Felipe Massa sofreu um grave acidente nos treinos para o Grande Prêmio da Hungria de F1 no sábado. Grave acidente porque a coisa de uns 280 km/h ele chocou-se com uma mola, que pesa umas 800 gramas, e que vinha na mesma direção, mas em sentido contrário - ou seria o inverso? - a uns 200 km/h. A referida mola acertou-o na altura do supercílio esquerdo e não precisa ser um gênio da física para calcular que o impacto não foi bonito.
Se você acompanhou ao vivo ao acidente deve ter testemunhado o clima de velório que tomou a transmissão. Sabe-se que o narrador, Galvão Bueno, é chegado às luzes da ribalta. Ele gosta de ser amigo de todo mundo. Direito dele, ninguém tem nada com isso. O problema é que a compulsão de Galvão - e isso vale como regra para basicamente todo o jornalismo esportivo da Globo, que é um grande oba-oba e não tem nada que se assemelhe com um jornalismo que cobra, fiscaliza e investiga - acaba prejudicando a informação em situações extremas, que fogem do comum do cotidiano esportivo. É o caso desse episódio. No momento do acidente saiu de cena o locutor e entrou o amigo pessoal. Saiu a informação e entrou o senso comum, o clichê.
O esporte é tratado na Globo de maneira infantil, rasa e descompromissada. De maneira pueril. Ninguém ali questiona o poder instituido, no caso, CBF, CBA, organização ridícula da Stock Car, federações de outros esportes, o Nuzman, o Ministério dos Esportes, o COB e por aí à fora. O jornalismo da Globo se contenta em chamar todo mundo de bobo, chutar pra baixo o nível da cobertura e se contentar com placares, ufanismos e bobagens do gênero.
É por isso que a cobertura do estado de saúde de Massa foi, em última análise, uma vergonha. Uma aula de como não ser profissional e, pior, competente. Nas primeiras 48 horas de internamento do piloto as notícias de outras fontes e de veículos internacionais davam conta da gravidade do quadro. Médicos da equipe do hospital hungaro falavam em risco de morte. A Globo preferiu entrevistar o Dr. Dino Altman, que foi do Brasil a Budapeste como consultor da família Massa, para arrancar dele que "acredito que, no momento, não há risco de morte eminente", para evitar o que se dizia àquele momento. A Globo fez de tudo pra ocultar a gravidade da coisa toda, o que é ridículo.
Ridículo porque não é um jogo onde você apela para o emocional das pessoas para que torçam e liguem a TV. O vício profissional de só cuidar do esporte em sua dimensão lúdica parece ter afetado a coordenação do departamento da emissora, porque o enfoque deixou de ser no fato de que o quadro era grave, falava-se em morte, possibilidade de sequelas, para estar centrado na "torcida", ou nas orações do Brasil, na família do piloto e no que um médico externo, o Dr. Altman, tinha a dizer. Ridículo, amador.
O interessante é que a Globo assumiu no caso uma postura de emissária de notícias unicamente alvissareiras, de querer "tranquilizar o torcedor brasileiro". Não tem que tranquilizar. Tem que veicular a verdade, doa a quem doer, seja ela qual for. Se o cara dá com a ideia numa mola em alta velocidade, tem o impacto presumido de 150 kg na cabeça em pentelhésimos de segundo, sofre afundamento craniano, precisa de cirurgia para remover fragmentos ósseos, é colocado em coma e, por fim, tem risco de morte presumido pela equipe que o atende, então a coisa é grave e não há como escapar disso.
O bom nisso tudo é que Massa vai melhorando, distante da palhaçada que se tornou a cobertura da sua convalescença em termos de incompetência de uma parte e sensacionalismo de outras da imprensa. E o jornalismo esportivo no Brasil, está tudo dito, realmente inexiste. É antes de tudo muito bom para todos e também muita sorte, mesmo, tendo em vista a gravidade do acidente, que a equipe médica tenha afastado o risco de morte hoje. Mas fico pensando: e se as coisas dessem realmente mal? Como que a Globo iria se justificar?
Diriam o quê? Ontem ele estava bem e, de uma hora pra outra, piorou?
Quer saber? Diriam. E todo mundo aceitaria.
segunda-feira, 27 de julho de 2009
Quando as coisas ficam sérias e saem do controle
às 20:32 Marcadores: Atualidades, Fórmula 1, Mídia

1 comentários:
Horrível... um sensacionalismo repugnante, para não escrever outra coisa! Já andam noticiando quem substituirá o piloto de forma massiva. Outro dia lí uma reportagem com o título 'Pilotos brigam por vaga na Ferrari!', Asqueroso! E meras peças de xadrez se movem.
Bom, só torço pela recuperação do piloto, e que saia dessa bem.
¡besitos!
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