Waldomiro. Ou Ladislau. Dois nomes, duas distinções, duas classes, duas vidas. Um homem.
Waldomiro, ou Ladio, ou formalmente, Ladislau, foi caminhoneiro. Nascido numa pequena e interiorana cidade paranaense no ano de 1926, trata-se de um descendente de imigrantes austríacos, segundo ele diz há coisa de uns dois anos.
Acreditava-se, e aí nesse bojo incluem-se nove filhos, incontáveis netos pela literatura preguiçosa deste que vos escreve e um bisneto, que era, entretanto, o Homem dos Dois Nomes descendente de ucranianos.
É um mestre de contradições, poderia vir alguém a concluir a partir do momento que sabe que o homem tem dois nomes e ainda soube enganar a família por décadas a respeito de suas próprias origens. Nem tanto, a questão da descendência não foi um logro proposital. Segundo Waldomiro, ou Ladislau, acontece que ninguém nunca o perguntou de onde vinham seus antepassados, se dos montes do Tirol, ou pra lá dos Urais, naquele enorme descampado fértil que chamam de Ucrânia.
É valido ressaltar, de toda forma, que o pai de Ladislau era ucraniano e vinha ao Brasil em meados da primeira década do século passado fugido das perseguições e terrores da Rússia do último czar e da Europa que ebulia em tensões que rebentariam, em 1914, no assassinato do arquiduque, austríaco, Francisco Ferdinando na desgraça humana que ficou conhecida como Primeira Guerra Mundial. Segundo Ladislau, entretanto, o sangue tirolês seria de seu avô, esse sim austríaco que, por alguma desconhecida ou esquecida situação, fincou raízes na Ucrânia.
Num exercício de pura matemática, raciocínio e imaginação fiquei pensando no que poderia levar um austríaco para a Ucrânia na segunda metade do século XIX. Não fui muito longe, conflito bélico de grande monta que por essas cinco décadas, que minhas luzes chegam para alumiar, há somente a Guerra Franco-Prussiana, embate entre França e prussianos, semente do que se chama hoje Alemanha e que, por sua vez, engendrou os ódios e revanchismos que foram estopim das duas guerras mundiais.
Confesso que o romantismo falou em mim mais alto, e calculei errado, de lapso, que fosse o avô de Ladislau, o tal austríaco, um soldado de forças que se batiam em escaramuças sangrentas nos tempos de Napoleão. Impossível, porque sabe-se que Napoleão veio a perder sua última batalha ainda no começo do século XIX, em 1815, dando fim ao período de estertor que se batizou de Governo dos Cem Dias. É fato que a história turbulenta da Europa no período certamente guardou algum conflito que atasse, enfim, as pontas dessa história.
O leitor dirá que é exagero desconfiar somente numa guerra como nó que une esses laços. De maneira nenhuma. Era um tempo onde não haviam automóveis, aviões e trens não chegavam tão longe, ainda. A região sempre campesina do leste europeu, sobretudo no sudoeste da Rússia, com o solo negro e fértil não respirava nenhuma fuligem de revolução industrial, o que já se vivia em glebas austríacas. Só há, mesmo, o imperativo de matar ou morrer para levar alguém tão longe. E há a vontade do autor que, se embora não escreva aqui ficção, timbra em constar suas ideias, raciocínios e desconfianças. Está decidido, pois, tendo como verdade que o avô de Waldomiro/Ladislau era de fato austríaco, que este tenha ido parar na Ucrânia em função de revoluções, guerras, tiros e explosões.
O fato de a criação da família ter-se dado sempre em meio a colônias, costumes e hábitos herdados dos ucranianos fez com que o mito se construísse, e explica a consternação dos retardatários na descoberta de que, nada disso, descendem de austríacos por parte de pai. Por parte de mãe, não há engano, consta que, sim, a cepa de genes é ucraniana com certeza, estando aí o suprimido sobrenome da falecida esposa de Waldomiro, ou Ladislau, Balowski para comprová-lo, gritando aos quatro ventos a sua forma eslava em contraste com o traço germânico do nome não suprimido dos registros.
Waldomiro, Ladislau, pouco importa, trabalhou a vida toda como um condenado, é a verdade. Sustentou 9 filhos, a si e a mulher. Andou com suas cargas e caminhões em todos os rincões desse país e sempre soube o caminho de casa. Até que um dia decidiu que calhava aposentar-se.
O dia já se esconde atrás de anos. Conta 27 anos de aposentado, vivendo feliz da maneira que se pode ser feliz. Uma vida nem frugal, nem abastada. Não lhe faltou nada, não lhe falta hoje o que comer, vestir ou consumir. A bem da verdade, um homem que raramente se queixou, hoje cede espaço a uma certa razinzice em face aos problemas da idade.
Waldomiro e Ladislau já não são os mesmos de antes. Há dores, há dificuldades.
O que lhe tira um pouco do brilho da conversação. Nunca foi de se queixar, mas ultimamente é o que mais faz, quando há algum dissabor relacionado a saúde, ao corpo. Não pode mais dirigir e se envergonha de pedir ajuda a netos e filhos para transportá-lo. Não pode mais dirigir, o que fez a vida toda para ganhá-la, e isso o deixa visivelmente frustrado.
Ainda assim ostenta a pose com bastante competência de patriarca de uma família enorme, problemática, desunida e com muitos problemas. Não são culpa dele os desencontros da família - aliás, pela dedicação que sempre teve é de se admirar que existam tantos. Waldomiro ou Ladislau, não importa, é, para mim um heroi.
Amanhã é aniversário do Homem dos Dois Nomes. Não duvide e lhe convido para um teste: se chamá-lo na rua por qualquer um dos dois, ele fatalmente atenderá. O caso dos dois apelidos, dos quais Ladislau é o que se registrou efetivamente é que, Waldomiro se diz, em ucrâniano do meio onde foi criado, "Ladio". Provavelmente ao registrar a criança, no longínquo 1926 disseram que queriam batizar de Ladio o menino, ao que o oficial de registro considerou que o equivalente aportuguesado seria Ladislau, quando na verdade é Waldomiro.
Outra teoria é de que o nome eslavo pretendido era Vladimir. E aqui, Waldomiro. Entretanto que curiosa circunstância teria aberto ensejo para um Ladislau nesta história, é, até aqui, o ponto fraco desta teoria. Sabe-se, contudo, dos dois nomes e dos dissabores de ordem burocrática que vieram na esteira dessa curiosa, singular e inocente curiosidade.
A confusão nunca se desfez.
Quem diria, eu vivi um Todos os Nomes na minha vida. Confusão que, infelizmente, veio a custar caro. Ao aposentar-se e apresentar notas, recibos, documentos e registros diversos, com os dois nomes, o Homem dos Dois Nomes ficou incapacitado pela obtusidade oficial de provar quem, de fato, era. Perdeu uma quantia substâncial do benefício de aposentadoria em função disso e já desistiu de tentar reverter a situação na Justiça que, saibam, verdadeiramente é cega: não enxerga méritos, pessoas e verdades.
Waldomiro, Ladislau, ou no meu caso, simplesmente "vô", completa amanhã 83 anos - ou, e aí vai mais uma contradição, 84. O registro oficial anuncia 1926, mas há discussões acaloradas em família sobre a possibilidade de ser, na verdade, 1925 o ano de nascimento, assunto inconcluso que em face ao caráter binome do personagem, não tem a menor relevância. Será uma grande festa. Com churrasco, que a sua antiquíssima diabetes recomenda menos voracidade que, de ordinário, um caminhoneiro demonstra perante uma mesa farta. No frio em que agora viajo só penso num abraço. O Homem dos Dois Nomes é mais que meu avô, o único que o destino fez vivo por essas épocas, mais que personagem, mais que parte de mim, é um heroi.
Parabéns, vô.

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