quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Alvorada

Os acordes leves dessa música me fizeram dormir sonos já dormidos e acordar manhãs nunca vividas. Porque eu, hoje, me amanheço. Mais que isso, aliás: hoje, eu me deixo amanhecer.

Eu sinto que preciso escrever. E também que eu preciso encontrar um método de estudo para sorver todo o conhecimento possível das linguagens de programação em questão de dias, como se o repousar a cabeça sobre a porção de livros sobre o tema que acabei comprando (numa orgia que muito dará que pensar ao Tertuliano do futuro, quando se confrontar com as faturas do cartão de crédito), fosse instalar um processo de osmose, em que a substância sai do meio mais concentrado em direção ao menos, e migrariam assim naturalmente para a minha mente todos os conhecimentos necessários, porque assim aprenderia tudo mais rápido, eu que morro de pressa, e tenho tanto mais pressa quanto mais feliz me sinto. Sobre o exercício da escrita, a impressão é de que a minha criatividade está ali na esquina, me esperando, batendo o pé e com pressa, como quem diz “puta que pariu, cadê esse cara que não vem de uma vez?” E tudo isso não mais me confunde e assombra, apenas me diverte, porque é engraçado.

A respeito de escrever, poderia parecer que os três ou quatros romances que eu venho adiando na vida poderiam simplesmente acontecer se eu resolvesse escrevê-los. Aí eu abro um documento antigo, releio, examino, e tento expandir. Mas aí a criatividade dilui, a autocrítica pega pesado, o que você tinha para escrever, e que soava tão bonito, retumbante e definitivo na cabeça, fica tacanho na frieza das páginas do Word, que dirá nas de papel. E aí os livros ficam esperando e a criatividade, coitada, passa mais uma noite sozinha, ao relento, te esperando na esquina, acenando em desespero para a senhora dignidade, que desiste e vai embora todas as noites, que essa não espera ninguém, sempre com ameaças de nunca mais voltar.

Mas isso não é uma crônica de derrota porque não há osmose entre conhecimento e cérebros, mas há como se dedicar e acelerar o processo de aprendizado por coisas que você gosta e te despertam interesse inesgotável: tudo questão dessa coisa misteriosa, que eu nunca tive, e que damos o nome de foco. Sobre escrever, o desencontro diário (noturno?) com a criatividade também não é derrota: trata-se de uma garota muito exigente e não adianta levá-la para sair visitando sempre os mesmos lugares, comendo nos mesmos restaurantes e contando as mesmas histórias. No fim das contas, eu sempre soube que escrever seria algo monstruosamente difícil e eu aceito que cada um desses passos em falso, cada uma dessas páginas que não vingam, dessas histórias inconsequentes e desses livros abortados são uma escada, uma caminhada, um processo de talha que vai limpando o diamante bruto das minhas aspirações. Um dia, quem sabe, eu escrevo os livros todos. Ou não, porque é difícil mesmo, e o melhor que eu posso fazer é seguir tentando, ciente de que a arte da literatura pode ser sempre uma paixão meramente contemplativa na minha vida. Há opróbrios bem piores.

E tanto não falamos aqui de falhas e derrotas que posso dizer que as coisas me parecem todas novas. As ruas têm mais cor, o dia mais atividades, a vida mais responsabilidades, o futuro se desdobra numa vastidão de caminhos, de impulsos, de possibilidades, de rumos para tomar. Aprender coisas novas dá sentido, encontrar uma vocação nova reforça a autoestima, se sentir desejado e querido te mostra o quanto você é importante. Destruir em provas de lógica e álgebra, anos e anos distante da matemática, me fazem lembrar o quanto eu sou fodão. Lembro de quando professores, na frente de todos da classe, elogiavam os trabalhos que eu não fizera porque eu sou bem foda quando estou confiante, quando me encontro instigado pelas coisas, pelas descobertas, pelas novidades. Eu sou tarado por aprender coisas novas e um dos meus maiores erros foi ter esquecido disso, ter me afastado dessa cabeça de criança que não deixa pedra sem levantar para ver o que vai lá embaixo. No fim, tudo vai se somando numa expressão que aponta uma curva ascendente no plano cartesiano: é uma retomada, uma redescoberta, o equilíbrio de volta. Todas essas coisas, as experiências delas e o processo de medi-las e reconhecê-las nos meus dias, que também redundam nessa coisa de querer aprender mais, seja na sala de aula, no computador ou no exame íntimo dos seus sentimentos e experiências pessoais, preenchem a minha vida e me fazem feliz.

Quando olho para trás, me assusto com o que eu fui. Com o quanto estive doente e ignorante sobre meus problemas e minhas soluções. Mas olhar para trás e ver sombras é importante e enriquecedor: só projeta sombra o que é iluminado, o que padece em contraste entre escuridão e luz, e é assim que eu sinto o meu caminho, hoje: iluminado e ensombrecido, porque eu sigo em direção a horizontes onde o sol explode em luz, nos quais ele nunca se põe e sempre me espera, caloroso e acolhedor.

A vida está perfeita, então? Nada é perfeito, nada é para ser perfeito. Mas ela vai muito bem sim, obrigado. Há problemas gigantes para resolver, mas eu tenho planos para todos eles, opções, saídas e soluções práticas: manda pra cá, que eu mato de peito. Eu sou um reatorzinho de razão, expelindo respostas para todas as questões da vida. Não tenho absolutamente nada do que reclamar: a saúde mental vai bem, a do corpo está sempre em dia, me sinto de bem com a vida e comigo, orgulhoso e feliz com os meus novos caminhos. Só falta encontrar quem queira, de fato, caminhar por eles ao meu lado.


Sim, tinha que ter um problema, não é? Essa é a vida: nada é para ser perfeito.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Das escolhas

"Escolha é o ato de hesitação que nós fazemos antes de tomar uma decisão”.




Essa, e outras, frases vem me ocupando a mente nesses últimos tempos de reconstrução, de reavaliação, de mudança. Essa, em específico, faz parte de uma palestra de Alan Watts, um escritor e filósofo que morreu há quarenta anos, mas que sabia uma ou outra coisa sobre a vida, sobre crescer, sobre encarar as durezas de existir. Na palestra em que fala sobre escolhas, e as consequências delas na nossa vida, ele insiste em que nós precisamos ser como nuvens e como ondas, que sempre são perfeitas, e que não se importam com o seu destino: apenas o aceitam.

Isso, veja bem, não significa que devemos escolher de forma temerária. Que podemos viver em total desconsideração com os impactos das nossas escolhas, mas que devemos aceitar os resultados com igual valentia: trata-se de saber que o ônus de uma péssima escolha é tão importante, lá na frente, como o benefício de uma aposta certeira. A única certeza é que você não tem como saber de tudo com antecedência.

E eu concordo com Watts. Porque já discordei dramaticamente.

Passei muitos anos acreditando que nós somos reféns de nossas escolhas e que, caso elas não deem resultados positivos, devemos viver em eterna penitência por esses erros de cálculo, essas más decisões, esses tropeços que nos afastaram dos resultados e sonhos que tínhamos quando as fizemos. Não acho que a minha forma de encarar fosse de todo ruim, afinal viver com consciência de onde você errou é sempre uma lição proveitosa, tanto mais se ajudar a prevenir os mesmos agravos no futuro, mas, sem dúvida, fechar-se ao novo, que sempre vem, aos riscos e deixar esse medo de escolher e pular no abismo das coisas novas que envolvem cada grande decisão das nossas vidas é uma forma muito econômica, mas certeira, de perder tempo com bobagem.

Um exemplo: eu abandonei o curso de engenharia. E, na época, o fiz por uma porção de ótimas razões, que iam da tristeza e falta de preparo por conta da morte de meu pai, às próprias inclinações que sempre tive, o interesse pela palavra escrita e pela literatura, por exemplo. Mas, ao longo dos anos, me assombraram os efeitos dessa escolha porque a vida que não tive, ao ter interrompido aquela história, sempre me parecia que poderia ser melhor do que a que tive.

Mas essa não é a questão. Não pode ser porque eu não sei, não tenho como saber. E, de resto, ainda que tivesse como saber com precisão o que seria de mim tendo continuado com aquele curso, não posso deixar de dizer que, hoje, me parece que naquela estrada eu não leria os mesmos livros que li, não conheceria as mesmas músicas, não iria aos mesmos lugares, não teria os mesmos sorrisos e lágrimas, as lições seriam outras e é possível que eu passasse um bom tempo pensando comigo que o melhor teria sido ter largado engenharia para fazer jornalismo. Talvez tivesse me saído até bem pior, eu não sei! Não conheceria e não teria os mesmos amigos, não amaria as mesmas pessoas, o que em si só já é um custo oneroso demais por pagar por uma hipotética chance de voltar no tempo e mudar o rumo.


No resumo, tanto uma escolha como a outra, não importa, as duas estão certas: dão resultados diferentes, levam a histórias distintas, resultam em outras pessoas e em outras narrativas. Mas não há certo e errado, há apenas vida, consequências e a nossa obrigação com nós mesmos de tirar o melhor proveito de tudo e receber o que a vida dá, de bom e de ruim, com resiliência.


É bom redescobrir, depois da cura, que você pode viver sem medo, que era bom nessa coisa de resiliência e que, se nunca fora um otimista, ao menos tinha o excelente hábito de rir das desgraças. Escolhas não são espadas de damôcles a pairar sobre as nossas cabeças, prontinhas para nos fazer em dois ao menor erro. Escolhas são a forma da vida ir adiante, quer ela vá tranquila, quer ela vá agitada e atribulada: cabe a nós decidir da melhor forma possível, com coragem, mas com a conformidade de saber intimamente que não temos como conhecer todos os ângulos de uma escolha, que decisões não são ruins e boas, apenas são.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Simplify and add lightness

Colin Chapman foi um engenheiro inglês que, entre outras coisas, fundou a Lotus Cars, fabricante de carros esportivos simples e baratos, o típico "sports car" britânico (que, em si, é um conceito bem diferente do que nós outros entendemos por carro esportivo). Foi o cidadão que reinventou a Fórmula 1 e aplicou conhecimentos de aviação para dar a seus carros larga vantagem de performance sobre toda a concorrência por uns bons 20 anos. Depois, falido, dizem que forjou a própria morte nos anos 1980, e que teria vindo, escondido de todos, comprar uma fazenda no Brasil para viver anônimo e longe dos credores. Um tipo de Belchior, portanto.

E nada disso importa. Porque Colin Champman, ao menos nos meus olhos, é também um grande filósofo e sua avaliação sobre como extrair a maior quantidade possível de desempenho de um automóvel, sem gastar os tubos no processo, é um lema para a vida toda.

Chapman criou a Lotus Cars e seus carrinhos esportivos com um conceito muito simples. Incapacitado de investir quantias enormes de dinheiro em desenvolvimento tecnológico de motores enormes e potentes, Chapman decidiu fazer dos seus carros mais espertos e rápidos por meio da diminuição do peso. Levinhos e compactos, os Lotus podiam ter motores bem menores e andar muito, a ponto de peitar Porsches e tantos outros menos votados num tempo em que toda a gente se picava de entender e gostar de carros, em especial os mais rápidos.

Em geral, quem tem motorzão faz muito barulho, é rápido de reta e está compensando o tamanho reduzido de certo apêndice anatômico. Quem é leve, no entanto, é rápido na pista toda e tende a terminar na frente, tudo sem escândalo, o que tende a confirmar a ideia de que o sujeito é bem provido do supra mencionado apêndice anatômico. Além disso, carros simples, em geral, são mais duráveis: têm muito menos coisas para quebrar, para dar errado.

A essa filosofia de desenvolvimento, de leveza em contraste ao exagero, Chapman deu o nome de "Simplify and add lightness", ou, numa tradução, livre, direta e descompromissada, feita no meu inglês de anedota, "simplifique e adicione leveza".

Esse valor intrínseco dos Lotus, que sobrevive até hoje, embora as criações da marca estejam longe de despertar o mesmo interesse de décadas atrás, quem diria, é em si uma lição de vida. Vamos mais longe, e até mais rápido, se nos dispusermos a caminhar mais leves, a esgrimir contra as curvas do destino sem carga, sem essas toneladas de coisas que você acaba, mesmo que sem querer, carregando no dia a dia, essa quantidade absurda de memórias, nostalgias, tristezas e derrotas que não simplificam nada, e só adicionam peso, fazem de você lento, preguiçoso, pouco combativo.

Quem carrega mais coisas, não diga, fica pesado e anda devagar demais.

Não que a vida seja uma corrida, que você precise necessariamente de pressa, que a busca pelas coisas que você julga importante e considera necessárias para o seu futuro esteja relacionada com a necessidade de ser rápido. Mas a questão é que quem é leve, quem pode viajar mais rápido se assim desejar, terá sempre mais desenvoltura para se desviar a tempo de obstáculos, de imprevistos, terá mais margem de manobra para reagir ao que a vida, trigueira e sempre disposta a surpreender, estará colocando no meio do seu caminho. Quem pode andar mais rápido também tem mais recursos na hora de se levantar de um tombo e retomar o rumo.

A ideia de simplificar as coisas é uma fórmula certeira para construir bons carros de corrida, ótimos carros esportivos, e para enfrentar a vida de forma mais eficiente, mais madura, mais equilibrada. Simplificar, nos carros, é fazê-los eficientes e comprometidos com o ato de levar pessoas do ponto A e B, e só: sem ar condicionado, revestimento de luxo, aquecimento nos bancos, câmeras e tudo mais. Quanto menos coisas agregadas para dar problema, mais confiável é o automóvel, mais propenso a levar você longe sem dar defeitos ele será.

Na vida, simplificar é abrir mão dessa obsessão de ter controle de tudo. É encarar as coisas pelo que elas são realmente, seja ver o amor que você sente por alguém ser banalizado por uma série de decisões e atitudes idiotas de parte a parte, seja perceber que você criou todas as condições necessárias para passar anos doente. Simplicidade, na vida, é uma postura resiliente diante da vida, é dar às coisas os nomes que elas têm. É se libertar das culpas que você assumiu corretamente, mas de forma bastante infantil decidiu cultivar como um relicário de derrota, merda e atraso que só te fez mal. Simplificar, na vida, é esperar o que ela tem para você e encarar cada uma dessas surpresas com galhardia: porque muitas delas serão desafiadoras, outras tantas ruins, mas muitas também serão boas. É não carregar nada que pese, porque peso representa ficar devagar, letárgico, passivo. Simplificar é planejar e ir atrás, mas aceitar que a vida dispõe de nós e que nada é para ser perfeito e infalível.

Eu passei boa parte da vida "complicating things and adding weight to everything". Deixei de enxergar todas as coisas pelo que elas são realmente. Me fechei para felicidade em coisas simples, para alegria. Me escondi, por medos e outros tantos fantasmas, das escolhas difíceis que a vida espera que a gente faça para seguir em frente. De alguma forma, doente, encarei como naturais a tristeza, a derrota, o fracasso e uma abordagem letárgica em relação à vida, de não assumir riscos e esperar que tudo se resolvesse por si só, num tipo de otimismo absurdo: aquele de quem não faz rigorosamente nada para corrigir problemas e buscar soluções para a própria vida, esperando que um fatalismo irredutível se encarregasse de ajeitar as coisas. Eu andava pesado e devagar, e sem agilidade, fui me perdendo do contato com as coisas realmente importantes, aquelas que eu realmente preciso, aquelas que me definem, que fazem de mim o que eu sou, para o bem e para o mal.

Mas, a vida que nos conduz a caminhos ruins é a mesma que, em condições ideais de temperatura e pressão, te resgata. É na queda que você para, senta na estrada, olha a sua volta, e examina tudo em perspectiva. Vê que a dificuldade em levantar para seguir em frente está unicamente em você, que mais leve, você fica de pé rapidamente e começa a caminhar, se não correr, novamente em pouco tempo. Simplicidade e leveza, portanto, te fazem análogo aos carrinhos pequenos e frágeis da Lotus, que esguios e espertos, iam mais longe e mais rápido que os pesadões, que os lentos, que os assombrados, que os complicados. Simplicidade e leveza é a minha resposta para tudo, para a vida, para o futuro.

Simplificar e adicionar leveza é viver a vida de uma forma equilibrada. É reagir menos, aceitar mais. É agir mais, mas lamentar-se menos.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Vida põe e dispõe

E eu que fui encontrar a felicidade em algoritmos e na Álgebra de Boole?

Nada como a matemática para nos lembrar de que há como extrair ordem do caos. Que tudo que se subtrai também se soma, se multiplica, se potencializa. Viva a frieza retumbante dos números, essas certezas ontológicas, sempre disponíveis para nos lembrar a ordem de tudo, a relação de causas e efeitos, a ditadura da exatidão, do ato de dar às coisas os nomes que elas têm.

É algo a se examinar: eu nasci para humanas, mas sou feliz mesmo é com as exatas.

Eu posso me encantar com a caudalosa prosa penserosa de um Adorno, ficar indignado pelas elucubrações das ciências sociais sobre o nosso tempo, sou um apaixonado pela História, posso me ver cercado por todos os lados pelo "O Ser e o Nada" do Sartre, compungido pelo mundo em desespero antecipado por Nietszche, tudo com um monte de palavra bonita, correndo de um lado para o outro sem saber direito o que fazer e acudir, direitinho como eu, que picado pela fome de bola, pela paixão pelo futebol fui, sucessivamente, lateral direito; meia direita, porque eu corria uma barbaridade o jogo todo, sempre perdido, atrás da bola e sem saber o que fazer com ela. Ciente das severas limitações técnicas, acabei, antes de pendurar as chuteiras, me conformando com o cargo de volante do Clube Atlético União Olímpico.

Mas felicidade mesmo está na ordem inexorável dos números, nas verdades incontornáveis das leis físicas, das regras algébricas, das ligações químicas, da entropia, da termodinâmica, da gravitação universal, da eletricidade, da ótica, da geometria euclidiana, da lógica irredutível dos circuitos eletrônicos, dos mistérios dos números primos, de Fibonacci, do raciocínio, do triunfo da razão sobre o mundo natural, da absoluta falta de ambiguidade. A exatidão fria dos números, das leis, das regras, do que funciona e se sabe, se mede e se verifica. É o que consola, dá ordem e sentido ao caos, me alivia.

Há uma larga literatura a respeito da ideia de felicidade, das suas manifestações nas vidas das pessoas, do que precisa e não precisa ter para atingi-la. Eu, exercitando um pouco os bíceps do cinismo, poderia dizer que, a rigor, não sei muito bem do que se trata e que, talvez, felicidade em si não exista, e o que existam, já dizia a canção, são apenas momentos felizes.

Não que isso venha bem ao caso porque a grande sabedoria, quer a felicidade exista, quer não, é saber abraçá-la generosamente quando ela se manifesta, na forma que for, ao custo que for. Para dar testemunho dessa necessidade, eu vou nadando de braçada nas águas calmas dessa quadra em que a vida se endireita, em que vou me reencontrando fazendo contas, escrevendo algoritmos, desvendando linguagens e dando vazão a essa, há tanto tempo, suprimida parcela lógica, racional e técnica da minha personalidade.

Felicidade, ao menos nesse momento, não é tão somente se encontrar com essas percepções, e com tantas outras de igual proporção e relevância, mas se dar conta de que as vitórias, as boas notícias e essa sensação gostosa de estar em paz são todas elas oriundas do seu esforço, e não do acaso, que são frutas colhidas maduras das sementinhas que você plantou quando se deixou acordar, se libertar, quando abriu os olhos. Virou a mesa e, enfim, pôs todas as coisas em perspectiva.

E é sempre inevitável se confrontar com quantas e quantas vezes você se armou para dar esse bote, e não deu. Ficou esperando as coisas darem certo por si mesmas, como se a vida fosse se ajeitar em passes de mágica, por pura compaixão. Ou quando esqueceu-se das datas para se inscrever, quando achou que a grana era pouca e as dificuldades enormes. Quando ficou com medo de arriscar outras parcelas da sua vida fazendo uma escolha dessas. Lembra daquela feita em que quase, quase mesmo, foi atrás, mas ficou parado, embasbacado com esse embotamento do espírito, essa coisa amortecida de não ir, não buscar, de querer e não fazer, de poder e não ir que, em última análise, é o que você pode chamar de depressão.

Eu não vou desfiar esse novelo do que é felicidade num post de blogue, que desse tipo de pretensão já estou curado há anos e anos, mas posso dizer uma ou outra coisa sobre como é bom se resgatar e perceber-se bem, feliz. Posso dizer que felicidade não é apenas buscar as mudanças, as coisas que você precisa, que te dão sentido e prioridades. Felicidade é abraçar o que a vida dá e correr atrás das que você quer, custem elas o que custarem, deem elas certo ou não porque a raridade da vida está nessa escassez de tempo e em fazer jus a esse suprimento finito de tempo nos esforçando, suando a camisa, indo em buscas. Correndo os riscos da decepção e da derrota, nos encontramos com o que somos, com o que realmente queremos e com o que realmente importa. É no viver de peito aberto e sem medo que você redescobre porque se lembra que você era curioso, sempre teve essa mente lógica de cientista, gosta de laboratório, nunca teve medo de contas, que há um conforto na solidez fria da matemática, no caos louco das equações, das fórmulas que, se por um lado não dão resposta às grandes questões da sua vida, do universo e tudo mais, ao menos dão aquele conforto gostoso de te lembrar mais sobre quem você é: uma criatura curiosa como uma velha, com uma enorme facilidade e boa vontade para aprender coisas novas.

O novo sempre vem. E sempre veio, inclusive nos tempos em que, ensombrecido, perdi tempo com tanta coisa inútil, com tanta obsessão por perfeição que acabei sem essa acuidade que todos nós temos antes das decepções da vida adulta, essa lâmina afiada que a gente é para cortar a existência com desenvoltura de bisturis. Eu gostaria de dizer para quem interessar possa que há uma receita para curar esse embotamento e se afiar novamente, mas não vou tão longe: milênios de religiões, filosofias, misticismo, ciência, pensamento, poesia, literatura, música e tudo mais ainda não encontraram essa resposta, essa receita, esse, olha só, algoritmo universal para colocar todos no caminho da felicidade.

O pouco que eu sei sobre o assunto diz respeito à minha experiência, ao meu algoritmo: coragem, ouvir, receber da vida, ir atrás, calar e nunca, sob hipótese alguma, me dar ao direito de me lamentar pelo que não veio, não deu, não foi, é diferente do que esperava. Porque eu sou muito bom nisso, nessa coisa de tristeza, e a luta contra os humores da bile negra, ao contrário do que calculavam os ingênuos esculápios gregos, tem pouco a ver com dietas e condições físicas, mas muito com descoberta, vontade e decisão. Vencer a bile negra envolve força de vontade, bom ânimo e coragem. E isso eu tenho de sobra.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Manual da nova alvenaria

A minha vida é construção
e a minha grande obra
é levantar novas paredes
derrubar os muros
e ir embora
me esquecendo do que poderia
construindo pelas madrugadas
iluminando rumos escuros
e me reformando à marteladas,
eu sou fruto da nova alvenaria.

Minha construção é me abrir em novas estradas
chegadas e partidas
tudo em vidas remidas
e de parede em parede
me erguer em cidades novas de descoberta
nesse novo arranha-céu de vida liberta
Sou pedreiro, engenheiro, tijolo de mim
me reconstruo numa obra que não tem fim.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Vitórias

O ano de 2017 começou meio torto, mas vamos agora abrindo o seu segundo mês e as boas notícias não param de chegar. A novidade, agora, é que uma das minhas poesias virou single, foi regravada (já havia uma versão de quatro anos atrás), e passa a integrar o cancioneiro de Carlos Gadelha, sujeito talentoso e que encontrou músicas nos meus versos que, a exemplo dos anos, são sempre bem tortinhos.

"Cicatriz" vai ter lançamento em disco, registro, tudo nos conformes e isso me enche de alegria porque sei do quanto, por exemplo, meu pai se sentiria feliz com a notícia (ele sim poeta de alta qualidade, de poemas lindos e profundos, que um incêndio removeu da existência sem a menor cerimônia). Eu fico honrado porque orgulhoso, porque sei que alguém vai ouvir, vai sentir, vai encontrar alguma verdade oculta, vai entender algo com essa música e só isso já é razão de grande alegria. A ideia última de escrever e versejar é sempre eternizar-se e eu fico, assim, um passinho mais perto dessa vida imorredoura de quem deixa marcas por aí.

E outras dessas marcas virão pela frente, a dar-se fé no talento do músico e na minha capacidade tirana de filtrar meus poemas para separar os bem ruins dos passáveis.

Eu nunca imaginei que viraria um compositor porque não entendo nada de música, característica que sempre tive em alta estima, mesmo vivendo num tempo em que todos se picam de serem entendidos do assunto.

Vitórias e boas notícias acontecem não apenas quando nos abrimos à elas, mas quando efetivamente às buscamos. E o ano tem só um mês de idade!

Cicatriz

Quando eu penso em você, pesa-me no peito
algo que faz com que meus olhos risquem minhas veredas
corram o espaço atrás de outras estrelas,
e voltem a cismar porque nada há que dê jeito
e transforme a incerteza das minhas alamedas
em rumos novos, plenos de certezas,
onde se consumam em pavimento todas as mentiras,
endireitem-se as curvas do destino, e tudo seja perfeito:

Não vivo mais pela beleza. Troco perfeição por verso concreto,
Me renego e me bato por este meu coração abjeto.
Ondeio como seus cabelos lisos ao vento, a ignorar as minhas revoluções
De resto, está tudo dito, esqueço do nosso adeus em seu gesto,
corro com meus olhos pelos meus versos de singeleza,
procuro nas entrelinhas qualquer coisa nova, onde possa expiar toda a minha tristeza.

Ou coisa parecida.