quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Cagarolas

Enchi o peito, bradei aos quatro ventos:
que não podia mais, não tinha mais sentimentos.
De fôlego renovado corri feito um acovardado.

E disse comigo mesmo, como fui bobo,
dei-me a ingrata tarefa de imitar

um cordeiro que desafiou um lobo.

Livros

"Da sua boca eu ouviria as notícias mais tristes".

Li hoje. Numa vitrine.

Tempos

E se fosse o tempo uma das minhas veredas
Se fossem de vento os teus caminhos e certezas
eu correria todas as estradas pela quimera
de uma vez mais acabar com nossa espera.

Enquanto o futuro pega na sua mão delicada
corro pelo presente em busca do passado
acerto o passo da memória com o relógio, conservo-a dedicada;
ainda que tênue a cada lapso.

Não é de sonetos que se vive a vida.
Nem de hai-kais que se dá tino a história,
Mas é de palavras que fazemos toda saudade sentida.

Há uma verdade oculta em cada dia cinza.
Que a cor do céu nos alegrou e abraçou,
enquanto fez do mundo um lugar mais ranzinza.

Rádio: Elvis Presley - You've Lost That Lovin' Feelin'

Uma das maiores canções do Rei. Eu vivo boa parte dessa letra. Quem dera viver ela toda:


Dizia Mark Lanegan

"Something has gone badly wrong with me..."

Grande Marquinhos, ele sabe das coisas.

Volta às aulas

Eu sou um sujeito calibrado para reparar em bagatelas e, usualmente, encontrar nelas sentidos transcendentais. Não que eu sobrevalorize experiências e situações corriqueiras. Eu, mais do que muita gente, presto atenção a essas situações. E acabo tecendo comentários e mais comentários sobre elas. Vai que um dia eu tenho uma boa ideia e escrevo um livro? É tudo um treinamento, portanto.

Enfim, de qualquer forma, o que iria escrever aqui é sobre a volta às aulas. Sim. Em setembro, vias de outubro. E de 2009. Minhas volta a uma sala de aula depois de praticamente dois anos de período sabático. E dessa vez foi na pós-graduação. O mundo acadêmico, por certo, não me seduz nenhum pouco - tenho ojeriza aos melindres do mundo acadêmico - mas uma pós-graduação em jornalismo literário, convenho, é de muito interesse.

Mais do que a experiência de voltar às salas de aula, o que me chamou a atenção foi o fato de que gostei. E isso é algo razoavelmente inédito na minha carreira de estudante e aluno relapso. Uma pós para fazer, portanto. Quem diria.

Quem diria.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Mentiras e mais mentiras

Há pessoas que mentem, omitem, deturpam e manipulam a troco de esconder suas fragilidades em lidar com coisas maiores que elas mesmas. Muita gente é assim, é um mecanismo de defesa. O problema acontece quando temos para com essas pessoas uma relação de amizade, de devoção, de admiração. Aí nos tornamos vítimas potenciais dessas situações.

E eis que fui eu vítima recente de uma dessas manipulações. Me comovi com o último texto de José Saramago em seu blogue e quando eu já dava como favas contadas que não mais teria o prazer de ler suas postagens aleatórias, eis que ele retorna.

Isso não se faz, Saramago.

Metrópole de meia pataca

Esqueçam toda a papagaiada midiática que se refere a São Paulo como a cidade que nunca dorme. Cheia de serviços 24 horas, disponíveis aos insones, boêmios e ébrios. Ou simplesmente àqueles que, como este que vos escreve, funcionam melhor pelas madrugadas. Não há nenhuma pizzaria que eu conheça que seja 24 horas. Bares na região da Augusta têm a audácia de fechar. Conheço apenas um supermercado dia e noite, 24 horas mesmo, mas que, embora próximo, coisa de 15 minutos de caminhada, é distante o suficiente para ensejar assaltos e contratempos que tais no percurso.

Metrópole provinciana.

domingo, 27 de setembro de 2009

Hai-kai nº 17 (Assimétrico)

É tudo poesia
Há muito que percebo:
verso me dá azia.

Hai-kai nº 16

Na rua Augusta
Há toda uma vida
que me assusta.

sábado, 26 de setembro de 2009

Rádio: Elvis Presley - Suspicious Minds

Eu não sei como deixei passar uma injustiça dessas. Eu, logo eu, deixar de fora o Rei. Para remediar o agravo, eis aqui uma apresentação do Elvis antes dos anos decrépitos. "Elvis é foda, muito foda. Meu Deus, como ele é foda", disse uma vez um amigo. Pois é:


É como os Power Rangers...


"O foda dessas situações, como você bem sabe, é que elas são como os Power Rangers. Quando você acha que tá tudo bem e dando certo, elas chamam os Megazords e fodem com tudo..."

Eu tenho um amigo impressionante em definições e corolários.

Meu melhor

Eu vou escrever hoje meu melhor poema, meu amor.
Vou esgrimir com os versos, vou me econtrar onde quer que for.
Estarei lá, ao pé de toda a tristeza, rir e enfrentar o pavor.
Vou correr o risco de chorar novamente, só para te chamar de flor.

Vou te dar hoje, meu amor, o meu melhor sorriso.
Entre o som da sua voz, a carícia do seu olhar indeciso
vou encontrar o mérito de tanta teimosia para acariciar teu cabelo liso.
E com as rimas te acalmarei, toda essa angústia, eu amenizo.


Hoje, meu bem, será um dia de alegria e de sentimentos.
Enfim, verdades e sentidos irão curar nossos ferimentos,
e no fim da noite escura, o alvorecer da manhã nos assegura,
há muito porvir e há ainda muito o que sentir.


Eu vou caminhar as novas veredas sem olhar para trás.
Comigo, no peito, vão todos os sonhos do mundo,
na cabeça todas as paixões do tempo de rapaz,
e do teu coração guardo o olhar profundo.


Não vou esquecer seu jeito de manhã serena.
Vou viver por outro dia em que lhe acaricie a cabeça morena.
Vou viver do sonho de um dia ter te amado,
e o pesadelo atroz de que o seu amor tenha acabado.


Este poema, meu bem, é o que venho escrevendo
Escondido, condenado às minhas penas, sigo perdendo
Lembrando nossos dias cinzas, de memórias vou vivendo.
De misérias, desditas e solidões, vou-me esquecendo.


Eu te daria outras Notas, diria outros livros.
Construíria planos, de sonhos viveria as tuas dores,
eu te levaria, Flor, onde não existe amor,
só para que juntos construissemos no vácuo novas flores.


Meu amor, te espero ciente da inutilidade.
Já demos adeus demais, e eu sou jovem demais pra tanta bobagem,
eu queria mesmo era um novo sentido para a felicidade,
queria dar a ela o plural, a verdade da sua imagem.


Não posso ser alegre enquanto meu coração ama.
Não posso deixar de te amar, porque senão meu coração reclama.
Não posso correr porque não há para onde ir.
Não posso ficar porque não há mais motivo para rir.


Eu cansei de colher tristezas dessa nossa desdita.
Meu amor, a vida é feita de escolhas e de alegria.
Amor e covardia não vivem juntos, antes machucam
E nos afastam amargamente, nos deixam viver de incerteza.


Meu coração, estou onde sempre estive, ainda te amo.
Penso em você e esvazio meu coração em cada segundo,
mas não posso mais, sou jovem demais, é tanta tristeza!
E quieto, meu amor, escrevo meu melhor poema,
na convicção fria da dor da sua apatia,
do amargo da minha saudade,
do peso de tanta responsabilidade:
fazer verso para nenhuma lealdade.

Isso é a maior putaria

Também acho, Alborghetti, também acho...



Alborghetti pra presidente, já!

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Vida de clichê

Tudo que direi neste texto, provavelmente, será um clichê. E assim será interpretado. É o destino traçado desse texto ser lido assim. Mas nem por isso trata-se de algo verdadeiro. Clichês são coisas que um dia foram novas, verdadeiras. Acabaram desgastadas e artifícios da preguiça de pensar que ora ou outra manifestamos.

Dia desses eu fui ao mercado. Nada de novo. Na entrada havia uma mulher negra, sentada ao chão, de costas para a parede, perto da porta do mercado. A mulher carregava no colo uma criança de colo. Mais parecia um embrulhinho.

O que me chamou atenção à cena foi que quando eu contava uns dez passos da entrada e, portanto, do foco de atenção do parágrafo anterior, aproximou-se da mulher um sujeito que lhe deu maçãs. Pensei. "É pouco. Maça chega para aplacar a fome do momento, mas e a que vem depois?".

Não tinha no momento dinheiro miúdo comigo. Ao passar pela mulher, antes mesmo de ela ter chance de me pedir, disse que lhe daria algo ao sair. E fui às compras. Pouca coisa, bobagens e comida; nada de especial.

Na fila do caixa observei as pessoas que a ignoravam ao passar. E me dei conta do clichê dessa situação. Cidade grande, gente necessitada, gente sem coração, gente com coração, gente com pressa, com problemas. A vida, ela toda, é um grande e repetitivo clichê.

Na saída, com alguns trocados na mão, dei-os à mulher. E mesmo assim me senti mal. Eu me sinto mal ao dar esmola e ao não dar, tenho um problema não resolvido com algumas parábolas bíblicas e a da esmola é uma delas.. Eu tenho vergonha de que meus problemas sejam tão mesquinhos. Que ao fazer um frila eu arrume, provavelmente, mais dinheiro do que aquela mulher consegue em meses. Eu me sinto um canalha.

Um clichê canalha.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Hai-kai nº 15 - (Das desilusões)

Amor sobe e desce.
Vida que dói.
Vê se desaparece.

Hai-kai nº 14

Faça um hai-kai por dia.
E viva assim
paz que angustia.

Hai-kai nº 13

Dia de primavera
chuva que lava,
dissolve quimera.

Hai-kai nº 12

Setembro em flor
o coração floresce,
um novo amor.

Mecânica quântica aplicada

Já vivemos tudo, meu amor.
Hoje eu corro os caminhos do mundo,
sonho com meus dias de novidade
e renasço outro dia cinza num sonho profundo,
tudo na busca de uma nova serenidade.

Já, já viveremos tudo, meu amor.
Uma nova vida, um novo desalento.
Haverá tempo para encontrar a certeza,
e toda a lembrança que sói com o tempo.
E de tudo, ficarei só, só com a nossa tristeza
e a fria certeza de que te fui só um passatempo.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Qualquer coisa

Há uma sombra indelével.
Uma marca.
Um vestígio de alguém.
Há um resquício,
um pedacinho de além.
Um resto do que fui.
Uma sobra do que devia ser.
Uma lembrança do suplício.
Uma nova chance de esquecer.
Há um pedaço de luz,
uma luz forte, feita de sorriso.
Há um pouco de paz.
Uma metade de ninguém.
Um pedaço esquecido,
uma história que se refaz.
Há um dia não amanhecido,
em cada amor não vivido,
há um pedaço morrido,
de um dia infinito,
em cada amor não vivido.
Há uma marca.
Um pequeno pedaço.
Eterno.

Rádio: Belchior - Tudo Outra Vez

E se eu, Tertuliano, tivesse um hino, ao desfraldar minhas bandeiras, eu cantaria a plenos pulmões "Tudo Outra Vez".



"E vou viver as coisas novas, que também são boas, o amor, o humor das praças, cheias de pessoas..."

Há um ano

Há um ano eu lembro de estar feliz com meu emprego. Com tudo, traçando planos para realização no curto prazo. Há um ano, lembro bem, eu lia Ana Kariênina, um romance incrível, irreprensível, perfeito, magnífico do russo Léon Tostoi. Não que hoje eu não esteja feliz. Eu estou, do meu jeito, eu sempre estou, aliás.

Lembro que há um ano eu dormi no fim da tarde, cansado da leitura, com o livro no colo. Cai no sono, eis tudo. Acordei sobressaltado, passava da meia-noite. E eu tinha um compromisso, em virtude da data. Fiquei preocupado por faltar e não poder me justificar, porque o sono não é uma desculpa de mérito. Contava que ainda houvesse tempo, que fosse só um atraso.

Não foi o caso. Faltei o compromisso. Chateado comigo mesmo, fui observar se havia causado algum transtorno, se algum agravo havia sido, involuntariamente, perpretado com quem eu tinha marcado. Acho que não era o caso. Naquele momento, no MSN, estava lá: feliz 23, e não estou falando do Marcelo Rangel.

Eu sei que isso tudo aconteceu porque anotei em um caderninho. Não lembro porque anotei. Acho que era por conta de uma intenção que tinha, de escrever e compilar essas coisas num livro. Ou porque não queria esquecer. Curioso, mesmo, foi achar o caderninho que ficara esquecido aqui em São Paulo por meses e achar a nota, ainda ontem. Merecia um post, uma "memória".

Era o que eu precisava saber. Há um ano.

O dia em que cresci

Foi então que eu percebi, e da pior forma, que eu era parte de um passado que ela queria esquecer. Que mais que isso, eu fui um episódio. E um episódio superado. Um capítulo lido num livro que voltou para a estante. Percebi que, enfim, eu tinha fim. Tudo que supostamente era pra sempre, tinha fim. Que nada do que havia sido dito, vivido e dividido importava mais. Pertencia a um passado, a um tempo que não volta. E que eu estava sobrando, que eu devia sair dali, porque estava deslocado. Tudo porque eu sempre faço a coisa errada. Aliás, independente do que eu faça, acaba sendo o errado.

Nunca tinha sentido a dor de perder algo que nunca tive realmente. O que aprendi no momento não foi muito bonito. A virulência das emoções que experimentei naquele instante não foram, de maneira alguma, agradáveis. Mas, no fim das contas, que bom que as vivi. Que bom que aprendi, ainda que da pior maneira, os limites dos sentimentos humanos.

Aprendi também que eu não posso mudar as coisas. Que eu não volto, o tempo não volta. O destino não se conserta a si mesmo. Não há compensação para a lágrima derramada. Só as lições e o aprendizado que a gente conquista das situações extremas. As felizes e as nem tanto. Diante disso, o que digo, é que quero paz. Que eu não sou sobre-humano. Que tenho defeitos. Que eu não sou o coração impassível que aceita frio um jogo de cena que não é o meu. Eu não nasci pro mise-en-scène dessas relações descartáveis de hoje. E, acredite, pago caro por isso. Nas amizades, nas inamizades, até na família.

De resto, sigo aqui com minhas cismas. Coagulo minhas penas em versos ruins, mas bastante verdadeiros, que jamais cristalizarei noutro livro. Passou a vontade. Passou, sobretudo, a coragem, a fé de que tudo que é feito bem e pelo bem, compensa. De que há, em qualquer lugar no meio disso tudo, algo de bom a ser conquistado, buscado, atingido, ainda que o preço seja caro, seja medido em lágrimas, suspiros e uma saudade que não morre, de um sentimento que não se nega, que não se destroi. De um sentimento que não está vivo, nem morto. De um sentimento que não está. Um sentimento que simplesmente é. Como o ar é, a vida e a morte também. Um sentimento que não existe nele mesmo, mas em todas as coisas. Todas. Todas. Mil vezes todas.

E, como eu dizia, se tive que aprender a perder algo que nunca tive de verdade, que agora eu possa, enfim, aprender a conservar o pouco do nada que me restou. E isso só saberei fazer na paz do meu sossego, no anonimato do esquecimento, na calma certa do tempo que passa, e qual as vagas pacientes e silenciosas do oceano que tudo moldam, acaba por levar de mim toda a memória de tudo que tive e que precisei abrir mão. Espero que entendam isso da maneira que eu tive de entender: resignadamente, ainda que sob protestos, e em paz.

domingo, 20 de setembro de 2009

Medo e delírio na Rua Augusta


Eu já tive noites mais divertidas. Aqui em São Paulo, inclusive. Ontem não foi um dia de sucessos na arte da distração, mesmo com o manacial quase que totalmente inexplorado da Rua Augusta aos meus pés. Fila enorme para o show do Mundo Livre. Uns 40 minutos de espera e, "sinto muito aí pessoal, mas a casa está lotada".

Não tem tanta importância. No tempo em que eu morava, e até certo ponto, vivia, em uma certa cidade do interior do Paraná eu tinha tido a oportunidade de ir a um show do Mundo Livre. Neste não deu, então ok.

Do outro lado da rua há um pub. Mas é um pub mesmo. Com a decoração dos seus pares londrinos, tudo de bom gosto. Tem chopp da Guiness lá, tida pelos entendidos e pelos nem tão entendidos como o melhor fermentado de cevada dos nossos tempos, quiçá dos outros todos. Embora eu ache Warsteiner mais saborosa. Importada, a bebida é cara. Vamos de Heinneken. Ou de Stella-Artois (pronuncia, segundo meu francês de alfarrábio, "estela-artoá"). Heinneken que é envasada na mesma cidade do interior paranaense onde eu morava, e até certo ponto, vivia.

No pub há um inglês. Ou um sujeito que se diz inglês e disfarça o sotaque, o que não é difícil, ao atender os clientes dando, assim, uma propriedade mais legítima ao pub. Dez reais a consumação. Duas garçonetes revezam-se na tarefa de saciar as vontades dos clientes, ou ao menos as vontades mais púdicas. As zonas da Augusta ficam mais adiante, sentido Avenida Paulista, e este respeitável pub não é o caso. Embora não falte quem fantasie com as duas, sobretudo na nossa mesa, onde nasce uma paixão de um dos colegas, classificando a loira como muito parecida com aquela que virá a ser, um dia, a mulher da sua vida. Não faz meu tipo, tatuada demais. Loira. Mas faz o dele. Tímido, a chamamos para amedrontá-lo.

Por um lado, o pub está cheio. Mas por outro, não está lotado. Não há mesas vagas ou lugares ao balcão, mas não obstante, não se vê ninguém insulado em alguma rodinha em pé. Estão todos, nós inclusive, ao encontrar um lugar ao balcão que logo seria trocado pela mesa, bem instalados.

Conversamos sobre banalidades. Mas rimos muito. Confessamos desgraças e, delas, fizemos troça. Aliás, é o que elas merecem. E que cegos fomos ao pensar um dia o contrário. Lá pelas tantas, de maneira impensada, surge um sujeito na mesa: "PG!?". Ele aponta pra nós. Encontramos em São Paulo mais um exilado do interior paranaense, que nos conhecia de vista e que tinha conosco amigos em comum, tendo sido nosso contemporâneo na universidade, contudo fazendo outro curso. O sujeito formou-se em História e veio, com sua banda, tentar a sorte. Planos de uma nova viagem "fear and loathing" pela América do Sul, para comemorar o aniversário da primeira, feita a Buenos Aires há quase quatro anos, são traçados na mesa do bar. Planos de roubar o copo de chopp da Heinneken com referências à UEFA Champions League são feitos e abandonados, em virtude da falta de blusas para esconder o produto do furto. Planos, risos, desgraças, chopp, noir.

Eu tinha para contar dúzias de observações, ponderações e pensamentos que me ocorreram em virtude do alcool e das conversas. E dos risos. Eu poderia contar sobre inúmeras coisas que ocuparam meu espírito durante estas quatro horas, planos para o futuro que me parecem bastante alvissareiros. Mas nunca se sabe. Sobre pessoas no pub, nas calçadas, nas mesas. A cantada arrependida de um amigo à garçonete loira tatuada, qual um gibi, meu trabalho de cupido debochado. Outras tantas glórias e pequenas batalhas do convivio social vividas ontem. Há, de fato, muita coisa a ser dita sobre essa noite. É pena que tenha que calar. É pena que eu não tenha paz, que eu me livre do desassossego de uma história mal resolvida, e que venham me contaminar novamente. É pena que tenha quem não aprenda e não respeite, que tenha quem se faça e desfaça. Que não tenha coragem de assumir uma ou outra. Quem não se resolva. Que volte atrás se é pra voltar, e que siga em frente se é pra seguir. Quem destroce o que há de bom em mim, e se esforce mesmo, dando tudo de si, para que incompreensão se converta em ódio. Que um punhado de boas memórias virem ressentimento, mágoa, e mesmo sejam esquecidas. Que tenha quem morda, e assopre. Quem machuque só por machucar.

Eu, como sempre, tenho muito a dizer. Eu, como poucas vezes, vou calar.

Indefinidamente.

Há vida - de clichê? - na imprensa

Já há algum tempo queria falar do excelente trabalho da repórter Elaine Brum, da revista Época. Ela é excelente, mesmo. Tropecei ontem nessa coluna sua na revista em que trabalha e fiquei, simplesmente, sem palavras. E, que pena, faço dela um clichê, porque a repetirei aqui em parte e peço a todos que a leiam. Um diagnóstico muito interessante àqueles que se apavoram pelo futuro e que vivem de incerteza em incerteza:

Diz Elaine:

"Do mesmo modo que é mais fácil botar no mundo o primeiro chavão que nos vem à cabeça, também é mais fácil – e mais aceito – viver segundo os clichês da nossa família, sociedade, época. Penso que a maioria de nós vai vivendo e repetindo velhas vidas que aparentemente já deram certo e não incomodam ninguém. O que seria o clichê de uma vida de classe média de um brasileiro de hoje?

Vou arriscar. Estudar num colégio privado desde a creche. Começar a falar inglês ainda bebê. Alguma coisa tipo ballet ou artes marciais ou aulas de circo. Em algum momento do ensino médio ir para a Disney com a turma ou até fazer um intercâmbio para melhorar o inglês. Ingressar na universidade. Antes ou depois da faculdade morar um tempo em Londres. Em algum momento tocar saxofone ou algum outro instrumento que lembra bares boêmios, com atmosfera noir, de uma vida que leu nos livros e/ou viu nos filmes. Produzir alguma coisa de cinema de documentário e/ou criar um blog onde finalmente pode expressar seu verdadeiro eu. Rebelar-se um pouco e enfim trabalhar, reclamar do trabalho e fazer umas baladas com os colegas de trabalho e os velhos amigos da faculdade. Descobrir que ser adulto é aceitar a vida como ela é. Casar, comprar apartamento, ter um ou dois filhos, entender de vinhos e fazer viagens de férias bacanas para a Europa, Estados Unidos ou países exóticos da Ásia e mais recentemente também da África. Não sei bem como continua.

Não é ruim ou errado, não se trata disso. Pode até ser muito rico, se for vivido como algo próprio, segundo a singularidade de quem vive, não segundo a ditadura do clichê do que deve ser uma vida de uma pessoa de classe média do início do terceiro milênio. Parece-me, porém, que não pensamos muito antes de vivermos uma vida lugar-comum. Não pensamos nada quando acordamos pela manhã e seguimos até a noite uma rotina instituída por quem? Ah, sim, por nós.

Não pensamos nem mesmo que nada impede que façamos tudo diferente. Apesar da pilha de empecilhos-clichês que temos na ponta da língua para ocultar nosso medo de arriscar, se formos pensar com a necessária honestidade, a vida está mesmo nas nossas mãos".


O resto da ótima coluna de Elaine você pode acompanhar aqui. E faço questão, mesmo, que o faça. Vale a pena.

Rádio: Soulsavers - No Expectations

Ah, a letra dessa canção. Soulsavers para salvar almas.

Take me to the station
And put me on a train
I've got no expectations
To pass through here again

Once I was a rich man and
Now I am so poor
But never in my sweet short life
Have I felt like this before

Your heart is like a diamond
You throw your pearls at swine
And as I watch you leaving me
You pack my peace of mind

Our love was like the water
That splashes on a stone
Our love is like our music
It's here, and then its gone

So take me to the airport
And put me on a plane 
I've got no expectations
To pass through here again.



Medo e delírio

Fear and loathing:



sábado, 19 de setembro de 2009

Rua Augusta

Entre a cruz e a espada;
entre o suco de uva e o vinho tinto.
Entre o show e a literatura.
Entre o amor e a minha cura.
Um pouco de paz, outro tanto de loucura.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O dia em que cresci

Eu pensava quando tinha meus 12, 13 anos que a vida era fácil. Um processo, nada mais que isso, que consistia em deixar que a ação do tempo nos guiasse rumo ao futuro. Eu achava, enfim, fruto da inocência da infância, que a vida era fácil.

E hoje, que perdi a inocência, e as ilusões, como diria Balzac, me pergunto com frequência: onde foi, em que momento, eu realmente perdi a ilusão de que a vida era fácil, de que bastava fazer as coisas bem e escolher sempre o certo diante do errado.

Talvez exista um momento que divida as duas coisas. Seria ali o meu batismo de homem. Ou o funeral de uma criança, é sempre uma questão de ponto de vista. Mas talvez o que tenha acontecido é que houve um processo, duramente construído com decepções, alegrias, tentativas, frustrações, sonhos e desistências, e a coleção de cada um desses momentos, de cada experiência foi, enfim, me moldando. Hoje eu sou o que eu sou. Nada mais, nada menos.

Mas o fato é que seria mais fácil eleger um evento isolado que, sozinho, desencadeou todo o processo que terminou me dando responsabilidade, pêlos na cara (ou pelos, como quer a reforma), conta no banco, cabelos brancos, carteira de motorista, uma voz mais grossa. Sonhos, tristezas, vitórias e amores.

Eu não sou capaz de dizer o dia, o momento, o que aconteceu que, de um dia pro outro, da água pro vinho, da semente à flor, e outras disparidades que tais, me fez de menino em homem. Eu não sei, na verdade, se não sou, no fundo, o mesmo menino de sempre, brincando de ser gente grande, buscando sentido nas coisas e propósito nos sonhos. E mérito nas lutas.

Eu não sei. Eu nunca sei, até já ser muito tarde. É o meu maior mal.

Rádio: Soulsavers - Some Misunderstanding

Eu não consigo viver um dia sem ouvir Soulsavers. Impressionante o trabalho desses caras.



Jazz pra ninguém botar defeito

Mas alguém sempre acha defeito. Impressionante a sanha humana de desagradar. Enfim, estão aí as anedotas bíblicas e históricas para dizer-nos que, se nem Cristo passou sem que lhe botassem defeitos - a ponto de o pregarem num arranjo de madeira - quem sou eu e o meu recente e juvenil entusiasmo pelo jazz para supor-se capaz da unanimidade. Quem sou eu? Quem sou eu?

Unanimidade que é sempre burra, dizia Nelson Rodrigues que, veja você, estava fadado a jamais agradar a todos. Por mais que você cultue a literatura suja, o senso da realidade, a esquizofrênia do nosso tempo, o jornalista de olho ligado, o frasista de mão cheia, enfim, um dia você acaba descobrindo que o sujeito era favorável à ditadura militar. Fato este que o desmonta considerávelmente no panteão dos meus herois.

Se nem Cristo, nem Nelson Rodrigues, lograram tento na dura peleja de sensibilizar os corações humanos na sua totalidade, quem sou eu, dizia, para supor que o jazz seja capaz de tamanho feito. Aqui mesmo já disse que, a rigor, o jazz já desagradou gente de garbo na arte do pensamento. Adorno, o querido Dodô, se esmerou para desancar substancialmente o gênero musical em questão durante todos os anos de sua vida. E o fez em prosa daquelas. Só não o fez em verso por desconhecerem-se até aqui, mesmo entre os renomados biógrafos do filósofo germânico, que fosse ele capaz de versejar. O que em alemão, desconfio, deve beirar as raias do impossível.

Enfim, o que conta é que o jazz deveria ser disciplina na escola. Neste ano, aliás, neste setembro, comemora-se o 50º aniversário (viu o que eu fiz ali? Coloquei o numeral ordinal na forma de algarismo para dificultar a sua leitura e facilitar minha escrita. E você ainda assim continua lendo). Comemora-se o aniversário, enfim, do disco Kind of Blue, de Milles Davis e seu sexteto, considerado pela gente que entende dessa bossa, que é jazz, como um marco divisor da história do gênero. E só pode ser isso mesmo.

Faz falta no jazz, ao menos nesse clássico e mais sisudo, voz. Vocalidade vende, rapaz. As músicas ficam nas nossas cabeças porque gravamos as letras que nos dizem verdades. Ou mentiras, pouco importa. No jazz, contudo, a sonoridade sem palavra é interessante. Quando você começa a se interessar verdadeiramente pelo som, voa com ele. O jazz tem qualquer coisa de especial que eu só havia vivenciado em concertos de música clássica. Dá até um senso de purismo essa cultura do som, da música, unicamente pela melodia.

Na internet há toneladas de megabytes à guisa de erudição a respeito do jazz e especificamente de Kind of Blue, sobretudo agora na esteira da efeméride. Não vou repercuti-las, provavelmente lerei poucas e menos ainda indicarei aos caros que as leiam. O melhor que faço, num dia tedioso como esse, e que começa bem pouco alvissareiro, é recomendar que ouçam o álbum, se calhar. Se não, não perdemos nós aqui nada, afinal, é impossível agradar a todos. "Mormente a alguém, eu que sei, eu que sei..."

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Highway to hell

Em novembro, no Morumbi, AC/DC. Eu vou. Mais um sonho de pré-adolescente se tornando realidade.

Who knows?

On my way to... São Paulo. Mas bem que poderia ser Cingapura.

Mas... quem sabe?

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Campanha internacional contra o tempo

Era uma vez um homem.
De peito aberto ele contraiu o vírus chamado momento,
socorrido não teve jeito, nada que desse remendo,
restou a ele resignar-se e chorar ao relento,
enquanto as lágrimas iam ao vento,
E ele foi definhando,
morria sorrindo um riso cinzento

até que, enfim, disse toda a gente
o homem morreu,
morreu de tempo
e viveu de desalento.

Tempofobia

O tempo.
passa, ele não faz outra coisa.
O tempo nos leva.
O vento nos afasta.

O tempo vem.
O tempo não se detem.
O tempo não dói,
o tempo corrói.

O tempo é meu amigo.
O tempo leva meu abraço.
O tempo traz o meu cansaço.
É o que consome a minha serenidade.
O tempo multiplica a minha saudade.

O tempo é meu inimigo.
O tempo envelhece o meu coração,
O tempo carrega a minha inocência
e me traz uma sensação
de uma vida de indolência
O tempo torna tudo incoerência.

O tempo passa.
O tempo não faz outra coisa.
O tempo morde.
O tempo assopra.
O tempo sou eu.
O tempo leva tudo que é meu.

O tempo não volta.
O tempo dói.
O tempo nos perde
é como um labirinto.

O tempo é uma dimensão.
O tempo é infinito.
O tempo é uma ilusão.
O tempo, hoje, é tudo que eu sinto.

Auto-ajuda?

Chamaram-me a atenção dia desses para que meu blogue tornou-se um amontoado de bobagens de auto-ajuda. A princípio, me preocupei. Depois, ao pensar no assunto vi que não era o caso. Auto-ajuda são experiências ou bobagens ditas para as pessoas se sentirem melhor e acreditarem que tudo tem conserto, "basta acreditar em si mesmo, mentalizar" e bla, bla, bla.

Eu, Tertuliano, não faço isso. Conto minhas experiências. Não digo que são certas, que dão certo. Não as torno exemplos, apenas escrevo e digo como senti determinadas situações, como tirei delas algo de bom ou de ruim. Eu vivo e escrevo. Ou escrevo e vivo. É por aí.

Seria auto-ajuda se eu dissesse que tudo que faço é o certo e você aí, do outro lado, devia seguir meu exemplo. Quando é justamente o contrário. Pautar-se por exemplos, e conselhos dos outros, é sempre meio caminho andado para a frustração e arrependimento. E aquela incomoda sensação de "e se tivesse feito diferente?". A gente deve viver com as nossas escolhas. E fazê-las é mais legal do que deixar que as façam por nós. Mas se você é feliz do outro jeito, quem sou eu pra dar palpite?

Na verdade acho que quando escrever uma auto-biografia, supondo que um dia eu desperte em alguém tamanho interesse pelo meu passado, vou começar assim:

"Houve um tempo em que tudo era fácil. Eu era feliz, dava tudo certo, tínhamos tudo de bom conosco, o medo do futuro era uma vaga noção de algo nebuloso que ataca quem não era infeliz. Houve um tempo em que tudo era alegria, dava certo. Em outras palavras, tinha que acabar..."

Convenha, isso não é auto-ajuda.

Morte e vida

Hoje morreu um pouquinho de mim.
Um pedacinho que teve fim.

Mas o que conta é que amanhã é outro dia,
e que me apareça ali uma parte mais sadia.

Rádio: Oswaldo Montenegro - A Lista

Ah, Oswaldão.


Do outro lado da vida 2

Mas o que eu quero saber é: alguém já foi entrevistou a Whoopy Goldberg em virtude do passamento de Patrick Swayze ante-ontem?

Rá.

Chega de humor negro.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Do outro lado da vida

Morreu ontem, por conta de um câncer bastante agressivo, o ator Patrick Swayze.

Hum... acho que a Demi Moore não dorme essa semana...

Rá.

"Eu conheço o medo de ir embora...

... não saber o que fazer com a mão..."

 

O original você pode ver aqui.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

No tempo em que ruim era o jazz

Jazz é legal. Ou, pelo menos, Miles Davis é legal. E Herbie Hancock também. Sempre tive pouco contato com o jazz. As poucas referências do estilo eram Lisa Simpson, Jô Soares falando no assunto nas suas intermináveis auto-entrevistas, uma música esparsa aqui e ali. Nunca fui além disso.

Recentemente, ou nem tanto assim, cursando a faculdade, ouvimos falar de um tal filósofo aí, meio assim, Theodor Adorno. Da galerinha da Escola de Frankfurt, que contava com senhores como Habermas, Horkheimer, Walter Benjamin, Marcuse e outros menos votados. Adorno é, provavelmente, o maior expoente deste movimento do pensamento humano da primeira metade do século passado. O dono da bola. O vocalista da banda ("Adorno e seus Filósofos"?) - ou do grupo de samba ("Filósofos do Samba"?), dado o número de integrantes. No movimento de cunho filosófico, pode-se dizer que ele, Adorno, fazia o papel de anão zangado entre os escolásticos pensadores culturais daquela milenar cidade alemã.

Adornava, e adorna, por assim dizer e para não perder o hábito de trocadalhos do carilho com nomes e obras filosóficas (este blogue se batiza por um trocadilho, é vício que remonta aos ancestrais tempos da internet discada e do blogger.com.br), mas eu dizia que Adorno(a) a memória daqueles sujeitos que muito ponderavam o mundo, a sociedade e suas relações com os bens culturais. A Escola de Frankfurt foi um movimento filosófico que pensava a cultura na era da sua industrialização - fenômeno que começava naqueles doidos, e doídos, anos 1930. Foi quando, resumindo, a cultura passou a ser negócio, vendável e estrondosamente lucrativa. Em linhas gerais, os teóricos de Frankfurt são uma pedra angular na concepção da comunicação. Tertuliano, enfim, também é cultura.

(Vim a perceber isso muito tempo depois, mas o interessante da maioria dos cursos da área de Ciências Humanas é isso: te ensinam nulidades e bagatelas como essa sem as quais você viveria perfeitamente bem e feliz. Talvez, se lesse os livros percebesse e aprendesse por si mesmo. Mas o fato é que você se sente inteligente por saber coisas que não importam muito, não fazem a menor diferença e não resolvem nada).

Nos longínquos idos de 2004, que foi quando tomei meus rudimentos de conhecimento acerca das teorias do pensamento que norteiam as concepções presentes da comunicação e, portanto, também fiz minhas primeiras incursões acerca do filósofo tedesco, luminar destas sobreditas teorias, sempre a adorná-las com sua índole pessimista e carrancuda, pensava eu, sempre, como deveria ser complicado ser aluno do sujeito. Pelo teor, substância e desesperança das coisas que escrevia, devia ser, Adorno, um sujeito muito Teodoro. Sempre invoquei com o nome Teodoro. Nunca confie em alguém chamado Teodoro. Em qualquer idioma. Pessoas que se chamam Teodoro não sorriem.

Imaginava que levar um esporro do professor Adorno seria uma experiência assaz amarga. Afinal, munido de todos os traquejos argumentativos do filósofo, elevados exponencialmente pelas particularidades da língua germânica, tanto em inflexão e fonética, quanto em gramática e complexidade, Adorno devia saber como desmontar argumentos, egos, pessoas e ideias exemplarmente. Levem em consideração que nosso filósofo bávaro, e bravo, além de sobreviver ao nazismo, lecionava na Sorbonne em Paris no Maio de 1968...

(Momento wikitertuliano: Maio de 1968; movimento de rebeldia daquela geração que, muitos achavam, e ainda acham, garantiria liberdade às mulheres, mas o mais que fez foi lhes garantir o direito de se exibir tanto quanto os homens. Não me trucidem, ó leitoras: digo isso sem machismo, com ou sem Maio de 1968 mulheres são oprimidas mundo à fora, o que mudou é que podem fazer top-less no mundo dito livre, andar de mini-saia e frivolidades que tais, e antes não podiam. Para gáudio de nós, homens opressores, frise-se. Hum, você é mulher e discorda? Ora, as mulheres queimaram sutiãs como protesto contra a opressão, ainda que simbólico, mas não maridos ou executivos machistas. Pensen nisso, ou me processem).

... e sempre pensei como ele reagiu à primeira jovem de vergonhas expostas. Se o seu niilismo de quatro costados sobreviveu ao teste. O que terá ele dito pelos corredores da secular universidade francesa? Teria, em algum lapso, sentido falta dos tempos de disciplina do autoritarismo que o perseguia e a seus asseclas? Teria ele suspirado e dito: "ah, a nos tempos da Gestapo..."?

Outra coisa que me ficou na mente sobre Adorno foi seu pavor patológico relacionado ao Jazz, e eis que aqui vou regressando ao que, em princípio, era a ideia desse post: jazz. Gênero que o pensador alemão classificava como exemplo de "música rápida". E, acredite, você não quer ser clássificado de amante de música rápida por Adorno. É evidente que é uma questão de conceitos da época em que Dodô jogava no Andaraí, bairro frankfurtiano. Dodô é curruptela para o Theodor-Teodoro, nos tornamos íntimos de algumas pessoas ou entidades com muita facilidade, brasileiros que somos, e eis meu caso com Dodô. Dizia eu que o horror ao jazz votado por Dodô era da época, em virtude do que ele tinha a sua disposição para balizar seus pensamentos a respeito da cultura reprodutível.

E hoje, como se sabe, o jazz se tornou uma manifestação cultural altamente elitizada. Para horror das caveiras de Dodô que devem chacoalhar virulentamente onde quer que tenha sido sepultado - eu chuto Paris - sempre que o ritmo de origem afro é festejado neste mundo. É cult gostar e apreciar jazz. Sorte de Adorno que fosse ateu, do contrário sua alma vagaria por aí, se lamentando pela inversão de valores que, veja só, começou justamente no Maio de 1968, e que hoje nos faz selvagens embrutecidos escutadores de jazz. O que, claro, não quer dizer que jazz seja bom, necessariamente. Quer dizer, apenas, que o jazz é elitizado e, normalmente, ouvido e promovido por classes mais bem prevalecidas.

Penso que se vivo fosse, Adorno não se ocuparia desancando jazz e seus amantes. Ele gastaria seu fosfato com o sertanejo, o pop, pagode, axé e tantas outras manifestações que a contemporaneidade nos obriga a suportar. Rapaz, ele teria urticárias com música eletrônica, dessa feita em pc. Acho que ele gostaria de jazz se fossemos contemporâneos. Sobretudo se ouvisse Herbie Hancock. Não dá pra não gostar de Hancock. Ou Miles Davis.

Adorno era um sábio. Morreu antes das coisas piorarem muito. Em 1969, na onda de Woodstock e dos tempos loucos que seriam os anos 1970. No tempo dele ruim era o jazz.

domingo, 13 de setembro de 2009

MSN

"Por que você posta, e horas depois corta, emenda, torce, incha e reescreve seus posts?"

Porque eu nunca estou satisfeito. Com meus textos. Nunca.

Então porque não publica só quando estão prontos?

Se fizer isso não os termino nunca.

sábado, 12 de setembro de 2009

O meu 11 de setembro

Eu não tenho uma relação tão especial de testemunha da história com o 11 de setembro como algumas pessoas têm. Na verdade, não me diz muito respeito a data, e se, de fato, ela repaginou nossa história enquanto civilização, eis aí um fenômeno que só poderá ser atestado com o distanciamento histórico (tem acento nisso?). Embora somem já 8 anos não me sinto em distância suficiente para falar do 11 de setembro como história. Pra mim foi ontem.

Não se trata também de relativizar o evento, embarcando nas prolixas, imaginativas e divertidas teorias conspiratórias que atestam tudo como um engodo. Não se pode duvidar da capacidade daquela gente, os republicanos dos EUA, de baixarias. Mas é um pouco demais imaginar que foram eles o dedo que deflagrou a hecatombe, que deitaram as torres abaixo e ainda econtraram tempo para derrubar outra aeronave no Pentágono, o centro nevrálgico - sempre quis usar esse termo, demais! - da estratégia de defesa dos rednecks.

Provavelmente o 11 de setembro tem toda a importância que não vejo para quem viveu a coisa de maneira mais direta. Os norte-americanos têm todo o direito de proclamarem a data como marco histórico deles. Pra mim, na verdade, o 11 de setembro e todo aquele período marcou um momento estranho na minha vida. Eu tinha 16 pra 17 anos. E não sabia nada da vida.

Naquele ano, 2001, eu encerrava o ensino médio. Não digo que fazia o "terceirão". Era uma escola pública sem a menor preocupação de uma preparação decente ao vestibular e, portanto, era apenas o terceiro ano, cumprido por mim e meus bons colegas que não vejo há mais de 4 anos, com toda a fleuma, relapsidão e pachorra de alunos pouco obcecados que éramos. No fim do ano acabei prestando vestibular para Engenharia Elétrica na Federal do Paraná - não sei onde estava com a cabeça.

Eu era um porra-loca no ensino médio. Eu aprontava pra cacete. Acho que no fundo eu sabia que a vida não seria mais a mesma depois da inconsequência daqueles anos de adolescente desobrigado, depois do fim da escola. Minha responsabilidade era frequentar as aulas - ou se não as frequentasse, ao menos não reprovar por faltas, capacidade que levei às raias da perfeição anos mais tarde, na universidade - e somar pontos que me dessem o diploma de ensino médio. O resto, bem, era resto. E era divertido.

Em 2001 também eu comecei a trabalhar, impulsionado por meu pai, que era, indisputávelmente, o homem mais sábio de sua geração e provavelmente um dos mais sábios que um dia caminharam por essa terra de misérias. Na verdade não era propriamente um trabalho. Era um estágio administrativo/burocrático que realizava no setor de almoxerifado da Unicentro. Instituição estadual, abria espaço para estudantes do ensino médio realizarem estágio remunerado - muito mal remunerado, é bom que se diga - no período em que não estivessem em aula. Era esse meu caso.

Meu pai lecionava na Universidade. Íamos juntos, voltávamos juntos do expediente. Sempre tinha sido próximo a meu pai. A diferença é que aqueles meses do ano letivo de 2001 nos fizeram algo mais que pai e filho. Não nos fizeram colegas de trabalho. Aqueles meses nos tornaram amigos. Quando voltávamos tarde da noite, conversávamos pelo caminho. Dividíamos, já em casa, o café antes de dormir. Pois é, acostumados desde cedo, ambos, o café já não nos prejudicava o sono. Bebíamos café, assistíamos o Jornal da Globo e, quem sabe, o Jô. Tudo isso regado a comentários, ponderações, amizade, conversas. A pena, e sempre há uma em tudo, eis aí a mais verdadeira das minhas filosofias, é que não versávamos muito em confidências. Fosse esse o caso, talvez, meu pai pudesse ter me ajudado em outra questão marcante daqueles tempos. Paixão, por exemplo.

Eu tinha nessa época a semente daquilo que a gente, anos e anos mais tarde, entende ser o amadurecimento. Em que pese as badernas na escola pela manhã - rapaz, eu aprontei umas que não estão no gibi - havia à tarde e pela noite, que eram os períodos do meu expediente, tempo para ser responsável. Para pensar na vida com seriedade, para trabalhar pensando no amanhã, para encontrar o amor. Para se esconder dele com as mãos suando também.

O nome dela era Fernanda. Tínhamos muito em comum, Fernanda e eu. Ambos estagiários, mesma idade, filhos de professores da universidade. Eu conhecia a sua mãe, professora, de vista. Não sei de que curso, não saberia dizer o nome dela agora e nem há oito anos. Quanto a Fernanda, soube que era esse seu nome pelo crachá que ostentava, ítem de obrigação entre funcionários e estagiários.

Fernanda vinha sempre requisitar material de escritório para o setor onde estagiava comigo que, vale lembrar, ficava no almoxerifado. Vinha, pedia o que queria, mas sua voz tremia, ela ficava nervosa. Sorria, falava ora rápido demais, ora devagar demais. Fernanda, provavelmente, estava apaixonada por mim. O que era novidade. E eu acabei ficando por ela.

Eu a havia conhecido poucos meses antes, em 2000, quando fazia inglês no CCAA. Ela estava lá. Já tinha visto na rua uma vez. O problema é que um de nós, não lembro mais o qual, estava em um módulo mais avançado do curso, o que, portanto, excluía a possibilidade de uma providencial transferência de horários. Cheguei, já naquela época, mal tendo visto Fernanda, sem sequer saber qual era seu nome, a ponderar a possibilidade. Fernanda estava normalmente com uma calça preta de listras vermelhas, o que a classificava como aluna do outro grande colégio da cidade, o que também nos afastava.

Ali, naquele cubículo onde eu cumpria o expediente, nasceu uma paixão de adolescente. Nunca floresceu porque eu sempre fui tímido demais - e tendo 16 anos a gente não sabe como lidar com essas coisas. O mesmo vale para Fernanda, que vinha suar e derrubar coisas na minha presença. Não sei se me lamento, hoje, à luz de tantas outras coisas.

Eu nunca mais vi Fernanda. Em dado momento daquele ano tive que mudar meus horários. E isso cessou nossos encontros, que tornaram-se ainda mais raros. Isso tudo me volta à mente hoje porque, pensando no 11 de setembro, só sou capaz de lembrar das coisas que perdi naquela data.

Ninguém próximo morreu nos atentados. Mas, de certa forma, aquele período foi uma fase de perda de inocência, de descobertas amargas, de umas outras bastante felizes. Foi uma época em que eu me aproximei muito do bastante que já era próximo de meu pai. Eu não sabia, mas ele viria a morrer em pouco mais de um ano. Naquele tempo meu coração bateu acelerado, eu suei nas mãos, tremi a voz e não fiz nada.

Lembrei de Fernanda e nosso flerte casto e singelo quando conversava com uma amiga por MSN. Confessou-me que fora apaixonada por mim e eu ri, porque nunca imaginaria aquilo. Pensando depois, me ocorreu que ela foi cúpido em outro episódio. E até disse que não sabia de alguém que tivesse um dia se apaixonado por mim, que seria a primeira vez. Menti. Antes de todas, houve uma Fernanda.

Hoje, ao redigir esse post, ao pensar em tudo isso, revivi um pouco daquela época nas minhas lembranças. E senti um pouco de tristeza, ao lembrar que nunca mais vi as pessoas que então eu julgava importantes. É a vida. E ao lembrar de Fernanda gosto de pensar que ela suou as mãos e gaguejou por alguém nesses anos. E que, talvez, ainda lembre do seu 11 de setembro e de todo ano de 2001. E que lá no meio disso tudo, exista ainda algum espaço para um dos amantes mais canhestros de todos os tempos, de inconparável timidez e de topete arquitetônicamente desenhado em quilos de gel.

E, se querem saber, no dia 11 eu matei aula. Química. Cristo, como eu odeio química. Fui embora e cheguei no meio da manhã. Na TV, prédios queimando, gente morrendo, desespero. E o resto é história.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Digita rápido, é? Sei...

Eis aí um teste para aqueles que, como eu, digitam alucinadamente rápido - ou pensam assim. Para ter acesso ao teste, clique no meu resultado ali. E que frise-se que é um resultado aleatório, já fui bem melhor. Esse ali foi apenas para gerar o código HTML, afinal. Uma vez no site, basta digitar a palavra, dar enter ou espaço e partir para a outra. Quando o tempo esgotar você terá a resposta e saberá o quão rápido digita:

40 palavras
Speed test

Rádio: Joaquín Sabina - ¿Quién me ha Robado el Mes de Abril?

Conheci o mestre Sabina por indicação, ainda no princípio deste ano de 2009, do meu assessor para assuntos de cultura hispânica. Gosto de algumas canções deste espanhol, e uma delas é esta:

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Não adianta

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

9 do 9 de 09

9 de 9 de 09. 09 horas, 09 minutos e 09 segundos.

E não, o mundo não acabou.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

O dia em que cresci

Fazia algum tempo que eu não a via. Olhei pela janela e ela estava sentada, calma. Faltava, entretanto, alguma coisa. Comia sozinha e distraída, como se estivesse longe. De fora e de longe eu pensava comigo que não estava certo, algo tinha que ser feito. Eu sempre acho que algo tem que ser feito, mas nunca deve. Eu sempre acho que nada deve ser feito, e sempre deve. Eu nunca sei nada.

Mas me incomodava não poder entrar. Nem falar. Nem ser, quiçá abraçar. Me comovia o quanto eu podia fazer, o quanto queria, o quanto devia, talvez, mas o quanto não podia. Crescer nunca é fácil. E embora eu não seja mais criança, sinto que cada dia que passa, eu cresço mais. Crescer é se despedir de muitas coisas, e eu todo dia perco um pouco mais.

Foi aí que eu percebi que encontrar alguém que nos desafie a ser sempre o melhor que pudermos ser, que nos torne pessoas melhores e mais completas é algo raro. Foi aí que percebi que ter alguém assim, ainda que por um instantinho na longa caminhada da vida é ainda um privilégio.

Só que nada disso aplacava o incomodo que eu tinha com aquela imagem. Me parecia que nada estava certo. Que eu estava errado não importasse o que eu fizesse. E pior que errado, sozinho. Abandonado a carregar o fardo das minhas responsabilidades completamente só.

Como de um nada me lembrei de uma noite ao som do mar. Promessas e juras tendo como testemunha as ondas, o som da água que leva tudo de mal e, à nós só resta torcer, traz tudo que for de bom. Lembrei de como aquela noite foi importante, de como me deu força ao longo de tanto tempo. Voltei a pisar aquela areia inúmeras vezes, sempre lembrando da verdade daqueles momentos.

Eu me sufoquei em questão de segundos. Os segundos daquela imagem incidental da janela foram os mais perturbadores de toda a minha vida. E em mim veio, de resto, uma sensação estranha, que eu não sentia há muito tempo, algo apertando a garganta e me impelindo a olhar para o lado. Veio na memória a conclusão daquela noite da praia. A sensação de que os caminhos a serem trilhados seriam ernormes. As veredas eram turvas e o horizonte poderia até mesmo não estar onde deveria estar, mas que, independente de tudo isso, eles não seriam trilhados sozinhos, por difíceis e assustadores que fossem. A sensação de que, enfim, não importava o que acontecesse, eu não poderia deixá-la fora da minha vida.

O contraste dessa sensação maravilhosa foi a memória. Eu finalmente entendi que não poderia fazer nada e que não devia fazer nada quando me senti estranho ao observar sem poder algum, sem direito algum. Eu finalmente entendi que era um passado que queriam esquecer, um passado que não importava mais. Um passado doce, mas não o suficiente para ser presente e futuro. Enfim, agora não havia nada mais a fazer a não ser seguir em frente.

Mas eu não queria ir. Porque ir antes não adiantou, voltar também. Tudo parecia tão errado, tão sem jeito, tão em desespero. Eu não queria ir porque há coisas na vida que são importantes, mesmo no passado. Coisas que você tenta negar, mas não consegue. Eu era parte daquilo, mesmo que não pudesse e que não quisesse. Eu era parte dela, e ela de mim. De um jeito doloroso, estranho e ruim, mas era verdade. Eu percebi que não importava no que nos tornássemos, o que escolhessemos, para onde fossemos. Estaríamos condenados um ao outro, a sermos um parte do outro pra sempre. Nesse momento me senti novamente um garotinho, com medo do escuro, com medo de tantas coisas misteriosas que a gente é incapaz de compreender. Eu me senti um garotinho com medo e sem ninguém para me socorrer.