sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Jazz pra ninguém botar defeito

Mas alguém sempre acha defeito. Impressionante a sanha humana de desagradar. Enfim, estão aí as anedotas bíblicas e históricas para dizer-nos que, se nem Cristo passou sem que lhe botassem defeitos - a ponto de o pregarem num arranjo de madeira - quem sou eu e o meu recente e juvenil entusiasmo pelo jazz para supor-se capaz da unanimidade. Quem sou eu? Quem sou eu?

Unanimidade que é sempre burra, dizia Nelson Rodrigues que, veja você, estava fadado a jamais agradar a todos. Por mais que você cultue a literatura suja, o senso da realidade, a esquizofrênia do nosso tempo, o jornalista de olho ligado, o frasista de mão cheia, enfim, um dia você acaba descobrindo que o sujeito era favorável à ditadura militar. Fato este que o desmonta considerávelmente no panteão dos meus herois.

Se nem Cristo, nem Nelson Rodrigues, lograram tento na dura peleja de sensibilizar os corações humanos na sua totalidade, quem sou eu, dizia, para supor que o jazz seja capaz de tamanho feito. Aqui mesmo já disse que, a rigor, o jazz já desagradou gente de garbo na arte do pensamento. Adorno, o querido Dodô, se esmerou para desancar substancialmente o gênero musical em questão durante todos os anos de sua vida. E o fez em prosa daquelas. Só não o fez em verso por desconhecerem-se até aqui, mesmo entre os renomados biógrafos do filósofo germânico, que fosse ele capaz de versejar. O que em alemão, desconfio, deve beirar as raias do impossível.

Enfim, o que conta é que o jazz deveria ser disciplina na escola. Neste ano, aliás, neste setembro, comemora-se o 50º aniversário (viu o que eu fiz ali? Coloquei o numeral ordinal na forma de algarismo para dificultar a sua leitura e facilitar minha escrita. E você ainda assim continua lendo). Comemora-se o aniversário, enfim, do disco Kind of Blue, de Milles Davis e seu sexteto, considerado pela gente que entende dessa bossa, que é jazz, como um marco divisor da história do gênero. E só pode ser isso mesmo.

Faz falta no jazz, ao menos nesse clássico e mais sisudo, voz. Vocalidade vende, rapaz. As músicas ficam nas nossas cabeças porque gravamos as letras que nos dizem verdades. Ou mentiras, pouco importa. No jazz, contudo, a sonoridade sem palavra é interessante. Quando você começa a se interessar verdadeiramente pelo som, voa com ele. O jazz tem qualquer coisa de especial que eu só havia vivenciado em concertos de música clássica. Dá até um senso de purismo essa cultura do som, da música, unicamente pela melodia.

Na internet há toneladas de megabytes à guisa de erudição a respeito do jazz e especificamente de Kind of Blue, sobretudo agora na esteira da efeméride. Não vou repercuti-las, provavelmente lerei poucas e menos ainda indicarei aos caros que as leiam. O melhor que faço, num dia tedioso como esse, e que começa bem pouco alvissareiro, é recomendar que ouçam o álbum, se calhar. Se não, não perdemos nós aqui nada, afinal, é impossível agradar a todos. "Mormente a alguém, eu que sei, eu que sei..."

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