Cantam pra mim
em uníssono,
todas as horas
do nosso fim.
terça-feira, 27 de dezembro de 2016
quinta-feira, 22 de dezembro de 2016
Verdes mares
Mas a saudade que mais dói
Não é nenhuma dessas
Dos tempos passados e futuros
Não
A que dói é outra
É a ausência dos verdes mares dos teus olhos nos meus
As tuas formas nas minhas mãos
O seu calor no meu beijo
A doçura da sua voz na minha manhã
O toque cálido das suas mãos nas minhas.
Quisera eu navegar pra sempre,
surpreendido e sempre desnorteado,
sem compasso, mapa e rumo
nos verdes mares do teu olhar.
E viver no tempo sem tempo
de coração em vela desfraldada
onde as tempestades
dessa nossa sina magoada
e as saudades do passado
já não podem me alcançar.
quarta-feira, 21 de dezembro de 2016
Morreu de Benedetti
Reuniram-se todos à volta do féretro
Lá de dentro, encolhido no meio dos lírios
dos panos e das hortênsias
eu retornei os olhares
De um jeito bobo, meio atrapalhado
e sorrindo
como quem quer dizer que foi sem querer
pedia desculpas franzindo a rigidez da morte
Os de fora, sem me notar
Comentavam
De que veio ele a falecer?
Tiro ou facada?
Foi gripe forte?
Um acidente? Morte matada?
Pois não soubes?
Não
Morreu de tanto ler Benedetti.
terça-feira, 20 de dezembro de 2016
Praias
Te deixo de frente ao mar
Porque se vou embora
Que seja pelas costas
Não quero ver o seu olhar
E me perder nas lágrimas
E nas dores dos remorsos
Que vão tentar me fazer ficar
Levo comigo essas minhas melancolias
essa vida de atrasos e demora
Meus poemas enferrujados,
feito essas lágrimas agridoces
que temperam os meus dias
enquanto eu vou-me embora.
Mas eu me desengano logo
Porque você vai comigo sempre
nos meus rumos desarranjados
é você que me guia e me acompanha
é como tentar ir embora de si mesmo:
eu não posso me abandonar
assim como não posso expurgar a minha sombra
e por isso nem te deixar
de frente, olhando para o mar.
as palavras não foram todas ditas
mas eu as atravesso pela garganta
sinto suas mágoas nas minhas veias
e vou andando, olhando para trás
pé ante pé, pelas areias.
Fico, em vão, te esperando
como se você cansasse do barulho do mar
e fosse olhar para trás
e voltar logo
e é na hora mais doce dessa ilusão
que eu vejo que quando o mar te alcança
sou eu que me afogo.
