O menino tinha em si algo de inusitado. Era distinto dos demais meninos que pululam nas ruas, atrás de migalhas, de atenção. Aquele ali tinha olhar de menino. Os outros, normalmente curtidos de sol e da corrosão do ar da cidade, tem olhar de homens.
Era questão de tempo para que seu olhar viesse de encontro ao meu. E eram olhos rasgados na face, cobertos de remela. Sujo de um todo, cabelos encrespados, sebosos de sujeira. Roupas rasgadas, chinelo com a espessura de uma folha de papel. Dedos encardidos, unhas enormes, gastas da maneira que os roedores fazem porque não sabem cortá-las com um unhex, e as desbastam em pedras. Esse menino arranhava as paredes.
Não de pavor declarado. Um pavor surdo, melancólico, um grito sem voz que ecoa nas cidades. Unhas gastas, roupas fedidas. E muita fome no estômago vieram até mim.
Julguei que pediria trocados. E eu sempre dou o que tenho em matéria de moedas. E mesmo assim me sinto mal. Porque me volta aquela parábola bíblica que diz que, afinal, eu dei o que me sobrava. Há quem dê tudo que tem. E eu me sinto mal, porque sei que minha ajuda é uma cosquinha no colosso de maldade, injustiça, crueldade e desgraça que compõe esse caleidoscópio de pedra em que vem se tornando o coração humano.
Enquanto inquietava meu espírito com as injustiças abissais que impedem esse garoto de gozar a vida. De ser um médico, um grande cientista. De descobrir uma nova tecnologia, de revolucionar a vida humana. De ser um grande campeão, que encantará multidões e as fará acreditar que determinação vale à pena. Que o impede de fazer poesia e arrancar lágrimas das pessoas me dei conta de que, mais injusto ainda, é que a dureza da vida que leva não sensibilize a todos como a mim. Não sou dono de coração mais puro que meu próximo, mas certamente tenho direito de me chocar e me acabrunhar por quem passa por esse menino como se fosse ele outro escolho, outra pedra no oceano de pessoas que ondulam por essas terras.
Eu pensava nas minhas burras e temia estar desprevinido. Pior do que o mal estar de ter dado uns mangos é o de não ter dado nenhum, porque o que tenho, não é lá muito, sou jovem afinal, está encarcerado no banco. Acontecia que devia ter ali uma provisão de uns cinco dinheiros e que daria todos, sem remorso por tê-los dado, mas com o inevitável abalo subsequente de não ter dado ainda mais.
O menino ia articular uma palavra. Diria "tio, tem uns trocados?", se estenderia descrevendo a situação da vida que leva. E eu diria, "relaxa, tenho sim". Daria o dinheiro, o menino saíria me abençoando e eu, hipócritamente diria a mim mesmo, na solidão dos travesseiros do fim da noite, que fiz uma boa ação no dia.
Mas não foi o que aconteceu. O menino, olhando-me da calçada, não pediu dinheiro. Do alto dos seus, talvez, oito anos, contemplou o gramado, o jardim, o carro novo da família reluzente na garagem. Pude ler seus pensamentos, julguei. Talvez ele estivesse ali para furtar, estudava o ambiente e eu o surpreendera, daí a ter ficado sem palavras.
Mas a suspeita reacionária do parágrafo anterior se mostrou completamente vazia e própria de um hipócrita como eu. Disse o menino: "tio, você tem um trabalho pra mim? Corto a grama pra você".
Eu engoli a lágrima.
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
O menino
às 00:38 1 comentários Marcadores: Memórias
domingo, 30 de agosto de 2009
Raikkonen: I don't care about It
Comecei a simpatizar com Raikkonen logo que o finlandês, depois de um excelente ano de estreia na Sauber em 2001, assumiu a vaga deixada por Mika Hakkinen na McLaren e, daí em diante, teve um desempenho cada vez mais forte e consistente, chegando a vices campeonatos em 2003 e 2005. Perdeu ambos para Schumacher e Alonso, respectivamente. E foi sentir o gosto do título mundial em 2007, no primeiro ano de Ferrari, numa recuperação sensacional depois que a dupla prateada fazer questão de perder o campeonato mundial de pilotos. O torneio de construtores a McLaren se encarregou de, sozinha, perdê-lo ao espionar a rival Ferrari.
Paralelamente à competência nas pistas o jeitão de Raikkonen "I don't care" foi se tornando uma marca especial do piloto. A ligação, digamos, mais liberal em relação a vodka também faz de Raikkonen uma criatura simpática, mais humana, nesse ambiente tão robotizado da F1 - lembra, em certa medida, clássicos jogadores do futebol brasileiro, que passavam a noite na balada e, noutro dia, tinham gás para entrar em campo e marcar gols e vencer campeonatos. Passível a vícios e a uma personalidade própria, única, assim é Raikkonen. E é por isso que simpatizo com o finlandês campeão mundial de 2007, ali você vê mais que um piloto excelente, você vê um "cara". Em resumo, Kimi é legal porque não é bitolado no politicamente correto. Ele não se considera um exemplo pras criancinhas do mundo, não se acha um heroi. Pelo contrário, é um cara normal que disputa a F1.
Neste sábado perguntaram a Kimi sobre seu futuro. E ele disse que não está muito preocupado com o assunto. Considerando que muito se fala que provavelmente ele será preterido pela Ferrari na temporada 2010 em favor de Fernando Alonso, não é o tipo de resposta que normalmente se ouve de um piloto de ponta preocupado em manter-se em carros competitivos. Kimi provavelmente terá uma vaga, e dificilmente uma ruim, no grid do ano que vem. Seu currículo e recente fase na Ferrari o gabaritam a isso. O interessante é que ele tenha essa consciência, ou ainda que não tenha, ser capaz de passar esse ar "tô nem aí". Fosse outro piloto, diria os bordões do costume nessas ocasiões: "estou focado na Ferrari", "tenho contrato com a Ferrari até o fim do ano que vem", ou "converso com algumas equipes e busco uma vaga competitiva para o próximo ano". Kimi não. Remata tudo num "I don't care about It".
Para quem não conhece o estilo relax do finlandês, aqui vai uma amostra em vídeo. Todo ano a Globo prepara papagaiadas incessantes no GP do Brasil. Em 2006, naquela que é, até o momento, a última corrida de Schumacher, chamaram Pelé para homenagear o alemão. Raikkonen não estava muito interessado:
Outro momento marcante de Kimi aconteceu na segunda etapa do campeonato deste ano, na Malásia. Caia, lá fora, o maior dos pés d'águas já vistos, um dilúvio. Enquanto todos se perguntavam sobre a continuidade da corrida, naquele momento com boas possibilidades de recomeçar, Raikkonen já estava de bermuda nos boxes com um picolé e uma coca-cola:
às 02:28 0 comentários Marcadores: Fórmula 1
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
Aforismos - Grana
Felicidade é descobrir que você pode ganhar dinheiro com o que você já faz de graça.
às 00:04 0 comentários Marcadores: Aforismos
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
Nostalgia
E naqueles tempos eu me ocupava com computadores, deslumbres de programação nos ditos cujos (uma vez eu criei um editor de textos no Delphi. E fiz um novo Paint, mas por algum motivo meu Paint não salvava as imagens em jpg. E quando o fazia, elas não abriam em nenhum outro lugar no universo. Bizarro). Criei uma plataforma para lançamento de vírus de computadores, que batizei de CRULL99 não lembro por quê, cheguei a criar alguns vírus bem rústicos e inofensivos. Eu me divertia dando risada das pessoas que ficavam sobressaltadas com as mensagens que apareciam na tela, ou a bandeja do cd abrindo e fechando, sem mais, nem menos.
Como tudo daquela fase, excluindo a literatura, um dia encheu o saco. Parei de andar na contra-mão, também, nos rumos da tecnologia e me conformei com a condição de consumidor passivo das diversas estripulias informáticas e tecnológicas que se produz dia a dia. Deixei de tentar entender e me imaginar produzindo essas coisas. É mais divertido viver a vida.
Naqueles idos era eu um feliz proprietário e usuário de um Play Station, o 1, da Sony, que revolucionou o mercado de games e consoles em 1995. Aliás, ainda sou proprietário do aparelho, o mesmo, que já conta 14 anos de serviços prestados à família - quando ganhei de Natal em 1995 era o terceiro da cidade. Eu era um heroi, o fodão, o cara do Play Station. Houve um evento social quando terminei o Resident Evil, muita gente para assistir o final - lembro que fiquei um pouco assustado, entretanto, quando ganhei o video-game. Porra, era com cd! E da Sony, esses caras fazem walk-man, não video-games! Achei que minha mãe comprou um meia-boca, coisa barata e ruim, nunca confessei isso até hoje. Naquela época, marca de video-game eram Sega e Nintendo. Entretanto, embora parte da família há tanto tempo, pelo que lembro, não é ligado há uns três anos. Preciso verificar e ver se ainda funciona...
Não considero meu interesse por jogos eletrônicos um resquício da minha adolescência nerd. Antes de ser adolescente, e nerd, eu já consumia jogos. De todos os tipos e variações. Mas sempre tive uma queda maior por jogos de tiro, preferencialmente ambientados na Segunda Guerra, e de corrida.
E agora há pouco, tropecei num marco da minha relação com jogos, música e automobilismo. Encontrei no YouTube a apresentação do Nascar 99. Nascar, para quem não sabe, é uma categoria de turismo dos EUA, uma coisa meio caipira, muito, mas muito, norte-americana. Turismo? Significa que correm com carros que, ao menos externamente, parecem com os seus pares de rua. Significa que não são "open-wheel" (as rodas não ficam expostas), como são os monopostos da F1, F-Indy e por aí a fora. Parece complexo, mas não é.
Eu conhecia, na época, há 10 anos atrás, apenas o que a TV aberta me permitia de corridas de automóvel, que na época consistiam em F1, CART e a IRL, que corria só em oval com aqueles carros escrotos de feiosos e inseguros. Sempre morria um cara por ano, ou se estropiava a valer em algum muro. Em 1999, aliás, na CART, morreram dois. O canadense Greg Moore nas 500 Milhas de Fontana, última prova do campeonato, tinha contrato assinado com a poderosa Penske no ano seguinte, que seria campeã com Gil de Ferran em 2001, e brigaria já em 2000 seriamente pelo campeonato. E Moore era um cara promissor. O outro que deixou a vida na CART naquele ano foi o uruguaio Gonzalo Rodrigues, provavelmente o único piloto uruguaio de todos os tempos. E o curioso é que, ainda assim, a IRL era umas 100 vezes mais perigosa que a CART que, não obstante, matou dois em 1999.
Mas da Nascar eu conhecia pouco. Um filme chamado "Dias de Trovão" (link para o filme completo, dublado, no YouTube) fora o primeiro contato com a categoria. Filme que, do alto dos meus 10 anos, eu achei o máximo. Ele traz uma temporada da Nascar, e tem Robert Duvall, Nicole Kidman e Tom Cruise. Mas, hoje, com a falta de graça que a gente adquire com o passar do tempo, tenho certeza de que o filme é, realmente, uma grandíssima porcaria.
Foi o jogo, Nascar 99, que me apresentou de maneira mais definitiva à Nascar e a George Thorogood. A Nascar não faz tanto parte de minha vida, mas eu acho simpática. Eu gosto muito de automóvel. E de corridas, então, gosto de Nascar. Meio que por osmose até.
Já Thorogood nunca mais saiu do som - nem os jogos, conforme citei. Depois George não saiu do(s) PC(s) com o mp3 que ainda florescia nas suaves ondulações da internet a 56k daqueles idos - cara, eu usei Napster, e a gente precisava baixar codec pra ouvir música em mp3. Aí vieram o disc-man, o celular que tocava música. O mp3 player. E hoje, o iPod. Um dos poucos caras que nunca saiu da minha vida com a música foi ele, George Thorogood & The Destroyers. E por isso, depois de 10 anos de estrada e de muitas idas e vindas embaladas no som do blues e do rock do George, só posso é agradecê-lo.
Tudo isso porque hoje, ao empacotar a mudança, encontrei, perdido, o cd do Nascar 99 e, me atacou furiosamente uma nostalgia de 10 anos atrás. Um "poxa", quanto tempo, quanta coisa mudou, quem eu achava que era, que seria, quem eu sou hoje, quem eu hoje sei que fui, o que eu era. Tudo que sou, hoje, se construiu também nas intermináveis corridas em Daytona, ou ouvindo "Get a Haircut" do Thorogood nos anos seguintes. Aí fui buscar no YouTube algum vídeo, porque fiquei com preguiça de instalar todo o vide-game para isso, para reviver o jogo. E, de mais a mais, se não procurasse no YouTube, esse post não seria. Porque não há a menor graça em falar tudo isso e não mostrar o jogo e a música, afinal de contas.
Eu perdi muitas, mas muitas, horas nesse jogo. E ganhei outras tantas ao ouvir o Thorogood.
Se também bateu aí alguma nostalgia, você pode baixar o jogo aqui e emulá-lo (exise emulá-lo?) no seu PC.
às 15:07 0 comentários Marcadores: Fórmula 1, Memórias
Copyleft, mermão!
O YouTube não sabe brincar. Por questão de direitos autorais, mais uma vez, tiraram do ar o curta citado dois posts abaixo.
Desisto.
às 14:27 0 comentários Marcadores: Atualidades
Rádio: Elbow - Grounds for Divorce
Elbow foi uma recente descoberta, deveras interessante, que cá vai positivamente recomendada ao distinto leitor. Vem a ser uma banda inglesa, com uma pegada parecida com Coldplay, só que muito melhor - na minha opinião. A canção abaixo chama-se "Grounds for Divorce", e conheci graças ao teaser da próxima temporada de House, que deve estrear em 21 de setembro.
às 01:59 0 comentários Marcadores: Rádio blogue
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
O assassino terrivelmente lento com a arma extremamente ineficiente II
Coisa de um mês atrás sugeri aos caros leitores um curta-metragem. "O Assassino Terrivelmente Lento com a Arma Extremamente Ineficiente". Acontecia, no entanto, que o YouTube excluíra o vídeo por conta de reclamações de direitos autorais.
Alheio a tudo isso, alguém fez o favor de disponibilizar novamente o material na internet. E assim, eis-me aqui, finalmente, postando o vídeo, que continua, a despeito do tempo passado, altamente recomendado e engraçado:
às 22:44 0 comentários Marcadores: Cinema, Cultura
terça-feira, 25 de agosto de 2009
Rádio: Mark Lanegan - Low (Skeleton Low)
às 00:14 1 comentários Marcadores: Rádio blogue
domingo, 23 de agosto de 2009
O milagre da descoberta
E eu que achava que para um doce, feito de amendoim, ficar tão macio, salgado e doce, ao mesmo tempo, havia inúmeras reviravoltas e perversões químicas...
Ah, a descoberta.
às 00:42 0 comentários Marcadores: Memórias
sábado, 22 de agosto de 2009
O homem dos dois nomes e o meu Todos os Nomes
Waldomiro. Ou Ladislau. Dois nomes, duas distinções, duas classes, duas vidas. Um homem.
Waldomiro, ou Ladio, ou formalmente, Ladislau, foi caminhoneiro. Nascido numa pequena e interiorana cidade paranaense no ano de 1926, trata-se de um descendente de imigrantes austríacos, segundo ele diz há coisa de uns dois anos.
Acreditava-se, e aí nesse bojo incluem-se nove filhos, incontáveis netos pela literatura preguiçosa deste que vos escreve e um bisneto, que era, entretanto, o Homem dos Dois Nomes descendente de ucranianos.
É um mestre de contradições, poderia vir alguém a concluir a partir do momento que sabe que o homem tem dois nomes e ainda soube enganar a família por décadas a respeito de suas próprias origens. Nem tanto, a questão da descendência não foi um logro proposital. Segundo Waldomiro, ou Ladislau, acontece que ninguém nunca o perguntou de onde vinham seus antepassados, se dos montes do Tirol, ou pra lá dos Urais, naquele enorme descampado fértil que chamam de Ucrânia.
É valido ressaltar, de toda forma, que o pai de Ladislau era ucraniano e vinha ao Brasil em meados da primeira década do século passado fugido das perseguições e terrores da Rússia do último czar e da Europa que ebulia em tensões que rebentariam, em 1914, no assassinato do arquiduque, austríaco, Francisco Ferdinando na desgraça humana que ficou conhecida como Primeira Guerra Mundial. Segundo Ladislau, entretanto, o sangue tirolês seria de seu avô, esse sim austríaco que, por alguma desconhecida ou esquecida situação, fincou raízes na Ucrânia.
Num exercício de pura matemática, raciocínio e imaginação fiquei pensando no que poderia levar um austríaco para a Ucrânia na segunda metade do século XIX. Não fui muito longe, conflito bélico de grande monta que por essas cinco décadas, que minhas luzes chegam para alumiar, há somente a Guerra Franco-Prussiana, embate entre França e prussianos, semente do que se chama hoje Alemanha e que, por sua vez, engendrou os ódios e revanchismos que foram estopim das duas guerras mundiais.
Confesso que o romantismo falou em mim mais alto, e calculei errado, de lapso, que fosse o avô de Ladislau, o tal austríaco, um soldado de forças que se batiam em escaramuças sangrentas nos tempos de Napoleão. Impossível, porque sabe-se que Napoleão veio a perder sua última batalha ainda no começo do século XIX, em 1815, dando fim ao período de estertor que se batizou de Governo dos Cem Dias. É fato que a história turbulenta da Europa no período certamente guardou algum conflito que atasse, enfim, as pontas dessa história.
O leitor dirá que é exagero desconfiar somente numa guerra como nó que une esses laços. De maneira nenhuma. Era um tempo onde não haviam automóveis, aviões e trens não chegavam tão longe, ainda. A região sempre campesina do leste europeu, sobretudo no sudoeste da Rússia, com o solo negro e fértil não respirava nenhuma fuligem de revolução industrial, o que já se vivia em glebas austríacas. Só há, mesmo, o imperativo de matar ou morrer para levar alguém tão longe. E há a vontade do autor que, se embora não escreva aqui ficção, timbra em constar suas ideias, raciocínios e desconfianças. Está decidido, pois, tendo como verdade que o avô de Waldomiro/Ladislau era de fato austríaco, que este tenha ido parar na Ucrânia em função de revoluções, guerras, tiros e explosões.
O fato de a criação da família ter-se dado sempre em meio a colônias, costumes e hábitos herdados dos ucranianos fez com que o mito se construísse, e explica a consternação dos retardatários na descoberta de que, nada disso, descendem de austríacos por parte de pai. Por parte de mãe, não há engano, consta que, sim, a cepa de genes é ucraniana com certeza, estando aí o suprimido sobrenome da falecida esposa de Waldomiro, ou Ladislau, Balowski para comprová-lo, gritando aos quatro ventos a sua forma eslava em contraste com o traço germânico do nome não suprimido dos registros.
Waldomiro, Ladislau, pouco importa, trabalhou a vida toda como um condenado, é a verdade. Sustentou 9 filhos, a si e a mulher. Andou com suas cargas e caminhões em todos os rincões desse país e sempre soube o caminho de casa. Até que um dia decidiu que calhava aposentar-se.
O dia já se esconde atrás de anos. Conta 27 anos de aposentado, vivendo feliz da maneira que se pode ser feliz. Uma vida nem frugal, nem abastada. Não lhe faltou nada, não lhe falta hoje o que comer, vestir ou consumir. A bem da verdade, um homem que raramente se queixou, hoje cede espaço a uma certa razinzice em face aos problemas da idade.
Waldomiro e Ladislau já não são os mesmos de antes. Há dores, há dificuldades.
O que lhe tira um pouco do brilho da conversação. Nunca foi de se queixar, mas ultimamente é o que mais faz, quando há algum dissabor relacionado a saúde, ao corpo. Não pode mais dirigir e se envergonha de pedir ajuda a netos e filhos para transportá-lo. Não pode mais dirigir, o que fez a vida toda para ganhá-la, e isso o deixa visivelmente frustrado.
Ainda assim ostenta a pose com bastante competência de patriarca de uma família enorme, problemática, desunida e com muitos problemas. Não são culpa dele os desencontros da família - aliás, pela dedicação que sempre teve é de se admirar que existam tantos. Waldomiro ou Ladislau, não importa, é, para mim um heroi.
Amanhã é aniversário do Homem dos Dois Nomes. Não duvide e lhe convido para um teste: se chamá-lo na rua por qualquer um dos dois, ele fatalmente atenderá. O caso dos dois apelidos, dos quais Ladislau é o que se registrou efetivamente é que, Waldomiro se diz, em ucrâniano do meio onde foi criado, "Ladio". Provavelmente ao registrar a criança, no longínquo 1926 disseram que queriam batizar de Ladio o menino, ao que o oficial de registro considerou que o equivalente aportuguesado seria Ladislau, quando na verdade é Waldomiro.
Outra teoria é de que o nome eslavo pretendido era Vladimir. E aqui, Waldomiro. Entretanto que curiosa circunstância teria aberto ensejo para um Ladislau nesta história, é, até aqui, o ponto fraco desta teoria. Sabe-se, contudo, dos dois nomes e dos dissabores de ordem burocrática que vieram na esteira dessa curiosa, singular e inocente curiosidade.
A confusão nunca se desfez.
Quem diria, eu vivi um Todos os Nomes na minha vida. Confusão que, infelizmente, veio a custar caro. Ao aposentar-se e apresentar notas, recibos, documentos e registros diversos, com os dois nomes, o Homem dos Dois Nomes ficou incapacitado pela obtusidade oficial de provar quem, de fato, era. Perdeu uma quantia substâncial do benefício de aposentadoria em função disso e já desistiu de tentar reverter a situação na Justiça que, saibam, verdadeiramente é cega: não enxerga méritos, pessoas e verdades.
Waldomiro, Ladislau, ou no meu caso, simplesmente "vô", completa amanhã 83 anos - ou, e aí vai mais uma contradição, 84. O registro oficial anuncia 1926, mas há discussões acaloradas em família sobre a possibilidade de ser, na verdade, 1925 o ano de nascimento, assunto inconcluso que em face ao caráter binome do personagem, não tem a menor relevância. Será uma grande festa. Com churrasco, que a sua antiquíssima diabetes recomenda menos voracidade que, de ordinário, um caminhoneiro demonstra perante uma mesa farta. No frio em que agora viajo só penso num abraço. O Homem dos Dois Nomes é mais que meu avô, o único que o destino fez vivo por essas épocas, mais que personagem, mais que parte de mim, é um heroi.
Parabéns, vô.
às 23:29 0 comentários Marcadores: Memórias
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
O livro e a memória
Eu saí para caminhar. Sem rumo, à minha frente e ao alcance das minhas pernas toda a pauliceia. Interminável e caótica, e bastante molhada. Eu prometi a mim mesmo que caminharia por ruas ainda não conhecidas. Desceria do metrô ou do ônibus em busca de rumos nunca dantes caminhados. Por que caminhar é preciso, já que plagiamos aqui o inventor da nossa bela língua.
A ideia era, se possível fosse, caminhar. E só. O mundo é finito, mas a vontade de andar, não. A ideia era chegar o mais longe possível, perdendo não calorias e pingando suor pelas esquinas. Não. A intenção era coletar um pouco de vida, de novidade. E deixar pra trás esse doce fardo da juventude, de tanta coisa maravilhosa que outrora me reluzia e hoje não mais, todo esse relicário de alegrias que hoje rescendem a tristeza, dor, arrependimento e lágrimas.
Passei por um sebo e me censurei intimamente. "Há quanto tempo você não se dedica a ler de verdade, como fazia antes?", disse-me naquele instante. Fosse eu um obcecado, me perturbaria, procuraria motivos. Faria escolhas e, pronto, daria uma resposta. Não sou assim, disse a mim mesmo "ora, se eu jogo um fardo de tempos passados às costas, por que não deveria fazer o mesmo com os hábitos?".
A verdade é que a gente muda. Na verdade, não muda. A gente é sempre o que é. Isso não muda. O que muda com o tempo são hábitos, gostos, interesses. Eu ainda amo leitura, há poucas coisas que eu troco por um bom livro e algumas horas com ele. Mas o fervor de leitor compulsivo diminuiu, eis tudo. "Nunca reparou que seus pais adoravam filmes quando jovens e quando mais velhos deixaram de vê-los amiúde?". Pois é, consciência, é isso que estou te dizendo. Hábitos mudam, pessoas não.
O sebo provavelmente teria, por baixo, na escala Tertuliano de interesse, que oscila de 1 a 17 - a escala é minha e acho sem graça essa dependência de números chave que temos, por isso nem 10, nem 15, menos 20. A escala atinge seus píncaros em 17, está dito - um sensacional 14. Saibam que poucos foram os momentos que o interessômetro, aparelho desenvolvido por mim para, não diga, mensurar interesse na escala Tertuliano, marcou algo acima de 12. Eu não me impressiono fácil.
Mas dizia eu, que sítio interessante era aquele sebo. De tão interessante, estanquei na padoca, como dizem por aqui, que fica diametralmente oposta, no outro lado da rua, para admirar o edíficio e pensar. Depois de um exame mais minucioso na fachada atinei com a verdadeira natureza do emprendimento comercial que ali se desenvolvia. Posso dizer, agora, depois de uma melhor estudada que, mais que um sebo, ali funciona um antiquário.
Dado o caráter, localização, vocação e fama pregressa da vizinhança e bairro que tratamos aqui, é possível afiançar que esse antiquário não seria assim uma das maiores casas do ramo, encontráveis aqui em São Paulo aos montes. Mas não deixa de inspirar algum respeito, posto que a com tal catandura vexaria algumas grandes livrarias que conheci.
O antiquário tinha, é possível que me engane, mas é o que parecia, uma especial conta pelo seu acervo de alfarrábios. Provavelmente estariam por ali algumas raridades editoriais, cotadas a preços não muito módicos, que é do jaez desses ítens. Talvez aquelas versões em três volumes de Vinte Anos Depois que faltam na minha coleção D'Artagnan. Se eu me desse o direito, é quase certo que entraria naquele sebo e encontraria inúmeros volumes que interessam.
Mas eu não sai às compras. Analisei furtivamente aquele sebo. Vi que dentro dele havia um senhor totalmente imerso a uma operação que provavelmente consistia em analisar um volume. Talvez ele estudasse o nível de conservação da obra, para poder orçar uma quantia que honrasse o futuro da casa. Não posso dizer que lia, porque não carregava óculos. E é sabido que desde que nascemos, é tudo, simplesmente tudo, uma grande decadência. Nascemos todos, sem exceção, com o mesmo potencial. Vamos decaindo até a morte. A diferença é que uns decaem menos, outros mais.
Mas é praticamente lei universal, uma decadência que atinge a todos, embora varie em intensidade e tempo, que gente velha não enxergue bem de perto e não possa, assim, ler. O senhor, portanto, fazia qualquer coisa com um volume que tinha nas mãos. E eu sustento que, dado às evoluções que fazia com o livro, só poderia tratar-se ali de um exame.
Exame esse que pode ter sido um pouco negligente. Porque sem óculos podem escapar imperfeições, rasuras, marcas do tempo que por serem minúsculas não se veem tão facilmente. Ao dar-me com essa conclusão, confesso, perdi um pouco do interesse no circunspecto livreiro, afinal, pode se esperar tudo de um homem que analise um livro sem grande cuidado. Como diria um antigo e esquecido poeta alemão, "Onde se queimam livros, ali, eventualmente, se queimarão pessoas". Onde se vendem livros antigos e não se prestam a analisá-los com esmero, se pratica um crime. Livros têm vida. Eles contam histórias e se forem velhos, são história.
Reconsiderei de súbito o julgamento temerário quando percebi que o idoso colocara o livro na mesa. Era o telefone, atendeu uma ligação rápida, se tanto 15 segundos, e tornou a mexer no livro. Nesse instante a noção de negligência já me abandonara de todo. Considerei que aquele senhor só podia, solitário como devia ser, especialmente se observadas aquelas mãos e aquele aspecto sombrio, de quem vive cercado de histórias e velharias, estar mais do que acostumado com o mister que realizava. Está visto que manuseou livros e velharias a vida inteira, deve ser capaz de, ainda que com mãos enrrugadas, reconhecer o papel, o tipo de impressão, se de uma prensa, uma rotativa ou quaisquer maquinismos recentes de imprimir. A ele não devem faltar os recursos e artimanhas da profissão. É verdade, reconheço, julguei mal o livreiro.
O fato é que àquela distância eu já não poderia extrair nada mais. Precisava apropinquar-me mais da cena, sem ser visto, por certo, porque ainda não concluira o que se passava, com efeito. E o livro, que antes me fora tão interessante como o asfalto que se desdobra ali, agora, assim como o homem que o sustinha, me chamava muito a atenção.
Mudei de mesa. Pedi um café para reduzir a suspeita que pudesse aparecer de quem passava e trabalhava na padaria. Mais próximo pude notar que o livro não era qualquer livro. Não faria parte de acervo nenhum. Nem coleção. Dificilmente o senhor se desfaria da obra, porque o examinava com afetação. Havia um carinho intrínseco nas suas mãos ao passá-las pelo volume, ao folhear a esmo as páginas, parando em algumas, sem, contudo, ler nada. O homem acariciava o livro.
É sabido que por visionários que sejam alguns escritores e seus textos, não se conhece ainda obra literária, ou não, encadernada que nos diga somente verdades e nos revele o futuro. Conclui daí que o carinho do homem advinha do passado. O livro, ou qualquer coisa relacionada a ele, lhe dizia uma história, lhe acendia na mente uma lembrança.
Fiquei curioso. Ocorreu-me entrar no sebo e perguntar: "meu senhor, o que há de especial nesse livro que dedilha com tanta atenção há pelo menos uns vinte minutos, conforme pude observar da rua?". Mas que direito tenho eu, que carrego no lombo meus próprios fardos, ir inquirir os outros dos seus?
Ademais, que diria ele? Poderia ficar nervoso, gente velha tem medo. Poderia passar mal. Poderia acontecer uma infelicidade, sabe-se lá que efeitos tinha o livro no seu coração, e a chegada de um estranho perguntando sobre o assunto poderia causar um efeito danoso ao bom regime circulatório e coronariano de nosso livreiro. É claro que não fui ao sebo, decisão tomada com acerto em lapso de segundo bastante inferior ao tempo exigido pela leitura de todo esse digressivo parágrafo.
Pude notar, contudo, a deferência que o homem teve ao colocar o livro sobre a mesa. Como se fosse quebrável, de uma delicadíssima porcelana, ele o repousou suavemente, e o cobriu com um porta-retratos que, para infelicidade da minha curiosidade, estava voltado para si, o que me negou a chance de vislumbrar que face, ou cena, vinha daquela foto.
O homem levantara-se e, pelo gesto, deu a entender que chamava alguém. Apareceu um rapaz com um colete em azul que trazia bordado no peito as insígnias da casa. Ao dar instruções ao funcionário, levantou-se, deu a volta à mesa e saiu para andar.
O andar fraquejante de quem ficara muito sentado, agravado pelas instâncias da idade, se fez notar. Abriu a porta e senti um calafrio. Pensei comigo que ele poderia vir até mim e inquirir com que direito eu o espionava. Nada disso. Sequer me viu, virou para a esquerda e, poderia eu jurar, foi caminhar com o mesmo intuito que eu tive no princípio deste texto.
Assim que ele sumiu numa esquina, arrematei o café que fumegava num copo, desses comuns às padocas. Fixei a vista no livro. Entraria, agora, no sebo/antiquário e veria, ao menos a capa do livro. O título. O autor, autora, enfim, e daí tiraria mais conclusões. Nada me deteria.
Atravessei a rua e caminhei distraído pelas estantes. E, de fato, vi que ali encontraria uma oferta bastante interessante para meu acervo pessoal. Mas meu interesse não estava naquelas estantes, naqueles livros. Meu foco ficava na mesa, que se escondia da minha vista por uma pilha de livros e alguns quadros, mantidos em pé de igualdade, numa disposição elegante por sobre uma mesa que aparentava ser de imbuia, sólida como rocha e, provavelmente, peça a ser também vendida a quem interesse.
Caminhei e coloquei-me entre os livros e a mesa que mantinha o livro misterioso. Ninguém olhava. Deve ser praxe da loja deixar os clientes à vontade, porque nenhum dos vendedores - e lá dentro pude ver que existiam mais, o que agigantou a imagem do lúgubre antiquário em minha mente - vinha me atender. Acredito que isso se deva ao fato de que quem vai a um lugar desses, sabe o que quer. E se sabe, pergunta. Não perguntei nada, e me deixaram em paz.
Lancei os olhos, enfim, ao livro. O porta-retrato continuava de costas, e eu não teria expediente para ir ao outro lado que não me denunciasse aos vendedores. O fato de olhar ostensivamente para a mesa já era um risco presumido, poderiam entender que eu estava lançando olhares para onde se guarda o dinheiro, afinal é a mesa do patrão. O livro, enfim, não aparentava ser muito antigo, mas não se pode dizer que é novo, dados os entalhes na capa e na lombada, acabamento que denuncia um trabalho de editoração que não se vê mais nem em enciclopedias, sobretudo hoje que há uma na internet. A coloração do papel no miolo denunciava um amarelecimento, era fácil ver naquele volume um belo trabalho de editoração. Provavelmente uma edição de luxo. E na capa, havia uma flor.
às 19:21 0 comentários Marcadores: Memórias
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
Esvaindo
Sou aquele que passa e ninguém vê...
Sou o que chamam triste sem o ser...
Sou o que chora sem saber porquê...
terça-feira, 18 de agosto de 2009
Detox
Eu tenho vícios.
Nem méritos,
nem qualidades.
Não vou perder o vício.
Já passei pela desintoxicação,
e já ali me enchi de saudades.
Eu tenho um vício.
Minha toxina mata o coração,
e me deixa cheio de infelicidades.
Eu não tenho força.
Mas tenho coragem e tensão
de viver na ressaca de todas as...
Deixa pra lá.
Lavagem cerebral em loop
Eu queria tentar.
Voltar
desfazer.
Inverter,
entender mais.
Eu queria que fosse diferente.
Que tudo fosse simples.
Eu queria ser forte.
que a coragem não fosse só minha.
Eu queria voltar no tempo.
Evitar. Desviar.
Eu queria ser mais justo.
Equilibrado...
Mais reciprocidade.
Eu queria ouvidos.
Sentidos.
Tentar novos caminhos.
Eu queria menos medo,
mais que um conselho.
Eu queria um exemplo.
Queria reação, vibração.
Queria menos gelo,
mais paixão.
Eu queria uma vida.
Um apagão.
Eu queria desenhar a história.
À lápis.
E com a borracha,
me apagar da memória.
Eu queria dizer que é cedo
para dizer que já é muito tarde.
Eu queria vencer todos os medos.
Provar com matemática,
com razão, com verdade,
a dimensão da minha felicidade.
Eu queria que poema importasse,
que fosse mais que uma temática.
Eu queria que a vida significasse,
que o coração é quem mandasse.
Que o conselho prestasse,
e que eu, enfim, expirasse.
Não leve flores
Ontem conversei com os amigos ao redor de minha mesa,
e não deixei meu cigarro se apagar pela tristeza.
Sempre é dia de ironia no meu coração.
Sempre é dia de ironia no meu coração.
Belchior.
às 22:55 0 comentários Marcadores: Cultura
sábado, 15 de agosto de 2009
Diploma em saudade
Nessas idas e vindas
das noites claras e lindas,
o que eu deixo é o tempo e a saudade
do dia em que eu fui feito de felicidade.
Caminhando pelo meio da estrada
digo pra sombra que ainda é ontem.
Que não deixo sorriso nem pegada.
Pela noite as memórias que se desmontem.
Sentado na beira do caminho
só um dia pra esquecer a mocidade.
A época do carinho,
o tempo em que fui pra universidade.
Trago comigo, hoje, do mundo todas as saudades.
Dos rumos percorridos, dos atalhos.
O amigo, as lágrimas, as verdades
que sempre assustam qual espantalho.
Quem sabe o dia amanheça
e a aurora me floresça
com a benção do esquecimento
do tempo em que fui feito de sentimento.
E que do tempo em que fui na universidade
que eu esqueça o diploma em saudade.
Que deixe de ser em mim dignidade a graduação
em arrependimento, especializado em partir o coração.
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Adeus
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Poesia de Eugénio de Andrade.
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
O dia em que virei um gay em potencial
Pesquisando assuntos para minhas pautas inócuas, tropecei numa matéria da revista Época, que versa sobre a possibilidade, descoberta recentemente por cientistas, de que uma pessoa pode ter um cérebro masculino ou feminino e que isso independe de ela ter, ou não, protuberâncias anatômicas escusas entra as pernas.
Fiz o teste. E meu cérebro é machão, sim senhor. A eslaca oscila de 1 a 20, sendo que 1 são os miolos mais másculos que se pode conceber, e 20 correspondem a uma mente de menininha. Eu marquei 7. O que significa, em tese, uma viadagem latente. Sim, porque se 7 está longe de 20, por outro lado, não é menos verdade que não é o 1.
Não posso dizer que meu cérebro saiu do armário num teste de revista, afinal o mediano seria 10, e mais que isso sim significaria uma mente mulher, de fato, presa neste corpo velho, peludo e carcomido. Mas, de qualquer forma, acrescento uma nova preocupações às minhas eternas dúvidas existenciais: seria eu um gay em potencial? Eu posso ser um heterossexual com uma mente potencialmente afeminada? Ui!
Isso deve explicar a poesia. E alguns estilos musicais, tendencias para filmes. Fico feliz que existam atenuantes, como o interesse por automóveis, e video-games de tiro e degradação social.
O que constrange, meus caros, é que eu passei a minha vida toda, 24, olha aí, 24!, anos nem tão bem vividos escondendo um viadinho na cabeça.
às 01:38 1 comentários Marcadores: Atualidades, Memórias
Hai-kai nº 11 (Tributo)
A maré beija a praia sem parar.
E eu quero um mundo todo azul.
Azul da cor do mar...
terça-feira, 11 de agosto de 2009
Hai-kai nº 1
Vento que leva toda a mensagem
Acaricie lento a minha face
e molde em mim toda uma nova paisagem.
Rádio: Tim Maia - Azul da cor do mar
Ah, se o mundo inteiro me pudesse ouvir...
às 13:58 0 comentários Marcadores: Rádio blogue
Pergunta e dúvida
Talvez a mais longa das minhas histórias
seja aquela que escrevo todo dia...
feita de lágrimas, sorrisos, macarrão e memórias.
Feita de vitórias, derrotas e da palavra arrependida.
Neruda não era gauche na vida.
Mas a resposta, em verso, não o satisfaria.
E a pergunta, em prosa, fica assim, omitida.
Porque, diga, que graça tem a poesia entendida?
Eu diria que o que aprendi, Neruda,
foi que tudo é uma grande labuta.
E é inútil ser sincero naquilo que se sente.
Sentir é o que me faz indiferente.
Não ter palavras, quiçá coragem!
E seguir escrevendo, vivendo por uma miragem.
Mas eu te digo, Neruda, que de nada adianta.
Verso não diz a verdade absoluta.
Num primeiro instante a gente até se encanta,
depois passa, vira vazio, palavra muda.
E é assim com a minha história e resposta.
Quem dera fosse com a pergunta e a dúvida!
que ao menos me ensinaram a viver a tua vida,
e a fugir do poema que a gente mais gosta.
"Minha história com as mulheres", pergunta o Neruda...
que direi, caro amigo? É na verdade uma grande luta.
Cobriria páginas, volumes, toda uma outra vida.
Uma daquelas plena, vívida, digna e arrependida.
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
7 de agosto
Você provavelmente não se deu conta. Mas hoje aconteceu um evento único, que não se repetirá nas nossas existências:
As 12 horas, 34 minutos e 56 segundos, do dia 7 de agosto (08) de 09, formaram a seguinte sequência:
12 34 56 7 8 9.
Interessante, não?
às 15:34 1 comentários Marcadores: Atualidades, Memórias
terça-feira, 4 de agosto de 2009
Criatividade
O vídeo abaixo é uma peça publicitária da Olympus. Recebi a dica por email. Consta que foram batidas 60 mil fotos, das quais revelou-se 9600 para o filme. Dessas, 1800 foram utilizadas para compor o belo trabalho abaixo. O mais incrível é que trata-se de uma colagem, sem pós-produção alguma. Sensacional:
às 01:34 1 comentários Marcadores: Cinema, Cultura, Mídia
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
Filosofando
Alguém me responda:
A Bíblia nos diz que Jesus foi sacrificado para nos redimir de nossos pecados e nos salvar do fogo eterno. A Bíblia também nos diz que se não acreditarmos nisto queimaremos no fogo eterno.
?
às 20:49 0 comentários Marcadores: Memórias
Sou uma velha senhora
Eu odeio quando uma canção me traz lágrimas,
lembranças, emoções.
Odeio. Me sinto tão menino.
Mas por que eu as ouço?
Só para preencher o verso repentino:
Eu sou mesmo feito de contradições.
Homem não chora.
Que pena.
Porque se não chora,
resta dizer que aqui,
só, nesta última hora,
existe apenas uma velha senhora.
Sou tão moço...
perco tempo com os relicários,
onde estão minhas metades
meus amores imaginários.
E um pouco das minhas saudades.
Sou de tantas contradições!
E, que me dizes?
domingo, 2 de agosto de 2009
Hum
Esses dias para quem são?
E os versos, à que se referem?
E esses sorrisos, não te ferem?
Tantas perguntas que dizem não.




