domingo, 23 de setembro de 2012

Rádio: Belchior - Pequeno Mapa do Tempo

Eu tenho medo, medo, medo, medo...

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Eu vou sentir falta da Banca Kika

Meu irmão aprendeu a cultivar um hábito que, confesso, nunca tive. O de ler os jornais da terrinha. Não os leio porque são ruins, em virtude das limitações práticas do jornalismo numa cidade de 60 mil almas, e não satisfazem qualquer curiosidade que eu, por ventura, venha a ter sobre a cidade que me viu crescer.

Mas venho revendo o costume. Deve estar me batendo nostalgia e saudades da indolência da infância.

E nessas idas e vindas descobri que a Banca Kica vai fechar. O lugar é um ícone da cidade, fica na principal via do comércio por lá e, ao contrário de diversos pontos que sofrerão mudanças nos últimos 20 anos, ela sempre esteve lá. Sólida, inexorável, a desafiar a passagem dos tempos, o povo inculto que não lê e a chegada de uma época onde o hábito de se comprar revistas e jornais já soa inócuo. Por meio do texto do jornal vim a saber que o estabelecimento desafia o tempo desde o ano de 1970. Minha mãe tinha 16 anos, meu pai sequer conhecia a cidade e eu provavelmente não passava de uma porção de átomos e moléculas dispersas por aí, apenas esperando o destino.

Tenho carinho por essa banca porque ia lá com meu pai aos domingos pela manhã. Era preciso chegar cedo para garantir as cópias do Estadão e da Folha, que ele gostava de ler no fim de semana. Meu pai era um homem sábio e aproveitava minha empolgação no passeio para abastecer meu sortimento de revistas em quadrinho, prática a qual, hoje, sei que devo meu gosto pela leitura. Dos jornais, meu pai comprava sobretudo a Folha, que durante boa parte dos anos 1990, trazia fascículos para a montagem de livros, guias e enciclopédias que me acompanharam durante todo o tempo que morei por lá.

A banca também tem profunda ligação com o meu consumo de leitura. Era lá que eu levava os poucos cobres de que dispunha para trocá-los por gibis, revistas de videogame, de história, de carros, de automobilismo. E de mulher pelada também.

O que, aliás, me recorda da doçura daqueles tempos de infância, de tantos hormônios, tão pouca coisa na cabeça. As artimanhas, a engenharia social, as técnicas, os subterfúgios, as intrigas para comprar exemplares de revistas pudicas, como Playboy, e de sacanagem, como, bem, aquelas. Pobres dos meninos desses nossos doidos tempos, que nunca hão de saber o doce sabor da masturbação inspirada pelas revistas compradas através de verdadeiras operações de quinta coluna.

A Banca Kica vai me deixar saudades, embora eu não more lá há tanto tempo e nem mesmo seja capaz de dizer quando foi a última vez que adquiri algo lá. Aí veio o tempo e acabou com tudo. O tempo é a medida da precariedade de qualquer coisa. E eu vou sentir falta da Banca Kika, mesmo não usando de seus serviços há anos. Era um tipo de porto seguro saber que, não importa o quão avacalhadas possam ficar as coisas, lá na terrinha, onde cresci, na Munhoz da Rocha, ao lado da rádio, estaria a Kica, com o Seu Benedito atrás do balcão, rechaçando modismos, atravessando os anos, enfrentando as gerações e vendendo pornografia adoidado para os taradinhos tímidos como eu.

Tudo morre, tudo definha, tudo se acaba e tudo encontra o ocaso nessa vida que é medida pelo passar do tempo. O tempo passa. Ele, aliás, não faz outra coisa.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Rádio: The Brian Jonestown Massacre - Straight Up and Down

A canção eu descobri na vinheta de abertura da série Boardwalk Empire. Das grandes produções da HBO, o seriado se passa na Atlantic City de 1920, bem no começo da proibição do alcool, conta o surgimento dos mafiosos e o fortalecimento das redes de abastecimento ilegal de bebida nos EUA.

Gosto muito da série e da canção. E me peguei revirando a internet atrás de informações sobre a banda que a toca, o que me fez descobrir que, agora, também sou fã de The Brian Jonestown Massacre. Um rock psicodélico mais contemporâneo, bom de ouvir, com variações, bom embalo na guitarra e melodias interessantes. De mais a mais, com um nome desses, The Brian Jonestown Massacre, os caras podiam tocar pagode, e mesmo assim acho que seria interessante:




segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Decadência

Decadência é se encontrar acordado às duas e muitos da madrugada tendo que levantar em três horas para um dia muito puxado de trabalho. Gravação, set, filmagem, demora, espera, atraso, complicações. Decadência é não encontrar sono, a despeito do cansaço. Decadência é jogar baixo, apelar para a última long neck da geladeira, virar a beberagem guela abaixo, na esperança que o alcool me coloque no caminho do sono e deposite meu corpo carcomido nos braços do tal Morfeu, que ele deve saber o que faz. Decadência é virar 600 ml de cerveja importada na esperança do sono que, covarde, foge correndo por essas linhas. Decadência vai ser a segunda-feira zumbi que eu vou levar, coisa de louco, vou te contar.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Rádio: Roy Hamilton - You Can Have Her

Eu tropecei nessa canção jogando Mafia II. Curioso que, diante do fato de que o jogo se passa nos anos 1950, admiti de primeiro instante que se tratasse de mais alguma vibrante música de Elvis Presley - mesmo calculando aí o fato de que a história (você encontra, facilmente, exemplares melhores de games de degradação social por aí, se está afim de uma boa história), segundo lembro, acaba antes do Rei estourar.

E, ao menos no meu caso, qualquer coisa que lembre Elvis Presley presta. Me peguei diversas vezes percorrendo as estações de rádio de Empire Bay, a cidade fictícia do jogo, atrás de Roy e sua "You Can Have Her". Durante boa parte do tempo estava profundamente convencido de que se tratava de Elvis Presley.

Acontece que, não, nada disso, não é Elvis. Os primeiros versos sugerem fortemente a voz de veludo do Rei. Na verdade, trata-se de Roy Hamilton. Trata-se de um cantor negro de rythm n' blues daqueles doidos tempos, na iminência dos anos 1960, e fica fácil entender a razão do seu tímido sucesso, ao menos quando comparado com tanta gente que cantou mais ou menos o mesmo tipo de som com mais ou menos o mesmo tipo de talento na mesma época.

Roy era negro e, mesmo tendo o timbre do Rei do Rock dos anos 1960, nunca fez o mesmo sucesso. O mundo não estava pronto para Roy Hamilton, mas estava para Elvis que, branco, cantava como um negro e tinha repertório firmemente solidificado no convívio com os corais gospel da igreja, com o blues entristecido e com o country, mais alvo, é verdade, mas nem por isso menos autêntico.

Roy fora boxeador durante boa parte da vida e foi morrer no fim dos anos 1960, jovem ainda, vítima de um ataque cardíaco. Deixou filhos, e foi se imortalizar, ao menos nas minhas contas, na trilha sonora do bem mediano Mafia II.