terça-feira, 12 de setembro de 2017

Guia do caroneiro II

Caiu a noite enquanto eu me encorajava a tomar um banho para aceitar o convite dos colegas de hospedagem e ir, à beira do mar, fazer-me presente à roda envolta da fogueira, onde se beberia, contar-se-iam históricas e a dar-se fé na viola que, orgulhosa, pairava emparedada na recepção, ouvir-se-ia música a partir do dedilhar e do cantarolar do dono do lugar que, imaginei com razão, cantaria e tocaria noite à fora.

Eu estava sobretudo curioso a respeito dos gringos e gringas que compartilhavam o teto. Gente de todos os cantos, Dinamarca, Austrália, Colômbia, Canadá, Estados Unidos e outras denominações e nacionalidades menos votadas das Europas todas. Gostaria de conversar com essas pessoas, saber delas, do que fazem aqui, do que acham desse pedaço de nada, do que as encanta e decepciona, se voltariam, se ficariam, se me recomendariam ir conhecer suas terras.

Encorajado pelo suor que me fazia a pele viscosa e grudenta, tomei a coragem, peguei a toalha e todos os acepipes dedicados à arte do banho e me assomei ao banheiro para, não digo interromper que meus passos são leves como os de felino, mas para surpreender uma tórrida relação entre dois rapazes que dividiam um dos quartos do primeiro piso. Esse registro não tem razão nenhuma de ser nesse post, mas eu precisava dividir a anedota com alguém.

Refeito do susto, e de banho tomado, fui de isopor carregado de gelo e cervejas debaixo do braço rumo a roda que já se animava ao calor desnecessário do fogo, do calor mais que necessário do álcool e o que mais consumiam para libertar as amarras.

Me assomei à roda onde havia espaço, tive o cuidado de escolher uma área longe de casais e que me desse vista ao mar, mas também ao contorno irregular da serra, não que tenha ido à roda para admirar a paisagem, mas porque se é para escolher um lugar, não vejo razão para que não escolha simplesmente o melhor disponível.

Eu não lembro de muita coisa, mas recordo ter conversado com uma dinamarquesa de olhos azuis, ter falado sobre corridas com um americano, defendido Narcos junto a um colombiano e ter dado muita risada conversando sobre política com meus conterrâneos.

Tinha uma gringa e um gringo que eram estudantes de astronomia, e a quem eu teria tietado por toda a noite, não fosse o fato de que, bêbado, fiquei com medo do meu inglês de anedota acabar no caminho na hora de discutir essa ciência da qual já foi dito é uma experiência que ensina humildade e constrói caráter: “não há demonstração melhor da tolice das presunções humanas”, diria Carl Sagan, com as carradas de razões de costume. Translation, rotation, quasar, neutron star, delta-V, Mars, Venus, Moon. Eu iria trocar essas coisas todas.

O que me recorda, pela enésima vez na vida, a comprar ou montar um telescópio, que bem que faria sucesso em meio a esse céu feito esplanada dessas terras sem cidades, sem luz que aborreça o brilho cálido das estrelas, do universo e dos planetas.

A noite passou qual um borrão porque eu bebi uma barbaridade e acordei com a cara enfiada na areia na manhã seguinte, bem a tempo de prevenir-me de queimaduras de sol. Ao meu lado, outros vestígios da longa noite se assomavam na forma de garotas e outros moços que também esticaram a não mais poder a noitada.

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