segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Plínio, o senhor bizarro

Que o vociferante octagenário, dado a delírios e arroubos de um tempo que desmoronou nos muros que segregavam as Alemanhas, se converta em voto de protesto de quem cansou, eu compreendo. Deboche é uma forma muito sagaz e meritória de protesto. É aquela que, no caso dos pleitos, chama ainda mais desgraças sobre a cabeça de todos em puro desespero de causa, patrocinado pelo fastio do vazio das ideias, a morte das ideologias e dos candidatos pasteurizados. De todo coração, é compreensível. Num mundo onde começa a chover bosta, pode-se sim de tudo.

O que não dá para entender é quem encontre mérito nos delírios ululantes do cidadão que, arvora para si, a glória de ser o campeão das esquerdas, único e pleno candidado capaz e competente de mudar qualquer coisa por aí que não esteja nos trilhos. Ou que se esteja no trilho das minorias muito bem ajambradas dessa terra ensolarada, tratar de descarilá-las.

Filho de barão do café, formado em Direito pela, sobretudo naqueles tempo, restrita Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, Plínio é o candidato que brande o orgulho proletário, sem nunca tê-lo sido. É o cidadão que jura que difere-se dos outros, que tem pavor das doutrinas neoliberais, mas que foi secretário do Banco Interamericano de Desenvolvimento. É o sujeito de delírios socialistas extremos, o anti-burguês (vai hífen nisso?) por excelência, e que tem o maior patrimônio declarado entre todos os outros candidatos à presidência: 2,1 milhões de reais. É o que adora pregar na testa dos outros a pecha de capitalista e burguês, fazendo isso esgrimindo uma arrogância extremamente mordaz, como se fosse ele o árbitro que regula os rótulos de todos, esquecendo do seu telhado de vidro.

Plínio não se desfaz do seu quinhão da capitalismo - queremos crer, todos sacáveis e aplicáveis nas melhores casas do ramo - um contraste bastante curioso em face às espartanas convicções que advoga e à campanha que mobiliza. É o líder das esquerdas, o depositário de todas as tradições socialistas, devidamente incrustado na redoma milionária, sua humilde casa, donde observa o mundo e traça planos de todo poder aos proletários, que ele parece ter conhecido à mesma distância daqueles que, mais uma vez, faz questão de rotular. Plínio de Arruda Sampaio, roam-se seus sequazes, é tão burguês como José Serra. E não há o que dizer sobre isso.

Sou mais um proletário de fato de que um proletário wanna-be.

A mim as incongruências de análise e de proposição são, no máximo, furibundas. Plínio não pode nada não porque não será eleito. Não pode nada porque está no tempo e espaço errados, no contexto onde seus devaneios já não falam mais à ninguém. Não pode porque discursa para meia-dúzia de românticos, que suspiram ao lembrar da Cortina de Ferro e a quem Stalin não era tão mal sujeito assim. Àqueles que liberdade de imprensa e de expressão são conceitos diferentes - e ainda, assim passíveis de interpretação, conforme agradar. Plínio é candidato de uma gente facilmente conquistável com o deboche e a necessidade de rupturas, de quem canalisa energia demais achando que o mérito das coisas está no quão inovadoras e diferentes possam ser, sem necessariamente serem boas. Plínio é uma besta, joga para a torcida, conquista aí seu espaço e nisso, tiremos o chapéu, porque o ancião se mostra bastante competente.

Plínio, no fim das contas, é só um burguês que mora num apartamento de milionário, e que tem aplicação de 1,7 milhão de reais no Credit Suisse (banco suíço. A Suíça, como se sabe, é execrada por todos os socialistas que se prezem) e que virou político por falta de quê fazer. Foi chefe da Casa Civil de Carvalho Pinto, governador de São Paulo no começo da década de 1960, uma espécie de Alckmin ainda mais conservador. Plínio, com idas e vindas, pulou o muro, descambou para a esquerda ainda nos anos 1960 e nunca mais acordou. O mundo girou e hoje ele é candidato que caiu do céu em um partido irrisório, que apesar de toda a coqueluche no Twitter, sofre para somar 1% nas pesquisas.

Plínio é só um chuvisco de risadas e de protesto vazio e inocente, caído do céu onde ele, ex-democrata-cristão, crê que habita um deus. Plínio só prova que nem tudo que cai do céu é anjo. Nesses doidos e doídos tempos que correm, tudo que das excelsas atitudes calha em descer, como tem se visto, é bosta.

1 comentários:

*por p. disse...

quanto á regra gramatical eu nem aprendi a nova correção, então eu acho que assim tá certo "anti-burguês". hahaha

quanto á regra política, fazendo antítese á famigerada frase do mais novo candidato "pior que tá, fica!" e tem gente se esforçando pra isso.

concordo, tá chovendo bosta. aí eu fico naquela: votar ou anular? eis a questão...

quando eu for rainha do Brasil tudo isso vai acabar. rs