Outro dia eu mesmo dizia,
vivendo, aprendendo, tudo é demais.
O que vale é lembrar que tudo que se fazia
só se justificava em outros carnavais.
Por que hoje vou resistindo.
Soçobro no oceano dos tempos em busca de um cais.
Entre as ondas paro, penso. Sigo existindo,
e tendo enorme saudade dos grandes festivais...
sexta-feira, 31 de julho de 2009
Festivais
quinta-feira, 30 de julho de 2009
De dia, amantes
Você pode ser bom.
Até ser desses que seguem o que o coração manda.
Que sempre fica pensando no antes...
Mas um dia você percebe, aprende,
que não adianta, tudo é uma perda de tempo.
E que viver, na verdade, não é pra principiantes.
E quando nada mais se sente,
quando tudo se desmancha pelo ar,
é que você entende que de nada valem os diamantes.
quarta-feira, 29 de julho de 2009
Pois é
E hoje o dia foi tão ruinzinho, mas tão desagradável, que não há verso que chegue pra dar jeito nessas jornada. Que sequer acabou, ainda. Pode piorar, portanto. Oremos.
E quem puder me mandar um abraço por comentários, que seja, fico eternamente agradecido.
às 19:41 2 comentários Marcadores: Memórias
segunda-feira, 27 de julho de 2009
Quando as coisas ficam sérias e saem do controle
Felipe Massa sofreu um grave acidente nos treinos para o Grande Prêmio da Hungria de F1 no sábado. Grave acidente porque a coisa de uns 280 km/h ele chocou-se com uma mola, que pesa umas 800 gramas, e que vinha na mesma direção, mas em sentido contrário - ou seria o inverso? - a uns 200 km/h. A referida mola acertou-o na altura do supercílio esquerdo e não precisa ser um gênio da física para calcular que o impacto não foi bonito.
Se você acompanhou ao vivo ao acidente deve ter testemunhado o clima de velório que tomou a transmissão. Sabe-se que o narrador, Galvão Bueno, é chegado às luzes da ribalta. Ele gosta de ser amigo de todo mundo. Direito dele, ninguém tem nada com isso. O problema é que a compulsão de Galvão - e isso vale como regra para basicamente todo o jornalismo esportivo da Globo, que é um grande oba-oba e não tem nada que se assemelhe com um jornalismo que cobra, fiscaliza e investiga - acaba prejudicando a informação em situações extremas, que fogem do comum do cotidiano esportivo. É o caso desse episódio. No momento do acidente saiu de cena o locutor e entrou o amigo pessoal. Saiu a informação e entrou o senso comum, o clichê.
O esporte é tratado na Globo de maneira infantil, rasa e descompromissada. De maneira pueril. Ninguém ali questiona o poder instituido, no caso, CBF, CBA, organização ridícula da Stock Car, federações de outros esportes, o Nuzman, o Ministério dos Esportes, o COB e por aí à fora. O jornalismo da Globo se contenta em chamar todo mundo de bobo, chutar pra baixo o nível da cobertura e se contentar com placares, ufanismos e bobagens do gênero.
É por isso que a cobertura do estado de saúde de Massa foi, em última análise, uma vergonha. Uma aula de como não ser profissional e, pior, competente. Nas primeiras 48 horas de internamento do piloto as notícias de outras fontes e de veículos internacionais davam conta da gravidade do quadro. Médicos da equipe do hospital hungaro falavam em risco de morte. A Globo preferiu entrevistar o Dr. Dino Altman, que foi do Brasil a Budapeste como consultor da família Massa, para arrancar dele que "acredito que, no momento, não há risco de morte eminente", para evitar o que se dizia àquele momento. A Globo fez de tudo pra ocultar a gravidade da coisa toda, o que é ridículo.
Ridículo porque não é um jogo onde você apela para o emocional das pessoas para que torçam e liguem a TV. O vício profissional de só cuidar do esporte em sua dimensão lúdica parece ter afetado a coordenação do departamento da emissora, porque o enfoque deixou de ser no fato de que o quadro era grave, falava-se em morte, possibilidade de sequelas, para estar centrado na "torcida", ou nas orações do Brasil, na família do piloto e no que um médico externo, o Dr. Altman, tinha a dizer. Ridículo, amador.
O interessante é que a Globo assumiu no caso uma postura de emissária de notícias unicamente alvissareiras, de querer "tranquilizar o torcedor brasileiro". Não tem que tranquilizar. Tem que veicular a verdade, doa a quem doer, seja ela qual for. Se o cara dá com a ideia numa mola em alta velocidade, tem o impacto presumido de 150 kg na cabeça em pentelhésimos de segundo, sofre afundamento craniano, precisa de cirurgia para remover fragmentos ósseos, é colocado em coma e, por fim, tem risco de morte presumido pela equipe que o atende, então a coisa é grave e não há como escapar disso.
O bom nisso tudo é que Massa vai melhorando, distante da palhaçada que se tornou a cobertura da sua convalescença em termos de incompetência de uma parte e sensacionalismo de outras da imprensa. E o jornalismo esportivo no Brasil, está tudo dito, realmente inexiste. É antes de tudo muito bom para todos e também muita sorte, mesmo, tendo em vista a gravidade do acidente, que a equipe médica tenha afastado o risco de morte hoje. Mas fico pensando: e se as coisas dessem realmente mal? Como que a Globo iria se justificar?
Diriam o quê? Ontem ele estava bem e, de uma hora pra outra, piorou?
Quer saber? Diriam. E todo mundo aceitaria.
às 20:32 1 comentários Marcadores: Atualidades, Fórmula 1, Mídia
domingo, 26 de julho de 2009
Rumo ao grunhido
Eu desdenho do Twitter porque acho uma bobagem desnecessária demais. E a vida é feita de bobagens, por isso tendo a dedicar o meu tempo àquelas que, ao menos, primam por não serem desnecessárias.
E José Saramago deu uma entrevista ao jornal O Globo. Sobre internet, blogues e outras bossas. Perguntaram ao lusitano, que tal é, essa coisa aí, meio assim, de Twitter. Se lhe apeteceria ter uma conta no serviço de microbobagem, digo... microblog. Disse Saramago:
"Nem sequer é para mim uma tentação de neófito. Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido".
O "grunhido" foi grifo meu. É impressionante. Eu me debato escrevendo, escrevendo, escrevendo e pensando no assunto. O português vai lá e, numa frase, diz o que eu queria.
Impressionante.
às 17:10 1 comentários Marcadores: Atualidades, Cultura, Mídia, Tecnologia
sexta-feira, 24 de julho de 2009
Poesia negativa de -2
Olhe lá pra fora...
contemple o ar gelado,
o solo orvalhado...
e pense que, aqui, logo ao lado
está de tudo um pouco.
De nada, um tudo,
de frio um luto,
e tudo mais que o gelo faz eterno.
E na agressão gelada que conforta
em um inverso, pelo ar condensação,
deixando na mente uma compensação
que no fim, tudo que mais importa,
é que vamos, todos juntos,
uns mais, outros menos,
aquecer o inverno.
Mecânica quântica aplicada
É a graça do mover-se
o flanar dos teus cabelos...
o vento que acaricia seus olhos,
e me bate na face
lembrando-me de esquecer-te.
quinta-feira, 23 de julho de 2009
23
Hoje eu precisava escrever...
compor, construir e dizer,
que criar pressionado por datas
é uma forma de esquecer
o que elas significam.
Por isso o que vale é lembrar
do motivo da data, da razão do poema,
dividindo verso por verso, até acabar,
e encontrar aqui, nas entre-linhas, perdido, o verdadeiro tema.
Mentiras
Estava eu hoje assistindo um episódio de House e o próprio diz em dado momento:
"Mentiras são como crianças: inconvenientes, mas o futuro depende delas..."
e
"Se você fala com Deus, você é religioso. Se Deus fala com você, você é psicótico".
às 14:47 0 comentários Marcadores: Cultura, Entretenimento
terça-feira, 21 de julho de 2009
Espaços
Eu queria desenhar com estrelas...
queria fazer poemas com constelações,
e dizer pelas grandes veredas,
que lá no céu estão todas as minhas paixões.
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Quarenta anos de Lua
Não serviu pra muita coisa. É essa a conclusão do aniversário do pouso do homem na Lua. Fazem, hoje, 40 anos. Eu, como todo garoto, fui obcecado por astronômia durante um bom tempo, lia muito sobre naves, voos, aventuras. Lembro de quando lançaram o filme Apollo 13, assistindo em casa com meu pai, intrigado com as dúvidas que tinha sobre um voo até à Lua que minha curiosidade natural ainda não tinha sido capaz de resolver.
Em 2007 tivemos outro aniversário simbólico e de jaez semelhante: tratava-se aí do cinquentenário do lançamento do Sputnik. A bola de metal que fazia bip-bip-bip e o fato de esse bip-bip-bip poder ser escutado aqui na Terra deu o ensejo para que se desenvolvessem as mais variadas artes no sentido de comunicação, massiva ou não, do ser humano, rompendo distâncias, as infindáveis vagas dos oceanos, os ares, enfim. Tudo pra descobrir, que no fim das contas, o verdadeiro problema de comunicação ainda é o face a face, téte-a-téte.
O Sputnik, na pior das hipóteses, abriu o espaço (ahn? Ahn?) para a onda de inovações que hoje permite que você leia este texto num computador em qualquer lugar do mundo. A chegada do homem à Lua não. Foram lá, trouxeram pedregulhos, fincaram bandeiras e a Lua continua branca, inóspita, desabitada, praticamente imóvel, a bastar apenas para inspirar poetas e bêbados de ocasião. Alguém poderia citar os intermináveis avanços advindos da era espacial. Pois é, mas eles viriam com ou sem viagem para a Lua. Então, são mais culpa do Sputnik.
Mas o aniversário é da Apollo 11, não do Sputnik. Embora eu ache que não dá pra falar num sem falar noutro. O Sputnik foi o princípio (ou os V-2 do Wernher Von Braun?), depois dele o homem orbitou à Lua, o homem pisou lá, criaram os ônibus espaciais, eles explodiram e ninguém mais voltou pra Lua porque lá, irremediavelmente, não tem porra nenhuma.
A conquista da Lua não nos fez mais pacíficos, mais evoluídos, não nos ensinou muita coisa, infelizmente. Porque a história é bonita. É uma epopeia paralela àquela de Colombo, que disse que a Terra era redonda, e quem pensava o contrário não estava com nada. O que há de grande nessa história é, como sempre, o lado humano. A história de vida de Edwin Buzz Aldrin, o segundo homem a pisar na Lua, que entrou em depressão por ter sido o segundo. O medo, enfim, o desconhecido.
Quarenta anos. Eu lembro de 1999, quando foram 30 anos, das publicações especiais. Superinteressante e Veja tinham reportagens anotando a efeméride. E eu, não mais criança, ainda colecionando dados na mente sobre aquilo que considerei naquele tempo, a maior aventura humana entre todas.
Cresci e parei com bobagens. E com definições unilaterais.
A gente cresce, fica um pouco mais esperto em umas coisas. Noutras, fica mais bobo. Mas de uma maneira geral, perde completamente a inocência.
Nota: bacana este site. Nele reconstroem em tempo real toda a missão. Você pode acompanhar passo a passo, com vídeos, fotos e gravações originais toda a viagem. Aliás, o site é excelente, merece uma olhada.
às 19:17 0 comentários Marcadores: História, Memórias, Tecnologia
domingo, 19 de julho de 2009
Não há mais Henry Surtees
Motoracing is Dangerous. Você encontra essa frase em qualquer ingresso e credencial para uma competição de automobilismo razoavelmente séria. Porque é verdade, corridas podem matar. E matam, eventualmente.
Hoje, numa etapa da F2 na Inglaterra, morreu um garoto. Henry Surtees, 18 anos, filho do campeão mundial de F1 de 1964, John Surtees, não resistiu ao impacto de um pneu. Um acidente bobo, uma morte estúpida, que nos faz pensar até que ponto a bobagem tão humana de dirigir feito loucos pra ver quem é o mais rápido mundo à fora não é, no fim das contas, mais idiota do que parece à primeira vista:
Alguém dirá: mas ele morreu assim? É, o acidente é bem menos espetacular do que sugere a palavra "morte", so tipo de incidente corriqueiro mesmo em corridas. Ele deu um tremendo azar de encontrar o pneu que quicava naquele instante. E como base de comparação, nesse outro acidente, dessa vez na F1, no GP do Canadá de 2007, o piloto, Robert Kubica, saiu apenas com lesões leves na perna:
A comparação entre esses dois acidentes dá uma ideia da palavra fatalidade, do azar. É estranho perceber, e mesmo admitir, que a morte tem um timing próprio.
Como dá para ver no vídeo do acidente fatal de Surtees, um pneu acertou-o na cabeça. Uma tremenda infelicidade, sem dúvidas. Mas é bem verdade que um pneu, àquela velocidade, não poderia sair do carro. Em categorias de mais destaque, como F1 e F-Indy, existem cabos que prendem as rodas aos carros para que não saiam voando e não acabem, assim, arriscando a vida de pilotos, públicos e fiscais de pista (já aconteceram mortes entre público e fiscais por pneusadas na F1 e na Indy). Na F2 não sei se é assim, se há ou não cabo. Se não há, como parece, acontecerão processos, laudos e estudos - sobretudo se forem reais as informações de que ao longo desse ano não é o primeiro pneu que se solta de um F2 - que dirão: foi uma fatalidade. Mas que poderia ser evitada, que são culpados os promotores da categoria por não ter estudado essa possibilidade e os que projetaram e produziram o chassis, no caso a equipe Williams de Fórmula 1.
O que, hoje, à luz da verdade dura e fria do garoto que interrompeu seu sonho de ser mais rápido que todos os outros, chegar na F1, a coisa toda, não importa nenhum pouco. Não há mais Henry Surtees.
às 23:41 0 comentários Marcadores: Atualidades, Fórmula 1
sábado, 18 de julho de 2009
Jacques Villeneuve
O ano era 1997. Já toquei no assunto aqui outras vezes, esse período da minha adolescência. Enfim, carne de vaca, vamos pular os pormenores e apenas à título de por a par eventuais leitores de ocasião, o que há para se dizer é que minha adolescência foi muito, mas muito, anti-social.
Eu tinha gostos muito meus, que não tinham paralelo nos de minha idade. Na verdade, ainda não têm - ou têm pouco, enfim, sou um original, um excêntrico.
E enquanto todo mundo estava às voltas com outras figuras, naquele espírito de copiar os que admiramos, eu curtia o Jacques Villeneuve.
Trata-se, no rigor dos idiotas da objetividade, do campeão mundial de Fórmula 1 em 1997. Canadense, filho de uma lenda do automobilismo, Gilles Villeneuve, que morreu numa Ferrari nos treinos do GP da Bélgica de F1 de 1982. Mórbidos: eis o acidente aqui no YouTube.
Jacques chegou "chegando" em 1996. Venceu corridas e se impôs. Ele era bacana, tinha um capacete cor-de-rosa, pintava cabelos a crepom (ei, eu fiz isso e quase fui expulso e deserdado de casa). Jacques, em suma, era legal porque tinha, o que ele diz faltar na F1 hoje, personalidade. E eu me identificava com ele, achava o cara um heroi porque estava nem aí com o main-stream da F1, e ele vencia o Schumacher, que era, na época, meu anti-heroi.
Enfim, Jacques teve duas grande temporadas, 1996 e 1997. E daí em diante, desandou e nunca mais repetiu grandes performances. Acabou defenestrado melancolicamente da F1 no meio da temporada de 2006 por, diziam os seus patrões da BMW, falta de desempenho.
E hoje Jacques vem dizendo que gostaria de voltar à F1. Muitos torcem o nariz, ele tem já 38 anos, deixou uma última imagem muito infeliz.
Diante disso, perguntaram: "você precisa provar mais alguma coisa ainda na F1?"
Poderia arrotar arrogâncias e as convicções que movem os grandes nomes do esporte, sempre em frases feitas, tocando sempre em "continuo me rápido, me mantenho motivado, sou capaz de vencer, acho que minha história na F1 ainda não acabou..." enfim. Ele respondeu:
"Quero que meus filhos me vejam correr".
Pode parecer piegas. E até meio sem sentido para quem não conhece muito bem o universo da F1. Mas é uma mentalidade, uma declaração, das mais humanas num mundinho feito de dinheiro, vaidades, corrupção e mentiras.
Villeneuve é o cara.
às 20:38 0 comentários Marcadores: Fórmula 1, Memórias
Aprendendo a ser Gay
Impensável. Ao menos sempre foi assim que vi a possibilidade de, um dia, ter a chance de conhecer, ouvir, respirar do mesmo ar, conviver no mesmo espaço no mesmo tempo com Gay, de Gaetano, Talese - e isso aconteceu! Ontem, no MASP. O maior jornalista vivo, segundo minhas contas. Provavelmente o maior repórter de todos os tempos. Mas é uma generalização meio perigosa, porque parando para pensar, ao longo dos tempos, muita gente boa já se meteu a fazer jornalismo. E o fez bem. Talese entre esses.
Ponto, parentêsis. É, o homem é bom. Leiam. Fecha parentêsis.
Antes que metade dos meus 8 leitores que, desconfio via de regra, não são jornalistas - muito embora, hoje, segundo as equilibradas ponderações dos homens togados, qualquer um possa se classificar como jornalista, tendo a crer que não estão por aí fazendo isso a torto e a direito - e resolvam abortar a leitura deste post por conta do caráter vocacionado do tema, saibam que o que faz de Gay Talese o mestre que é a sua capacidade de transformar o texto jornalístico interessante na medida que escreve-o como sendo ficção, só que de fatos reais. Há quem chame de literatura de não-ficção, de romance de realidade. Chamam também de jornalismo literário, doutrina defendida e amada por este que vos escreve. É, em suma, a junção de literatura e jornalismo. De um lado entram os recursos e aprumos estéticos próprios da arte e dos grandes ficcionistas, de outro o foco na verdade e naquilo que importa e pode fazer diferença que, em teoria, é perseguido pelo jornalista.
E quando tudo isso encontra uma mente como a de Talese o resultado é sucesso de crítica e de vendas. Talese é perfeito, um dos grandes escritores contemporâneos.
Iniciei este post para dizer que nunca tinha cogitado a oportunidade de vê-lo ao vivo. Pois eu vi. Ontem, numa palestra gratuita no MASP (cabem aqui mais parênteses remissivos, comecei esse post há mais de uma semana nas minhas peregrinações e por uma série de circunstâncias, só fui terminá-lo hoje). A distribuição dos ingressos começava às 18:30, e às 15:30 já havia fila sob o vão livre do museu. Nas palavras de Talese sobre o Brasil, disse que ficou encantado com a FLIP (Festival de Literatura de Paraty, onde esteve), porque nunca tinha visto, nem mesmo em Nova Iorque onde reside, "tanta gente atrás de livros e autores. Falei para 700 pessoas, e fora outras acompanhavam tudo pelo telão".
Gay Talese tem uma especial atração pela pessoa comum. Pelo ordinário, mas sua elegância no trato com a palavra escrita, sua facilidade para entender a dimensão da vida humana, do ser humano e seus caminhos, ideias e teimosias faz de cada personagem, e embora reais, os são de todo direito, uma aula sobre observação. Sobre humanidade mesmo, porque cada uma das centenas, milhares de pessoas talvez, que Talese entrevistou e esmiuçou em seus geniais trabalhos nos ensinam sempre um pouco mais sobre o humano, demasiado humano.
A primeira
Talese contou como foi sua primeira matéria para o The New York Times, em 1953, quando estreou como jornalista. Ele era então uma espécie de office-boy, do jornal. Mas, como ele mesmo mostra no seu "O Reino e o Poder", uma grande reportagem sobre a história do NYT, esse foi o primeiro passo na carreira de muitos grandes jornalistas norte-americanos do século passado.
Ele conta: "um dia na hora do meu almoço, andando vi um letreiro composto de milhares de lâmpadas. Era ali, na Times Square, onde o letreiro ficava mostrando as manchetes do dia. Aquilo me fascinou, fui até o prédio e entrei. Subi, e no final de uma escapa, no terceiro andar, vi um homem solitário com um controle na mão, manejando-o com os dedos. Fui até ele e perguntei o que fazia".
O homem compunha, com os dedos e anônimo - o anonimato é tudo na obra de Talese - as manchetes que fascinaram-o no exterior do prédio. "Perguntei a quanto tempo ele fazia aquilo, ele me disse que há 25 anos. Sua primeira manchete tinha sido sobre as eleições daquele ano, a vitória de Hoover, eleito então presidente. Pensei 'esse é um grande trabalho!', e perguntei se poderia escrever sobre ele. O homem disse que sim, ainda que não visse nada demais no que fazia e nem a possibilidade de alguém se interessar pelo seu trabalho. Tomei minhas notas".
Talese voltou ao trabalho. Depois do expediente emprestou uma máquina de escrever e compôs o texto, que foi mostrado a um repórter e a um editor. Gostaram. Publicaram, e o resto é hitória. Uma história recheada de talento, brilho, simplicidade e elegância.
"Temos como jornalistas que procurar a verdade. E defendo que o jornal deve trazer algo mais do que o relato objetivo. O texto, a palavra escrita, precisa de uma dimensão estética". Foi um sentimento de catarse ouvir isso, tenho uma história com professores recalcados que vomitavam precisamente o contrário na minha época de graduação.
"A internet é o fast-food da informação".
A lamentar: não pude tirar uma foto com ele. Ninguém poderia, evidentemente. E não consegui um autógrafo. Abonados que foram a Paraty, sim.
Inveja.
Leia mais aqui!
* Curiosidade: o bigorrilhas que assina este blogue aparece na segunda foto. De costas, mas está ali. Fotos retiradas deste álbum aqui do Flickr. As minhas ficaram horríveis.
às 18:15 0 comentários Marcadores: Cultura, Memórias, Mídia
Dodecafonia
O bom poeta
não é aquele que é bom de verso,
nem aquele das boas rimas.
É o homem das grandes agonias.
O bom poeta é o do sentimento adverso,
da noção de que a vida precisa de menos barulho...
e mais dodecafonia...
quarta-feira, 15 de julho de 2009
Rádio: The Gutter Twins - Down the Line
Nova categoria no blogue. E começamos com o meu toque no celular, a melhor música de todos os tempos da última semana, Down the Line, cover do Gutter Twins em cima do original de José Gonzalez:
às 18:14 0 comentários Marcadores: Rádio blogue
terça-feira, 14 de julho de 2009
Meu primeiro bootleg
Conforme já lhes contei, estive no primeiro dia deste mês de julho no show de Mark Lanegan em São Paulo. Eu e, muita gente por lá, gravamos o show. Como a experiência de ouvir o sujeito numa apresentação de caráter tão intimista e acústica foi simplesmente incrível, resolvi me aventurar e produzir um bootleg do show.
Ponto, parágrafo. Bootleg é o nome que se dá a gravações extra-oficiais, de shows, apresentações, passagem de som e até de entrevistas - que fãs lançam, com ou sem interesses comerciais. Eu não os tenho, fiz o bootleg e está disponível para downloads aqui.
E ficou bacana. Extrai os audios de vídeos do show disponíveis no YouTube, além de alguns que gravei com meus camaradas, e editei os mp3 em um programa que lembra muito o Garage Band da Apple, o Acustica Mixcraft (é bizarramente fácil criar músicas nesse coisinho, vicia).
A imagem acima é a capa, que também fiz, do bootleg, primeiro e até aqui único, de "An Evening With Mark Lanegan & Greg Dulli", com músicas do Afghan Whigs, Screaming Trees, Twilight Singers e The Gutter Twins, além da carreira solo de Lanegan.
E esse é meu primeiro passo na carreira de produtor musical.
Ouça uma das faixas:
às 18:52 0 comentários Marcadores: Cultura, Entretenimento, Tecnologia
segunda-feira, 13 de julho de 2009
Poema alado
Eu quis hoje te escrevere um poema lindo.
Como diz o Quintana.
Eu queria hoje ter te acordado,
com o carinho de um verso,
com a surpresa de uma rima.
Eu queria, hoje, ser um poema alado.
Eu poderia voar até Bonito,
te encontrar e te declamar,
pelo ruído de uma cachoeira,
os versos calados, o poema alado,
e te dar um pouco mais dessa emoção.
Dessa comoção tão certeira,
desse desassossego infinito.
E continuo querendo te escrever um poema lindo.
domingo, 12 de julho de 2009
O assassino terrivelmente lento com a arma extremamente ineficiente
Uma desligada do blogue meio atípica nos últimos dias. Estranho. Me desligo disso, que é lazer, nos tempos em que não tenho muita coisa produtiva pra fazer. Freud explica.
O bacana é que tenho vários posts no forno, começados e esperando publicação. Com o tempo tiro o atraso. Putz, escrevendo assim até parece que sou lido.
Enfim, para mostrar que voltamos, metendo o pé na porta e falando grosso, vai aí um curta metragem altamente recomendado:
Hum... ou ia, o YouTube me sacaneou e removeu o vídeo, alegando infração de direitos autorais.
Ora, o que estão olhando? A culpa é deles, não minha. Digitem na busca do YouTube "O assassino terrívelmente lento com a arma extremamente ineficiente". Vai aparecer, mas não tem como assistir.
às 17:48 0 comentários Marcadores: Cultura
quinta-feira, 9 de julho de 2009
É só a minha imaginação
Acordo sozinho
olho pro lado,
rumino um versinho,
e lembro que estou sozinho.
Adormeço.
Sonho, penso e sinto.
E aí eu me lembro.
Estou sozinho.
Construo um poema,
sem rimas, nem sentido.
assim como você,
que nunca existiu.
E estou sozinho.
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Não precisa, mesmo, de diploma pra fazer isso
Eu voto um desprezo carnal extremamente violento e inconsolável, a ponto de dar com a cabeça nas paredes quando me deparo com o pássaro azul a gorjear. É asco ao twitter, tuíter, ou gorjar, conforme já tive o ensejo de demonstrar. E, por inconsolável, evidentemente, continuo eu muito feliz, sozinho é verdade, mas feliz em não fazer parte dessa grande bobagem.
E dia desses, em uma das minhas correrias, tive um tempinho para ler a home do UOL e estava lá: Marcelo Tas e Luciano Huck discutem pelo twitter, tuíter, ou gorjear. Finalmente! A revolução da comunicação, em 140 caracteres, a agilidade do admirável mundo novo, enfim, chegou de fato: dois egos se chocam, e não falta quem queira testemunhar o episódio. Seguir, dizem os neófitos.
Aí fica difícil aceitar a justificativa dos aceclas, esses também seguidores, do microblogue. Dizem eles que o serviço traz uma inaudita agilidade - pra quê? - à difusão de informação. Neste caso "A informação", digna de espaço no portal mais visitado da internet brasileira, é o ego, o confronto de vaidades, que vemos todos os dias na internet. No orkut, em blogues, no MSN. As pessoas gritam "olhem pra mim!", vejam como sou legal. Mas como é no tuíter, a nova onda, aí vale primeira página.
Marcelo Tas e Huck se degladiaram, sempre em 140 caracteres, descaracterizando levemente o até então tido como imortal ditado que nos dizia que, cronológicamente, a pena, a caneta, ou vá lá, a palavra, fere mais que a espada. Tenho pra mim que dependendo do tamanho da lâmina, 140 caracteres já não chegam para ferir, como faz o aço frio quando bem manejado. Bateram-se os dois num duelo de palavras, um dizendo que o outro forjava seus estratosféricos números e estatíticas de seguidores, que onde é que já se viu, fazer uma coisa dessas, querer vender aos demais que se têm mais popularidade do que realmente possui.
O mundo está cheio de gente besta. E isso não é propriamente uma novidade. A história da burrice humana inunda capítulos e capítulos da história da civilização e é um processo, um eterno retorno, sempre em constante evolução. A peleja de Tas e Huck é só mais uma pequena vírgula.
O problema, o busílis, é que o mundo sempre esteve cheio de gente besta, mas normalmente inofensiva. E o twitter, tuíter, gorjear, veio a armar os bestas de 140 caracteres, reputações ignóbeis, audiência vasta e passiva, vazio e uma falsa sensação de informação. O muito é pouco, diz o poeta. E o eterno retorno, enfim, é religião.
E não para - para de parar, estragaram o idioma, como se sabe, o que somado com tantos sinais, só pode ser sinal do apocalipse que nos bate à porta - por aí. A crise entre as duas celebridades vira notícia, manchete. É o suprassumo da fofoca. Vai para a primeira página do site mais lido da internet no Brasil, nos informar que, sim, somos todos vaidosos, implicitamente, evidentemente. O foco é sempre o factual, não o absurdo: Marcelo Tas e Huck brigam via tuíter porque... porque... porque um diz ter mais seguidores que o outro, maduros que são.
Dois pavões se exibindo, enfim, é notícia. E ainda me perguntam por que eu, jornalista de canudo nas mãos, sou contra o diploma. Por falta de argumentos. E se for buscar, vou acabar tropeçando nessas situações, que me dão argumentos para ser totalmente contra. Como defender o diploma de jornalista para fazer uma bobagem dessas? Se o critério de notícia é esse, ora, qualquer um faz. Jornalista não precisa, mesmo, de diploma. Precisa de juízo, mas é um artigo em falta e que rareia mais a cata "tuítada" da internet.
A vida num mundo onde tanta gente se arma de tuíters não vale à pena ser vivida.
às 06:26 1 comentários Marcadores: Atualidades, Entretenimento, Mídia, Tecnologia
segunda-feira, 6 de julho de 2009
sábado, 4 de julho de 2009
Bloody Sauce
Faltou uma piadinha no post anterior:
Eu devia ter pedido um miojo para acompanhar o "molho".
às 20:36 0 comentários Marcadores: Memórias
Bloody Mary nunca mais
Há certas influências dos filmes que nos marcam. Eu sempre quis, por exemplo, estar vestido de smoking, chegar num balcão, com toda a pose, propriedade e circunstância, olhar para quem estivesse atendendo e dizer: um vodka martini, batido, não mexido.
Aguardo o momento de fazer isso. E da mesma forma eu tinha certa curiosidade com o bloody mary, que é uma bebida com larga história no cinema. Afinal, que dizer, a coisa é vermelha, chama-se bloody mary, Maria sanguinolenta, e tem álcool. Devia ser bom, não fosse ninguém beberia. E a bebida se chama assim em homenagem à distinta rainha inglesa, também Maria, contada como a Primeira, e que angariou a não tão honrosa alcunha de "a sanguinária".
E resolvi que chegara o momento de experimentar um bloody mary. Embalado, sobretudo, pela decisão, nunca sábia, de um amigo, que pedira o dele enquanto eu exercitava a minha indecisão. Resolvi que um bloody mary caberia na minha noite. E pedi.
Mas o problema é que o bloody mary é horrível. Se você já tomou pomarola, saiba que o sabor é precisamente este. Com um agravante: não se sente teor alcoolico algum naquilo. Parece que abriram uma lata de extrato de tomate, dissolveram o conteúdo num copo com água, colocaram uma rodela de limão e gelo e mandaram servir. Um horror.
Bebendo alguns goles da beberagem eu sentia, por vezes, engulho. Mas fui macho. Até o fim, bebi o copo inteiro. Revoltado, com náuseas, amaldiçoando o inventor da pomarola com um limãzinho e fazendo esforço, mas bebi. Meu companheiro dedo podre pra bebida, não. Desistiu. Pomarola foi demais para ele, que tem uma curiosa história com porres de chamito.
Contudo a experiência me serviu de algo, além de amaldiçoar quilômetros de filmes assistidos ao longo dos anos e as ideias infelizes de meu camarada, notório em escolhas infelizes quando o assunto é mochilas, bebidas e lugares para se beber (eu deveria ter lembrado, antes de pedir o bloody mary, que um chopp de 300 ml já me custou 10 reais numa zona portenha na companhia das escolhas deste querido amigo). Mas dizia eu que a experiência do bloody mary serviu para outra definição que me acompanhará para o túmulo e que farei questão de repetir por todos os anos que me restam a todos que merecerem. Porque beber pomarola achando que dá barato é um castigo que delegarei com gosto aos meus inimigos, na possibilidade de os tiver.
A verdade é:
Nunca confie numa pessoa que bebe bloody mary. E gosta.
às 19:57 1 comentários Marcadores: Cultura, Memórias
Tributo a Steve McQueen
Steve é muito mais legal que Marlon Brando, que em si já é um dos atores mais legais de todos os tempos. Estou frustrado por não poder embutir um vídeo do YouTube por conta dos head-hunters dos copyrights. Que parágrafo mais anglófono, man.
O vídeo está aqui, aproveitando uma música da Sheryl Crow, que se chama "Steve McQueen" e que a faz, de hoje em diante, a minha cantora preferida. Mais até do que a curvilinea Shakira.
às 19:11 0 comentários Marcadores: Cultura, Memórias
sexta-feira, 3 de julho de 2009
Dólar furado, velho, rasgado
Torn like an old dollar bill... Mark Lanegan - Dollar Bill from Bianca P on Vimeo.
às 18:52 0 comentários Marcadores: Cultura, Memórias
Uma noite pra não esquecer jamais
No mesmo palco onde BB. King já desfilou seu talento estava um dos meus herois. Mark Lanegan, o vocal soturno e grave, as músicas com letras e ritmos intensos, a sensação do ambiente vibrando em comunhão daqueles todos que sabem muito bem o que canções como "Sworn and Broken", "Dollar Bill", "If I Were Going", "Ressurection Song" têm a dizer. O show dessa quarta-feira do Gutter Twins, mas mais do que isso, de Lanegan e Dulli, foi uma catarse.
Todos os que viveram um pouco de cada uma dessas canções sabem da dimensão que um show dessa qualidade pode alcançar. O nome do espetáculo, "An Evening With Mark Lanegan and Greg Dulli" (Uma Noite com Mark Lanegan e Greg Dulli) dá uma ideia do que pode ac
ontecer. Mais do que o repertório do atual projeto dos dois, o The Gutter Twins, é uma apresentação calcada na trajetória de ambos, desde a exuberância do grunge do começo dos anos 1990, até seus mais recentes e sensacionais trabalhos. Foi, na melhor definição possível, um espetáculo sensacional. Valeu à pena todos os centavos investidos. Valeu mesmo à pena o bloody mary ingerido, que é uma merda, foi uma das maiores decepções da minha vida descobrir que a bebida tão famosa tem sabor de pomarola. Foi um pouco decepcionante ver Lanegan dividir o palco e o show, mas mesmo isso, depois de tudo, compensa. Era o Lanegan!
Eu nunca vou esquecer desse show - é difícil dizer tão cedo, mas hoje é uma das minhas maiores e melhores experiências com um bom som. De ver há uns 4 metros de mim um dos sujeitos mais importantes da minha noção do que é música, cultura e mesmo poesia. Tenho fotos, vídeos, neurônios que cheguem para lembrar dessa noite. Tenho o ingresso autografado por Mark Lanegan. Tenho, enfim, uma sensação no coração de que o grunge não morreu, que nem tudo foi em vão e que se for para ter uma vida blues, ora, bem vale à pena, porque se ela for assim, recheada de períodos tristonhos, ao menos serão embalados por gente como Mark.
E essa é uma vida que, sim, vale à pena ser vivida.
No vídeo, da esquerda para a direita: Greg Dulli, Mark Lanegan e o guitarrista desconhecido.
Momento Caras: estiveram no show, que eu vi, Nando Reis, Miranda (produtor musical e jurado do programa Ídolos. Falam também em um dos membros do CPM22 e mais algumas personalidades B)
Pronto, informei.
às 14:36 0 comentários Marcadores: Cultura, Memórias
quarta-feira, 1 de julho de 2009
Ídolos
Não neguem, vocês têm os seus. Não a coisa meio infantil, do fã inconsequente que torna-se xiita por conta de um objeto de admiração. Mas aquela empatia por pessoas que foram capazes de fazer coisas que você gostaria de fazer. Ou nem isso, fizeram muito bem feito coisas que julgamos importantes, e daí às admiramos.
E eu tenho uma muito extensa lista de figuras dessa categoria. Poderia classificá-las em ordem pelo ramo de atividade em que se destacaram, alfabéticamente a partir da primeira letra dos seus nomes. Ou sobrenomes, como fazem as boas livrarias em relação a autores. Poderia listá-los num rol que obedeça uma ordem cronológica. Ou ainda usar como critério o quanto minha admiração por essas figuras é grande, o que é abslutamente mensurável. Admiro, por exemplo, muito o Johnny Cash. E admiro também Ennio Morricone, mas é uma admiraçãozinha, assim, assim, meio arrependida.
Eu comecei cedo no ramo. A partir do momento em que me encantei pela TV, muito cedo, naquele tempo video-game era mais restrito que hoje, era o Batman. Passavam incansávelmente aquela série dos anos 60, o ator que fazia o papel do morcego era o Adam West, com aquela barriguinha e tudo mais. E tinha aquele Robin meio afeminado. Saibam, ó incautos, que a piadinha em relação às opções sexuais da dupla dinâmica, que vem a ser constituída de Batman e Robin, vieram de alguns episódios dessa série, mal e porcamente dublados no Brasil, o que abriu espaço para toda a sorte de maus (é assim?) entendidos vinculados com a reputação dos herois. Até onde se sabe, quadrinho nenhum deu margem às conotações infelizes que o espírito debochado do brasileiro inferiu. Lembro que ganhei um vinil - é, eu tive vinis! - com a trilha sonora do filme de 1989 (dirigido pelo Tim Burton e com o Michael Keaton - onde diabos eles estavam com a cabeça).
Mas todo esse digressivo parágrafo só para dizer que meu primeiro ídolo foi o Batman. Só que isso meio que se perdeu com o tempo, parei de achá-lo legal depois dos X-men - embora ainda admire o conflito interno da mente de um cara que, a rigor, não tem muito de diferente dos sociopatas que combate nanquins à fora.
Aí veio Ayrton Senna e Raí, na mesma época. Zetti. E depois, Elvis Presley, a quem ainda devoto um grande carinho. Comecei a ouvi-lo no período nerd-antisocial da minha adolescência, ele era meu único companheiro. Ouvia Elvis e tinha vergonha, porque odiava com todas as forças do meu ser Legião Urbana. Foram tempos difíceis. Meu time era uma piada, eu não ouvia o que as pessoas ouviam, ouvia um cara morto, identificado como coisa de velho, não suportava Malhação e não tinha assunto com as meninas. Não sei como sobrevivi. Aliás, até sei. Mas não quero falar sobre isso.
E depois a literatura me apresentou uma enorme quantidade de pessoas brilhantes. E não falo só de autores, falo também de personagens, como Athos, o Professor Anronax, Arne Sakknussen, Róbinson Crusoé, e tantos outros. Alguns serviram - serviram - de modelo nos complicados tempos de adolescência, onde você busca criar uma imagem de si que imagina que os demais ficarão encantados em conhecer e normalmente não ficam, acabam te enxergando como um babaca excentrico. Enfim.
Na Fórmula 1 adquiri também inúmeros ídolos. Fernando Alonso, Kimi Raikkonen (até trair o movimento, ir para a Ferrari e parar de encher a cara). E alguns que não vi correr, como Jack Brabham (campeão na década de 1960), Bruce McLaren, Jean-Pierre Beltoise e Nelson Piquet.
E é meio assustadora essa dependência em admirar pessoas. E olhando esse texto, nem citei um monte de gente. Dá uma sensação de nanismo enorme, como somos pequenos, precisamos projetar imagem de pessoas que jamais conheceremos, admirá-las, reconhecer seu talento em fazer coisas que achamos interessantes e não conseguimos. O homem é uma criatura eminentemente frágil.
E eu tinha uma ideia ótima sobre um texto sobre Steve Mcqueen, sobre o filme "As 24 Horas de Le Mans" que pude assistir dia desses e foi tudo em vão, porque não sou capaz de lembrar qual era a ideia, o tema e o assunto. Amanhã escrevo sobre Mcqueen, porque ele vale à pena umas boas penadas.
às 02:07 0 comentários Marcadores: Cultura, Memórias

