domingo, 27 de junho de 2004

Patriotadas de ocasião

Como se sabe, este é um ano olímpico, assim como é bissexto e de eleições.

As olimpíadas começam em agosto, o que inadvertidamente começa muito antes, em todo ano bissexto, são as famigeradas ações ufanistas de uns e outros, que com intuito de encher os bolsos, fomentam o fenômeno do nacionalismo mandraque que aparece nessas ocasiões. São os gigolôs do esporte, e principalmente, dos campeões de ocasião.

Seria muito mais proveitoso gastar tanta energia assim nas questões políticas que entram em cena com maior vigor no período que vai de agora até outubro, na boca da urna. Os jogos nem começaram, entretanto já escolheram o nosso depositário de esperanças, de pretensas graças de uma coletividade que não existe. A bola da vez é a ginástica.

Pouco tempo atrás houve uma etapa do mundial dessa modalidade no Rio de Janeiro, a mídia esportiva, devidamente avisada de que o futebol não comparece às festividades do Barão de Colbertin, inventou novas glórias olímpicas, que insisto, de uma coletividade ainda mais falsa. Precisam de um atrativo, do contrário todos irão perder os milhões investidos na cobertura dos jogos na Grécia.

Na verdade os ginastas brasileiros foram bem, isso todos sabem. O que, talvez, esqueceram de avisar é que os grandes favoritos às medalhas nem vieram ao Rio, porque já estão classificados, e como em geral esses favoritos são ou russos ou americanos, e bem por isso levam a questão um pouco mais a sério, estão ocupados treinando.

O Brasil irá mal em mais uma olimpíada, não assustará ninguém, meia-dúzia de medalhas douradas serão um acontecimento. E depois que apagarem a tocha, surgiram as mirabolantes teorias sobre o por quê dessa terra abençoada não ter sucesso olímpico, como tem Cuba. É bem simples: o Brasil não consegue dar hospitais, educação e até comida para seus habitantes, por que e como diabos seria uma potência olímpica?

O Brasil é bom em samba, caipirinha e bundas. Talvez. Mas não consta que exista 200 metros de bundas com barreiras, nem maratona em sambódromo e nenhuma modalidade prevê bebedeira, quer antes, depois ou durante a disputa. É triste esse nacionalismo de araque que irrompe nas competições internacionais, os locutores abusam dele: "nossa vitória...","nossa medalha...", "nosso Guga...". Tratam os poucos triunfos de uns poucos bons esportistas, que por acidente geográfico nascem aqui, como glórias de uma coletividade que não existe. Acidente geográfico sim, porque a grande maioria treina no exterior. Tomam para si uma vitória que não lhe pertence.

Nessa atitude egoísta embarca a coletividade tão falsa quanto esse patriotismo estilo "ame-o ou deixe-o", uma coletividade que, em geral, vota errado, que é preconceituosa, que se mata em estádios, que se mata em favelas, que rouba dinheiro público e consegue se candidatar à cargos públicos. Um país assim, convenhamos, não merece ser potência olímpica. Uma coletividade que é unida na vitória e no pódio, separada na consciência social e política. E nas derrotas também, nós vencemos, eles perderam.

Acredito que esta seja uma questão cultural. Somos uma nação que nasceu do nada, crescemos do nada, e talvez isso explique essa patriotada de ocasião. Na Europa, em lugares como a Áustria, demonstrações assim são entendidas como fascismo. Diferentemente dessa pátria varonil, eles eram um império que decaiu e viveu sob o totalitarismo, lá acabam admirando mais o esporte em si. Isso é visível, muitos estrangeiros torcem pela seleção brasileira, porque acham, coitados, que somos os melhores e invencíveis, no fundo acabam torcendo pelo espetáculo. Lá o sujeito do bronze é um herói assim como o cidadão que venceu. É a cultura e a forma de pensar dos tiroleses.

Não há mal algum em torcer, eu torço, todos nós torcemos. O problema é exagerar em algo, que no fundo, é só um esporte. Devemos exagerar é nas eleições, nas atenções ao tal panorama político, que no apagar das luzes é realmente o que pode mudar esse nosso país, cheio de palmeiras e sábias.

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