sábado, 30 de janeiro de 2010

Rádio: Willard Grant Conspiracy - Distant Shore

Adquiri uma moléstia nova e provavelmente ainda não classificada em nenhum catálogo da Organização Mundial da Saúde, que como se sabe, arbitra o que é ou não patologia. E no seu índex, caso não conste, faremos com que seja anotado que curtir o som de Willard Grant Conspiracy é uma nova moléstia. O distúrbio não é assim tão perigoso, confessemos, mas nem por isso deve deixar de ser estudado.

Temos que compreender o que faz WGC - curruptela, por favor - cativar mentes e corações com suas canções calmas, envolventes, simples. E seus clipes incríveis, como é o caso deste que ilustra o post.

Não temam. Não sucumbirei a tentação do chavão dizendo que ouvir e assistir Willard Grant Conspiracy pode ser prejudicial à saúde. Nem de longe apostarei no chiste para fechar o post, por mais que, força é dizê-lo, por mais que procure, agora, no momento não acho como terminar o texto. Melhor seria tê-lo encerrado antes de confessar isso.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Rádio: Tim Maia - Como Uma Onda

Tim Maia. Não preciso dizer mais nada.


terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Rádio: Mike Johnson - If The World Hadn't Gone Insane

Comentei há poucos posts o sinal definitivo do apocalipse pelos dados massivos de difusão do Mike Johnson (Myspace aqui) verificáveis no Orkut. Faltou apresentar o som do sujeito. Muito bom, diga-se de passagem, mas muito pouco conhecido.


segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Miopia

Meu óculos e eu tivemos um ano de uma relação extremamente desagradável, de aceitação e simbiose mútua por puro interesse: eu preciso deles para enxergar longe e para não agravar os graus de desvio da minha visão e eles precisam de mim para ter uma função, porque do contrário, não existem em si. Só eram óculos porque eu os depunha no nariz. Detesto óculos. E hoje, sem querer, quebrei a armação ao acordar e, estabanado, esbarrar na mesinha de cabeceira e, assim, derrubá-lo inapelavelmente.

Pronto, de volta ao mundo turvo por uns dias. Gostaria que aquela frase do Saramago "por vezes precisamos fechar os olhos para enxergar melhor" se aplicasse ao caso, adaptando para "por vezes precisamos quebrar os óculos para ver mais longe, e nitidamente", porque ando precisando atinar com um rumo e minha miopia não ajuda nada a tentativa de perscrutar o horizonte da vida e ver, afinal, o que vem por lá.

Fórmula 1 - por isso eu curto

Provavelmente já postei esse vídeo antes. Não tem importância. Na falta de assunto, reeditemos. Reeditar é viver.

E o que conta é que o vídeo é ótimo. Comparando com as vinhetas do Hans Donner para as transmissões da Globo fico pensando, como é que ninguém por lá nunca pensou num material assim? Grandes momentos da F1 com uma trilha sonora apropriada e bem editada comunica muito mais que aquele "F1" correndo pela tela.



Não dá para ficar indiferente a um esporte desses.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Natureza morta

Eu não me debato em verso renegado.
Não tenho medo da rima torta,
porque toda arte é uma realidade morta.

Combate à fome via Evangelho

Há uma peroração de Cristo no Novo Testamento que diz que nem só de alimento vive o homem, mas também de toda a palavra que este colhe da boca de Deus. Sabemos o sentido figurado da frase - como de resto em todas as fábulas da Bíblia.


Sim, ele precisa de Bíblias para fugir das balas e arrumar comida

Mas há extremistas e fanáticos dispostos a levar tudo a sério. É o caso do grupo religioso norte-americano, "Faith by Hearing" (Fé pela Audição, em libérrima tradução) que, compadecido pela catástrofe haitiana, embuiu-se do maior e mais comovente amor ao próximo para enviar aos famélicos haitianos Bíblias que funcionam por energia solar. Foram enviadas 600 unidades de um aparelho chamado de "Proclaimer", outra vez em libérrima tradução, "proclamador", e mais 3000 estão a caminho. O proclamador fica desde já estabelecido para tempos e referências vindouras como o "iPod da fé".

Não chega a surpreender nesse mundo de meu Deus. O cônsul do Haiti no Brasil disse que a tragédia aconteceu porque foi castigo de Deus. Sim. Deus castiga os haitianos porque eles tem outra fé, não importa se no processo leva consigo vidas de inocentes, como a de Zilda Arns e tanta criança que morreu na hecatombe sísmica. O grupo norte-americano, ciente da fome, escassez de água, medicamentos e energia envia audiobooks. Aliás, chega a ser de uma maldade, de uma crueldade gélida enviar aparelhos auto-suficientes em energia para um lugar onde não há energia para necessidades básicas. É o amor de Deus, providenciando milagres entre a humanidade sedenta deles.

Não vou nem entrar no mérito da nulidade da iniciativa da seita, que fala por si. Nem na obtusidade das declarações do solidário grupo religioso, presentes no link da matéria do JB. Desejo do fundo do coração que o Evangelho dê uma dentro, e pela primeira vez na história disso tudo, alguém consiga se alimentar das palavras que nos venham da boca de Deus. E que não falte ajuda de gente agnóstica, sem religião, atéia, de outros credos, e mesmo religiosos cristãos, que mandem comida.

E eu ajudei. Ajude você mesmo pelo bankline na conta do governo. E podemos ficar tranquilos em só enviar dinheiro, afinal, a prioridade, que é a salvação do espírito, já foi encampada pelos fanáticos cristãos. Nos resta, pois, a desnecessária preocupação de dar de comer a quem precisa.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Rádio: Kenny Rogers & The First Edition - Just Dropped In

Essa música é sensacional. Em todos os sentidos. Quem é que nunca acordou do jeito que a música descreve? Quem nunca teve A Ressaca? Quem resiste a um bom rock dos anos 1960?



Além de tudo, é trilha sonora de "O Grande Lebowski".

Fim dos tempos

A comunidade do Mike Johnson no Orkut alcançou estonteantes 30 membros, o que deixou meus cabelos em pé como este ponto de exclamação (!), que uso para rematar a frase e elevar o caráter dramático da afirmação. Agora sim, estou preocupado. A partir desse momento, é oficial, nada mais me surpreende, incluindo aí a volta do Cristo. Que pode ser, no fim das contas, Mike Johnson, afinal. Tudo é possível depois de alguém como ele alcançar níveis de popularidades massivos como esse.

2012 chegando.

Pequeno sinal de fracasso

Há um ano fiz minha carteirinha da Hostelling International, que é a instituição que congrega hostels do mundo inteiro - albergues de mochileiros, no vulgo. Fiz a sobredita porque tencionava viajar muito no ano passado, aspiração a que minhas burras e colocação profissional da época permitia.

Passou o ano, mudei tudo, de emprego, de cidade praticamente e de vida, e jamais usei a carteirinha.

E hoje ela venceu.

E eu fracassei.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Rádio: Mark Lanegan - Constant Waiting

O bom Mark apareceu com mais uma participação num projeto paralelo, que homenageia o cantor norte-americano, e para lá de desconhecido por este que vos bloga, Jeffrey Lee Pierce, integrante de "The Gun Club" e "The Red Lights". E gravou essa canção, com direito a banjos e uma pegada country fantástica. Um Cash Lanegan, praticamente. Adorei a música:


domingo, 17 de janeiro de 2010

Um filme sobre a realidade

Descobri Network, filme de 1976, aqui no Brasil rebatizado para "Rede de Intrigas" e me impressionei pela riqueza da peça. O roteiro, o discurso, o nível de consciência dos nossos tempos sendo mostrado consistentemente há 34 anos.

O filme trata a respeito da desmoralização do negócio de mídia, e do jornalismo no bojo disso tudo, ao mostrar o cenário de caos que se instala, a falta de regra e de limite que advém de um mundo onde o único objetivo aceitável é a audiência e o lucro.

Tudo começa com a ameaça de demissão do personagem Howard Beale. Beale era um âncora de sucesso na tv, mas que recentemente estava perdendo números importantes de ibope e, em vista das dificuldades pelas quais passa a emissora em que trabalha, é anunciado que será demitido em duas semanas. Beale, literalmente, surta.

E na esteira do absurdo do âncora sisudo do jornal noturno de família que anuncia que irá se suicidar em público, frente as câmeras, todo um roteiro de caos assustadoramente presumível emerge. Beale antes de ser direcionado para tratamento, como seus amigos e superiores defensores do padrão de qualidade de jornalismo dentro da emissora defendem, é transformado numa celebridade, num profeta do caos, do absurdo. Sua loucura e eminente suicídio deixam de ser problemas da esfera pessoal de Beale e transformam-se em chamarizes para a audiência.

Um absurdo verdadeiro, diga-se. A capacidade de Beale mobilizar as pessoas dando voz às frustrações coletivas contagia qualquer um e tem paralelos com "Um Dia de Fúria", clássico oitentista do cidadão de bem que se revolta contra o estabilishment.

Só que Network é um grande filme porque não pára por aí. Beale e sua odisséia é uma parte fundamental do filme, mas mais que isso, encontramos dilemas morais e éticos de uma transição praticamente constante no jornalismo. O idoso e renomado jornalista, por exemplo, envolve-se num caso com a mulher que transformara o demissionário Beale, seu amigo, doente e carente de cuidados, como uma estrela. Os diálogos entre essas duas personagens têm em si qualquer coisa de geniais.

É sintomática após a primeira explosão de fúria de Beale ao ar (na qual ele entra no estúdio de pijamas e sobretudo, depois de ter tomado chuva pelas ruas - veja no vídeo abaixo) que o noticiário tenha se tornado num programa de notícias. Na lógica programa de auditório, as notícias perdem qualquer apego ao senso de informação e transformam-se em apelos idiotizantes de um programa que ainda conta com o histrionismo de Beale. Não precisa ir muito longe para encontrar semelhanças com a proposta aqui mesmo, no Brasil.



Outra trama decorre quando a personagem maquiavélica de Faye Dunaway conduz a produção de uma série de documentários sobre um grupo ultra radical de esquerda que aje sequestrando e roubando bancos - numa pura e consistente lógica de reality show, que poluem as tvs do mundo hoje em dia. Os documentários no filme industrializam noções e ícones de forma sensacional. Algo que, mais uma vez, nos traz aos dias de hoje.

Network é um filme sensacional. Pouco conhecido, ao que consta, mas que deveria compor a cinegrafia obrigatória de qualquer jornalista e, mais que isso, de qualquer um que um dia já se incomodou com "essa caixa que só diz mentiras", segundo Beagle em uma das suas messiânicas e impactantes explosões. Todos esses componentes kafkianos, esse absurdo do cotidiano, leva o filme a um desfecho impressionante e sombrio - sobretudo dados os paralelos com a mídia de hoje que o filme, a exemplo do personagem Beagle, conseguiu profetizar com invejável acurácia.

Apenas para concluir: outro momento genial e inesquecível dá-se no diálogo de um desvalido Beagle com o executivo da rede de TV, que lhe afiança que o mundo, a democracia, a sociedade, a política, a ideologia, nada disso, existe. O que existem são as corporações e o dinheiro - você pode acompanhar isso aqui, mas apenas em inglês - isso tudo em 1976, anos antes de Reagan e do Consenso de Washington. Incrível.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Humphrey Bogart sabia muito das coisas

"Of all the gin joints in all the towns in all the world, she walks into mine". Foi o que disse Humphrey Bogart, em Casablanca, que eu vi no período jurássico da minha vida. Ele diz isso com tanta verve! O filme é ótimo, cantado em prosa e verso ao longo de décadas, mas só essa frase já vale à pena.

"De todos os botecos de todas as cidades do mundo, ela entra logo no meu!".

E por que mencionar isso agora?

Falta do que dizer, do que postar. E, diabos, a frase é magnífica. Deviam instituir um Oscar para a frase mais fantástica do cinema, que é essa. E um prêmio único, nunca mais delegado a frase nenhuma.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O dia em que cresci

Por esses dias, fez 3 anos de uma noite de verão em que estive olhando o mar calmamente acariciar a praia, com lágrimas a verter pelos olhos. Eu chorava e chorava sem saber por quê. Sabia por quem chorava, mas não sabia ao certo o motivo.

Naquela noite eu me senti próximo a uma pessoa de uma maneira que nunca tinha sentido antes e que talvez não mais o sinta. Choramos os dois porque tínhamos medo. Não tínhamos nada, não podíamos nada, éramos pequenos, fracos, irresolutos, inconstantes, inocentes, quase duas crianças brincando de amar. O pouco que a gente tinha eram memórias, bons momentos, lealdade, cumplicidade. E amor. Porque foi por amor que a gente chorou e foi por amor que juramos um ao outro que, desse o que desse, viesse o que viesse, teríamos, no fim, sempre um ao outro.

Lembro da pessoa que secou minhas lágrimas. Dela que fê-las escorrerem em outras ocasiões. Lembro de como se vestia naquela noite, do calor que fazia, do passeio que tínhamos dado. Lembro de comentar sobre Jorge Amado ao ver um barco de pescador perdido na areia, alguma observação sobre o esgoto escorrendo ao mar. Lembro da sua mão na minha - como lembro também da segunda vez em que ela me conquistou ao me dizer, por email, "quisera eu ter para sempre a sua mão junto da minha". Eu lembro de todas essas coisas e é a confissão disso, hoje, o que mais me impressiona e me dá o que pensar.

Hoje eu sei mais sobre aquela noite porque hoje eu já sei porque chorei. Eu chorei porque tinha medo, tinha medo que a despeito do coração e das promessas, fosse tudo em vão, tudo acabasse e evaporasse, que no fim eu perdesse aquele contato, aquela ligação com outra pessoa, aquela sensação sublime, perfeita, mágica. Que ficássemos estranhos um pro outro. Que precisasse me confrontar com perda, saudade, remorso e tristeza.

Não saberia definir o estado das coisas pelo meu lado. Vivo uma espécie de letargia, de conformismo apagado, de tristeza meio alegre, de alegria triste, porque ainda sinto as mesmas coisas que me levaram a caminhar por aquelas areias, naquele começo de noite, e a juntar às águas salgadas do mar as minhas gotas de oceano, que explodiram dos meus olhos ao darem com os dela, marejados e angustiados, que me diziam, quase a gritar, "diz que me ama, que vai dar certo, que não foge, que fica comigo, que estará sempre por perto".

Hoje é um dia triste, porque toma-me o coração essas coisas fenecidas, essas memórias sem o lustro dos sentimentos que o tempo se encarregou de relativizar, de matar, de apodrecer. E eu fico triste, deixo a indolência de lado, e desequilibro minha alegria triste, para uma triste alegria. Eu queria vê-la, escutá-la, fazê-la rir - só mais uma vez.

Correr todos os riscos de um reencontro sem sentido, de viver esse disparate, porque hoje, e só hoje, me daria ao direito de me doer inteiro. O grande mal da vida, antes de ser o fato de que não sabemos o que fazer com ela, é o amor, que vai doer na gente de tempos em tempos, sobretudo e especialmente quando está morto.

Nada mais. Talvez no fim de tudo, quem sabe, meus olhos urrassem de dor atrás do esteio que um dia me pediram, e talvez, porque vivo de sonhos há tanto tempo, eu conseguisse dizer "promete que a gente fica junto independente do que acontecer? Que teremos um ao outro? Que você nunca vai me abandonar?"

E que bom se fosse assim.

BB King vem ao Brasil!

Já existiam rumores ano passado, mas não eram confirmados, porque sua majestade do blues declarara há uns anos que não faria mais turnês internacionais por instância de contar já 84 anos, o que não é pouca coisa.

E agora se confirma que BB King vem ao Brasil em março. E espero estar entre os que terão chance de ir ao concerto. De resto, considero extremamente alvissareiro que tenha postado há pouco uma música do sujeito e, pouco depois, tenha tropeçado na notícia.

Rádio: BB King & Eric Clapton - Hold on! I'm Comming

Uma das minhas preferidas do bebe rei:



Güenta aí, tô indo!

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Rádio: George Thorogood & The Destroyers - Get a Haircut

George Thorogood é foda, muito foda. Meu Deus, como ele é foda. É um rock, tem rockabilly, tem country, tem blues, tem blues-rock. Se tivesse tido oportunidade e talento para aprender guitarra, acho que era esse tipo de som que eu gostaria de fazer:



A letra da música é ótima também.

É pena que um sujeito desse naipe nunca venha dar essas guitarradas aqui no Brasil.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Os robustos F1

Os carros da Fórmula 1, todo mundo sabe, são o auge da tecnologia em quatro rodas. Extremamente desenvolvidos para andar mais e mais rápido, os bólidos são produzidos em fibra de carbono, um material bastante caro que possui a particularidade de ser mais resistente que o aço, com a vantagem de ser bem mais leve. São a melhor definição de design privilegiando a forma e o uso. São bonitos porque são moldados, seguindo parâmetros do regulamento, da melhor forma possível para perfurar o ar.

Além disso, os motores v8 entregam mais de 800 cavalos de potência às rodas motrizes. Por comparação, a potência de um carro 1.0 gira em torno de 70 cavalos. Essas verdadeiras usinas de força são capazes de girar a 19.000 vezes por minuto, enquanto nossos carros raramente passam de 5.000 giros no uso cotidiano. A tecnologia embarcada que monitora cada segundo, cada força, cada reação, cada detalhe do carro, conhecida como telemetria, está a anos luz do que podemos conceber em termos de diagnóstico eletrônico das condições de nossos veículos mais modernos que disponham de centrais eletrônicas.

São veículos feitos para correr e andar a mais de 350 km/h, sendo capazes de resistir às forças resultantes de uma velocidade como esta, de gerar arrasto e pressão aerodinâmica a tal ponto que seriam capazes de andar de ponta cabeça, pelo teto de algum túnel. São carros robustos, porque a aparente fragilidade das asas é compensada pela rigidez extrema da célula de sobrevivência, onde fica o habitáculo do piloto, um conceito desenvolvido para que o carro todo se desmanche numa colisão grave - exceto o lugar onde o piloto se expreme (você pode ver isso acontecendo aqui). São máquinas impressionantes, os Fórmula 1.

E para dar um testemunho da resistência, força, robustez e capacidade de suportar pressão encontrada nos monocoques utilizados pela F1, recomendo o vídeo abaixo, protagonizado por Gehrard Berger - uma espécie de Barrichello austríaco, foi o "Barrichello do Senna", o que desqualifica, portanto, tanta gente reclamar do Schumacher - e sua Benetton, que um dia além de fazer moletons e propagandas com o slogan "United collors of Benetton", resolveu produzir carros de Fórmula 1, e foi bem sucedida nisso:



"Oh, shit!"

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Rádio: Elvis Presley - I'll Remember You

Hoje, 8 de janeiro, é aniversário de Elvis Presley. Se estivesse entre nós, o Rei comemoraria 75 anos de vida. Mas não está, o que não quer dizer que seu aniversário seja esquecido por nós, fãs. Há diversas atividades em Memphis, onde o cantor residia, para comemorar a data.

Para lembrar de um dos sujeitos que mais ouvi em toda a vida, que mais marcou meu gosto por música, e ainda influencia meu interesse por rock, country, blues e tudo o mais, nada mais justo que postar essa canção - que tocará na hora derradeira, caso um dia eu morra. Eu vou lembrar de Elvis, assim como lembro de muita coisa. A gente é meio elefante, mesmo sem querer lembra, porque querendo, não esquece. Lembra, e aí canta, escreve, verseja. E sonha também.

I'll remember you.



"promise always, you'll remember too".

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Rádio: Eddie Vedder - Society

Alguém devia fazer a gentileza de dizer para Eddie que ele é muito melhor só, sem o Pearl Jam por trás.


O Inferno de Dante nos joysticks do mundo

Inferno de Dante é um clássico da literatura e compõe uma parte de uma obra maior, chamada de Divina Comédia, escrita por Dante Alighieri nos tempos do Renascimento. É um clássico que trata em verso da criação desse espaço conhecido como inferno, daí o nome, sob um viés épico e teológico.

Tornou-se o poema e a descrição do inferno um símbolo cultural, um ícone. Provavelmente a noção de inferno que as pessoas possuem no geral é muito mais atribuída ao poema de Alighieri do que a descrição presente nos textos bíblicos que, aliás, sobre o assunto se debruçam em redundâncias e contradições. Por certo que Dante trouxe a imagem do calvário que condensou em suas rimas dos versículos bíblicos, mas é inegável que as tintas renascentistas e as penadas suaves da poesia fizeram muito melhor serviço no que tange a condensação do inferno enquanto ícone na cabeça da cristandade ocidental do que a Bíblia.

De tal forma o Inferno de Dante transcende seus limites de época que virou símbolo. Inferno de Dante foi filmado em película, apresentado nos palcos, cantado em música, virou quadro nas mãos de vários pintores (Salvador Dalí, Rubens, Botticelli para ficar em alguns que pintaram o inferno segundo suas interpretações de Dante). De tal sorte a obra de Alighieri cresceu em si que se expandiu nos diversos campos culturais e virou signo. Muita gente diz "o inferno de Dante" para se referir ao inferno numa perspectiva ainda mais cruel que a normal e muitas vezes não têm a real noção do que é a obra. Muita gente acredita que "Inferno de Dante" seja uma pintura e não um poema renascentista, por exemplo, dada a caracterização desse termo como um inferno cheio de dor e sofrimento, e como se sabe, as pessoas tendem a ter mais facilidade a associar ações com imagens, daí a impresão, em muito auxiliada pelos diversos quadros com este nome de pintores famosos, de que Inferno de Dante seja uma pintura.

Sob todos os aspectos, portanto, o Inferno de Dante é um exemplo muito bem acabado de um bem cultural universal. Resistiu ao tempo, influenciou sociedades e culturas ao tornar-se uma noção, um conceito, de inferno; transitou por diversas manifestações culturais e está presente ainda hoje. Um exemplo disso é o surgimento da versão de "Inferno de Dante" enquanto jogo eletrônico. A Eletronic Arts, uma das maiores produtoras do ramo em todo o mundo, resolveu produzir um jogo baseado no poema renascentista, que tem lançamento previsto para fevereiro em diversas plataformas (Play Station 3, X-box 360 e há chance de que usuários de PC's possam descer aos infernos de concepção florentina).

Venho falando há um tempo sobre o surgimento de jogos com perspectivas muito avançadas no aspecto técnico e discursivo. Histórias elaboradas, mecânicas e discursos muito mais evoluídos que o Super Mario que nos acostumamos a vincular como imagem de jogo eletrônico, ou as aventuras em 4 cores no Atari. A adaptação da obra de Dante para os jogos é um sinal disso. A criação da história do jogo, por exemplo, ficou a cargo do roteirista Will Rokos, indicado ao Oscar em 2002 pelo roteiro de "A Última Ceia".

Todo o referencial original do texto de Alighieri está lá. Os Nove Círculos do Inferno, a aventura do cavaleiro Dante que deve descer às profundezas do reino do anjo caído para enfrentar o próprio Lúcifer com vistas a recuperar a sua amada Beatrice. No caminho deverá enfrentar medos, fantasmas, mosntros, bizarrices, medo, terror, o próprio inferno em si, a revelação de histórias e crimes de família que estavam esquecidos. E é esta a história da primeira parte de A Divina Comédia (o livro divide-se em: Inferno, Purgatório e Paraíso).

Pensemos nas possibilidades. Eu não li Inferno de Dante (o único clássico renascentista que tive colhões para encarar e luzes para compreender foi "Decamerão" de Boccaccio), mas fiquei conhecendo inúmeros detalhes da história em virtude de conhecer o game. E pensemos nas multidões que irão jogá-lo, quanta informação será transmitida e de alguma forma ensinada pelo jogo? Alighieri, se tivesse como conhecer a dimensão que sua obra tomou com o passar dos séculos, sem dúvida, ficaria orgulhoso.

E, enfim, jogar também é cultura.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

The Saboteur é mais que cinema, é jogo!

A indústria dos jogos não cansa de evoluir - em todas as áreas, do avanço técnico ao marketing. Uma novidade tem sido a aposta em virais na internet e tambéma a montagem de peças publicitárias mais elaboradas do que simplesmente colar imagens e vídeos dos jogos - o que normalmente é feito com alta liberdade poética em tratamento de imagens, apresentando uma qualidade que não estará disponível nem ao mais bem equipado dos jogadores. A aposta de algumas grandes softhouses vem buscando a convergência entre todas estas opções. Jogos não são mais coisa só de criança, meus caros, números, investimentos, impactos e a lógica do mercado de games aponta isso e não vê quem não quer, ou quem fica ocupado teorizando se jogos influenciam o comportamente violento dos sociopatas que nossa cultura produz.

Um exemplo bacana dos virais e dessa maneira nova de apresentar o produto é o trailer em live-action - ou seja, filmado com pessoas reais, e não com pixels - do jogo The Saboteur, ambientado na Paris sob ocupação na Segunda Guerra Mundial, recentemente festejado por este que vos bloga em virtude de possuir um discurso artístico (o jogo começa preto e branco e vai ficando colorido conforme você avança na história) e um apuro técnico extremamente elaborado. Gostei do jogo porque ele diverte, possui um roteiro cinematográfico, personagens marcantes - o protagonista Sean tem todo o charme do anti-herói e que nos cativa pela sua maneira de falar e reagir a imprevistos, um sujeito cativante, assim como Skylar, a bela coadjuvante em boa parte da história. Sean é um mecânico/piloto de corridas irlandês, o sujeito que aparece detonando a bomba por telefone no final do vídeo, e seu objetivo, em virtude de querer vingar-se, é sabotar os alemães que ocupam Paris, ajudando a Resistência Francesa, famosa e cantada durante os últimos 70 anos em prosa, verso e cinema. E agora jogos. A cidade é um mapa aberto, você pode ir para qualquer lugar, seguindo a mecânica de mundo aberto inaugurada com sucesso na franquia GTA.

Trailer de The Saboteur em live-action:



Recomendo que assistam no YouTube, onde o player é maior e mais conveniente.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Planeta Vênus e 2010

O lado bom em ser cético de quatro costados é que ao saber que 2010 será regido por Vênus, o planeta das mulheres, você pode dizer "desse mal eu não padeço, não acredito em astrologia".

domingo, 3 de janeiro de 2010

Rádio: Johnny Cash - The Man Who Coudn't Cry

Em comemoração à ótima notícia de que Cash terá álbum novo na praça em fevereiro, vai de lambuja uma canção do homem de preto:


sábado, 2 de janeiro de 2010

Poesia Hessiana 2

Eu que andava meu rumo atrás de verdade e tarde ensolarada
tropecei, cai, fiz a volta, e desisti da caminhada.
Nas sombras ouvia anjos que chamavam minhas dores imortais.
Conforme me afastei, perdi-me de tudo que reluzia
e hoje me conformo, porque meu nome ninguém chamará mais.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

2010

Ponderação primeira sobre 2010:

Puxa! É a cara de 2009!

O dia em que cresci

Uma das coisas que eu disse em 2009 e foi anotada por amigos como grande aforismo, a ser repetido em qualquer ocasião que caiba, é "o homem é um ser eminentemente nostálgico". Referia-me, segundo lembro, às nossas lembranças do outro tempo, onde tudo sorria. Do tempo da passada amizade, do vida descomplicada, desse doce fardo que o tempo nos atirou no lombo e hoje carregamos para todos os lados e sorrimos quando indentificamos uns nos outros essas besteiras. É a nostalgia.

Somos, portanto, criaturas que criam e sustentam a nostalgia. E nada mais nostálgico do que entrar um novo ano, do que sopesar o que passou, arquitetar o que vem por aí. Nessa tarefa, ontem, a nostalgia levou-me a procurar arquivos antigos, remexia uns guardados de um hd velho e aposentado, que eu queria ver se ainda funcionava. Lá estavam algumas anotações de quando eu tinha 14 anos, sonhava, vivia e queria mudar o mundo, eu fui jovem um dia - naquele tempo não existiam blogues e ainda assim eu conseguia perder tanto tempo quanto hoje defronte ao computador.

Em 1998 eu nadava todos os dias no clube, era instrutor de natação de meio período no verão, ia para escola, tinha vida social, fazia curso de inglês, jogava Metal Gear Solid e Gran Turismo, lia com voracidade Julio Verne. Brincava com computadores e era capaz de algumas coisas em matéria de programação. Foi aos 14 anos que dei meu primeiro beijo. Mesmo para os padrões da minha geração, eu era praticamente um ancião.

A garota que beijei fazia intercâmbio aqui no Brasil, era australiana. Confesso que não lembrava do primeiro beijo - é sério - sabia da época, mas não tinha na memória a identidade da vítima e as condições pelas quais deu-se o evento, sob muitos aspectos, inaugurador da minha longa carreira de frustrações com o sexo oposto, do meu longo catálogo de desastres vinculados a difícil arte de entregar sentimentos a pessoas que desconhecemos e que justamente por isso são imprevisíveis. Depois da intercambista, naquele mesmo ano, aconteceram outros beijos. Eu era foda. Talvez por isso tenha esquecido dos detalhes desse episódio. Mas de todo jeito, não foi o registro do beijo que me chamou atenção nessa relíquia da minha era paleozóica, e sim umas três ou quatro linhas, que compõe o contexto da anotação, a título apenas de registro. O que me interessou nesse artefato escavado depois de espaná-lo e assoprar a poeira foi o assunto que falamos antes de nos beijar e ao qual, aos 14 anos, dei pouquíssima atenção, obtuso e idiota da objetividade que era.

Esqueci sinceramente de tudo isso - se me perguntassem meu primeiro beijo, diria que foi numa certa Thaís alguns meses depois - e fiquei feliz em tropeçar nas notas quase fossilizadas nos clusters do velho hd de 8 gigabytes (no meu celular cabe mais do que isso!), onde estava tudo registrado para que a arqueologia trouxesse a luz da contemporaneidade o que fiz naquela noite de outubro de 1998. O nome dela era Hellen, nos conhecemos na escola, ela tinha a mesma idade e estava na mesma série, embora em outra classe, e tinha vindo da Austália por compensação de uma garota, com a qual estudei antes e depois disso tudo, chamada Karen, e que fora para a Rússia.

Mentiria se dissesse que lembro de Hellen. Não lembro bem da face, da voz. Lembro que tinha um cabelo loiro, mas mais para o castanho do que para o loiro. Por conta do destino, não tenho mais fotos daquela época, e eu lembro que tinha uma com ela no dia em que ela foi embora do Brasil, na despedida, onde não houve beijo, disso lembro bem, a festa era na casa da família que a hospedava, e de certa forma éramos crianças. A conhecera, conforme disse, na escola, e foi o fato de frequentarmos a mesma escola de idiomas que extendeu nosso contato e nos fez próximos o suficiente para que ela caísse na asneira de me dar um beijo, ou vice-versa. Hellen, por suposto, não tinha dificuldades no inglês, estudava espanhol. Quem engatinhava no idioma saxão era eu, conversávamos um híbrido de inglês, português, espanhol e mímica.

Foi numa festinha de aniversário que nos beijamos. Registrei que conversávamos no momento, apartados de todos, "sometimes in portunhol, y algumas veces in portuguese". Anotei que o assunto era sobre palavras e definições que não existem paralelos nos idiomas nativos. Um dos exemplos mais bem acabados disso é a palavra saudade, "o charme brasileiro", que não aparece em muitos idiomas - pra não dizer em quase nenhum que não o português. Não posso me fiar muito no registro, mas consideremos que é o único que eu tenho, que na época não bebia e que não considerava naquele momento ser jornalista, o que garante ao texto alguma probidade.

Escrevi há 11 anos que tentei explicar saudade para Hellen e ela me veio com as comparações disponíveis no inglês, onde a gente diz "I miss you", que em libérrima tradução, conforme sabe-se, daria num "sinto sua falta". Mas não é isso. Saudade é mais que sentir falta, saudade vai além, saudade não é charme brasileiro, saudade é qualquer coisa metafísica, saudade é estar com alguém, com algo, é estar em outro tempo, outro lugar, é sentir a plenitude de algo fugidio, que não é mais, que não há mais. Saudade é uma reminiscência, saudade é uma coisa pesada, imensa, saudade é meio pedra, meio aço. Saudade dá em todo mundo, mas não é todo mundo que sabe como chamá-la, porque não é todo mundo que tem nome pra isso, não é todo mundo que fala português. Saudade é sentir as coisas ao contrário - backwards. Não é sentir falta, sentir falta é consequência de ter saudade. Saudade é ainda poder sentir coisas que não são do tempo, do dia, coisas que passaram, que não são mais, que foram. Saudade é tempo verbal, é outra dimensão do pretérito, podemos conjugar qualquer sentimento pela saudade. Saudade é uma máquina do tempo que só volta.

Evidentemente que aos 14 anos eu não tinha essa dimensão toda do peso da saudade, essa capacidade incrível de tantos lugares comuns sobre o assunto. Eu sabia que saudade existia e achava que sabia alguma coisa sobre esse peso enorme que damos o nome de saudade, quase que uma outra "insustentável leveza do ser" - tenho muita inveja dessa frase, título do clássico de Milan Kundera. E ainda que tivesse essa acuidade, não conseguiria dizer isso tudo em portunhol, inglês, mímica. Diria o que disse, que o "I miss you" não é um sentimento, é uma constatação: sinto sua falta. Saudade é um sentimento, vai além. Paramos por aí, porque nos abraçamos e o resto é história. And oblivion.

Não sei onde diabos Hellen está hoje, o que faz, o que fez. Até saberia onde ir para procurar informações, mas evidentemente não farei isso. Se nada triste lhe aconteceu, tem 25 anos como eu, deve ter colecionado uma porção de alegrias, um pouquinho de tristeza, porque ela nos dá a consciência de existir (ver Oscar Wilde). Mas gosto de pensar que ao lembrar de seus 10 meses de Brasil há um espaço para pensar naquela noite de outubro, no aniversário do Igor, de um garoto tímido e nervoso explicando uma palavra estranha ao inglês, "saudade", que não existe na Austrália, mas que hoje, ao pensar no menino, em toda aquela época e naquele dia, ela sabe bem o que significa.

Rádio: Radiohead - Bones

"When you've got to feel that in your bones".


Blasfemias 1

"... nada disso, não se trata de ateísmo, agnosticismo, má vontade, blasfêmia, magia negra, satanismo, provocação. Nada. Nada mais que meu deboche. Se eu tolero o seu direito de dizer que terei uma morte horrenda, em dor e miséria, permita que eu diga que isso é besteira, e que o sujeito que me impõe esse destino não só desdiz do meu alardeado livre-arbítrio, como também é muitíssimo rancoroso. Insisto, não é maldade, é exercício. Vem-me a mente que muito do que se diz, se prega, se escreve, se interpreta e se expande na nossa sociedade, na nossa cultura, é, na melhor das hipóteses, besteira. E não me venha de hipocrisia, porque diferente de você, eu li na fonte. Você ouviu as versões adaptadas e interpretadas com matizes friamente calculados. Vem-me essa vontade de dizer que é besteira desde a falta de respostas para as várias contradições de texto que encontrei e para as quais nunca atinei solução que desse jeito, por meus esforços e mesmo pela boca dos outros. Uma vez perguntei porque o filho imaculado precisava de batismo, se não tinha pecado original, posto que era rebento de uma virgem, e vinha sem pecado ao mundo. A única resposta foi: mistérios. Mas se é tudo mistério, pra quê livro? O livro não era para trazer o caminho da verdade (é a etimologia da palavra), mas só instila dúvida, contradição e realismo fantástico? Você diz para que eu meça as palavras, fala em castigo, me incute ao temor de algo que, a rigor, nem você sabe onde está, de onde vem, se existe mesmo, ou para onde vai. E outra, se me castiga, não é piedoso, bom, justo. Provavelmente eu sou mais justo que quem me amaldiçoa, porque eu cansei de ser zoado na adolescência e não roguei praga nenhuma, não causei dor, pranto e mágoa, embora possa ter me convulsionado em momentos de ódio e raiva, destilando meu veneno em momentos particulares de auto-comiseração de adolescente, mas sou humano, me dou ao direito de errar, cresci e cresço com isso. Você usou o exemplo do engenheiro do Titanic, que teria dito que nem que quisesse lhe afundavam o navio, e não deu outra, porque na viagem inaugural deu-se o desastre. Mas e aí? O livre-arbítrio não permite uma pretensãozinha? No bojo do Titanic não iam fiéis de nenhuma basfêmia, inocentes tolhidos da vida de maneira agonizante num oceano congelante? Crianças? Talvez um cidadão que impedisse a guerra de poucos anos mais tarde? No meio dessa gente talvez tenha se perdido a linhagem do sujeito que curaria o câncer! Quem vai saber? Convem, então, ceifar indistintamente a vida de 1500 pessoas inocentes e preservar o herege, que blasfemou acerca da segurança de seu navio? É desse tipo de misericórdia que eu abro mão regendo as veredas do mundo e que você não vê, não calcula e, pior, defende. Isso, entretanto, não desqualifica a noção de misericórdia, mas desqualifica a sua noção de deus, e por conseguinte, esse seu horror nas minhas piadas, nas minhas ponderações. Porque seu deus não é bom, não é justo, é simplesmente forte - e tua fé se constrói em medo. Se eu não posso criticar, não é uma doutrina, uma filosofia, um modelo que sirva para mim. Se não posso botar defeito, encontrar e apontar falhas, um dia esse feixe quebra, um dia essa ponte desansa, e afogamos todos como o homem descrito por Hesse. Não me entra na cabeça, no coração, que alguém seja pai, crie, dê-me condições de pensar e não queira que eu pense, que eu discuta, que eu cresça, que eu conheça, e que desafiando, eu progrida. Esse não é pai, é padrasto. É pastor, sempre a nortear o rumo do rebanho, impedindo que este o trilhe por si, e quem precisa de pastor é ovelha. Não sou ovelha, sou homem".

Blasfemai, meus queridos, blasfemai!

Evangelhos de Tertuliano.