Eu passei anos da minha vida brincando com Lego. Eu fazia coisas impressionantes para quem dispunha de apenas um conjunto Lego Pirata, consistia no navio, piratas e marujos, e toda a sorte de equipamentos dedicados à arte de navegar e um conjunto mais robusto em peças de Lego genérico, que tinha peças para tudo e para nada.
Lembro de quando ele surgiu na minha vida. Um guri vizinho, tinha um conjunto policial. Fiquei alucinado pela maravilha de poder fazer meu próprio brinquedo e apurrinhei meus pais para ter um. Assim como hoje, era um brinquedo caro e presente apenas em lojas grandes e em cidades grandes. Só fomos encontrar em Curitiba, na loja da Mesbla, que não existe mais. Lembro de quando compramos e de que, pelo movimento na loja, me perdi do meu pai. Eu pensava, com espantosa calma, a vida de menino de rua que levaria dali em diante, e é direito de vocês duvidar, sem chorar. Acho que não tinha atinado para a dimensão do problema. Eu tinha apenas 9 anos e já era temerário. Meu pai, este sim, ciente do tamanho do problema, onde já se viu, perto do Natal, ir à capital, 150 km, e perder um guri... Enfim, ele me achou. Nunca vou esquecer o agarrão no braço direito e o olhar sério. Pelo seu temperamento, é possível que tenha brigado comigo, mas isso, algum neurônio moribundo já sepultou.
Quanto ao Lego, não sei precisar em números, mas talvez chegassem a 300 pecinhas, e eu sempre sonhei em ter ainda mais, mais e mais - mas nunca tive (aqueles conjuntos eletrônicos, onde é possível fazer robôs foram sonho de consumo. Eu daria um rim por eles, dez anos de vida por um). Com o que tinha fazia carros de Fórmula 1, naves espaciais, submarinos (jamais consegui fazer um que durasse muito tempo sem molhar o interior, pela razão da mecânica da água enquanto fluido, miséria física-química que só fui conhecer muito tempo depois), fazia também casas, clínicas, fiz um arco-e-flecha pequeno - que quase foi-me expropriado pela sanha intolerante de freiras apavoradas da escola, adaptei uma vez um motor de carrinho de fricção - daqueles de corda - e fiz um dragster que não sabia andar reto. Fiz aviões que espatifava no quintal para resgatar os sobreviventes, e os mortos, com meus Comandos em Ação. Construi um mundo naqueles bloquinhos plásticos e devo boa parte de minhas brincadeiras, e até da minha cognição atual, ao que o Lego me proporcionou.
Com o tempo cresci. É o mal da criança, ela cresce. E crescendo cumpria passar adiante o brinquedo. Meu irmão caçula apropriou-se. Ele nunca chegou a dominar algumas "técnicas", provavelmente por ter tido muito pouco tempo para aprendê-las: intercalar as camadas de peças para que as coisas fiquem mais sólidas (príncipio presente na edificação de qualquer alvenaria moderna, onde se faz a amarração dos tijolos) ou primar por alguns preceitos estéticos com as cores. Vai ver ele tinha um gosto mais bossa-nova e eu nunca soube.
Eu sinto falta do meu irmão. Do meu Lego também. E daquele doce tempo de criança, onde em meia hora eu era campeão do Grand Prix Sala-quarto e podia ir à Lua com meu próprio foguete.
Artigo sobre Lego na Wikipedia:
Aqui
P.S.: Dei uma rápida olhada no Google atrás de imagens para ilustrar esse post e me declaro abismado com algumas reproduções feitas em Lego. Dêem uma olhada lá.
Ah, este post ficará sem imagem até eu instalar o Photoshop no computador recém formatado.
sexta-feira, 27 de junho de 2008
Notas de saudade - Lego
às 20:11 2 comentários Marcadores: Memórias
domingo, 22 de junho de 2008
Milly Lacombe - de doer os ovos
Chamar-me-ão (adoro mesóclise) de chauvinista, preconceituoso, machista impedernido e comedor de criancinhas. Pouco me importa. Mas a verdade é que deviam prender o irresponsável que contratou Milly Lacombe para comentar as partidas da Euro Copa pela tv Record.
Lacombe é abaixo da crítica. E sublinhe-se que crítica, dentro do aspecto "comentaristas de futebol", que é um universo assolado por ex-jogadores muitas vezes ignorantes e jornalistas idem, que crêem-se piamente doutores sobre um esporte simples (consiste em 22 sujeitos interessados que uma única bola não lhes vaze a meta, e por vezes muito mais em que esta mesma bola vaze a do adversário), dizia, sublinhe-se que crítica neste mundinho vem a ser algo extremamente raso.
O rol de comentáristas de tv aberta, composto por um Sérgio Noronha, deslumbrado por falar na Globo, sonolento e redundante em tudo que diz e, sobretudo, defensor escancarado dos falimentares clubes cariocas (só comenta jogos destes, o que nos faz pensar que desconhece o futebol que se joga fora do Rio, tendo, em 2005, dito que "o melhor futebol da Europa é jogado por brasileiros", uma burrice incrível). Composto por Neto, Caio e outros, que dizem aquilo que o torcedor é capaz de perceber por si só. Exceções honrosas: Falcão, quando não se embala no ufanismo de Galvão Bueno, e Mauro Betting.
Lacombe tenta dignificar sua qualidade de comentarista com bordões inócuos e repetitivos. Alguns, idiotas. Para Milly Lacombe, nesta Euro Copa, todos jogaram bem, mesmo os eliminados. Todos tinham o toque sulamericano, embora sejam europeus e visivelmente algumas seleções se debatam sem capacidade de jogar um futebol mais gingado.
Fosse apenas falar o óbvio ululante, Lacombe seria suportável. Se ela fosse do tipo que diz, após uma equipe abrir o marcador: "agora o adversário terá de correr atrás para empatar", e redundâncias do tipo, não comprometeria. Mas Lacombe prefere dizer, ao primeiro gol italiano, que "A França precisa de uma virada no placar psicológico" (no jogo França e Itália, onde os franceses jogaram praticamente todo o jogo com um a menos). What's porra is this? Virada no placar psicológico? Ou seja, para ganhar a partida e a classificação, na visão da iluminada comentarista, à França bastaria pensar: "Ok galera. Tá 2 a 1 pra gente! Vamo que vamo!"
Sua insistência em formar bordões é do tipo de situação que dá vergonha alheia. Quando o jogador se destaca, ele é o centro de gravidade do time. Por que ela não diz, "principal jogador"? Num jogo decisivo da primeira fase, ela soltou "que este é um jogo com requintes de crueldade de um mata-mata". A frase, dita uma vez, não amola. Mas repetida buzilhões de vezes irrita.
Outro exemplo foi a partida entre Rússia e Holanda. "É o confronto da criatura com a nave-mãe", ou asneira similar. Não dá pra dizer, "é o jogo entre o passe de qualidade tradicional na Holanda e uma Rússia que vem melhorando técnicamente". Ainda neste jogo, "A entrada de um garoto (Van Persie, acho) na Holanda é BIPOLAR. Pode dar muito certo ou dar muito errado''. Reação do meu irmão: "Puta merda, bipolar não. Ah não, vou sair daqui depois dessa, vai pra merda. Porra, que merda é essa, quem botou mulher pra comentar?''
No jogo de hoje, Espanha e Itália, ao início da prorrogação, "Nesse final de jogo, vale muito a emoção, a raça, a experiência, preparo físico, enfim, todas essas subjetividades". Como assim, "subjetividades"? É praticamente o que compõe um time de futebol, só faltou ela incluir na lista de subjetividades técnica e talento. Raça, emoção, preparo físico e experiência não são subjetividades, são elementos que compõe times, especialmente seleções e mais ainda as vitoriosas.
Além destes, e acreditem, muitos, mas muitos outros exemplos, Milly parece acreditar com toda a fé que as nações têm algum determinismo relacionado com o futebol. Holandeses serão sempre rápidos, ofensivos e criativos. Italianos fortes e competitivos. Alemães taticamente perfeitos. O que denota um estilo wikipedia de comentar e abre espaço para pérolas (outras) como: "É caracteristica desse time, os jogadores turcos já nascem com DNA defensivo''. DNA? De onde ela tirou isso?
A função dela é dizer como o jogo está. Se possível, perceber algo que o torcedor não consegue, porque é justamente isso, torcedor. Mas ela tenta embelezar, empolgar, com termos exóticos e bonitos só irritando quem assiste, que não está afim de ouvir "centro de gravidade" quando poderia ouvir, "camisa 10". Que não está afim de ouvir "zona de conforto", "expôr a jugular" e uma das mais doloridas: "A prorrogação abre um novo portal na dimensão futebol".
Milly Lacombe, vai ver novela, vai.
às 19:06 2 comentários Marcadores: Atualidades, Mídia
terça-feira, 17 de junho de 2008
Frefox 3
Hoje foi lançado oficialmente a nova versão da rapozinha que, nas minhas primeiras impressões, está sensacional.
A nova versão me chama atenção por:
- absoluta convergência com os plugins já instalados.
- muito mais rápido.
- mais bonito.
Não conhece ainda? Aqui você descobre bons motivos para migrar para o Mozilla Firefox.
(Não. Este post não é uma propaganda. Seria inútil se o fosse. O Firefox é um software livre, e por definição, gratuito. Se agrada tanto é porque é mesmo muito bom)
às 17:45 2 comentários Marcadores: Atualidades, Tecnologia
domingo, 15 de junho de 2008
Cidadãos de bem a solta, cuidado!
O cidadão de bem, pagador de impostos e cumpridor de seus deveres votou "não" no referendo. Porque ele tem o direito à auto-defesa, pensou. Então comprou uma arma.
Mas o cidadão de bem se estressa com as vicissitudes da vida moderna, como acontece de ordinário com todos nós, e resolve se auto-defender da esposa, do cachorro, do vizinho, do motorista que o ultrapassou e do caixa do banco que lhe cobrou uma taxa desconhecida.
Medo. Muito medo.
sábado, 14 de junho de 2008
O homem que viveu 10 vezes enquanto todos nos esforçamos para viver uma
Dumas foi o sujeito que inventou alguns modos de produção – e de reprodução até – da cultura. Foi com ele que os folhetins se popularizaram, tornando-se “hits culturais”, numa época em que a desprezada reprodutividade técnica de Adorno ainda era quimera da mente criativa de um Julio Verne – por sinal contemporâneo e amigo de Dumas. Tanto é assim que ao escrever e verificar o sucesso de Os Três Mosqueteiros, teria dito: “descobri minha mina de ouro”. A constatação explica o surgimento de continuações com as personagens envelhecidas (Vinte Anos Depois e O Visconde de Bragelone - obra raríssima no Brasil, onde consta, num capítulo, a histório do Homem da Máscara de Ferro), a exemplo do que o cinema faz hoje para encher as burras. Cinema, aliás, que bebeu muito da sabedoria deste Dumas, pai. Suas obras serviram de embasamento para mais de 200 filmes em toda a história, o que aponta no quão certeiro foi este francês descendente de nobres e de negros haitianos ao compor suas histórias. É verdade que elas não vão no âmago das questões humanas como as agudas obras de Victor Hugo e Balzac, conterrâneos e contemporâneos de Alexandre pai, mas também é verdadeiro que Dumas escreveu para entreter. Seja em suas peças, seja em seus folhetins, a idéia era distrair, agradar, fazer rir. Em suma, contar histórias. Victor Hugo se declarou uma vez invejoso de Dumas. A popularidade e o carisma que queria alcançar pelo seu incontestável talento era concedida em generosas doses pela gente do mundo inteiro a Alexandre. Victor Hugo aconselhou Dumas a escrever para eternizar-se. Dumas ouviu, mas preferiu escrever para ganhar dinheiro. A escolha não fez de Dumas père o mais célebre dos escritores franceses, mas certamente o fez o mais lido. Os folhetins que Dumas inundou com suas aventuras e romances históricos provocaram vendas estratosféricas nos jornais em que iam publicados e trouxeram ao autor rendas igualmente astronômicas que este gastou impiedosamente, terminando a vida em 1871, em casa de seu filho, Alexandre Dumas, cognominado para afastar confusões desnecessárias, fils, com apenas um punhado de francos que, ao contar, verificou que constituíam a mesma quantia com a qual ele se aventurara em Paris mais de meio século antes. Dumas diz ao filho, “ora, ninguém pode me acusar de esbanjar dinheiro, eis que ao limiar da morte me vejo com precisamente a mesma quantia de 50 anos atrás, não lucrei, é verdade, mas também não dei prejuízo”. Além da admirável capacidade de contrair dívidas, Dumas pai tinha a de fermentar sonhos e de, em resumo, viver 10 vezes o que sofremos para viver uma. Sua vasta obra, 600 composições, entre artigos, peças e romances, somou 37 mil personagens. Números que sempre trouxeram à tona a questão de que: seria humanamente possível, em 50 anos, escrever tanto? Há quem diga que sim, entre eles Guy Endore, o biógrafo do primeiro parágrafo. E há quem diga, não. E há outros, que apoiando-se no meio termo, sustentam que o que Dumas fazia era racionalizar o tempo e seus recursos. Ele apenas se cercava de autores de menor expressão aos quais remunerava por pesquisas acerca das idéias que tinha. A estes, Dumas sempre chamou de colaboradores. É verdade que Dumas foi também acusado de plagio algumas vezes. E admitiu-as. Reconhecimento Dumas sempre sofreu um pouco por ser negro e escrever o que hoje diríamos literatura barata. Seria como comparar um Nobel como Saramago e um réles autor de novelas globais. Entretanto, estas questões não o impediram de ser um entusiasta da democracia num período onde a França não se decidia sobre monarquia, república, Bourbons e Bonapartes, duas classes de imbecis despóticos muito semelhantes. De qualquer forma, Dumas encontrou tempo para escrever um grande almanaque de cozinha, amar as mulheres mais cobiçadas do seu tempo, criar lendas, viver algumas, lutar pela unificação da Itália e trazer a “industrialização” para a cultura e, mais diretamente, para as letras. Dumas jamais foi parte da Academia Francesa de Letras, injustiça que seria reparada com a aceitação de seu filho anos mais tarde, também escritor.
A frase é uma adaptação da original do escritor norte-americano Guy Endore, autor de alguns romances/biografias, se é que o termo existe, sobre grandes mentes da história humana. Entre estas obras, “O Rei de Paris”, que com fatos fictícios, outros verdadeiros e alguns, segundo o autor, revisitados, busca contar a vida cheia de graça, glória, alegria, cultura, história, inteligência e peculiaridade de Alexandre Dumas père, o dito Rei de Paris, na época em que esta descobria os boulevards, a cultura, a efervescência política que só foi sossegar depois da Segunda Guerra Mundial.
às 20:35 0 comentários Marcadores: Cultura

