quarta-feira, 31 de março de 2010

Ego

Eu já não sou mais eu
já virei outro
somos dois, um novo
do antigo que morreu
eu me deposito noutro
que sequer nasceu.

terça-feira, 30 de março de 2010

MSN

Sabe, é engraçada essa história do Rick Martin...

E por quê?

Ora, porque não é só porque ele diz que ele é.

Como assim?

Só porque ele diz não quer dizer que ele seja cantor.

segunda-feira, 29 de março de 2010

A serviço secreto de sua excelência

Esqueçam o que eu disse aqui quanto a ocupação do cidadão que carrega a policial ferida. Na verdade trata-se de um policial à paisana, e não de um professor, como identificou a priori a Agência Estado. Coisa de regimes fascistas, confere?

José Serra é o nosso Putin.

Às canoas

Chove miseravelmente em São Paulo. A cântaros que derramam desumanamente, como se não houvesse amanhã. Covem mais que canivetes, despencam dos céus adagas e cimitarras para lá de agudas e afiadas. Como se subitamente Deus tivesse mexido seu gordo e misericordioso traseiro sagrado e, esbarrando no pinico, deitou na Terra toda a água que acumulava para outro dilúvio e outra sacanagem com essa boa gente daqui.

Olho do alto do sétimo andar o caos da Marginal, o esgoto que alguns ainda têm a audácia de chamar de rio, a água acumulando na rua que já principia a alagar e penso, cá comigo, "porra, como é que eu vou embora?"

domingo, 28 de março de 2010

Rádio: Júpiter Maçã - Talentoso

"Esse filho-da-puta tem talento".

Da Rússia, com amor*

Os cartazes. Adoro os cartazes soviéticos, os art-déco, belle-epoque e o diabo à quatro. E sempre gostei muito dos cartazes dos filmes do James Bond - muito embora recentemente tenham desansado um pouco em comparação com os outros. Mas mesmo essa mudança é absolutamente escusada pelo fato de que, se por um lado perderam o jeito para os cartazes, reencontraram a mão nos filmes, que é o que conta, no fim das contas.

*Não sei muito bem o porquê, mas os filmes de 007, especialmente os mais antigos, tinham o vezo de mudar de nome aqui no Brasil para paralelos muito mais belicosos. É o caso deste, considerado um dos melhores da série que já chega a 22 longas, e que no mundo civilizado chama-se "From Russia With Love", o que em libérrima tradução dá em "Da Rússia Com Amor". Aqui adaptou-se para o muito mais belicoso "Moscou Contra 007".

Poema do tropeço (hai-kai anabolizado)

Vai com calma
vamo que vamo
desentorpece a alma
com sobriedade do sonho
lucidez que escorre,
por onde me esparramo
vai, se mexe, corre 
vamo que vamo.

Já vai acabar,
é só mais um pouco
não dá pra parar
num ritmo bossa
meio velha,
dessa de fossa
coisa de louco
não apaga a centelha
do vamo que vamo.

São todas as coisas
é a nossa hora
de todos os momentos
só mais um pouco
que já vou embora
é o fim dos tormentos
vê se te escora
vamo que vamo.

São todos os tempos
a minha hora dilatada
pelos versos inacabados
do vamo que vamo
da minha vida estabanada.

A musculação do Galvão

Ontem, na classificação do GP da Austrália, Felipe Massa levou uma coça de cronômetro daquelas de criar bicho do seu companheiro de equipe, Fernando Alonso. Foram 7 décimos, o que é muita coisa em carros iguais. Alonso larga em 3º, Massa é o 5º. Oficialmente, Massa culpou a temperatura ambiente, e em decorrência, a dos pneus, pelo desempenho tímido.

Galvão Bueno, constrangido pelo desempenho pífio do amigo, deu vazão ao seu ufanismo pastelão. As explicações para o desempenho raquítico de Massa vieram de tudo. De aquecimento de pneus, regulagem do carro, jogo de pneus, vento, sombra, um pássaro que passava pela reta. Tudo serve para explicar.

Menos especular que, talvez, Alonso seja muito mais rápido porque é muito melhor. Porque tem dois títulos mundiais, e o brasileiro nenhum. Porque tem o dobro de vitórias de Massa e uma carreira muito mais plena de êxitos. De todas as possibilidades que fizeram Felipe ser muito mais lento que Alonso, Galvão foi capaz de lembrar de todas, e mesmo de criar algumas. Mas simplesmente ignorou que, no fim das contas, pode ser que Alonso seja melhor.

A musculação retórica, o esforço discursivo para sustentar o pachequismo e o nacionalismo babaca extrapola as para lá de dilatadas margens do ridículo, quando o assunto é Galvão Bueno e patriotadas.

sábado, 27 de março de 2010

Clássico instantâneo

José Serra: você é o nosso Putin!


Serra recebe professores grevista à bomba. Um deles, carrega o policial ferido. Poesia.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Paulistanização

Nas minhas primeiras experiências na Paulicéia Desvairada - de onde terá, aliás, vindo este termo? - lá em janeiro de 2008 basicamente tudo me chocava. Uma coisa em especial eram as pessoas a dormir apoiadas nas sacolejantes janelas do ônibus, cujos motores gritam gorgolejantes a 4, 5 mil giros, o que é muito pouco em termos de RPM e dada a capacidade de deslocamento das unidades, explica o nível elevado de ruído e a vibração que produzem.

E ainda assim as pessoas dormiam. Mais ou menos como a vida na Terra, que tinha tudo pra dar errado e que, a despeito das tentativas da Natureza, e do homem recentemente, prolifera-se qual praga por toda a crosta. Do mais humilde ao engravatado, do estudante ao aposentado, na manhã, ou tarde da noite, dormiam. Pensava no nível do cansaço necessário para tanto sono acumulado desaguar em lugar tão inusitado, tão contrário à paz de espírito necessária para, façamos uso de um chiste clichê, entregar a alma e o corpo aos cuidados de Morfeu. Pensava em tanto trabalho, tanto empenho e tantas horas gastas para trabalhar e tanto sono atrasado e me perguntava se um dia eu, todo desperto, comungaria do mesmo sono fora de hora, fora de lugar. O sono sem caso, que se agarra a qualquer minuto na escassez deles, em qualque lugar na cidade onde as pessoas vivem em trânsito, onde trabalham dentro do carro com o car-office.

Hoje voltava no ônibus. Menos de vinte minutos de viagem nas mal traçadas linhas paulistanas pelas mal planejadas ruas da cidade. Vinha cismando com bagatelas, recostei a cabeça no banco duro e desconfortável, nem de longe ergonômico para o sono, e me peguei tropeçando na lucidez, fazendo do simples ato de fechar os olhos, abrir as comportas que seguram as vagas inexoráveis do meu sono. Adormeci.

Questão de algumas esquinas e acordei. Solavanco. As ruas de São Paulo, evidentemente, não possuem um pavimento digno.

Preciso melhorar em muitas coisas na minha vida na metrópole. Preciso, por exemplo, xingar qualquer fila, achar que a buzina é uma maneira eficiente de orientar o trânsito e que nordestino vem pra cá roubar emprego. Além disso, preciso melhorar minhas capacidades de dormitador em trânsito, de dorminhoco de metrô.

Do contrário, vou precisar de sesta no trabalho.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Nostalgias

Plantões são coisas engraçadas. Sobretudo no jornalismo. Assim, meio de bobeira, encontrei esse vídeo, que me levou de volta no túnel do tempo. Suponho que Faustão deva ter ataques de vergonha galopante por esse momento antológico do cinema brasileiro. Sérgio Mallandro nem tanto, ele é um sujeito mais debochado:

Jornalismo de resultados e de olho no lance

Por um lado, é de cortar o meu coração carcomido e congelado que não disponha de tempo para o blogue como antanho (é a segunda vez que uso essa palavra na vida. Demais). Por outro é alvissareiro que não o tenha e espero que os caríssimos leitores, sofridamente conquistados pela coleção de bobagens por aqui escritas em tantos anos, tenham a bondade de ainda conservar o mau vezo de ler-me vez ou outra, porque será vez ou outra que disporei de tempo para postar, corridos são os dias de um jornalista, enfim, em prática de suas mal quistas e desimportantes habilidades profissionais.

Viva, enfim, o jornalismo de resultados - já que março Abril, que não se feche. E, enfim, até logo (porque nos encontramos por aí) o jornalismo arte, o jornalismo moleque.

terça-feira, 23 de março de 2010

Enfim

E março foi Abril.

domingo, 21 de março de 2010

O papa, o profeta e o suporte religioso para o mal

O texto que segue, é uma coluna do The Independent que me enviaram por email - não tenho a menor ideia da origem da tradução e se alguém tropeçar aqui via Google e souber de onde vem o texto, por favor, não se furte de avisar. Não é meu costume postar textos não meus, porque não tenho intenção de fazer desse blogue uma colcha de retalhos. É preciso manter uma certa coesão mínima. A argumentação sólida do texto me levou a postá-lo aqui, assim como me leva a pedir aos caros leitores que leiam e pensem. De minha parte, digo-vos, que este tipo de texto devia ser matéria disciplinar:

"O que dezenas de milhões de pessoas — que vivem suas vidas diariamente com amor, compaixão e carinho — subitamente quererem desmembrar fisicamente um homem por desenhar uma caricatura, ou dar desculpas por uma organização criminosa internacional que protege estupradores de crianças? Não é a razão. Não é a evidência. Não. Mas pode acontecer quando as pessoas escolhem seu exato oposto — religião. Na última semana nós vimos dois exemplos de como as pessoas podem começar a se comportar de maneira bizarra quando decidem que é uma coisa boa abandonar qualquer compromisso com os fatos para em vez disso agirem baseadas na fé. Ela permitiu que pessoas acusadas de tentar assassinar o cartunista de Maomé fossem tratadas como vítimas, e outras a exigir “respeito” ao Papa, enquanto ele deveria estar numa delegacia sendo questionado sobre seu papel em encobrir, e portanto permitir, o estupro de crianças.

Em 2005, 12 homens de uma pequena democracia secular europeia decidiram desenhar uma figura quasimítica que está morta há 1400 anos. Eles estavam tentando fazer questão de algo. Eles sabiam que em muitas culturas muçulmanas é considerado ofensivo desenhar Maomé. Mas eles tem uma cultura também — uma cultura europeia que acredita ser importante satirizar, provocar e ridicularizar a religião. É graças a essa atitude dos europeus por séculos que hoje nós não somos mais tiranizados ou nos sentimos mal por impulsos perfeitamente naturais, como masturbação, sexo antes do casamento, ou homossexualidade. Quando um padre oferece aqueles velhos argumentos, nós hoje rimos na sua cara — um momento muito libertador. Será brilhante no dia em que os muçulmanos puderem fazer o mesmo.

Algumas caricaturas foram inteligentes. Outras, estúpidas. Uma pareceu sugerir que muçulmanos tem uma violência inerente — uma ideia ofensiva e falsa. Se você discorda dos desenhos, deveria escrever uma carta, ou desenhar uma caricatura melhor, dessa vez satirizando os cartunistas. Mas algumas pessoas não reagiram dessa maneira. Em vez disso, planos islâmicos para caçar e matar os artistas surgiram. Há um tempo atrás, ainda esse ano, um homem com um machado adentrou na casa de um deles, e por muito pouco não matou o cartunista na frente de sua pequena neta.

Essa semana, outro plano de assassinato parece ter sido descoberto, dessa vez estendendo-se da Irlanda até os Estados Unidos, e muitas pessoas que se consideram humanitárias ou liberais se prontificaram para oferecer a condenação — dos cartunistas. Um jornal outrora liberal publicou um artigo dizendo que os cartunistas se engajaram num “ato agressivo” e mostraram “preconceito (…) contra a religião per se”, e portanto, conclui ameaçadoramente, “alguém está por aí esperando uma oportunidade para atacar novamente”.

Vamos enunciar alguns princípios que — se a religião não estivesse envolvida — seriam tão óbvios a ponto de ser risível dizê-los em voz alta. Desenhar uma caricatura não é um ato de agressão. Tentar matar alguém com um machado é. Não há equivalente moral entre expressar pacificamente sua discordância com uma ideia — qualquer ideia — e tentar matar alguém por ela. Ainda assim temos de dizer isso pois temos permitido que as pessoas religiosas aleguem que suas ideias pertencem a uma categoria diferente, nobre, e é abusivo ou violento o mero fato de questioná-los verbalmente. Ninguém me diz que devo “respeitar” o conservadorismo ou o comunismo, e manter minha oposição a eles para mim mesmo — mas é exatamente isso que é rotineiramente dito sobre o Islã ou o Cristianismo ou o Budismo. Qual é a diferença?

Esse respeito forçado é uma erva daninha: rapidamente se espalha alem das ideias para as instituições religiosas — mesmo quando estas cometem os piores crimes imagináveis. É agora um fato indisputável que a Igreja Católica sistematicamente encobriu o estupro de crianças pelo mundo, e, sabendo disso, conscientemente colocou pedófilos como responsáveis por mais crianças. Joseph Ratzinger — que alega ser “infalível” — esteve no coração dessa política por décadas.

Aqui está o que temos certeza. Nos idos de 1962, estava se tornando claro para o Vaticano que um número significativo de seus padres estava estuprando crianças. Em vez de extrair o mal pela raiz, eles redigiram uma ordem secreta chamada “Crimen Sollicitationis”, orientando bispos a fazer as vítimas manterem sigilo e a mover o padre infrator para outra paróquia. Isso quer dizer claramente que os padres estupraram mais crianças, uma após a outra, paróquia após paróquia. Sim, eram tempos diferentes, mas o Vaticano sabia à epoca dos fatos que fazia algo terrivelmente errado: por isso era feito no maior dos segredos.

Emergiu essa semana que quando Ratzinger era o Arcebispo de Munique nos anos 80 um de seus padres pedófilos foi “realocado” dessa maneira. Ele alega que não sabia. No entanto poucos anos depois ele foi o encarregado de dar as respostas do Vaticano para esse tipo de abuso, e exigiu que todo caso deveria ser comunicado diretamente a ele, durante 20 anos. O que aconteceu sob sua vigília, com toda acusação indo diretamente à sua mesa? Precisamente o mesmo padrão, nova e novamente. O programa Panorama da BBC estudou um dos muitos casos. O Padre Tarcisio Spricigo foi acusado pela primeira vez de abuso infantil em 1991, no Brasil. Ele foi realocado pelo Vaticano quatro vezes, arruinando a vida de crianças em cada parada. Ele só foi preso pela polícia em 2005, antes de conseguir ser movido mais uma vez. Ele escreveu em seu diário sobre o tipo de vítima que procurava: “Idade: 7, 8, 9, 10. Condição social: Pobre. Condição familiar: de preferência um filho sem pai. Como atraí-los: aulas de violão, coral, coroinha.” Aconteceu por todo o mundo, onde quer que a Igreja Católica tivesse postos.

Muito longe de mudar esse modelo protetor de pedófilos, Ratzinger o reforçou. Em 2001 ele redigiu um documento estritamente confidencial ordenando que as acusações de estupro infantil fossem investigadas pela Igreja “do modo mais secreto (…) restrito por um silêncio perpétuo (…) e todos (…) deveriam manter-se no mais absoluto segredo.” Uma vez vazados, Ratzinger alega — bizarramente — que esses requerimentos não proibiam os bispos de chamar a polícia. Mesmo muitas pessoas empregadas pelo Vaticano à época dizem que isso está errado. O Padre Tom Doyle, que era um advogado do Vaticano trabalhando nesses casos, disse que “é uma política redigida explicitamente para encobrir casos de abuso sexual infantil e punir os que chamarem a atenção para esses crimes. (…) Em nenhum lugar nesses documentos há qualquer menção sobre ajudar as vítimas. A única coisa que ele diz é que os padres podem impor medo, e puni-las, se disserem o que aconteceu.” Doyle foi rapidamente demitido.

Imagine se isso acontecesse no The Independent. Imagine que eu descobrisse que há um círculo de pedófilos atacando nossa creche, e que o Editor emitisse uma severa ordem de investigação interna com o “mais absoluto sigilo”. Imagine se ele meramente embaralhasse os pedófilos por outra creche de outro jornal, e eu concordasse, e fizesse essas crianças jurarem sigilo. Nós dois iríamos — corretamente — para a prisão. No entanto, quando a palavra “religião” é sussurrada, as regras mudam. Subitamente, pessoas outrora bondosas, que não sonhariam em encobrir uma quadrilha de pedófilos em seu local de trabalho, passam a achar que é um insulto aos pedófilos seguí-los por onde quer vão em suas igrejas. Eles achariam esse comportamento impensável sem a barreira irracional da fé interpondo-se entre eles e a realidade. Sim, eu entendo que algumas pessoas se sentem tristes quando elas veem uma figura que foram ensinadas, quando crianças, a reverenciar — seja o Papa ou o Profeta — sendo sujeitas ao exame racional, sátira, ou investigação criminal. Mas todos tem ideias que julgam preciosas. Só você, religioso, demanda proteção do debate ou escrutínio que pode desconfortá-lo. O fato de que você acredita que um ser invisível e sobrenatural aprova — ou mesmo comanda — seu comportamento não quer dizer que ele mereça mais respeito, ou tato. Quer dizer que ele merece menos. Se você baseia seu comportamento numa fantasia tão avessa, você deve esperar ser checado pela crítica e pela sátira. Você precisa disso.

Se você não consegue suportar suas figuras religiosas sendo criticadas — se você acha que Ratzinger está de algum modo acima da lei, ou que Maomé deve ser defendido com um machado — uma sociedade sã só tem uma resposta para você: vá dizer isso ao juiz".

sábado, 20 de março de 2010

Gênesis

Em mim o verso se fez carne
se encontraram pelas diástoles tresloucadas
as minhas sístoles alopradas
a cantarolar e contar aquela minha história
do dia em que me desavim.
Foi em mim que o verbo se fez poema
onde se rimaram as minhas prosas
e nas antologias do meu fim
se fez de estrofes a minha memória
O verso e o verbo, todos num só
que já não posso comigo,
todos habitam em mim.

O bulê de chá voador

"Muitos indivíduos ortodoxos dão a entender que é papel dos céticos refutar os dogmas apresentados – em vez dos dogmáticos terem de prová-los. Essa idéia, obviamente, é um erro. De minha parte, poderia sugerir que entre a Terra e Marte há um bulê de chá de porcelana girando em torno do Sol em uma órbita elíptica, e ninguém seria capaz de refutar minha asserção, tendo em vista que teria o cuidado de acrescentar que o bulê de chá é pequeno demais para ser observado mesmo pelos nossos telescópios mais poderosos.

Mas se afirmasse que, devido à minha asserção não poder ser refutada, seria uma presunção intolerável da razão humana duvidar dela, com razão pensariam que estou falando uma tolice. Entretanto, se a existência de tal pote de chá fosse afirmada em livros antigos, ensinada como a verdade sagrada todo domingo e instilada nas mentes das crianças na escola, a hesitação de crer em sua existência seria sinal de excentricidade e levaria o cético às atenções de um psiquiatra, numa época esclarecida, ou às atenções de um inquisidor, numa época passada".

A reflexão, em tudo e por tudo simples e complexa, é de autoria do filósofo britânico Bertrand Russel, que morreu em 1970 aos 98 anos de idade, e ainda dono de intelecto ágil e capacidade de análise invejável, a dar-se crédito nas biografias resumidas que abundam no oceano sem limites, nesse outro cosmos da internet. Sujeito muito produtivo, dono de alguns conceitos contemporâneos de liberdade aos quais voto muito apreço e que, declaro, merece deste que vos bloga uma visita mais circunstânciada. Até aqui, que conste, só sei que Russel se abraçava num racionalismo à toda prova. Como a proposta do bulê de chá voador, aliás, nos mostra.

Questionai, irmãos, questionai porque é daí que vem a liberdade.

Celeste

Mas vai olhar para o céu de novo?
Vou.
Mas ele não mudou nada.
É, eu sei.
E ainda assim, vai procurar o que por lá?
Nada.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Princípio da Incerteza

Ele se esforçava por dizer coisas que entendia. Que compreendia com admirável facilidade, mas sabia, de alguma forma, que se as escrevesse para impressionar alguém, falharia. A poesia que lhe embalava as sinapses do coração e sístoles e diástoles da mente lhe pertencia, era uma marca que não poderia fazer outros entenderem. Tudo que tentasse expressar soaria num diapasão estranho, inaudível e incompreensível aos ouvidos de todos. Sabia que nas tortuosas formulações verbais que abarcam sofregamente a velocidade e a intangibilidade de nossos pensamentos, perder-se-ia em frases, vírgulas e sintaxes a beleza e poesia das coisas, o impacto desnorteador do oceano de possibilidades.

A incapacidade, contudo, de expressar ideias, conceitos e os deslumbres que lhe embalavam o espírito, embora o aborrecesse, lhe trouxe com o passar do tempo a compreensão de que, se por um lado estava sozinho, por outro, enfim, a certeza de que não havia verbo que chegasse para dar sentido e vazão às suas ideias e convicções lhe fazia mais auto-suficiente, mais pleno. Que embalado pelas convicções das múltiplas possibilidades que mal lograva compreender, era, enfim, mais análogo ao tudo, mais próximo ao nada. Mais absoluto do porém e das infinitas possibilidades que derivam a cada instante.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Aforismos - Profissão

O jornalismo, assim como o crime, não compensa.

A onda agora é protestar

Já falei sobre o assunto neste post, mas não posso deixar de falar umas poucas linhas a mais sobre. Tropecei nesta matéria, que dá conta da indignação das celebridades cariocas por conta da revisão do modelo de partilha dos royalties de petróleo.

Esportistas e artistas radicados na cidade maravilhosa resolveram ir às ruas protestarem porque o estado perderá parte substancial de sua receita, caso a reforma no sistema seja aprovada. Pois é. Dentre as declarações indecentes colhidas pela reportagem, há uma bem emblemática: "Não podemos deixar que o bairrismo de uma pessoa afete o Rio. Nós sambistas temos que colaborar com isto, pois o samba recebe recursos do governo”, diz-nos o chefe de bateria da Unidos da Tijuca, que nem merece seu nome citado aqui - detalhe: bairrismo, para ele, é universalizar os dividendos do petróleo, quando, na verdade bairrismo é o contrário; mantê-los restritos a estados mal administrados e sem projeto de longo prazo. O pessoal das escolas de samba, depois que perdeu os fundos perdidos dos bixeiros, entrou na verba fácil do governo. É a indignação comprada pelas lágrimas de crocodilo do governador Sérgio Cabral.

É esse o problema. Grana. Financiamento público para os eternos bailes da Ilha Fiscal, onde as socialaites e as celebridades de ocasião possam se refestelar com toda a dignidade, abastecendo por sua vez o noticiário de fofoca, tão caro às massas. Ninguém ali está muito preocupado com um projeto de nação, com o desenvolvimento de um país, com a construção de uma sociedade. E é sintomático que a manifestação destes, vazia em propósito e em ideias tenha mais respaldo midiático que a greve dos professores de São Paulo, que foram mordaçados pelo autoritário governador, quase candidato a presidência, José Serra, contra o qual ninguém diz nada.

Vou vomitar.

Estaremos voltando

Hora de viajar
desbravar um novo universo
molhar as canelas no oceano cósmico
vibrar nas supercordas um novo verso
É hora de viajar
vislumbrar o que há lá fora
De correr a todo canto
porque ao irmos às estrelas
não estaremos indo embora
estaremos voltando.

* O poema nasce da compreensão, que devo a Carl Sagan, de que somos todos iguais, de que tudo, nós e o que nos cerca, é feito de poeira cósmica, nascida nas devastadoras e magníficas explosões estelares. "Supercordas" refere-se a uma vertente teórica que tenta conciliar, na físia e no nosso entendimento de como funciona o Universo, as leis que regem o mundo do muito pequeno, da física quântica, com as que regem o mundo do muito grande, onde estão Newton e Einstein, principalmente.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Especulações nada originais

Talvez o tempo presente seja o único. Talvez o presente, o agora, seja o que existe e futuro e passado sejam apenas incidentes originados nas nossas mentes, mas que em si não existem. Se não existe passado, não faz sentido falar em gênese de nada. Se não existe futuro, não faz sentido em falar de destino das coisas.

Talvez o tempo passado e o porvir sejam frutos da nossa consciência, um incidente randômico na imensidão das possibilidades da matéria se organizar foi a centelha da compreensão de momento, de memória que dá sentido ao passado, de esperança que nos fala de esperar o que vem lá.

Não foi, então, o tempo que nos fez. Fomos nós que fizemos o tempo.

terça-feira, 16 de março de 2010

Rádio: Elvis Presley - Stranger In The Crowd

A minha preferida do Rei:

Estreiteza de mente e propósito

Há uma "crise". A emenda constitucional Ibsen Pinheiro muda o sistema pelo qual os royalties da exploração do petróleo são divididos. Não dá para negar que, pela nova legislação, estados como o Rio de Janeiro e o Espírito Santo são bastante prejudicados, porque perdem porções enormes de suas receitas.

Mas não dá para negar também que, de outro lado, está a noção de federação. E o Brasil, é uma. Aliás, somos no papel, porque nos falta muito para uma cultura federativa, muito produtiva em países continentais como o nosso. Se somos uma federação, a riqueza é de todos. E isso vale para potenciais fortunas em petróleo que venham, ou não, a serem prospectadas e exploradas no futuro.

É claro, contudo, que a questão política deve ser discutida. O governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), defende os interesses do seu estado, e é compreensível que brigue com eles. Que faça, enfim, política.

O que é inadimissível é que simule choro em público, retire-se da responsabilidade de organizar os Jogos Olímpicos e a Copa do Mundo, dê-se ponto facultativo ao funcionalismo para que este se sinta compelido a ir às ruas protestar (o que é ridículo e hipócrita, porque em caso de greve, são espancados e perseguidos). Consideremos que quando os dois eventos esportivos foram decididos em favor do Rio de Janeiro, ninguém tinha como avaliar o volume de recursos do pré-sal. No caso da Copa do Mundo, ninguém sequer sabia dessas jazidas de petróleo em mar profundo. Nos orçamentos previstos para ambos os eventos não há um único centavo carimbado pelo pré-sal.



Sérgio Cabral faria muito melhor, se fosse um líder político, tivesse em si vocação de estadista e algum vestígio de capacidade de gestão e estivesse ocupando o tempo do seu mandato em diversificar a economia carioca. Em mudar os paradigmas, para que o estado não seja refém de um recurso, em última análise, esgotável e inefável: o petróleo do pré-sal, a rigor, é apenas potencial de riqueza enorme. De fato, ainda, nada há.


Também faria melhor Sérgio Cabral se brigasse pelo que julga correto com ferramentas políticas dignas da situação e do cargo. Negociação de compensações justas às perdas potenciais do estado, mecanismos que amortizem o impacto das perdas no princípio da extração desse petróleo e que deem ao governo fluminense tempo para estruturar programas que permitam diversificar as origens de recursos do estado, um postergamento da lei para estados e municípios que dependam mais dos royalties no presente. Todas seriam ideias possíveis e, tenho certeza, negociáveis. E que me ocorreram sem o menor esforço. É muito mais fácil, no entando, "causar". Fazer oba-oba com assunto sério, esgrimir contra um projeto importante do ponto de vista nacional com chantagens e jogo de cena. Discutir demanda de recursos, soluções e boa vontade. Palhaçada faz-se sem o menor esforço.

Soluções para a situação não faltam. O que não dá para permitir é que o volume de recursos potenciais do pré-sal tenha apenas como destino poucos municípios e estados. Somos uma federação e a integração dela é o que dá sustentação a um país mais justo e decente para todos. O petróleo deve servir para manter as contas do Rio de Janeiro em dia, da mesma forma que servirá para preservar a Amazônia, pôr crianças na escola, financiar o desenvolvimento para rincões esquecidos de todos os brasis.

Qualquer discussão que fuja dessas premissas é, por definição, reacionária e atrasada.

A Gaiola das Loucas

Recentemente a sacro-santa Igreja Católica Apostólica Romana, aquela que dá cólica, brinda-nos com baixarias sem fim. Um dos jagunços da mais alta hierarquia, digo, auxiliares, do papa foi flagrado encomendando via telefone os distintos serviços de rapazes bem apessoados, de porte físico e graça sem par. A maior viadagem, no vulgo. Chama-se o distinto de Ângelo Balducci, e ostenta a dignidade de ser um "Cavalheiro de Sua Santidade", um título nobiliárquico, coisa superada em todo o mundo que já não se fundamenta no sistema feudal. Nada contra. Cada um sabe lá o que faz com seus orifícios e proeminências anatômicas, ninguém tem nada com isso.

Passamos a ter quando o alguém é um cruzado de uma instituição arcaica e decadente, como a Igreja. Papas, cardeais e outros potentados do trono de São Pedro são constantemente flagrados na mídia, a mesma que o Papa condena colocando-lhe a culpa pelo que dá errado no mundo, dizendo que homossexualismo é pecado, contra a lei do Deus que dizem representar. Algumas seitas cristãs tratam o homossexualismo como patologia de ordem clínica, e defeito digno de morte e ódio (afinal, a ideia de amor ao próximo é bonitinha no Natal e na boca do Cristo). Há quem defenda a morte para aqueles que não comungam pela atração física pelo sexo oposto, conforme sabe-se largamente. E muito, se não todo, esse comportamento de ódio encontra sólidas e extensas raízes no que diz e desdiz a Igreja. Muito bonito, pois, que um de seus mais elevados senhores pratique o mesmo pecado de alcova que persegue ferozmente a instituição que lhe sustenta, bancado pelo dízimo de milhões de infelizes, e saia por aí depois arrotando tacanhices contra a comunidade GLBT.

A hipocrisia eclesiástica é revoltante.

E não paramos por aí, porque a lista de ignomínias da Igreja, só as do momento, é longa. Foi denunciado há poucos dias que a Igreja da Alemanha, da região de onde vem o atual papa, acobertou durante muitos anos denúncias de pedofilia contra os seus párocos (mais sobre isso, aqui). Tendo, inclusive, Bento XVI em seus tempos de bispo, acomodado em suas paróquias padres que haviam abusado de crianças. O papa é cúmplice de um crime, caso seja comprovado o episódio. Pergunto-me se será julgado como criminoso comum, o que é caso tenha acobertado pedófilos, a despeito das saias que veste e dos chapéus engraçados que ostenta. O papa, representante de Deus na Terra, como defendem seus esbirros, é um pecador comum, acobertou a injustiça contra a qual deveria ser o primeiro combatente. Ao menos se fossemos manter alguma coerência, artigo desde sempre muito em falta em qualquer doutrina religiosa, e não seria o catolicismo exceção à regra, e o papa deveria ser julgado pela justiça dos homens e a da fé que coordena. Mas todos sabemos que não será. O que só nos mostra o quão longe da idéia de Deus as coisas andam. O que não é ruim nem bom. É apenas sintôma da falência de uma ideia da infância do pensamento humano: a divindade. O que não é assunto para este post.

E o horror católico prossegue. Atinge também o irmão do papa, Georg Ratzinger, bispo, acusado também de, se não abocanhar seu quinhão de crianças, ter sido testemunha de eventos dessa natureza e não ter movido nenhum um pouco suas batinas e solidéu para fazer justiça às vítimas. Georg coordenava um coral muito distinto de meninos que cantavam músicas sacras. Tudo muito piedoso, muito católico e cristão, o amor ao próximo e a caridade ebulindo em todas as direções. Até que alguém resolveu falar e denunciar que além de não fazer nada para refrear a cobiça sexual de seus asseclas de fé pelo seus meninos cantores, Georg, de bondade indiscutível, não se furtava a bater nas crianças ou atirar-lhes, quando assim lhe parecia justo, cadeiras como forma de discipliná-los. Vinde as crianças, porque só pode mesmo ser delas o reino dos céus.

Aqui no Brasil, o SBT denunciou recentemente um escândalo de pedofilia também sem precedentes. Em Alagoas padres davam vazão e buscavam também seu desafogo sexual na companhia de crianças e adolescentes, praticando homossexualismo e tudo mais que a tida como sagrada instituição a que fazem parte condena:

Primeira Parte:



As reações da Igreja a enxurrada de denúncias, contudo, são muito curiosas. De um lado, cerram fileiras em torno da figura do Papa, defendendo-o e dizendo que ele nunca acobertou padres pedófilos, embora as evidências em contrário sejam bastante fortes. Dizem que ele não tem culpa, que não sabia, o que é, por si, bastante estranho de pessoas que há pouco tempo diziam que o papa manifestava a vontade divina, e em virtude disso, era infalível. A Igreja, no fim das contas, se preocupa apenas em defender a imagem daquele que é seu chefe, ponto. Não explica, não se redime. A Igreja não parece, de fato, conectada com a verdade das coisas e com a noção de que o mundo não mais caça bruxas e as acende em praça pública, para gáudio dos bondosos homens de batina. A Igreja só roda a batina para defender seu chefe, mas não para resolver suas idiossincrasias e promover expurgos daqueles que cometem crimes - ao contrário, a culpa é do diabo, a culpa é da vítima, nunca do agressor. De outro lado, o exorcista-chefe do Vaticano, se pronunciou dizendo que só pode ser tudo obra do diabo, que estaria neste exato momento movendo uma guerra aberta contra a Igreja. Claro, a culpa é do diabo. Não vou nem entrar no mérito da questão de que esta alegação contradiz a própria Bíblia e as pregações de livre-arbítrio tão caras à doutrina cristã, porque lógica e religião não combinam. O que me encantou nas bombásticas declarações de Gabriele Amorth, o indigitado exorcista-mor, foi saber que ele, aos 85 anos, já praticou "mais de 70 mil exorcismos".

Fosse eu o jornalista, e teria feito contas, para descobrir que isso significa que, se fizesse um por dia, o padre em questão seria um Matuzalém contemporâneo, com pelo menos 191 anos, necessários ao ritmo de um exorcismo por dia, para dar conta de 70 mil deles, acreditando que ele fosse capaz de expulsar espíritos maléficos desde as primeiras horas de vida. Mas acontece que Amorth é padre há 25 anos apenas, o que significa, então, que para cumprir os estonteantes 70 mil exorcismos, o pároco em questão deve ter feito, todos os dias, ao menos 7 deles. Haja espírito e água benta.

Considerem que em poucos dias vimos altos postos da hierarquia religiosa: mentir (como o Chuck Norris do exorcismo aí), abusar sexualmente de crianças (como padres alemães até aqui anônimos), praticar o homossexualismo que tanto condenam (como o jagunço de Sua Santidade, Ângelo Balducci), espancar e praticar violência contra crianças (mais uma vez, o piedoso irmão do papa) e ser acusado de um cumplicidade num crime hediondo, como a pedofilia (o próprio Bento XVI, uma espécie de flagelo de Deus avesso).

Não é de embasbacar que essas hipócritas de saias e chapéis engraçados preguem o preconceito aos homossexuais, enquanto usam o suado dinheiro dos seus fiéis para encomendar garotos de programa para servi-los nas dependências do Vaticano? Que se metam na educação, com as idiotices criacionistas, que queiram educar crianças e depois abusá-las? Que preguem o temor perante a justiça divina que virá a julgar a todos, enquanto eles acobertam padres que molestam crianças?

Não é de embasbacar que estejamos no século XXI e ainda exista tanta gente que norteia suas noções de vida pelo que diz essa instituição apodrecida?

É essa entidade que se arvora de deter um elevado conhecimento moral, e portanto, em última análise, ser capaz de julgar a conduta do homem. Tenho realmente compaixão por aqueles que não se libertam da fé sem juízo, e que, por exemplo, comungam das mãos de padres humanos que bem podem ter colocado essas mesmas mãos onde não deviam, lhes contam segredos e pecados, os considerando árbitros fiéis, imparciais e consagrados de certo e errado. Tenho sincera admiração pela ignorância calada das multidões que as leva a qualquer serviço religioso, comungar dos mesmos preconceitos e superstições. Que as leva ouvir do padre e do pastor sempre os mesmos trechos convenientemente escolhidos da Bíblia que nunca, eles os fiéis, leem para conhecer melhor o preconceito em que fundamentam suas concepções de mundo e de existência.

Aquele que tem fé, de fato, não aprofundou nada.

sábado, 13 de março de 2010

Bizarramente inexplicáveis

Sejamos francos: eu, você e tudo que nos cerca, que sabemos, conhecemos e experimentamos são eventos matemáticos altamente improváveis. Da composição mais básica de um único átomo seu, aos milhões de dados comprimidos no seu DNA, passando pelas suas formas, a cor dos teus olhos, a voz, as memórias que carrega na cabeça, a cor preferida. Tudo isso são combinações randômicas altamente improváveis e que nos garantem certo ineditismo, certa singularidade perante tudo mais.

Mas o Universo é muito grande. E embora a vastidão cósmica feita de espaço e tempo reserve também um volume inconcebível de átomos, ainda que finito, um dia, as combinações possíveis se esgotariam e acabariam se repetindo, confere?

Difícil de entender? Imagine o alfabeto. É uma grande porção de caracteres que permitem um número bastante tamanhudo de combinações diversas. Mas finito. A linguagem é finita. Assim como os átomos.

Podemos, portanto, ser meras repetições.

RH

Sem aptidões
procuro dar sentido
a vagabundagem em tempo integral
o jornalismo nas horas vagas
e à poesia das horas adiadas.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Profeta do diálogo

A diplomacia brasileira tem se tornado relevante no cenário mundial como nunca foi. Em grande parte por meter o nariz em tudo que lhe diz respeito com equilíbrio e propósito, o que limita as escorregadelas.

A ponto de um jornal israelita dizer que Lula, que fará visita ao Oriente Médio, Israel, Jordânia e Palestina, é o profeta do diálogo. A matéria trazida às nossas luzes pela BBC Brasil (como pode, aliás, uma organização estrangeira fazer o melhor jornalismo do Brasil?) cita que o jornal diz que Lula precisa ser amado por todos na região, independente da bandeira a que se dipõem a matar-se. O jornal exalta a imparcialidade de Lula que, ao conceder entrevista a jornalistas árabes e israelenses, resolveu a questão de quem perguntaria primeiro no par-ou-ímpar.

No dia de hoje, também, um jornal dos EUA, Miami Herald, repercute a possibilidade de Lula buscar a Secretária Geral da ONU, posto de prestígio e enorme destaque a que muitos estadistas almejam. Foi intenção do FHC, que é um pavão, como todos sabemos, mas que não pôde conquistar em vista de suas realizações bastante tímidas.

Isso tudo me faz lembrar de um post do ano passado, onde imaginei FHC cometendo um sombrio haraquiri, depois de tão esmagadores sucessos daquele que foi seu maior antagonista. Nada mais justo; seus livros foram queimados, ele mesmo disse para esquecer o que dizia antes, seu espectro político está desorganizado, sem projeto de país, sem relevância política, sem apoio popular.

É o crepúsculo dos deuses.

Resumo

Ele criou o homem e a mulher, e lhes deu a chance do pecado original. Depois se arrependeu e mandou matar todo mundo afogado, crianças inclusive, tendo separado uns poucos que julgava justos, embora praticassem o incesto. Depois impregnou uma mulher - virgem - consigo mesmo, fazendo-a grávida dele mesmo, que seria portanto o pai e o filho da virgem a um só tempo, para que pudesse nascer em forma humana (sim, ele não é onifodão o suficiente para fazer as coisas e se materializar sem uma virgem. Muito conveniente).

Quando vivo, enviou seu filho, que era ele próprio, que também é uma pomba, numa missão suicída em sacrifício a... si mesmo. Mas ele ressucitou, o que quer dizer que não houve sacrifício. Tudo isso para salvar você do pecado original a que ele mesmo te condenou. Daí nasceu a crença de que um zumbi judeu cósmico, nascido de uma virgem, que era seu próprio pai, pode fazer com que você viva eternamente se você simbólicamente comer sua carne e beber seu sangue e dizer a ele telepaticamente que o aceita como seu salvador. Aí ele pode remover toda a maldade da sua alma, inerente a condição humana - maldade a que ele mesmo te condenou, sendo criador onisciente de tudo. Condenação esta que vem na esteira do fato de uma mulher feita de uma costela, que por sua vez vinha de um homem moldado no barro, foi convencida a comer uma fruta de uma árvore mágica por uma cobra falante - e é pelo erro dessa mulher que todos pagamos. E o pai que é seu próprio filho, criou tudo, este mal inclusive.

É, faz muito sentido.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Já começou

Não chega a surpreender, eu já mais ou menos calculava, que o ano seria difícil para se acompanhar a F1. Entre a turma de 24 sujeitos que disputaram as freadas e curvas do campeonato, há um cidadão que se chama Senna. É um peso enorme o que este rapaz com pouquíssima experiência no automobilismo carregará. Se for um fracasso retumbante, como tantos e tantos são num esporte muito seletivo e restritivo, sua falta de resultados será potencializada pelo sobrenome. Se tiver um brilho pálido, será ofuscado pelo sucesso do tio, Ayrton. Se chegar a ser campeão, dará margem as mais variadas comparações, que serão sempre nauseabundas e insuportáveis. E antes de tudo isso, antes da primeira acelerada, ele já conseguiu seu próprio Tema da Vitória.

Mas todas essas comparações virão com o tempo, no médio prazo e, na verdade, todas possibilidades são naturais e inescapáveis, sobretudo a Bruno - que se por um lado não tem culpa do sobrenome que tem, por outro, também se valeu dele para galgar mais rápido que todo mundo os degraus da hierarquia entre as categorias. O que é evitável é o ufanismo. Muita gente dirá que, agora sim, voltará a acordar cedo aos domingos, para testemunhar o início de carreira de Bruno Senna.

Galvão Bueno será um capítulo a parte, sem dúvidas. O nacionalismo doentio, que o faz, por exemplo, ignorar erros e deficiências técnicas de pilotos brasileiros, como que para defendê-los, provavelmente o fará um cruzado em busca do sucesso a todo custo do sobrinho daquele que é um "herói" em muito cunhado pelos seus gritos histeriônicos, pela infeliz "musiquinha do Senna" e pela necessidade meio boba, em muito abraçada por Ayrton que tinha uma vocação impressionante para protagonista, de se criar um messias, um redentor.

Musiquinha, aliás, que ganhou, já, uma versão para Bruno Senna. Curioso, porque o Tema da Vitória original só toca(va) em caso de vitória de piloto brasileiro, e marcou as 41 que Ayrton Senna somou de 1985 a 1993. E, sejamos sinceros, Bruno não deverá cruzar a linha de chegada em 1º lugar este ano. Considerando as possibilidades técnicas da equipe de Bruno, a estreante Hispania, eu mudo meu nome para Ana Maria Braga se Bruno Senna vencer uma corrida em 2010. Em face a realidade, contudo, já começou o oba-oba, como na transmissão dos treinos livres, onde narrador e comentarista desmanchavam-se em "como é emocionante ver um Senna de volta às pistas", e outras patacoadas e pieguices de análogo jaez. Se esse rapaz, por algum milagre e talento que por ventura tenha, pontua na estréia (precisa de, no mínimo, um 10° lugar entre os 24 que largam), preparem-se: será de dar engulhos. Será insuportável.

O idiota de tudo isso, e qualquer um com meia dúzia de neurônios em ordem percebe, é que não há heroísmo nenhum em vencer um campeonato, uma corrida de automóvel. Não há redenção nacional alguma quando um cara que só tem em comum contigo a nacionalidade vence. Sobretudo neste caso de Bruno Senna, onde a equipe é espanhola, o carro italiano, os pneus japoneses, e os engenheiros que fazem a coisa toda correr, multinacionais.

Bruno precisa, antes de tudo, de sabedoria para reagir às comparações e ao babaovismo de ocasião, da patriotada e do pachequismo militante da Globo. Do contrário, pode virar um Barrichello no pior sentido possível: alvo de chacota e de piadas intermináveis, que criam uma caricatura entre o Barrichello do mundo leigo no assunto e o Barrichello, inoxidável e competente piloto de Fórmula 1 há longevos 18 anos.

Mais que tudo, sorte, paciência e equilíbrio a Bruno Senna. Bom ou mal piloto, pouco importa, que ele não embarque nessas idiotices.

Tudo

O Universo
é um poema
feito de futuro.

O poema
é um eu
imaturo.

É nóis na pista

Dentro de algumas horas, começa a temporada de 2010 da Fórmula. E já não era sem tempo. Que demora, que demora.

Em algum deslumbrante e deslumbrado emirado, neste caso o Bahrein, os carrinhos multicoloridos, delicados e extremamente rápidos inicarão a jornada das 18 etapas que compõem o campeonato nesta madrugada, nos treinos livres que espero lograr acompanhar via internet.

Para saudar a volta do esporte mais bobo e inútil de todos, uma peça publicitária genial. Das poucas coisas legais que vemos na publicidade nacional, esta sem dúvida merece destaque. Para promover o GP do Brasil, que terá lugar apenas em novembro em Interlagos, convidaram os pilotos a dizer "é nóis na pista":


quarta-feira, 10 de março de 2010

Rádio: Raul Seixas - Quando Acabar o Maluco Sou Eu

Faz muitos anos, mas ainda me erram por essa face carcomida alguns sorrisos do meu humor torto ao ouvir essa letra.

Nanismo estelar

Se eu fosse uma porção do nada
orbitando o tudo
eu seria como uma estrela
que não brilhou
eu seria a estrela
onde a luz congelou
se eu fosse uma porção de nada
eu seria um pouco de tudo,
um tudo de matéria gelada
um nada de luz apagada
eu seria uma estrela anônima
obscura na obscuridade do espaço
inefável na imensidão do tempo
e na solidão do momento escasso.

O Universo é bizarro

Na minha recente jornada em tentar desvendar os mistérios do cosmo, tinha escolhido a estrela de neutrons como a coisa mais bizarra que pode existir (sobretudo nas variações, magnetares e pulsares). Ledo engano. Eis que a compreensão mais fundamentada das anãs-marrons roubou o título das estrelas de neutrons, que continuam tão bizarras como antes. Só que um pouquinho menos que as anãs-marrons.

É como dizia Carl Sagan: "em algum lugar do Universo, algo extraordinário espera para ser descoberto". A diferença é que o universo, enfim, pode ser você e o que você entende do outro Universo.

Na imagem, uma estrela de neutrons. Não encontrei imagem nenhuma que fosse decente à bizarrice da anã-marron.

terça-feira, 9 de março de 2010

Pesos e medidas

Em casos e escândalos recentes, o Supremo concedeu habeas-corpus para a dona da Daslu, que sonegou a não mais poder, e a Daniel Dantas, nascido nas privatizações esdrúxulas das teles no tucanato empoado e plutocrata que desmontou o país.

Hoje, pois, dando mostras de uma coerência cartesiana, de um equilíbrio só visto numa Justiça cega, que não distingue inocente de bandido, criminoso de circunstância e criminoso de consciência, negou habeas-corpus, o mesmo instrumento legal concedido àqueles que furtaram milhões dos cofres públicos, a um cidadão que roubou R$ 10,95 em roupas.

Disse uma vez Millôr Fernandes que a Justiça brasileira é cega, a sua balança é desregulada e a espada sem fio.

Mulheres

Apenas a título de registro pela efeméride de ontem, embora eu não saiba dizer exatamente o que as mulheres comemoram, mas isso é lá com elas, enfim, vai, uma frase/poema bastante edificante de Bukowski: "há sempre uma mulher para salvar você de outra, e assim que ela o salva, está pronta para destrui-lo".

Esse velho safado sabia das coisas.

sábado, 6 de março de 2010

Legendas: nunca mais

Estava eu conscienciosamente acertando umas legendas num documentário que muito me interessa, produzido pela BBC, e que versa sobre a luz. A luz como entidade física que nos permite divisar o mundo, a luz como entidade filosófica que nos faz dizer que, de uns séculos pra cá, a humanidade ganhou consciência sobre si justamente porque começou a iluminar-se.

Chama-se a série de 4 episódios abordando todos estes matizes de "Fantastic Light", o que em libérrima tradução, digo-vos com a autoridade do esquecido pouco inglês que eu nunca soube, é "Luz Fantástica". Dois episódios em mãos, considerei que era esta noite uma ocasião excelente para assistir e entender um pouco mais sobre a luz como fenômeno físico e filosófico, posto que planos de algumas semanas de ir a uma rave nesta noite - vade retro - foram reprogramados em virtude da indisposição da minha companhia.

Descobri para infelicidade minha que as legendas disponíveis na boa língua desta terra que chamamos Brasil são, na melhor das hipóteses, nojentas. O problema transcende a falta de sincronia entre fala e texto. Nas versões em português das legendas faltam falas, o que gera um efeito cumulativo que faz as legendas terem duração de 42 minutos, ao passo que o episódio tem 1 hora de falas.

Resolvi que consertaria o problema. Iniciei, portanto, a penitência lenta e consciensiosamente, conferindo as falas numa versão em inglês das legendas, e traduzindo-as quando necessário, corrigindo duração e sincronia quando fosse a situação. Normalmente quando faço essas correções, costumo distribuir as legendas a quem de interesse, em sites do ramo - sou um sujeito generoso nesse grandíssimo puteiro da internet, onde todos fodemos a não mais poder a grande puta dos direitos autorais. Ia já adiantado na tarefa, com 37 minutos de vídeo já realizados, quando, enfim, a ferramenta utilizada, o Subtitle Workshop, fruto do trabalho de programadores uruguaios e talvez o único software de edição de legendas gratuito e decente do universo conhecido, dá pau.

De uma vez perdi mais de uma hora de trabalho, a disposição pra ver o documentário, o humor e o respeito pelo software, que deletei imediatamente. Nunca mais edito uma legenda na minha vida, está tudo dito.

Fiquei de humor tão avacalhado que a incidental descoberta de que no YouTube o documentário se faz presente e legendado - não sei nada a respeito da qualidade e integridade das legendas, mas parecem estar em ordem - me fez odiar com todas as minhas forças o fato de que meu preciosismo com documentários e vídeos tenha-me impedido de procurá-lo no YouTube ou mesmo parar de frescura e ver no inglês, porque sou bem capaz de compreender se assistir com atenção.



Verei o documentário em inglês e com legendas em inglês. Foda-se.

sexta-feira, 5 de março de 2010

MSN

Por que você ainda não tem tuíter?

Porque eu ainda tenho auto-estima.

Não entendi...

Porque eu não quero seguir ninguém. Quem segue não sabe onde ir, nem pra onde vai. E também não quero que me sigam. Quem segue ou quer ser seguido não tem auto-estima.

Mas e como você fica por dentro das coisas?

Eu não sei. Só sei que eu não vou participar dessa fofoca institucionalizada. Frugalidade e agilidade da informação, pode crer nisso com toda a fé do seu coração, não são qualidades e não são ítens de liquidez certa na nossa sociedade. A gente não precisa de mais informação, a gente precisa de mais entendimento.

E o formspring, qualé o problema?

Isso é coisa de menininha. Ainda lembro de cadernos cor-de-rosa da minha pré-adolescência, onde abundavam corações e florzinhas e que eram cheios de perguntas a serem respondidas. Continua coisa de menininha. E eu não sou menininha.

E o Orkut, por que você mantém o perfil?

Porque sou hipócrita.

quinta-feira, 4 de março de 2010

10 Capas de discos muito especiais

Não é nenhuma exclusividade a muleta de criar listas quando não se tem assunto para abastecer um blogue. Assim como capas de discos para tema dessas listas é algo que compete em pé de igualdade com o ato de caminhar pelo mérito de atividade humana mais antiga; nada de novo no front, e nada de novo no blogue, praticamente.

Mas como eu adoro dar vazão a clichês e me encher de chavões, embarco em mais esse. Cá, pois, menciono a minha lista de capas de discos que me dizem algo. Muitas vezes, dizem muito mais do que os próprios álbuns. As impressões que as capas me passam estão completamente descoladas do conteúdo fonográfico das obras e este foi o critério utilizado aqui nesta lista disposta em ordem alfabética de artista:

1- BB King - One Kind Favor



Disco de 2008, o último lançado do incomparável rei do blues. O disco não chega a ser genial, mas a foto, a paisagem e o ar de solidão do homem e Lucile, a guitarra, me inspiram uma sensação de poesia que sempre me faz ouvir o disco novamente.

2- Chris Eckman, Hugo Race & Chris Brokaw - Dirtmusic



Chris Eckman é um obscuro músico norte-americano que conheci algumas interessantes colaborações - uma delas, inclusive, no álbum 9 dessa lista. Foi vocalista do também desconhecido The Walkabouts, mora na Sérvia e tem um disco em português, posto que ele morou em Portugal. Chris Eckman é bizarro. Dono de um vocal grave e soturno e de discos solo muito interessantes no aspecto experimental, é um sujeito que costumo ouvir com certa frequência. Desconheço os outros dois rapazes deste disco. A capa e a composição de desolação combinam muito com o conteúdo do álbum, só que vai além. A imagem, ouso dizer, fala mais que as faixas do disco, que valem bem serem ouvidas.

3- Johnny Cash - American Recordings



Johnny Cash é muito bem provido de capas impactantes, o que se reflete nesta lista, onde escolhi duas. A primeira é a capa do primeiro álbum da série American Recordings, que veio a se findar há poucos dias com o lançamento do segundo álbum inédito e póstumo do homem de preto, "Ain't No Grave". A capa faz com que Cash pareça com um profeta, o que é corroborado pelo tom sombrio que sua voz grave soa pelas canções do disco.

4- Johnny Cash - The Legend Of



Trata-se de uma coletânea. Mas é uma coletânea que qualquer um devia ter porque consta nela algumas das melhores, não todas, das canções um dia já desbravadas pela voz de Cash. E mais que o conteúdo do disco, compensa tê-lo pela capa: uma foto que diz tudo. Lançado dois anos depois da morte de Johnny, a cena do homem e seu violão seguindo um caminho traz bem a dimensão de rumo, de finitude de alguém que já não caminha pelas mesmas veredas que nós, pobres mortais.

5- Mike Johnson - I Feel Alright


Mike Johnson e sua estonteante popularidade já foi tema deste blogue. Este álbum de 1998 não chega a ser meu preferido do anasalado guitarrista norte-americano, embora conste entre eles. Gosto do disco, que pelo conteúdo que é muito bom, mas mais pela capa. A foto relacionada com o título do álbum constrói uma ironia suave e impactante, a um só tempo. Por outro lado, a suavidade da ironia parece sumir perante a composição da capa que parece gritar "isso aqui não é pra pessoas felizes. É só para os raros, só para os raros!" (vide Herman Hesse).

6- Mark Lanegan - Whiskey For The Holy Ghost



Longe de ser meu preferido entre os excelentes discos da carreira de Lanegan. Longe disso, acho até que é o que eu menos gosto. Mas não importa. A capa pode ser usada como um resumo de Lanegan e sua carreira: o uísque e o cigarro, consumidos em doses industriais e que lhe moldaram a voz rouca e soturna que ao soar nas canções mais sóbrias nos remetem justamente a memórias desagradáveis afogadas em uísque e sufocadas nas baforadas túrgidas do cigarro. A própria oferta de um gole de uísque para o Espírito Santo dá uma referência do teor dos trabalhos solos de Lanegan, onde figuram algumas presenças religiosas, como na canção "Pendulum". A Bíblia também compõe esta imagem que remete às canções com teor próximo a religião nos seus primeiros discos solo e nas suas recentes colaborações com o Soulsavers, uma espécie de gospel-indie-eletrônico da Inglaterra e que é muito bom.

7- Moby - Wait For Me


Moby é muito legal. Já ouvi mais, mas ainda gosto do som e, sobretudo, da postura do artista perante problemas globais que estão longe de ser apenas charme. Moby faz coisas, não fica apenas falando delas para ser cool e cult. Wait For Me é o disco mais recente, tendo sido lançado no ano passado. O conteúdo das faixas não foge muito do que sempre foi o trabalho do músico nova iorquino, mas a capa é simples e inteligente ao mesmo tempo. E foi desenhada de próprio punho por Moby.

8- Sigur Rós - Takk


A lista dessas capas foi norteada principalmente pela imagem. A capa. Não o conteúdo dos discos. Mas não estou bem certo se consegui ser criterioso nesta escolha. Takk, de 2005, é meu trabalho preferido do grupo islandês de pós-rock especializado em cristalizar sentimentos incrívelmente densos em melodias profundas e em um idioma para lá de incompreensível. Imagem por imagem, talvez, o mais justo seria classificar o último álbum do conjunto, que possui essa capa aqui, com rapazes nus correndo. Uma pouca vergonha. De qualquer forma, a capa de Takk, rabiscada em papelão praticamente, com a silhueta de uma criança diz muito sobre o conteúdo do disco, sobretudo da canção Hoppipolla, dona de um dos clipes mais belos que eu já vi.

9- Willard Grant Conspiracy - Regard The End

 

10- Willard Grant Conspiracy - There But For The Grace of God

  
Willard Grant Conspiracy é uma mistura de banda com coletivo. Não sei definir direito o som dos rapazes, que caminha entre o country alternativo e passa por outras coisas, como blues, gospel, música americana, e o que mais couber - rotulá-los talvez seja uma grande burrice, afinal, mesmo a mim tão dado a elas. Eles usam guitarra, violino, violão, banjo, tudo, e o vocal de barítono do único integrante fixo, o barrigudinho e simpático Robert Fisher - não faço a menor ideia de onde veio o nome e quem diabos é Willard Grant (o sucessor do Lincoln na presidência dos EUA era Ulysses Grant, e todos queremos saber quem está enterrado no seu túmulo, pergunta inaugurada pelo Pica-pau em tempos imemoriais, mas que não nos ajuda a entender quem dá nome ao coletivo e qual é a conspiração). O que conta é que o grupo/banda/coletivo é dono de um talento impressionante e lamento que sejam pouco conhecidos. Muitas vezes quando ouço WGC tenho a sensação de que eles poderiam salvar o mundo. Com suas músicas ou com a simplicidade espartana das capas dos discos, Regard The End (junto com Let It Roll os dois melhores trabalhos até aqui) e There But For The Grace of God (este não tão bom como os outros dois mencionados, mas ainda assim um material da melhor qualidade). Todos os álbuns passam a impressão de que são naturais, simples, sem pirotecnia, assim como os dois casos que finalizam esta lista de 10 mais.