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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Cartas a meu pai

Das muitas coisas que não te perguntei, colocaria, em evidência, talvez, o passado. Onde repousam as histórias e experiências cativantes que edificam o futuro de todos nós. Me faltou maior ciência dessas experiências. A falta desse arcabouço de situações poderia, talvez, me desviar de algumas escolhas ruins que fiz e pelas quais pago o preço. De resto, a maior confidência nos faria mais próximos, e isso é coisa que venho lamentando há exatos oito anos. A distância que se construiu em sucessivas desistências.

Mas longe de mim dizer que aprendi alguma coisa com a experiência. Em maior ou menor escala, venho repetindo o mesmo tipo de distanciamento, incapaz de evitá-lo, com pessoas de mesma importância na minha vida. A mesma indulgência com relação a pequenos momentos e gestos que tive antes, tenho hoje, com o agravante de, mais experiente, ser mais uma vez incapaz de mudar o rumo das minhas inconstâncias e fraquezas.

Há um universo de decepções inexploradas para se viver. O pior não é, então, vivê-las, porque inevitáveis, mas antevê-las, prevê-las, presumi-las, supô-las e não ser capaz de fazer nada para evitá-las é que é o busílis. Poderia ser covarde e, mais uma vez, apelar para os erros do passado, dizendo que eu não tinha culpa, era muito criança, e o que moldei em mim naqueles tempos onde podia me esculpir foi isso, e diante do destino, faço que posso.

Mas o destino talvez seja o caminho, só isso. O fim, os fins, são tudo questão de ponto de vista. Nada é absoluto para quem ainda vive. Tudo é precário, temporário e mesmo essas ausências, as perguntas não feitas, os conselhos não dados e tudo que não foi compartilhado e se calou no seio imorredouro do último suspiro, estejam aí só para testemunhar a falência de qualquer vã pretensão íntima de, enfim, dizer: sou feliz.