sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Uma ideia na mão e uma câmera na cabeça

E uma ideia sensacional. Descobri a história visitando um de meus blogues preferidos, conduzido por Flávio Gomes. Trata-se de um filme francês de 1976, "C'était un rendez vous", que em libérrima e desavergonhada tradução dá em "Foi um encontro", um curta, realizado por Claude Lelouch em 1976.



Assistiu? Pois é, é o limite da irresponsabilidade e da arte. Deu cadeia, inclusive, quando o filme foi lançado e ia devidamente assinado por Lelouch, que como todo o artista, fez absoluta questão de vincular seu nome ao filme/crime.

A cidade, supondo que você não a tenha identificado, é Paris. Às 5 da madrugada. O carro, uma Mercedes 450SEL, dublada por uma Ferrari 276 GTB. A bordo, dois assistentes de audio apavorados, uma câmera no para-choques e um Claude Lelouch muito louco na boléia. Ele confessou que teve a ideia ao longo daquela noite, e homem de ação que é, não postergou nada, saiu alucinado pelas ruas de Paris para fazer seu curta de um take.

É genial. Mas é irresponsabilidade. Alguém poderia ter se machucado. Há lugares para doidos como esses na nossa sociedade, e eles não são dotados de um motor a explosão e de um volante. Mas Lelouch fez o filme pelo cinema, pela arte. Alguém poderia argumentar que Mengele pintava olhos castanhos de azul com tinta em nome de uma concepção estética também da vida, e nem por isso era menos monstro.

Vendo o curta, não pude deixar de lembrar do caso do sujeito maluco que arrancou com o automóvel para cima de uma multidão de ciclistas em Porto Alegre no começo do ano. A rigor, os exageros de Lelouch e do gaúcho são iguais: irresponsabilidades ao volante, a intenção manifesta de transgredir e, com isso, colocar a vida de outros em risco. Crimes, no resumo.

Mas é curioso. No caso de Lelouch, não canso de achar a inutilidade genial - o filme é inútil. Mas é transgressor, coloca um conceito em cheque e isso, mais ou menos, é o resumo da arte pós-moderna, a ideia de reiventar e colocar tudo em questão, de ruptura. E para quem gosta de carros e de simuladores, onde pode libertar o Lelouch que há dentro de você, a ideia de percorrer uma cidade como se não houvesse amanhã não deixa de parecer sensacional.

É, também, um sinal dos tempos. Hoje, na era do politicamente correto, há limites auto-impostos muito mais severos no que tange o que pode ou não ser arte. Não vivemos em tempos de um Claude Lelouch. Qualquer cineasta contemporâneo, com uma ideia tão irresponsável quanto, seguramente pensaria duas vezes antes de colocá-la em prática. E isso faz de "C'était un rendez vous" um filme ainda mais adorável. O olhamos como um resumo de um tempo onde indignação, insatisfações e frustrações diversas encontravam o solo fértil da arte e ali frutificavam e, falo por mim, lamentamos que já não seja assim. Eram tempos diferentes. Vivemos tempos de maus filmes e de uma moral duvidosa, que berra por liberdade de expressão à toda esquina, mas te crucifica se você fizer uma piada de gosto duvidoso. O gosto, o filme, o livro, tudo pode ser de gosto questionável na arte. E deve ser questionável. O que não pode é ser proíbido. 

Por fim, o grande barato deste filme é dividir as pessoas entre aquelas que invejam o passeio de Lelouch e as que o execram. Eu o invejo.

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