quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Clube da Luta é um filme bem menos bom do que você imagina

Eu nunca tinha assistido à Clube da Luta. Não por qualquer motivo outro que não fosse falta de tempo, de ocasião ou mesmo interesse. Mas remediei o lapso nesta madrugada e, enfim, vi o cultuado longa de David Fincher, lançado em 1999, estrondoso fracasso de bilheteria, mas um válido sucesso comercial na era do DVD em diante, quando acabou tornando-se um ítem cult para muita gente de minha geração.

De maneira alguma dá para dizer que Clube da Luta seja um filme ruim. Não é. Visualmente agressivo, é difícil encontrar uma composição fotográfica tão ácida ainda em filmes contemporâneos. Brad Pitt e Edward Norton constroem uma relação muito fluída em todo o filme e... é isso.

Não considero, como muitos, que Clube da Luta seja o filme de uma geração. Suas evocações filosóficas, tão cantadas em verso e prosa ao longo dos anos, são de conhecimento mineral. Pedregulhos com algum dissernimento a cada chutadela que levam pelas sarjetas são capazes de relacionar impulsos e niilismo em um mesmo axioma e presumir que grande parte do desastre a que se dá o nome de civilização está nas implicações do modo pela qual as sociedades se organizam.

Modo este que, no filme, se vê reduzido ao consumismo e o círculo de coisas ruins que o orbitam o modus operandi do ato de consumir, como a publicidade, o marketing, a economia, a falsidade da autoridade e a hipocrisia das ideias de posse, governo, de estabilishment. Não há, evidentemente, erro em criticar uma sociedade que se define a partir da data de lançamento do próximo iPhone ou de quais lojas abrirão pelas madrugadas prestando o inefável favor de conceder o mimo tecnológico, por módicos milhares de reais, aos madrugadores.

A questão não é a que se presta a crítica, a questão é o contorno e o discurso que, insisto, estavam bastante desgastados à época do filme. Críticas à sociedade do consumo conviveram em paralelo com o amadurecimento dessa sociedade de consumo a partir do momento que a primeiro pistão à vapor suspirou os estertores da Revolução Industrial. Neste sentido, Clube da Luta é um tremendo mais do mesmo que só encontra eco em mentes onde o repertório de indignação é muito vazio. Em cabeças assim, tem espaço vasto e fértil para se arraigar a ideia de símbolo que o filme acabou granjeando com o tempo.

Para tentar alcançar novidade, o filme exalta a ideia central do livro que lhe deu origem. Os tais clubes de luta que serviriam como válvula de escape e embriões para uma consciência libertária do mundo e do homem na sua relação com a sociedade. A ideia é saborosamente amadurecida no livro de Chuck Palahniuk, mas bem mal e porcamente tecida no filme. Em nenhum momento a relação entre causa e efeito do Clube da Luta dentro da realidade contra a qual o filme discursa fica evidente.

É sensível também a ausência na versão do cinema desta história da tensão sexual que existe entre o narrador sem nome e seu alter-ego. No livro, as duas personagens esgrimem em uma bem marcada dança de atração e fuga. O livro é exemplar (não por acaso Chuck Palahniuk jamais chegou perto de tamanho sucesso em um livro) e qualquer tentativa de transformá-lo em outra mídia teria, e terá sempre, dificuldades enormes.

Clube da Luta não é, portanto, nenhuma novidade em qualquer uma das suas matizes. Nem mesmo o arco final da história, que desfecha a narrativa num confronto final entre narrador e alter-ego revela qualquer ineditismo numa solução para lá de gasta na arte de contar histórias. A surpresa funciona, mas peca pela falta de ineditismo e soa como um tremendo e aborrecido "mais do mesmo".

Com isso tudo digo que Clube da Luta é um filme ruim? De maneira nenhuma. Mas é bem menos bom do que se presume que seja.

Ao meu gosto, se fosse para embandeirar um filme como relicário de minha geração, adotaria sem a menor sombra de dúvida outro título, da mesma época. O Grande Lebowski, dos irmãos Cohen. Não menciono V de Vingança, de 2005, que soa no mesmo diapasão de Clube da Luta por pura honestidade em torno do conceito de geração.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Natal

Eu admiro profundamente a obra de Sérgio Leone. Diversos posts neste blog referem-se a estima que tenho pelos seus filmes magistrais.

Gosto muito de "Quando Explode a Vingança". Não chega a ser o mais celebrado filme do italiano. Mas eu gosto. Me apaixono pelo roteiro, que fala tão delicadamente de amizade, da improvável amizade que surge entre um bandoleiro mexicano e um revolucionário irlandês.

Adoro a presença de James Coburn no filme. A postura do personagem lembra demais meu pai. O filme em si é exatamente o tipo que prenderia meu pai por horas.

"Quando Explode a Vingança" pode não ser o clássico último do cinema, mas as cenas finais me fazem chorar, me leva a recuperar o luto adormecido, a saudade imorredoura que tenho de meu pai.

Hoje é natal. Acho que foi no primeiro natal em que meu pai faltou que a data perdeu o sentido. Escrevo isso correndo, sem me ater a detalhes, de lágrimas nos olhos, com a certeza de que o texto está ruim.

Está ruim, ainda que sincero, porque Sérgio Leone cutuca lá no fundo aquilo pouco que temos conosco e que define o que somos.

Ver os filmes de Sérgio Leone me faz, de alguma forma, mais humano.

Discordiano e desmotivacional

Segundo a astronomia, há um relevante lapso de tempo a se considerar quando observamos uma estrela. O que nos chega é a luz que elas emitiram há tantos e tantos anos. São fótons há muito expelidos que nos tocam em nossa retina. O lapso que vale para os astrônomos, vale também para os mais distraídos e sonhadores quando fazem um desejo para uma delas.

Em geral, elas estão a centenas de milhares de anos de distância. Então, é preciso considerar, que ao fazer um desejo a uma estrela ela já pode estar morta.

Assim como todos os seus sonhos.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Idade

Já foi dito que crescer na adolescência é torcer com fervor para que a vida adulta chegue. E que envelhecer é morrer de saudade da indolência da juventude.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Caminhando contra o vento

Caminhava pelas sombras com passos incertos e olhava, aturdido, para o que o cercava. Eram letras, palavras, parágrafos. Correndo entre os escolhos que vinham a si feitos de frases, armou-se de um ponto de exclamação ! Uniu na sua extremidade uma interrogação ? Fez uma conjunção dos sinais gráficos, tornou-os um gancho, e assim armado, defendeu-se das torrentes em forma de orações, verbos, substantivos e o que mais for.

Armado, ia colhendo as palavras que vinham a si, como que carregadas pelo sopro de um vento forte. Colocava-as nos bolsos conforme surgiam, elas não pesavam, não tinham dimensão, mas eram. Ainda assim, as palavras logo lotaram suas burras. Transbordaram por todos os lados e sem o menor esforço.

Passou a derrubá-las pelo caminho, deixou-as caídas ao chão e não se importou. Colhia novas palavras a cada novo passo, a cada novo sopro do vento. Começou a colocá-las na mochila que, só agora, dava-se por si de acompanhá-lo. Encheu todos os compartimentos de verbetes. Quando deu por si, carregava nas costas três volumes de Guerra e Paz, um livro de poesias e um pequeno jornal.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Revisitando o Guia

O Guia do Mochileiro das Galáxias é o alfarrábio que encerra todo o conhecimento disponível no cosmos. Isso significa que há nele tudo que passou, se passa e ainda se passará no universo.

Há no Guia um tópico dedicado ao porre alcoólico. Cito:

"Vá fundo. E boa sorte".

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Princípios

Princípios estão aí para serem derrubados. Não pensei sempre assim. Acreditei, lá atrás, que amarrar crenças a conceitos e valores absolutamente incontroláveis era necessário para encaminhar as duras, desgastantes e aborrecidas escaladas da vida rumo ao amadurecimento.

Hoje, na verdade, muito dado à bobagem, já admiti que princípios são mutáveis. Chega uma altura na vida em que tudo que o cerca lhe questiona sobre suas crenças e valores. Este momento, que pode suceder da adolescência à terceira idade, divide as criaturas em dois tipos: os que entendem que seus princípios estão sendo questionados e, como resposta se abraçam perdidamente a eles, e outros, mais raros, nos quais timbro muito em me incluir, que em situações deste gênero entendem que a vida, os amigos, as circunstâncias não estão questionando os princípios em si, estão questionando se eles realmente são seus.

Foi assim que relativizei muita coisa na vida. A lista é longa, vai de política aos porres, passa por religiões e figuras que me foram insuportáveis, e passa também pelo amor e a capacidade de trair.

Ah sim, esqueci de dizer que a catarse, porque foi uma, estragou inapelavelmente meu interesse por literatura e desmontou violentamente meu futuro promissor enquanto muito bem estabelecido engenheiro naval/mecânico. E a gente aprende a se abraçar naquilo que sobra.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

A criação

É sabido, diversas culturas possuem diversos mitos da criação. O dos católicos, por exemplo, nos diz que um ser cósmico aborreceu-se e criou, de uma tacada, um universo, tendo o descuído de colocar nele antes as plantas e depois a luz. Não se sabe de que maneira sobreviveram as primeiras levas vegetais sem luz para a fotossíntese, mas isso é lá com os teólogos.

O Monstro de Espaguete Voador, divindade a que professo toda a minha fé, criou o mundo a partir de um anão, uma montanha e uma árvore. Os sectários de Shiva defendem que ela engendrou o mundo depois de uma relaxão sexual com outra divindade.

Mas campeões mesmo na alegoria são os pigmeus. À eles a criação se resume a uma corda que desceu dos céus. Por ela, foram descendo os pigmeus. E assim se criou a vida.

Muito perspicazes.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Design inteligente

Fanáticos religiosos importunam a todos com a sua concepção de que o nosso universo é fruto da criação inspirada e precisa de alguma divindade. Inclusive têm a pachorra de classificar a criação como "design inteligente". Discordo.

Por exemplo, dos oito planetas que conhecemos, sete não podem suster a vida humana. Para além disso, a esmagadora maioria do universo é hostil à vida: em lugares assim você morreria instantaneamente por fatores físicos, como calor, frio, pressão e radiação. E, mesmo assim, em geral, os religiosos gostam de dizer que a "precisa sintonia das forças que desenham nosso universo é prova de existência de deus".

Além disso, estrelas estouram em supernovas e se você estiver na mira da ejeção de radiação gama, você será torrado. Nossa galáxia está em rota de colisão com Andromeda, galáxia vizinha. O universo, devido as leis da termodinâmica, está em vias de se resfriar até que tudo seja frio e escuro (isso se desontarmos outras possibilidades teóricas igualmente catastróficas).

Isso apenas no universo.

Centrando o foco na Terra, você precisa encarar o fato de que o design inteligente desenhou um planeta que oferece apenas 2/3 de sua superfície para os humanos habitarem. Para além disso, o planeta é assolado por fenômenos naturais e apresenta um eixo demasiadamente inclinado.

Prova da inadequação deste planeta à vida está o fato de que aproximadamente 90% das criaturas que um dia viveram no planeta estão extintas. Além de tudo, este planeta levou 3.5 bilhões de anos para criar vida multicelular. Estima-se que a Terra tenha 4.6 bilhões de anos. Não é, portanto, um projeto que esbanja eficiência.

E isso tratando superficialmente do nosso planeta.

Há, claro, nós, humanos. O triunfo da criação. Religiosos costumam vibrar ao reconhecer a genialidade e o verdadeiro assombro de engenharia e complexidade que permite o olho humano funcionar. Mas, alguém aí enxerga em infra-vermelho? Em ultra-violeta? Raio-X?

Todos estes termos significam espectros de luz que nos são invisíveis, mas que existem. São tão luz como a que emana da tela de seu computador agora. A rigor, enxergamos uma parcela vergonhosamente exígua do espectro de luz e somos, proporcionalmente, tão cegos quanto um morcego, levando em conta a quantidade de luz que nos escapa.

Além disso, precisamos nos alimentar com enorme frequência. Um jacaré, por exemplo, come um coelho por mês e sobrevive sem precisar se alimentar novamente. Uma criatura que precisa de cinco refeições por dia é eficiente? É fruto de um design inteligente?

Comemos, respiramos e falamos por um único buraco. Esta falha de engenharia garante que uma considerável quantia de nós engasgue e morra todos os anos. Golfinhos, por exemplo, possuem uma via para cada atividade: alimentação, respiração e comunicação.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O horror, o horror

Na noite de ontem em São Paulo. Um motorista foi vítima de um mal súbito e, em decorrência, o ônibus desgovernado que conduzia atingiu três veículos, três motos e um rapaz. Ele foi linchado até a morte por uma turma que estava em uma festa próxima ao local do acidente. Ninguém foi preso e desconfio que, procurando bem, em alguma rede social você vai encontrar algum protozoário vibrando por ter participado do massacre.

É este o admirável mundo velho em que vivemos.

Desistir é viver

Há uns dias eu disse a colegas de trabalho que viver e crescer é desistir das coisas. Que numa maternidade você encontra gênios em potencial. A rigor, cada bebê pode ser o próximo grande físico que dará respostas a origem de tudo, o biólogo que esclarecerá a origem da vida, o músico que irá significar um novo paradigma na música, na mesma medida em que Mozart fez. Mas que por uma série de razões e contingências, todos vamos desistindo na vida, abrimos mão de uma porção de coisas em que temos um verdadeiro talento, sequer descobrimos outros tantos e nos acostumamos com a vida mais ou menos lobotizada, a existência mais ou menos ordenada que a maioria das pessoas leva. Desistimos e nos agarramos naquilo que sobra.

Pode não ser a visão mais afirmativa da vida possível, mas quem disse que a vida precisa ser afirmativa? O bastante fato de você estar lendo este texto já é em si uma ridicularia estatística. O raciocínio foi recebido com riso, fui chamado de pessimista. Passaram uns dias, e a provocação frutificou nos incautos, que hoje dão razão a esta percepção que, a rigor, não acredito que seja minha. Devo tê-la visto, lido por aí.

E mesmo que seja fruto verdadeiro das minhas ponderações e observações, recuso-me a reclamar a paternidade do insight. Acredito que é senso comum estender nosso inúmeros fracassos, o longo processo de tentativa e erro, mais erro que tentativa em alguns casos, que acaba nos transformando naquilo que somos.

Se eu tivesse tempo de conversar mais com eles sobre o assunto, teria exposto que embora bem pouco triunfal, a ideia do fracasso como agente modelador da nossa vida não é, em si, algo triste. Se somos uma ridicularia estatística que veio a respirar e viver, então, de alguma forma, somos um triunfo.

Explico: remontando geração atrás de geração, a ordem exata de eventos e circunstâncias que garantiu a linhagem da qual você descende, a exata seleção de cada porção de DNA das mulheres e homens que deram origem a cada ancestral seu, o fato também assustadoramente raro de um amontoado de carbono e água pensar, escrever e ler é, em si, um triunfo da estatística sobre a matemática fria. As possibilidades de que você exista são ridículas: fosse pela vontade matemática, você não estaria aqui.

Mas isso não exclui o fato de que, mesmo improváveis, passemos a vida de desistência em desistência. No caso de o seu coração ser fraco demais para enxergar uma vida sem deus, redenção da alma e a dureza das desistências que constroem o seu futuro, ora, olhe para a improbabilidade da vida, da consciência e do absurdo do viver.

A vida, o universo e tudo mais

Quando você ouvir falar de "teoria das cordas", membranas e coisas do gênero e não conseguir condensar uma imagem mental da abstração de 10 dimensões espaciais, de membranas tridimensionais que dão existência, se não mesmo sentido, às coisas, lembre dessa imagem. É mais ou menos isso, mas elevado a um nível de complexidade e beleza que estouram os neurônios no duro processo de imaginar a coisa toda.

Meu antigo exemplo era de hélices girando, que possuem em suas extremidades, outras hélices girando. Todas elas rotacionando juntas formariam um sólido bizarro que é a tradução de múltiplas dimensões como instâncias da realidade. É, eu sei, meu exemplo é uma merda.

sábado, 26 de novembro de 2011

Brother

É curioso. Meu irmão está na Alemanha e, só agora, quando ele está longe é que ele está mais perto. Saudade é bom.

Rumo à Marte

Hoje a NASA mandou para o espaço a MSL, Mars Science Laboratory. É uma complexa unidade que consiste em um jipe, e que vai ao planeta descobrir, afinal, o que há por lá.

Só isso já é um fato interessante. Mas o que é bem legal na história toda é o fato de que a MSL leva um pouco deste Tertuliano ao planeta vermelho. A NASA convidou pessoas do mundo inteiro a escreverem seus nomes em seu site. Estes nomes foram condensados em um microchip e ficarão no planeta vermelho até que alguém pise lá para buscá-los.

É, provavelmente, o único pedaço meu que extrapolará os limites deste planeta.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Aforismos - Desafios a Jesus

Jesus caminha por sobre as águas. Grandes bostas. Quero ver é nadar na terra.

sábado, 19 de novembro de 2011

Conspiracy

Alías, o que é mais belo no som de Willard Grant Conspiracy é a leveza e despretensão. É como se a "insustentável leveza do ser" bastasse para uma bem acabada descrição das canções que embalam sentimentos verdadeiros, se não mesmo pueris, na voz grave, marcada e ornada por violão, violino e um senso de sobriedade que é quase intangível.

Willard Grant Conspiracy não é uma banda, sequer é um único músico. É um coletivo de músicos que, ao longo dos anos, já foi vivido por muita gente boa. O único membro fixo é Fisher, que dá vida às canções. Fisher chega a dizer que "se você diz que toca no Willard Grant Conspiracy, você toca". Em inglês a frase soa melhor.

E é mais ou menos por aí. Willard provavelmente nunca desembarcará no boteco da esquina para que eu vá lá prestigiar o show. Desta forma, o melhor que posso, é me apropriar das canções, dar a elas os meus sentidos e dizer que, de uma maneira ou de outra, eu também toco no Willard Grant Conspiracy.

Como aliás, fazemos todos.

Rádio: Willard Grant Conspiracy - Another Lonely Night

Esta é provavelmente uma das canções mais lindas do sólido repertório de Robert Fisher e seu coletivo. Aliás, no que me diz respeito, é uma das mais belas de todos os tempos.

Another Lonely Night by Willard Grant Conspiracy on Grooveshark

Rádio: Willard Grant Conspiracy - From a Distant Shore

É bem difícil encontrar uma sintonia tão fina entre música, voz, som e visual:

"Give me hope, give me light, let the dawn follow the night, I still awake until nothing left to see"


sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Rádio: Creedence Clearwater Revival - Fortunate Son

Direto do Call of Duty Black Ops para seus corações:

Fortunate Son by Creedence Clearwater Revival on Grooveshark

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Dia D

Eu nunca fui muito Drummond. Verdade que gosto de muitos poeminhas do gentil mineiro, mas verdade seja dita, ele é feliz demais. Assim como Quintana, que no entanto, é mais sensível. Sou mais Nicanor Parra, Vinícius, Eugénio de Andrade, Benedetti. Eu sempre fui um melodrama do Alexandre Dumas lamentando o tremendo azar de nascer uns 200 anos atrasado.

O fato de eu ser menos gauche na vida, no entanto, não impede que venha aqui hoje, no dia em que o genial Drummond faria 109 anos - dia escolhido para o Dia D: Dia de Drummond - publicar, ou neste caso republicar, mais um poema de minha lamentável lavra:


Droit na vida

E quando eu nasci
um desses anjos de sombra,
veio e me disse:

se droit na vida, campeão
tá aqui esse déizão,
vai na padaria,
me compra uma pinga,
cigarro da tabacaria,
e traz o resto em dadinho.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

27 anos sem graça

Na iminência de completar 27 anos, ou cometê-los, sempre questão de ponto de vista, o que mais me aborrece é não ter uma canção para celebrar, se há o quê, mais uma vez questão de ponto de vista, a data e o ano vindouro onde terei de me conformar em dizer que tenho não 25, não 26, mas 27 anos.

E isso tudo sem entrar no mérito do capítulo de realizações deste 1/4 de século mais dois anos. Mas apenas a título de comparação, é interessante constar que Alexandre, O Grande, aos 25, já tinha conquistado todo o mundo conhecido, o que era realmente muita coisa. Não que eu tenha qualquer desejo do tipo de governar o mundo, dou-me por enormemente satisfeito por governar, ser a lei, senhor de 55 metros quadrados onde cabem todo o meu mundo conhecido. Talvez o problema seja esse: falta de ambição para conquistar o mundo.

Deixando esta querela de lado, o que realmente me aborrece é a ausência de canções para rematar a nova idade. Aos 25 anos eu tinha "A Palo Seco" de Belchior para gritar que contava "25 anos de sonho, de sangue e de América do Sul". Me desfiz dos 25 anos e me encontrei com o Tremendão, que diz "26 Anos de Vida Normal".

Diante da inexistência de verso que abarque estes 27 anos, inicio a aproximação final da data sem muita gana de festar e muito preocupado por romper a tradição de uma canção para cada aniversário. Cismo muito com mudanças que sou obrigado a fazer à revelia. Me pelo de medo delas. Aliás, as três coisas que mais temo na vida são: dinossauros, juros e mudanças.

Fazer 27 anos não tem, até aqui, a menor graça.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Rádio: Belchior - Tudo Outra Vez

"É o fim do termo saudade como charme brasileiro..."

Como mariposas

As mariposas, que começam a irromper a valer por esses dias conforme o tempo aquece, se atraem pela luz e calor das fogueiras. Talvez, lá no fundo, no âmago do seus bulbos que fazem às vezes de cérebros, elas saibam que o fulgor daquela luz toda, que o calor que ondeia pelo ar e lhes atrai o voo vai destruí-las, mas ainda assim elas seguem resolutas em direção da força que as irá consumir de maneira inapelável, num voo que de lá não sai chamuscado, mas sim consumido. Esse sou eu com as mulheres.

domingo, 23 de outubro de 2011

Dúvida tecnológica

Upgrade intenso do PC ou notebook novo?

domingo, 16 de outubro de 2011

Mercados

Vemos aí o gestar de um novo tempo. Jovens, velhos, sonhadores e gente comum, tão importante e heroica quanto os demais, se revoltam em todo o globo contra o despotismo esclarecido exercido por financistas e sua capacidade homérica de gerar riqueza e nos empobrecer, gente normal, no processo.

Não se sabe se os protestos e o despertar de uma gente, sobretudo em países mais avançados, acostumada ao guarda-chuva eficiente do estado de bem-estar contra o financismo dos mercados vá dar em alguma coisa, em um sistema mais justo e estabelecido no real da economia. São pessoas que sentem na carne o apertar de cintos que FMIs e "mercados" orientam no momento de crise. Eles não querem perder direitos, não se sentem felizes com a hipótese de perda de qualidade no serviço público e, só agora, sentem o desgosto que foi ser brasileiro em boa parte dos últimos 30, 35 anos.

É um povo revoltado e disperto contra a ameaça do financismo que desmontou o mundo nos últimos vinte anos e fortaleceu o pináculo da pirâmide social, onde equilibram-se faceiros os tubarões de Wall Street e adjascências na falida "aldeia global".

Que venha, pois, este admirável mundo novo. Sem as alavancagens mirabolantes que, na calada da noite, resolvem a sorte de famílias, empresas, países. Sem a venda de "papéis". Sem a ilusão de um dinheiro que não se paga e se multiplica na ganância ilimitada de uma gente que devota sua vida a multiplicar e não a fazer. O que não é demérito. Demérito é nos empobrecer a todos, inofensivos, que desejamos da vida um tanto de conforto e outro tanto de dignidade. Eles multiplicam bits em um computador que não existem em cofre algum, mas podem ser sacados em qualquer caixa num processo exclusivo por natureza e nada edificante, como a sucessão de bancarrotas e empobrecimento coletivo no primeiro mundo e na Europa não cansam de atestar.

O processo todo de debacle do capitalismo, não diga, nasce da cobiça que moldou a perversão humanística que veio a ser chamada de neoliberalismo. Nos países vergastados pela atual fuga de crédito a origem dos problemas está na pólvora que se converteu o financiamento imobiliário. A intenção, vá lá, não era ruim. A ideia era dar condições a mais ou menos qualquer um de bancar, via crédito, a morada da sua vida, a casa própria.

O problema é que dívida, de estados, países e pessoas, pode ser um bom negócio. É lucrativo ser credor quando a perspectiva de ser pago em dia, e com os juros acordados, é boa. Só que ao vender crédito a praticamente todo mundo, você abre mão de garantias sólidas, porque os mais pobres podem ter problema para pagar. E quando eles não pagam, e você é credor de uma multidão de gente que não paga.

Mas antes de isso ser necessáriamente um problema, a oferta crescente de imóveis, acelerada pelo crédito imobiliário barato e irrestrito, não para de subir. Assim como os preços. Então você compra uma casa que não pode pagar em hipótese alguma - e normalmente o banco sabe disso. Passam os meses, e ela vale mais do que o valor que você está pagando. Então compensa vendê-la para outro idiota financiar, pagar sua dívida original com o dinheiro da venda e embolsar o lucro. Dois problemas disso: idiotas são um recurso vasto, porém limitado. E a dívida só muda de mãos, um dia ela quebra um idiota que não encontra comprador para o imóvel e os bancos porque perdem a perspectiva de serem pagos. Olhos abertos, porque no Brasil algo muito semelhante está em curso.

E quem conserta a monumental cagada é o estado. Ou ao menos ele tenda algo assim, como tentou em 2008. E claro que não dá certo, porque a saída dos governos, incapazes de peitar os financistas que, em última análise, os colocaram no poder, é jogar dinheiro novo nos bancos que, claro, irão aspirá-lo em vigorosos haustos com os quais continuarão soprando ar no balão que se chama crédito.

Isso se explica porque os principais bancos do mundo, lotados nos EUA ou com negócios lá, comemoram uma década de liberação de um freio legal que os impedia de usar dinheiro de correntistas em operações de alavancagem (é a mágica que bancos fazem para multiplicar dinheiro e emprestá-lo ao mercado). Isso insuflou essa bolha que, hoje, paira sobre nossas cabeças e ao estourar há de nos consumir todos.

O grande problema de um panorama deste está em não nascer daí uma catarse. De se derrubar o edifício do capitalismo, minando na mesma hecatombe as fundações da democracia, que é bem ruim, mas é o que de melhor temos. Abrir mão do capitalismo financista não é ruim. Perder a liberdade e o direito de escolha, é muito ruim. Um cenário em que as sociedades confrontadas com a ameaça de perda de direitos garantidos há décadas busquem guarita em velhos, mofados e empoeirados discursos da velha direita radical. É um risco que já se verificou na aurora do século passado e que resultou, ao menos diretamente, em 60 milhões de mortos na Segunda Guerra Mundial. Isso descontados os tantos milhões que pereceram em escaramuças paralelas e menos relatadas na Manchúria, no Oriente Médio, na África. Não se admira que da porção dos 60 milhões aniquilados estejam notoriamente o holocausto judeu que são reconhecidos, como eram naquele tempo, como notáveis financistas.

O mundo precisa aprender a inverter a lógica do dinheiro. A mantê-lo como meio de troca e intermediação de negócios, o que pressupõe sua escassez, mas impedir que seja ferramenta de dissolução de valor real, de emprego, de dignidade, de sonhos e de vida de tanta gente que, cansada, confronta-se com o noticiário de nova crise com um sorriso triste no rosto de quem diz "mais uma vez e até quando?"

Só o tempo vai dizer. Temos Wikileaks, Anonymous, Occupy Wall Street e o Democracia Yá!. São movimentos vigorosos e de grande repercussão que ajudam na marcha em direção a uma revisão da desgraça de mundo que fomos capazes de criar. Eu espero o triunfo das pessoas normais, mas não posso deixar de fazer eco das palavras do penseroso filósofo eslavo Slavoj Zizek que, em visita ao protesto contra Wall Street nos diz:

"A única coisa que eu temo é que algum dia vamos todos voltar para casa, e vamos voltar a encontrar-nos uma vez por ano, para beber cerveja e recordar nostalgicamente como foi bom o tempo que passámos aqui. Prometam que não vai ser assim".

É preciso, no resumo, saber querer. E não ter medo de querer um mundo um pouco melhor. 

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Medos e soluções

Morro de medo de duas coisas na vida: dinossauros e juros. Quanto aos primeiros, não posso fazer muita coisa. Quanto aos juros, bem, chegou a hora. De agora para frente não. Chega de ser fodido pelos juros, é hora de fodê-los.

domingo, 2 de outubro de 2011

Planos

E se nada disso der certo?

Bem, eu sempre posso voltar a viver como um ser primitivo, sem escovar os dentes, pentear os cabelos, aparar a barba, bebendo como maluco, urrando pelas ruas e comendo comida estragada. 

sábado, 24 de setembro de 2011

Rádio: Mark Lanegan - Strange Religion

Para os amores impossíveis:


 

Aforismos - Fé 3

A fé remove montanhas, mas eu prefiro a dinamite.

sábado, 10 de setembro de 2011

Canhão e couraça

A Batalha do Prata, travada no alvorescer de 13 de dezembro de 1939 foi o primeiro confronto naval relevante da Segunda Guerra Mundial, na embocadura do Rio da Prata, perto de Montevidéu, e opôs um encouraçado de bolso, o Admiral Graf Spee, a uma pequena força-tarefa inglesa, comandada pelo então comodoro Henry Harwood, que compunha-se de três cruzadores leves, o Achilles, o Ajax e o Exeter.

Foi a última batalha naval da história nos moldes clássicos deste quilate de confronto bélico: o embate entre o canhão e a couraça, sem mísseis e dispositivos eletrônicos, sem radares, sem submarinos, monitoramento via satélite, aviões espiões não tripulados.

Os britânicos venceram, sobretudo pela boa antecipação dos movimentos do inimigo de Harwood, pela vantagem de número, 3 vs 1, e pelo destino, que sempre significa a sorte de esquadrilhas, pelotões e naves de guerra. Os canhoaços do Graf Spee, de assombrosas 11 polegadas, castigaram o mais que puderam o Exeter, fortemente danificado no embate. As armas de menor calibre do navio germânico vergastavam como podiam o Ajax e o Achilles, conforme estes se moviam e, por seu lado, concentravam o fogo nos alemães.

O confronto arrebentou a valer o Graf Spee, que vitimado por uma rajada certeira vinda provavelmente do Exeter, teve à proa o casco perfurado metros acima da linha de flutuação. A avaria se sentia grave na medida que se acelerava a nave a alto mar: as grandes ondas que o esguio casco do navio precisava cortar acabavam entrando pelo buraco sem a menor cerimônia. Sem reparo no casco, o Graf Spee não poderia correr em mar alto, sob pena de acabar afundado. Este tiro selou o destino do encouraçado de bolso germânico que, ferido de morte, precisou negar fogo e refugiar-se no porto de Montevidéu.

Foram dadas 72 horas para o Graf Spee deixar seus 36 tripulantes mortos e 60 feridos em terra e fazer-se ao mar em virtude da neutralidade do Uruguai em relação ao conflito. Ciente de que a matilha lhe esperava a lamber os beiços a poucas milhas, o capitão do Graf Spee, Hans Langsdorff, com um navio manco, não teve outro recurso que abandonar o porto, levar o navio além das águas territoriais do Uruguai e o afundá-lo, suicidando-se dias depois, com a segurança de sua tripulação garantida em Buenos Aires.

Graf Spee era o nome do valente almirante imperial da Alemanha na Primeira Guerra Mundial, campeão da batalha de Coronel - escaramuça travada ao largo da costa do Chile - em que sua esquadra desmantelara os rivais britânicos, em 1 de novembro de 1914, custando à sua majestade a perda de 1570 homens e dois cruzadores, Monmouth e Good Hope. Os alemães contaram em seus diversos vasos de guerra apenas três feridos.

Em 14 de dezembro de 1914, mais de um mês depois, a esquadra de Graf Spee encontrou-se com o destino e com o inimigo, mais uma vez, desta feita perto das ilhas Malvinas. A Batalha das Malvinas selou a derrota de Spee, que perecera no confronto em companhia dos dois filhos, que serivam como oficiais em navios da sua esquadra. É irônico, porque Coronel foi um dos primeiros confrontos navais da Primeira Guerra, vencida por Spee, que morreria no Atlântico Sul, perto das Malvinas, em 14 de dezembro de 1914. Em 1939, na véspera do aniversário de 25 anos destes sucessos, um Graf Spee, desta vez o navio que levava seu nome, sofreria o mesmo destino, também em uma das primeiras batalhas navais da guerra, em águas próximas do local onde o almirante Spee morrera.

Churchill precisava de uma vitória e fez um tremendo carnaval com o sucesso de seus cruzadores no Atlântico, ele que, àquela altura, ainda não assumira o gabinete e era então o Primeiro Lorde do Almirantado, função equivalente ao que seria o Ministro da Marinha na época em que o Brasil dispunha de ministérios separados e exclusivos a cada uma de suas forças bélicas. Sucesso que seria seguido pelo clamoroso desastre da campanha da Noruega, que abreviou o governo de Chamberlain, colocou Churchill no cargo de primeiro ministro, logo ele, responsável maior pelo malogro e pela aventura na costa norueguesa.

Na Alemanha, o desgosto pelo insucesso do Graf Spee reafirmou o velho conceito de que travar a guerra em mar alto com naves e táticas convencionais era atalho para um retumbante fracasso, conforme amargamente demonstrara a campanha naval da Marinha Imperial Alemã na Primeira Guerra Mundial. Em virtude disso, passaram boa parte da guerra estaleirados e ancorados em águas alemãs os grandes encouraçados e cruzadores que haviam sido armados com enorme criatividade no sentido de não derrubar as cláusulas do Tratado de Versalhes e que deviam ser os sequazes de Hitler na guerra do mar. Foram desencorajados projetos de superfície, como o porta-aviões Graf Zeppelin, que jamais foi concluído pelos nazistas e serviu, depois da guerra, como elemento de prática de tiro naval à marinha soviética.

Desencorajadas as ações de superfície e confinada a marinha nazista a seus portos, ganhou respaldo e incentivo o Almirante Doenitz, a quem agastava violentamente o investimento feito em navios de superfície, caros e de menor mobilidade, se comparados aos submarinos, que a Alemanha fabricou em ritmo assustador durante boa parte da guerra. A noção de mobilidade e agilidade destes meios navais aos quais os britânicos não estavam bem preparados para enfrentar, soberanos que eram na superfície dos mares nos últimos 300 anos, foi quase decisiva no resultado da guerra. Em certa altura, os u-boats alemães afundavam mais navios do que era capaz a Inglaterra de repor. Churchill admitiria, anos depois, que só temeu perder a guerra para as matilhas de submarinos germânicos que vergastavam as rotas navais e causavam prejuízos quase insustentáveis ao país e, especialmente, ao esforço de guerra.



Este texto caiu-me dia desses de um livro que coloquei na estante. Era um manuscrito muito semelhante, só fiz breves correções e pequenas adições de conteúdo. Fora uma dissertação que eu escrevera no tempo em que sonhava em entrar para o Colégio Naval e seguir carreira na Marinha do Brasil. O que só prova que a pré-adolescência é a mãe de todas as péssimas ideias.

domingo, 4 de setembro de 2011

Meus projetos

Um dia terei dois veleiros e todo o tempo disponível para, em alto mar, me aborrecer enormemente dentro deles. Ou ao menos dentro do maior, que batizarei de Hornblower. O menor, para passeios costeiros mais inconsequentes e adestramento conveniente nas artes da marinharia, será o Papillon. Ou Sputnik, há ainda disputas para se resolverem nesse quesito. Papillon é borboleta em francês, mas acima de tudo, recorda o filme homônimo de 1973, com Steve McQueen e Dustin Hoffman. O personagem de Steve é Papillon, um sujeito absolutamente obcecado com a ideia de liberdade, tal qual seria eu dentro de um veleiro com 7 mares e todos os oceanos para desbravar. E que além disso, ao fim do filme, foge de uma ilha flutuando num pontão feito de barris. Sputnik significa em russo amigo. É também o nome do primeiro satélite artificial que o homem lançou ao espaço, e assim seria eu com meu veleiro, minha primeira excursão em um outro mundo, esse das abissais distâncias, dos perigos e das veredas intermináveis dos oceanos.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Uma ideia na mão e uma câmera na cabeça

E uma ideia sensacional. Descobri a história visitando um de meus blogues preferidos, conduzido por Flávio Gomes. Trata-se de um filme francês de 1976, "C'était un rendez vous", que em libérrima e desavergonhada tradução dá em "Foi um encontro", um curta, realizado por Claude Lelouch em 1976.



Assistiu? Pois é, é o limite da irresponsabilidade e da arte. Deu cadeia, inclusive, quando o filme foi lançado e ia devidamente assinado por Lelouch, que como todo o artista, fez absoluta questão de vincular seu nome ao filme/crime.

A cidade, supondo que você não a tenha identificado, é Paris. Às 5 da madrugada. O carro, uma Mercedes 450SEL, dublada por uma Ferrari 276 GTB. A bordo, dois assistentes de audio apavorados, uma câmera no para-choques e um Claude Lelouch muito louco na boléia. Ele confessou que teve a ideia ao longo daquela noite, e homem de ação que é, não postergou nada, saiu alucinado pelas ruas de Paris para fazer seu curta de um take.

É genial. Mas é irresponsabilidade. Alguém poderia ter se machucado. Há lugares para doidos como esses na nossa sociedade, e eles não são dotados de um motor a explosão e de um volante. Mas Lelouch fez o filme pelo cinema, pela arte. Alguém poderia argumentar que Mengele pintava olhos castanhos de azul com tinta em nome de uma concepção estética também da vida, e nem por isso era menos monstro.

Vendo o curta, não pude deixar de lembrar do caso do sujeito maluco que arrancou com o automóvel para cima de uma multidão de ciclistas em Porto Alegre no começo do ano. A rigor, os exageros de Lelouch e do gaúcho são iguais: irresponsabilidades ao volante, a intenção manifesta de transgredir e, com isso, colocar a vida de outros em risco. Crimes, no resumo.

Mas é curioso. No caso de Lelouch, não canso de achar a inutilidade genial - o filme é inútil. Mas é transgressor, coloca um conceito em cheque e isso, mais ou menos, é o resumo da arte pós-moderna, a ideia de reiventar e colocar tudo em questão, de ruptura. E para quem gosta de carros e de simuladores, onde pode libertar o Lelouch que há dentro de você, a ideia de percorrer uma cidade como se não houvesse amanhã não deixa de parecer sensacional.

É, também, um sinal dos tempos. Hoje, na era do politicamente correto, há limites auto-impostos muito mais severos no que tange o que pode ou não ser arte. Não vivemos em tempos de um Claude Lelouch. Qualquer cineasta contemporâneo, com uma ideia tão irresponsável quanto, seguramente pensaria duas vezes antes de colocá-la em prática. E isso faz de "C'était un rendez vous" um filme ainda mais adorável. O olhamos como um resumo de um tempo onde indignação, insatisfações e frustrações diversas encontravam o solo fértil da arte e ali frutificavam e, falo por mim, lamentamos que já não seja assim. Eram tempos diferentes. Vivemos tempos de maus filmes e de uma moral duvidosa, que berra por liberdade de expressão à toda esquina, mas te crucifica se você fizer uma piada de gosto duvidoso. O gosto, o filme, o livro, tudo pode ser de gosto questionável na arte. E deve ser questionável. O que não pode é ser proíbido. 

Por fim, o grande barato deste filme é dividir as pessoas entre aquelas que invejam o passeio de Lelouch e as que o execram. Eu o invejo.

sábado, 27 de agosto de 2011

Desmontando a onifodeza: breve guia de combate ao deus absoluto

Deus é, antes de tudo, um conceito absoluto. Para quem crê na sua existência, dá sentido a tudo e mensura tudo. Mas nada pode ser absoluto, ao menos na nossa experiência da realidade, e é isto que este breve guia vai demonstrar: a relativização da onifodeza. Deus é tido como onifodão (onifodão é o somatório das características absolutas exclusivas a deus: onipresença, onipotência e onisciência).

Mas como praticamente tudo que envolve mitos, essas noções não sobrevivem olhar mais cuidadoso e balizado pela realidade. Diante disso, aqui vai um guia básico de combate argumentativo às noções que perfazem o conceito da onifodeza:

Onipotência: Um ser onipotente é um ser que detém poderes ilimitados. O infinito é uma medida convencional e não há restrição alguma para o que ele, o onipotente, possa fazer. Cristãos e seguidores de outros credos gostam de entender sua divindade nestes parâmetros, vale para qualquer fé moderna.

Só que é um valor absoluto. O infinito não se dá bem com a realidade. A rigor, não há nada real que seja infinito. Há uma porção enorme, mas finita de matéria no Universo. Há um consenso mais ou menos estabelecido no sentido de que, sim, o universo tem fim. Números são infinitos, mas não são reais, são construções ideológicas - existem porque nós os contamos, em resumo. Estes são exemplos da noção de infinidade.

Deus para existir precisa ser real. E seu poder precisa se manifestar na realidade, do contrário sua existência é ainda mais questionável. Então, para desmontar essa noção de poder infinito, basta questionar: pode deus criar uma pedra tão pesada que nem mesmo ele tenha poder de levantar?

Essa pergunta admite apenas duas respostas: sim e não. Se sim, então, deus não é onipotente, porque terá encontrado um limite para seu poder, o peso de uma pedra assombrosamente grande. Se não, então deus também deixa de ser onipotente, porque terá o limite do seu poder na impossibilidade de criar algo tão pesado que não possa levantar.

Esse tipo de raciocínio lógico é altamente corrosivo com a religião porque coloca entidades e conceitos abstratos, como onipotência e infinidade, nos limites do real. E, no fim das contas, mostra que apenas com a linguagem você pode provar que um deus onipotente não faz sentido.

Onipresença: onipresente é aquele que está em todos os lugares ao mesmo tempo. O recurso aqui para relativizar esse valor absoluto é a pergunta: pode deus criar um lugar onde ele não possa estar?

Se sim, ele pode, então deixa de ser onipresente. Se não, ele não pode, deixa de ser onipotente.

Onisciência: aqui o raciocínio é mais complexo. Onisciência é o atributo de quem sabe tudo que aconteceu, que acontece e que acontecerá. Nesse cenário, equivale dizer que se existe um deus e ele é onisciente, ele simplesmente sabe absolutamente tudo do passado, do presente e do futuro.

O problema com essa noção está no valor do livre-arbítrio, muito caro à religião católica, e que preconiza que você é livre para fazer de sua vida o que bem entender, tendo, contudo, que prestar contas de suas escolhas num tipo de julgamento ministrado por deus no final dos tempos, onde quem passar no juízo terá a vida eterna - o que deve ser um saco, diga-se de passagem - e quem reprovar, terá tormentos, dor, pranto, sofrimento e tristeza eternidade à fora - mas, claro, deus te ama.

A idéia de livre-arbítrio não pode conviver com a noção de um deus onisciente. Porque se deus é onisciente, significa que sua vida está escrita, porque deus simplesmente já a conhece. Você, por exemplo, não escolhe ser ateu, neste cenário, sua vida já foi desenhada para embocar nesta realidade. Se você não exerce escolhas e já tem um destino desenhado, não faz sentido falar em livre-arbítrio e menos ainda em esperar um julgamento, posto que você foi, por toda a existência, escravo da mente de um deus absoluto.

Para exemplificar: suponhamos que deus, por ser onisciente, saiba que amanhã no café da manhã eu vou comer um pão com manteiga. Há alguma maneira de eu não comer esse pão com manteiga?

Existem duas respostas possíveis. Se sim, eu posso escolher comer outra coisa então deus "errou", e portanto não é onisciente. Se não, então eu não tenho livre arbítrio de fato, apensa penso ter escolhido o pão com manteiga dentre as outras coisas que poderia ter comido. E nesta hipótese, deus é onisciente e continua fodão, mas a religião perde inapelávelmente o bastião do livre-arbítrio. Na outra opção, ela conserva o conceito de livre-arbítrio, mas deus não é mais onisciente.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Hai-kai n° 41

Minha cidade
solidão coletiva
selva de saudade

Hai-kai n° 40

Assim é pra ser
sim, a gente não se vê
e vive pra esquecer.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Balanços

Os fatos básicos são estes. O Universo que conhecemos tem 14 bilhões de anos de idade. Até aqui, mais de 460 planetas foram descobertos orbitando estrelas distantes, dos quais um punhado pode suportar vida. Fomos bem sucedidos em desvendar as origens de nossa espécie até o mais remoto passado deste planeta em que vivemos e que, é fato consumado, tem formato esférico e orbita uma estrela, tal e qual os bilhões de outros que devem existir neste universo em constante mutação. Conseguimos mapear o genoma humano. Já enviamos naves e sondas a mais de 40 outros mundos. Seres humanos já pisaram no solo de outro corpo celeste. Cosmólogos debatem nossas origens com cada vez mais convicção de onde viemos e mesmo pra onde vamos. Teorias começam o audacioso passo de abraçar toda a física que conhecemos numa coisa só nessa dança epistemológica do conhecimento humano, nascido do brilho do iluminismo. Outros universos podem existir e evidências disso já são discutidas entre físicos de renome. Cada uma dessas conquistas encerra pequenos triunfos do espírito humano ao fazer vergar até romper as barreiras da superstição, da religião e do medo de pensar. Cada uma delas narra a história de homens, mulheres e ideias que não calaram diante da resposta pronta da Bíblia, da Torá, do Corão e de quaisquer outros livros religiosos que encerram verdades absolutas, eles foram além do convencional, e redefiniram nosso lugar no cosmos.

E, em meio a tudo isso, tendo consciência de cada uma dessas verdades e dos seus custos,  você vem me pedir fé?

Rádio: Roberto Carlos - O Portão

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Crise é rotina

O mundo tá aí, estourando em crises. Os capitais que escorrem pelo ralo da realidade são a pólvora que impulsiona multidões em Londres. O valor do dinheiro escorre nas evoluções espetaculares de um capital que não existe. Um exame mais detido sobre como funciona o sistema financeiro global lhe dá claras mostras de como a coisa toda não fecha, que há muitos algarismos e poucos valores, muitos números e poucos bens. Mas quando você acha que há alento em crises como a de hoje, que cenários desesperados e analistas contritos na tv concorrem para uma sadia sacodida do sistema, derrubando no processo os pulgões, quem cai do lombo dessa cadela velha e carcomida é você: a conta não fecha, não há dinheiro no mundo que cubra os capitais inflados de ganância e irresponsabilidade que se equilibram há décadas ameaçadores sobre nossos destinos. Quando, no fim das contas, você considera que bolsas derretendo, capital sumindo, bolhas estourando, enfim, são a ante-sala da prosperidade e da racionalidade, você lembra que há uma boa porção de gente que investiu no debacle e que ganha dinheiro com a evolução do caos. Sãos os que especulam com derivativos, no resumo, dinheiro que não existe investido na possibilidade de crescimento de um preço no futuro: sim, eles ganham dinheiro apostando em mais dívidas de todos: empresas, estados e pessoas. Por isso, esqueça. Nada muda. Esses mesmos pavimentarão as veredas da próxima crise, assim sucessivamente, até que se diluam as mais firmes reservas de valor - a dignidade foi-se dessa dança voraz há tempos - até que passemos todos a nos alimentar via escambo.

domingo, 31 de julho de 2011

Pequena coleção de mim

Estava eu mexendo em meus guardados para encaixotá-los e, se tudo correr bem, desempacotá-los em poucos dias, em meu novo endereço. Fiquei feliz em notar que meus livros, meu bem sortido acervo, encheu sozinho cinco caixas de papelão. Eu juntei muitos livros na vida por sempre conservar o hábito de comprar os livros que tinha ganas de ler e raramente emprestá-los das outras pessoas. Também se mostrou, com o passar dos tempos, bastante saudável para este acúmulo o costume de não emprestá-los a qualquer um.

Também encontrei lembranças e miudezas que usei na outra vida ou que eram ítens de decoração do lugar onde vivi. Meus canequinhos de chope, roubados honestamente do Bar do Alemão em Curitiba. Duas bolas de bilhar que, naquele bom e inocente tempo dos porres homéricos, daqueles pileques de criar bicho, roubei dos botecos por onde estive a afogar as desgraças e embalar as alegrias, porque também as tive. Imãs de geladeira que comprei em Buenos Aires. O relógio de pulso que usei de três dias após a morte de meu pai até não lembro mais onde e que só larguei em favor do visor do celular. E muitas outras coisas que não quis ter o trabalho de fotografar, mas que vão comigo.

É tudo um pouco do passado que a gente não sabe bem se quer lembrar, se quer esquecer, se quer resgatar. O que eu sei é que, brincando, já faz tempo. Os primeiros canecos eu tenho há seis anos. Os imãs são um pouco mais novos. Das bolas de bilhar, honestamente, nem lembrava. Meu primeiro livro é de 1998, ganhei de aniversário de meu pai, "O Homem que Matou Getúlio Vargas". E há no meio disso tudo, mais antigos, comprados em sebos e herdados de um infeliz incêndio.

É um pouco do passado que guardei numa caixa. Um tipo de capsula do tempo que fechei quando me formei. A capsula foi reaberta e de dentro dela saiu nostalgia, saudade, lembranças, memórias, recordações, suspiros, tristeza e risos. Vou levar esse passado rico e cheio de marcas comigo, como de resto tenho feito com tanta coisa mais, que vai aqui, mais ou menos calada dentro do peito. Enfim, é bom dizer, joguei hoje muita coisa fora. Ou ao menos a faceta física de algumas coisas, porque já tinha expurgado dos recessos mais profundos do coração e da memória muita coisa assim. Coisas que há uns anos, supor desfazer-se, seria uma dor atroz a cortar o coração. Hoje é ato corriqueiro, de quem joga fora o que não presta mais. Fico feliz em poder jogar fora o que é lixo e conservar o que é uma ponte para o que de bom se passou.

É sempre bom exercitar o desapego para não se apegar novamente. Aprendi, como tudo na vida, da pior maneira. Eu tenho 4 fotos da infância e isso me ensinou que recordações, boas e más, são importantes. Mas que nem todas merecem ganhar vida nas capsulas do tempo que construímos e acumular poeira pelas prateleiras da vida.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Por quê?

Por que você largou tudo? Saiu de São Paulo e veio para Curitiba?

Porque eu descobri que a vida em São Paulo sem dinheiro é uma vida estúpida.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Uruguai: Por un alma

Há pouco mais de um ano, o Uruguai escreveu um capítulo, mais um só dele, nas páginas da história do futebol e das Copas do Mundo. A mão de Suárez, o pênalti de Gyan, a cavadinha de Loco Abreu. A epopéia que devolveu a Celeste Olímpica, de tanta tradição, glória, tamanho, história, peso e relvância ao primeiro escalão, onde os protagonistas decidem a sorte das glórias imorredouras do futebol. Foi bonito.

Você pode ler meus sentimentalismos por conta daquele jogo aqui.



Neste ano não temos Copa do Mundo, temos Copa América. O Uruguai continua um país pequeno, de praticamente inigualável simpatia. O tempo do Uruguai tem dimensão única e desafia bravamente as leis da física que o dizem relativo. No Uruguai, caros, o tempo é absoluto: tem uma marcha, uma dimensão e uma propriedade. O Uruguai redefine o tempo.

O que não se sabia é que o Uruguai também redefine o espaço. Como pode um país pequeno daqueles ser tão grande? Esmagar, com forças e pesos que não se sabe de onde, gigantes? Como pode um conjunto de 3 milhões de pessoas produzir um time de onze jogadores proporcionalmente muito superior ao que consegue uma nação de 200 milhões?

O Uruguai superou, ao seu jeito, dramático e bravo, seu maior rival. Argentina e Uruguai são, aliás, os grandes rivais na América do Sul. Brasil e Argentina não são rivais, são gigantes, pares de um mesmo sistema, um orbitando ao outro, quase que indiferentes. Uruguai e Argentina dividem os pampas, são um e outro a metade do mesmo rio, são da mesma gente de fibra, admiram os dias frios que amanhecem no Prata com o mesmo ponto de vista, falam a mesma língua e dividem uma porção de heróis nacionais em comum. É amor e ódio portenho, páginas e páginas de um tango que insiste em se renovar. Brasil e Argentina convivem e torcem o nariz para a "rivalidade" fabricada nas TVs.

Não é possível torcer contra a pequena legião, esse adorável bando de Asterixes e Obelixes que compõe esse pedacinho da América. O Uruguai é o Incrível Exército de Brancaleone que deu certo. Essa adorável capacidade de provar do impossível, esse timbre único de gritar mais alto que uma multidão, esse destino inexorável que marca o passo com a história charrua nos gramados, o destino de ser protagonista.

No sábado, aniversário do sagrado Maracanazo, o Uruguai foi, mais uma vez, conviva a seu modo. Expulsou a Argentina da Copa América num jogo maiúsculo, de fibra, garra, vontade. De ganhar no grito, de saber a hora de morder. De atuar como time, com vontade de quem quer se reencontrar com a história.

Não fosse a TV, a internet, os registros virtuais de hoje e se diria, em menor ou maior escala, daqui uns anos, que tal como o primeiro caudilho, Lugano deu um tapa em Messi e desmontou, assim, o time uruguaio. Como um dia se aumentou a verdade e dilatou-se a dimensão do serviço de Obdulio, quando se disse que teria esbofeteado Bigode, desmontado o orgulho brasileiro e levado, debaixo do braço, a Copa para a casa.

Um dia se disse que Obdulio Varela venceu a Copa de 1950, porque era a fera daquela final e que tamanha devoção a vitória se verificava no hábito que tinha de amarrar as chuteiras, hoje cada vez mais coloridas e patrocinadas, não com cadarços, mas com as veias.

Descobre-se onte, mais uma vez, que o hábito transcendeu o primeiro caudilho e hoje é do feitio de qualquer onze jogadores que se prontifiquem a defender o azul de céu uruguaio nos campos do mundo. Só há uma seleção no mundo que com um elenco reconhecidamente inferior taticamente é capaz de passar por cima, com um a menos, de uma seleção mais tarimbada tecnicamente e dona da casa. Só o Uruguai faz do impossível, vereda e no processo, transforma um torneio sem graça e meio vazio, como a Copa América, em algo grande, interessante e importante.

E que pena. Você torce pelo Brasil pelo acidente geográfico de ter nascido aqui. Eu torço pela identidade e porque, simplesmente, não resisto a nada feito com paixão. Vale de boa literatura, passa pelo sexo e vale também para futebol. E se o Brasil é terra de futebol arte, saibam, o Uruguai é terra de futebol paixão. E é isso que explica um time sem Messi e Ganso ser tão bom como é. O Uruguai não precisa de um Messi ou de um Ganso porque tem algo melhor e maior, o coração.

E a paixão precede a arte em tudo.

sábado, 16 de julho de 2011

Para pensar

Escrevi ontem sobre a estagnação do desenvolvimento do transporte público de qualidade em Curitiba. De qualquer forma, apenas a título de comparação, aqui na capital paranaense transporta-se mais de 2 milhões de pessoas/dia por ônibus. Em Londres, uma cidade muito maior, por metrô, são 3 milhões. Números de respeito, Curitiba não tem 2 milhões de habitantes. Londres, sozinha, abarca mais de 8 milhões de almas.

Imagina se a estrutura tivesse investimentos, competência e capacidade de se renovar com o tempo?

Tivesse tudo isso e Curitiba não teria engarrafamentos em lugar algum.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Pés no chão novamente

Apenas para registro, e a quem interessar possa, enfim, estabilizado, voltamos às baterias a velhos projetos pessoais. O telescópio vai, enfim, sair do papel, empolgado que estou com o céu mais límpido e a proximidade com São Luiz do Purunã, donde munido de bom telescópio que eu ainda construirei, poderei, enfim, perscrutar os infindáveis mistérios de um lugar que chamamos de Universo. As novas lentes já foram encomendadas e no tempo livre venho me aprimorando em estudos acerca das artes de modelagem tanto em tubos de pvc, como em materiais de análogo jaez.

Os reviews de games para o site de cultura que toco na companhia de amigos, se não de irmãos, enfim ganharão a locução que lhes faltava.

Meu livro de poesias ganha forma no InDesing deste notebook. Já bati o martelo, chamar-se-á o breve compêndio de: "Mecânica Celeste Aplicada".

O disco que produzo com sons do LHC está em stand-by. Preciso de uma catarse para criar alguma coisa que preste no Mixcraft Acoustica.  

Curitiba

Eu escolhi vir para Curitiba atrás de topar com uma vereda. Opções e escolhas, a vida é feita exclusivamente delas, que o resto é armazem de secos e molhados. Você abre mão de algumas coisas, ganha outras. Escolhe e precisa saber viver com isso.

Convivi ao longo dos anos com um encantamento muito natural por Curitiba, que na minha infância vicejava como exemplo último de bom planejamento urbano, dinamismo arquitetônico e cuidado com a vida dos cidadãos, valorizando e muito transporte público rápido, econômico e ágil e limpeza praticamente asséptica de suas ruas e calçadas. Curitiba foi cool durante boa parte dos anos 1990 embalada por esses sucessos que realmente foram seus. Era a capital do estado, a cidade grande, e o fascínio que essas coisas exercem em crianças do interior é natural.

Mas a cidade estagnou. O mesmo grupo político se perpetuou no poder, para não dizer corja, e se especializou em viver embalado no berço esplêndido da competência passada, da manchete de 1993, do aniversário de 300 anos. Curitiba sofre com gargalos, jogou o dinamismo e a competência pra escanteio e vem perdendo o equilíbrio e o charme de outrora.

Mas ainda é Curitiba, um oásis de sossego para quem veio do caos urbano da paulicéia. Conheçi ao longo dos anos com muitas pessoas que votam ódio pela capital paranaense. Seja pelo jeito reservado do curitibano - isso, aqui, é defeito. Em qualquer outra paragem do mundo, "ah, é o charme". A estupidez do parisiense é sinal de cosmopolitismo, a do curitibano, de ignorância. Descontando o fato de que esses estereótipos são para lá de discutíveis, percebe-se o fato de que muita gente se acostumou a detestar a cidade para ser do contra. Durante muito tempo se vangloriou os sucessos e bons resultados da cidade a tal ponto que ser do contra, odiar e criticar a cidade, virou sinal de gente descolada.

Eu concedo que o transporte público curitibano não funciona, que os projetos não revitalizam mais a cidade, que os problemas se acumulam e as soluções que antes assombravam e serviam de escola para Tóquio, Londres, Los Angeles e tantas outras metrópoles simplesmente não aparecem mais.

Mas desconfio que em não muitas cidades do mundo, ao caminhar por uma das praças centrais - que há em profusão por aqui, qualidade que não se verifica em São Paulo, por exemplo - encontra-se um grupo de músicos tocando Ennio Morricone para juntar um punhado de moedas.

Devia ter filmado, ou fotografado, com o celular modernoso que ostenta uma câmera exageradamente maior do que os 25 segundos de vídeo que gravo por ano. Pena. A pressa para chegar no trabalho, considerando os atrasos do transporte público, não mais tão vigoroso como outrora, me fizeram perder a música e a chance.

Curitiba talvez não seja tão impressionante como muita gente pensa. Mas é muito melhor do que aquilo que muita gente que odeia pensa.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Não vale à pena

Amor e anarquismo são duas ideias naturalmente fadadas ao fracasso nas quais a gente continua insistindo, debacle após debacle.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Dia do Rock

Elvis Presley, Iron Maiden, AC/DC, Steppenwolf, Raul Seixas, George Thorogood & The Destroyers, Radiohead, Mago de Oz, Mark Lanegan, Mike Johnson, The Bambi Molesters, Bob Dylan, Erasmo Carlos, Joe Cocker, Kenny Rogers, Elbow, Screaming Trees, Kings of Leon, John Schooley, Nirvana, Placebo, Rolling Stones, Rogério Skylab, Stray Cats, Grateful Dead, Tom Waits, Nevilton, Rafael Castro e os Monumentais, Gene Vincent, Chuck Berry e Wander Wildner.

Muito obrigado.

sábado, 2 de julho de 2011

Napalm

Tinha a suspeita, agora confirmo: Napalm é manufaturado à base de gasolina, então deve ter o odor parecido. E era usado para assar os vietcongues e o que tivesse pelo caminho.

Derrocada

E eu nunca mais fiz um verso.

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terça-feira, 28 de junho de 2011

-4,5° - tô gostando, tô gostando

Acordei a emocionantes -4,5º hoje e persisti na incapacidade de promover o bom uso dos 5 megapixels do meu celular e trazer, para a posteridade, as memórias de mais uma manhã de inverno e do doce orvalho que nos agride a pele, esfola as narinas e encolhe, na metade masculina do gênero humano, as extremidades.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Sotaque do sul

Faz um frio de todos os diabos. Embora alguma divergência tenha sido constatada nos diferentes serviços metereológicos e nos termometros da casa e do carro, em uma média mais ou menos arbitrária e razoável, pode-se dizer que hoje batemos uma oscilação que compreende todas as temperaturas possíveis na faixa que vai do enrijecedor -1º C e chega aos folgados e tropicais 13,5º C.

Eu sentia saudade do frio. Mais ou menos como tudo na vida, fui sempre exceção nas preferências climáticas: sempre me encantou o céu de chumbo, o frio da noite, o desespero do despertar em meio ao vapor que sai da boca e do nariz. Frio é minha praia porque sou encalorado demais. Frio a ponto de frustrar minha honesta intenção de fotografar a geada de respeito que fez hoje: não quis sair de casa para encarar as artes que o gelo proporcionou no jardim.

E frio se experimenta com gosto aqui, na porção sul do Brasil. Sem querer desqualificar o frio mais incisivo que se acomete tanto quanto mais meridional for o parâmetro, mas frio gostoso é o daqui. Ando meio sulista. É por ter voltado pra casa, onde faz frio, não tem trânsito em qualquer hora do dia e todos os destinos e sonhos estão mais ou menos ao alcance das minhas pernas.

sábado, 18 de junho de 2011

Liberdade de marcha à ré

Hoje acontece em 40 cidades por todo o país a, dizem, Marcha da Liberdade. Liberdade lá com eles, porque enquanto isso, enquanto endireitam-se as filas pelas ruas e avenidas pela legalização guela abaixo do consumo de drogas, no senado e na câmara abrem-se as pernas do país para a organização da Copa e das Olimpíadas.

Mas, claro, protestar contra isso dá preguiça. Precisa pensar, ter argumentos que não sejam calcados no hedonismo de uma geração descompromissada - que apatia é virtude. E no mais, envolvimento político em causas de real interesse público não dá barato.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Alta quilometragem

Nesta semana eu fiz já uns 950 quilômetros entre idas e vindas para Curitiba. E estou adorando. Eu devia ser caminhoneiro ou piloto de endurance.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

De volta

Há uma frase em um dos meus filmes preferidos, Apocalipse Now, do personagem de Marlon Brando, acho, que diz "eu adoro o cheiro de napalm pela manhã".

Eu não senti napalm na manhã de hoje, a do meu regresso. Mas rasguei a estrada de vidro aberto, e em vigorosos haustos, tomei do ar dos Campos Gerais, que se não cheira a napalm, ao menos, me dá a mesma sensação que teria Marlon no filme.

Rapaz, é bom estar de volta. 

terça-feira, 14 de junho de 2011

São Paulo, 2011

Hora de ir embora. Pra voltar um dia, talvez. O fato é que o futuro pega na mão da gente e leva-nos por caminhos onde nem sempre a nossa escolha e a nossa vontade podem diante das circunstâncias. Eu vim, vi e venci. Nos meus parâmetros, claro, porque se vitória fosse o que realizei por aqui é provável que não fosse embora. Mas, de fato, cheguei desempregado e sai editor de um site enorme. É, digam o que disserem, mas foi um retumbante triunfo.

Mas como eu disse, o futuro vem e pega na mão da gente. Ele tolhe as veredas e quando você vê, caminhou e tudo à sua volta mudou. São Paulo, até segunda ordem, há de ser página virada na minha vida. E agora toca a morar em Curitiba. Em algum momento do passado, lá onde estavam os sonhos e disparates da infância, eu me imaginava morando em Curitiba que, do alto do meu provinciano mundinho, era uma expressão de vida cosmopolita. Hoje, mais que isso, é a realidade do futuro imediato, dos sonhos adiados e da vida preguiçosa que, sem eu perceber, já conta 26 anos.

E o que dói o coração é deixar para trás os amigos, dos bons, que cultivei na Paulicéia. É pena que não caibam todos no bolso ou que simplesmente não tenham o mesmo apreço que eu tenho pela vida pacata na capital paranaense, mas isso é papo para outra lamúria. Adeus, São Paulo. Hasta pronto, camaradas.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Soy Celeste

"O Uruguai teve muitos grandes jogadores em sua história. Muitos craques como Scarone, Rocha e Schiaffino, mas sempre gostei daqueles que mostravam caráter e temperamento. Como Obdulio e tantos outros. Gosto de ser chamado de caudilho. Tem de ser como nos anos 30, quando em dez anos ganhamos 4 finais contra a Argentina, inclusive a primeira Copa. Nós ganhamos 4 finais e eles ganharam 10 amistosos. O que interessa mais? Futebol se joga com caráter. Eu sou assim"(Lugano, Diego - livro Tricolor Celeste)

terça-feira, 31 de maio de 2011

Clint Eastwood e o sinonimo da macheza contemporânea

São tempos melindrosos para um sujeito usar calças e honrar os bagos. Sim. Vivemos numa era desgraçada, de moral fácil e de politicamente correto. E hoje é aniversário de uma bem acabada antítese de tudo isso, um cidadão que é um símbolo, um tipo de último dos moicanos da macheza perdida.

Clint Eastwood. O homem. Clint faz 81 anos hoje e coleciona sucessos em praticamente tudo que se meteu a fazer na carreira de ator e diretor. Filmes intensos, personagens marcantes. O homem sem nome da minha adorada trilogia do dólar, o fugitivo de Alcatraz, o sorumbático de Gran Torino. Quem viu cada um desses filmes sabe porque Clint merece uns goles e um post em homenagem ao seu 81º aniversário.

É um sinal dos tempos que as mulheres hoje suspirem muito mais por Brad Pitt e George Clooney do que por um tipo como Eastwood. O cinema, e nossa sociedade, não produzem mais tipos adoráveis como Steve McQueen, John Wayne e Humphrey Bogart, são o triunvirato da masculinidade. Há momentos na vida em que você precisa parar e considerar o que o faz diferente desses sujeitos e porque você não pode ser como eles. Se fossem quatro, eu escalaria James Coburn nessa trementa patota. Sean Connery também merece a lista.

Alguns dos filmes de Clint são obrigatórios. Mas se não estiver com disposição de ver todos, se atenha à Trilogia do Dólar, que o fez, nos anos 1960 de jovem desconhecido, a galã e grande nome do cinema.

Eastwood é de uma macheza contundente só por ter aceito fazer filmes de faroeste no período de maior decadência do gênero, com um italiano desconhecido (Sérgio Leone) e no meio da Sicília - nada de desertos e poeira texana num filme sobre o oeste distante dos EUA. Os três filmes, "Por um Punhado de Dólares", "Por uns Dólares a Mais" e "Três Homens e Um Conflito" (também conhecido como "O Mau, o Bom e o Feio") lhe dariam a pecha de durão e marcariam muito o gênero no seu ocaso.

Mas foi vivendo o policial Harry Callahan, ou Dirty Callahan em "Perseguidor Implacável" (e na longa série de filmes que seguiram o sucesso do primeiro), que marcaria sua carreira como o sujeito que passa testosterona no pão mofado com a peixeira enferrujada. As sequências são tão boas como o primeiro, mas eu honestamente acho que poderiam ter parado no terceiro título.

Clint também tornou-se um diretor de extrema qualidade. Do alto de sua macheza conseguiu realizar o filme preferido da mulherada, "As Pontes de Madison" - ele deve ter feito isso só para mostrar quão machão é. E vem emplacando uma série bastante sólida de bons filmes e de sucesso de crítica e bilheteria: Sobre Meninos e Lobos, Menina de Ouro, a dobradinha A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jiwa, Invictus, Gran Torino.

Parabéns, Clint. Longa vida ao maior depositário vivo da testosterona, do último bastião da macheza cool do cinema.