segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Para começar

Há poucos dias, resolvi eleger uma música para despedir 2012. Agora, nada mais justo, escolher uma para saudar 2013. Ennio Morricone, com Titoli:

Titoli by Ennio Morricone on Grooveshark

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Fim de conversa

A Terra girou (gira, gira il mondo gira, nella spazio senza fine) por mais trezentos e sessenta e tantos dias e, a dar-se fé na incapacidade humana de marcar datas para apocalipses, nada diz-nos que o planetinha, no fim, não conseguirá terminar mais um abraço em torno do Sol.

A Terra girou mais um ano e me parece bem inútil falar sobre o assunto. Não há nada que possamos fazer para desencorajar o astro de sua elíptica teimosia, de sorte que ela girou, gira e girará milênios à fio.

E o que não encontra remédios já está devidamente resolvido. Por isso, já que 2013 vem aí e nada podemos com isso, só nos resta dar adeus a 2012. Não farei balanços e nem promessas, não medirei meses e dias, só direi a 2012 meu adeus com uma canção:


quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Ahoy, herr Kaleun!

Eu confesso que gostaria de ganhar uma fortuna na loteria só para poder me internar e jogar, sem parar, por uns seis meses, Silent Hunter.


terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Linux ainda é Linux

Eu, quem diria, estou usando Linux. No caso, o Mint 14 Cinnamon. Algumas coisas são legais no sistema, mas preciso dizer que, sinceramente, cinco horas e meia para instalar um driver de vídeo com toda a sorte de linhas de comando, realmente, acabam com qualquer aspiração do pinguim. No Windows 7, e até naquela joça do Windows 8, tudo o que você precisa fazer é dar dois cliques.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Rádio: Astor Piazzolla - Invierno Porteño

Dizem, e se não dizem, não seja por isso, ao menos eu sempre disse comigo mesmo, que a descoberta do amor, depois que se acabam as ilusões e se desdizem as juras, é perigosa, falsa e, via de regra, dá em besteira.

Mas eis que de repente estava eu escrevendo qualquer coisa, quando me assalta a lembrança de um nome: Piazzolla. Ao que consta, seria algo que um diretor sugeriu como referência a um músico para a criação de uma trilha sonora de um filme. Fiquei com o nome na cabeça porque o tom da sugestão tinha elegido os talentos do tal Piazzolla às mais excelsas alturas.

E fui pesquisar quem seria, enfim, o Piazzolla. E aí descobre-se: argentino, Astor Piazzolla radicou-se em Nova Iorque e por lá criou um híbrido de jazz e tango, que marcou a segunda metade do contamos como século XX. Pode ter marcado a ferro e brasa o lombo curtido dos músicos da nobre arte do jazz, mas digo que não fora o suficiente para que eu, antes desses nem sempre tão bem vividos 28 anos de sangue, de sonho e de América do Sul, viesse a dar por sua existência. Ao fundir tango com jazz, Piazzolla criou todo um novo ritmo, o tango nuevo. Que seria violentamente esculhambado por Adorno, se ainda vivesse, ele que odiava com todas as forças o jazz. Todas as forças e retóricas, mas que no fim das contas, errado estava ele, que jazz é música de melhor qualidade, o problema sempre tem sido encontrar o timbre no manancial inesgotável de tons e formas pelas quais o jazz se manifesta.

Eu, por exemplo, não vejo a menor graça em Miles Davis. Mas gosto bastante de Herbie Hancock, coisa que os entendidos execrariam como fariam os sommelies que admirassem, pasmos, o sujeito que, desavisado, engole o melhor dos borgonhas numa única e virulenta tragada.

Piazzolla, muito mais que Hancock, é meu número em se tratando de jazz. E de tango. Estimo muito que, do alto de todo esse castelo de cinismo no qual me embastilho, desafiando filosofias, paixões e realidades, tenha eu, bem depois de velho, me encontrado com o amor na forma de música.


sábado, 8 de dezembro de 2012

Viagem no tempo

Se construirmos um telescópio suficientemente poderoso, aqui, na Terra, e um enorme espelho perfeito, posicionado a 22 anos-luz daqui, poderemos, no ano que vem, assistir ao vivo à chegada do homem na Lua.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Exercitando o desapego e paciência

Há duas semanas, quebrei o óculos que, velho, já estava mesmo requisitando a aposentadoria. Fui ao oftalmologista para descobrir que o grau aumentou. Encomendei novo óculos, dessa vez investi pesado, comprei uma armação de boa qualidade, toda em alumínio. Se por um lado não poupei na armação, gastei os tubos no par de lentes. Transitions, daquelas que escurecem sob a luz do sol. Dizem que faz bem para os olhos, ainda mais os meus, que são claros. Bloqueia as radiações ultravioletas e é cômodo para andar debaixo do sol.

Hoje fez 12 dias do novo óculos, que eu acabei de quebrar.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Vai dar tudo errado

Agora me resta ir a São Paulo. Minha primeira final de campeonato no estádio. Tudo muito bonito, tudo muito corrido. Só falta o São Paulo perder e, como em 100% das grandes ocasiões da minha vida, foder inapelavelmente com tudo.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Não há mais Joelmir Betting

2012 vem sendo um ano meio amargo para os meus ícones. Morreu, em junho, de maneira bem dolorida, o Ivan Lessa. Era um saboroso cronista, que ainda na última semana, no último texto veiculado pela BBC, disse de si, da situação e da doença, que estimava o fato de que, eventualmente, vinha "um amigo querido visitar meu efisema".

Entristeceu-me perder os escritos religiosamente publicados de Lessa nas segundas, quartas e sextas via BBC Brasil.

E hoje foi o dia de lamentar-se pelo falecimento de Joelmir Betting. Jornalista maiúsculo, somado ao sóbrio Boechat, eram as razões fundamentais da minha preferência pelo telejornal da Band que, verdade seja dita, há muito que não assisto, dadas as horas roubadas pela vida de gente grande. Essa tão inútil, aliás, vida de gente grande.

Mas vou recordar com carinho de Joelmir Betting que, na TV, me parecia um sujeito dotado de serenidade, equilíbrio, algum senso de justiça e integridade, coleção de predicados tão rara de se verificar em jornalistas. Fará falta a habilidade de traduzir a economia para o cotidiano das pessoas normais, fará, também, enorme falta o jeito de radialista de tecer comentários e aforismos sobre as condições gerais desse nosso louco, doido e doído, tempo.

"No Brasil, fomos dopados pela cultura da abundância, irmã siamesa da cultura da ineficiência, da acomodação e da tolerância; responsável pelo nosso atávico desperdício de terra, de água, de mata, de energia, de sossego e de gente".

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Aforismos - Livros religiosos

O segredo de interpretação da Bíblia e, na verdade, de qualquer livro religioso, está em considerá-la como verdade literal nos trechos que te interessam, como fábula nos que te atrapalham e ignorar completamente os que te contradizem.

Isso explica, por exemplo, porque cristãos não saem apedrejando mulheres por usarem calças ou a não realização de fogueiras em praça pública para assar os hereges que não guardam o sábado.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Niilismo do fim

Eu não esboço a menor reação
meu peito calejado não sente
eu só penso
e me ressinto da vida
e me arrependo
e penso: quero que tudo seja diferente
mas nada é
me resguardo
e, cá comigo, fico cismando
que já não há esperança
é no fundo do peito
apago a última lembrança
e lamento mais este dia
escorro pela vida
me culpando pelo jeito
esse jeito meio decepcionado
tão meu
de olhar para dentro de mim mesmo
e me ver acabado.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Gênio político

Lula caiu muito no meu conceito com o apertar de mãos com Maluf e pela desastrada maneira pela qual geriu egos, pessoas, recursos e fatos envolvidos na organização de Copa do Mundo e Olimpíadas que, por infelicidade dolorida, serão mesmo no Brasil. Com essa, sim, não há quem possa.

Mas há de se reconhecer o gênio político que se imbui no iletrado ex-metalúrgico, que bienalmente, convida à baila todos os idiotas da objetividade nababescamente remunerados pela mídia, reacionários de plantão, a gente que esconde a farda e os estranhos onanistas do tempo do verde oliva, do brasil-il-il, ameooudeixeo.

Armaram, eles, o julgamento do Mensalão, que verdade seja dita, devia, antes de tudo, ter se debruçado sobre a questão: "deveria, ou não, o PT pagar roylaties ao PSDB pela evidente usurpação de seu legado político?" - fosse eu FHC, arquiteto da edificação e destruição do tucanato empoado e plutocrata que desmontou o país, esse monumento do nada ao nada, estaria agora me debatendo em artículos, discursos e entrevistas expondo o que é, na mais pura definição do termo, pirataria.

Outra verdade acerca do tema, firmemente impressa no juízo nacional, solenemente ignorado pela mesma mídia, é a de que, via de regra, o cidadão comum está cagando e andando para o mensalão. Prova disso foi a coça de urna que deu Lula em Alkmin no ano de 2006. A de 2010, quando fez de peã, rainha do tabuleiro político e a de agora, quando, esperamos nós, jogou a pá de cal em cima do cadáver, há muito moribundo, de José Serra, dito democrata social, dono de truculência e de delicadezas que só encontram paralelo na gentileza de um esquilo estuprado por um elefante.

Mas dizia eu que Lula é um gênio político do maior calibre. Marcou-se o carnaval do mensalão para o período pré-eleitoral - que curiosa coincidência o veredito sair justo na semana do segundo turno. Lula, antevendo o passo há meses, adiantou-se e escalou o PT com caras novas, completamente desapegadas de qualquer eventual nódoa, porque manchas ficaram, vinculadas com o mensalão.

Resultado: venceu 16 cidades com mais de 200 mil eleitores, que se somam à retumbante vitória do primeiro turno. E, agora, irá resolver como fará para segurar seu projeto, legado e plano político no poder em 2014, enquanto os idiotas da objetividades se agarram em tímidas vitórias regionais - quem deveria comemorar a eleição de ACM como prefeito de Salvador é o país todo, livre que fica de sua presença no legislativo, e não os solteropolitanos e nossos imaculados colunistas - se fia de tímidas análises, se agarra a preconceitos e lamenta-se por esse povinho tão estranho que, parece, desaprendeu a votar, desapegado que anda dos sociólogos, economistas, poliglotas e plutocratas que ela, a mídia, quer tão bem.

sábado, 27 de outubro de 2012

Meu ódio, quando explode a vingança, será a herança do Facínora

Eu acabei desenvolvendo uma afeição inexplicável por westerns depois de velho. Bem velho. Diversas coisas me arrebatam nessas produções que, verdade seja dita, já estão longe da ordem do dia quando o assunto é cinema que preste nos tempos que correm.

Uma das coisas mais interessantes sobre esses filmes são os nomes que acabaram recebendo no Brasil. Como o auge desse tipo de produção definhou nos anos 1970, as versões nacionais eram verdadeiras licenças poéticas, quando não simples e libérrimas traduções do inglês:

Exemplos:

"The Wild Bunch" - No Brasil, o excelente bang-bang de Sam Peckinpah - excelente mesmo, considero um dos melhores de todos os universos e tempos - ficou com o para lá de sangrento título de "Meu Ódio Será a Sua Herança". Nada a ver com o filme e, principalmente, com o título, que dá, numa tradução sem qualquer devaneio, "O Bando Rebelde". Muito menos extravagante, sem dúvida, que o escolhido no Brasil.

"The Good, The Bad and The Ugly" - Um dos retumbantes e esmagadores clássicos de Sérgio Leone, meu diretor preferido, é conhecido no mundo todo com esse nome, até mesmo aqui no Brasil: muita gente se refere ao filme, estrelado por Clint Eastwood, como "O Bom, O Mau e O Feio", o que seria, precisamente, a tradução do nome original em italiano e da versão norte-americana. Contudo, por motivos que me escapam totalmente, no Brasil, o filme foi batizado de "Três Homens em Conflito".

"Duck, You Sucker" - Talvez, talvez, seja meu filme preferido. E, como os demais, foi batizado de modo desastrado por algum compatriota. Aqui, no Brasil, o longa ficou com o exuberante título de "Quando Explode a Vingança". Nome pastelão que desconstrói o título original, uma frase feita que sempre sai da boca do personagem de James Coburn, alertando seu comparsa para se abaixar. Na tradução, "pra baixo, idiota".

"The Magnificent Seven" - Uma exceção. No caso do filme que moldou muito do imaginário masculino na metade final do século 20, o nome brasileiro até que não joga contra: "Sete Homens e Um Destino". Para quem não conhece, vale a recomendação: é a maior concentração de testosterona e macheza por frame já encontrada no cinema. No fim das contas, deu origem há décadas de propagandas para a Marlboro.

"True Gritt" - O filme tem duas versões, a original, dos anos 1960, com John Wayne, e a de 2010, com Jeff Bridges. Ambas usaram os mesmos nomes, tanto lá como cá. No Brasil, o filme ficou batizado como "Bravura Indômita", nome meio incomum para as versões nacionais atualmente, mas que casa perfeitamente com o perfil dos filmes de John Wayne. Nesse caso, simpático o gesto de manter o mesmo nome dos anos 1960.

"The Man Who Shot Liberty Valance" - Em resumo, esse longa dos anos 1950 coloca John Wayne na pele de um mocinho que vai lá e mata o tal Valance, que era um tremendo de um escroto e, de repente, merecia mesmo levar uns tirinhos. No Brasil devem ter achado que traduzir o título para algo sem criatividade, como "O Homem que Matou Liberty Valance", esvaziaria os cinemas inapelavelmente. Daí a terem resolvido florear um pouco o título para "O Homem que Matou o Facínora". Notem bem: O Facínora, não foi qualquer um desses facínoras meia-bomba do oeste, FOI O FACÍNORA.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Aforismos - Ciência e religião

Rick Gervais é um comediante inglês. Ateu de quatro costados, lá não é feio ser ateu, disse ele, na última semana, via Twitter:

"Querida religião, nessa semana eu soltei com sucesso um homem da borda do espaço enquanto você deu um tiro na cabeça de uma criança que queria ir para a escola.
Sinceramente, Ciência".


Rick se referia a isso e isso.

domingo, 7 de outubro de 2012

Porque "Império do Sol" é um filme inesquecível

Eu lembro de, deitado sobre a barriga de meu pai, assistir pela primeira vez à "Império do Sol". Lembro da sala, da luz amarela da lâmpada, lembro que era um sábado à noite, que o filme estava sendo exibido pela Globo e que o televisor que tínhamos era bem antigo, um Telefunken, marca da Alemanha Oriental que não existe mais. Televisor que seria mais ou menos surrupiado por um eletricista de má índole, ou fora abandonado nas mãos dele por falta de dinheiro na hora de pagar o conserto. Nunca logrei decifrar esse mistério de família. A quebra desse aparelho, aliás, fez com que eu e meu pai fossemos para o Paraguai em 1994, comprar uma tv de outra marca obscura, desta vez Eltec, que não fulgurara sob o julgo da foice ou do martelo e, talvez bem por isso, não se sabe nada sobre seu destino. Devia ser apenas uma estripulia asiática que emulava aparelhos de concorrentes de mais nome e apenas colocava no produto um nome qualquer que, nesse caso, calhou de ser Eltec.



Não era sobre o meu histórico com aparelhos televisores que queria escrever. Era, na verdade, sobre "Império do Sol". Esse filme marcou minha vida, é seguramente um dos registros mais antigos de cinema que eu tenho comigo, devo tê-lo assistido aos 6 ou 7 anos de idade. E guardei comigo profundas impressões de diversas cenas do filme, muito embora tenha demorado alguns anos para que pudesse, enfiar, altaneiro, dizer a todos que sim, entendia direitinho toda a história do longa de Spielberg.

No resumo, "Império do Sol" conta a vida de um garoto britânico que reside na China. Filho de aristocráticos ingleses, está acostumado à boa vida, a tudo ter, aos brinquedos caros e aos mimos que, ainda em 1939, soaram para este jovem Tertuliano como impressionantes.

O menino é Jamie, vivido por Christian Bale. Naquela época, o ator que hoje é muito conhecido por dar vida a Batman, já mostrava a veia para o drama, para a carga psicológica. O garoto vivia encantado, vejam vocês, pelos pilotos e aeronaves japonesas,  frutos de um império, o japonês, que já naquela altura acenava com as intenções belicosas de conquistar para si todo o Pacífico. O objetivo causaria, como causou, enormes insatisfações a outro império, o britânico, do qual Jamie e seus pais faziam parte. A vibração da criança pelos aeronautas japoneses durante o filme é um toque sútil de ironia, e muito bem calculado: crianças não se preocupam com geopolítica, ao guri aprazia torcer pelos aviões japoneses porque os admirava. Não lhe passava pela cabeça que eventuais vitórias dos nipônicos poderiam significar até mesmo sua morte.

Com o passar do tempo, os japoneses lançam-se sobre a China, num episódio conhecido como guerra da Manchúria. Ao invadir a cidade, Jamie e sua família precisam fugir às pressas do ataque japonês e do risco de acabarem prisioneiros em um campo de concentração. Por diversos desencontros, os pais de Jamie fogem, ele não.
E é nesse momento que o filme, de fato, começa. Jamie, mimado e acostumado à boa vida, vê se num cenário de guerra onde é alvo, abandonado e sem perspectiva, precisa encarar a vida e a luta pela sobrevivência de frente. Com coragem e criatividade.

O diapasão do filme passa a se centrar nesse desenvolvimento. De certa maneira, "Império do Sol" é uma boa fábula para a perda da inocência. Jamie acaba deixando de ser criança quando precisa se virar para comer restos, quando precisa convencer pessoas a não o abandonarem. Quando acaba num campo de concentração e desenvolve um talento especial para esgueirar-se pelas difíceis e comprimidas instituições que florescem como podem dentro de uma sociedade confinada entre grades, arames, armas e inimigos.

"Império do Sol" é um belo filme de Spielberg. Há muita gente que torça o nariz por conta de suas produções, mas é preciso reconhecer onde o diretor acertou. O filme todo constroi uma sensação de absurdo tão sútil, que fica difícil ignorar.

Algumas cenas de "Império do Sol" me acompanharam por mais de 15 anos, até que dia desses eu revisse o filme: Jamie rastejando na sarjeta por uma aposta. A respiração boca a boca em um cadáver. A fuga do campo. A relação de amizade proibida e muda com um cadete da força aérea imperial. O interesse nas aeronaves e a cena do ataque ao campo no arco final da narrativa. Tudo isso, mestre Spielberg, imprimiu em algum recesso da minha mente. Conheço uma meia-dúzia de diretores melhores que Steven, mas, confesso, nenhum desses soube imprimir um filme no meu coração de menino.

domingo, 23 de setembro de 2012

Rádio: Belchior - Pequeno Mapa do Tempo

Eu tenho medo, medo, medo, medo...

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Eu vou sentir falta da Banca Kika

Meu irmão aprendeu a cultivar um hábito que, confesso, nunca tive. O de ler os jornais da terrinha. Não os leio porque são ruins, em virtude das limitações práticas do jornalismo numa cidade de 60 mil almas, e não satisfazem qualquer curiosidade que eu, por ventura, venha a ter sobre a cidade que me viu crescer.

Mas venho revendo o costume. Deve estar me batendo nostalgia e saudades da indolência da infância.

E nessas idas e vindas descobri que a Banca Kica vai fechar. O lugar é um ícone da cidade, fica na principal via do comércio por lá e, ao contrário de diversos pontos que sofrerão mudanças nos últimos 20 anos, ela sempre esteve lá. Sólida, inexorável, a desafiar a passagem dos tempos, o povo inculto que não lê e a chegada de uma época onde o hábito de se comprar revistas e jornais já soa inócuo. Por meio do texto do jornal vim a saber que o estabelecimento desafia o tempo desde o ano de 1970. Minha mãe tinha 16 anos, meu pai sequer conhecia a cidade e eu provavelmente não passava de uma porção de átomos e moléculas dispersas por aí, apenas esperando o destino.

Tenho carinho por essa banca porque ia lá com meu pai aos domingos pela manhã. Era preciso chegar cedo para garantir as cópias do Estadão e da Folha, que ele gostava de ler no fim de semana. Meu pai era um homem sábio e aproveitava minha empolgação no passeio para abastecer meu sortimento de revistas em quadrinho, prática a qual, hoje, sei que devo meu gosto pela leitura. Dos jornais, meu pai comprava sobretudo a Folha, que durante boa parte dos anos 1990, trazia fascículos para a montagem de livros, guias e enciclopédias que me acompanharam durante todo o tempo que morei por lá.

A banca também tem profunda ligação com o meu consumo de leitura. Era lá que eu levava os poucos cobres de que dispunha para trocá-los por gibis, revistas de videogame, de história, de carros, de automobilismo. E de mulher pelada também.

O que, aliás, me recorda da doçura daqueles tempos de infância, de tantos hormônios, tão pouca coisa na cabeça. As artimanhas, a engenharia social, as técnicas, os subterfúgios, as intrigas para comprar exemplares de revistas pudicas, como Playboy, e de sacanagem, como, bem, aquelas. Pobres dos meninos desses nossos doidos tempos, que nunca hão de saber o doce sabor da masturbação inspirada pelas revistas compradas através de verdadeiras operações de quinta coluna.

A Banca Kica vai me deixar saudades, embora eu não more lá há tanto tempo e nem mesmo seja capaz de dizer quando foi a última vez que adquiri algo lá. Aí veio o tempo e acabou com tudo. O tempo é a medida da precariedade de qualquer coisa. E eu vou sentir falta da Banca Kika, mesmo não usando de seus serviços há anos. Era um tipo de porto seguro saber que, não importa o quão avacalhadas possam ficar as coisas, lá na terrinha, onde cresci, na Munhoz da Rocha, ao lado da rádio, estaria a Kica, com o Seu Benedito atrás do balcão, rechaçando modismos, atravessando os anos, enfrentando as gerações e vendendo pornografia adoidado para os taradinhos tímidos como eu.

Tudo morre, tudo definha, tudo se acaba e tudo encontra o ocaso nessa vida que é medida pelo passar do tempo. O tempo passa. Ele, aliás, não faz outra coisa.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Rádio: The Brian Jonestown Massacre - Straight Up and Down

A canção eu descobri na vinheta de abertura da série Boardwalk Empire. Das grandes produções da HBO, o seriado se passa na Atlantic City de 1920, bem no começo da proibição do alcool, conta o surgimento dos mafiosos e o fortalecimento das redes de abastecimento ilegal de bebida nos EUA.

Gosto muito da série e da canção. E me peguei revirando a internet atrás de informações sobre a banda que a toca, o que me fez descobrir que, agora, também sou fã de The Brian Jonestown Massacre. Um rock psicodélico mais contemporâneo, bom de ouvir, com variações, bom embalo na guitarra e melodias interessantes. De mais a mais, com um nome desses, The Brian Jonestown Massacre, os caras podiam tocar pagode, e mesmo assim acho que seria interessante:




segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Decadência

Decadência é se encontrar acordado às duas e muitos da madrugada tendo que levantar em três horas para um dia muito puxado de trabalho. Gravação, set, filmagem, demora, espera, atraso, complicações. Decadência é não encontrar sono, a despeito do cansaço. Decadência é jogar baixo, apelar para a última long neck da geladeira, virar a beberagem guela abaixo, na esperança que o alcool me coloque no caminho do sono e deposite meu corpo carcomido nos braços do tal Morfeu, que ele deve saber o que faz. Decadência é virar 600 ml de cerveja importada na esperança do sono que, covarde, foge correndo por essas linhas. Decadência vai ser a segunda-feira zumbi que eu vou levar, coisa de louco, vou te contar.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Rádio: Roy Hamilton - You Can Have Her

Eu tropecei nessa canção jogando Mafia II. Curioso que, diante do fato de que o jogo se passa nos anos 1950, admiti de primeiro instante que se tratasse de mais alguma vibrante música de Elvis Presley - mesmo calculando aí o fato de que a história (você encontra, facilmente, exemplares melhores de games de degradação social por aí, se está afim de uma boa história), segundo lembro, acaba antes do Rei estourar.

E, ao menos no meu caso, qualquer coisa que lembre Elvis Presley presta. Me peguei diversas vezes percorrendo as estações de rádio de Empire Bay, a cidade fictícia do jogo, atrás de Roy e sua "You Can Have Her". Durante boa parte do tempo estava profundamente convencido de que se tratava de Elvis Presley.

Acontece que, não, nada disso, não é Elvis. Os primeiros versos sugerem fortemente a voz de veludo do Rei. Na verdade, trata-se de Roy Hamilton. Trata-se de um cantor negro de rythm n' blues daqueles doidos tempos, na iminência dos anos 1960, e fica fácil entender a razão do seu tímido sucesso, ao menos quando comparado com tanta gente que cantou mais ou menos o mesmo tipo de som com mais ou menos o mesmo tipo de talento na mesma época.

Roy era negro e, mesmo tendo o timbre do Rei do Rock dos anos 1960, nunca fez o mesmo sucesso. O mundo não estava pronto para Roy Hamilton, mas estava para Elvis que, branco, cantava como um negro e tinha repertório firmemente solidificado no convívio com os corais gospel da igreja, com o blues entristecido e com o country, mais alvo, é verdade, mas nem por isso menos autêntico.

Roy fora boxeador durante boa parte da vida e foi morrer no fim dos anos 1960, jovem ainda, vítima de um ataque cardíaco. Deixou filhos, e foi se imortalizar, ao menos nas minhas contas, na trilha sonora do bem mediano Mafia II.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Matemática explica meu gosto por Reckoner, In Rainbows e Radiohead

Tudo é matemático nesse universo em constante transformação. Para Newton, Deus era um grande matemático, noção essa que o puritano extraiu de seus princípios matemáticos e não houve o que o demovesse dela. Para Einstein, Ele não jogava dados com o universo. Já para o grego Euclides, o mesmo que inventou a geometria, havia uma relação muito profunda entre existência e os números. E sendo a arte aquilo que dá à existência timbre e permite ao artista a fuga da equizofrênia, nada mais justo que haver matemática em tudo que é belo, que todas as manifestações artísticas acabem transbordando matemática de uma forma ou de outra.

Tanto é assim que foi a Euclides que coube a descoberda do chamado Número de Ouro. Trata-se de uma razão universal em qualquer sólido que garante a ele proporcionalidade, fazendo-o agradável de se admirar. O Número de Ouro de Euclides, que é quase que insinto matemático, vem sendo usado nos últimos séculos como boa diretriz para artistas plásticos e para definir os gostos da cristandade. Seu valor é um número irracional - como poderia ser diferente? - 1,618 e foi obtido pela primeira vez quando seu descobridor se viu às voltas com o curioso desafio de solucionar uma questão, naquele momento, definitiva: qual é a proporção idela para se dividir uma reta em pedaços não congruentes? Chegou no tal número, que acabou sendo usado em tudo quanto é arte. Ele está na fachada do Paternon da Acrópole, por exemplo.

Todo o preâmbulo para dizer que encontrei o Número de Ouro de Euclides embutido numa música e num disco. Isso explica porque, em especial, a canção e o álbum me são tão caros.

A canção é Reckoner, o álbum é In Rainbows, a banda é Radiohead. Aos 2:49 de Reckoner, ponto que é precisamente o Número de Ouro do disco, se levar em conta o somatório da duração de todas as faixas, um coro irrompe cantando "In Rainbows" ao fundo. A referência, claro, foi proposital. Sim, eu sou frio e calculista a ponto de me atrair por simetria matemática até em música.

Interessante notar que, traduzindo, reckoner no bom português quer dizer calculista.

Muita gente ignora solenemente a canção que, no entanto, é precisamente um das minhas preferidas. Fico imensamente contente de ter tanto tempo livre, tanta cultura inútil e tanta inquietação para tirar de um gosto puramente subjetivo uma razão puramente matemática. Interessante descobrir tudo isso. De alguma forma, agora, parece que gostar de Radiohead, In Rainbows e Reckoner faz muito mais sentido.

Também é interessante considerar que esse tipo de refinamento estético, infelizmente, vai longe da efervescente, dizem, cena musical nacional, com seu irrefreável mais-do-mesmo temático e sonoro.

Qualquer um dos caros oito curiosos leitores pode, agora, ouvir Reckoner e concordar comigo a respeito da qualidade da música.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

A frase de Armstrong

Morreu no último sábado, aos 82 anos, o homem a quem coube a imorredoura honra de ir colocar os primeiros pés humanos no solo da Lua. Neil Armstrong, o astronauta, ficou imortalizado por ter dito na ocasião que era aquele um pequeno passo para um homem, mas um gigantesco salto para o coletivo deles todos, a humanidade.

De minha parte, considero que Armstrong está imortalizado por outros dizeres que fez em seu traje pressurizado, também com os pés apoiados na Lua. Em certo momento da sua excursão de três horas pelo satélite, disse Armstrong: "Boa sorte, Senhor Gorsky". Houve alguma especulação na época, florescida em torno da frase inesperada e um tanto desloucada.

Teve quem a considerasse uma provocação aos rivais soviéticos, vendo no nome Gorsky uma associação aos povos eslavos, nome comum que é por lá. Outros foram mais além, e afiançaram que Armstrong delirava, vítima de qualquer complicação médica insuspeita pela Nasa porque, afinal, até então ninguém tinha ido para a Lua. Também se especulou sobre a possibilidade de que a frase fosse um código previsto na missão, que servisse para afiançar qualquer checklist. Houve até quem expremendo o mais que pôde a sanha conspiratória fosse capaz de dizer que Armstrong encontrara, enfim, o habitante lunar e que ele chamava-se Gorsky. Neste cenário, o "boa sorte" fora, na verdade, mal compreendido em função da má transmissão de rádio oriunda da Lua. Armstrong, em realidade, saudara Gorsky dizendo: "boa noite, senhor Gorsky".

De tudo isso, nada.

Gorsky era, em realidade, vizinho de Armstrong quando Neil era apenas uma criança. Certa vez, jogando beisebol, a bola escapou de Neil e seu irmão, e acabou parando diante da janela do quarto do casal Gorsky. Armstrong se inclinou para buscar a bola a tempo de ouvir uma enfurecida senhora Gorsky: "sexo oral! Sexo oral? É isso que você quer? Isso você só terá quando o garoto do vizinho andar na Lua!".

Uns 30 anos depois, lá da Lua, tudo o que restava a Armstrong era desejar boa sorte a Gorsky.

E essa foi, nas minhas contas, a maior frase que o astronauta foi capaz de eternizar na sua viagem histórica.

sábado, 28 de julho de 2012

Rádio: Placebo - Song to Say Goodbye

Eu voltei para São Paulo, uma breve visita na inóspita selva de pedra, e também voltei a escutar Placebo.

"You are one of God's mistakes"...

terça-feira, 17 de julho de 2012

Rádio: Elvis Presley - Mary in the Morning

Gosto tanto desta canção que sinto vontade de me apaixonar por uma Mary, apenas para lhe cantar ao pé do ouvido essa letra.


terça-feira, 10 de julho de 2012

Aforismos - MMA

Lutadores de MMA são tão machos, mas tão machos, que a Feiticeira largou um e virou evangélica.

Civilização

Pode ser que eu seja antiquado, mas prefiro pensar que, assistir a dois grandalhões disputarem uma briga de rua, com direito a joelhaço nas fuças, vestindo tanguinhas, transmitidas em VT e a galera achando que é ao vivo é só mais um solene e decisivo tropeço da nossa sociedade rumo ao grunhido como forma de comunicação.

As pessoas se imbecilizam ao ponto de "vestir o branco pela paz", se escandalizar pelo crescente número de ateus na sociedade, passam a demonstrar toda o seu exuberante repertório político ideológico neste período de campanha, exigem mais segurança, ficam chocadas quando recebem uma fechada, um "vai tomar no cu" no trânsito. Mas são essas mesmas pessoas que fazem filas para ver dois homens de tanguinha, cobertos de vaselina, distribuindo cotoveladas e joelhaços um na cara do outro.

Essa é a nossa civilização, eu me envergonho dela. E você?

sábado, 7 de julho de 2012

Aforismos - Natureza

Unicórnios são rinocerontes com anorexia.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Fernando Lugo

Digam o que disserem, mas presidente de esquerda de um país tão peculiar como o Paraguai, não pode se dar ao luxo de deixar pontas soltas, ou no caso, uns cadáveres pelo caminho. Aliás, nenhum presidente devia ter esse luxo que, no entanto, alguns transformam em prerrogativa.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Automobilismo é o meu esporte

Provavelmente, um dos assuntos que mais discuti na vida foi: "o automobilismo é ou não esporte?". Os mais obtusos, que dizem que não é, fiam-se na tortuosa linha de raciocínio de que o carro faz maior parte do trabalho e, portanto, não é esporte, porque não se mede capacidade física do piloto, mas sim, recurso técnico do automóvel que dirige.

Raciocínio rasteiro. Primeiro porque não é exclusividade do automobilismo usar um aparato tecnológico. Quem desce de bobsled faz a mesma coisa. Nadadores com aqueles maiôs nadam mais rápido que os que não dispõem do recurso. Skatistas dependem do melhor skate. Ciclistas tiram partido da bicicleta moldada em fibra de carbono. O mesmo para quem rema, desce corredeiras e assim por diante.

Segundo que o carro, até aqui, independende se kart, fórmula, stock, turismo ou protótipo, não se move sozinho. É preciso uma porção de sangue e carne razoavelmente doida dentro deles para que se movam, disputem freadas, passem uns pelos outros, encarem curvas cegas, retas alucinantes e assim por diante. Digam o que disserem, mas para encarar uma corrida, vá lá, de Fórmula 1, é preciso: espírito de competição, força de vontade, perícia, talento, sorte e resistência. Todas qualidades encontráveis em qualquer esporte.

Terceiro. O automobilismo exige do piloto e do time por trás dele. Pilotos de Fórmula 1, para ficar no referencial comum, encaram curvas que os submetem a forças de 4, 5 vezes à gravidade. Pode parecer distante, confinados que estamos aos nossos modestos 10 m/s² de todos os dias, mas basta dizer que uma pessoa sem preparo, submetida a acelerações desses calibres, pode simplesmente desmaiar. Calcule aí o tamanho da besteira se um sujeito sem preparo para o esporte se enfiasse num carro e desmaiasse, a uns bons 200 por hora, na saída de todas as curvas.

Equipes de qualquer categoria, das grandes às pequenas, demandam talento, recursos e trabalham mirando algo que é o cerne de qualquer competição esportiva: o aperfeiçoamento. No automobilismo de ponta (Fórmula 1, NASCAR, Indy, Mundial de Rally, Mundial de Enduro) falamos de pentelhésimos de segundo. Do detalhe aerodinâmico, aquela fração a mais de pressão do turbo, o regime de trabalho do motor, que significa mais economia de combustível ou desempenho.

Automobilismo é um esporte, com suas particularidades, mas ainda assim, esporte. O carro e a equipe desempenham um papel muito grande na performance final, isso não se discute. Mas o que faz diferença, ainda, é o homem. Do contrário, qualquer Felipe Massa seria um Alonso. E nós sabemos que não é, porque em última análise, o diferencial entre um e outro, ainda é o talento. Ou para ficar num referêncial mais justo: Lewis Hamilton anda de McLaren, é campeão do mundo, e é um tipo de showman. Corrida com ele é espetacular. Ele não desiste nunca, divide freadas, corre com sangue no zóio. Jenson Button, também de McLaren, poupa o equipamento. Conduz com fineza e delicadeza a ponto de que seus pneus ficam conservados por mais tempo, o que o coloca em posição privilegiada na hora de definir uma estratégia para a corrida e, não raro, o deixa melhor calçado que todos os concorrentes naquele momento em que as corridas se decidem.

Neste último fim de semana não tivemos Fórmula 1, mas tivemos algo melhor. As 24 Horas de Le Mans. Uma corrida realizada há quase cem anos, em estradinhas vicinais do Le Sarthe, região da França, onde se dá o evento. Leva o nome de Le Mans porque Le Mans é a maior cidade das que envolvem o percurso de 13 km. É uma corrida que mistura quase 60 carros, entre protótipos avançadíssimos, como os e-tron da Audi, que venceram a corrida, e carros de turismo, como Porsches, Ferraris e Corvettes. Os e-tron são carros híbridos, com motores elétricos e a diesel, tração nas quatro rodas e tecnologia tão alta quanto os F1.

Quarto. Automobilismo move paixão. E esporte precisa ter paixão. Tudo na vida, aliás, precisa de paixão. Talvez um pouco mais que paixão, é algo intangível, que tem a ver com a nulidade de se buscar ser mais rápido que o outro, correr, correr, correr e não chegar a lugar algum. E mesmo assim, arriscar o pescoço tentando. Algo como Bruce McLaren definiu: "Fazer algo bem feito vale tanto a pena, que morrer tentando fazer melhor não pode ser loucura. A vida é medida por realizações, e não por anos" (e ele morreu numa pista). Automobilismo é a busca desenfreada e escamoteada da morte por aquele que, temerário, a desafia. Mas há muitas formas de compreender a paixão que as corridas movem em que se sensibiliza por um V8 gorgolejanto reta abaixo.

Mas poucas resumem tão bem o espírito desse esporte como as imagens abaixo. Aconteceram nesse fim de semana, nas 24 Horas de Le Mans. Na primeira delas, o Dumas, um dos pilotos do Audi #3, perde a frente em uma curva boba. Ali eram ainda 4, 5 horas de prova. Erro bobo. Outros poderiam ter desistido, outro tipo de competição, que não as 24 Horas, seria fim de prova. Para Dumas, não. Ele desce do carro, remove os escombros da parte dianteira, dirije até os boxes com um carro esbagaçado e uma das rodas dianteiras, das que definem o rumo, se equilibrando em braços de suspensão bastante avariados. O Audi #3 é reparado em uns 30 minutos, retorna à pista e encerra sua participação, no domingo, com um honeston quinto lugar na classificação geral.



E a outra, aí sim, mais simbólica. Motoyama conduzia o inovador DeltaWing da Nissan, quando foi defenestrado por Nakajima, que andava de Toyota. O regulamento de Le Mans permite que o piloto mexa no carro em caso de necessidade, mas proíbe qualquer auxílio externo de fiscais e mecânicos. Mecânicos só podem operar reparos nos carros quando eles chegam aos boxes.

Não era o caso. Por conta disso, o time mandou uma comitiva de mecânicos para perto de onde deu-se o sinistro. É comovente vê-los instruindo Motoyama por duas horas, embora o vídeo abaixo seja editado para poucos minutos. Motoyama tenta de tudo para fazer o carro voltar a funcionar, o que o permitiria guiá-lo aos boxes, onde reparos mais substanciais seriam feitos.



Motoyama não teve sucesso na empreitada e chorou copiosamente. Foi aplaudido pelo público. Vale o registro de que o DeltaWing não disputava a vitória geral e em sua categoria. Era mais ou menos um figurante. Mas as 24 Horas de Le Mans são tão enormes em termos de competição esportiva que o que realmente vale para a maioria é terminar a prova. Motoyama chorou porque o inovador carro da Nissan abandonara a prova, e não porque perdia um troféu.

terça-feira, 12 de junho de 2012

O melhor 2

Escrevi ali sobre o quão impressionado fiquei ao encerrar a campanha de Red Dead Redemption. Faltou dizer que vou me afogar no meu próprio veneno, corroído pelo rancor e pelo ódio inexorável se a Rockstar não providenciar uma continuação.

Que venha o novo Red Dead Revolution. Ou Revenge. Ou Ressurection.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Rádio: Ennio Morricone - The Man With the Harmonica

Ennio Morricone é um gênio. Na composição abaixo, que irrompe toda vez que o personagem de Charles Bronson, o homem sem nome que todos acabam chamando de "Harmonica" (Gaita), surge em cena em "Era Uma Vez no Oeste" há um cuidadoso esboço da personalidade e características do personagem. A música é tão perfeita em esmiuçar a figura do Harmonica que chega a parecer que o personagem foi construído sobre a música, e não o contrário. A distorção da guitarra, a orquestração crescente, vibrante, efusiva, a gaita soando como uma voz a lamentar-se por uma grande tristeza. "The Man With the Harmonica" é uma canção redentora, da mesma forma como o personagem no filme.

Essa facilidade de sintetizar personagens complexos em canções de 3, 4, 5 minutos que Morricone tem é algo que não veremos mais. Ninguém lhe chega aos pés neste talento.

The Man With The Harmonica by Ennio Morricone on Grooveshark

O melhor

Eu joguei, e ainda jogarei, muito video-game na vida. Mas desconfio que já conheci o melhor jogo de todos os tempos. Sim. Red Dead Redemption é tão avassalador que você se sente triste de encerrar o jogo e eu duvido que vá conhecer outra produção tão perfeita, tão esmerada, tão rica e múltipla em possibilidades como Red Dead Redemption.

Ambientação, produção, cenário, História, roteiro, referências, personagens carismáticos, aventura, ação, jornada, reviravoltas, trilha sonora. Cada um desses quesitos já faz de Red Dead Redemption um jogo especial, maiúsculo. Unidos os itens e você tem nas mãos um clássico instantaneo, como "Era Uma Vez no Oeste", clássico esmagador de Sérgio Leone onde o jogo buscou tantas e tantas referências.

Eu queria poder apagar a memória que tenho de Red Dead só para poder jogá-lo novamente, como se fosse tudo inédito e novo.

Farei meus filhos jogarem RDR e caso com a mulher que tenha tanta admiração quanto eu por este clássico que transcende games e cinema.


sexta-feira, 8 de junho de 2012

Foi-se o tempo em que eu me dava ao trabalho de te ouvir

"Foi-se o tempo em que eu me dava ao trabalho de me encher de hipocrisia para ouvir as tuas idiotices".

“Você descobre exatamente o que dizer quando é tarde demais”, disse. É como a feliz descrição que deu Douglas Adams de uma tarde cheia de trovoadas em um de seus divertidos livros. Depois de uns vinte minutos, quando a tormenta já acalmou, você ouve, lá ao longe, o ribombar de alguns trovões retardatários, que soam como aquele sujeito que perdeu uma discussão, mas vinte minutos depois, munido de uma contra-argumentação para lá de sólida, volta dizendo "e tem outra coisa...".

Foi o que aconteceu com Ernando. Dono do pior nome possível já enunciado em má literatura digital, nosso anti-heroi - pudera, com um nome desses - teve a epifania quando ela já era totalmente escusada. Escalou o Everest da discussão, no pico admirou a compreensão do todo e respirou fundo, com a certeza da vitória na discussão. O problema é que já não tinha mais discussão, ela enrubescera subitamente e se fora. Ensombrecido por qualquer desses tropeços financeiros que nos amargam a existência e por uma infeliz discussão que encerrara há pouco, Ernando, o homem a quem muita falta faz um F, por qualquer uma dessas artes do destino que regula as frequências e o ordenado caos das sinapses, foi lembrar dela, justo dela.

E para inundar este texto de referências que o autor não tem, vale colocar mais uma, puxada pelo gancho que é este "justo dela". Num só momento, Ernando, o homem do nome mais esdrúxulo já pensado, lembrou de Humphrey Bogart. Qual era o filme? Ah sim, Casablanca. O portentoso Casablanca, o esmagador, inoxidável “e único filme em preto e branco que vale perder tempo assistindo”, dizia consigo. Era aquela cena em que ela, sempre tem ela, entra no bar e Bogart diz qualquer coisa com "com todos os butecos do mundo, ela entra no meu, justo no meu". A frase pode parecer meio besta, mas é preciso considerar alguns atenuantes. Primeiro, é Casablanca. Segundo, é Bogart. E terceiro, o homem diz o diabo da frase com toda e tanta verve que não há como não considerar este um dos pontos mais altos do cinema no século XX.

Ela não entrou no buteco de Ernando por uma série de motivos, dos quais o principal é fato de que ela não vai a butecos. Ou não ia. Onde ela entrou, e não devia, foram nos pensamentos de Ernando, que podem ter, e provavelmente têm, todos os defeitos deste mundo, mas ainda não estão avacalhados que cheguem ao ponto de serem comparados a um bom boteco de esquina. Ela esgueirou-se para dentro das sinapses com tons de escarlate que não eram seus. Ernando involuntariamente se vê dono da melhor frase que poderia ter dito meia-hora atrás, no calor da escaramuça verbal: "foi-se o tempo em que eu me dava ao trabalho de me encher de hipocrisia para ouvir tuas idiotices".

Ernando sempre se considerou um sujeito de péssimo desempenho em confrontações. “Não é comigo, tenho uma sina, um defeito de não saber me defender”. Ernando não é do tipo indefeso, porque o ar blasé de quem parece já ter visto tudo esconde uma mente febril e imaginativa. Quando quer, sabe ser sagaz. Fisicamente, embora não fosse ilustrado em nenhuma dessa brutalidades que se dá o hipócrita título de arte marcial, tinha lá físico aquinhoado o suficiente para opor resistência a quem quer que fosse. O problema de Ernando era não saber dispor corretamente de seus predicados e isso o fazia sempre presa fácil na mão de rufiões da adolescência e, agora, de mulheres histéricas. “Eu não sei discutir, eu não sei reagir, eu não sei me defender”. “Pareço uma menininha indefesa”. Ernando considerava, de longe, este o seu maior defeito e se desafiava pensando como pudera escolher uma carreira no Direito. “Tenho a vantagem de que no tribunal fala um de cada vez. Fosse o tribunal como os meus relacionamentos e as humilhações que sofri na adolescência, onde todo mundo fala e grita ao mesmo tempo, e eu estava bem fodido”. “Não que não esteja especialmente fodido agora”.

"Foi-se o tempo em que eu me dava ao trabalho de me encher de hipocrisia para ouvir as tuas idiotices".

É importante o uso do "tuas", pensou. "Dá um relevo, algo de solene, de definitivo", diz consigo mesmo, para logo se escusar, "agora é tarde. Não há mais nada para ser dito, devia ter pensado nisso antes. Mas nunca penso. Em geral, a gente nunca pensa, nunca está preparado para dizer a coisa certa na hora certa". Ciente de que a peleja verbal com a agora ex estava inapelavelmente perdida, Ernando pegou-se pensando nos odores que os corpos exalam. Vivos, suor, flatos, secreções, pus. Mortos, músculos relaxam e há quem peide e cague depois de morto. Ernando tropeça em relatos desses com frequência quando mete-se a defender casos de assassinos. “A melhor prova de que a vida é uma merda é o fato de que, mortos, a gente ainda tem a liberdade de dar uma cagada”.

Algo fedia no ar.

Ernando, o homem a quem fez muita falta um escriturário responsável, pensava, antes de tudo, nos problemas financeiros e no desazo que teve ao investir na compra do apartamento que vê, agora, estragado para todos os fins e propósitos. "Vai desvalorizar". Ao mesmo tempo, embala suavemente o copo de uísque para ouvir as três pedras de gelo bater no vidro e fazer barulho: “chocalho”. "Essa merda vai desvalorizar pra caralho, aliás". Dá uma olhada para o centro da sala, como quem diz "fodeu". Remata a conclusão com um suspiro e um gole generoso no uísque, que constata, está já aguado demais.

Ernando não tinha planos para acabar o dia meio sentado, meio deitado no sofá, camisa desabotoada, e o uísque de má qualidade fazendo hora extra diante de suas fuças. Nem pensar nela, muito menos armar-se do argumento definitivo para expulsar mais um namoro cancerígeno quando é tarde. “Pior de tudo, foi o tumor que veio me expulsar de sua vida, mas dessa merda eu me livrei, te extirpei”, diz como que falando para ela. Sempre tem ela. Além do amargo encontro, Ernando não tinha a menor intenção de verr o investimento de uma vida desvalorizado. "Pior que doença".

O homem a quem fez muita falta mais sanidade e critério dos pais na hora da escolha do nome calculou que os próximos dias seriam mais amargos e insossos que o uísque que decantava no seu copo todos os seus remorsos. “Meu nome... minha avó morreu me chamando de Fernando. Nunca soube se por algum tipo de birra de gente velha e ranzinza ou se, simplesmente, porque não lhe cabia na cabeçorra que seu filho era retardado demais para batizar uma criança”.

Na sala, à luz do fim de tarde lento e sossegado daquela quinta-feira, Ernando foi acostumando o corpo com o lugar e a circunstância. Desafiava-se a si mesmo para ficar imóvel, feito uma pedra, "você tem um coração de pedra", ela tinha dito num dos tentos que logrou na discussão de meia-hora atrás e ao qual não encontrou Ernando resposta. “A merda é que perdi de goleada, se você for pensar”. "Você tem um coração de pedra", pensou Ernando que, se ele tinha um sedimento rochoso fazendo às vezes de miocárdio, era de se presumir que ela carregasse dentro do peito um buraco negro de atenção, fraqueza, frivolidade e total ausência de sentimentos. "Mulheres", disse.

"Foi-se o tempo em que me dava ao trabalho de me encher de hipocrisia para ouvir as tuas idiotices".
"Fora do contexto", pensou, "é só uma frase de impacto, mas que não diz rigorosamente nada". "Porra nenhuma, aliás". "Como aquela vadia, que latia e latia, mas no final não dizia nada que não fosse inútil". À luz das macambúzias ideias da tarde e dos efeitos do uísque disse uma frase, ou variação dela, que já sibilou pelos dentes de qualquer criatura que vista calças e faça a barba: "Amor não é comigo, é pior que doença".

"Pelo menos ela tinha peitões". Ernando lembrou da adolescência e de quando começou a se interessar pelas curvas, apêndices e particularidades anatômicas que determinam o dimorfismo sexual e fazem das mulheres a poesia que são. Lembrou que não tinha muito interesse em seios, gostava deles e daria 10 anos de sua vida para apertá-los todos os pares que se revelavam a seus olhos gulosos nos corredores do colégio, não há dúvida quanto a isso, mas a questão é que não dava aos peitos a importância que hoje dá. Via neles determinantes anatômicos que classificavam as garotas como gostosas ou não, em diversos níveis e patamares, que eram, e ainda são, definidos mediante consenciosa e extensa lista de requisitos, que sopesa aí além dos supramencionados pares de tetas: coxas, textura da pele, tipo de cabelo, bunda, voz, cor dos olhos, espessura da cintura e graça ao sorrir e principalmente, andar.

Ernando nunca alterou sua lista de determinantes, mas o que mudou, percebe-se agora, é a equivalência de cada ítem e a hierarquia deles. Se antes os peitos valiam menos que uma bunda escultural, hoje, reconhece, valem tanto quanto. O que teria acontecido? "Envelheci, foi isso". E, de mais a mais, Ernando reconhece que os tempos de colégio não lhe foram prodigiosos na arte da conquista, fruto das chacotas de que era alvo em virtude do nome ridículo que ostentava, acabou caindo em uma fase especialmente depressiva e isolada do mundo. À ele bastava imaginar-se dedilhando os peitos, bundas, coxas e cinturas que via pela frente naquele tempo de ebulição hormonal que nos devora as entranhas, fazendo de reclame de lingerie justificativa mais que suficiente para uma rápida, sôfrega, lambuzada e gloriosa, punheta.

"Aquelas vadias", pensou. Se houvesse um deus e ele seguisse seus escritos ao pé de todas as letras, com certeza, Ernando já estaria condenado aos infernos antes da maioridade por conta dos litros de esperma que derramou por criaturas rasas, nos casos das vadias da escola, bidimensionais, em caso de fotos e gravuras impressas, e digitais e magnetizadas, por conta dos não poucos VHS que lhe acompanharam a fase e lhe deram toda a sorte de criatividade para todas as horas de solidão. "Pior que doença".

No cômodo, sentado e meio deitado no sofá, Ernando olhava a marca deixada na parede pela ausência do sabre. “Ganhei do meu pai, que era oficial naval”. “Sendo bem prático, gosto do sabre, não gosto de meu pai”. Ernando tinha poucas fotos de família e nenhuma com o pai.

Tornando a pensar na vadia, deu o grito de libertação que irrompe no peito espezinhado e pavimentado de todo homem mais ou menos são depois de um rompimento. “Eu vou avacalhar tudo nesse apartamento. Vou criar ratazanas nos lençóis, vou alimentar baratas na louça. Que se foda, eu vou virar essa merda toda de pernas pro ar. Não vou deixar a janela aberta, aqui não nasce mais sol. Que se foda. Vai brotar mofo na penumbra estéril daquele quarto. Meu desodorante será o formol, meu sorriso decadência.  Eu quero anarquia, desordem, odor”. Ela era tarada por organização. “E eu estou ficando por liberdade”.

Já razoavelmente embrutecido pelo uísque, desconfiava que lá fora algo muito bonito se desenrolava para quem tivesse a coragem de levantar e ir até a varanda admirar o sol deitar-se. "Aquele ar vermelho em torno da estrela é um espetáculo muito desvalorizado, porque comum demais e gratuito". O ar vermelho lhe comovia a dar uma olhada, porque não o entendia. Sabia que qualquer bagatela ótica explicaria o fenômeno, mas já via-se velho demais para saciar essas curiosidades. Dava-se por satisfeito em admirar o evento sempre que podia.

O que não acontecerá hoje, porque ela lhe estragou o dia. "Mais que isso, essa vadia conseguiu o que todas tentaram, ela me estragou a vida". Ela tinha o costume de ser agressiva demais nas palavras e nos gestos, "mas era fria como um cadáver na cama", e Ernando reputa a esse conjunto de defeitos o desfecho do relacionamento. Na discussão de algum tempo atrás, fora a agressividade dela que selara o destino. Não havia mais tempo, não havia mais jeito de contornar a situação e, muitas vezes, basta uma bem concatenada cadeia de eventos que começa num ataque verbal "você é um canalha, um banana, tenho vergonha de ter um dia te conhecido", passa por um escorregão e uma tentação irrefreável de, por um momento em toda a vida, ver-se na posição de dominante de uma situação de confronto. Alguém poderia dizer que o desfecho da situação toda, com o lapso que trouxe a frase de efeito muito tempo depois, é a sina do argumentador de meia pataca e afiança a pouca prática que Ernando tem na arte. Ele passou muito tempo escondido atrás da vergonha do nome, que o moldou desde a infância, para aprender a exercitar os músculos da fala e da discussão.

O ar vermelho não reluzia pela sala porque a cidade tinha muitos outros prédios separando o apartamento de Ernando do horizonte, onde o sol se escondia. Ainda assim, por outros mistérios de ótica, algo da luz do dia ainda chegava àquela sala, onde Ernando jazia imóvel, fiel a sua determinada resolução de ficar estirado no sofá da forma que desabara, depois do fim do relacionamento e da discussão. "Que merda vai ser quando me der vontade de mijar". "Vou levantar e as pernas não vão funcionar direito, porque estarão amortecidas". "É culpa daquela vadia". Olhou para o chão.

Ali, empapuçando o tapete que viera como presente da mãe uns anos antes, viu o sangue começar a enrijecer à meia-luz do ocaso daquela quinta-feira. A mancha desdobrava-se como um rio que encontrou seu veio, cortando a superfície desta outra Terra qual adaga separando duas metades de uma maçã. Ou sabre, de onde, minutos antes, tinha brotado este outro Amazonas da cor de vinho, mas que já não tinha força para causar marolas, porque o veio de onde nascia o curso estava imobilizado e trespassado peço aço frio. Sabre que reluzia, agora, às últimas luzes do sol desta quinta, sol que sobranceiro, espiava tudo que acontecia naquela sala de suas excelsas alturas e distâncias que orçam em 150 milhões de quilômetros.

"Mira perfeita", pensou Ernando.

O último

Clint Eastwood, o último macho:



"You going to look awfully silly with this knife sticking out of your ass".

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Mais Reversos

Reversos, o filho das minhas ideias confusas, foi pauta da revista Veja São Paulo. E deu entrevista. Estou ficando acostumado e dentro de breve contratarei assessores para cuidar disso.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Arte da beleza

Eu sempre fui meio obcecado com manifestações artísticas que remetam ao pensamento, à densidade e, sim, à tristeza. Nunca entendi a censura que sempre veio acompanhada de um elogio ao Sigur Rós, uma canção de fossa do Johnny Cash ou um livro de retumbante carga dramática, algo do Bukowski, ou uma daquelas inebriantes sucessões de desastres, pranto e rasgos da mais amarga e esmagadora filosofia que advem da leitura de qualquer um dos romances do Herman Hesse.

O rir, a arte que lhe faz esboçar um sorriso é também muito importante. Mas não é bela. A beleza da arte só é dada a coisas que nos façam pensar, sentir e chorar.

O belo, o bonito, é triste.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Rádio: Eduard Khil - Я очень рад, ведь я, наконец, возвращаюсь домой

A célebre vocalização de "Eu estou feliz porque finalmente estou voltando para casa", em libérrima tradução, levada a cabo por Eduard Khil, em 1976 para a TV soviética. Ele precisou vocalizar a música para não cantar a letra original, que faz uma porção de referências elogiosas aos Estados Unidos. Caso a cantasse, provavelmente, teria sido mandado para a Sibéria.

Descanse em paz, Eduard Khil.

Aforismos - Dor de dente

"Até hoje não houve filósofo que padecesse pacientemente de uma dor de dente".

Shakespeare

Esta é, caros oito leitores, a verdade do universo que temos para hoje.

domingo, 3 de junho de 2012

Poesia é anarquia

Escrevi logo aí abaixo uma gracinha qualquer sobre poesia. A definição, para fazer rir, guarda lá uma certa sensibilidade estética que, no entanto, não vale à pena explicar. O fato é que nesses últimos tempos, de muito verso e pouca poesia, vale sim gastar mais tempo, fosfato, letras e sinapses para dar uma definição mais ajambrada do que é poesia. Ao menos nas minhas contas.

Lembro que nunca fui muito bom com versos e devo salientar, inclusive, que a bem da verdade, hoje, não o sou. E, dada a minha propensão natural à absoluta mediocridade, é bem capaz que nunca o seja. O que acontece é que a poesia é uma forma de expressão, de coagular sentimentos, de transpirar qualquer coisa que caleja a alma. Os requintes estéticos e a qualidade do verso, que no meu caso está muito longe de excelente, são detalhes. Não sei se dá-se o mesmo com todo mundo, mas ao menos no meu caso, fazer poesia é libertar-se.


O fato de que a qualidade dos versos esteja longe dos bons padrões não quer dizer que eu não tenha esmero com eles. Pelo contrário. Há poemas publicados neste blogue que levei meses, mais de um ano, para terminar. E há, no dashboard do blogue, umas duas dezenas de projetos abortados, esperando o carinho de um sujeito que só escreve quando compungido de dor, transpirando paixão, fedendo a derrota, sorrindo abobalhado por uma rima inocente que dê num bom hai-kai.

O que nos leva, aí sim, a uma tamanhuda definição de poesia, essa sim justa com a mais desmerecida das também bastante desmerecidas artes literárias: “os poetas não terminam seus versos, eles os abandonam”. É um caso das frases que invejo. Morro de inveja de uma porção de frases por aí, daria um rim para ter dito “a insustentável leveza do ser”, por exemplo. E também para ter definido poesia, versos e poetas com esse canhoaço de precisão.

Terminar um poema é descarregar-se de um fardo de emoções. É desistir dos versos, reconhecer que por mais que se esprema a criatividade, não pinga nenhuma construção mais bonita, nenhuma metáfora, nenhuma rima.


A frase, de Paulo Valery, veio-me trazida, aí sim, por um brilhante poeta, a quem meus versos escorrem, derretidos, de tanta vergonha por sua inerente mediocridade. O poeta é Junior Bellé, caro amigo, que meio sem querer me fez poeta de meia pataca e concorreu sobremaneira para que meus disparates rimados virassem, vejam só, música. Junior sempre foi poeta, e dos bons, sempre teve facilidade com rimas e alusões a tudo que nos cerca e é questão de tempo para que seu esmagador talento com as palavras ganhe todo os panegíricos que merece.


Comecei esse texto com a intenção de definir poesia na minha vida. De certa maneira o fiz, poesia é uma forma de coagular sentimentos que escorrem feito lava do coração da gente. É um jeito de libertar-se. Poesia é uma forma de revolução, porque preconiza a reinvenção, a criação, a mutação. A anarquia estética com palavras e sentidos. À poesia é dada a licença de não fazer sentido e, ainda assim, nos embasbacar quando revela a compreensão de um sentimento simples, de uma situação corriqueira ou de decepções pueris. Não há má poesia, há maus momentos para certas poesias.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Aforismos - Poesia

Poesia: qualquer porção de palavras que não alcancem direito as margens.

Rádio: Red Army Choir - Kalinka

Kalinka, Kalinka, Kalinka, Kalinka moya!

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Rádio: Devendra Banhart - Baby

You crack me up:

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Reversos

Eu já vos aborreci com a história de que virei compositor dias atrás, quando um teaser foi veiculado com um dos meus poemas musicados, naquela oportunidade foi usado "Como estragar um poema promissor nº 1", musicado por FélixBravo.

As patacoadas que me coube dizer sobre o Reversos estão neste post original, onde explico que João Félix e Bernardo Bravo consertaram o poema que estraguei. A eles, agora, soma-se o talento de João Sobral, Beto Só e Jardim das Horas. A emoção é a mesma, até maior, mas iludem-se os caros oito leitores se acham que vou escrever tudo, novamente. É muito talento num só parágrafo e que, por acaso desse destino louco, acabou dando vida e se apropriando de maneira irresistível dos meus poemas lamentáveis.

E, hoje, volto ao assunto porque, enfim, foi divulgado todo o disco. Com todas as poesias, Lado A e Lado B. Eu sou autor de quatro delas, mas não canso de ouvir todo o disco. Há muita coisa bonita, muita criatividade, talento e boa vontade unidas neste projeto.
Fica o convite, ouça aqui.

terça-feira, 29 de maio de 2012

O maior piloto de Fórmula 1 que você nunca viu

O Gran Turismo 5 resolveu chamar-me, por bem, "Cronômetro Humano".

Fica mais uma vez confirmado que a Fórmula 1 perdeu um grande campeão.

Para quem não conhece, isso é GT 5:

Aforismos - Nostalgias

"Se fosse bom não teria sido uma merda".

Sábias palavras de um não menos sábio amigo, que não satisfeito em lograr esse êxito na arte de aforismos, onde figuram em relevo figuras da dimensão de Oscar Wilde, dentre outros menos votados, ainda rematou: "ainda vou ver essa frase no Facebook sendo creditada ao Gandhi".

Sábio.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

"Um Dia de Cão" é a quase obra-prima de Sidney Lumet

Sidney Lumet é o tipo de diretor que dá uma cara bem marcante para cada filme seu. Apesar de parecer o contrário, não é algo assim tão comum. Há centenas de diretores de bons filmes que são irreconhecíveis a cada trabalho. Mas há outros que parecem assinar, de maneira intangível, cada trabalho de modo que você os reconheça sem precisar consultar o IMDB.

E com isso não estou me referindo a diretores que transformam estilos em clichês. Exemplo: Quentin Tarantino não "assina" cada filme seu com esse toque especial, ele simplesmente inunda as cenas de sangue e exagera em tudo. Isso é um clichê nos filmes dele e esvazia qualquer análise.

Trailer:


Falo de toques mais suaves, mais especiais. É o caso de "Um Dia de Cão" ("Dog Day Afternoon", de 1975). É um dos filmes mais interessantes dos anos 1970. A história gira em torno de um sujeito, que submetido por pressões diversas, decide roubar um banco. Tudo dá errado, o roubo vira uma tragédia em potencial, o personagem se mostra cada vez mais complexo e o roubo acaba se transformando em um circo da mídia.

Mídia que é, talvez, uma das grandes assinaturas de Lumet neste filme. Outro longa do diretor, infelizmente morto em 2011, é "Network", que é de 1976 e, entretanto, é tão ou mais atual que qualquer seminário de crítica de mídia contemporâneo. A temática e a sensibilidade de se observar as reações das massas e comportamento da mídia são suaves em "Um Dia de Cão" (e centrais em "Network"), mas, ainda assim, ecoam enormemente no filme de um ano depois. Aliás, "Um Dia de Cão" levou Oscar de melhor roteiro original e "Network" chutou o balde com roteiro original, melhor ator, atriz, e atriz coadjuvante.

"Um Dia de Cão" é a quase obra-prima do diretor não por ficar devendo algo, por pecar em algum ponto importante. O filme é a quase obra-prima de Lumet simplesmente porque ele fez filmes ainda melhores, como "Network" - o que não desmerece, em absoluto, "Um Dia de Cão", pelo contrário, apenas demonstra o alto nível e o talento esmagadores de Sidney Lumet em sua obra.

Talvez a grande semelhança entre o filme de 1975 e o de 1976 seja a capacidade de Lumet colocar os personagens em perspectiva e revelar, mesmo naqueles que fazem participações bem curtas, algo de especial, de humano, de crível. Algo que faz você olhar para aquela figura e presumi-la no mundo real, porque você enxerga nela profundidade. Via de regra, espera-se esse trabalho dos atores, mas o que mostra o dedo do diretor nestes dois filmes é a capacidade de conseguir essa expressão de vida em atores menos talentosos e que sumiram com o tempo. É o caso do gerente do banco, solícito, gentil, que deixa escapar que torce pelos bandidos e não se importa tanto com o banco. Mas ainda assim, em dada altura, amaldiçoa o momento em que os bandidos atrapalhados escolheram seu banco.

Talento não é problema para o ator incumbido do personagem principal, concedido a um jovem, e já brilhante, Al Pacino. Em duas horas de filme, nos convencemos a cada instante e intervenção de Sonny, personagem de Al Pacino, que ele é uma vítima das circunstâncias e não um mal sujeito. Torcemos por ele e esperamos que tudo dê certo porque Sonny é como cada um de nós, que um dia bateu a mão na mesa e resolveu sair por aí cortando gargantas e hasteando a bandeira negra. Não é um defeito. Ele é a insurreição que sufocamos a cada dia ruim de trabalho, escrotice do seu superior, má notícia do seu time de futebol, pressões injustas de quem você ama. Sonny é eu e você, só que é eu e você indo onde a gente, normalmente, não ousa ir.

Desde que vi "Um Dia de Cão" pela primeira vez, sempre fiz uma referência mental com "Dia de Fúria", com Michael Douglas. A referência não é tanto pelos filmes, mas pela personalidade sufocada dos personagens principais. Se você tiver curiosidade ver "Um Dia de Cão" fará mais ou menos o mesmo raciocínio e se supreenderá torcendo pelo bandido.

Torcemos por Sonny no filme porque somos humanos. Torcer por um assassino, ou neste caso, um assassino em potencial não deve ser motivo de vergonha, porque não torcemos para ele matar pessoas, torcemos para que ele salve seu pescoço e dos reféns. Torcer por um bandido em um filme, nessas premissas, é algo que não deve abominar o humano em você, mas sim reforçá-lo.

"Um Dia de Cão" é basicamente uma grande paródia que revela um prisma para colocar a vida em perspectiva. A questão das pressões sufocadas que levam um homem comum a roubar um banco, ou neste caso, tentar. O comportamento inconsequente e burro das multidões, o despreparo policial, o vazio da mídia.

O longa coloca todas essas coisas em foco e permite até mesmo rir do vazio em que estas questões caem rotineiramente. Caso da idiotia policial, que chega ao ponto de alimentar bandidos e reféns dentro do banco, em lugar de traçar uma estratégia para encerrar o episódio e resgatar os reféns para a segurança.

Trechos memoráveis:


A própria cordialidade dos bandidos em relação a seus reféns, num contraste com o que se espera de um assalto mal sucedido e com o próprio comportamento da polícia. Boa parte do filme usa essas duas tangentes para construir a impressão de que, mais do que ineficiente, a postura da polícia é inútil, porque os reféns não tem motivo para querer sair dali.

O delicioso roteiro de absurdos de "Um Dia de Cão" guarda, ainda, uma interessante surpresa. O ângulo diferente, que pega o espectador de surpresa: trata-se da esposa de Sonny. Em dada altura, ele exige que a busquem, porque precisa se entender com ela, explicar porque resolveu roubar o banco e tentar a reconciliação para que, na hipótese de sua fuga negociada funcionar, ela escolha seguir em sua companhia.

Tudo muito simples até que a esposa surge. Ela é ele. A esposa, amada de Sonny e motivo primeiro para o assalto, é Leon. Um homem "preso num corpo de mulher", como diz, e que precisava do dinheiro para a cirurgia de mudança de sexo. É incrível como o filme, já inteligente, fica espesso, denso, cheio de mensagens e ângulos para se observar.

Um deles é a reação da multidão que acompanha o desenrolar do episódio. Antes, ela era favorável a Sonny e sua maneira de provocar os policiais, porque isso a divertia. Depois que descobre que Sonny é bissexual - estamos em 1975 e, ainda assim, as coisas não mudaram tanto de lá para cá - ela passa a se comportar de maneira refratária em relação ao personagem. Toda vez que Sonny sai do banco para negociar ou revistar algum policial, zombarias e gritos colorem as cenas, dando aquela marca de "humanidade", de coisa real.

Cabe também registro do ótimo trabalho de Chris Sarandon, que estreou nesse filme com a bucha de viver um transexual em 1975. Seu personagem, Leon, é feminino sem ser caricato, algo raro para a época.

"Um Dia de Cão" é um filme genuinamente brilhante de um sujeito que, um ano depois, ainda emplacou "Network", nas minhas contas um dos maiores filmes do século passado. E o mais fasciante dessa história de absurdo, de exagero, de drama e comédia, esse rascunho das duas faces da vida, dos tons de cinza que pintam a nossa moral é que tudo aconteceu de verdade, em 1972, no Brooklin, em Nova Iorque.

É um filme que merece ser degustado porque desnuda um homem que ama outro homem, um homem que explode pela pressão, que vira alvo da mídia e ganha 15 minutos de fama, um homem que desafia a inépcia das autoridades, que joga com a massa. "Um Dia de Cão" fala sobre nós e nosso contexto de maneira sublime e precisa, sem caricaturas e sem o didatismo bobo e reduntande, que resume 90% dos filmes atuais.

Dane-se o clichê, mas não por acaso, diz-se que o "maior espetáculo para o homem ainda é o próprio homem". Assista! São duas horas do humano, demasiado humano.