últimos oito anos, a inadimplência superior a 90 dias é de 7,2% - o que é baixo.
Mais ou menos copiado daqui.

E não acabou. Além desta enxurrada de dados e sinais positivos para o devir, que, frise-se não provém do governo, mas de uma instituição financeira privada - saiu um estudo interessante da Standard and Poors, que diz ter sido a Bovespa o quarto mercado mais lucrativo do mundo desde 9 de outubro de 2002. O ganho médio foi de 74%. Só perdemos para Peru, Ucrânia e Bulgária. 88%, 84% e 77%, respectivamente. A bolsa norte-americana foi apenas a septuagésima colocada e a China ficou em quadragésimo sexto lugar.

Ao longo desse período você deve ter ouvido os gabaritados e sinceros analistas da grande mídia dizendo para investir na China, Rússia e Índia. O Brasil ia quebrar, afinal. Ao passo que aqueles que não deram ouvidos aos avisos destes, se investiram R$ 1000, tiveram retorno de outros R$ 15.000.


Eu fico com pena do FHC. Ele se ocupa a falar mal do Brasil no exterior, ganhando muito para isso - aliás, só tem liquidez para pedir os milhares de dólares que cobra por palestra se falar mal mesmo - enquanto aqui no país que ele governou, com a política econômica que diz ter sido o inventor, colhem-se frutos oriundos de maior equilíbrio administrativo, que o furor neoliberal esqueceu-se não se sabe em que defecada homérica da dupla Tatcher e Reagan. Coitado do FH.


E eu ainda acho que Lula deveria pagar royalties ao FH.

Para pensar:

A filha de Renan Calheiros fora do casamento lhe valeu centenas de aborrecimentos por sustenta-la de forma pouco ortodoxa. Mas e a filha de Fernando Henrique Cardoso fora do casamento? Por que, quando este fora senador e presidente, ninguém veio lhe inquirir como sustentava a mãe, jornalista da Globo, e a filha que mandou "exilar" na Espanha?

Se é relevante saber como Renan sustentou sua aventura extra-conjugal, mais ainda era investigar, em 2000, quando a revista "Caros Amigos" (quando esta ainda prestava para alguma coisa) publicou matéria de capa sobre os arroubos adúlteros de FH. Era o presidente. Ou seja, quem pagou a conta? Quem pagou as pensões de lá pra cá? Quem bancou a vida das duas na Espanha? O contribuinte?

O que faz de FHC intocável pela imprensa? Só o fato de pertencer a grupos políticos poderosos oriundos do paleolítico não me convence. Será por ele falar inglês, espanhol e francês ao passo que o Calheiros, alagoano, deve dominar apenas o idioma luso?

Jornalismo de exceção e anti-ético: você vê por aqui.




quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Debaixo do sol...

... não há nada novo. Frase antiga. Verdade invencível que consta, faço uso de meus surrados conhecimentos da organização do Novo Testamento, no livro de Ecesiastes. Não, sequer desconfio o capítulo.

Em agosto passado alguns aproveitadores, outros desocupados, somados ao crescente clima de descontentamento que assaltou Alphaville, Leblon e congêneres, abrindo o perigoso precedente da "Revolução Menchevique do Morumbi", lançou ao vento um movimento "apolítico", disseram, chamado de "Cansei". O "Cansei" foi uma das maiores piadas para nós outros. Para seus criadores uma das maiores vergonhas, mas isto é lá com estes senhores engravatados, tão cientes dos problemas nacionais que vêm a público nos dizer que cansaram. Não estão nem aí para o tamanho da bobagem ou para a bazófia.


Na verdade acredito que subestimamos a importância do "Cansei", que de tamanho fastio, tirou merecidas férias na Europa onde foi descansar suas amolações com a "preocupante situação de crise que se instaura no país". Digo que subestimamos os mencheviques do Morumbi porque, meus caros oito leitores, muito mais que movimento social e "apolítico", foi ou é, o "Cansei" um movimento filosófico. Uma vanguarda filosófica, não há dúvida quanto a isto, que vem buscando responder uma até então irrespondível questão do saber, o que é o nada?. O "Cansei", imbuído nesta busca sumiu. Saiu em busca do nada e jamais foi visto.

Passaram umas semanas e neste inusitado país chamado Brasil surge um "indignado" apresentador Global que, coitado, foi expropriado de seu para lá de cobiçável Roléx (que segundo busquei saber compra-se a módicos R$ 48 mil) e, ciente do direito de se indignar e, por que não, cansar-se em público, escreveu uma impressionista carta que intitulou com o poético, embora rasteiro e torpe título de "Pensamentos quase póstumos", onde expressou toda a sua indignação e a sensação de ter sido praticamente assassinado ao sofrer o assalto que para si, ao que parece foi uma novidade. "Luciano Huck foi assassinado. Manchete no 'Jornal Nacional'", começa a epístola.

Embora tenha já dado voltas à questão e torcido que chegue meus fosfatos e sinapses para desvendar porque diabos o relógio do Huck, tão roubado como o vizinho ali na esquina, tenha ganho destaque na Folha - que embora seja um jornaleco, é uma das nossas maiores tiragens, infelizmente - chego a conclusão de que a filosofia em cima desta questão vem a ser desnecessária. Que bom que publicaram a carta do Huck. Que excelente saber que, para Huck, um exausto defensor e panfletário homem público contra a desigualdade social, o certo é chamar a "Tropa de Elite" e seus truculentos métodos.

Huck diz pagar seus impostos religiosamente e não temos porque duvidar - não pagasse, já teria rodado na malha fina que, estranho, tem funcionado bem ultimamente, o que é um dos maiores itens que cansou a turma da OAB-SP em agosto, Daslu e aquela patota toda. O que Huck não diz na sua carta é que tem contrato com a Globo fora das CLT's justamente para não pagar tantas contribuições e, assim, faturar limpo. E nem isso se deve recriminar, não é crime.

Depois de ter perdido seu relógio Huck acha que "chegou a hora de discutirmos de verdade a questão da segurança". Sim, evidente que a hora é agora. Não era hora quando houve chacina na Candelária. Quando o PCC estourou por inépcia governamental ano passado. Quando o Carandiru e Bangu explodiam anos, séculos, de falta de dignidade e decência na administração do futuro desse inusitado Brasil. A hora de discutir segurança pública é agora porque um diretor diz crer que a mídia "só diz a verdade sobre as favelas", fez um filme fascistóide que vende às pessoas a visão pequena, fascista e ignorante de "bandido bom é bandido morto", de que a solução é a multiplicação de "Tropas de Elite" onde estiver instalado o conflito.

Huck compara São Paulo a Bogotá - o que só comprova que a questão da educação é ainda um problema perto do interminável. Ao menos aos olhos deste que escreve este enorme texto que ninguém lerá. Para Huck devemos encontrar a solução, tiro e queda, nas duas seguintes vertentes: ou o capitão Nascimento (personagem central de "Tropa de Elite"), ou no investimento em escolas. O risco era de que o "Cansei" abraçasse mais esta nobre canseira e defendesse, em função de ser rematadamente sabido que os frutos da educação são colhidos apenas no longo prazo, a solução de criarmos um estado de exceção e "Tropas de Elite" para resolver a questão da segurança porque, segundo o narigudo apresentador, "a hora é agora".

Estamos cercados de débeis-mentais.

Complemento:

Um dia após a bombastíca e histórica correspondência de Huck:
Corregedoria investiga policial que diz saber de Rolex de Luciano Huck

Aqui você conhece a "amadurecida" visão de Padilha, diretor de "Tropa de Elite" sobre a pirataria:
Nas ruas, gato por lebre

sábado, 13 de outubro de 2007

Celular também não pode mais

Eu lembro, lá pelos já há muito vividos anos de 95, que havia a febre pelos ioiôs da Coca-Cola. Na escola todos tinham alguns e eram mestres nas acrobacias com o pêndulo. Eu inclusive.

E nos horários livres, de antes das aulas e no recreio, havia por toda a extensão do pátio um verdadeiro balé. Múltiplas e mirabolantes evoluções, uns bons, outros medianos e alguns mais, eu incluso, enganadores de platéia.

Aí um dia um menino desentendeu-se com o outro. Provavelmente disse que se o primeiro não lhe reparasse o remoque, embora lhe ultrajasse a idéia, teria de ir arrancar-lhe os olhos em troca da honra ofendida. O menino ofensor não reparou o agravo e ambos foram às vias de fato.

Um deles, já não lembro o qual, fez do brinquedo, o ioiô, arma: deu com o pêndulo, modelo Super da Coca-Cola - ou da Fanta, eram realmente parecidos - na idéia do outro beligerante. Como medida de combate à falta de civilidade das crianças, as freiras que dirigiam a escola não tiveram dúvidas: que se proíba o uso de ioiô nas dependências da escola.

É mais ou menos o que o governador José Serra quer fazer com os celulares. Embora não se tenha sabido de alguém ter levado uma celularzada na idéia, acredita o governador que os índices educacionais do estado só poderão melhorar na medida em que as crianças não tenham celulares para serem encontradas pelos pais num contexto tão perigoso como no que vivem.

Tertuliano mora no Paraná. Tertuliano se preocupa caso a moda pegue, afinal ele pensa:
- Não seria melhor proibir celulares nas cadeias?

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Disse Harold Bloom

Harold Bloom é um dos mais notórios críticos literários do nosso tempo. Há quem o diga um dos homens mais inteligentes do mundo atualmente, o que, eu, naturalmente, relativizo. De qualquer forma, fui conhecer Bloom numa matéria da Superinteressante sobre o sujeito e sua teoria desconstrucionista da literatura. Uma abstração só.

Enfim, lendo sobre Saramago, a quem alcunhei de "mestre", trata-se, da enorme e vasta fauna de escritores que me agradam, meu preferido, descubro que é a mesma opinião deste norte-americano tido como um dos mais bem aquinhoados espíritos do mundo. No livro de Bloom, publicado em 2003, "Genius: A Mosaic of One Hundred Exemplary Creative Minds", "Gênio: Um Mosaico de Cem Mentes Exemplarmente Criativas", disse que Saramago é o "mais talentoso romancista vivo no mundo atual", galardão este que, vindo donde vem, converte-se num panegírico incontestável. Bloom foi ainda além ao chamá-lo, assim como este Tertuliano, de "o Mestre" e "um dos últimos titãs de um gênero literário que está desvanecendo".

Fiquei feliz por Saramago. Fiquei feliz por mim. Penso igual a Harold Bloom, meus caros, morram de inveja. Mas não é só neste ponto em que meus tortuosos pensamentos, deste carcomido cérebro, encontram paralelo aos de Harold. Assim como eu, este vota visceral desprezo pelo que há na literatura infantil no mundo.

O caro Bloom é muito mais radical que este Tertuliano. Eu, embora tenha uma invencível vontade de distribuir pontapés em quem lê Harry Potter, entendo perfeitamente que este, embora fraco exemplar da literatura mundial, pode contribuir no longo prazo para o aliciamenteo de uma nova e vasta gama de amantes da leitura, o que seria ótimo. Enquanto as pedagogas semi-idiotizadas (e por isso idiotizantes) que nossas universidades regurgitam todos os anos esforçam-se para criar campanhas bem intencionadas de incentivo a leitura em alunos bocós e analfabetos com livros como "Dom Casmurro" e similares de densidade e desinteresse natural em qualquer jovem - levando-se em conta que estas pedagogas não lêem e bem por isso jamais farão alguém ler - P
otter e seu texto comercial e fraco conquista hordas e hordas de leitores.

Bloom disse em entrevista à revista Época:
"odeio Harry Potter. É bruxaria barata reduzida a aventura. É prejudicial ao leitor. Não tem densidade. A escrita é horrível. Lancei a polêmica, sabendo que eu atuaria como Hamlet, que defronta com um oceano de aborrecimentos. Continuo me incomodando com os fãs do pequeno feiticeiro".

No que é verdade. Se um dia a humanidade tiver de selecionar cinco volumes da literatura mundial para a eternidade, entre eles, podem ter certeza, não teremos nenhum Harry Potter. Harold extende a crítica à literatura infantil: "é um fenômeno de mercado. A maior parte dos livros para crianças à venda nas livrarias é idiota, não serve para nada, muito menos para suprir a necessidade de leitura de uma criança ou do leitor de qualquer faixa etária. Livros estão sendo confeccionados para vender e se tornar sucessos no cinema e na televisão. Isso nada mais é que uma máscara que oculta o rosto cada vez mais estúpido da era da informação. Os tais livros infantis ajudam a destruir a cultura literária".


O que é perfeitamente tangível não apenas na literatura infantil. Materi
al dito "cultural" feito pra vender é o que não falta. E mais velha ainda é a constatação disso, que remonta a tempos imemoriais do breve século XX, mais precisamente, década de 30, onde os teóricos e filósofos da Escola de Frankfurt, como Theodor Adorno, sujeito ao lado, apontaram a crise da cultura: o que antes tinha valor iminentemente de culto, passa ao valor de troca, mercantiliza-se.

Adorno era, no fundo, um cara legal. Ranzinza, pessimista, provavelmente chato, caxias em relação à juventude de 68 e com sobrenome esquisito, tinha também lá seus defeitos: odiava. Detestava. Cultivava verdadeira aversão ao jazz, e isto, ao contrário de suas notáveis contendas com os estudantes - sobretudo as garotas que deitavam fora os sutiãs - em maio de 68, não se pode perdoar. O jazz é o jazz, afinal.

De qualquer forma, o que conta mesmo, é que Saramago é mestre para mais alguém no mundo. Que a minha admiração pelo português, considerado por muitos um mestre no trato da bela e boa língua portuguesa (que querem vilipendiar com a criminosa, de ocasião e imbecil reforma ortográfica - que se reforme a peripatética Acadêmia Brasileira de Letras, que acha que o idioma é dela, só dela, e dos enormes grupos editoriais que se beneficiarão com este absurdo), enfim, mas eu dizia que o que conta mesmo é que o assunto Saramago me rendeu os primeiros ensejos para conversar com minha namorada, que leu algo do português e que, para o bem ou para o mal, ele continuará sendo o "mestre".

Perdeu, Alexandre Dumas. Perdeu...

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Finitude

Nos últimos dias, mais do que em todo o transcorrer do ano, deu-me, caríssimos, uma sensação estranha no espírito. Em pouco mais de um mês estarei, se for da vontade comum dos professores, formado. Formado numa profissão complicada, num mercado de trabalho "salve-se-quem-puder" e sem quaisquer nesgas de perspectivas imediatas. Irei embora. Perderei contato com amigos queridos.

E tudo isso me fez contemplar uma sensação de finitude. Não é como quando eu saí do ensino médio, rapaz imberbe onde nas fuças ainda erravam espinhas esparsas e as primeiras poeiras que lhe prediziam barbas no futuro, onde o sentido era de recomeço, de novo caminho a trilhar. Agora é de fim, de encerramento, de missão cumprida e nada mais a se fazer. E me confrontar com isso, com o fim e não o começo, com a sensação de nada mais a se fazer, agravada pela ausência de perspectivas no curto prazo, não foi bonito.

Tudo vai sumindo por detrás das nossas costas. Nós nos ocupamos, por vezes, demais em olhar adiante tentando divisar o horizonte da vida e saber o que vem lá. Mas ao fazer isso, inutilmente, aliás, perdemos o que nos reluzia no passado próximo. E normalmente sentimos mais falta do passado do que de adivinhar o futuro coisa que a grossa maioria do gênero humano não consegue fazer. Enfim.

"Foram-se os amigos! Foi-se o futuro! Foi-se tudo! As minhas forças estão quebradas, como se quebrou o feixe da nossa passada amizade. Chega a idade e a velhice, fria e inexorável; envolve seu manto fúnebre em tudo o que outrora me reluzia, tudo o que me perfumava a mocidade, depois atira esse doce fardo ao ombro e leva-o com todo o resto para o abismo sem fundo da morte..."

Foto de Henri Cartier-Bresson.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Por que você veio até aqui? (Setembro)

Seguindo minha tradição de um mês, seguem abaixo as buscas mais curiosas que renderam visitas ao blogue em setembro:

  • "dexisto"
Outro usando de licença poética?

  • "disco vuador ovi"
Não estou certo, mas suponho que ele queria dizer "disco voador ovni".

  • "direitos e deveres de locadora de video game"
Achei curioso.

  • "imagem de onça morta"
Mórbido.

  • "jogos de super mario os que tem no computador da escola"
Certamente o sujeito acredita que o Google é onisciente para saber exatamente qual Super Mario tem no computador da escola dele.

  • "video da morte do super mario"
Teoricamente Mario jamais nasceu, que dirá ter ele morrido...

Ao longo do mês de setembro, através de resultados em serviços de busca, o blogue recebeu 130 visitas. O recorde de incidência foi a busca por "assombração", com 21 ocorrências e em segundo "frases de lula", com 7.




quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Sputnik 50 anos

Uma coisa puxa outra. Hoje o Sputnik faz 50 anos, e eu mencionei-o no post anterior, que por sua vez inicia-se falando de outro mais antigo.

Eu não sei muito sobre satélites. Sei que funcionam emitindo e retransmitindo sinais - o que é muito vago e paradoxal, posto que há cinqüenta anos que eles são parte de minha vida. Mas sei que o bip-bip-bip, pueril até, da bola metálica em que consistiu o tal Sputnik revolucionou o nosso modo de vida. Disso daí é que vem a evolução que hoje permite eu publicar este texto e você lê-lo. Caso queira sentir o que sentiram os técnicos da missão soviética que revolucionaria as comunicações em muito menos de duas décadas, ouvindo a transmissão do Sputnik, a primeira transmissão via satélite da história, clique aqui. Eu fico imaginando que o povo da época deve ter pensado: "tamanho barulho por uma bola de metal que faz bip-bip-bip?".

O curioso é que o fato de terem sido os soviéticos, e não os norte-americanos, que enviaram a bola metálica que fazia bip-bip-bip reduz incomensuravelmente a dimensão da epopéia perante os olhos mais incautos. Fosse o Sputnik norte-americano, existiriam dúzias de filmes e documentários acerca do feito. Como aliás existe um filme sobre a Mercury. A missão Mercury foi a resposta de Tio Sam a Gagarin que, aliás, também não foi imortalizado em telas de cinema.

De qualquer forma, depois de Sputnik veio a cadela Laika. A ela seguiram Gagarin e os astronautas da Mercury. O homem foi à Lua. Vieram os ônibus espaciais que começaram a explodir e a interminável MIR. E ninguém jamais quis ir novamente à Lua porque lá não tem porra nenhuma.

Tudo por conta da bola metálica que fazia bip-bip-bip. E saibam meus caros que o tempo é a medida da precariedade de qualquer coisa.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Hermann Hesse ensina:

"'... a maioria dos homens não quer nadar antes que o possa fazer. (...)' Naturalmente não quer nadar. Nasceram para andar na terra e não na água. E, naturalmente não querem pensar; foram criados para viver e não para pensar! Isto mesmo! E quem pensa, quem faz do pensamento sua principal atividade, pode chegar muito longe com isso, mas, sem dúvida, estará trocando a terra pela água e um dia morrerá afogado".

Hermann Hesse, O Lobo da Estepe.

Hesse foi o que mais próximo cheguei de ler de um filósofo/escritor. Ele é um escritor sensacional, denso, inteligente, culto e não trata o leitor como acessório dispensável à sua obra. Leia, mas tenha atenção que o conteúdo extremamente denso e filosófico deste alemão, provavelmente, o fará repensar toda a sua vida. Além de lhe trazer aquele indescritível mal estar que os melhores escritores nos trazem quando nos confrontam com o humano, demasiado humano (vide Nietzsche).

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

É Mensalão Tucano!

Fosse esse Tertuliano português, por azar não é, ele perguntaria:

- Mas por que o Mensalão de 2005 virou "Mensalão do PT" e o do tucanato empoado e plutocrata que desmontou o país, que movimentou quase R$ 54 milhões de reais - recorde brasileiro em corrupção, virou "Mensalão Mineiro" e não "Mensalão do PSDB" ou "Mensalão Tucano", que seria muito mais justo e lógico, posto que há precedente?

- Vai ver os mineiros todos foram cúmplices, daí extender a culpa a todo o povo com o gentílico.

- Ah tá.

Calheiros

- Poxa, não vão pegar esse Renan Calheiros, hein...
- Olha, até onde se sabe não há nada provado. E mesmo que houvesse, o Senado não pode julgar o cara, não é seu papel.
- Você é a favor do cara?
- Não disse isso. Disse que é idiota querer julgar alguém por algo que não se sabe se fez, especialmente pelos seus pares que não são juízes, são algo pior: políticos.
- Mas tá na cara que ele é culpado, falam isso nos jornais sempre.
- Acontece que os jornais nem sempre falam a verdade e no mais, a disputa não foi para votar a cassação de um senador que pode ter pisado na bola, virou uma disputa inócua sobre quem votou sim e quem votou não. Não vem ao caso. Ninguém sabe se o cara é culpado. E o Senado não é corte de justiça, não pode julgar, portanto.
- Justiça... como você fala de justiça num caso desse, cara?
- Eu não sei, falo porque dou às coisas os nomes que elas têm. E que normalmente não são culpa minha. Mas o estranho mesmo é o tucanato empoado e plutocrata que desmontou o país ter feito campanha pelo voto secreto no Senado na época do FHC e agora querer mudar o jogo.
- Ah, mas vai dizer que você não acha isso justo?
- Ora, quem sou eu? Pergunte pro Renan Calheiros se é. Ele deve entender do riscado: foi Ministro da Justiça do FHC.


Pois é.

Reinventando Bourne

O gênero policial na cultura ou, vá lá, no mundo do entretenimento, surgiu na literatura romântica inglesa por meio de autores como Edgar Alan Poe, reforçada pelo Sherlock Holmes de Doyle e conquistou de imediato o público: o componente do mistério e da intriga dando as linhas do suspense página após página. No cinema filmagens de obras clássicas deram novo status ao gênero nas telonas e com o surgimento dos conceitos de quarta e quintas colunas, especialmente em função das duas guerras mundiais do século XX, surgiu um novo filão compartilhado entre literatura e cinema: as novelas de espionagem.

Ao longo do século passado não foram poucos os autores que granjearam notoriedade por criarem espiões que conquistaram mentes e corações, além de, evidentemente, cifras respeitáveis. Ian Fleming, britânico fleumático que servira no MI-5 (Military Intelligence 5, serviço de inteligência responsável por trabalhar dentro do Reino Unido) durante a Segunda Guerra Mundial e que em princípios dos anos 50 criaria o famoso James Bond, é um exemplo típico. Usando de ambições e aspirações que todo homem ocidental tem, mulher, carros, armas e glamour, o personagem emplacou facilmente. A Fleming seguiram Frederick Forsyth (do clássico "O Dia do Chacal, filmado na década de 60), outro britânico que assina livros do gênero como “Ícone” e “O Quarto Protocolo”, donos de abordagens socio-políticas riquíssimas e contextos históricos bem trabalhados por quem foi parte deles. Além dos dois britânicos, há que se mencionar os norte-americanos Tom Clancy (“A Caçada ao Outubro Vermelho”, filmado com a participação de Sean Connery, o primeiro James Bond) e Robert Ludlum, autor consagrado da trilogia sobre o espião desmemoriado Jason Bourne. Embora ambos tenham muito ranço anti-qualquercoisa que ameace a “liberdade” que o Tio Sam impõe ao mundo, não deixam de ser obras interessantes e empolgantes do estilo.

Embora o gênero tenha sua cartela fiel de fãs, há muito que carecia de uma reinvenção. O padrão pirotécnico e exagerado de James Bond não contemplava a ânsia de realismo que deve permear produções mais contemporâneas – ninguém mais acredita no carro invisível ou no Bond capaz de suster seus batimentos cardíacos para fingir a morte - insistindo nisso, em exageros como esse, o personagem e a franquia tornar-se-iam paródias caricaturais de si mesmos. Tanto é verdade que as últimas produções de Bond foram classificadas como “ação”, e não “espionagem”. O que mudou no excelente “Cassino Royale”, filme mais recente da franquia.

O que corrigiu os rumos do espião mais conhecido, Bond, e do gênero em si enquanto produção cinematográfica foi, sem dúvida, o advento de “A Identidade Bourne” (Bourne's Identity – 2001), filme que inicia uma trilogia escrita por Robert Ludlum, contando a história de um agente da CIA extremamente treinado e especializado que é enviado para assassinar um “rebelde” africano aos olhos da CIA. Por algum motivo o agente Jason Bourne, vivido por Matt Damon, perde a memória. Como “sabe” muito vira um alvo da agência para queima de arquivo.

A história de Bourne é a um tempo fuga e busca. Fuga dos seus verdugos e busca pela sua história, pela sua memória. Bourne reinventa o gênero a partir do momento que vive aventuras fiéis ao possível, sem as mirabolantes e incríveis cenas escapistas de James Bond’s mais antigos. Jason usa o Google para durante o filme para pegar informações, ainda que merchan, é um merchan bem feito e que aproxima o personagem de você. Bourne vive a espionagem de clássicos do cinema como o excelente “O Espião que veio do Frio” (livro de John Le Carré, autor de "O Jardineiro Fiel", filmado sob a direção de Fernando Meirelles recentemente). As cenas são muito bem dirigidas e pensadas, Bourne interage com os ambientes, desde a embaixada do primeiro filme a estação de Waterloo em Londres, na última película.

A busca do espião pelo passado e verdades o leva a denunciar um esquema de assassinatos promovido pela CIA. Além de conseguir de volta seu passado, Bourne é o estopim de um escândalo que leva à prisão seus perseguidores durante toda a história – o que é uma lição à certa noção de onisciência e razão que serviços de inteligência ganharam pelas páginas e telas anos à fora. E tudo aqui é bem dirigido por uma edição primorosa de imagens, onde o diretor Paul Greengrass, acostumado a cenas frenéticas com câmeras de mão, usa o expediente à exaustão: as perseguições e fugas de Bourne ganham ainda mais vida, embora com cenas meio confusas às vezes, aos olhos do espectador.

Jason Bourne e sua história, contudo, souberam buscar o que houve de bom no James Bond ancestral, além do enredo: as locações. Ao assistir a trilogia, praticamente um longo filme de seis horas, vamos de Paris a Moscou. Berlim, Turim, Londres, Langley (Virgínia, EUA. Onde está a sede da CIA), Tângier (Marrocos), Nova Iorque, Madri. Enfim, as viagens e as locações escolhidas a dedo trazem contraste ao filme e um brilho especial ao dinamismo das fugas e cenas vertiginosas da produção.

Contudo, nem tudo são flores, diria o poeta. Identidade Bourne, Supremacia Bourne e Ultimato Bourne foram três livros escritos por Robert Ludlum, falecido em 2001, que viraram os filmes homônimos. Com o estrondoso sucesso de crítica e bilheteria da série, os proprietários da franquia já arregaçam as mangas: querem fazer deste JB, outro James Bond. A idéia é iniciar uma franquia sem vistas de um fim, como é a de 007 que já conta 21 filmes desde 1962. Já está nas bancas, em inglês, duas novas aventuras de Bourne (“The Bourne Legacy” e “The Bourne Betrayal”), escritas por outro sujeito, Eric Van Lustbader, com tenções claras das telas de cinema em breve.

Se mantiver o ritmo e a qualidade, os fãs agradecerão. Mas se a busca for estritamente comercial, virá aí mais um Duro de Matar e de agüentar que não acrescentará nada. De qualquer forma, Matt Damon diz estar fora do personagem porque “cansou dessa coisa do Bourne”. Normal. Qualquer um cansaria.

Os fãs do gênero não cansam. Mas não são facilmente manobráveis, se fossem, James Bond, o JB mais emblemático (os JB's: James Bond, Jason Bourne e Jack Bauer) não teria, se
me permitem o escroto neologismo, “bournizado” e voltado às origens.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Reforma Ortográfica

Estou plenamente convencido de que o presidente da Academia Brasileira de Letras é um dos maiores mentirosos, hipócritas e imbecis do momento.


Vai criar porco,
Marcos Vinicios Vilaça.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

(CONTO) E Caiu um Disco Voador

Era um daqueles dias normais, comuns, pessoas esparramavam suas misérias e suas esperanças pelas ruas da cidade, iam pra lá, vinham para cá. Nada de novo no front. Nada nessa tempestade prometia o ensejo de algum acontecimento extraordinário, o que sem dúvida daria muito que fazer, e procurar, aos jornalistas, às fofoqueiras e aos aposentados das praças, que desesperados trocariam olhares de pasmo e diriam uns aos outros, em incrível demonstração de desespero e desalento: O que há?

Nada. E esse era o problema. Tudo normal, incrivelmente normal. Contudo, seja para comprometer o fio que tomava esta história, seja para atrapalhar o autor, eis que no momento inesperado, ruge dos céus um som perturbador, como quinhentos motores v8 a gorgolejarem em plena rotação, detonando os tímpanos presentes a um raio de três quilômetros da praça, faltou dizer que é uma praça que nos serve de cenário, de onde observamos toda a cidade, ensurdecendo esses pobres miseráveis sem que ao menos soubessem como e porquê.

O motivo do ruído era um disco. Não mais voador, porque acaba de rebentar-se contra o chão, esparramando muitos escombros e muita fumaça oriunda da poeira que levantou, caiu, sem, no entanto, explodir, como seria mais plausível, aceitável até numa catástrofe de semelhante dimensão. Mas se há algo que se vê como falho e extremamente maleável na história dos sucessos inauditos dessa nossa humanidade é o lógico. A lógica esqueceu-se, decididamente, de participar dos momentos ímpares da história humana, e isso desde os tempos imemoriais, que precisamente por serem imemoriais, fazemos uso da literatura preguiçosa, e escusamo-nos cá de referi-los.

Fez-se silêncio. Silêncio desolador, agravado pela multidão de surdos, da qual poucos deram pelo objeto, não mais voador, entretanto ainda pertencente à classe dos não-identificados (embora tenhamos já, em parágrafo anterior, a audácia de identificá-lo: disco voador). Dizíamos que o silêncio era aterrador, os surdos erravam pelas ruas às apalpadelas, em pleno desespero, como se em lugar de perder o dom de ouvir, tivessem perdido a faculdade de ver.

Começou-se a juntar gentes à roda do aparelho, desconfiamos de livre vontade que seja um, que admiravam o acontecido. Os aposentados, que dadas certas particularidades do modo humano de definhar, já não eram contados entre os maiores e mais capazes ouvintes do gênero, agora que eram surdos de vez, trocavam olhares de felicidade – que era o que lhes restava, os olhos – olhares de júbilo, extremamente eloqüentes, como se a falta da audição houvesse feito desses olhinhos diapasões que reverberavam: viste? Embora, agora, não pudessem mais contar tudo o que verão, surdos que são. Sim, eles têm consigo a ciência de falar, visto que não são surdos de nascimento, mas queremos crer que os locutores de semelhante sucesso só teriam prazer em relatá-lo se tivessem consigo a capacidade de ouvir-se. Diante disso, o máximo que esses basbaques fazem é olharem-se. Nada mais.

Apareceram seitas. Apareceram pessoas que queriam implodir o disco, outras que o queriam como um monumento. Houve quem sugerisse desmontá-lo para estudo e evolução de nosso exército, que é, evidentemente, a prioridade de qualquer sociedade contemporânea. Passaram dias, semanas. Ninguém arredou pé, o disco também manteve-se imóvel. A chusma só fazia crescer. A administração pública, cônscia dos seus sacro-santos deveres de proteção do populacho, considerava criar por lá uma sub-sede da prefeitura, e cônscia de outros deveres, não tão sacros, estudava sob que alegação lograriam cobrar impostos dos acampados da praça, nome pelo qual ficou conhecida aquela sociedade. O juiz daquela vara instalou, em lugar de um antiguíssimo boteco, um tribunal para mediar os pequenos conflitos que jamais faltam num aglomerado de gentes das mais distintas e distantes orientações. Decidia os conflitos em meio às mesas, cadeiras, mesas de bilhar, balcões e engradados. Muitas anedotas se fizeram a respeito, dizendo que o juiz queria mesmo era encher a cara e não pagar.

O exército estava de prontidão. As tevês. Os hippies, os yuppies, os ermitãos que voltaram à casa, conhecedores de que, agora, meu caro, que há semelhante novidade na cidade, não há mais que se fazer no meio do nada, das cavernas e do campo, onde justamente alguns deles, há anos, esperavam pouso de disco voador. Vieram toda a sorte de formas e maneiras de se ver o mundo também, tomando ruas, casas, prédios. Houve enorme procura por janelas com vistas para o sinistro, o que tornou a especulação imobiliária algo de muito proveitoso e feliz naqueles dias no entorno daquela praça convertida em campo de pouso.

Embora a defesa civil desaconselhasse, as árvores do lugar passaram a abrigar grande população de curiosos arborícolas, dos quais já havia os mais engenhosos que, pregando aqui e ali fizeram um confortável poleiro. O ser humano, sempre solícito, dono de espírito extremamente inventivo, já começava a alugar os poleiros para os desafortunados a quem faltou espaço nas árvores, o que semeou muita discórdia, posto que os corretores de imóveis viram-se na infeliz contingência de terem uma concorrência ferrenha com um modelo de habitação mais prático, próximo e barato do foco de atenção. Sentiram-se ultrajados e, pelo que se soube, se não fosse a presença de forças repressoras e o grande número de pessoas aglomeradas no entorno da praça, teriam partido para as vias de fato e tomado para si o novo e promissor empreendimento imobiliário. Entendiam eles que os direitos de exploração sobre qualquer forma de locação de imóveis lhes era garantido pelo bom senso e por qualquer lei, que seguramente havia uma. Como se sabe, fazer justiça é sempre uma maneira de cometer uma injustiça em causa própria.

Entretanto, a longa vigília já fatigava, começavam uns a considerar levantar acampamento. E os militares, que haviam tomado para si as responsabilidades do local, ouviam os apelos para uma resolução mais prática, e sempre respondiam que: não é hora ainda, tenham calma. Sendo que o alto comando mandava para os diabos o desazo que teve essa merda de nave em cair justo no meio de uma cidade. Que caísse esta desgraça em um campo, o dos ermitões, por exemplo, seriam poucos pra silenciar e poderíamos fazer o que bem nos aprouvesse dessa joça. Os militares faziam ouvidos moucos à voz do povo, ainda que seja ela a voz de Deus. Aliás, talvez precisamente por ser ela de quem é, é que lhe eram indiferentes os fardados em verde oliva. Que não se olvide jamais que, de Deus ou não, a voz que botou o Cristo na cruz foi dele, do povo.

Os soldados se aborreciam visivelmente. Começava-se a temer que o populacho exaltado rompesse o cordão de isolamento, mandasse às favas as prevenções militares, bem como seus fuzis, e descobrisse, enfim, o que havia lá dentro daquele disco. Se é que nele havia algo.

Um conselho foi formado, democraticamente, claro está, com representantes de todas as comunidades envolvidas na observação para que decidissem o que se fazer. E decidiu-se.

Decidiu-se tentar comunicar-se com o disco. Poderia ter acontecido de morrerem na queda todos os tripulantes e, pior, poderia ter o disco esmagado alguns infelizes que estavam na praça. E, cabe que se reprove este povo, pois só foram dar pelo fato agora, dias e dias depois. Egoísta e falha é a alma humana. E que se louvem os misantropos, que nesse quesito, sempre estão um passo a frente, a saber: maldizer toda a vida e o que de humano há nela, o egoísmo, principalmente.

Embora a decisão fosse no sentido de se estabelecer contato com a nave, havia ainda que decidir qual seria a forma desse contato, o que deu muita, mas muita, dor de cabeça. Uns eram do parecer que se deviam dar uns canhoaços, afinal, o exército está aí para coisas desse tipo, atirar em naves alienígenas das quais ninguém conhece o poder de reação. A outros figurava imperiosa a necessidade de se tentar contato de maneiras mais cautelosas, só não eram capazes eles de dizerem quais. Um bêbado meteu-se na discussão, sim, porque não lembraram de representar a classe dos bêbados na conferência, e o sabe toda a gente, menos os digníssimos do conselho, que praça em centro de cidade é de propriedade deles, dos ébrios. Ao bêbado figurava que deviam era ir todos para casa, porque aquilo já lhe dava nos ovos, faltava-lhe onde amaldiçoar a vida nas noites frias, desalojado que estava da privacidade necessária para ocupação tão meritória. Aliás, ao dar com o meritíssimo, que obviamente era figura do conselho, lembrou-se que este lhe seqüestrara indefinidamente o boteco, e isso tornou-o, coitado, irascível.

Levaram o bêbado para recompor-se. Enquanto reencetavam as tergiversações, uma criança, que ninguém viu de onde veio, e cumpre que se faça justiça, ninguém viu pra onde foi, rompeu o cordão, o circo de discussões sem que dessem por ela, apropinqüou-se do malfadado disco, tomou na mão de um escombro, pedaço de calçada, provavelmente, fez mira, e tal como o moleque que despedaça uma vidraça, descarregou no disco.

Fez um enorme barulho. Barulho seco, de pedra grande batendo em lata, lata oca. Todos, tudo, aliás, silenciou, como na ensurdecedora aparição da nave. Até o bêbado que ainda discutia com alguém sobre a cor do céu, que lhe parecia vinho e não azul, calou. Correu como podia e abraçou-se a uma árvore, dizendo: ah, querida, enfim te reencontro. Com que, então, morro?

Da nave, lentamente, surgiu um pequeno ruído. Baixo, foi subindo o barulho lentamente. Quando ouviu-se o típico zunido dos filmes de ficção no momento em que a porta de um disco voador se abre. Entretanto, fosse coincidência, fosse para comprometer toda a arte cinematográfica, esse foi o primeiro disco voador que viu a humanidade, ou parte dela, em que ao abrir a porta não prometeu aos olhos de ninguém luz branca ofuscante.

Não. Havia por trás da abertura um breu. Breu pleno. Nessa abertura foi se assomando, lento e cambaleante, um pequeno ser. Seu andar titubeante e as apalpadelas, algo incerto como quem acorda, rendeu comentários do bêbado: rá, olha aí, ali também temos quem aprecie a vida. Riu-se tanto o bigorrilhas que errou da árvore que há pouco era a sua amada que tornava do mundo dos mortos, e num misto de choro e riso, antes de cair aniquilado pelo porre, ainda pôde dizer: marcianos ou não, esses são já dos meus...

A liliputiana criatura chegou enfim à porta. Era baixo, não diga, tinha duas pernas e braços. Não chegou até nós traços mais definitivos e esmiuçados de sua figura, e do muito que se disse até hoje, só se pôde verificar como constante a alusão à presença de duas pernas, tronco, cabeça e braços, e é quanto nos basta. Olhou e, já acostumado com a claridade, viu homens, mulheres, a criança que lhe havia incomodado o sono, os militares, os hippies, os góticos, os pobres, os ricos, as árvores, o bêbado, o general apavorado, os canhões voltados a si, assim como as câmeras e, instintivamente, não logrou descobrir de que deveria ter mais medo. Só pôde dizer:

- Opa.