Na vida, montei uma valente brigada de grandes escritores comandada pelo general José Saramago. A alegoria, bem o sei, traduz mal e porcamente a ideia que é a seguinte: na longa e bem povoada lista de escritores que aprendi a gostar, Saramago reina altaneiro.
De todos os seus livros, negligenciei apenas o de poesias, que o próprio tinha em tão baixa conta. Li todos os seus romances, à exceção de um: "Memorial do Convento".
Foi o acaso que o deixou por último. Mas não pode ser simples acaso o fato de que, nos últimos cinco anos, comecei a lê-lo em várias ocasiões, com diferentes taxas de sucesso e engajamento. Mas em nenhuma delas logrei encerrar a história que conta algo sobre a construção de um convento na cidade de Mafra (a portuguesa, não a catarinense) e alegorias sobre a figura de Bartolomeu de Gusmão, padre brasileiro que voava com balões e inaugurou uma tradição que, uns anos atrás, levou um confrade seu a sumir no oceano, tragado por arrogância, falta de discernimento e uma série de decisões equivocadas.
O fato é que o livro me agrada. Tem o estilo rico e único de Saramago em cada uma de suas páginas (ao menos naquelas que pude ler). Há até uma passagem, em que ele conta o roubo de uma igreja, que me marcou pela alegoria que descreve o balançar de uma lamparina e o som que ela faz quando, em polvorosa, os padres chegam ao altar e o veem completamente desfigurado pela ação do larápio: era como se a lamparina dissesse "em linguagem de arame, foi por pouco, foi por pouco". Saramago é genial.
A realidade de nunca ter conseguido ler "Memorial do Convento" até o fim me perseguia até a epifania que tive hoje. Pode ser que, no fundo, eu mesmo me detenha na leitura para não ter o desgosto de terminar a obra de Saramago. Pode ser um recurso engenhoso do meu subconsciente para impedir essa segunda morte do bom português.
Há forças contra as quais a gente não deve opor muita resistência. O desgaste de ler o primeiro terço do livro, hoje, é tão grande que, acho, me dou por vencido: desisto de ler o "Memorial do Convento" e abro mão de toda e qualquer iniciativa futura de abri-lo novamente com o propósito de navegar até o fim da história.
Assim, ainda que em mim, ainda que confinado aos limites da minha estante, José Saramago ainda vive. José Saramago ainda tem o que dizer. José Saramago ainda há.

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