domingo, 6 de setembro de 2009

Sonhando na varanda

Da varanda vê-se muita coisa. Se eu fosse recorrer aqui a uma metáfora superlativa para dar tino à vista que se debruça da varanda e tempero ao texto que se desenrola por aqui, diria que se vê ebulição. Não há ponto para o qual você se volte dessa varanda que não exista algo acontecendo. A vida passa aqui incessantemente, 24 horas por dia.

Sentado, eu sorvia porções módicas de vodka. Eu não sou um cara de vodka; gosto de outras bebidas. Sempre quando bebi vodka nas esbórnias de universitário dei margem as passagens mais non-sense de todos esses 24 anos de sonho, de sangue e de América do Sul. E o pior, a vodka tem em mim um efeito amnésico revoltante. Nunca lembro de porra nenhuma depois de um porre de vodka. Por essas e outras, mais outras do que essas, não sou um cara de vodka.

De qualquer forma, o risco, confessemos, não é tão grande. Não vou me embebedar. Eu já passei da fase. Bebo, hoje, porque bebo. Antes, mais ou menos como o Jânio Quadros, porque era líquido. Sólido fosse, come-lo-ia. Jânio Quadros era um frasista sensacional. Na verdade, porre hoje em dia não tem a menor graça. Provavelmente me sinto como o velhinho desdentado que não vê a menor graça num churrasco. Hoje eu bebo porque bebo. Só pela pose. E pela solidão dessa varanda.

Assim como a bebida, várias coisas hoje são relativizadas na minha vida. Eu não ligo. O tempo passa, as prioridades mudam, a maneira como a gente vê a vida também. O ruim, mesmo, é relativizar sonhos. Quando você se força a admitir que o sonho é inatingível, ele deixa de ser projeto. Vira, mesmo, sonho. Vai morar na caverna do Platão. O que, por seu turno, é bastante curioso. Vai morar, o sonho, num mito. É a materialização no campo das racionalizações de um mundo de quimeras esse, onde vão os meus sonhos habitar cavernas que são mitos platônicos.

E eu que carrego todos os sonhos do mundo no peito, me debato ao matá-los sazonalmente e mandá-los aos diabos que os carreguem pelas cavernas platônicas. Mas eu os mato. É melhor deixar cadáveres pelo caminho do que carregar peso morto, filosofia, essa dos cadáveres pelo caminho, há muito inaugurada pela sanha incompreensível dos assírios que, atestava meu pai, que dentre outras dignidades tinha a de professor de História, "foram os assírios o povo mais espírito de porco de toda a Antiguidade", e só viriam a encontrar rivais nesse quesito com os hunos, já aí na Idade Média, que tinham Átila como seu líder, aquele que se dizia ser o "Flagelo de Deus" e que por onde pisava seu cavalo, a grama não mais nascia. O que abriu ensejo para aquela frase excelente do Millôr: "tudo passa, tudo passa, me dizem. Átila também passava e vocês sabem o que acontecia com a grama".

Enfim. Deixando os sonhos pelo caminho, evito moribundos a drenar minhas sístoles, minhas diástoles. E se no caminho fui desovando tantos, é bom lembrar que, mais leve, andei mais. Fui e vou mais longe, tomando um novo caminho sem medo das subidas. Me lamento por quem não sabe levar a vida assim, dando de ombros e dando risada. Sinto pena, até. Porque eu desisto dos meus sonhos, e sorrio, certo de que de mim não fazem mais parte. E pelo caminho, ora, sempre se tropeça com sonhos novos.

E a quem interessar possa, vou sonhando-os muito bem, obrigado.

1 comentários:

cacau disse...

Oi, Tertuliano! Td bem? Recebi uma mensagem sua através do meu blog, mas não pude te escrever, pois vc não deixou nenhum e-mail. Volte a entrar em contato!

Claudia