sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

2011 é logo ali

Me peguei hoje pensando, em meio às explosões que me proporcionam Battlefield Bad Company 2 (recomendo) se escreveria, tal como venho fazendo todo final de ano, um pequeno balanço do ano que passou.

Não resolvi ainda, mas acho que 2010 não vai merecer linhas analisando o que significou, o que foi, o que não foi.

Vou lembrar de 2010, por certo, mas, dessa vez, caros oito leitores, reservo-me ao direito de guardar no fundo mal ajambrado desse meu coração carcomido as impressões destes 365 dias.

Não há muito para comemorar, nem muito para lamentar. 2010 foi e só. Nada que possamos fazer impede que esse planetinha orbite o Sol e, assim, cometa mais um ano. Portanto, fechem o bico e se conformem, encham a cara, pulem as ondas, assistam menos tv, leiam mais e usem camisinha. 2011 é logo ali.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Papillon

Está decidido, em caráter irrevogável, que o veleiro que nunca terei condições de comprar será um Nautor Swan 55, que pretendo batizá-lo não mais de Sputnik, como fora minha inclinação anterior, mas de Papillon.

Sputnik, em russo, muito antes de ser a esfera espetada de metal que subiu à extratosfera em 1957 para fazer bip-bip-bip e maravilhar o mundo, é satélite. Muita gente acredita que a tradução seja "amigo", mas não é.

Papillon vem do francês e significa borboleta, que é um bicho mais ou menos afeminado e que ficaria bastante desconfortável no barco de um marmanjo metido a marujo hipotético - e à luz de tanta incerteza, nessa vida é tudo hipótese, de modo que não dá para garantir se estampar Papillon na proa e popa, esmigalhar uma boa garrafa de champagne no casco para selar o batismo, afinal, fique afeminado demais. Acontece que Papillon vem a ser, também, o nome de um ótimo filme onde, mais uma vez, Papillon era o personagem principal, obcecado pela ideia de liberdade e que encerra sua atribulada carreira de fugas flutuando num pontão construído de barris.

O barco que nunca terei, as velas que nunca manejarei, enfim, sempre foram mais um mal-ajambrado grito de liberdade deste velho corpo carcomido, e nada mais justo, pois, que chame-se Papillon o instrumento que nunca vai me levar dos grilhões do cotidiano, das renúncias diárias, das explorações inexoráveis e das derrotas humilhantes.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Aforismos - Trabalho

"O que eu preciso é de dinheiro. Por trabalho eu não sou tão louco assim não..."

Bukowski.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Tucanos metem o nariz em tudo, daí serem narigudos

O PSDB é como aquelas bandas que arrebentam no primeiro disco e depois colecionam uma carreira de sucessivos e estrondosos fracassos. Passa anos à fora se queixando, emburrado pelos cantos, reclamando da academia e da população que não reconhece os vigorosos avanços do Plano Real e as lufadas fragorosas de modernização na esteira das privatizações que encolheram o Estado. Como se fosse culpa da população lembrar o gosto amargo do tucanato empoado e plutocrata que desmontou o país, lhe vendendo o patrimônio num período marcado por juros exorbitantes, triplicação das já então para lá de dilatadas dívidas públicas, hediondas médias de desemprego récorde em sete anos sem a menor e mais tímida ameaça de crescimento da renda per capita.

Rádio: Chico Buarque - Minha História

A minha preferida do Chico:

Debacle

Hoje eu finalmente entendi o Efeito Doepfler e a Relatividade Geral.

E daí?

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Da cidade que não é mais minha

Da cidade que não é mais minha
recordo de tudo
vejo que nada resta
e tudo definha.

Na cidade que não é mais minha
resgato o tempo
reencontro o espaço
procuro por um momento
aquele meu abraço
na cidade que não é mais minha

Na cidade que não é mais nossa
eu lembro da felicidade
do tempo que foi absoluto
e me traz saudade
já que não há nada que eu possa  
sigo, irresoluto
pra cidade que nunca será minha.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Myth buster

A Nasa soltou um comunicado anunciando que, amanhã, dará a quem aprouva acompanhar via internet, uma coletiva na qual anunciará novas descobertas que imapctarão na área da astrobiologia, que vem a ser a área do conhecimento que versa sobre a busca e possibilidades de vida em outros lugares do Sistema Solar e do próprio Universo. Pronto, já tem gente dizendo que acharam vida extra-terrestre.

Nem tanto. O que vão anunciar, anote aí jovem, é que acharam oxigênio molecular num pedregulho que orbita Saturno dia desses. Vão dizer só que oxigênio molecular nunca tinha sido encontrado flutuando em outro corpo, porque o raio do oxigênio é uma das maiores biscates químicas, se liga, se abraça e rola com todo mundo, e até outro dia só sabíamos de oxigênio molecular, mesmo, a dar com o pé, aliás, com as fuças, aqui na Terra.

 Na foto, Rea em trânsito pelos anéis de Saturno

Rhea, ou Reia, que é o nome do pedregulho vergonhosamente menor que a nossa própria Lua, portanto, abre novas perspectivas para a astrobiologia. Afinal, se tem oxigênio na modalidade molecular na nossa vizinhança, pode ser que haja em abundância por todo o cosmo. Vão concluir o comunicado dizendo que se há oxigênio molecular na lua saturniana, nada proíbe que tenha à vontade em vários outros pedregulhos, maiores ou menores, todos mais ou menos bem providos de bons insumos e boas circunstâncias para suportar a vida, e que se há oxigênio pode ter vida - nesses pedregulhos outros, que em Rhea não tem porra nenhuma.  Ou nada disso, dirão que encontraram mais proteínas e aminoácidos perdidos por aí ou ainda alguma forma de vida inusitada e extremófila na própria Terra.

E fim de papo.

Não obstante, Tertuliano declara desabrida e desavergonhada torcida para que a revelação, como vem sendo tratada pela mídia irresponsável, verse sobre incontestáveis evidências de que não estamos sozinhos no Universo. Como dizia Carl Sagan, se o Universo se confirmar um dia estéril, descontando este nosso planeta, será um tremendo desperdício de espaço, tempo e matéria.

Reforço também a torcida para que sejam algo humanos os seres. Bem intencionados, capazes de falar português e que tenham boas mulheres e maus futebolistas, o que expandiria vertiginosamente o horizonte de gostosas da metade masculina da nossa humanidade e nos daria ensejo de triunfar no primeiro Intergalático de Clubes com alguma facilidade.

Rádio: Moby - We are all made of stars

"No one can stop us now..."

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Cartas a meu pai

Das muitas coisas que não te perguntei, colocaria, em evidência, talvez, o passado. Onde repousam as histórias e experiências cativantes que edificam o futuro de todos nós. Me faltou maior ciência dessas experiências. A falta desse arcabouço de situações poderia, talvez, me desviar de algumas escolhas ruins que fiz e pelas quais pago o preço. De resto, a maior confidência nos faria mais próximos, e isso é coisa que venho lamentando há exatos oito anos. A distância que se construiu em sucessivas desistências.

Mas longe de mim dizer que aprendi alguma coisa com a experiência. Em maior ou menor escala, venho repetindo o mesmo tipo de distanciamento, incapaz de evitá-lo, com pessoas de mesma importância na minha vida. A mesma indulgência com relação a pequenos momentos e gestos que tive antes, tenho hoje, com o agravante de, mais experiente, ser mais uma vez incapaz de mudar o rumo das minhas inconstâncias e fraquezas.

Há um universo de decepções inexploradas para se viver. O pior não é, então, vivê-las, porque inevitáveis, mas antevê-las, prevê-las, presumi-las, supô-las e não ser capaz de fazer nada para evitá-las é que é o busílis. Poderia ser covarde e, mais uma vez, apelar para os erros do passado, dizendo que eu não tinha culpa, era muito criança, e o que moldei em mim naqueles tempos onde podia me esculpir foi isso, e diante do destino, faço que posso.

Mas o destino talvez seja o caminho, só isso. O fim, os fins, são tudo questão de ponto de vista. Nada é absoluto para quem ainda vive. Tudo é precário, temporário e mesmo essas ausências, as perguntas não feitas, os conselhos não dados e tudo que não foi compartilhado e se calou no seio imorredouro do último suspiro, estejam aí só para testemunhar a falência de qualquer vã pretensão íntima de, enfim, dizer: sou feliz.

sábado, 27 de novembro de 2010

Saudade pesa

Seu Nino. Era um vizinho. Era um amigo. Era ele o Alfredo e eu o Totó desse outro Cinema Paradiso que é a minha vida, em que se pese que o fim, até aqui, de onde dá para se vislumbrar o que pode vir da fita que corre preguiçosa no projetor que esboça trepidantes imagens dos meus dias, não pareça tão alvissareiro quanto o experimentado pelo par no imorredouro filme italiano. E que doravamente me fará chorar copiosamente, porque a analogia com Nino, com meu pai, minha mãe e eu mesmo será infinita e saborosamente entristecedora. Cinema Paradiso é, talvez, a única coisa certa que os italianos fizeram depois da Maseratti - dizem que a massa é criação dos chineses.

Eu devia ter escrito antes sobre Seu Nino. Ou ainda, eu devia ter conservado mais de Seu Nino comigo, mas não pude. Nos primeiros anos da minha vida, o aborrecia. Lembro muito pouco do nosso convívio porque era muito pequeno e a memória não chega para dizer o que comi ontem, que dirá, absurdo, alcançar os primeiros três ou quatro anos de vida. Lembro apenas que nos vinte e tantos anos que sucederam a este tempo não faltaram recordações repetidas sempre pelos meus pais com gentileza, gratidão, saudade, esse timbre de apreço único que vem impresso na voz das boas memórias

Seu Nino era, ou imigrante, ou decendente direto, e pelo que se conta, muito cioso das tradições italianas. Era, acima de tudo, um amigo.

Morava naquele tempo numa casa, que ainda está de pé, grande e antiga, que se debruça sobre a rodovia BR-277, na cidade de Campo Largo. Era uma casa grande que apenas reconheço por fotos e de vagas e turvas lembranças de quando, muitos anos depois, já morando em outra cidade, passávamos em frente pela estrada e meu pai sempre comentava daqueles outros tempos e imaginava como estaria passando o Seu Nino?

Numa dessas vezes paramos e fomos procurar o vizinho querido, a quem meus pais devotavam sincera afeição e devoção. Diziam que era um homem carinhoso, gentil, simples e sempre disposto a ajudar, conversar. E que gostava muito de mim. Que não se furtava em dividir comigo seu tempo, paciência, histórias e atenção.

Dessa visita lembro um pouco. Do Seu Nino em si, da voz e de alguma conversa. Mas é tudo. As memórias deste outro tempo são, de resto, fugidias e me entristece o coração não ser capaz de lembrar mais coisas. Pensando no assunto agora, levando em consideração a importância que este cidadão pode ter tido na minha vida, na minha formação, e sabendo o quanto fora querido, considero quase uma ofensa, um achaque lembrar dele tão pouco a ponto de ser incapaz de bosquejar aqui um retrato mais fiel, digno.

Sinto-me em dívida com esse amigo, o primeiro da minha vida, e que repousa em algum lugar do meu passado, em algum recesso obscurecido pelo tempo do meu coração. É bem possível que ele não more mais lá, muito mais que tenha até morrido, porque na época da segunda visita ele me parecia já bastante velho. E eu tenho pouco a dizer que não seja que sinto saudades, que não me lembro dele e que gostaria que tudo fosse diferente.

Seu Nino, de quem, vejam o tamanho do acinte, não sei o nome verdadeiro, voltou-me à memória hoje. Voltou e trouxe consigo saborosas lembranças de um tempo que não volta mais, de uma vida que não é mais minha e de memórias que se esvanecem, que desbotam em mim. Memórias não de nossa vivência, mas de viagens com meu pai, histórias de minha mãe, fotos que não tenho mais, a casa, a cor roxa das paredes, os detalhes em branco, o campo ao fundo, a rodovia, a neblina, o frio, o bode em quem eu me agarrava para domir, sem medo, sem preocupação, a vida que foi, que era, e que nunca mais será.

O maior crime do tempo não é ser implacável, inexorável. O maior crime do tempo é que ele passa.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Rádio: Ennio Morricone - Fistful of Dollars

Win the fight, win the fight...

 

Só para constar

Charles Bukowski é mais um que realmente sabia das coisas: "Não sei quanto às outras pessoas, mas quando me abaixo para colocar os sapatos de manhã, penso, Deus Todo-Poderoso, o que mais agora?"

Pois é. O que mais agora?

domingo, 21 de novembro de 2010

O dia em que cresci

Eu tinha 9 para 10 anos e achava a catequese um tremendo disperdício de tempo. Perdia desenhos, treinos de Fórmula 1 e substanciais horas de sono, muito caras até hoje, e ainda lamentadas. Aliás, ainda acho catequese uma perda de tempo, a diferença é que naquele tempo pensar dessa maneira era um sacrilégio passível do fogo eterno, do fim das promessas de redenção eterna em algum paraíso onde não se precisasse acordar cedo e todos os desenhos estivessem disponíveis à quem aprouvesse assisti-los. Era no sábado. Provavelmente o cerne do desencanto da religião nas pessoas esteja, além dos rituais enfadonhos, no péssimo senso de tempo de padres, cardeais e congêneres, que escolheram para desempenhar seu ofício dias e horários para lá de ingratos. A catequese, enfim, consistia em lições nada inovadoras e bagatelas reducionistas para crianças. Ao que tudo indica, Deus só te recebe no paraíso dele caso você sacrifique uma porção de finais-de-semana durante a infância, acredite cegamente nas coisas que são ditas e nunca, sob hipótese alguma, questione.

Eu lembro pouco desse tempo sombrio. Onde a grande missão era engolir, sem mastigar, uma hóstia. Corpo de Cristo, diziam os fanáticos. Por ser o Corpo de Cristo diziam que não se podia deixar nada na boca, que seria como um desrespeito, um desperdício, um tipo de sacrilégio. É lógico que eu não tinha o repertório de hoje naquele tempo, caso o tivesse, poderia pensar: "mas não é mais sacrilégio comer o corpo de um cara morto?". De certa forma, a ideia de "engula isso sem mastigar" é uma excelente metáfora para todo o discurso religioso. Engula tudo, aceite todas os devaneios, mitos e lendas sem questionar. Não mastigue, não pense, não encha o saco e não esqueça de contribuir com o dízimo ou engrossar as fileiras dos defensores sagrados do Senhor.

O mês de setembro é ingrato na região sul do Paraná. Época de ventanias e de desarranjos de ordem metereológica dos quais não arrisco a menor noção, causam tempestades, chuvas fortes, granizo. Aconteceu naquele ano. Lembro que foi uma das grandes chuvas de granizo que presenciei - e tive a casa destelhada numa que veio quatro anos depois. Esta que resgato aqui, contudo, poupou nossa casa. Mesma sorte não tiveram alguns vizinhos, um posto de gasolina, onde o gelo pesou no amplo telhado de zinco e o fez vergar sob o peso. Lembro de danos menores à comunidade, como alguns carros danificados, um ou outro acontecido. Entre mortos e feridos, até onde iluminam os vagalumes da minha memória, sobreviveram todos.

Também foi vítima dos grãos de gelo a igreja onde eu frequentava os serviços, por pura imposição da catequista. Três faltas não justificadas à missa eram passíveis de reprovamento, e reprovar na catequese - feito que meu irmão conseguiu inadvertidamente - me parecia tristeza demais para uma vida só. Ia concenciosamente onde mandavam, confessava, ingeria o corpo de um deus morto há dois mil anos e não fazia perguntas.

Até que sucedeu a tempestade de granizo que escolheu a Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro como vítima. E não foi só o gelo que avacalhou o templo, caíram raios que causaram alguns danos, embora o edifício fosse guarnecido com boa provisão de pára-raios.

O sinistro nos poupou da catequese até que reparos fossem feitos às expensas da comunidade. O que é um absurdo, considerando que igrejas não pagam qualquer imposto e sejam para lá de proverbiais os fundos de que dispõem as autoridades da Igreja. Nada disso me passou pela cabeça.

Contudo lembro de perguntar à catequista o por quê. Por que Deus tinha decidido avacalhar com sua morada? Não era, aliás, mais condizente com sua figura de defensor, pai, e em última análise, benfeitor de toda a humanidade que fizesse o cataclismo abater-se sobre alguém reconhecidamente mal? Ou talvez num descampado, onde os danos não fossem maiores que capim amassado? Talvez nos mares, onde a chuva de gelo não passaria de distração às populações de peixes, intrigadas com o fenômeno de pedregulhos que se desfazem em contato com a água? Ela respondeu com "são mistérios de Deus".

Não questionei à fundo, mas lembro que a resposta da catequista me deixou insatisfeito, porque quando eu desandava, meus pais exigiam explicações e eu precisava dar motivos. Assim como meu pai me explicava pacientemente porque não tínhamos carro e o quanto custava um, presumi que Deus deveria, dado o seu caráter paternal, obrigação semelhante na hipótese de desastres se abaterem sob aqueles que não podem muito para impedi-los. Considerei, portanto, absolutamente insatisfatórias as respostas da catequista e julguei que a falta de capacidade dela em sanar minhas dúvidas residia no fato de que fosse uma autoridade muito baixa em questões que alcançavam às excelsas altitudes do mistério da mente de Deus.

A conclusão de que precisava de alguém mais gabaritado no tema levou-me à presença do padre. Não lembro muito do cidadão, mas lembro da conversa. Perguntei a ele, em primeiro lugar, o que havia perguntado à catequista. A resposta veio mais ou menos nos mesmos termos, e não convenceu. Aí, ainda crente na sua capacidade de decifrar assuntos desse quilate, lhe perguntei: "Se a igreja é a casa de Deus, por que ela precisa de pára-raios? Qual é o medo?"

"A natureza", respondeu. "Mas Deus não é Deus da natureza também?", "Ele é Deus de tudo que existe!". Nada mais saiu dessa conversa, me despedi, e desde então, embora tenha continuado católico por inércia ao longo dos anos que vieram, nunca mais me senti realmente crente na religião e naquilo que pregava, dizia e recomendava. Como acontece com todo mundo, questionamentos e bom senso mataram a minha fé. 

A catequista disse que são mistérios de Deus e que ninguém poderia perscrutar a mente dele. Não cheguei a questionar a ideia, que hoje, é evidente, parece absurda. O padre jogou com a minha curiosidade infantil, julgando que ela se calaria e se acomodaria com qualquer palavra atirada ao ar, porque encontraria o mérito não na resposta em si, mas na autoridade.

Se não somos capazes de compreendê-lo, a despeito dos nossos mais abnegados esforços, por que nos damos ao trabalho? E se somos incapazes de entendê-lo, porque veio Deus nos prover de um livro justamente dedicado, dizem, para compreender os desígnios e metas do altíssimo para a humanidade?

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Pare de procurar padrões

Não exsite hora perfeita. Momento perfeito. O que existe é o agora. O mundo não é perfeito, nunca foi e jamais será. O mundo é uma rocha que gira no caos, e o caos não é perfeito. Não há justiça, regulamento cósmico, compensação pelas catástrofes, redenção garantida pelos sofrimentos e prêmios pela bondade desinteressada. O que acontece, acontece. O que se espera pode nunca vir, então mexe esse traseiro gordo, põe um sorriso nessa cara escorrida, e anda. Porque o tempo passa, amanhã é outro dia, hoje é passado, lembrança é matéria etérea e fugídia e nada nos garante que o que passou sequer existiu.

domingo, 14 de novembro de 2010

Não há mais 5*

Ver "José e Pilar" é uma mistura de sentimentos. Avassaladores, como a dor palpitante de quem reconhece em Saramago um mestre no ofício da escrita e, bem por isso, lamenta-se por sua já consumada morte. Entusiasmantes, por encontrar numa versão fragmentada de seu cotidiano algo próximo do que sempre se imaginou ao grande Saramago. Nostalgia por saber que o filme não frutificará outro Saramago e não haverá outro livro a se revisar, discutir, escrever, traduzir e imprimir do mestre esperando para ser lido e impresso, outra vez, mas dessa vez no espírito e nos recessos próximos que chegam ao coração dos que o leram, o amaram, o saudaram e hoje, mais uma vez, o choraram. Com efeito, deixei a sala de cinema esfrangalhado em emoções e saudades, e em clima de quem, mais uma vez, com todos os protestos de sincera afeição, se despede de um amigo querido.

Trailer de "José e Pilar"

 

É, em última instância, o encontro com sentimentos intensos, e até inveja, porque se a carne é fraca no gênero humano, o é muito mais a mim, que lhe invejo enormemente a felicidade que teve ao conhecer e dividir boa parte da sua vida com quem estimou tanto, a Pilar, que dá nome ao filme e consistência aos sonhos de José. "José e Pilar" é um filme sobre amor e é um registro de afeição no mais alto grau, amor mais forte que o tempo, que as pessoas e que a própria morte. Digno, pois, de toda a reverência e de toda a humanidade possível em: eu invejo.

De resto, lamento hoje e sempre, até que chegue minha vez de cessar de estar, o fato de nunca ter tido a ventura de conhecer Saramago de perto. De fato, vem o filme a reparar um pouco da frustração que comungo com tantos outros pelo mundo, mas o fato é que faz falta não poder aborrecê-lo com fotos, abraços, carinhos e pedidos.

 * Digo "Não há mais" por conta desta série de acabrunhados e intrestecidos posts. E que se sucedem em 1, 2, 3 e 4. (Clique nos números!)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Haja

Bem poucas vezes na vida a expressão "fodido e mal pago" fez tanto sentido como hoje.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Modernizando as Escrituras

Os Evangelhos são antiguíssimos. Alguns textos são da Idade do Bronze. Daí o fato de serem tão rebuscados e fantosiosos. Para ajudar as ovelhinhas do senhor encontrar o rumo não mais às apalpadelas, prestarei, sazonalmente, uma espécie de ajuda: traduzirei os textos para o vernáculo contemporâneo. E o primeiro trecho é:

No original: 
Gênesis, 6, 13: "Então Deus disse a Noé: “Eis chegado o fim de toda a criatura diante de mim, pois eles encheram a terra de violência. Vou exterminá-los juntamente com a terra".

Nova versão:
Gênesis, 6, 13: "Deus disse a Noé: "O negócio é o seguinte: vocês avacalharam legal a parada e eu vou zoar o barraco. Vou tocar o horror e matar todo mundo".

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Hai-kai nº 39

O dia se esvai
eu sorrio sossegado
e faço um hai-kai.

Hai-kai nº 38

Cruza as pernas
acelera meu pulso
e o coração vira baderna.

Hai-kai nº 37

Haja marra!
Haja preguiça
quando canta a cigarra.

Hai-kai nº 36

O infinito é onde
meu sonho de menino
se esconde.

Hai-kai nº 35

Hai-kai sem métrica
é uma anarquia
estética

Hai-kai nº 34

Dama da noite
exala seu perfume
qual açoite.

Poesia para se conformar com a calvície

Coço a cabeça com suavidade
os fios que caem
levam a minha vaidade.

Hai-kai nº 33

Água vai pela calha
e escorre
água pula e morre.

Hai-kai nº 32

A estrela que explode
é um jeito de dizer
que o universo tudo pode.

Hai-kai nº 31

Nuvens escuras
me roubam o sol
e choram suas escusas

Hai-kai nº 30

Cabelo pela testa
é calvície
que não tem pressa.

Hai-kai nº 29

Deitada no chão
tua sombra é só contraste
da minha tentação.

Hai-kai nº 28

A alegria
é só o defeito
da melancolia.

Hai-kai nº 27

Vivo com gosto
mas o que vale mesmo
é ser o meu oposto

Hai-kai nº 26

Para o vaidoso
o mundo se descortina
ruidoso

Hai-kai nº 25

Vivo acelerado
porque pode ser que a vida
tenha me abandonado

Hai-kai nº 24 (sem métrica)

Que medo me bota
essa vida que se comporta
como se fosse agiota

76 anos de Sagan

Hoje, se vivo fosse, Carl Sagan celebraria 76 anos de vida.

Não poderia deixar de escrever algo sobre a efeméride, e para saudar sua memória, digo que foi uma honra e um prazer, na imensidão do espaço e do tempo, dividir com suas ideias e memória uma mesma época.

sábado, 6 de novembro de 2010

Versinhos nada originais

O legal de entender estrelas
enxergar os mistérios do universo
ver a beleza das nebulosas
admirar os buracos negros
divisar as escalas fabulosas 
é entender o que é ser parte do cosmo
compreender que o poeta
que olha ao céu a esmo
é mais uma forma do universo
conhecer a si mesmo.

Balela

Acontece que eu não sou alegre
tampouco digo que sou triste
nada disso existe
é tudo balela! 
o que apoquenta e vale a pena dizer
é que sou poeta.

Insignificancias

Acasos impossíveis.
eu sou um grão de areia
derramado na imensidão oceânica do deserto
o ar livre é meu desabrigo
não sou como os outros
cada grão é único
a diferença é que vai comigo
o coração bem aberto.

Eu sou um grão de areia
perdido na imensidão do universo
é tanta que aborrece e me faz triste
porque meus dias me fazem vergar
afinal, todo grão sonha
e o meu sonho
é me encontrar com o mar.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Trovinhas nº1

Acho que é frescura mas nem comento...
Não passa por torneira sem antes lavar as mãos
Carne não pode ser vermelha, chocolate é talento
Não come sorvete e suspiro só se for de paixão.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Dia

Lá vai na mesma toada
o desafio do meu dia
desvelando-se no arquivo morto de minhas vaidades
o florescer imorredouro das minhas saudades.
Vai, vai mesmo
o desafio de todo meu dia
é sobreviver, ainda que vergando
à resistência claudicante da minha rebeldia
porque eu sou um, e ainda assim, sou bando
Como uma multidão
atrás de legitimidade e de nova intriga
vemos derrota na glória e odor na nostalgia
resistimos, aquecemos o inverno
vamos na mesma toada, esquecendo do moderno
lutando contra todo meu poder de transformação
É o desafio do meu dia
congelamos no inferno 
Fazemos revolução 
vai, vai mesmo, vai
corra por todos os caminhos
grite, mande avisar
que eu vou, eu vou levantar
e comigo vão todos os sonhos do mundo
vão-se as flores mortas do passado
e renascem em mim as toadas vivas
e o sorriso obstinadoÉ hora das caminhadas maiores
por onde ando de braços dados com todas as cores
atrás de vitórias, sonhos, derrotas e dias melhores
e os desafios incríveis do meu dia apressado.

sábado, 30 de outubro de 2010

Os Reds de Reed

É engraçado, e um pouco triste, assistir "Reds", de 1981. De um lado, o jornalismo nos bons tempos imediatamente anteriores à ditadura do "lead", da torpeza da objetividade que se vende como lei de ouro, e que não passa de brilho fulgaz de pirita a enganar os tolos, o jornalista e o jornalismo em estado de arte, militantes da transformação social do mundo. A vida de um ícone do jornalismo literário, o autor de "Dez dias que abalaram o mundo", John Reed. E também o florescer da Revolução Russa, a tomada do poder pela maioria de fato, a queda das oligarquias num primeiro momento, a chegada do tempo em que, acreditava-se, as rédeas dos destinos da humanidade seriam de todos, e que a igualdade seria um bem comum.

E de outro lado, o debacle inerente de todas essas coisas. O reconhecimento de que a União Soviética foi um imenso fracasso moral, social, político e principalmente humano. A convicção de que o jornalismo morre a cada manchete mal resolvida, a cada lapso, digamos assim, de golpismo, de truculência e de decadência luzídia.

Luzídia, sim, para nos lembrar que nem tudo que reluz é, de fato, ouro.

Bom filme. Bom filme.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Banners!

É bom mudar as vezes, como já dizia o sábio e embriagado Vanucci: "é hora de mudar... ou mudar de vez":






quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Books on the table

For a fistful of mercy.
I woke up this morning
and believe in a brigth new day
with all my smiles glowing
while I walk to my dreams
to figure out how am I growing?

O poema é ruim. Vocês queriam o quê? Agora é hora de Poems to fight back the baldness. Or boldness, whatever.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Rádio: Ennio Morricone - Ecstasy of Gold

Palavras para quê?

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Aforismos - Poetas

Trago esperança aos homens, não guardo nenhuma para mim mesmo.

Droit na vida

E quando eu nasci
um desses anjos de sombra,
veio e me disse:
tá aqui esse déizão,
vai na padaria,
me compra uma pinga,
cigarro da tabacaria,
e traz o resto em dadinho.

Arte

É a arte:

Como estragar um poema promissor nº 1

Entre as insustentáveis vagas
do oceano dos meus sonhos
onde uma gota é o todo,
onde a solidão corta como adagas,

eu vou me procurar entre os escolhos
que brotam à flor das águas
Nesse meu oceano de possibilidades
das minhas infinitas veredas
carrego meu caleidoscópio de saudades
onde estão a geometria da minha poesia
e a verdade em fé da minha heresia
que faz com que a realidade
seja só um desdobramento da minha vontade.

Bobajada feita para rimar e não fazer sentido

Vai tudo ao inverso.
Sobretudo o verso
que devia ter sido,
e que anda esquecido.
Tudo ao contrário
o céu é um calvário!

Conheço os teus dias

Eu fico aqui e vejo
meu amor longe,
de braços dados com o futuro.
Correndo pela vida, fugindo.
Deixando-me um dia obscuro,
onde tudo que reluzia vai sumindo...

Eu conheço teus dias
já estive neles escorrendo
fazendo de tudo coração
distorcendo a realidade
enquanto ia te morrendo
procurando nas tuas lágrimas
as minhas alegrias
e fazendo dos teus risos
o meu desalento.

Cresça!

... e são duas coisas muito diferentes, o estudar e o aprender... quem só estuda, decora, bitola-se, fica reduzindo perspectivas para encaixá-las nas suas formas reducionistas de ver o mundo... quem aprende, instiga, caminha, aprofunda-se e descobre quão maravilhoso pode alguém vir a ser depois da jornada do auto-conhecimento.

Aforismo - Das generalizações

Uma das frases mais recorrentes e interessantes do nosso conversar habitual é "não há regra sem exceção". Mas dizê-lo é, forçosamente, estabelecer a regra de que sempre haverá uma exceção para qualquer mandamento. Se é assim, o próprio "não há regra sem exceção" deve ter a sua, não? Mas o interessante é pensar o inverso*:

"Não há exceção sem regra" - Millôr Fernandes.

* Aliás, a capacidade de subverter ordens, como essa, e de dissociar ideias - não de associar - segundo o filósofo espanhol Ortega y Gasset em seu livro "Rebelião das Massas", é a verdadeira característica que distingue o ser mais bem acabado e mais inteligente que os demais. É, sei o mal estar que você está sentido, são poucos os capazes disso. Muito poucos.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Comemore quando pode

Não é nada, não é nada, mas isso aqui é uma pequena vitória pessoal.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Plantar um livro, ter a árvore e escrever o filho

Gostaria de anunciar aos meus oito leitores que estou depurando meu lastimável conteúdo, se é que tenho, de modo a separar o joiô da bosta e poder, enfim, publicar mais um livro, que não há de fazer mal a ninguém.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Rádio: Cartola - Preciso me Encontrar

Rir pra não chorar:

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Rádio: Buffalo Springfield - For What's Worth

Ninguém está certo se todo mundo está errado:

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Poeminha da diretriz

Eu vou tomar o rumo
descer pelas estradas
atrás de paz e um pouco de certezas
eu vou de peito aberto às geadas
e cabeça fechada às belezas.

Poesia euclidiana

Eu vou sobrepor no peito
uma nova geometria euclidiana
e vou derivar sentimentos ortogonais
às minhas razões sem arestas
e desenhar polígonos com Quintana
cheio de catetos proporcionais
nos prolongamentos agudos
das minhas dimensões irracionais.
Dos meus vértices traço novas veredas
esterço no peito os limites das superfícies
vivo num ângulo oblíquo atrás do conflito
de duas paralelas que se acham antes do infinito

Perpendicular a tudo vou medindo
tangente ao real e às convenções,
sou o impossível euclidiano
frente ao passado que se turva
os pontos que se medem, as linhas que vergam
dois pontos distintos que definem uma curva.

Vou me exilar

Hipócritas de todas as cores rodam a baiana e sobem nas tamancas por conta do Estado brasileiro firmar relações diplomáticas com o Estado iraniano. E, ao mesmo tempo, querem fazer do Brasil um império fundamentalista da Opus Dei. Estamos fodidos.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Rádio: Bill Callahan - Jim Cain

Lembra demais, até no timbre de voz, Willard Grant Conspiracy. E é tão bom quanto:

terça-feira, 12 de outubro de 2010

O dia em que cresci

Mulheres. Assunto espinhoso. Dava para compor um novo blogue, uma antologia, uma enciclopédia e muito mais material condensando algumas observações e ponderações que tenho a fazer sobre o coletivo das mulheres. Não sobre uma em específico, mas todas elas. Aforismos e lições colhidas ao longo de 25 anos nem sempre muito bem vividos.

Não vou longe, no entanto, porque dita o bom senso na internet que postagens sejam breves. Sobre as mulheres, das muitas verdades que se sabe sobre o tema, uma das inescapáveis é a de que chega um momento na vida em que, respirando fundo, você, sobranceiro, pode afiançar para seus pares que, com todo orgulho, depois de muito sangue, suor e lágrimas investidos, sim, você sabe alguma coisa sobre elas. E, via de regra, passa pouco tempo e você percebe que, não, não sabia porra nenhuma.

Quando você era adolescente, crescia e se derretia por ebulição hormonal ao vê-las, elas sabiam. Quando se apaixonava e não sabia o que fazer sobre, elas sabiam. Quando olhava, elas sabiam. Quando estava nervoso, tímido, elas sabiam. As mulheres desde cedo se vestem privilegiando as curvas, os volumes. Elas se exibiam. A mais gostosa do colégio sabe que é a mais gostosa. Percebe rapidamente que tem um equipamento que a distingue das demais, que a faz cobiçada. Elas provocam, seduzem e instigam unica e exclusivamente pelo gosto de se sentirem desejadas. É um imperativo biológico assustador. E cruel, porque não tem jeito, elas não vão dar. E que persiste por toda a vida. Talvez não toda, mas eu não entendo nada de menopausa. Ainda.

Dada certa altura da vida você se dá conta que mulheres são fáceis. São seres confusos, comandados por instintos de auto-preservação cruéis, manipuladores e profundamente egoístas. Você percebe, com todo o contexto, que elas sempre foram assim. Enquanto você saía para encher a cara, ver futebol ou conversar sobre assuntos correlatos com os camaradas, as mulheres consumiam o tempo e o fosfato pensando em você, avaliando, calculando, definindo, projetando. Amadurecendo. A grande lição da dita guerra dos sexos é perceber, que elas sempre estão um passo à frente e que o homem se resume numa desesperada e inócua tentativa de empate.

No fim das contas nunca importava o que decidiam, planejavam, calculavam ou definiam, coisa que o tempo também ensina. Aliás, são sempre as mulheres que decidem as coisas. O mito de sexo frágil, de que pequenas mulheres inofensivas e assustadas caminham pela Terra em busca do amor e do príncipe encantado é, desde sempre, uma enorme mentira, o embuste da humanidade, criado por grandes, destemidas, poderosas e cruéis mulheres que, secretamente, governam o mundo.

Pouco importa, dizia, o que vinham a planejar, decidir ou fazer as mulheres. No fim das contas, a gente acabava sempre abandonado, esquecido, amargurado, num pântano, atolados aos pescoços num lodaçal de solidão, rancor, ressentimento, poesias e porres homéricos.

P.S.: Poesias no meu caso (embora, como se saiba, eu esteja longe de me presumir poeta), que sempre foi outro mal costume que adquiri muito cedo na vida, como dormir tarde, beber café e gostar de Elvis Presley.

sábado, 9 de outubro de 2010

Rádio: Mark Lanegan - Field Songs

"I spent my days loving you...

 

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Rádio: The Rolling Stones - You Got Me Rocking

Eles são melhores que os Beatles.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Nada demais

Eu me lembro
porque eu sonho
eu me esqueço
porque eu acordo
Eu sou porque eu mereço
eu vivo porque me transbordo

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

20% de deslumbrados mal informados

Eu me pergunto se o pessoal "cool", moderinho e descolado, que votou em Marina Silva sabe que ela crê que o mundo e o cosmos veio de seis dias de trabalho de deus. Se sabem que ela é contra a pesquisa com células-tronco e que três projetos que estão na câmara, todos contra o aborto, são de autoria de deputados do PV.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Para não dizer que parei

Vou-me
dar
um
poema
ruim
e sem
tema
com 
uma
palavra
por
verso
e
toneladas
de
confissões
de
que
esperto
faço
teorema

Aforismos - Vida saudável

Em ordem absolutamente proporcional, tenho notado que tanto quanto mais eu fico saudável, maior vai me ficando o interesse por comida gordurosa, alcool e relacionamento sério. Todas coisas que fazem mal.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Não tem jeito

E, pensando no assunto agora, de fato, parece que Saramago morreu mesmo.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Plínio, o senhor bizarro

Que o vociferante octagenário, dado a delírios e arroubos de um tempo que desmoronou nos muros que segregavam as Alemanhas, se converta em voto de protesto de quem cansou, eu compreendo. Deboche é uma forma muito sagaz e meritória de protesto. É aquela que, no caso dos pleitos, chama ainda mais desgraças sobre a cabeça de todos em puro desespero de causa, patrocinado pelo fastio do vazio das ideias, a morte das ideologias e dos candidatos pasteurizados. De todo coração, é compreensível. Num mundo onde começa a chover bosta, pode-se sim de tudo.

O que não dá para entender é quem encontre mérito nos delírios ululantes do cidadão que, arvora para si, a glória de ser o campeão das esquerdas, único e pleno candidado capaz e competente de mudar qualquer coisa por aí que não esteja nos trilhos. Ou que se esteja no trilho das minorias muito bem ajambradas dessa terra ensolarada, tratar de descarilá-las.

Filho de barão do café, formado em Direito pela, sobretudo naqueles tempo, restrita Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, Plínio é o candidato que brande o orgulho proletário, sem nunca tê-lo sido. É o cidadão que jura que difere-se dos outros, que tem pavor das doutrinas neoliberais, mas que foi secretário do Banco Interamericano de Desenvolvimento. É o sujeito de delírios socialistas extremos, o anti-burguês (vai hífen nisso?) por excelência, e que tem o maior patrimônio declarado entre todos os outros candidatos à presidência: 2,1 milhões de reais. É o que adora pregar na testa dos outros a pecha de capitalista e burguês, fazendo isso esgrimindo uma arrogância extremamente mordaz, como se fosse ele o árbitro que regula os rótulos de todos, esquecendo do seu telhado de vidro.

Plínio não se desfaz do seu quinhão da capitalismo - queremos crer, todos sacáveis e aplicáveis nas melhores casas do ramo - um contraste bastante curioso em face às espartanas convicções que advoga e à campanha que mobiliza. É o líder das esquerdas, o depositário de todas as tradições socialistas, devidamente incrustado na redoma milionária, sua humilde casa, donde observa o mundo e traça planos de todo poder aos proletários, que ele parece ter conhecido à mesma distância daqueles que, mais uma vez, faz questão de rotular. Plínio de Arruda Sampaio, roam-se seus sequazes, é tão burguês como José Serra. E não há o que dizer sobre isso.

Sou mais um proletário de fato de que um proletário wanna-be.

A mim as incongruências de análise e de proposição são, no máximo, furibundas. Plínio não pode nada não porque não será eleito. Não pode nada porque está no tempo e espaço errados, no contexto onde seus devaneios já não falam mais à ninguém. Não pode porque discursa para meia-dúzia de românticos, que suspiram ao lembrar da Cortina de Ferro e a quem Stalin não era tão mal sujeito assim. Àqueles que liberdade de imprensa e de expressão são conceitos diferentes - e ainda, assim passíveis de interpretação, conforme agradar. Plínio é candidato de uma gente facilmente conquistável com o deboche e a necessidade de rupturas, de quem canalisa energia demais achando que o mérito das coisas está no quão inovadoras e diferentes possam ser, sem necessariamente serem boas. Plínio é uma besta, joga para a torcida, conquista aí seu espaço e nisso, tiremos o chapéu, porque o ancião se mostra bastante competente.

Plínio, no fim das contas, é só um burguês que mora num apartamento de milionário, e que tem aplicação de 1,7 milhão de reais no Credit Suisse (banco suíço. A Suíça, como se sabe, é execrada por todos os socialistas que se prezem) e que virou político por falta de quê fazer. Foi chefe da Casa Civil de Carvalho Pinto, governador de São Paulo no começo da década de 1960, uma espécie de Alckmin ainda mais conservador. Plínio, com idas e vindas, pulou o muro, descambou para a esquerda ainda nos anos 1960 e nunca mais acordou. O mundo girou e hoje ele é candidato que caiu do céu em um partido irrisório, que apesar de toda a coqueluche no Twitter, sofre para somar 1% nas pesquisas.

Plínio é só um chuvisco de risadas e de protesto vazio e inocente, caído do céu onde ele, ex-democrata-cristão, crê que habita um deus. Plínio só prova que nem tudo que cai do céu é anjo. Nesses doidos e doídos tempos que correm, tudo que das excelsas atitudes calha em descer, como tem se visto, é bosta.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O rúgbi brasileiro assombra o mundo

Publicidade bem feita não é exatamente coisa que se veja todos os dias, portanto, nada mais justo que indicar três peças absolutamente geniais:

   
Mais um:
   
E outro:

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Berlusconi, o conselheiro amoroso

Berlusconi, premiê italiano é uma figuraça. Um escroque de marca maior, um grandíssimo filho-da-puta, um bon vivant na política, dirão. E estarão todos certos. Berlusconi é uma canalha. Escroto, não há dúvidas, mas é um mafioso à moda antiga, daqueles que em bons filmes do gênero nos arrancam simpatias envergonhadas. E Berlusconi, com todos esses méritos e deméritos, se enraizou no poder pelos lados da Bota.

E hoje pinga no rss que o diguiníssimo chefe de governo italiano declarou que as jovens mulheres deveriam procurar homens ricos como ele, como via para se atingir à felicidade.

Se por lá estivesse, tascaria-lhe um tapinha nas costas e diria "elas já fazem isso, meu campeão".

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Sobrevivamos

Um cidadão estatelou-se do 39º andar em Nova Iorque. E sobreviveu. Ainda não se sabe se o sujeito caiu ou deixou-se de lá cair, embora a segunda hipótese demonstre-se bastante mais fiável, tendo-se em vista que o rapaz tomou o cuidado de registrar em seu perfil no Facebook que "minha vida acabou".

Salvo escoriações, colapso pulmonar, calcanhar esmigalhado e outras tristezas de menor monta, o rapaz sobreviveu e, até onde vão os informes, goza de estável condição em algum hospital da cidade da Maçã - apelido que nucna logrei entender de onde veio e que é a alcunha vinculada a Nova Iorque. Enfim.

O rapaz caiu 128 metros e esborrachou-se a não mais poder num Dodge Chaser - automóvel bonito que não teve a mesma sorte do projétil que lhe arrebentou os vidros traseiros e para o qual eu encontro cinismo que chegue para lamentar.

Seguramente o que salvou o rapaz, ou prolongou seu sofrimento na Terra, tudo uma questão de ponto de vista, foi o amortecimento que o veículo proporcionou, dado o ângulo da queda, o rapaz caiu nos vidros e acentos traseiros.

Mas no entender do proprietário do veículo, Guy McCormack, nada disso. A sobrevivência do cidadão é tudo uma conspiração divina, patrocinada pelo rosário que este carregava no automóvel. Um amontoado de contas de plástico dispostas em forma de cordão, pois, salva vidas. Claro que nem todas, só a de iluminados, ou escolhidos por esse deus assaz justo, a quem apraz condenar alguns portadores de rosário à morte, suícidas ou não, e outros portadores do mesmo dispositivo de segurança, não.

Nem passa pela cabeça de McCormack, por exemplo, que não são poucas as crianças que morrem de fome (muitas no mesmo momento do acidente), com ou sem rosário, e que àquelas que se apegaram em um, faltou a onisciência e a boa vontade do deus que investe de poder de vida e morte em pedaços de plástico, que fosse lá, milagrosamente, lhes dar sustância para suportar a vida.

Também escapa à mente que busca padrões em tudo, que busca sentido onde não há, compreender que, no fim, Thomas Magill, o acidentado, sobreviveu sim por milagre. Milagre físico, geométrico. Chances e probabilidades. Golpe de sorte.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Rádio: Mark Lanegan - When Your Number Isn't Up

Eu estava lá.