Impensável. Ao menos sempre foi assim que vi a possibilidade de, um dia, ter a chance de conhecer, ouvir, respirar do mesmo ar, conviver no mesmo espaço no mesmo tempo com Gay, de Gaetano, Talese - e isso aconteceu! Ontem, no MASP. O maior jornalista vivo, segundo minhas contas. Provavelmente o maior repórter de todos os tempos. Mas é uma generalização meio perigosa, porque parando para pensar, ao longo dos tempos, muita gente boa já se meteu a fazer jornalismo. E o fez bem. Talese entre esses.
Ponto, parentêsis. É, o homem é bom. Leiam. Fecha parentêsis.
Antes que metade dos meus 8 leitores que, desconfio via de regra, não são jornalistas - muito embora, hoje, segundo as equilibradas ponderações dos homens togados, qualquer um possa se classificar como jornalista, tendo a crer que não estão por aí fazendo isso a torto e a direito - e resolvam abortar a leitura deste post por conta do caráter vocacionado do tema, saibam que o que faz de Gay Talese o mestre que é a sua capacidade de transformar o texto jornalístico interessante na medida que escreve-o como sendo ficção, só que de fatos reais. Há quem chame de literatura de não-ficção, de romance de realidade. Chamam também de jornalismo literário, doutrina defendida e amada por este que vos escreve. É, em suma, a junção de literatura e jornalismo. De um lado entram os recursos e aprumos estéticos próprios da arte e dos grandes ficcionistas, de outro o foco na verdade e naquilo que importa e pode fazer diferença que, em teoria, é perseguido pelo jornalista.
E quando tudo isso encontra uma mente como a de Talese o resultado é sucesso de crítica e de vendas. Talese é perfeito, um dos grandes escritores contemporâneos.
Iniciei este post para dizer que nunca tinha cogitado a oportunidade de vê-lo ao vivo. Pois eu vi. Ontem, numa palestra gratuita no MASP (cabem aqui mais parênteses remissivos, comecei esse post há mais de uma semana nas minhas peregrinações e por uma série de circunstâncias, só fui terminá-lo hoje). A distribuição dos ingressos começava às 18:30, e às 15:30 já havia fila sob o vão livre do museu. Nas palavras de Talese sobre o Brasil, disse que ficou encantado com a FLIP (Festival de Literatura de Paraty, onde esteve), porque nunca tinha visto, nem mesmo em Nova Iorque onde reside, "tanta gente atrás de livros e autores. Falei para 700 pessoas, e fora outras acompanhavam tudo pelo telão".
Gay Talese tem uma especial atração pela pessoa comum. Pelo ordinário, mas sua elegância no trato com a palavra escrita, sua facilidade para entender a dimensão da vida humana, do ser humano e seus caminhos, ideias e teimosias faz de cada personagem, e embora reais, os são de todo direito, uma aula sobre observação. Sobre humanidade mesmo, porque cada uma das centenas, milhares de pessoas talvez, que Talese entrevistou e esmiuçou em seus geniais trabalhos nos ensinam sempre um pouco mais sobre o humano, demasiado humano.
A primeira
Talese contou como foi sua primeira matéria para o The New York Times, em 1953, quando estreou como jornalista. Ele era então uma espécie de office-boy, do jornal. Mas, como ele mesmo mostra no seu "O Reino e o Poder", uma grande reportagem sobre a história do NYT, esse foi o primeiro passo na carreira de muitos grandes jornalistas norte-americanos do século passado.
Ele conta: "um dia na hora do meu almoço, andando vi um letreiro composto de milhares de lâmpadas. Era ali, na Times Square, onde o letreiro ficava mostrando as manchetes do dia. Aquilo me fascinou, fui até o prédio e entrei. Subi, e no final de uma escapa, no terceiro andar, vi um homem solitário com um controle na mão, manejando-o com os dedos. Fui até ele e perguntei o que fazia".
O homem compunha, com os dedos e anônimo - o anonimato é tudo na obra de Talese - as manchetes que fascinaram-o no exterior do prédio. "Perguntei a quanto tempo ele fazia aquilo, ele me disse que há 25 anos. Sua primeira manchete tinha sido sobre as eleições daquele ano, a vitória de Hoover, eleito então presidente. Pensei 'esse é um grande trabalho!', e perguntei se poderia escrever sobre ele. O homem disse que sim, ainda que não visse nada demais no que fazia e nem a possibilidade de alguém se interessar pelo seu trabalho. Tomei minhas notas".
Talese voltou ao trabalho. Depois do expediente emprestou uma máquina de escrever e compôs o texto, que foi mostrado a um repórter e a um editor. Gostaram. Publicaram, e o resto é hitória. Uma história recheada de talento, brilho, simplicidade e elegância.
"Temos como jornalistas que procurar a verdade. E defendo que o jornal deve trazer algo mais do que o relato objetivo. O texto, a palavra escrita, precisa de uma dimensão estética". Foi um sentimento de catarse ouvir isso, tenho uma história com professores recalcados que vomitavam precisamente o contrário na minha época de graduação.
"A internet é o fast-food da informação".
A lamentar: não pude tirar uma foto com ele. Ninguém poderia, evidentemente. E não consegui um autógrafo. Abonados que foram a Paraty, sim.
Inveja.
Leia mais aqui!
* Curiosidade: o bigorrilhas que assina este blogue aparece na segunda foto. De costas, mas está ali. Fotos retiradas deste álbum aqui do Flickr. As minhas ficaram horríveis.

0 comentários:
Postar um comentário