Na vida, montei uma valente brigada de grandes escritores comandada pelo general José Saramago. A alegoria, bem o sei, traduz mal e porcamente a ideia que é a seguinte: na longa e bem povoada lista de escritores que aprendi a gostar, Saramago reina altaneiro.
De todos os seus livros, negligenciei apenas o de poesias, que o próprio tinha em tão baixa conta. Li todos os seus romances, à exceção de um: "Memorial do Convento".
Foi o acaso que o deixou por último. Mas não pode ser simples acaso o fato de que, nos últimos cinco anos, comecei a lê-lo em várias ocasiões, com diferentes taxas de sucesso e engajamento. Mas em nenhuma delas logrei encerrar a história que conta algo sobre a construção de um convento na cidade de Mafra (a portuguesa, não a catarinense) e alegorias sobre a figura de Bartolomeu de Gusmão, padre brasileiro que voava com balões e inaugurou uma tradição que, uns anos atrás, levou um confrade seu a sumir no oceano, tragado por arrogância, falta de discernimento e uma série de decisões equivocadas.
O fato é que o livro me agrada. Tem o estilo rico e único de Saramago em cada uma de suas páginas (ao menos naquelas que pude ler). Há até uma passagem, em que ele conta o roubo de uma igreja, que me marcou pela alegoria que descreve o balançar de uma lamparina e o som que ela faz quando, em polvorosa, os padres chegam ao altar e o veem completamente desfigurado pela ação do larápio: era como se a lamparina dissesse "em linguagem de arame, foi por pouco, foi por pouco". Saramago é genial.
A realidade de nunca ter conseguido ler "Memorial do Convento" até o fim me perseguia até a epifania que tive hoje. Pode ser que, no fundo, eu mesmo me detenha na leitura para não ter o desgosto de terminar a obra de Saramago. Pode ser um recurso engenhoso do meu subconsciente para impedir essa segunda morte do bom português.
Há forças contra as quais a gente não deve opor muita resistência. O desgaste de ler o primeiro terço do livro, hoje, é tão grande que, acho, me dou por vencido: desisto de ler o "Memorial do Convento" e abro mão de toda e qualquer iniciativa futura de abri-lo novamente com o propósito de navegar até o fim da história.
Assim, ainda que em mim, ainda que confinado aos limites da minha estante, José Saramago ainda vive. José Saramago ainda tem o que dizer. José Saramago ainda há.
sábado, 28 de março de 2015
Livros, futilidade da teimosia e Saramago
às 23:52 0 comentários Marcadores: Cultura, Memórias
sexta-feira, 13 de março de 2015
Udo Kraft
Estava lendo um romance eslavo, ambientado na Primeira Guerra Mundial, que menciona um certo Udo Kraft. Alemão, era professor antes da deflagração do conflito e de tal maneira devotado à ideia de sacrificar o couro ao Kaiser, que publicou o livro "Guia Prático de Como Morrer pelo Imperador". Dito e feito: pouco tempo depois, ainda nas primeiras escaramuças da Grande Guerra, ainda longe da escala industrial que marcaria a máquina de moer gente que foi a guerra de trincheiras, Udo tombou em combate e deu testemunho definitivo do seu livro.
No livro que leio, o tom da anedota é jocoso. Do pouco que li sobre Kraft na internet, tirando a poeira do pouco alemão que eu nunca soube, entendi que, pelo contrário, Udo entendia seu destino de sangrar pelo Kaiser como uma devoção sagrada, como profissão de fé pela lealdade ao trono e a coroa.
Não por acaso, tal comportamento se repete na segunda metade dessa guerra, aquela que começa em 1939. Naquela época, soldados da Wehrmacht juravam não à constituição, ao Reich, à pátria. O juramento era, literal, estrito, ao Füehrer. Para o soldado alemão, o juramento é uma entidade física, um laço que não poderia ser rompido. Não é algo que justifique, obviamente, mas dá margem para compreender o comportamento sanguinário e fanático das hostes nazistas.
às 21:37 0 comentários Marcadores: História
