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domingo, 16 de agosto de 2015

AssimFaliu Zaratustra

Não foi sem alguma dose de comoção que descobri que o meu primeiro blogue, iniciado em 2004, está fora do ar. O motivo é que a Globo.com, detentora do serviço blogger no Brasil, o tirou do ar, em conjunto com todos os demais que usavam essa plataforma, no último dia 30 de junho. A Globo.com poderia ter feito um esforço um pouco maior para divulgar o encerramento do Blogger brasileiro, talvez eu tivesse feito alguma coisa.

Embora todos nós, caros oito leitores, saibamos que eu não faria rigorosamente nada.

Assim Faliu, no fim das contas, a primeira versão desse blogue.

Eu devia ter ficado mais irritado, mas não fiquei.

Um pouco aborrecido, sim, porque embora eu morresse de vergonha de boa parte dos textos que mofavam naquele acervo, eles eram parte de mim. O bocó de 20 anos, que sonhava em escrever, achava que trocar engenharia por jornalismo não era má ideia, tinha impressão de entender alguma coisa de Nietszche, e que, no fundo, tinha todos os sonhos do mundo dentro do peito.

É bem provável que seja possível resgatar aqueles mal ajambrados textos de algum desses sites que armazenam vestígios das priscas eras da internet. Desde que eu migrei para o Blogspot, parei de atualizar o Blogger, o que significa que, caso o meu blogue esteja em cache em algum lugar, é bem possível que o conteúdo todo ainda exista em algum servidor qualquer.

Conteúdo é um termo muito digno, muito honrado, muito bonito para qualificar aquelas bobagens.

Era 2006. Terceiro ano de faculdade. E eu era um idiota. E hoje continuo sendo, porque é bem provável que eu nunca me dê ao trabalho de procurar pelo meu velho blogue do blogger até o ponto em que mesmo esses sites de arqueologia digital não terão mais razão alguma para guardá-lo. Aí eu descobrirei isso incidentalmente e, embora me irrite um pouco e provavelmente venha aqui reclamar, ficará por isso mesmo.

"... there is nothing here worth saving", diz a canção que estou ouvindo.

No fundo, há certas coisas que ficam melhores esquecidas, mofando no passado. Tomem nota desse judicioso veredito, porque quem vos fala é um sujeito conhecido por viver, sozinho, feito um bocó, de, no escuro, regar as flores mortas do passado.

E de encher as últimas frases dos seus textos de vírgulas, num claro expediente desesperado de, no fim das contas, tentar, ainda que inutilmente, dar algum peso, algum estilo e, vá lá, profundidade às nulidades idiotas que diz.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Reeditar é viver

Estou reeditando todo o material do meu blogue antigo, que deu origem a este. Mas sem ordem cronológica, sem ordem de nenhum tipo, aliás, e vou colocando o material de lá aqui, sob a etiqueta "Vida pregressa e blog antiga". A tecnologia da plataforma do Blogger permite que sejam mantidas as datas e horários originais das postagens, o que é fantástico.

Faço isso por conta do meu apreço pela posteridade. Um dia apagam a conta do blogue original e perco todo o material. Há mais de dois anos não faço login lá e não lembro mais da senha, e assim posso conservar toda a história.

A lamentar-se a qualidade de alguns textos. Dóem de ruins.

domingo, 26 de março de 2006

Das Pescarias

Sê, doravante, pescador de homens (e vinhos), não mais de peixes.

Hoje pela tarde, profundamente entediado, fui pescar com um primo. Dez minutos, um peixe (só podia ser um), que a julgar pela tensão que causou na vara, era de promissor catandura, escapou-me.

Cinco minutos depois deu-se o mesmo. Confesso que fiquei um pouco chateado. Outros poucos minutos, deu-se novamente o assalto. E dessa vez ele, só podia tratar-se do mesmo pândego, rompeu a linha. Extremamente emputecido, chutei o banquinho no tanque, peguei a vara e arremessei como um dardo ao outro lado do pequeno lago e, com toda a solenidade necessária, desfiz a braguilha e mijei portentosamente n'água. Fiz tudo isso com uma consciência incrível.

Depois da cena de indignação, voltei, resignado, para o carro, ouvi música, li e fiquei desfiando comentários pouco agradáveis e muito misantrópicos à boa arte da pesca que, pelo que pude ver, não foram muito bem quistos pela enorme sociedade que, no local, dedicava-se precisamente à ela.

Quase no final da aventura, meu primo sugeriu que fosse resgatar o banco nas profundezas de uns 40 centímetros do tanque. Pedi licença para declarar que o primeiro inútil que viesse me aborrecer com essa sugestão não só conheceria o destino do banquinho como, provavelmente, seria remetido em processo similar para fazer companhia ao dito assento eternamente. Salientei ainda que detestaria causar bulha num lugar tão arcade, mas se fosse o caso providenciaria para que os peixes tirassem a desforra de seus predadores com um corpo para digerir no lago.

Me deixaram em paz e, desconfio, não convidam mais para pescar. E assim são os meus finais de semana aqui, embruteço-me, eis tudo. Sobretudo sem uma garrafa de vinho para conversar, clarear as idéias e o mijo.

terça-feira, 7 de junho de 2005

Diário de um Poeta Corrompido XIII - Das Coincidências


Coincidências povoam nossas vidas, e ultimamente algumas têm me assaltado. Vejam por vocês mesmos. Na sexta-feira passada, uma amiga me disse que no sábado anterior tinha visto Juventude Transviada na madrugada da Globo, e que tinha assistido ao filme e flagrado um ator mui semelhante com o trapizongas que lhes escreve nesse instante. Eu vi Juventude Transviada (Rebel Without Cause, 1955) - deve ser daí que vem a expressão "rebelde sem causa") já fazia algum tempo. Era um dos meus rompantes de cinéfilo culto, ver um clássico antigo. Como o filme conta com James Dean no papel principal, um dos maiores mitos do cinema até hoje, fiquei extremamente esperançoso que a semelhança fosse com ele. Entretanto, sabendo que Dean era loiro e eu grisalho, fiquei menos convicto. E de fato, me sentiria honrado em ser como James Dean. Foi o único a receber indicação póstuma do Oscar na história (por duas vezes!) e tinha arroubos de roqueiro nos tempos mais belos do rock, na minha rabugenta opinião. Era jovem, desejado e morreu cedo num acidente com um Porsche prateado.

Aluguei o filme. Me senti como Tertuliano Máximo Afonso, personagem de José Saramago no romance "O Homem Duplicado", que li há pouco tempo. Tertuliano, sem mais o que fazer, aluga um filme qualquer e descobre nele um personagem menor que era simplesmente uma cópia sua. Daí Tertuliano traça uma cruzada para descobrir o nome desse ator, alugando outros filmes e criando os mais variados meios para descobri-lo sem denunciar-se, e, enfim, conhecê-lo (livro excelente, como naturalmente são os do Saramago). Vi o filme, que é sim muito bom, mostra as desesperanças da juventude daqueles doidos tempos de Elvis, carros com rabo-de-peixe, brilhantina e desilusões do pós-guerra. Apresenta o jovem nisso tudo, é um bom filme. Foi indicado ao Oscar de melhor roteiro, ou melhor roteiro adaptado, ou ainda coisa que o valha.

Foi um dos primeiros que a Warner rodou em CinemaScope. Teve algumas cenas rodadas em preto e branco mas para prestigiar a nova tecnologia acabaram refazendo tudo a cores. O orçamento do filme foi de modestos e encolhidos 1,5 milhão de dólares, uma bagatela se compararmos as produções contemporâneas. No terço final do filme há uma piscina vazia, que tinha sido usada em "O Crepúsculo dos Deuses". Não há cinéfilo que se preze que não tenha visto "O Crepúsculo dos Deuses" (clássico de 1950, narra o fim de uma grande estrela do cinema mudo, crente de que pode dar a volta por cima num desvario amalucado mui melancólico, mas para meu humor negro, extremamente engraçado), desconfio que a mansão da piscina seja também a mesma, mas isso não lhes garanto.

Vendo a fita busquei esse meu alter-ego e o encontrei no coadjuvante, que vim a descobrir, atende ou atendia pelo nome de Sal Mineo. Não só pelo nome, mas pela aparência do dito cujo, acredito tratar-se dum descendente de italiano. A semelhança, de fato, existe, vá lá (embora eu teime em protestar, Quero ser James Dean!*), mas não é assim tão profunda. O personagem de Sam é "Platão", apelido, ou John Crawford como o chamam vez ou outra no filme. O melhor amigo, senão o único, de James Stark, personagem do outro James, o Dean - Sam morre no final, aliás, John. Pelo que pude pesquisar em sites de cinema daqui e de lá, parece que Sam não fez mais filmes em que figurasse com alguma primazia no cast. Suspeito que virou artista de tv nos states, porém me falta acesso aos programas de tv daquele tempo, sobretudo os norte-americanos para confirmar a impressão. Contudo, fez uma boa atuação o Mineo o típico loser dos filmes de adolescentes norte-americanos.

A diferença minha e de Tertuliano reside no fato de que o personagem de Saramago ficou absolutamente desconcertado, eu apenas curioso. Vi o filme, achei o cara, e ponto. Me ocorreu agora, é curioso, mas nas férias escrevi sobre o fato de que numa noite sonhei que eu era o novo James Bond, o novo 007 e no dia seguinte estava a correr pelas ruas de Ponta Grossa atrás dum assaltante de bolsas femininas. Guardadas as devidas proporções, como defendi a Lei e a ordem, desconfiei que o sonho e o causo eram mais que circunstânciais e que eram predições do meu futuro. Agora me vem essa de parecer com um ator. Coincidência, seguramente.

Ontem ainda encontrei outra amiga e fui convidado a ser figurante num filme que estão rodando por aqui. O filme é um curta. Seguramente de modestas aspirações, mas digam vocês o que disserem, continua sendo um filme. Alguém pode ver e dizer: "ei, aquele figurante é a cara do James Dean!", outro dirá: "é mais o Sal Mineo", e outro: "hum, sei não, mas ficaria bem como 007". Essas coisas acontecem. Aconteceram com um ator famoso, das antigas, que eu nem lembro mais o nome. E como a história é apenas uma eterna repetição do mesmo, poderia muito bem ocorrer comigo.

Um dos meus melhores amigos é a cara do Russel Crowe (ou do Nicolas Cage no tocante ao olhar-de-peixe-morto, mas isso não sou eu quem digo) e chamei ele para ser figurante no mesmo filme. Enfim, são todas coincidências que, sem dúvida nenhuma, me credenciam para o cinema. Daqui uns poucos anos quando eu estiver ganhando o Oscar ficarei feliz em dizer no meu discurso de vencedor que vocês, meus queridos oito leitores, foram decisivos e preponderantes na minha tragetória. Os três ou quatro que estudam Jornalismo comigo fiquem certos de que serão contratados para serem meus assessores de imprensa e meus relações públicas.

Digam o que quisserem, mas de perfil guardo lá um quê de James Dean... 

*Sim. Trocadilho pedante em relação ao ótimo "Quero Ser John Malkovitch".

quinta-feira, 24 de março de 2005

A marinha do Paraguai

Assistindo nessa mesma noite ao Jornal da Globo, sem a petulante Ana Paula Padrão, a quem considero um poço de arrogância, vi uma notícia bem curiosa, referindo a circunstância porque passa a nossa desditosa fronteira com o Paraguai.

Ocorre que numa tentativa de revidar aos fiscais brasileiros, que de um tempo pra cá resolveram dignificar os seus soldos com as mais variadas maneiras de fiscalização, os paraguaios mandaram a marinha ocupar a ponte.

Ao menos a sua metade, como é de se supor, se viessem a ocupar a nossa metade estaria configurada aí uma invasão de territórios, e ainda que sem más tenções, seria motivo suficiente para se declarar guerra ao estado vizinho, enviar uma embaixada com ilustres diplomatas (coisa curiosa, generais, almirantes, brigadeiros e diplomatas sempre têm nomes pomposos, não há nesses cargos nenhum José da Silva, embora José da Silva não seja exatamente um nome, mas uma instituição nacional), eu dizia, com ilustres diplomatas, que não tendo o que fazer, precisariam ocupar o tempo, ao presidente vizinho, declarando que nós brasileiros ansiamos por manter as mais afetuosas, cordiais e excelentes relações com nossos vizinhos e hermanos, entretanto, se não chegássemos a um bom entendimento sobre essa invasão, nos veríamos na triste contingência de invadir-lhe o território e arrancar-lhe os olhos.

Ora, o Paraguai, pelo que consta aos meus surrados conhecimentos geográficos, constituí-se de uma porção de terra cercada por argentinos, bolivianos, chilenos e brasileiros, de sorte que não lhes resta qualquer tiquinho de mar para que pudessem avorar-se de ter uma marinha. É uma nação interior, portanto.

Ainda que houvesse a necessidade de patrulhar o rio Paraná e o rio da Prata, bem como as suas eventuais adjacências, creio que seria menos ostensivo e mais digno delegar semelhantes funções a um exército, por exemplo. Será que eles esperam um ataque marinho, aliás, um ataque fluvial ou até mesmo lacustre? Deve ser a mania de grandeza de quem muito pequeno é porque um dia quis justamente o que hoje não possui, acesso ao mar.

Que o diga Solano Lopes.

Hum, quem sou eu para sugerir alguma coisa na organização militar do Paraguai?

sexta-feira, 21 de janeiro de 2005

Dr. Kersten, o médico de Himmler

Até onde podemos imaginar que o destino rege nossas vidas? Há mesmo algum destino? E quanto a alguma habilidade especial, um dom, que seja individual e inerente a apenas uma pessoa em todo o mundo justamente por que será preponderante no seu destino e no seu papel perante a história? Ou tudo é apenas uma mera coincidência?

São essas as questões que emergem na mente após terminar a leitura dessa excelente história, que bem poderia ser um filme fantástico, aliás, me foge do entendimento o porquê desse livro não ter virado um. Retomando, é inevitável que esse tipo de questionamento não acabe ocorrendo, a vida de Felix Kersten, personagem principal dessa biografia, médico especializado numa milenar técnica de massagem oriental, é algo de muito especial e interessante.

Kersten é um estoniano que tem nacionalidade oficial finlandesa e tem como país preferido a Holanda. É um médico extremamente bem sucedido, que divide suas agendas entre Haia e Berlim naqueles doidos tempos, na iminência da Segunda Guerra Mundial. Era além disso um ignorante em política, e pouco se lhe dava sobre quem governava a Alemanha e o que pretendia, néscio que era em assuntos de política e as tensões daquela época.

Entretanto, pouco antes de começar a guerra uma parte da sociedade germânica já antevia a catástrofe se desenhando no horizonte, a morte, a destruição e o desrespeito diante dos mais singelos e antigos princípios de humanidade por parte do regime nazista. Um homem, o segundo no comando, exatamente abaixo do então todo-poderoso Führer alemão, o chefe das forças para-militares do partido nacional-socialista alemão, as Waffen SS, Heinrich Himmler, era o responsável direto, como Ministro do Interior do III Reich, pela perseguição, confinamento e morte dos inimigos do regime.

Apesar de toda a soberba advinda das pregações fanáticas da corja mais alucinada que o mundo já teve notícia, a respeito da sua superioridade enquanto raça, Himmler era um homem baixo, careca, que usava óculos e ainda sofria de homéricas crises estomacais, que lhe rendiam dolorosos acessos de cãibras pelo corpo.

Aliás, lendo o livro você que sempre se perguntou: "diabos, Hitler não era loiro, alto nem tinha olhos azuis, porque dizia então que quem era assim era superior?" vai descobrir que o austríaco baixinho invocado que queria dominar o mundo, na verdade, ficara ainda mais aloprado porque tinha sífilis em estado avançado na última fase da guerra, quando os exércitos de Von Paulus eram varridos pelos soviéticos em Stalingrado e quando a investida suicida de Von Rundstedt na Floresta Negra contra as forças aliadas desembarcadas meses antes na Normandia deu em nada e a sorte da Alemanha, dessa forma, estava decidida. Eram duas frontes para se vencer, algo muito difícil, mesmo para a Wehrmacht. Um erro estratégico ou o mais puro sintoma da loucura de Adolf Hitler e seus sequazes?

Voltando ao doutor e seu paciente. Kersten acabou sendo indicado junto ao Reichsführer, Himmler, para tratar-lhe desses problemas estomacais e, de uma hora pra outra, se vê envolvido numa atmosfera de perigo, incertezas, medo, onde todo e qualquer oficial representa um perigo, um espião. Kersten, dado o sucesso de seu tratamento e a gratidão que este proporciona a Himmler, acaba virando confidente e, porque não, amigo do general supremo das SS.

Himmler, além da constituição física frágil, tinha o mesmo problema a respeito de sua constituição mental, psíquica. Pela amizade e gratidão que começou a cultivar pelo simpático doutor, ele que sabia - apesar do fanatismo - ser responsável direto pelo infortúnio de milhares de almas, naquele clima pesado e de tensão em que vivia, encontrava no bonachão Felix Kersten, aquilo que jamais teve: um amigo, um confidente. Por essa razão, acabava durante os tratamentos por ser sugestionado, induzido a fazer coisas que agradassem ao já horrorizado doutor que começa a descobrir os horrores do nazismo e cobrar suas consultas com vidas poupadas em prisões da Gestapo e em campos de concentração.

Essa influência que Kersten conquistou perante ao Reichsführer lhe garante feitos heróicos que salvaram, sem sombra de dúvida, mais de meio milhão de pessoas de morte certa. Um dos serviços mais marcantes foi sua interferência em relação à decisão de Hitler de deportar todo o povo holandês para a Polônia, a troco de que a Resistência Holandesa estava custando caro na sua encarniçada luta contra os invasores.

Sendo holandês de origens e de coração, Kersten consegue induzir Himmler a desistir da idéia, que certamente significaria a morte de grande parte do povo germânico (ué?) da Holanda. Já no apagar das luzes, ou melhor, no cagar dos pintos, bem melhor, da Segunda Guerra, Kersten conseguiu algo de insuperável. Uma entrevista entre Heinrich Himmler e um delegado do Conselho Mundial Judaico, em favor da libertação de alguns milhares de judeus dos campos de concentração. Judeus que foram libertados, diga-se.

Ao simpático e gorducho doutor Kersten é atribuída a responsabilidade direta pelas vidas de mais de 60.000 judeus e um incontável número de holandeses, poloneses, finlandeses e noruegueses que salvou durante o período em que tratou de Himmler. O livro, "Dr. Kersten - o Médico de Himmler" foi escrito por um jornalista, o Joseph Kessel, que desempenha com precisão e extrema competência o serviço de narrar a vida desse combatente da Segunda Grande Guerra, o doutor que foi um tipo de soldado muito mais eficiente que bombas, tiros e outras modalidades não menos pavorosas de morte, destruição e intolerância.

Li esse livro tem um tempo já. Encontrei-o num sebo em Curitiba e comprei, obrigando-me dessa forma a reler essa história fantástica. Entretanto não pretendia escrever a respeito, mudei de idéia com as crescentes ocorrências de imbecis fazendo apologia ao nazismo. Fiz minha parte, faça você a sua.

domingo, 27 de junho de 2004

Patriotadas de ocasião

Como se sabe, este é um ano olímpico, assim como é bissexto e de eleições.

As olimpíadas começam em agosto, o que inadvertidamente começa muito antes, em todo ano bissexto, são as famigeradas ações ufanistas de uns e outros, que com intuito de encher os bolsos, fomentam o fenômeno do nacionalismo mandraque que aparece nessas ocasiões. São os gigolôs do esporte, e principalmente, dos campeões de ocasião.

Seria muito mais proveitoso gastar tanta energia assim nas questões políticas que entram em cena com maior vigor no período que vai de agora até outubro, na boca da urna. Os jogos nem começaram, entretanto já escolheram o nosso depositário de esperanças, de pretensas graças de uma coletividade que não existe. A bola da vez é a ginástica.

Pouco tempo atrás houve uma etapa do mundial dessa modalidade no Rio de Janeiro, a mídia esportiva, devidamente avisada de que o futebol não comparece às festividades do Barão de Colbertin, inventou novas glórias olímpicas, que insisto, de uma coletividade ainda mais falsa. Precisam de um atrativo, do contrário todos irão perder os milhões investidos na cobertura dos jogos na Grécia.

Na verdade os ginastas brasileiros foram bem, isso todos sabem. O que, talvez, esqueceram de avisar é que os grandes favoritos às medalhas nem vieram ao Rio, porque já estão classificados, e como em geral esses favoritos são ou russos ou americanos, e bem por isso levam a questão um pouco mais a sério, estão ocupados treinando.

O Brasil irá mal em mais uma olimpíada, não assustará ninguém, meia-dúzia de medalhas douradas serão um acontecimento. E depois que apagarem a tocha, surgiram as mirabolantes teorias sobre o por quê dessa terra abençoada não ter sucesso olímpico, como tem Cuba. É bem simples: o Brasil não consegue dar hospitais, educação e até comida para seus habitantes, por que e como diabos seria uma potência olímpica?

O Brasil é bom em samba, caipirinha e bundas. Talvez. Mas não consta que exista 200 metros de bundas com barreiras, nem maratona em sambódromo e nenhuma modalidade prevê bebedeira, quer antes, depois ou durante a disputa. É triste esse nacionalismo de araque que irrompe nas competições internacionais, os locutores abusam dele: "nossa vitória...","nossa medalha...", "nosso Guga...". Tratam os poucos triunfos de uns poucos bons esportistas, que por acidente geográfico nascem aqui, como glórias de uma coletividade que não existe. Acidente geográfico sim, porque a grande maioria treina no exterior. Tomam para si uma vitória que não lhe pertence.

Nessa atitude egoísta embarca a coletividade tão falsa quanto esse patriotismo estilo "ame-o ou deixe-o", uma coletividade que, em geral, vota errado, que é preconceituosa, que se mata em estádios, que se mata em favelas, que rouba dinheiro público e consegue se candidatar à cargos públicos. Um país assim, convenhamos, não merece ser potência olímpica. Uma coletividade que é unida na vitória e no pódio, separada na consciência social e política. E nas derrotas também, nós vencemos, eles perderam.

Acredito que esta seja uma questão cultural. Somos uma nação que nasceu do nada, crescemos do nada, e talvez isso explique essa patriotada de ocasião. Na Europa, em lugares como a Áustria, demonstrações assim são entendidas como fascismo. Diferentemente dessa pátria varonil, eles eram um império que decaiu e viveu sob o totalitarismo, lá acabam admirando mais o esporte em si. Isso é visível, muitos estrangeiros torcem pela seleção brasileira, porque acham, coitados, que somos os melhores e invencíveis, no fundo acabam torcendo pelo espetáculo. Lá o sujeito do bronze é um herói assim como o cidadão que venceu. É a cultura e a forma de pensar dos tiroleses.

Não há mal algum em torcer, eu torço, todos nós torcemos. O problema é exagerar em algo, que no fundo, é só um esporte. Devemos exagerar é nas eleições, nas atenções ao tal panorama político, que no apagar das luzes é realmente o que pode mudar esse nosso país, cheio de palmeiras e sábias.

sábado, 26 de junho de 2004

Diário de um Poeta Corrompido II - Síndrome

Quando você propõe-se a criar um diário virtual (ok, virei um Suassuna do sul, portanto, não é mais weblogger, é diário virtual. Tal mudança tem referência direta com o dia da língua portuguesa), mas eu dizia, que quando você enceta (sempre quis usar essa palavra) a proposta de criar um diário é presumível que ele terá proclames seus diariamente, do contrário, não diga, deixa de ser um diário.

No entanto não tenho muito a dizer ultimamente, ou talvez até tenha o que mencionar, falta apenas o momento oportuno ou mesmo a maneira correta de tratar do assunto. Sou um néscio, portanto. Desde que comecei a publicar meus absurdos na internet, lá por novembro do ano passado, nunca tive nada definitivo e bem planejado nisso. A coisa toda surgiu meio que como uma daquelas projeções de ano novo, as quais em dado momento da vida, todos nós - não neguem, acabamos fazendo. Se conseguimos ou não seguir, é outra conversa.

E já que toquei no assunto lembro-me ainda de onde tirei tais idéias (a das projeções, não do blog - escapou, não sou um bom "suassuniano", se me permitem o neologismo). Ávido leitor de gibis que sempre fui, topava com esse tipo de coisa anualmente (lógico, disposições de ano novo, em geral, tendem a ocorrer na ocasião propícia, não consta que os personagens planejassem seus anos nas edições de junho, onde, invariavelmente a questão recorrente eram as festas juninas), mas eu dizia, topava com grande freqüência com as decisões de ano novo, que sempre buscavam criar um ano perfeito na vida feita de nanquim dos personagens, coisa que raramente, na verdade, nunca acontecia. Era o Pato Donald convicto de que ia saldar as dividas com o Tio Patinhas e ser menos pavio curto, por exemplo.

Eu peguei o exemplo, não critiquem, eu tinha uns 7 ou 8 anos, nada mais. Este blog (não resisto, é mais forte que eu, sou um fraco), surgiu assim. A idéia era criar algo novo (nem isso, não consigo mentir, abandonei o outro diário - vá lá - porque ele não funcionava), a idéia era criar coisas melhores. Não ficou legal, a exemplo das minhas tristes definições de ano novo, que nunca funcionaram. Além disso, hoje não se pode planejar nada, ninguém sabe direito o que será da vida em dois dias, uma semana. Quiçá em um ano. Que será do seu blog (sem comentários). De qualquer forma, eu com 7 ou 8 anos planejava o futuro. Era um sábio.

Era. Não sou mais. Deixei de ser. Comecei esse texto com a disposição de tratar de uma sindrome, a sindrome da tela em branco, que assola esse vil escrevinhador ultimamente. Olhando de soslaio pra cima noto que nem de longe tratei do meu real objetivo. Incompetente. Nada justifica esse texto, nada justifica você ao lê-lo, parem, parem, parem. Pode existir absurdo maior que esses parágrafos?

Talvez o que impele alguns beldroegas como eu a publicar suas parvoíces na internet seja o fato de que elas não seriam aceitas em outro lugar. Não vejo alguém publicando esse texto de boa vontade, a não ser seu autor, no caso, não diga, eu mesmo. É bem verdade que não ofereci ele a ninguém, e exatamente por esse motivo é razoável que ninguém o publique. Poderia tentar, mas tenho preguiça. Assim como tenho preguiça de tratar da tal síndrome, que agora perdeu completamente a razão de ser, posto que era a síndrome da tela em branco e pelo que percebo, do alto da minha perspicácia, enceto (vou acabar viciando) a segunda página de absurdos. A continuar desse jeito, a síndrome passa a ser da tela cheia, que clama por cortes, para não ficar demasiado longa. Percebo também que esse blog (é vício), caminha solenemente para a cucuia. Se procuram um texto melhor, recomendo o "diário I" (absurdo, escrevo um por semana, não é diário, portanto).

Se estão lendo esse derradeiro parágrafo é porque têm estômago, me conhecem ou eventualmente, nada pra fazer. Acho que estou muito reticente. É. Isso, isso mesmo, reticente, é o que eu sou. Num texto onde se fala muito e não se diz nada.

domingo, 20 de junho de 2004

Nem por decreto!

Como todos vocês sabem, este ano foram introduzidas mudanças no campeonato de Fórmula 1, com intuito de melhorar a competitividade. Na minha modestíssima opinião, uma temeridade. Se os demais competidores não conseguem derrotar a Ferrari é por sua própria incompetência. Querem assegurar por decreto o que não ocorre na prática, querem por decreto tornar vencedores o bando de pangarés que desfila pelos autódromos do mundo.

A culpa é de todo mundo, menos de quem está ganhando. Aos demais, os inglórios sacos de pancada, cabe trabalhar e se espelhar no afinco do time vermelho, que colhe suas vitórias inatacáveis do suor de seus pilotos. O alemão tem um quartinho em Fiorano com academia de ginástica onde dorme antes de testar. Acorda com os passarinhos, e só pára de andar quando anoitece. E está a 14 anos lutando por vitórias, troféus, tacinhas, medalha, medalha, medalha.

Ao passo que nesse mesmo período, o que fizeram os rivais? Passaram os anos reclamando de não poder ter uma Ferrari nas mãos, dando desculpas e, não raro, acusando os vitoriosos ferraristas de trapaças e sabotagens. Vão trabalhar, pois. O tedesco hexacampeão do mundo não pode ser responsável pela passiva moleza com que McLaren e Williams cruzam oceanos a fim de desfilar carrinhos barulhentos e coloridos por todo o mundo.

Enfim, como tenho a certeza de que os eternos derrotados não abandonaram jamais sua passividade, sugiro mudanças de regulamento que vão livrar a categoria da mesmice Ferrari/Schumacher, que já está esgotando a paciência de todo mundo:

1- Os carros da Minardi terão autorização para largar no sábado. Com isso, tem alguma chance de, no dia seguinte, se terminarem a corrida, chegar mais ou menos na mesma volta do piloto vencedor;

2- Michael Schumacher, fazendo ou não a pole, só poderá largar 20 minutos depois de iniciado o GP. Assim fará o que se chama de "prova de recuperação", garantindo alguma emoção ao público.

3- A Jordan e a Jaguar terão o direito de inscrever seis carros por corrida, para que pelo menos um ou dois terminem andando.

4- Mudanças em alguns circuitos para permitir mais ultrapassagens. Como em Spa Francorchamps, com a construção de uma rampa sobre a Eau Rouge, através da qual os mais ousados podem superar seus adversários pelo alto. Villeneuve e Zonta simularam algo parecido em 1999, mas não deu certo.

5- Sortear carros momentos antes da corrida, mantendo suas posições no grid. Isso permitirá ao italiano Gianmaria Bruni largar na pole com uma Ferrari e a Fernando Alonso sentar numa Minardi. O primeiro não poderia reclamar do equipamento, o segundo ao menos saberia do que reclamar.

6- Mudar os traçados no meio das corridas, com a colocação de cones e criação de chicanes descartáveis, que só seriam usadas pelos carros da Ferrari. Em pistas que tem traçados alternativos, os pilotos que largassem de décimo para trás poderiam usar apenas os mais curtos.

7- Proibir os mecânicos de trocarem os pneus. Os chefes de equipe, como Ron Dennis e Eddie Jordan ou diretores esportivos, como Jean Todt passam a ser os responsáveis pelos pit stops.

8- Proibir o rádio nos carros da Ferrari. Se os pilotos quiserem alguma informação ou orientação, que parem e perguntem.

9- Largadas sem horário previsto. Em algum momento, entre 9h e 14h do domingo, a direção de prova toca uma sirene. Cada um pega o carro que estiver mais perto e vai para a corrida.

10- Trazer de volta ao calendário o GP de Portugal, no circuito de Estoril, que seria modificado com a introdução de três cruzamentos. Não se preocupem, para manter a segurança dos pilotos seriam inseridos semáforos nestes cruzamentos.

11- Permitir a instalação de uma sirene no carro de Ralf Schumacher, para que seja acionada sempre que houver dificuldade de ultrapassagem (ou seja, em todas as corridas), quando os carros da frente serão obrigados a sair da frente.

12- Contratar o Eurico Miranda para fazer o calendário e escolher os pilotos e equipes. O Clube dos 13 redige o regulamento. O Gama, o Avaí e o Figueirense, isso já está decidido, não podem correr.

13- Por imposição da Rede Globo, teremos duas corridas por semana, uma as terças-feiras depois da novela (para concorrer com o filme do SBT) e outra aos domingos as 16 horas (para concorrer com o Gugu).

Bah!

Eh!

Não é que funcionou?

sábado, 19 de junho de 2004

A "Pataquada"

Refletindo nesses últimos dias, chafurdado em toda a sorte de livros, xerox (desconheço a forma plural adequada pra esse substantivo, que até pouco tempo era nome de uma empresa, apenas. Troquemos, pois, para "fotocópias") e uma série de outros elementos inerentes à vida acadêmica, chego à conclusão de que é extremamente saudável essa coisa de escrever uma patacoada por semana na internet, espero que você seja da mesma opinião no seu papel de ler a patacoada.

Não, eu não errei no título. Escrevi "pataquada" e não o correto, patacoada, porque na minha presunçosa maneira de ver as coisas entendo como muito mais prática a minha maneira de escrever. É sem duvida extremamente mais simples, e além do mais, segue o principio do: "escreve-se como fala-se". Preocupado com isso, pretendo organizar uma representação em forma de protesto perante à ABL (Academia Brasileira de Letras), para conseguir a revisão de ortografia deste ilustre verbete que é patacoada. Estejam avisados os beligerantes leitores que sentem-se incomodados e, como eu perdem o sono por conta dessa ultrajante condição, para engajar-se nessa digna causa.

Sempre tive o hábito, mórbido, eu confesso, de notar certas incongruências dos idiomas dos quatro cantos desse mundo redondo (taí mais um dos grandes mistérios da humanidade: como pode, o mundo, que é redondo, ter cantos?). Por exemplo: o inglês, idioma anglo-saxão que quer dominar o mundo, onde é tudo, sistematicamente tudo ao contrário. "John's House" é casa do João, e não House of John como seria muito mais lógico. Roda esquerda (do carro) é "left wheel", traduzindo, esquerda roda, e não wheel left, afinal a roda é mais importante que o esquerdo e, portanto deveria ser priorizada na sentença, mas não é. As línguas devem ter seus absurdos, do contrário estão fadadas ao fracasso. Provavelmente por isso o esperanto jamais emplacou.

Em compensação, xícara de chá, que por analogia deveria ser tea's cup, é cup of tea, traduzindo, xícara de chá. Absurdo. Acredito que isso tudo se explique pelo fato de que essa língua floresceu na Inglaterra, país onde tudo é invertido, a começar pelos carros, posto que é o único lugar onde você dirige no banco do carona - li isso em algum lugar, não tem muita graça. Aliás, não são os únicos. No Japão é assim, na África do Sul idem, na Índia também, acho que nas Malvinas, Nova Zelândia e muito provavelmente na Austrália, não tenho certeza.

Há que se considerar também o caso dos chineses, japoneses e outros menos votados povos do extremo oriente. Quem consegue compreender aqueles risquinhos entrelaçados que eles usam? Suspeito que nem eles mesmos compreendam. Tenho até uma teoria referente ao fato de serem tão bem sucedidas as civilizações orientais, tudo explica-se pelo idioma absolutamente incompreensível que usam, como ninguém se entende, ninguém discute. Sem discussões inúteis, as empreitadas tem maior possibilidade de funcionar, se não estiverem de acordo, eles partem pra ignorância, mesmo. Vide o parlamento...

Podia também discorrer de certas impressões que tenho no tocante aos caracteres árabes, bem como sua pronúncia. Tenho certo receio de incorrer em desagrado dessa ou daquela organização extremista e eventualmente virar alvo de algum ataque terrorista. Coisas inexplicáveis são os terroristas, como também é inexplicável escrever "inexplicável" com "x" e "inesperado" com "s" e não com "x". Culpa de um grego ou de um romano qualquer perdido em livros de etimologia, que um dia, há uns bons "buzilhões" de anos resolveu, ou por sacanagem ou com o intuito de propiciar assunto a um texto, isso ainda não se sabe, controverter nosso idioma. Deve ser o mesmo cara da "pataquada".