Eu nunca tinha assistido à Clube da Luta. Não por qualquer motivo outro que não fosse falta de tempo, de ocasião ou mesmo interesse. Mas remediei o lapso nesta madrugada e, enfim, vi o cultuado longa de David Fincher, lançado em 1999, estrondoso fracasso de bilheteria, mas um válido sucesso comercial na era do DVD em diante, quando acabou tornando-se um ítem cult para muita gente de minha geração.
De maneira alguma dá para dizer que Clube da Luta seja um filme ruim. Não é. Visualmente agressivo, é difícil encontrar uma composição fotográfica tão ácida ainda em filmes contemporâneos. Brad Pitt e Edward Norton constroem uma relação muito fluída em todo o filme e... é isso.
Não considero, como muitos, que Clube da Luta seja o filme de uma geração. Suas evocações filosóficas, tão cantadas em verso e prosa ao longo dos anos, são de conhecimento mineral. Pedregulhos com algum dissernimento a cada chutadela que levam pelas sarjetas são capazes de relacionar impulsos e niilismo em um mesmo axioma e presumir que grande parte do desastre a que se dá o nome de civilização está nas implicações do modo pela qual as sociedades se organizam.
Modo este que, no filme, se vê reduzido ao consumismo e o círculo de coisas ruins que o orbitam o modus operandi do ato de consumir, como a publicidade, o marketing, a economia, a falsidade da autoridade e a hipocrisia das ideias de posse, governo, de estabilishment. Não há, evidentemente, erro em criticar uma sociedade que se define a partir da data de lançamento do próximo iPhone ou de quais lojas abrirão pelas madrugadas prestando o inefável favor de conceder o mimo tecnológico, por módicos milhares de reais, aos madrugadores.
A questão não é a que se presta a crítica, a questão é o contorno e o discurso que, insisto, estavam bastante desgastados à época do filme. Críticas à sociedade do consumo conviveram em paralelo com o amadurecimento dessa sociedade de consumo a partir do momento que a primeiro pistão à vapor suspirou os estertores da Revolução Industrial. Neste sentido, Clube da Luta é um tremendo mais do mesmo que só encontra eco em mentes onde o repertório de indignação é muito vazio. Em cabeças assim, tem espaço vasto e fértil para se arraigar a ideia de símbolo que o filme acabou granjeando com o tempo.
Para tentar alcançar novidade, o filme exalta a ideia central do livro que lhe deu origem. Os tais clubes de luta que serviriam como válvula de escape e embriões para uma consciência libertária do mundo e do homem na sua relação com a sociedade. A ideia é saborosamente amadurecida no livro de Chuck Palahniuk, mas bem mal e porcamente tecida no filme. Em nenhum momento a relação entre causa e efeito do Clube da Luta dentro da realidade contra a qual o filme discursa fica evidente.
É sensível também a ausência na versão do cinema desta história da tensão sexual que existe entre o narrador sem nome e seu alter-ego. No livro, as duas personagens esgrimem em uma bem marcada dança de atração e fuga. O livro é exemplar (não por acaso Chuck Palahniuk jamais chegou perto de tamanho sucesso em um livro) e qualquer tentativa de transformá-lo em outra mídia teria, e terá sempre, dificuldades enormes.
Clube da Luta não é, portanto, nenhuma novidade em qualquer uma das suas matizes. Nem mesmo o arco final da história, que desfecha a narrativa num confronto final entre narrador e alter-ego revela qualquer ineditismo numa solução para lá de gasta na arte de contar histórias. A surpresa funciona, mas peca pela falta de ineditismo e soa como um tremendo e aborrecido "mais do mesmo".
Com isso tudo digo que Clube da Luta é um filme ruim? De maneira nenhuma. Mas é bem menos bom do que se presume que seja.
Ao meu gosto, se fosse para embandeirar um filme como relicário de minha geração, adotaria sem a menor sombra de dúvida outro título, da mesma época. O Grande Lebowski, dos irmãos Cohen. Não menciono V de Vingança, de 2005, que soa no mesmo diapasão de Clube da Luta por pura honestidade em torno do conceito de geração.
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
Clube da Luta é um filme bem menos bom do que você imagina
às 12:03 3 comentários Marcadores: Cinema, Cultura
domingo, 25 de dezembro de 2011
Natal
Eu admiro profundamente a obra de Sérgio Leone. Diversos posts neste blog referem-se a estima que tenho pelos seus filmes magistrais.
Gosto muito de "Quando Explode a Vingança". Não chega a ser o mais celebrado filme do italiano. Mas eu gosto. Me apaixono pelo roteiro, que fala tão delicadamente de amizade, da improvável amizade que surge entre um bandoleiro mexicano e um revolucionário irlandês.
Adoro a presença de James Coburn no filme. A postura do personagem lembra demais meu pai. O filme em si é exatamente o tipo que prenderia meu pai por horas.
"Quando Explode a Vingança" pode não ser o clássico último do cinema, mas as cenas finais me fazem chorar, me leva a recuperar o luto adormecido, a saudade imorredoura que tenho de meu pai.
Hoje é natal. Acho que foi no primeiro natal em que meu pai faltou que a data perdeu o sentido. Escrevo isso correndo, sem me ater a detalhes, de lágrimas nos olhos, com a certeza de que o texto está ruim.
Está ruim, ainda que sincero, porque Sérgio Leone cutuca lá no fundo aquilo pouco que temos conosco e que define o que somos.
Ver os filmes de Sérgio Leone me faz, de alguma forma, mais humano.
às 17:58 0 comentários Marcadores: Cultura
Discordiano e desmotivacional
Segundo a astronomia, há um relevante lapso de tempo a se considerar quando observamos uma estrela. O que nos chega é a luz que elas emitiram há tantos e tantos anos. São fótons há muito expelidos que nos tocam em nossa retina. O lapso que vale para os astrônomos, vale também para os mais distraídos e sonhadores quando fazem um desejo para uma delas.
Em geral, elas estão a centenas de milhares de anos de distância. Então, é preciso considerar, que ao fazer um desejo a uma estrela ela já pode estar morta.
Assim como todos os seus sonhos.
às 15:41 1 comentários Marcadores: Cosmo por ele mesmo, Desmotivacional, Memórias
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
Idade
Já foi dito que crescer na adolescência é torcer com fervor para que a vida adulta chegue. E que envelhecer é morrer de saudade da indolência da juventude.
às 14:18 0 comentários Marcadores: Memórias
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Caminhando contra o vento
Caminhava pelas sombras com passos incertos e olhava, aturdido, para o que o cercava. Eram letras, palavras, parágrafos. Correndo entre os escolhos que vinham a si feitos de frases, armou-se de um ponto de exclamação ! Uniu na sua extremidade uma interrogação ? Fez uma conjunção dos sinais gráficos, tornou-os um gancho, e assim armado, defendeu-se das torrentes em forma de orações, verbos, substantivos e o que mais for.
Armado, ia colhendo as palavras que vinham a si, como que carregadas pelo sopro de um vento forte. Colocava-as nos bolsos conforme surgiam, elas não pesavam, não tinham dimensão, mas eram. Ainda assim, as palavras logo lotaram suas burras. Transbordaram por todos os lados e sem o menor esforço.
Passou a derrubá-las pelo caminho, deixou-as caídas ao chão e não se importou. Colhia novas palavras a cada novo passo, a cada novo sopro do vento. Começou a colocá-las na mochila que, só agora, dava-se por si de acompanhá-lo. Encheu todos os compartimentos de verbetes. Quando deu por si, carregava nas costas três volumes de Guerra e Paz, um livro de poesias e um pequeno jornal.
às 18:01 0 comentários Marcadores: Memórias
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Revisitando o Guia
O Guia do Mochileiro das Galáxias é o alfarrábio que encerra todo o conhecimento disponível no cosmos. Isso significa que há nele tudo que passou, se passa e ainda se passará no universo.
Há no Guia um tópico dedicado ao porre alcoólico. Cito:
"Vá fundo. E boa sorte".
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Princípios
Princípios estão aí para serem derrubados. Não pensei sempre assim. Acreditei, lá atrás, que amarrar crenças a conceitos e valores absolutamente incontroláveis era necessário para encaminhar as duras, desgastantes e aborrecidas escaladas da vida rumo ao amadurecimento.
Hoje, na verdade, muito dado à bobagem, já admiti que princípios são mutáveis. Chega uma altura na vida em que tudo que o cerca lhe questiona sobre suas crenças e valores. Este momento, que pode suceder da adolescência à terceira idade, divide as criaturas em dois tipos: os que entendem que seus princípios estão sendo questionados e, como resposta se abraçam perdidamente a eles, e outros, mais raros, nos quais timbro muito em me incluir, que em situações deste gênero entendem que a vida, os amigos, as circunstâncias não estão questionando os princípios em si, estão questionando se eles realmente são seus.
Foi assim que relativizei muita coisa na vida. A lista é longa, vai de política aos porres, passa por religiões e figuras que me foram insuportáveis, e passa também pelo amor e a capacidade de trair.
Ah sim, esqueci de dizer que a catarse, porque foi uma, estragou inapelavelmente meu interesse por literatura e desmontou violentamente meu futuro promissor enquanto muito bem estabelecido engenheiro naval/mecânico. E a gente aprende a se abraçar naquilo que sobra.
às 21:57 1 comentários Marcadores: Memórias
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
A criação
É sabido, diversas culturas possuem diversos mitos da criação. O dos católicos, por exemplo, nos diz que um ser cósmico aborreceu-se e criou, de uma tacada, um universo, tendo o descuído de colocar nele antes as plantas e depois a luz. Não se sabe de que maneira sobreviveram as primeiras levas vegetais sem luz para a fotossíntese, mas isso é lá com os teólogos.
O Monstro de Espaguete Voador, divindade a que professo toda a minha fé, criou o mundo a partir de um anão, uma montanha e uma árvore. Os sectários de Shiva defendem que ela engendrou o mundo depois de uma relaxão sexual com outra divindade.
Mas campeões mesmo na alegoria são os pigmeus. À eles a criação se resume a uma corda que desceu dos céus. Por ela, foram descendo os pigmeus. E assim se criou a vida.
Muito perspicazes.
às 19:05 0 comentários Marcadores: Evangelhos
