domingo, 20 de setembro de 2009

Medo e delírio na Rua Augusta


Eu já tive noites mais divertidas. Aqui em São Paulo, inclusive. Ontem não foi um dia de sucessos na arte da distração, mesmo com o manacial quase que totalmente inexplorado da Rua Augusta aos meus pés. Fila enorme para o show do Mundo Livre. Uns 40 minutos de espera e, "sinto muito aí pessoal, mas a casa está lotada".

Não tem tanta importância. No tempo em que eu morava, e até certo ponto, vivia, em uma certa cidade do interior do Paraná eu tinha tido a oportunidade de ir a um show do Mundo Livre. Neste não deu, então ok.

Do outro lado da rua há um pub. Mas é um pub mesmo. Com a decoração dos seus pares londrinos, tudo de bom gosto. Tem chopp da Guiness lá, tida pelos entendidos e pelos nem tão entendidos como o melhor fermentado de cevada dos nossos tempos, quiçá dos outros todos. Embora eu ache Warsteiner mais saborosa. Importada, a bebida é cara. Vamos de Heinneken. Ou de Stella-Artois (pronuncia, segundo meu francês de alfarrábio, "estela-artoá"). Heinneken que é envasada na mesma cidade do interior paranaense onde eu morava, e até certo ponto, vivia.

No pub há um inglês. Ou um sujeito que se diz inglês e disfarça o sotaque, o que não é difícil, ao atender os clientes dando, assim, uma propriedade mais legítima ao pub. Dez reais a consumação. Duas garçonetes revezam-se na tarefa de saciar as vontades dos clientes, ou ao menos as vontades mais púdicas. As zonas da Augusta ficam mais adiante, sentido Avenida Paulista, e este respeitável pub não é o caso. Embora não falte quem fantasie com as duas, sobretudo na nossa mesa, onde nasce uma paixão de um dos colegas, classificando a loira como muito parecida com aquela que virá a ser, um dia, a mulher da sua vida. Não faz meu tipo, tatuada demais. Loira. Mas faz o dele. Tímido, a chamamos para amedrontá-lo.

Por um lado, o pub está cheio. Mas por outro, não está lotado. Não há mesas vagas ou lugares ao balcão, mas não obstante, não se vê ninguém insulado em alguma rodinha em pé. Estão todos, nós inclusive, ao encontrar um lugar ao balcão que logo seria trocado pela mesa, bem instalados.

Conversamos sobre banalidades. Mas rimos muito. Confessamos desgraças e, delas, fizemos troça. Aliás, é o que elas merecem. E que cegos fomos ao pensar um dia o contrário. Lá pelas tantas, de maneira impensada, surge um sujeito na mesa: "PG!?". Ele aponta pra nós. Encontramos em São Paulo mais um exilado do interior paranaense, que nos conhecia de vista e que tinha conosco amigos em comum, tendo sido nosso contemporâneo na universidade, contudo fazendo outro curso. O sujeito formou-se em História e veio, com sua banda, tentar a sorte. Planos de uma nova viagem "fear and loathing" pela América do Sul, para comemorar o aniversário da primeira, feita a Buenos Aires há quase quatro anos, são traçados na mesa do bar. Planos de roubar o copo de chopp da Heinneken com referências à UEFA Champions League são feitos e abandonados, em virtude da falta de blusas para esconder o produto do furto. Planos, risos, desgraças, chopp, noir.

Eu tinha para contar dúzias de observações, ponderações e pensamentos que me ocorreram em virtude do alcool e das conversas. E dos risos. Eu poderia contar sobre inúmeras coisas que ocuparam meu espírito durante estas quatro horas, planos para o futuro que me parecem bastante alvissareiros. Mas nunca se sabe. Sobre pessoas no pub, nas calçadas, nas mesas. A cantada arrependida de um amigo à garçonete loira tatuada, qual um gibi, meu trabalho de cupido debochado. Outras tantas glórias e pequenas batalhas do convivio social vividas ontem. Há, de fato, muita coisa a ser dita sobre essa noite. É pena que tenha que calar. É pena que eu não tenha paz, que eu me livre do desassossego de uma história mal resolvida, e que venham me contaminar novamente. É pena que tenha quem não aprenda e não respeite, que tenha quem se faça e desfaça. Que não tenha coragem de assumir uma ou outra. Quem não se resolva. Que volte atrás se é pra voltar, e que siga em frente se é pra seguir. Quem destroce o que há de bom em mim, e se esforce mesmo, dando tudo de si, para que incompreensão se converta em ódio. Que um punhado de boas memórias virem ressentimento, mágoa, e mesmo sejam esquecidas. Que tenha quem morda, e assopre. Quem machuque só por machucar.

Eu, como sempre, tenho muito a dizer. Eu, como poucas vezes, vou calar.

Indefinidamente.

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