terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Gira il mondo

Gira il mondo. No espaço sem fim, que eu bem poderia arriscar um italiano insuspeito para completar o verso, mas eu não sei como escreve, eu sei que spazio é espaço, e escreve assim, porque spazio é nome de um modelo de carro dos anos 1980, pequeno, mas os italianos da Fiat achavam que nele cabia o nome de spazio de tal sorte que, década depois, quando eu era garotinho e ia à pé para escola, ou de casa para a casa da vó, e de lá para casa, ou da rua para casa, enfim, sempre em passinhos apressados, colecionava os nomes dos carros estacionados pela rua, tinha Gol, Vo, Voy, Voyage. Passat, Santana, que era carro de rico, Chevette, Versalhes, Opala, carro de mafioso, dizia minha mãe. Caravan. 147? 147 é nome de carro? Nome de carro pode ser número? Fusca. E tinha uns Spazios também.

Nada disso conta porque nomes de carros hoje são uma pequena curiosidade. De lá para cá, girou muito il mondo no spazio sem fim e hoje eu, que até ando bastante à pé, não reparo nos nomes dos carros porque eles não reservam mais mistério nenhum. Vai ver que viver é isso, uma constante eliminação dos mistérios: um dia, andar é um mistério. Se assomar às proporções gigantescas dos nossos pais, quando nos agarramos às suas pernas, é outro. Em algum momento, o escuro, depois os ruídos da casa à noite, então são os nossos avós, o primeiro contato com outra criança. Depois são os nomes que departamentos de marketing, investindo milhões, escolhem para automóveis. Precisam ser modernos, desafiadores, interessantes, emocionantes, nome de carro tem que ser, no fim das contas, um motivo para que você o compre.

Outros mistérios chegam com o tempo, para uns eles aparecem antes, para outros depois, mas no geral, a escala segue uma mesma programação, determinada por condicionantes sociais, temporais, antropológicos, porque todos nós vemos o mistério da primeira paixão, da escolha de uma carreira, dos talentos que desistimos de ter, daqueles que cultivamos, das coisas que acreditamos, das que vamos perdendo no meio do spazio sem fim por onde desfila, inconsequente, em sucessivas elipses sem destino, esse globo, que nem é globo, taí outro mistério, andaram mentindo pra gente esses anos todos, o planeta não é redondo, é meio achatado nos polos e barrigudo pelo equador.

E tem sempre um mistério, uma crescente complexidade nas coisas que, de forma bem contraditória, se não mesmo misteriosa, nas ciências da computação se chama de abstração: medida do quão distante da linguagem de máquina, medida em pulsos binários, está cada informação. O mistério, hoje, é então muito mais abstrato que o nome Spazio, impresso em acrílico brilhante, colado ao aço bege de um hatch italiano dos anos 1980, mas nesse caso não quer dizer que abstrato seja simples porque o mistério, hoje, é o maior de todos até aqui.

Meu grande mistério não é único, capaz de você vê-lo ecoando no coração e cérebro de 11 em cada 10 pessoas da minha idade, já foi cantado em prosa e verso, meu mistério anda na filosofia e na literatura há séculos, e não há redução melhor para ele do que a frase: “nossa maior tragédia é não saber direito o que fazer da vida”.

Porque eu sei que eu não sei, e saber que não sabe, mais do que ironia socrática, é uma decisão, uma escolha emancipatória que lhe coloca no centro de controle ilusório da sua própria vida, esse que nós achamos que nos dá vezes de pilotos do destino que nos carrega para cá e para lá. Mas eu nunca soube. Hoje eu até desconfio, tenho bons planos, ando de boa vontade e cheio dos otimismos todos que, à força de doença, andei conservando ao longo da vida: minha energia e estoque de pensamento positivo impressiona, andei economizando muito, hoje eu invisto com vigor, que o saldo é largo o suficiente para que eu me recupere mesmo dos piores negócios. Mas parece que falta algo, falta uma resposta, falta preencher uma incógnita ou constante, falta fechar essa equação porque o cálculo, toda vez, retorna valores inconstantes e que não se verificam na frieza da realidade dos fatos. Meu mistério, esse de não saber direito para onde ir, é agravado por não saber direito como as coisas hão de terminar.

Gira il mondo no spazio sem fine, já passou um ano de mistérios, um ano inteiro de saudade, um ano inteiro de vontade, um ano inteiro de incógnita, de dúvida, de perdão e tristeza inocente, um ano inteiro desse vazio que você tenta tapar à força de todas as coisas boas que consegue encontrar, dessa transmutação em buraco negro que engole alegria, sorriso, boa vontade e as pequenas vitórias de quem vai se reinventar para não deixar que a sombra do que foi, da lágrima e das dores, venham aqui se fazer convidadas, tomar lugar na sala, venham me calar e me afogar em tristeza, dores e remorsos.

Não que seja difícil, mas também não é fácil. Apenas é: não há escolha, o único caminho é apertar o punho, fechar os olhos e esperar tudo passar. E espera. Porque tudo volta, quando você menos espera, e para falar a verdade, menos quer, volta. E dói. E aí você se fecha, e reconstrói, e vence, e engole mais alguma coisa boa, e volta. E aí você tem força, não sabe direito de onde, mas tem. E passa, e aí você pacifica, porque as coisas são o que são, você é quem você é, o passado é o passado, o presente você tem a ilusão de que escolhe, e o futuro é onde moram os teus sonhos e os novos mistérios.
Gira il mondo. Vai continuar girando, não importa o que façamos, indiferente. Como, aliás, e como corta perceber isso, você precisa aprender mais a ser em 2018.

domingo, 10 de dezembro de 2017

The Platters - The Great Pretender

Adrift on a world of my own.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Mais uma estrelinha

Eu fiz hoje algo que, acho, só fiz lá no primário, garotinho. Eu terminei um caderno. Da primeira à última folha, todo o caderno está tomado, não há espaço em branco, são 90 e tantas folhas de papel, frente e verso, escritas, apagadas, pouco rasuradas, tensas de tanto folhear, marcadas de anotações, como uma que encontrei agora, da época de Álgebra de Boole: “partindo-se de uma premissa falsa, você pode concluir qualquer coisa”; corolário que, não parece, mas é possível provar matematicamente e que dá um sentido bem interessante para tanta coisa que não entendemos direito na vida da gente. Enfim.

E não é um caderno qualquer, é um caderno de capa dura, de quadrinhos porque eu não sei fazer conta em caderno diferente, é o meu caderno de matemática, que quase venceu todo o ano letivo, que está para terminar por esses dias. Ele se esgotou porque os esforços do professor foram bastante intensos, prolixo, mas também concorreram para o esgotamento o fato de que eu, cioso e interessado, simplesmente refiz à exaustão boa parte dos exercícios para me manter nas pontas dos casos na iminência das provas à tal ponto que, em todo esse ano, meu conceito mais baixo em matemática foi um B.

O que, em si, é outro ineditismo: esse encontro de um sujeito que sempre achou matemática interessante com a própria que, elusiva, era muito mais fonte de sombria e sorumbática preocupação do que de alegria nos tempos da adolescência. Quem diria. Mas brincar com os números e afiar o raciocínio abriu a porta para um exercício de otimismo: afugentei o medo, expurguei traumas passados e me permiti a pensar positivo sobre o pavor de ter dificuldades em matemática. Pus o cálculo no bolso, saí contente da experiência e encantado com a capacidade do pensamento positivo em facilitar os fardos da vida aos quais nos damos.

Eu poderia prolongar esse texto extraindo sentido do episódio do caderno encerrado, quem sabe comparar as duas realidades da minha vida de contraste porque, da mesma forma que eu me orgulho desse caderno, caprichosamente recheado de cálculos e fonte de dedicação e esforço, me orgulho de um outro que cá tenho comigo, que comprei em 1997 e que me serviu, respectivamente, na oitava série do ensino fundamental, nos três anos do médio, no cursinho, no ano de engenharia e nos quatro anos de jornalismo, tudo isso com uma porção considerável de páginas em branco. De um lado, dedicação; do outro a mais completa e bem acabada indolência. Infelizmente, dele arranquei páginas um tempo atrás, mas até então você podia começar a folheá-lo em Biologia, aí passaria por Cálculo Vetorial e Geometria Analítica, chegaria em Física do ensino médio, depois tinha algo de Teorias da Comunicação e assim por diante. Era o meu caos, era a minha indolência, era uma caricatura de quem eu era.

Mas não farei nada disso porque o triunfo não precisa de crônica e de análise: simplesmente é. Direi apenas que vou guardar esses dois cadernos, que me orgulho bastante de ambos, que um dia vou gostar de mostrar para alguém, quem sabe para as crianças. Que esse novo, de matemática, está tão bonito e vistoso que fico contente de tê-lo realizado e que, de todas as minhas pequenas vitórias e grandes mudanças, ter preenchido com sofreguidão essas páginas é uma das minhas mais alegres, e bobas, realizações do ano. Mereço, pois, uma estrelinha na testa.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Em dia

O ano parece ter passado tão rápido. Pode ser impressão, quem sabe motivada pela agenda movimentada de passeios, de novas rotinas, de aulas, de mais trabalho, de cursos, oficinas, de ir e voltar, de viagens. Mas também de calma, reflexão e meditação.
Independente do motivo, o que conta e toca a dizer é que o ano foi mesmo corrido. Voou.

Antigamente, isso me preocuparia um pouco. Perceber que o tempo passa, rápido e imperdoável, tende a lembrar a gente dos desperdícios, da quantidade de tempo que gastamos com coisas que não rendem frutos, com o fato de que o tempo, que só passa, é finito e que a sua primeira e maior obrigação na vida é certificar-se de que não o desperdiça.

Mas ando em paz até mesmo com essa percepção porque nada do que eu faço hoje é desperdício. É tudo caminhada, percurso, descoberta e propósito em direção a um futuro sempre melhor. Eu tenho um plano.

Eu nunca fui dado a resoluções de ano novo. Nunca. Mas, ao entrar 2017, me dei algumas tarefas e metas, me permiti traçar uma porção de planos para todas as contingências possíveis e imagináveis então e, hoje, no finzinho de 2017, posso dizer com plena satisfação que tudo a que me propus, eu fiz. Que tudo que estava diretamente ao meu alcance foi realizado e de cada uma das minhas buscas e decisões vieram outras caminhadas, conclusões, experiências extraordinárias e lições importantes sobre quem eu sou e o mundo à minha volta.

E nesses depósitos e saques, nesses juros que são o tempo cobrando pela vida que nós achamos que fazemos, acho que finalmente entendo porque 2017 foi assim, estranho, mas ainda assim um ano legal: é a primeira vez, em tanto tempo, que termino um ano sem dever nada à mim mesmo. Estou em dia. Os empréstimos que fiz estão pagos, não devo mais nada a esse cara do futuro que andava meio cansado de, impotente, ver-me dando cabeçadas pelo caminho, me amedrontando com minha própria sombra, sem destino e propósito, desperdiçando oportunidades, tempo, amor, inteligência e energia.
É bom estar em paz consigo mesmo, quer no passado, quer no presente, quer no futuro.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Nostalgias do futuro

Viver tem sido sonhar com o dia em que, meio velho, você pega no telefone, se eles ainda existirem, e liga para os filhos no meio do dia, sem a menor razão específica, para dizer que morre de saudades do tempo em que eles lhe sorriam com as bocas cheias de janelinhas; tudo isso enquanto sabe da improbabilidade geral dessas coisas e fica aí, cismando consigo mesmo, que já seria um bom começo adotar um desses.

E, no fim das contas, não fazer nada disso porque encarar a vida, sorrir, simplificar e adicionar leveza são todas as coisas que você pode fazer enquanto se ilude a respeito de ter algum controle do que faz, sente, deseja e, no fim das contas, realmente obtém das buscas e lutas nossas de todos os dias.

A vida é um troço engraçado.

domingo, 19 de novembro de 2017

Radiohead - Man of War

Trata-se de uma faixa refugo do OK Computer, lançada só agora, 20 anos depois. E que coloca as coisas em perspectiva de um disco tão importante diante do fato de que essa música, um rejeito, é uma das minhas preferidas.

Eu considero a crítica musical uma das coisas mais insuportáveis da crítica cultural. Em geral, textos sobre músicas, álbuns e artistas são cheios de pedantismo insuportável e eu me pelo de pudores e censuras para nunca, jamais, posar como conhecedor, como crítico, para sair por aí resenhando músicas, álbuns e artistas, quer voluntariamente ou não. Como dizia o Raul, eu acho toda essa gente um saco.

Toda essa resistência está relacionada com o ambiente tóxico e ególatra de artistas e críticos, que se engajam num relacionamento promíscuo de grupos que deviam manter um distanciamento sadio em virtude do que produzem.

Mas acabei gostando tanto da canção que me permiti ler resenhas sobre. Tive engulhos em apenas dois parágrafos da crítica laudatória da Rolling Stones, suficientes para me recordar do porquê de achar o jornalismo cultural, em especial aquele que se debruça sobre música, uma das coisas mais insuportáveis do mundo pós-moderno. Eu ando velho, não me critiquem, me deixem pregar ao deserto, que aqui é quentinho e eu, para falar a verdade, nasci cagando para a claque.


Entretanto, vou reconhecer que a jornada foi útil porque me deixou descobrir que "Man of War" esteve a ponto de ser o tema de Spectre. Algo que faz todo sentido: a música tem uma batida bem James Bond, que eu não teria percebido por minha conta. A título de curiosidade, os produtores do filme, embora tenham gostado da peça, desistiram dela em virtude do fato de que a música não seria original para o filme, algo que tornaria a disputa por um Oscar impossível para Spectre.

Drift all you like
From ocean to ocean
Search the whole world
But drunken confessions
And hijacked affairs
Will just make you more alone


segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Guillaume le Gentil

Guillaume le Gentil. Astrônomo, francês, século 18. Le Gentil, mas que nome, viveu num tempo em que o mundo científico colhia os primeiros frutos da Era da Razão, do Iluminismo, cuja grande agenda para a astronomia estava em medir a escala do sistema solar e obter as distâncias que separam a Terra de todos os vizinhos. Para dar conta desse colosso aritmético era preciso alguns referenciais e o melhor deles é a medição do trânsito de Vênus, entre nós e o Sol, visto a partir de diversos pontos da Terra: com a cronometragem precisa do tempo que o planeta vizinho leva para percorrer o disco dourado do sol, é possível se calcular a distância relativa de Vênus à Terra. Com esse número, os astrônomos puderam presumir a escala do sistema solar.

O problema é que Vênus atravessa o nosso caminho de tal forma que possamos vê-lo eclipsando porção insignificante do sol em períodos de oito anos a cada século. O último trânsito ocorreu na janela em 2012, precedido por um igual em 2004, e novo episódio do tipo só no século que vem: 2117 e 2225.

Fica aí, aliás, mais uma ideia de romance histórico: as dezenas de expedições que, em 1760, correram o mundo em busca dos pontos ideais de observação. O Capitão Cook, por exemplo, encarregado pela coroa britânica de ir ver Vênus passar a partir do Taiti na janela de 1769, tropeçou na então desconhecida Austrália no caminho de volta. Na Sibéria, derretiam-se as neves e conta-se que os astrônomos europeus embebedaram os mujiques para que esses não negassem fogo na hora de atravessar, de trenó, as tênues camadas de gelo de lagos congelados.

Nenhuma dessas histórias é tão interessante quanto a de Gentil.

Le Gentil foi designado pela academia de ciências da França para ir até a Índia, onde o reino tinha então colônia, e de lá fazer suas aferições. Equipado com telescópios, lunetas e cronômetros, o astrônomo embarcou mais de um ano antes da data, realizando viagem contornando a África e aportando em Madagascar. Ainda nessa perna da jornada, seria atacado pela marinha britânica em virtude da Guerra dos Sete Anos. Na ilha, procuraria um navio que tomasse o rumo da Índia.

No percurso dessa escaramuça a que se deu o nome de Guerra dos Sete Anos (e que rendeu a Dumas romances deliciosos), os ingleses tomaram da França o pedaço de terra na Índia que vinha a ser destino de Le Gentil. Em virtude disso, no meio do caminho até esse ponto, o francês foi convidado a fazer a volta e desistir de desembarcar.

Teve de observar o trânsito de Vênus no meio do Índico. Como, em geral, barcos balançam ao sabor das ondas, as medições e registros feitos por Le Gentil não tinham precisão e utilidade nenhuma, servindo apenas de curiosidade inofensiva. Além disso, para serem consideradas no esforço mundial, as informações precisavam vir acompanhadas de precisas coordenadas geográficas a respeito de onde foram tomadas, algo que a navegação rudimentar do tempo, sem o abraço redentor dos GPS e Glonass, impedia.

Apesar do insucesso, Le Gentil não se abateu. De volta à África, decidiu esperar onde estava os oito anos para o próximo trânsito do século, em 1769, abrindo mão de regressar à França, onde tinha vida como catedrático e naturalista, termo com que se classificavam no atacado todos os cientistas do tempo, além de família, interesses e amantes. Mas, com o mundo pacificado em virtude da guerra que acabaria dia ou outro, imaginava, teria outra chance de colher as informações em nova tentativa, dessa vez na ilha de Manila.

Passaram os anos, Le Gentil fez-se novamente ao mar, mas o governador espanhol à cargo da ilha escolhida como ponto não achou muita graça na ideia e, sob recomendação dos franceses, Le Gentil resolveu ir embora porque, além de hostilizado, considerava que Manila poderia não oferecer boas condições climáticas para acompanhar a passagem venusiana sobre o disco solar. Para não perder o fenômeno astronômico que consumiria 11 anos de sua vida, dirigiu-se então, mais uma vez, para a Índia. Fora, inclusive, de bom ânimo com o prognóstico de tempo bom durante o período para poder acompanhar o evento com boa visibilidade.

Fez um mês de tempo bom e céu limpo, algo que aliado ao fato de estar em solo ostensivamente francês, pôs o astrônomo no melhor dos ânimos. Até que não fez mais. Em Pondicherry, local da observação de Gentil, no dia, no exato dia em que Vênus desfila perante o Sol, e segundo memórias de Gentil e do governador da colônia, nos minutos exatos que antecediam o trânsito, fechou-se o tempo e um céu de chumbo encobriu completamente a visão da passagem do planeta. Le Gentil, naquele momento, tinha devotado uma década de sua vida para não conseguir acompanhar um evento que, somando as duas datas separadas por oito anos, dura seis horas. Algum tempo depois, o francês ficaria sabendo que seus colegas postados em Manila, ao contrário do que Gentil havia presumido, observaram todo o trânsito em perfeitas condições atmosféricas.

Registra-se que, em seu diário, o francês anotou que se atirou de cabeça à cama, e anotou: "tal é a sorte dos astrônomos!".

Guillaume le Gentil, com toda a razão, enlouqueceu.

Passou uns meses se aborrecendo enormemente com a crueldade da vida, morando em plagas distantes da Índia, até que resolveu voltar para a França. Contraiu disenteria, sobreviveu a tempestades e naufrágios, cruzou um mar infestado de corsários em pé de guerra (Espanha, França e Inglaterra entrariam em campo dali a uns meses para decidir quem se classificaria para as Guerras Napoleônicas décadas mais tarde). Chegou a Paris para descobrir que fora dado como morto, que sua mulher tinha achado outro, que não tinha mais propriedades. Passou anos em tribunais e recorreu ao poder do rei para que intercedesse em seu favor.

Morreria uns 20 anos mais tarde, bem a tempo de evitar a roda de guilhotina que com certeza engoliria sua cabeçona azarada e adornada por aquela cabeleira inexplicável, típica da aristocracia francesa daquele entardecer de velha ordem.

Esse é um resumo da sua aventura, presente nas suas deliciosas memórias “A Voyage in the Indian Ocean”, livro que é assaz raro, infelizmente, e que me deixa com aquela sede de leitura e curiosidade assanhada, algo que está para mim como a pachorra abnegada estava para Gentil. O livro, no entanto, é mais que um relato dos azares todos porque, pelo que se pesquisa, vai ainda mais longe, fala do interesse que Gentil desenvolveu pela cultura africana, pelo seu esforço de mapear a ilha de Madagascar e uma série de outros projetos que ocuparam-no ao longo dos anos em que esperou as órbitas de Terra, Vênus e Sol se realinharem.

A anedota sobre o azar esmagador de Gentil é engraçada, curiosa, foi o que eternizou seu nome, provoca riso e vai trazer lições de vida, se você estiver procurando por elas, mas o que mais me instigou a ler esse livro impossível e em conhecer a vida de Guillaume Le Gentil foi em me encontrar com esse modelo de homem, no sentido do coletivo da raça, que sabe de tudo: que se orienta pelas estrelas, que domina aritmética, astronomia, tem noções de navegação, de marinharia, de caça e de cozinha. De cartografia. História. Capaz de desenhos lindos de paisagens e de ruínas que fora visitando no meio do caminho. Que ergue uma casa no meio do mato. Para quem nada é tão desafiador e insolúvel e todas as coisas se medem pelo compasso aberto da razão. Que triunfa sobre a natureza e sobre si: o perfeito renaissance man.

Mais do que um grande azarado, do que um estoico na melhor acepção dessa virtude, Le Gentil foi um desses renaissance man, o polímata, o tipo de homem que eu sempre quis ser.

Ah sim. Os dados colhidos pelos colegas mais afortunados de Le Gentil, em observações espalhadas pelo mundo todo naquele intervalo de oito anos, foram aplicados a métodos matemáticos presumidos século antes por Halley (aquele mesmo, do cometa) e que mostraram que estamos a 148 milhões de quilômetros do sol. Um erro de menos de 1% do valor real, que só seria aferido séculos mais tarde com o auxílio da tecnologia.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

1998

Eu nunca tive uma ideia muito clara das dificuldades que afligiram meus pais ao longo da minha criação. E elas existiram, mas nós, ocupados em crescer, não temos a perspectiva do todo, de forma que eu sempre tive uma vaga ideia dos apertos, mas nada muito tangível. Até que hoje eu tive uma ideia da dimensão de alguns sacrifícios a partir de um comentário bobo de minha mãe.

Não recordo sobre o que falávamos, mas ela lembrou que, em 1998, eu tinha enfiado na cabeça que queria o novo livro do Jô Soares. Eu, naquela época (como agora) devorava livros em velocidades assombrosas. E, retrato de um tempo sem internet e de adolescência, tinha em Jô Soares meu parâmetro de escritor. Melhorei.

Em todo caso, o livro custava 49 reais, o que na época era proporcionalmente muito mais dinheiro do que são 49 reais hoje. Insisti, insisti, insisti no livro. Nunca tinha ganho um livro de presente, eu queria um livro de presente de aniversário, não um videogame.

Nesse comentário, minha mãe recordou a história, dizendo que era um sacrifício comprar aquele presente, porque era caro demais, porque naquela época nós tínhamos condições limitadas, porque outras coisas eram prioritárias. Eu só fui entender e dar-me conta anos mais tarde, porque eu não me importava (e não me importo agora), mas eu passei grande parte da vida escolar com apenas um conjunto de uniforme.

Nesse quadro, sair comprando livros recém lançados de famosos não é uma alocação sabia de recursos escassos.

Em todo caso, ganhei o livro.

Recordando essa passagem, minha mãe lembra o quanto eu fiquei contente com o presente. Pensou, inclusive, que estaria livre de precisar gastar tanto com meus caprichos por um tempo. Três dias depois minha voracidade por leitura poria tudo abaixo: eu já tinha lido o livro inteiro. Mas, para nossa sorte, a produtividade de Jô Soares como escritor decaiu vertiginosamente e eu acabei não mais pedindo livros de presente.

Segundo minha mãe, aliás, foi a última coisa que eu pedi: o livro.

O tenho, aliás, até hoje, e sempre que olhava para a sua lombada na estante me recordava da origem: presente, aniversário, 1998. Reli-o algumas vezes, é até engraçado e a história, se levada como entretenimento sem compromisso, não é ruim.

Mas o que fica da anedota toda não é a graça do romance sobre o homem que teria matado Getúlio Vargas. O que fica, de hoje em diante, é essa janela aberta para a gratidão, o entendimento e o valor que damos ao carinho, dedicação, sacrifício e esforço dos nossos pais.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Peso

É semana de finados. No cemitério da cidade há quem me espere e eu digo que não sou muito afeito do lugar. A algum desavisado vai parecer terror da morte, algum medo, quem sabe a justificável dor das lembranças que eu trago comigo de situações que não deviam nunca sair das páginas dos livros para vir empeçonhar a existência das pessoas, ainda que o provérbio de que o elusivo deus nunca dá cruz maior do que a largura das suas costas, ao menos no meu caso, tenha sido sucessivamente verificado com sucesso. Mas deve haver exceções. Em todo caso, não é nada disso porque eu não tenho pavor, medo ou repugnância de cemitério. Eu não gosto desse cemitério, desse. Porque ele me recorda o choro da minha mãe e as coisas que ela dizia e fazia quando morrera a minha avó.

Nada de louco, nada de absurdo, nada de errado, frise-se. Eu só era um menino muito impressionável. E impressionado fiquei.

E, de lá para cá, passei a não gostar e a evitar sempre que possível andar não por cemitérios, no geral, mas por um específico, esse mesmo, esse das minhas memórias, que em típica irresponsabilidade urbanística foram construir em cima de um morro. Ainda que, verdade seja dita, o que não é morro nessa cidade?

E, afinal, por que me desculpo tanto? Há quem goste de cemitérios?

No meu caso, a razão, aparentemente bem explicada e conhecida da sensação, tem toda pinta de ser velha conhecida.

Não é verdade. Fui dar-me com essas explicações bem recentemente, nesses momentos de introspecção que a meditação rende.

Mas eu precisei vencer a repulsa de cemitério porque é semana dos mortos e, embora eu tenha convicção de que eles só existem na minha memória, que a morte é o frio fim de tudo que a entropia antecipa e endereça, resolvi ir prestar meus respeitos para quem já foi. Em especial, meu pai e irmão. Décadas antes, dois tios meus, morreram bebês, foram sepultados no lugar. E eu, que vergonha, não consigo, por mais que faça força, lembrar dos nomes.

Não levei flores, acho que elas devem ser dadas aos vivos, também não fiz orações porque eu não rezo, eu não creio. Mas me aproximei reverente e com peso daquela capela, daquela velha e conhecida capela, daquele ponto final inescapável onde, parece, tudo acaba e se torna pó e irrelevância na escala do tempo.

A sensação de peso me recordou algo que meu pai dizia sobre mortes e cortejos, sobre a sensação de que o caixão ficava mais pesado tanto quanto mais próximo o cortejo chegava do túmulo. A recordação dessa frase me fugira da mente por todos esse anos de sorte que eu lembro muito bem de quando a ouvira pelas duas últimas vezes na minha cabeça, martelando qual verdugo no meu coração de garoto: quando coubera à mim carregá-lo até aquela mesma capela.

Sim, pesa.

Eu cheguei de bermuda e chinelos, com uma escada debaixo do braço. No outro, carregava um balde, nele ia dentro a brocha, um pano, adaptador para o esguicho, extensão para a tomada. Noutra viagem, fui ao estacionamento e busquei uma lata de produto químico e o esguicho desses que vaporizam a água e ajudam uma barbaridade em qualquer tipo de serviço mais pesado em que precise-se de água como solvente.

Minha forma de prestar carinho, recordar, de respeitar, foi subir àquela laje. Fiz uma limpeza daquele pequeno teto que nunca fora feita, está em pé essa construção desde 2002, e nunca, depois que o pedreiro desceu e desfez o andaime, subiu alguém aqui. Eu tenho um sexto sentido para perceber essas efemérides, é quase como outro super poder, faltando ainda descobrir uma forma de, com ele, se encapar e esconder atrás de outra máscara, porque umas já carregamos todos, e sair por aí combatendo o crime.

Fiz a limpeza, removi o musgo, a casca, a vida morta que se agarra nesse concreto. Uma década e meia de acúmulo, de tanta coisa que aconteceu e não houve, que houve e não aconteceu. Esfreguei, escorri litros d’água, garanti que as calhas estivessem brilhando, que a água nunca fluiu desse telhado tão bem quanto agora.

No processo, revelei o que eu temia, descuidada, a laje já tinha focos de infiltração e eu, contente pela minha capacidade de estimar o estrago da entropia, essa anti-heroína da minha vida, desci. Abri a lata de impermeabilizante, fiz a mistura conforme me orientara um pedreiro. Sofri com a escada mal apoiada, os quilos de peso no braço, a dificuldade para fazer tudo sozinho. Mas subi.

Passei aquele impermeabilizante e, avaliando o que eu fazia, garantir boas condições àquela laje a quem não existe, quase que mumificando essa estrutura para que a água não traga oxidação ao ferro que mantém tudo em pé, tive esses meus ataques de niilismo, essa desgraça do existencialismo, esse mal doído de ter lido tanto e de poder ver as coisas por tantos ângulos, tantas formas, e poder tirar tantas conclusões quanto possível, normalmente nenhuma delas útil e redentora porque a sina de perceber essas coisas é atinar sempre com o inescapável nada e a nulidade esmagadora de todas as coisas.

Não é fácil ser eu mesmo.

Parei de questionar o que fazia me recordando do propósito legítimo: demonstrar respeito em foro íntimo, daí a ter escolhido vir tão antes dos finados, não quero ser vitrine, exemplo, nem tenho vaidade para que digam “oh, que dedicado”. Fazer algo de útil, de importante, no silêncio e na discrição de quem se basta com o registro na memória de ter feito e esse texto, quase que anônimo, perdido nesse turbilhão de desatinos e bobagens que tenho escrito.

Mas não pude desarmar a bomba, porque para cada uma das carradas de arrazoados que eu tiro do bolso para explicar como movem-se os planetas, como funciona o computador, porque os juros derretem nossa economia, como o avião pode voar, da importância do estoicismo, da dificuldade de quebrar vícios de comportamento e de formas de levar a vida depois de anos doente, de que é, sim, inútil vir aqui atender a essa laje, mas não deixa de ser importante, algo meu, algo para preservar, enfim, no meio de tudo isso, estoura a bomba, e a bomba é o coração. As saudades, a falta, a distância, as minhas lembranças, o que eu queria ter dito e feito e tudo vai e volta, tudo gira nesse espaço sem fim e propósito, e eu, que sou sempre eu, claro, fui misturar ao impermeabilizante o sal tépido, puro e grande não só do meu suor, como das minhas lágrimas.

Eu sei que o caminho da minha vida vai longe, que não é cedo que eu vou me deitar por lá, mas agora há um pouco de mim naquela morada, porque ficaram, e é poético que tenham sido elas, as minhas lágrimas embutidas no espaço que guarda os restos de irmão, pai e tios. Morremos todos um pouquinho por dia e que bom que nesse eu soube escolher uma morridinha digna e da qual eu me orgulho.

Daqui 15 anos eu entro novamente nesse cemitério e subo de novo naquela laje.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Então me diga quantas vidas você tem.

domingo, 15 de outubro de 2017

Da porra

A obra está parada, a coisa toda foi para a justiça, mas isso não me impede. Acima da lage, onde se forma o telhado, há uma cobertura de chapas de compensado que, mais ou menos incorretamente instaladas, expõe algumas bordas recortadas à ação do tempo. Tempo que, como se sabe, passa. Ele não faz outra coisa, e ao passar, dá o ensejo das chuvas, que se lograrem o êxito de alcançar essas aberturas, vão infiltrar nas camadas da madeira prensada e, com o tempo, farão com que apodreçam e, em apodrecendo, compromete-se de uma só vez toda a vida útil do telhado que, propriamente instalado, deve sobreviver até 40 anos, suportando inclusive borrascas de alguma magnitude no processo.

Aí eu subo na lage, munido de uma lata de tinta à óleo que comprei, pincel e água-rás, armo a escada e esquadrinho cada centímetro quadrado da cobertura em busca dessas aberturas. E as cubro com a tinta a óleo, que as veda e protege, e assim gasto toda uma tarde em meio à delícia do trabalho, da dedicação, do interesse e da responsabilidade de fazer algo simplesmente porque deve, porque precisa, porque é seu, porque a vida também é as responsabilidades que escolhemos.

E aí termino, trabalho bem feito, tenho convicção de que segui todas as instruções reservadas no manual baixado da Internet, que agora sim, esse telhado vai longe, é capaz de sobreviver a nós todos.

E aí me aborreço porque acaba a aventura. Não há mais telhado para corrigir e que pena que, no meio dos erros que são agora seara da justiça, das incorreções e coisas por fazer dessa obra, eu não saiba mais achar nada para me distrair.

Desço do telhado, guardo as coisas. Lamento que tenha sobrado assim tanta tinta, a lata era das pequenas, mas metade ainda fica nessa lata que, à falta de ter mais o que pintar, vai acabar estragando com o tempo. Peguei certa aversão aos desperdícios.

E pintor de meia tigela, me encontro também de certa forma revestido desse vermelho escuro que só larga o abraço do meu couro à força de se esfregar bastante, ou de se aplicar a água-rás, esse líquido de cheiro forte, que eu gosto, mas que resseca a pele e que a faz arder depois de algumas esfregadas. Pelo menos, com o frasco de água-rás não se dá o mesmo que com a tinta, uso até a última gota: considero até que precisava de mais algum do líquido porque, francamente, eu sou desastrado demais para manejar pincéis.

Eu sou, na verdade, desastrado com todas as coisas.

E eu desço dessa escada, me preparo para fechar a construção toda, atar pelo nó do cadeado as correntes, fechar os portões, recolher todo o material que fica, o que vai comigo. Noto a camiseta manchada, que previdente eu fora em ter escolhido uma roupa velha, que agora respingada desse outro vermelho sangue não fara falta que fique à serviço de limpar os chãos, de virar retalho, de ir para no lixo.

Mas só horas mais tarde, no calor do conforto da companhia de quem nos quer, que eu de fato ganhara o dia. Uma tia muito querida, sabendo do porque eu estava de braços esfolados, e ouvindo da minha rotina, que envolve tantas devoções; sabendo dos meus poemas e dos meus pratos, foi me rasgar um elogio que me encheu o peito. Ouvi dela um “mas que homão da porra!”.

Venho me dando bem com elogios. No começo da faculdade, a professora de inglês veio, com o adorável filho ao colo, querer saber porque eu desejava eliminar a matéria. Na conversa, descobrimos que tínhamos compartilhado as mesmas salas de aulas numa outra universidade. Ao saber que eu era jornalista, mas gostava de ciência e de matemática, ela me classificou de união do útil ao agradável, o que me deixou sinceramente comovido. Ainda que, na verdade, mais do que bom domínio do idioma, me decidira a eliminar a disciplina porque me folgaria as noites para as viagens que achava que faria quase semanalmente a uma paulicéia e também porque a professora, em que pese a gentileza e o bom papo, tinha boa parte dos vícios dos maus professores que me levaram a destruir qualquer nesga de seriedade durante a minha primeira formação. Que bom ter eliminado a disciplina, portanto, porque dela fiquei apenas com boas recordações e com a dívida desse elogio tão gentil.

É bom espraiar o penacho preguiçoso dessa minha cauda de pavão que, por tanto tempo, escondi envergonhado de não sei bem o quê. E no fim, eu sou mesmo união de útil ao agradável e, bem sinceramente, um tremendo homão da porra.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Ao mestre, com carinho

O professor Silvio foi o que eu tive de mais próximo daquele colosso de retórica e capacidade de iluminar que, por vezes, pessoas de sorte encontram na vida, em especial quando chegam ao que uns chamam de ensino superior, outros, mais debochados, de máquina de moer sonhos. O professor Silvio era admirado pelo coletivo dos alunos do curso, era um tipo de farol, luminar que desbravava os caminhos tortuosos da filosofia e base teórica do ato de comunicar-se. Tudo, hoje, ciência relativamente vã na minha vida, mas de qualquer forma ainda apaixonante porque toda vez que eu me lembro de Adorno, Walter Benjamin e toda aquela gente boa da Escola de Frankfurt, lembro das perorações e do Silvio conjecturando como deveria ser apavorante levar um esporro de Theodor Adorno.

E quando digo que “foi o mais perto de...” não estou diminuindo o sujeito. Estou apenas atestando que o convívio foi curto demais: por razões pessoais que, hoje, eu entendo porque as encarei na pele, o professor Silvio acabou se transferindo para outro lugar mais aprazível e menos deprimente que uma certa princesa de uns não tão certos campos.

As aulas com ele eram inesquecíveis. Eram importantes, difíceis. As histórias que ele contava, a forma de explicar, o jeito de dizer as coisas de uma maneira que torna claras e pulsantes algumas das querelas mais inconsequentes a respeito das teorias da comunicação, a postura de quem tinha a sincera expectativa de que nós outros ali, apenas crianças, soubéssemos entender a largura de algumas ideias e a bitola larga por onde trafegam os raciocínios e progresso da história era libertadora, era empolgante, nutria em muitos de nós o desejo de aprender mais, de conhecer, de entender o que todas aquelas coisas significavam. De abraçar cada uma das referências culturais que ele encaixava naquelas aulas.

Silvio era redentor principalmente porque reinava sozinho no vácuo da boa parte de professores horríveis que tive. O que não é juízo de valor a respeito das pessoas em si, mas apenas medida da qualidade do trabalho que podiam oferecer no ofício do ensino. E, sinceramente, era mesmo difícil competir com o Silvio.

E foram dessas aulas, dessas referências, desse tempero apaixonante de cultura e descoberta que eu comecei a ouvir Sigur Rós, por exemplo. Ler Hermann Hesse ganhou outro paradigma, porque agora o alemão era mais que um escritor interessante. Italo Calvino redefiniu as possibilidades do narrável e da literatura na minha vida (sem a intenção do trocadilho). Entender o mérito da filosofia, de Nietsche, por exemplo. Filmes obscuros do cinema periférico, que eram mais do que aquela obsessão de parecer cult mesmo que isso custasse horas e horas perante filmes difíceis e aborrecidos, passaram a virar parte do cotidiano porque tudo vinha costurado com embasamento, sensibilidade e uma acuidade que eu nunca tinha sabido encontrar sozinho naqueles que eram, até àquela altura, meus curtos referenciais culturais.

Convivi com Silvio por poucos meses, não tive a sorte de tê-lo como professor nos anos subsequentes da graduação, mas a impressão nunca foi embora. Eu e meus amigos continuamos cultivando essa figura de guru, de sábio, que veio e foi embora das nossas vidas, semeando algumas ideias e impressões profundas sobre a vida, o universo e tudo mais. Algumas frases recorrentes do professor viraram itens constantes nas nossas conversas, como o esmagador “há momentos na vida em que você questiona a validade disso tudo”.

E é revelador desse apreço que aprendi a ter pelo professor que, anos e anos depois, fomos os dois nos reconectarmos no Facebook. Fiquei, a um tempo feliz e orgulhoso, em saber que ele se lembrava de mim e de um amigo querido.

De lá pra cá, nos esbarramos em postagens, em trocas de comentários, em algumas mensagens.

E hoje, completamente por acaso, fui comentar num post em que ele recomendava uma canção, letra de Dylan e voz de Joan Baez, que combinação perfeita, aliás. Nos comentários, fui apresentado a mais um referencial que, não fosse Silvio, jamais teria aparecido na minha vida:

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Breaching the cognitive gap

Eu sou cheio de tropeços, então eu tropeço em história naval, de lá caio em alguma questiúncula sobre Napoleão e, de alguma forma, no meio disso tudo, vou estudar o kernel do Linux porque as minhas ambições crescem dramaticamente. E de alguma forma, no mágico caleidoscópio de ideias, desatinos, memórias e conhecimento que formam essa pessoa que eu sou, tudo faz o maior sentido. Mas hay um problema.

Porque eu sempre fui assim, mas em maior ou menor medida, sempre me foi difícil estimar um efeito de fastio que venho notando agora, bem agora que a cabeça precisa ter espaço para muito mais coisas e chavear instruções e modos de operação entre todas elas com uma exuberância que eu pensei fosse inoxidável. Mas não é. Eu não sou mais adolescente.

Eu sinto que a minha capacidade de transitar de contextos e minha capacidade de isolar processos e raciocínios, sem considerar a habilidade de lembrar e conectar ideias, já não é mais a mesma. A entropia, a inevitável entropia, alcançou os meus neurônios e não há nada que possamos contra a termodinâmica.

De alento, meu otimismo poderia dizer que esse tipo de percepção, de acuidade em relação a si mesmo seria inviável há algum tempo, que eu só fui notar essa transição a algum custo e depois de ler, por pura falta do que fazer, um artigo a respeito do que os gringos têm chamado de “cognitive gap” entre as gerações (e que me dá o que pensar: serão os meus filhos muito mais espertos do que eu? Eu vou me sentir orgulhoso em 100% dos casos? Não vai doer nenhum pouquinho se sentir burro perante uma criatura que você pôs no mundo? A saber.).

A solução para essa prematura decrepitude deve vir na calma de, mais uma vez, aceitar o que a vida dá. Quem sabe começar a selecionar melhor os assuntos. Ou ainda desenvolver método para casar melhor as informações, criando vínculos e as raízes de tudo que se aprende para que, quando mergulhar nos galhos e nas folhas das pequenas minúcias, elas tenham onde se agarrarem e nessa árvore do que você sabe, tudo tenha laços e vínculos que dão sentido e coesão ao todo. Nunca precisei me preocupar em organizar as minhas informações porque, de alguma forma, meu cérebro entrava num piloto automático fascinante de biblioteconomista que sabe exatamente onde estão trivialidades e informações importantes com rigor e precisões impressionantes.

Sempre morri de orgulho da minha memória.

Talvez do que eu precise, já que a entropia é inevitável, é mesmo de uma receita de overclock do cérebro. Acelerar essas sinapses, prover de todo fosfato possível esses neurônios e elevar a frequência de operação dessas células certamente poria todo o sistema sobre um estresse pronunciado, elevando potencialmente o efeito da tal entropia, quem sabe até antecipando-o de forma perceptível em alguns anos, mas: de que adianta viver se poupando para um ocaso que, se vier, não fara o menor sentido com todas essas luzes guardadas? Mais importante ainda: que pai vou ser eu se não for esperto o suficiente para impressionar e me impressionar com minhas crianças, sem a insegurança bocó de me sentir burrinho perante elas?

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

A cidade é um museu a céu aberto

Num desses dias, precisei comprar três metros cúbicos de pedra brita e me fora recomendado que o fizesse numa certa loja de materiais de construção, localizada naquela que nós aqui chamamos de Praça da Bandeira.

Conheço muito bem o lugar porque, há uns 30 anos, por lá funcionava uma escolinha particular onde fiz parte primeira da pré-escola. Lembro vagamente do lugar, que é antigo, e tenho alguma recordação dos livros e apostilas, que eram do Expoente, das lições que ensinavam as letras ao compara-las com objetos e animais. O “I” era uma girafa, por exemplo. O “8” era um senhor barrigudo.

Mas tenho recordação mais vívida de uma festa junina no amplo pátio da casa que, naquela altura já era decididamente antiga, e em que eu compareci todo caracterizado de caipira. Lembro da fogueira, enorme, da dança da quadrilha, das meninas de vestidinho, dos pais, das barraquinhas e das crianças correndo para lá e para cá.

São flashes fugidios que nunca foram embora da mente ao longo de todos esses anos, mas que nunca foram revisitados de forma tão atenta porque nunca foram chamados à tela enorme desse cinema onde revivemos nossas antigas recordações.

Lembrar dessas coisas não trouxe nada de muito importante, apenas pôs em evidência impressões e imagens de um tempo que passou há muito, da doce criança que eu fui. As memórias são tão antigas que qualquer sensação mais intensa se perdeu com o tempo. Assim como as fotos da minha versão caipira de cinco aninhos que, infelizmente, foram engolidas pelo fogo.

A casa, em pé, está bem diferente por dentro. Não encontra-se mais o corredorzinho que levava ao quarto onde funcionava a minha classe. Lembro do banheiro, que era escuro, e da sala, em que ficavam brinquedos de montar. Mas agora tudo se confunde num emaranhado de produtos, balcões e estantes que obstruem a vista e não permitem mais sequer vislumbrar se a antiga divisão de cômodos sobreviveu.

Hoje, apesar da fachada e da casca, além da disposição do terreno, que ainda preservam toda a área da antiga escolinha, desapareceu todo o resto: não há sinal de que, há quase 30 anos, crianças começavam a vida escolar por ali. Não há sinal que eu, um dia, corri por aquele gramado, me encantei com a altura daquela fogueira, dancei por ali a minha primeira quadrilha. Não há sinal naquele monte de areia que ali um dia ficou uma gangorra e que, no espaço ocupado pelo monte de brita de onde saem os metros que acabei de comprar, ficava o balanço em que, e disso me lembro bem, meu pai me embalava até que cansássemos os dois.

Há uma impressão, no entanto, que sobrevive a essas recordações. A da nossa inconsequência diante das coisas que passam e que se perdem pela inexorável passagem do tempo, porque eu não me surpreendo se esse cidadão aqui, que acaba de me atender, não souber que um dia isso foi uma escola e que, mais ou menos de onde ele maneja a calculadora, eu estive caminhando em direção à salinha em que a tia e meus coleguinhas me esperavam.

Nós somos, mesmo, episódicos e inconsequentes. Toca, então, a deixarmos nossas marcas, se não no mundo, no coração e na lembrança das pessoas, em especial aquelas que nos querem bem. Porque todo o resto soçobra, decai, desaparece, muda e esquece. O que fica, no fim, somos eu e você, admirando o manancial inesgotável das lembranças doces que gostamos de ter.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Pureza e gratidão

Hoje dirigia pelas ruas atrás das minhas responsabilidades quando avistei, ainda há poucas quadras de casa, um senhorzinho com severas dificudades de locomoção, esgrimindo o melhor que podia duas muletas com enorme sofrimento para descer uma ladeira. Parei o carro imediatamente, baixei o vidro e lhe perguntei aonde ia e ofereci carona. Não ia longe, ao menos nas minhas contas de moço forte e sadio, e ainda mais motorizado. Ia ao banco buscar dinheiro e dali iria à farmácia.

De um salto, ele me olhou incrédulo. Depois que refiz a oferta, de sorriso amistoso no rosto, percebi que ali se travava algum conflito. Talvez desconfiasse de mim. Lhe dei todo o tempo até que se decidiu e aceitou. Puxei o freio de mão, de motor ligado desci e o ajudei a embarcar no lado do passageiro. Levei-o ao banco e fiz questão de levá-lo também à farmácia. Deixei-o em sua residência e, aí sim, fui correr atrás da flecha do dia.

Eu poderia tecer panegíricos em serviço próprio no sentido da minha grandeza de espírito, da minha tamanha generosidade, do quanto me comovo, dessa percepção que tive, que tantos sequer notariam o senhorzinho. Poderia dizer que, além de tudo, resisti ao odor de quem não deve frequentar o chuveiro com muita assiduidade. Nada disso define esse episódio porque a cidade pequena convida a esses gestos: numa capital, eu não sei se perceberia o sujeito à beira do caminho e se, em percebendo, teria a preocupação que tive quando o avistei.

Mas tudo isso é irrelevante.

Porque o homem, ao me agradecer, sorriu e chorou. Me recomendou a todos os santos, me abençoou diversas vezes e, palavra, eu bem que queria comungar dessa fé para me sentir íntimo, se não mesmo digno, de toda essa gratidão. E a experiência extraordinária de um sentimento puro assim é, no fim, o que fica aqui comigo desse pequeno episódio.

Porque é nisso que eu queria chegar. A partir do momento em que você se pacifica com o que vai dentro de você, coisas simples e coisas grandes acontecem, porque você fica mais atento, você fica mais sensível, o universo se interlaça contigo. Quando você se encontra consigo mesmo, é fácil notar e descobrir as demonstrações absolutas dos sentimentos humanos: da raiva ao amor.

O que eu vi nos olhos daquele homem, vertendo lágrimas pela face judiada pela vida, foi uma gratidão definitiva, pura, em uma essência de dicionário, de verdade e grandeza que tocam fundo no coração da gente.

domingo, 24 de setembro de 2017

Chaos Chaos - Do you feel it?

Are you afraid of me now?

sábado, 23 de setembro de 2017

Foi em 1814

Acordei num susto. Sonhara que tinha escrito um romance, enfim, e que ele se passava na Viena de 1814. Foi naquela cidade que tentou-se, pela primeira vez, ajeitar um mundo nascido de guerra para as formas que tinha antes dos canhões falarem. Foi naquela data em que o mundo europeu se reuniu, que dignatários, princípes, golpistas, bandidos, monarcas e prostitutas (todas classes de idiotas e ignóbeis muito semelhantes) se encaminharam em romaria rumo à capital dos Habsburgos para que um encontro de cúpula, o primeiro do tipo, buscasse, na mais diplomática forma então possível, por no lugar a Europa que Napoleão, derrotado anos antes, tinha desarranjado nas escaramuças que travara ao longo de duas décadas.

O livro, antes de se debater no aspecto histórico do evento, que nem foi tão interessante assim e se prolongou por meses, segundo eu me recordo, versava sobre a depravação de uma classe de pessoas completamente alheia ao mundo real, toda desesperada pela manutenção dos privilégios e de, muito antes do que consertar a europa de forma justa, se preocupava em criar mecanismos que impedissem o surgimento de uma revolução que fosse dar em outro Napoleão. E não porque Napoleão fora inerentemente ruim: do que esse povo não gostava era da guilhotina que, gulosa, não poupou as cabeças douradas de Luís XVI e Maria Antonieta, além de outros potentados menos votados da chamada aristocracia francesa. Porque o Bonaparte, em que pese a insaciável sede conquistadora, de resto, de citoyen tinha muito pouco: virou imperador autoproclamado, foi morar em palácio, criou sua corte e ainda encontrou tempo de casar-se com princesa, e dizem que morrera de amores por, curiosamente ela austríaca, nascida desses mesmos Habsburgos que foram anfitriões do banquete em que se almoçou a vida e obra do baixinho francês que, a essa altura, se contentava em imperar sozinho nos confins da diminuta e quase inabitada Ilha de Elba.

O livro narrava a vida de prostitutas e golpistas. Diziam os críticos que era rico em contrastes e tons cômicos, e que a prosa não era de todo ruim.

Contam as memórias e registros desse tempo que não houve puta pobre na Áustria por meses. Que não faltou escândalo, extravagância e frivolidade, trio certeiro que eu deveria converter imediatamente em minhas temáticas preferidas para escrita porque escrever a sério pode ser muito nobre, engrandecedor e honrado, mas não leva a lugar nenhum.

O que guarda certa semelhança com aquela passagem do "O Lobo da Estepe" que, hoje, 12 anos depois, eu ainda sei recitar direitinho: o homem não foi feito para pensar, assim como não foi feito para nadar. O homem foi feito para viver e para andar na terra. Pensando, o homem pode chegar muito longe, mas um dia estará trocando a terra pela água e nela morrerá afogado.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Parte 4

Meu escape para essas ilhas cheias de distância, como dizia a canção, estava em vias de acabar-se quando, enfim, despertei do sono tão bem dormido naquela rede na varanda, exilado voluntário que fui do quarto masculino e, evidentemente, do feminino, que eu não sou desses. Se soubesse da delícia dessa rede e dessa varanda, tinha dormido todas as noites da minha estada nela.

De resto, acordei do sono bem dormido com a cabeça tentanto voltar a garrar-se nos problemas dos dias, das obrigações, das omissões, das missões e necessidades, desse oceano de coisas que todos devemos atender e que vão, uma a uma, dando propósito a essa nossa perseguição do nada último que é o sentido da vida. Ando, como se vê, muito filosófico e a isso devo, sem medo algum, o ocaso calmo e reflexivo desses dias de retiro, de desaceleração, de paz, de curiosidade, de calma.

E refletindo sobre as delícias todas desse feriado, instiguei o juízo na busca de razões pelas quais devia sentir falta do lugar e do período. É a paz, que por ventura só se encontra nessa ilha e nessa morada, ao custo módico de algumas centenas de reais? De forma alguma, porque a paz, ah a paz, essa eu trago comigo e faço de todos os meus destinos moradas pacíficas.

A natureza, então? Não vou negar que a paisagem afeiçoa, que o silêncio acalma, que o nada e a ausência das distrações e frivolidades da vida cotidiana dão senso de propósito e reorientam a escala pela qual medimos o que é importante. Mas não podemos viver nos escondendo da vida, que ela é mesmo bandida, e o mais interessante dessa percepção é, portanto, tirar a lição de que se não podemos ficar cá com a montanha, é o caso de achar meios de trazê-la para perto, ou de, ao menos, encontrar meios termos: nem tanta fuga e floresta, nem tanta correria e concreto.

Meios termos, dirá alguém, é uma forma muito certeira de não se compromenter de verdade com mudança alguma e de fincar morada em cima do muro das eternas omissões. Há certa verdade nisso.

Mas também há verdade na necessidade que todos temos de racionalizações e de construção de sentido, se não mesmo de clareza, em buscas que nos alimentam, que nos empurram, que nos comovem e emocionam na direção de coisas grandes, maiores que nós mesmos, sejam elas quais forem para cada um de nós. E as buscas que me apaixonam hoje, as que me norteiam certeiro como o pássaro que nunca perde o rumo de casa, são as íntimas convicções de que jogar tudo para o alto e me exilar nessa ilha é fuga, e de fuga eu ando farto.

E eu andava contente com as minhas filosofias e medidas pueris para problemas hipotéticos, revisitados tantas vezes por quem é melhor, quem sabe mais precoce, quando vi a mente resvalar nos problemas do cotidiano. Na necessidade de não perder a hora, do contrário barco para o continente, só amanhã. E, ah, como todo cais é, de fato, uma sasudade de pedra. Na necessidade de abastecer o carro, de pagar o estacionamento, de fazer as compras. Carregar o celular. As aulas que voltam. Os encargos e missões, responsabilidades e as expectativas que há de outros em cima dos meus ombros largos, todas essas coisas, que afastei da mente com tanto vigor, vieram no fim desse exílio como as vagas que a gente passa a vida inteira tentando represar. Um tsunami de chatice, portanto, foi lenta mas inexoravelmente afogando o brilho da minha filosofia de boteco, dos meus pensamentos e valores pueris reciclados na forma de tanta palavra bonita e inconsequente.

As horas foram se contanto, fui me despedindo dos novos amigos, ah nós outros, brasileiros, quatro dias ao lado de estranhos e os chamamos de amigos, mas vá lá, são meus amigos, porque quem os decide sou eu e eu os acolho no abraço largo de quem faz tino em, por onde andar, deixar novas amizades. É de certa forma cômica a cena desses e-mails todos anotados em papel. Fiquei contente de, pela manhã, poder brincar um pouco com meu amigo canino, vigia camarada que caminhou comigo ontem e montou vigilância fiel sobre o meu descanso de ressaca de quem, como diria meu pai, ah, como você tem feito falta, aliás, "teve noitadas".

Mas se não é paz o que me encantou nesse lugar e nesses dias, nessa fusão de espaço-tempo, desse propósito de exílio e descanso, o que foi? As companhias? Por certo que agradaram, é tão bom praticar esse inglês de anedota. Mas boas companhias se encontram em todo o lugar, é tudo uma questão de procurar por elas. A mata é bonita, sim, mas floresta e rumos a serem andados eu posso encontrar perto de casa. O barulho do mar, talvez? Desconfio que não, porque não prestei tanta atenção assim nele: havia tanto mais para ouvir, tanto mais para ver e, no meio dos doces encantos das coisas que eu tenho para dizer, para ouvir, para rimar e cantarolar para mim mesmo, vou falar a verdade, o mar acaba sem graça nenhuma.

E nesse exercício de achar a razão dessa delícia, só lá no fim, quando já vencia a pequena língua de água a separar a ilha do continente, que foi sedimentando aqui no peito a resposta, essa verdade tão clara, como de ordinário são elas todas, tanto mais essas obviedades ululantes, que me gritam diante dos olhos e que eu, bem bobinho, vou perceber uns meses ou anos depois: assim como a paz, seu bocó, a felicidade, a calma, a tranquilidade, o prazer desse retiro, estão em você. Idiota. Se você quiser, você entra em comunhão com a paz última do fim de todas as coisas no olho de um furacão, só depende de você. Como sempre, aliás.

Duly noted. Again.

domingo, 17 de setembro de 2017

Felicidade pura

Essa nova janela de tempo prolongada de vida no interior tem me colocado em contato com uma antiga paixão: a astronomia. Venho lendo, estudando, observando e coletando novas impressões sobre essa ciência em virtude do céu que aqui, limpo, não é tão perturbado pelas luzes da cidade.

Mais do que olhar para estrelas, acompanhar o noticiário científico das descobertas, os podcasts e o que mais for, tenho renovado o já portentoso catálogo de documentários e vídeos sobre o tema. Investigando umas deliciosas transmissões ao vivo da Nasa, me deparei com essa pequena montagem:



O detalhe que mais me chama atenção no vídeo são as demonstrações de felicidade dos engenheiros e cientistas de cada missão bem sucedida. É felicidade pura, alegria que nasce de um feito que não diminui ninguém: ao contrário de uma comemoração de gol, por exemplo, o triunfo de quem manda sondas, robôs e rovers para um outro planeta não machuca ninguém, não representa infelicidade de outra pessoa.

Um dos compromissos que eu tenho comigo mesmo é de ensinar crianças, não necessariamente os meus filhos, esse carinho e essa sensibilidade para com a ciência. Se, um dia, uma criança escolher a astronomia, ou qualquer outra ciência em virtude dessa percepção do lado humano em cada uma dessas conquistas, eu terei sido uma pessoa feliz e bem sucedida.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Parte III

Há muito tempo que eu não vivia uma ressaca dessas, uma ressaca de criar bicho, uma ressaca de matar remorsos, uma ressaca de juras eternas no sentido de nunca, jamais, sob hipótese alguma, me entregar aos exageros do álcool mais uma vez.

Que delícia.

Ao longo do dia, dia em que mesmo me sentindo como um vestígio humano, me impus mais caminhadas, fui remontando os episódios ocorridos na noite anterior e foram se esboçando sorrisos poliglotas nessas minhas memórias perfumadas com o solene galanteio do mar que, logo ali, ondulava e cantarolava as cantigas de além, de saudade.

Na saída, um cão fugitivo da vila de pescadores veio me acompanhar. Já tinha notado o bicho noutro dia. De aspecto magro e sofrido, o cão mendigava atenção e restos de comida dos visitantes da pousada e, provavelmente preocupado com o silêncio da casa em hora avançada, se assomava sem cerimônias à porta da varanda que dá para o jardim. Me saudou com um olhar inquisitivo, provavelmente querendo saber da comida e do café, que por essa hora já deveria estar servido.

Não sei se cães comem maçãs, que era só o que tinha comigo, e por isso não dividi o lanche.

Mas essa falta não parece ter desinteressado o cão que, provavelmente sem outro recurso e nada mais interessante para fazer no momento, resolveu me acompanhar. Me embrenhei na mata e notei que o bicho tentava não apenas andar ao meu lado, se não adiante, e assim deixei, instigado por saber até onde ele iria.

Uns dois ou três quilômetros depois, me encontrei com o lugar que desejara para o descanso do dia e a contemplação descompromissada da natureza. Era preciso sair da trilha e entrar no mato e aí sim meu camarada canino hesitou.

Parou, ergueu a cabeça, e lançou um olhar inquisitivo, desses que impõe: “tem certeza, companheiro?”. E eu tinha, e eu tenho. Em geral, camarada, eu sempre tenho certeza.
Porque acontece que, no roteiro dessa nova alvorada, me impus uma nova rota, resolvi caminhar uma trilha sem compromisso e escolher um espaço qualquer que, do alto, me desse vista do mar, que ali montaria minha breve morada. Levei comigo frutas, música para ouvir e todos os meus pensamentos, que em luta fraterna e tardia, dilaceram a ditadura dos meus sonhos. Então, sim, eu tenho certeza.

Gostaria agora de dizer que, recostado naquela clareira, tive alguma nova epifania, que sedimentou-se no meu juízo uma nova catarse. Que alguma aparição me fez profeta, que fiquei mais sábio, que descobri ou aceitei algo novo, que a vida se descortinou envolta nas brumas que envolviam o céu cinzento que ensimesmava sem roubar nenhuma paz e beleza daquele mar sereno.

Nada disso aconteceu, talvez porque a ressaca não seja boa companhia para momentos transcendentais na vida, ou simplesmente porque talvez o momento dessas dramáticas viradas de página simplesmente já passou, ou talvez porque nada disso, no fundo, exista: o que há, mesmo, somos nós outros, todos de alguma forma perdidos no meio do caminho da vida, angustiados e ansiosos na expectativa de sermos capazes de extrair propósito, desígnio e sentido das nossas escolhas e das consequências delas e dos nossos atos esparsos. Quem é que sabe?

O que aconteceu foi que eu descansei, ouvi música, pensei na viagem de volta. Fiz notas mentais para comprar os licores que minha mãe encomendou. Para calibrar os pneus. Para pegar contatos dos gringos com quem enchi a cara. Pensei na faculdade, no trabalho, em mim, pensei na família. Nas coisas que me importam realmente. Pensei em 2018, pensei nesse desafio de transformar o ano que vem em algo ainda melhor do que esse que, estranho e com seus espinhos, é um dos melhores anos da minha vida. Pensei, pensei, pensei e pensei.

Atrás de mim, repousava o caminho que me conduzira até aquele ponto e eu podia ouvir por lá vozes animadas e gente que fazia também as suas trilhas. Intimamente, torci para que alguém viesse até onde eu estava, para que compartilhássemos a vista, eu contasse e ouvisse histórias, aí sorriríamos e trocaríamos impressões sobre a vida. Mas a verdade é que eu não posso me mexer daqui para dar esses passos para trás, não agora, não assim, não desse jeito. E a verdade é que quem vai lá por aquele caminho desconhece-me, quem sabe rejeita, ignora esse lugar maravilhoso e as preciosidades que vão comigo aqui, agora e nesse instante.

Aí aborreci-me.

Era hora de voltar, de levantar acampamento, juntar as coisas, coletar o lixo e deixar só as cascas das frutas. Andei pela curta extensão de mata no rumo da trilha, desci o barranco com cuidado e encontrei o caminho alguns metros abaixo de onde originalmente tinha me desviado horas atrás. Para a minha surpresa, aninhado entre as raízes generosas de uma árvore, estava embrulhado o cão guarda que me acompanhara.

Com a maior naturalidade do mundo, de um jeito que me tocou o coração, ele simplesmente levantou e se pôs a andar ao meu lado.

Na pousada, fui até a cozinha, expliquei-me à cozinheira e dela comprei um naco de carne, uns ossos e linguiças. Fiz-lhe o banquete em agradecimento e me enchi de alegria ao ver que, nos olhos daquele cachorro, ia genuína gratidão e amizade, que estava ali feito um laço indissolúvel de amizade, de companheirismo, de entrega.

Meu pai sempre dizia para que, onde quer que você vá, faça amigos.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Guia do caroneiro II

Caiu a noite enquanto eu me encorajava a tomar um banho para aceitar o convite dos colegas de hospedagem e ir, à beira do mar, fazer-me presente à roda envolta da fogueira, onde se beberia, contar-se-iam históricas e a dar-se fé na viola que, orgulhosa, pairava emparedada na recepção, ouvir-se-ia música a partir do dedilhar e do cantarolar do dono do lugar que, imaginei com razão, cantaria e tocaria noite à fora.

Eu estava sobretudo curioso a respeito dos gringos e gringas que compartilhavam o teto. Gente de todos os cantos, Dinamarca, Austrália, Colômbia, Canadá, Estados Unidos e outras denominações e nacionalidades menos votadas das Europas todas. Gostaria de conversar com essas pessoas, saber delas, do que fazem aqui, do que acham desse pedaço de nada, do que as encanta e decepciona, se voltariam, se ficariam, se me recomendariam ir conhecer suas terras.

Encorajado pelo suor que me fazia a pele viscosa e grudenta, tomei a coragem, peguei a toalha e todos os acepipes dedicados à arte do banho e me assomei ao banheiro para, não digo interromper que meus passos são leves como os de felino, mas para surpreender uma tórrida relação entre dois rapazes que dividiam um dos quartos do primeiro piso. Esse registro não tem razão nenhuma de ser nesse post, mas eu precisava dividir a anedota com alguém.

Refeito do susto, e de banho tomado, fui de isopor carregado de gelo e cervejas debaixo do braço rumo a roda que já se animava ao calor desnecessário do fogo, do calor mais que necessário do álcool e o que mais consumiam para libertar as amarras.

Me assomei à roda onde havia espaço, tive o cuidado de escolher uma área longe de casais e que me desse vista ao mar, mas também ao contorno irregular da serra, não que tenha ido à roda para admirar a paisagem, mas porque se é para escolher um lugar, não vejo razão para que não escolha simplesmente o melhor disponível.

Eu não lembro de muita coisa, mas recordo ter conversado com uma dinamarquesa de olhos azuis, ter falado sobre corridas com um americano, defendido Narcos junto a um colombiano e ter dado muita risada conversando sobre política com meus conterrâneos.

Tinha uma gringa e um gringo que eram estudantes de astronomia, e a quem eu teria tietado por toda a noite, não fosse o fato de que, bêbado, fiquei com medo do meu inglês de anedota acabar no caminho na hora de discutir essa ciência da qual já foi dito é uma experiência que ensina humildade e constrói caráter: “não há demonstração melhor da tolice das presunções humanas”, diria Carl Sagan, com as carradas de razões de costume. Translation, rotation, quasar, neutron star, delta-V, Mars, Venus, Moon. Eu iria trocar essas coisas todas.

O que me recorda, pela enésima vez na vida, a comprar ou montar um telescópio, que bem que faria sucesso em meio a esse céu feito esplanada dessas terras sem cidades, sem luz que aborreça o brilho cálido das estrelas, do universo e dos planetas.

A noite passou qual um borrão porque eu bebi uma barbaridade e acordei com a cara enfiada na areia na manhã seguinte, bem a tempo de prevenir-me de queimaduras de sol. Ao meu lado, outros vestígios da longa noite se assomavam na forma de garotas e outros moços que também esticaram a não mais poder a noitada.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Guia do caroneiro I

Nessa última viagem, andei calmo e não me impus a nada. Nas anteriores, vinha me obrigando a fazer algo que não estava no escopo do trajeto, ou que eventualmente não seria de minha preferência. A ideia era sempre se obrigar a dar brechas para as coisas novas, testar, permitir-se ver e fazer coisas diferentes.

A verdade é que toda essa dança cansa. A um certo ponto da vida, você é o que você é e mudanças radicais não vão acontecer mais. Ou, se ocorrerem, virão na esteira de algum evento especial, não a fórceps.

E aí me enviei nessa viagem, tanta coisa para descansar o lombo, para esticar as pernas pelas trilhas, para dormir sem pressões no silêncio da mata que envolve o hostel simples, extremamente simples, que fiz questão de escolher: sem internet, sem cobertura de celular, energia elétrica só por algumas horas por dia por conta do gerador que não fica o tempo todo ligado.

Paz e natureza.

Havia, no roteiro, ensejo para as torturas que me havia imposto. Eu comeria prato com frutos do mar, por exemplo. Se algum turistão mala quisesse me aborrecer nas minhas trilhas, seria bastante gentil e receptivo, e lá iríamos compartilhar a natureza. Se houvesse alguma celebração na praia, com direito à droga e álcool, eu me permitiria aos exageros que sempre soube contornar com a velha segurança de quem, desde cedo, soube dos seus limites.

Mas não fiz nada disso. Ou quase, tentei um prato com peixe, mas não venci o engulho para tentar comer qualquer bobagem na forma de fruto do mar que acompanhava o cardápio do dia. A carne do peixe, vou ser bem sincero, foi bem comestível e me surpreendi em descobrir que, ao menos da variedade que experimentei, é bem melhor do que frango, por exemplo. A tal bobagem do fundo do mar me faria vomitar.

Na trilha, que fiz questão de começar à primeira hora da manhã, bem antes do café para não arriscar companhias, me vi nessa calma de quem renasce toda vez que anda pelo mato. O som, a beleza da luz que se filtra pelas folhas e vem brincar com a gente pelo caminho, o ruído da vida em decomposição que estala a cada passo, a sensação de entrega ao todo e de paz de quem bem que poderia dizer que está sozinho no planeta dão energia.

Liguei o celular para acompanhar a quilometragem.

Caminhava nessa velha paz e lancei o olhar para o que vinha. Encontrei, por meio das árvores, o perfil azulado do mar que, eu não sabia, chegava tão perto do trajeto. Fugi da trilha e fui sentar à areia, vislumbrando as dezenas de metros que a água precisava vencer pela maré, se quisesse me alcançar. Nublado, o dia parecia que seria bonito, sem tanto calor, sem tanto tumulto.

Deitei na areia para esperar a vontade de continuar, faltariam talvez uns 10 quilômetros ainda.

Enquanto me entregava aos meus pensamentos, que não param esses meus pensamentos todos, fui desandando alguns outros caminhos, refazendo uns, criando novos. Há tantos planos, eu tenho tido tantas urgências, e embora o peso de escolhas, responsabilidades e consequências de hoje pareçam que vão me entortar as costas, há uma segurança que eu sinto, uma paz que revigora na mesma medida que a calma sossegada dessas matas, essa de que eu, pela primeira vez em tanto tempo, sei muito bem o que estou fazendo, sei muito bem para onde estou me dirigindo e, mais do que tudo, estou feliz e satisfeito por conta do destino que eu não mais aceito passivo e descompromissado, mas construo com paciência e devoção com esse meu jeito ressabiado de quem já apanhou que chegue da vida e que, antes de revidar, cala, sorri, respira fundo e para de brigar com os fatos e com a verdade de que a vida que a gente leva não é fruto da nossa escolha, mas é consequência.

Sento-me novamente e fico aborrecido de não ter me preparado para meditar, que o lugar é deveras interessante para o mister, fico ainda mais chateado de não ter trazido o Kindle: eu poderia ler Guerra e Paz de uma só vez nesse lugar. Pena ser isso uma reserva, porque confesso que essa é a primeira praia da minha vida em que eu ergueria uma morada. Tudo para acordar com essa paisagem e esse som.

Finalmente entendo qual é a graça que via o Neruda em acordar com aquela janelona enorme, debruçada sobre o Pacífico. Finalmente entendo como podia aquele cidadão ser tão inspirado nos seus poemas.

Mas aqui não faz frio, dirá algum recesso da minha essência. Não, não faz tanto frio, mas talvez onde venta, geia e neva, não há som do mar, cheiro de mato, calma e essa energia que brota da comunhão com a paz das coisas vivas. É tudo, como sempre, uma questão de escolhas.

Perdi a noção do tempo, sentado na areia, como quem pede carona à beira de uma estrada que não existe, por onde não trafega ninguém. Com o que concluo essa breve anedota dessa viagem de quatro dias (ou seria de alguns anos?), percebendo que não mudaram tanto as coisas, eu sou a mesma coleção de exageros, desatinos e disparates de sempre, só agora mais calejado e ciente, coeso; que eu ainda estou pelos caminhos à pedir carona, mas que agora, ao menos, não embarco em qualquer um que responda ao meu polegar em riste, simplesmente à troco de embarcar e ir a algum lugar. Não, porque agora, ao menos, sei muito bem para onde estou indo.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Todas as algumas palavras

Saudade, idas e vindas, chegadas e partidas. Falta. Força, sobra, sonho metas, destino e desatino, caminhada. Paciência. Porta aberta para o sertão da solidão, coragem. Volta. Não volta, incerteza, maldade, incompreensão. Omissão. Paixão, sonhos, recordações, mais força, nenhuma dor. Ridículo. Afeto, carinho em suspensão. Tempo, tempo, tempo, tempo: cinco anos. Futuro, planos, vontade, energia, amanhã, hoje, mas é só ontem. Fim e recomeço. Morte e ressurreição. Palavras, palavras, palavras e mais palavras. Se, e se. Somente se. 

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Um dia na vida

Acorde às 6 horas da manhã. Exercícios de cálculo para refazer, semana que vem tem prova, puta que pariu, e o trabalho? 8 horas da manhã, faz o café, amargo, de doce já basta a vida. Pega o carro, vai na construção, da construção vai na advogada ver como anda a negociação porque a construtora, que entre outras aventuras, ergueu parte da casa no terreno errado, simplesmente largou a obra. Dor de cabeça, mas que venham, que eu não tenho medo, eu tenho razão, e, melhor ainda: eu sou bom de briga. 10h30 da manhã, mensagens no celular, não vou ler agora, tenho que me concentrar no trabalho, esse que paga as contas e soma as bases do amanhã que há de ser ainda melhor. Consulta, a quantas anda essa miopia? Volta, almoço, não almoço, mas faço companhia, minha mãe aposentada cozinha qualquer coisa que eu acabo provando e, claro, gostando. Aí vamos lá, vai chegando a tarde, tenho que ver esse ruído na direção do carro, não é problema de segurança, mas me irrita uma barbaridade. Volta da concessionária, vida em trânsito, volta para a casa. Qualera aquela história do Python mesmo? Como usava aqueles self? E como diabos faz aqueles laços com for? Puta que pariu, Python, como você consegue ser tão simples e, justamente quando simplifica as coisas, ficar tão complexo? Paro de estudar, trabalho mais um pouco, aí sou indulgente, vou ver um documentário sobre ciência, um episódio de uma série, dou-me folga, e volto com uma ideia para o SOSF 1.2 Fetutine (SOSF é meu Linux homebrew, cujo codinome de versão é Fetutine, já que o Google usa as sobremesas para o Android, eu vou de massas), integro suporte ao Wi-Fi para SOSF e fico feliz quando a parada toda funciona. O que me incentiva a continuar o curso à distância sobre C#. 18h. Tomo banho, lavo bem as mãos, manejo as lentes de contato, computador novo na mochila (como eu fico animado com computador novo, como eu sou bobo), mochila nas costas, eu no assento, 7 quilômetros, estaciono, vou à aula. Putz, esqueci de novo de ligar para pedir reembolso daqueles vinhos extraviados no transporte. Aliás, a encomenda do meu irmão saiu da alfândega na Alemanha? Bora checar, se não esquecer, lá no instituto. Matemática. Funções, limites e derivadas, tudo tranquilo, aí tem aula de Banco de Dados, me dá sono, mas fico ainda mais convicto dessa ideia de, lá pelos 50, aposentado e com as crianças crescidas, cursar matemática só por amor ao esporte. Fim da aula. Cerveja com os camaradas na bodega que vende artesanal, que não tem letreiro, abre de vez em quando e que faz uma questão absurda em não ser conhecida por ninguém. Volta pra casa, rapaz, tá na hora de ir dormir, amanhã é isso, e muito mais, tudo de novo.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Blurriler

Eis o blurriler. Na verdade, é blue heeler, mas o brasileiro abrasileirou o nome e, agora, a raça de cães originária da Austrália, cujo pelo não tem nenhum tom amarelado, que esses são os red heeler, tem um nome português para chamar de seu.

Nada resiste à criatividade brasileira.

Era um desses o meu vizinho de algumas semanas atrás, um cão esperto e engraçado, que me chamou a atenção e inclusive encorajou-me planos de sequestros que não vieram a se concretizar. Alegre, curioso, espevitado e cheio de energia, o sujeito encantou não só a mim, mas também à minha mãe. Agora, me restam apenas uns vídeos e fotos do cão.

Depois que soube que o bicho não era o vira-lata que eu, sem saber muito sobre cães, tinha calculado, embrenhei-me numa pesquisa para descobrir de que raça ele era. Depois alguma pesquisa, vim a saber que esse espírito alegre e espevitado é bem típico desses pastores australianos.

Conclusão que, somadas a outras impressões que adquiri de outras raças, me leva a "rereconsiderar" muitas coisas e a incluir esses blurrilers nas minhas buscas por um filhote. É pena, no entanto, que recomende-se a esses cães espaços abertos amplos, porque criados para o pastoreio, eles tendem a se aborrecer enormemente em lugares apertados, dizem os criadores. Aparentemente, são comuns no Brasil porque são dóceis, bonitos e grisalhos, muito fáceis de adestrar, alegres e amam crianças. À parte do DNA australiano, são uma versão canina desse que lhe escreve, praticamente.

E aí, nesses grupos de classificados, eis que surge um irmão do meu vizinho à venda. 150 reais. Carteira de pedrigree e tudo mais. Ligo para a dona que precisa se desfazer do cão, pessoa simples e que já tem outros bichos e aparentemente adotou o filhote por compaixão, para descobrir que telefonara 30 minutos atrasado: alguém já comprara o passe do cão. E aí, disso tudo, só me restou outra foto.



domingo, 27 de agosto de 2017

Confronto

Hoje, eu me sentei para escrever como nunca tinha feito na vida, e como venho ensaiando a meses, sobre tudo, sobre nada. Fiz, no toque das teclas, o exercício de desacelerar o veio turbulento dos meus pensamentos para transferi-los, um a um e sem obrigação alguma de coesão, ao texto. O resultado, que está longe de encantar qualquer juiz dos rigores e prumos estéticos da expressão escrita, ao menos dá tino de uma porção de coisas para as quais eu tendo naturalmente a fechar os olhos, a esconder debaixo do tapete, a empurrar para de trás do pano de fundo por onde se descortina essa minha vida romanesca.

Em certo sentido, é melhor que meditação: o confronto com as suas ideias e com as suas racionalizações gera resultados mais drásticos que a experiência contemplativa do meditar.

Mas não é para os fracos, não é para todos, não é, na verdade, para ninguém. Não acho que terei energia para tentar o exercício novamente tão cedo.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Nômade e insights tardios

Eu tenho um problema com sentir-me em casa. Tudo começa porque, em 2004, um incidente tirou as minhas referências de lar, de casa, de raízes. De lá para cá, a sucessão de anos trouxe paradas, chegadas e partidas, mas a sensação de lar, de morada, de lugar para chamar de casa sempre foi elusiva.

Em Ponta Grossa, a natureza daquele teto era o improviso. Delicioso improviso, aliás, de ter morado sozinho e ter apreendido a se entender, a se preservar, a se querer.

Em São Paulo, o ritmo nunca foi saudável, o convívio no tumulto nunca foi de encontro ao meu espírito de sossego e o resultado foi que, também, nunca estive em casa naquele tempo.

Em Curitiba, o teto era efetivamente meu, morava sozinho, bancava todas as contas. Mas a sensação de lar, de pertencer, era elusiva: ela oscilava, ia e vinha, e em meio aos desagrados de morar no centro da cidade, do prédio antigo, do apartamento de arquitetura infeliz, também não me sentia em casa.

E hoje, em mais um desses insights tardios, eu percebo que estar em casa, sentir-se ligado a um lugar, tem muito pouco com o espaço, com as condições financeiras, geográficas e físicas do lugar. Eu descobri, num período que agora completa um ano, que lar é onde estão os meus sonhos, onde moram os meus amores, onde fica o meu coração. Era por isso, por exemplo, que a sensação de pertencer, de morar, de lar, era elusiva e flutuante nesses anos de Curitiba, é por isso que ir embora me cortava o coração e vê-la partir era tão amargo quanto possível.

Eu aprendi a ser nômade, a ser sem casa, a não ter a minha morada ao longo desses anos, mas hoje me recordo da delícia de ter lar, de pertencer, de ser parte. Meu coração, que é cigano acostumado, cansa das esperas, cansa das andanças, cansa das incertezas. Hoje, eu quero morada, eu quero presente, eu quero futuro, hoje eu preciso de estada, do fim das chegadas e partidas, preciso e quero as novas páginas.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Voyagers e Sagan

Por esses dias, as missões Voyager 1 e 2 da Nasa completam 40 anos. No nada absoluto que se tornou a questão da exploração espacial, a data será uma mera vírgula no noticiário do dia e pouco se falará a respeito agora, menos provavelmente em 10 anos, quando as missões completarão 50 anos. Quatro décadas depois, as duas sondas ainda enviam sinais à Terra e assim devem continuar por mais alguns anos, quando finalmente seus reatores esgotarem as pilhas atômicas que os abastecem, ou quando esgotar o suprimento de monopropelente usado para controle de altitude (acredite: poderia aborrecer todo mundo por horas explicando porque isso é importante para que as sondas se comuniquem com a Terra). E, mesmo que a energia dure por muito mais tempo, as Voyager chegarão a uma distância relativa da Terra em que o sinal de rádio enviado por suas antenas se tornará fraco demais para ser captado pelos nossos equipamentos.

Sendo absolutamente injusto, eu vou resumir em um parágrafo porque, do ponto de vista histórico e científico, as Voyager são importantes: foram lançadas com o objetivo de visitar quatro planetas (e assim o fizeram: Júpiter, Saturno, Urano e Netuno), dos quais ninguém sabia muita coisa na época do lançamento. Ambas foram “over-engineered”, adoro o termo, com o nada pouco ambicioso fim de, um dia, serem resgatadas por seres inteligentes: levam gravações de sons da Terra, descrições de como localizar nosso sistema solar, dizem quem somos, é um cartão de visita da nossa espécie enviado às estrelas, algo de uma sensibilidade e doçura que só caberiam mesmo em alguém da dimensão e do otimismo de um Carl Sagan.

Há um relato, inclusive, de que depois que as Voyager terminaram a viagem pelos quatro planetas, uma festa entre toda a equipe que devotou décadas no projeto foi organizada. Chuck Berry tocou, porque uma música sua ia no disco dourado das sondas, e Carl Sagan foi visto dançando. Que tempo para estar vivo.

Mas por que a Voyager é importante para mim? Eu era absolutamente interessado em espaço, em astronomia, e adorava ler sobre planetas nos livros de ciência e geografia da escola. E como os pulos de planeta em planeta das duas sondas levaram anos (só chegaram a Netuno em 1989, 12 anos depois de lançadas), acabei crescendo numa época em que tudo de novo que se descobria sobre o sistema solar vinha na esteira das duas Voyager. Na escola, aborrecia os professores com perguntas e me recordo que, na TV Cultura, todas as tardes, logo depois de Anos Incríveis, passava uma longa série de documentários realizada nos anos 1980 e que, usando material e dados coletados pelas Voyager, me encantava com os prognósticos de mares de metano em Titã, erupções vulcânicas em Io, tempestades supersônicas em Júpiter, crosta congelada e em constante tensão pelo efeito maré em Europa, ou o eixo exuberantemente inclinado de Urano que, em uma altura do seu período solar, faz com que o pólo sul esteja completamente voltado para o sol (já parou pra pensar? Não é bizarro? É como se a rotação do planeta fosse de sul a norte em vez de leste a oeste).

As Voyager, a sensibilidade de Carl Sagan e essa paixão pelo novo, pela descoberta, por aprender, por imaginar, por mesmo imbuídos do mais estrito espírito científico, enviar espaçonaves para o espaço e o tempo sem hipóteses a confirmar, apenas para descobri-las, é o que sempre me encantou nessa história que importa muito pouco para muita gente e, talvez, exatamente por isso, o mundo esteja do jeito que está.



Eu tenho alguns livros de Carl Sagan e, o mais importante deles, Cosmos, que importei de Portugal à falta de versão brasileira na época, guarda, na primeira página, a minha assinatura e o mês de compra do livro (atenção que tenho com toda a minha biblioteca), mas também uma observação importante, transplantada de uma revista que falava da sua morte em 1996, e que fiz, do alto dos meus 11 anos de idade: me comprometendo a ser um cientista e a trazer a inspiração libertadora do conhecimento às pessoas.

O detalhe é que essa anotação, no entanto, veio copiada de uns garranchos meus sobre as páginas amareladas à época de uma revista Super Interessante de 1996, que falava da morte e legado do astrofísico que inspira ainda hoje milhões de pessoas. Aos 11 anos, eu era muito precoce.

Sagan escreveu para Ann Druyan, sua esposa, que “na imensidão do tempo e espaço, é uma honra dividir um planeta e uma época com você”. Tenho impressão de que todos nós que, de alguma forma, tocados pelo exemplo de Sagan, pela jornada da Voyager e capazes de amar podemos dizer o mesmo em relação a todas essas coisas: é um privilégio viver nessa época e é uma honra enorme poder se inspirar em pessoas da dimensão de um Carl Sagan e em histórias de triunfo humano como as Voyager.

Eu grito

Tenho vontade de gritar o seu nome, como quem comemora, como quem faz gol, como quem levanta a taça. Soltar um berro, um brado retumbante. Quero chamar inteiro. Chama, chama que inflama, vem e volta, desaparece e acha que me engana, chama que não se apaga. Sem graça. Saudade daquelas letras que me notificavam, que vibravam no meu bolso, na minha mente. Mas é, agora, indiferente. Você diz que morreu, eu renovo. Você matou, eu ressuscito, você esfria, eu rimo triunfante. Você diz que é hora, que agora vai embora; eu planejo o casamento. Chega de drama, mulher, abre a porta, não sufoca a chama, que eu te incendeio. Tenho saudade de ter o seu nome, de poder dizer, de poder ler, de ter comigo, cinco letras, uma palavra, duas pessoas, todos os amores. Saudade de você, que se colocou onde não foi chamada, foi embora quando foi mais amada, e não volta mais, talvez porque nunca foi tão clamada. Você teme e esfria, eu suspiro e desarmo a sua desforra. Não, não digo que te chamo. Digo que te amo. Mas não, não volta. Digo sim que fica, que daqui você nunca foi-se embora. Quero uivar o seu nome, feito lobo. É fogo. Faça o fogo, que eu levo os fogos.