domingo, 30 de abril de 2017

Epifania

Naquele dia da cachoeira, eu tive uma epifania. Eu sempre ouvi de você a sua vontade por uma vida mais simples, o desejo de viver longe da megalópole, de construir uma família num lugar pacato e mais saudável. Mas, às vezes, eu me perguntava até onde essa vontade iria, até que ponto a cosmopolita ia abrir mão do shopping, do mercado que tem tudo, do estádio, do acesso a qualquer coisa que a cidade grande proporciona. Não julgue mal, não estou dizendo que fazia pouco dos seus sonhos, não é isso. Não era uma questão de não acreditar em você, era só um ceticismo natural de desconfiar da sua capacidade de renegar todas as vantagens da cidade grande na hora decisiva de uma escolha para mudar de vida. Porque eu, que cresci em cidadezinha, sei que é legal ter cinema, shopping, restaurantes de todos os tipos, mercados para comprar coisas diferentes de vez em quando.

Aí, naquele dia, fomos até a cachoeira com seus amigos e, na volta, nós paramos para almoçar naquele lugarzinho totalmente isolado no meio da estrada de terra, meio escondido entre as árvores. A simplicidade do lugar me pôs, imediatamente, em alerta: eu fiquei completamente sintonizado nas suas reações.

Eu conheço uma lista enorme de hipongas que fariam cara de nojinho e nunca, jamais, comeriam nada ali. Naquele momento, eu fiquei atento para avaliar o seu comportamento. E não apenas você comeu com naturalidade (a comida era ótima, o feijão cheio de caldo, tudo bem temperado, a salada fresquinha e batata frita inesquecível), como realmente curtiu o momento, a comida, o lugar, o papo, o dia. Somando isso com o restante da viagem, com a alegria que eu sentia naqueles dias, com a felicidade que a sua companhia me proporcionava, foi como se algo estourasse dentro de mim. A sensação física era de calor, como se eu tivesse tomado por algo indizível que me aquecia e me atraía até você.

Eu demorei para entender o que aconteceu comigo naquele instante e nos dias seguintes. Demorei mesmo. Eu demorei porque eu nunca, nunca, nunca, nunca tinha vivido isso. O que eu senti naquele momento, e na volta do passeio foi, pela primeira vez na minha vida, um tipo de paixão. Mas a melhor forma de paixão que existe, que é essa que brota depois que você já ama alguém, porque aí é mais que um sentimento, é uma força da natureza: é todo aquele calor gostoso de gostar de alguém, de sentir falta, de ficar pensando e pensando nessa pessoa, mas temperado com o que você já sente, com o amor que já possui, com o carinho que já tem, com a lucidez que já existe dos defeitos e potenciais. Essa foi a minha epifania, esse amor de verdade, porque o que eu sentia antes, pelas outras que vieram, sempre me pareceu incompleto, sempre soou como se faltasse algo, como se não fosse ideal. Foi algo insano, sim, porque, depois de te conhecer por tanto tempo, depois de tudo, eu me apaixonei novamente por você, eu fui conquistado, mas tudo isso já sentindo amor e eu me senti, sim, a pessoa mais feliz, importante e resolvida da face da Terra. Foi como quando a gente gosta da primeira pessoa na nossa vida e não enxerga mais nada na nossa cara, só que com o detalhe de que eu já te conhecia, já sentia amor, e lendo agora eu vejo que nada disso faz sentido, que você vai rir da minha cara, que não importa mais, mas é verdade, tudo verdade, e que bom poder dizer isso, ainda que à toa, para alguém. Foi como uma certeza, como se eu tivesse ficado totalmente convencido de que estamos condenados um ao outro.

De repente, tudo se encaixava, as promessas deixavam de parecer só promessas e a vida toda se desenrolava diante dos meus olhos.

O que eu senti foi tão forte e íntimo e eu não tive tempo para processar e, como nós dois não somos bons de se abrir e conversar sobre sentimentos com o outro (o que, se você parar para pensar, é um potencial incrível), acabei não sabendo extravasar, não soube como expressar o que eu sentia e que não cabia dentro de mim, eu não tive o sangue frio de dizer, “olha só, aconteceu isso comigo hoje! O que que eu faço? Eu quero te esmagar num abraço!”. E antes que você corra a me rotular de imaturo, você precisa levar em consideração o quanto eu considero os momentos que eu passava com você preciosos porque a nossa realidade era de duas pessoas distantes fisicamente, então eu precisava aproveitar a sua companhia como se não houvesse amanhã e aí não só eu estou sempre interessado no seu corpo como, nesse momento em específico da viagem, eu precisava demonstrar e dar vazão às manifestações físicas do meu afeto por você o tempo todo. Nessa onda de serotonina, eu passei a olhar para você de outra forma, eu não via mais você, a gostosa, a interessante, a que é boa de conversar, que se interessa por tudo, que se faz de durona, mas é delicada, que é calma e sossego, que quer tudo, mas nunca impõe, que é essa incógnita, esse mistério a resolver, a que me sufoca, que cozinha tão bem, que é a melhor companhia de viagem que eu conheci, que me motiva, que rouba minha atenção, que vive nos livros que eu leio, que não sai da cabeça, que me fez gostar de cães, a que eu queria para mãe dos meus filhos, que me fez conhecer melhor o mundo e a mim mesmo, que me curou da depressão. Não. O que eu passei a ver, dali em diante, foi a mulher que eu amo, com quem todos os planos – não mais sonhos – são possíveis porque ela vale a pena, com ela dá pra caminhar, dá pra confiar nessa pessoa, dá para ver ela como constante nessa equação da vida, tão cheia de números negativos, de variáveis. A pessoa com quem eu sei que eu posso ter coragem de contar meus segredos que ninguém mais sabe, a pessoa com quem eu quero contar até o fim da vida. Naquele dia, ao se mostrar tão você, normal e feliz, sendo simples, naquele lugar simples, sendo plena e completa, você redefiniu os meus paradigmas todos porque você rompeu todas as barreiras que eu ainda tinha. Você me reconquistou, você colocou o meu coração no bolso, você me tirou o chão e você me confrontou com a verdade de que quem constrói o nosso destino somos nós, então toca a por mãos à obra.

Como eu te amei naqueles dias, eu te amei de tremer as pernas.

Eu precisava te fazer carinho, tocar em você, porque é a única forma imediata que eu conheço de expressar afeto, de te mostrar, “hey, olha só, estou estourando de paixão e amor por você, sinta aqui na palma da minha mão, veja o quanto eu te quero, o quanto eu amo você”. Se nós dois não tivéssemos construído de forma inocente essa ilusão de que nos conhecemos tão bem, eu saberia que você não gostaria, ou você teria a porta aberta para dizer “o que foi? Por que você está assim?”. Mas nós não nos conhecemos bem, tínhamos problemas de intimidade e diálogo e isso foi porta de entrada para um monte de problemas.

Eu não quero falar no passado porque aí o texto ficaria longo, mas queria falar do futuro e do presente, queria falar desse incomodo de não entender, de se preparar para tudo e para nada. Queria, mesmo, entender. Queria me explicar, queria alcançar, queria, queria e queria.

Poderia lhe dizer que as mudanças que fiz são sólidas, que eu tenho planos, que tudo dá pé, que de mãos dadas, a gente fecha os olhos e pula nesse abismo de deliciosas aventuras e incertezas que é a vida, convictos de que caímos no macio. Que eu transfiro a faculdade para o IF daí, que a gente aluga uma casa aqui, que a gente faz, a gente se abre, a gente se entrega, a gente resolve porque agora dá, porque agora é, porque agora precisa, porque o tempo é fugaz, porque esperar não é saber, porque te quero, porque te encanto com meus planos e os uno aos seus, porque é você, só pode ser você, porque eu te amo, amo ainda de me tremerem as pernas, porque não te esqueço, porque te perdoo, porque te entendo.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

A primeira a gente nunca esquece

Há um prazer esquecido dessa coisa de morar no mesmo lugar por muitos anos, em especial aquele em que você cresceu: a cada esquina, o passado anda à espreita. É uma vantagem que, nas metrópoles, tende a acabar diluída, já que os encontros fortuitos com os vestígios do seu passado ficam restritos aos lugares, já que as pessoas se dispersam nas grandes conurbações, vão embora, ou simplesmente moravam longe o suficiente de você desde sempre para que tropeçar nelas se torne uma improbabilidade cósmica irredutível. Na cidade pequena, nunca se sabe, mas de repente, você esbarra e reencontra a primeira garota que você beijou anos e anos depois ou, então, a primeira professora. Hoje, no mercado, eu me encontrei com a Professora Cristina. A mulher que foi a “tia” do primeiro e segundo ano do primário, na portentosa Escola Estadual Nossa Senhora das Graças.

Eu nunca esqueci da Professora Cristina porque, por ter sido de fato a primeira (na minha época, a pré-escola não era obrigatória, razão pela qual não tive outra professora antes) ela construiu na minha cabeça os contornos do que devia ser uma professora, ou professor. Isso pode parecer piegas, e, acreditem, eu sei ser piegas, mas essas impressões são verdadeiras e indeléveis, sobretudo em quem aprendeu a ter tamanho carinho pela palavra escrita: se eu hoje escrevo, se eu me apaixono por personagens, por escritores, se me perco em histórias, se ensaio as minhas, se faço versos, se me entendo com a ciência, se aprendo marcenaria em um novo curso, se tenho esse, e outros blogs, enfim, se interajo com as palavras da forma que for, e com a paixão que normalmente devoto ao que eu aprecio, devo tudo à Professora Cristina.

E aí me recordo que, pouco tempo antes de morrer, prestes a lançar um livro, meu pai resolveu procurar o cidadão que tinha sido o seu primeiro professor para dedicar-lhe a obra. Estava vivo o homem, bem velhinho e, pelo que lembro, chorou de emoção e gratidão pelo gesto. Corre nas veias o carinho pelos primeiros mestres, portanto.

Eu gostaria de ter organizado melhor essas palavras para tê-las dito todas à ela no momento em que a encontrei escolhendo pacotes de macarrão. Gostaria de ter ido além da minha bem honesta demonstração de surpresa por ela lembrar de mim também, que não é pouco prodígio, a mulher tem décadas lecionando, não tem a menor obrigação de lembrar de um menininho que, em 1991, tinha seis anos e não sabia ler e escrever e, hoje, veja só, é esse sujeito barbado e apressado, vive do que escreve e escreve para viver. A obrigação de lembrar dela, portanto, é toda minha. Mas não nego que senti um carinho gentil em vê-la lembrando do meu nome e falando do meu sorriso, que eu sorria muito, que eu era quietinho, interessado, carinhoso e cheio de perguntas. E, em geral, mantenho todas essas qualidades ainda comigo e não tenho a menor intenção de perdê-las.

Agora, ao escrever, me sinto decepcionado por não ter dito um obrigado, ou ter sabido como explicar que ela é mesmo especial e que eu não esqueço, mesmo. Ficamos apenas nas platitudes do que tenho feito, de como vai meu irmão, também foi aluno dela, de como ela vai, de, poxa vida, como assim, não se aposentou ainda? Ah, mas pra falar a verdade, que bom que não, que bom porque quem sai ganhando são os alunos. Ah, que engraçado, eu lembro de ter que olhar para cima para falar com você, mas agora eu olho para baixo, a vida não é engraçada?

Cristina tem uns olhos azuis clarinhos, clarinhos, mais que os da minha mãe, e nunca esqueci aquele olhar e a voz dela na sala. O método para ensinar o alfabeto, explicando como juntar as letras para descobrir o som que elas fazem, as primeiras continhas. É tudo meio esmaecido nas memórias que eu tenho daquele tempo, e que pena, que pena mesmo, que não tenho alguma passagem mais marcante, uma historinha com começo, meio e fim para contar da professora Cristina ,porque se tem uma pessoa do meu passado florido que merece protagonizar boas histórias e lembranças, é a Professora Cristina.

Ou não. Porque a ciência já provou que, toda vez que você busca uma memória na mente, seu cérebro não recorda de nada, ele reconstrói momentos e sensações todas as vezes, mudando um pouco ali, um pouco aqui e, no final, com a passagem de anos e anos lembrando, você acaba com memórias falsas, plantadas por você mesmo, sobre o que passou. Você não passa de um iludido, ou de uma iludida, que crê cegamente em mentiras que você mesmo construiu sem perceber.

E aí me conformo porque há beleza na sabedoria dessas e de outras coisas, há paz para se extrair dessa lição e toma-la do ângulo que importa. Me sinto aliviado em notar que a Professora Cristina vai comigo no coração, e sem historinhas embrenhadas nos trópicos dessa selva de mentiras, racionalizações, bons e maus momentos que são as minhas memórias, não há nada sobre ela para acabar se estragando à luz das mentiras que a gente mesmo constrói sem querer. Professora Cristina vai viver eternamente em meio ao carinho, ao apreço, ao respeito e a enorme gratidão que eu sinto por ela ter sido a minha primeira professora.

sábado, 15 de abril de 2017

O ano da virada

O processo  de crescimento, sobretudo no caso masculino, é permeado por letargia, golpes do destino e a voz rouca de referenciais externos, que podem ser bem bizarros. Eu lembro de ter lido, e já vão alguns anos, uma frase de Nick Hornby em um de seus livros e que dizia algo no sentindo de que passamos a vida toda achando que crescer e amadurecer são processos automáticos e inevitáveis conforme o tempo passa. Um leva ao outro e você não tem poder nenhum para detê-los e controlá-los.

Aí Hornby conclui que, agora ele sabe, o processo está longe de ser assim porque, na verdade, o ato de amadurecer, de se transformar diante das situações da vida, tem mais a ver com escolhas, posturas e, sobretudo, situações. Crises diversas apresentam situações únicas para esse processo de crescimento pessoal e, por infrequentes na nossa vida, cabe a cada um de nós escolhermos se aproveitamos as aberturas do destino, ou não. Tenho impressão que a máxima se sustenta para boa parte da humanidade, embora o processo seja menos tumultuado entre as mulheres, que amadurecem antes e de forma mais saudável, o que faz de boa parte delas exímias mestras na arte da manipulação e da mágica da transferência de culpa. Descontadas, claro, as raras exceções de praxe.



"I used to believe, although I don't now, that growing and growing up are analogous, that both are inevitable and uncontrollable processes. Now it seems to me that growing up is governed by the will, that one can choose to become an adult, but only at given moments. These moments come along fairly infrequently-- during crises in relationships, for example, or when one has been given the chance to start afresh somewhere-- and one can ignore them or seize them".


Talvez eu discorde apenas do "tornar-se um adulto". Acredito que crescemos e evoluímos, de uma forma ou de outra, sempre em direção à pessoa que desejamos nos tornar, seja ela quem for, seja ela o somatório de uma porção de qualidades e potenciais, seja ela o resto de uma subtração orquestrada pelas circunstâncias da vida, que acabam nos tolhendo de algumas possibilidades, de algumas fortunas. O termo adulto, acho, acaba dando um contorno determinista a algo que é subjetivo: o perfil acabado de uma pessoa que se constrói ao longo do tempo, à luz das dificuldades da vida, fazendo as escolhas que tem de fazer para seguir em frente, mesmo durante as crises mais duras.

Crise, aliás, se não me falham os poucos conhecimentos etimológicos que eu nunca tive, tem origem na palavra grega para oportunidade. Parece bobajada de auto-ajuda, mas atravessar as portas que você pode abrir, ainda que a fórceps, em tempos de crise tende a render frutos: assim que passa o turbilhão de problemas e emoções à flor da pele, o tamanho dos dramas diminui aos seus olhos, enquanto crescem as suas perspectivas e a sua resiliência.

Há um outro caráter interessante sobre o processo de amadurecimento, ao menos na metade masculina da espécie humana, e que diz respeito aos referenciais externos: uma figura paterna, um ídolo, um livro, uma frase do Hornby que volta à memória, um amigo, um estranho, um arrazoado de Internet que mostra, na ponta do lápis, o quanto o tempo de vida que temos é escasso para dar conta dos nossos projetos, prazeres e para dividir com quem amamos, enfim, qualquer um ou algo que apareça com argumentos para colocar uma situação sobre um ângulo que você nunca explorou - porque provavelmente não sabia que ele estava lá - pode ter o mesmo efeito que você experimentaria na esteira de uma catástrofe pessoal. A partir do momento em que você enxerga a mensagem desse referencial, e se coloca nessa posição nova diante da vida, se dispõe a mudanças dramáticas de comportamento e se coloca nessa postura inflexível de quem vai chutar o balde. E é sempre bom chutar o balde.

Mas, no geral, as pessoas tendem mesmo a amadurecer na porrada, já que essa coisa do referencial externo depende de quanto você está disposto a ouvir outras pessoas, a abrir suas perspectivas. No meu caso, por exemplo, embora tenha colhido por aí a injusta fama de imaturo, as catarses foram todas na esteira de eventos decisivos nesse processo de construção da minha personalidade, todos relacionados com situações, e não referências: morte de meu pai muito cedo, desastre familiar e falhas e decepções amorosas e profissionais para as quais eu não estava preparado me fizeram muito melhor do que uma análise superficial tende a mostrar - tragédias e dores colossais não me abalam tanto: eu me compadeço do avião que cai com todo um time de futebol por pura negligência técnica, mas não posso dizer que fico de coração partido porque eu sei que perdas e mortes doem, e doem diferente para cada pessoa, para cada família e que, a seu tempo, todos teremos nossa vez com esse tipo de dor; uns antes, outros depois. O grande mal da morte é que ela é banal e não há espetáculo que mude essa realidade para quem a viu tão cedo e de jeitos tão marcantes, como foi o meu caso. Aprendi também a não esperar muito do amor e a desconfiar de quaisquer sentimentos que me fizessem enxergar o mundo cor-de-rosa - não porque os sentimentos sejam ruins em si, mas porque a realidade das coisas é sempre em tons de cinza - e ainda tenho comigo essa lição de forma eminentemente positiva.

Mas, atualmente, estou num curso novo desse processo de engrandecimento, ainda bem que ninguém precisou morrer para isso, que veio de uma mistura de porrada e referenciais, tudo num sincronismo bastante interessante e que me recoloca num caminho que eu havia deixado de trilhar já há alguns anos: o da busca.

Recentemente, por exemplo, experimentei inclusive o processo inverso ao das tragédias: felicidade como combustível para essa eterna construção do homem do amanhã. Ao me permitir amar, no ano passado, mudei algumas coisas e abandonei uma porção de lastro no processo (heranças malditas e não tão risonhas dos amores de antanho), tornando-me algo muito próximo daquilo que eu quero e preciso ser no momento: um tipo de trebuchet de razão, um aríete de decisão, uma alabarda de força e coragem, porque a vida está por aí esperando que nós a encaremos a 100%, e esperar não é saber. Nem sonhar: por anos, achei que sonhos eram inocentes e inofensivos - e, em geral, eles são - mas essas quimeras, se não controladas no reino dos sonhos, permeiam a realidade e nos colocam numa posição catatônica diante dos desafios e da exigências da vida. Você para de se arriscar, se confunde com o que é honesto esperar da realidade e deixa de buscar seus verdadeiros objetivos. Sonhar é importante, mas, como tudo na vida, precisa ser feito com parcimônia. O ponto é saber separar as coisas, sonhos de metas, e correr atrás das últimas, sem deixar de ter as primeiras.

Outro elemento no processo que me traz essa nova forma de ver a vida, nessa vontade de vencer, é um referencial externo: um aprofundado artigo de Internet mostra que o tempo de vida que temos restando é exíguo, que temos que aproveitar tudo ao máximo das nossas possibilidades. Especialmente a companhia de quem amamos e os prazeres que nos deixam felizes. Não há tempo a se perder. Essa soma de clareza proporcionada por aceitar meus sentimentos, de se permitir à felicidade, de buscar ajuda para me compreender pela ação de uma psicóloga, de me encontrar com a conta fria e indiscutível da escassez do tempo que me sobra e às injustiças gerais do fim de um relacionamento são as molas que me empurraram para esse novo estado de consciência, essa perspectiva sobre quem eu sou, sobre o que eu quero e o que eu preciso fazer.

Os prognósticos são bons, a continuar galgando os degraus dessa curva ascendente iniciada por, quem diria, o poder transformador do amor que, agora eu sei, é um tremendo agente galvanizador de mudança para o bem. O ano de 2017, o primeiro do resto da minha vida, me parece, ainda promete bastante. Descobri, um pouco surpreso, que há uma grande paz de espírito a ser encontrada no reexame das suas prioridades, na definição de metas (lição esmagadora desse jovem ano para parar de sonhar e passar a planejar) e na busca por objetivos maiores e realmente dignificantes são a minha inusitada promessa não de ano novo, mas de vida nova. Todos objetivos que enfoquem o que realmente é importante porque não há mais tempo a se perder. Cansei de reclamar, cansei de esperar, cansei de não fazer nada e dizer que nada dá certo. É o fim do derrotismo.

As mudanças são até palpáveis. Auto-estima também entra na conta porque me sinto bem comigo, tenho feito de 50 a 60 quilômetros de caminhada por semana, perdido peso, me exercitado. Eu, basicamente, me sinto o polímata que sempre esperei que seria, quando tinha lá meus 17 anos, e começavam a esbranquiçar os cabelos que nunca antes tinha pintado.

Depois de muitos anos, eu posso dizer que tenho um plano. Tenho ideias, saídas, soluções e estou inclusive preparado para as contingências da vida porque o que o homem põe, o elusivo altíssimo dispõe, a dar-se fé nos antigos ditados. Mudança de área profissional em curso, viagens, trilhas, novos rumos, cidade nova para morar, tudo são infinitas possibilidades, acenando com perspectivas do futuro que me acostumei a esperar sentado nos últimos anos. Foda-se a espera, porque agora eu vou atrás das coisas, das metas, dos objetivos, não dos sonhos.

Amadurece-se em algumas semanas, só por que é ano novo? Não. É um processo de transformação, de conquista, de afirmação, e eu venho subindo esse escada há alguns meses. O que pode acontecer, se você se der conta das coisas que está encarando, das transformações que está alimentando, é essa sensação gostosa de poder, de capacidade de orientar o próprio rumo e de acelerar um processo de crescimento que só tende a potencializar essas coisas boas na vida. Sempre subestimei a capacidade de uma mudança de ano - evento aleatório e sem sentido na grande escala das coisas cósmicas - em propiciar a mudança e abrir portas para o novo e hoje me sinto feliz em reconhecer que estava enganado. Proposições de ano novo nunca me pareceram tão atingíveis e certeiras.

Revigorado, estou decidido a fazer e não mais esperar. Como dizia a canção, "eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar e não posso ficar aí parado".

domingo, 9 de abril de 2017

Saindo da forja

Eu vivi sob a ilusão de que, um belo dia, tendo conhecido a pessoa certa, tudo mais se encaixaria. O amor que você sentisse, e aquele que viesse em retorno, bastaria para que você se entendesse com essa pessoa e para que os dois construíssem o futuro que desejassem ter um com o outro. Aquela velha máxima de que basta amor para que tudo funcione e caminhe me parecia tão real como a paixão enlouquecedora do primeiro amor, aquele que, quando se desmancha pelo motivo que for, faz com que você descubra a relatividade de outra ideia universal nessa coisa do romance e da vida a dois, a de que tudo é eterno só porque você acha que tem que ser. Assim como essa primeira experiência de paixão e amor morreu de morte morrida, a impressão de que amor é tudo que precisa, enfim, não está mais entre nós. Amar é trabalho duro, mas trabalho duro que recompensa e trabalho duro no melhor sentido de trabalho: aquele que engrandece.

"I started out in search of ordinary things..."

Seria muito melhor se todos nós aprendêssemos essas coisas de formas menos dramáticas, com menos ruptura. Mas, talvez, aí as lições fossem menos duradouras e impactantes porque é na forja que se endurecem os metais, ou, nesse caso, a espinha, de sorte que, na próxima tentativa e fracasso, você verga, mas não quebra.

Eu descobri que amor, em si, não resolve nada. Que um relacionamento sadio é uma construção, exige, sim, trabalho. Mas, que se você gosta mesmo da outra pessoa, a coisa deixa de ser trabalho no sentido cansativo e vazio do termo porque se você não encontra prazer na incumbência de conhecer melhor aquela criatura, em passar tempo com ela, em conversar com ela sobre segredos, sobre o que ela fez quando tinha, sei lá, 14 anos, sobre o que ela fez hoje e ontem, enfim, desvendar a fundo seus medos, histórias, traumas, verdades e mentiras, tudo não para destruir a privacidade e o mistério, mas para se tornar íntimo, análogo, um ente desse todo que você escolhe para a sua vida, então há algo tremendamente errado. Eu sempre tive essa vontade, sim, mas nunca encontrei os meios, a abertura, o caminho para explicar que, olha só, você aí, eu preciso te entender melhor, e que você me entenda mesmo, eu preciso conversar com você sem receios, eu preciso da sua intimidade e eu quero você na minha. Que, enfim, eu quero conversar contigo, te desvendar, você deixa? Simples, não? Nunca foi porque, nesse mundo de comunicação à velocidade da luz de forma praticamente gratuita, de tantas e tantas formas de se dizer algo a alguém, o maior problema de comunicação, esse ainda insolúvel, é o de perto, é aquele com os olhos nos olhos.


A esperança é que, no futuro, seja tudo mais fácil porque eu irei às últimas consequências para que essas coisas não mais me estraguem meus amores. De alguma forma boba, eu acreditei que amor em si é a base que permite que essas coisas ocorram de forma natural, num tipo de piloto automático que não existe para nenhuma relação humana; nada é por acaso e nada se mantem aceso e saudável sem esforço, sem entrega, sem essa ciência da importância de se fazer acessível, especialmente nos momentos iniciais de qualquer romance.

"I started telling the story without knowing the end..."

Não que tenha sido sempre tudo culpa minha: todo esse exercício só é bem-sucedido quando é recíproco e, muitas vezes, não é. Precisa de uma entrega quase cega, uma reciprocidade sem filtros, uma generosidade absoluta e uma dedicação definitiva nesse adorável mistério que é aquela pessoa incrível, cheia de qualidade e defeitos, que é quem amamos e, assim como muitos têm dificuldade para perceber essa importância toda no diálogo e na intimidade, outros tantos simplesmente não valorizam essas ideias e não as reconhecem como fundamentais.

Eu aprendi, como sempre da pior maneira (mas que bom que tenha sido assim, porque aí a lição não é esquecida) que o relacionamento estável, duradouro e sem prazo de validade que a maioria de nós almejamos depende, universalmente, de um processo muito transparente e sério de comunicação, de sinergia, de entrega, de batalha diária pela sinceridade e pela intimidade. Que amor sozinho não dá voz ao que você sente, deseja, precisa, quer, não quer, ao que te diminui e engrandece na presença dessa pessoa que, também, está sempre confrontada por esses mesmos lapsos, e outros tantos vácuos, falhas e omissões – especialmente se ela estiver iludida sobre a realidade das coisas e, como você, despreparada para esse tremendo desafio de criar as bases para uma vida inteira com outra pessoa dessa forma meio infantil de querer o amor eterno sem abrir o bico.

Aí, recentemente, acabei descobrindo um filme independente adorável, exclusivo do Netflix, que dá voz a essas percepções. “Blue Jay”, que é o nome do média-metragem (ainda se usa média-metragem?), foi-me revelado porque, ao saber da morte por câncer de Robert Fisher, vocalista e líder do coletivo-banda Willard Grant Conspiracy, fui levado a uma viagem nostálgica pelo cancioneiro de WGC, que, por sua vez, me levou a desencavar “Jim Cain”, canção de Bill Callahan e que encerra “Blue Jay”.

O filme, um singelo e agridoce tratado sobre os descaminhos das pessoas que se amam e se desencontram, passa essa e muitas lições, dos problemas esmagadores da comunicação. Cada caso é um caso, mas me espanta perceber que nos meus, em todos esses voos de galinha que foram meus relacionamentos, os problemas de diálogo, de ambas as partes têm todas as facetas que você quiser encaixar: timidez, receios bobos, fraquezas, inconstâncias, falta de intimidade, meu egoísmo, insegurança, falsidade, manipulação, hipocrisia, falta de amor, racionalizações de quem não sente, rigorosamente, nada por você e por aí vai.


"With the death of the shadow came a lightness of verse..."

Não que isso queira dizer que todas as minhas experiências afetivas teriam se beneficiado unilateralmente de maior entrega e abertura, de diálogo, de mais intimidade. Algumas, simplesmente, não eram mesmo para ser. E, sinceramente, acho que nenhuma delas se sentiria empolgada em embarcar nessa jornada de conhecimento, de intimidade, comigo. Ou, talvez, elas só precisassem dessa diretiva, dessa postura da minha parte para encarar um desafio que talvez desejassem.

Não foi “Blue Jay” que me fez observar esses problemas e eu gostaria, mesmo, de poder dizer que, se tivesse visto “Blue Jay” há um ano, teria corrigido o rumo em muita coisa. Mas, eu não iria: é no calor dissoluto do crisol que você sublima essas descobertas, não vendo filmes, por bonitos que sejam, sobre as coisas que você ignora a respeito de você mesmo. É preciso um nível de sintonia e sincronismo com relação ao cinismo dos amores morridos para ver o filme e dele tirar alguma conclusão capaz de fazer você reavaliar e mudar a sua vida, o que não era o caso há um ano. Entretanto, como toda e qualquer manifestação artística de qualidade, "Blue Jay" é dessas que resumem todas essas impressões, essas sensações e valores de forma a tocar o coração e te motivarem a escrever sobre elas na vaga esperança de que, ao cristalizar em texto essas descobertas, que elas fiquem ainda mais incutidas na alma e que, quem sabe, alguém que leia sem querer isso aqui aprenda uma coisa ou outra para evitar acidentes de percurso - afinal, meu objetivo de vida é espalhar o amor pelo mundo.


"But the darkest of nights, in truth, still dazzles..."

O que eu posso dizer, e aí de coração leve e aberto, é que, agora, eu sei, eu sei. Jazem impressas no coração todas essas impressões sobre o valor da comunicação e o conhecimento íntimo de quais são as suas bases e a vontade, sincera e bastante ciente, de que, se tudo que você precisa para ser feliz é o amor, tudo o que você mais precisa para que ele floresça e viceje ao longo da vida são o diálogo, a curiosidade em relação a quem você gosta e a posição firme e sincera de quem se entrega à intimidade, à abertura, às conversas, a esse delicioso exercício de convidar alguém a te desvendar sem filtros e à tarefa de, judiciosamente, construir uma vida com a colaboração indissolúvel de outra pessoa e que tudo isso dá um trabalho dos diabos - no bom sentido.


sexta-feira, 7 de abril de 2017

Pensamento positivo

Eu sempre desdenhei da ideia de pensamento positivo porque estava em descompasso com a verdade das coisas e de percepção embotada por uma doença. Mas hoje sei valorizar essa capacidade, a capacidade de olhar o lado bom das coisas e de encarar as dificuldades e durezas da vida de uma forma sadia: não é abstrair-se de senti-las pelo que elas são, mas de escolher a forma pela qual você vai permitir que elas impactem no seu dia. E eu aprendi a usar essa coisa de pensar positivo para não deixar que nada me desvie do que eu quero, do que estou fazendo, do que eu sei e preciso.

É um ensinamento bem zen, um dos poucos que absorvi, porque eu não tenho mais idade para ser hippie, quando me interessei por um outro recurso das filosofias orientais. Ao lado da meditação, esse talento de contar até 10, usar empatia e deixar que tudo exploda à sua volta é incrível.

O que eu ainda não aceito muito bem ou, na verdade, desconfio, é da ideia de pensar que tudo tem que dar certo porque sim. O mundo é cruel, a vida é dura, a existência é algo assustadoramente injusto e não há razão nenhuma para otimismo: as guerras continuam, o planeta se degrada, as pessoas se odeiam, crianças morrem de fome, há doenças incuráveis destruindo a vida de tantos e tantos, o poder e o dinheiro não apenas corrompem, como seguem aqueles preceitos físicos das coisas que se aglutinam sobre a água em pequenas porções, inacessíveis a todos. E no fim de tudo, os seus dramas pessoais se acumulam e fazem as grandes mazelas da humanidade parecerem minúsculas em comparação: é conta para pagar, o futuro para resolver e as incógnitas impressas no sangue tépido do coração que ama e pulsa em compasso de espera, sem o sincronismo daquela doce verdade científica da pulsação de dois amantes que entra em harmonia. Não há como escapar da dureza de todas essas coisas e apenas olhar para elas com olhos inocentes e umedecidos esperando que elas darão certo por algum fatalismo reverso é infantilidade.

Mas cada uma das mazelas que se abatem sobre você podem, e devem, ser absorvidas e encaradas de forma positiva no sentido de que é a maneira pela qual você escolhe encará-las que vai lhe dar os melhores subsídios para superar os problemas. Eu tenho escolhido paz e aceitação e qualquer outra resposta que me permita ter equilíbrio diante de humilhação, indiferença, agravos, obtusidade e o que mais aparecer por aí. Eu mato de peito, respiro, sorrio, e de coração leve, resolvo o que eu faço em seguida. Eu tenho me sentido mais leve, mais em paz por conta dessa nova forma de lidar com o mundo. Eu nunca fui assim. Nunca.

O pensamento positivo em relação ao futuro é enganoso e pode levar a amargas decepções. Mas pensar positivo sobre o que te atinge, seja isso algo originário de pessoas, de coisas, do banco, do trabalho, dos colegas, da família, enfim, ajuda, muito, a evitar cair em depressão, a policiar pensamentos negativos, a tristeza que pode aproveitar qualquer brecha para te puxar para aquele niilismo destrutivo e imbecil. E é incrível como uma mente sã, disposta a se libertar, dá esse chão firme para que você se sinta em paz, resiliente e num equilíbrio em que tudo começa a se encaixar: meditação, o cuidado com a forma pela qual você reage, a capacidade de entender como sua mente funciona, os pensamentos ruins esperando na esquina, tudo, fica mais na mão, mais fácil de entender, de seguir. Aí, até as músicas que falam de redenção e vitória dominam a playlist e o videogame, essa deliciosa válvula de escape dos problemas da vida, fica ali, empoeirando, enquanto você faz seus planos, resolve problemas e gasta tempo aprendendo a programar em C# por um curso à distância da Microsoft: algo para que você jamais pensou ter a menor disciplina.

O ano de 2017 está longe da metade. Mas eu já fiz muito por ele, aprendi, parei, reexaminei, busquei ajuda e me proibi de antigos vícios.