segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Vida põe e dispõe

E eu que fui encontrar a felicidade em algoritmos e na Álgebra de Boole?

Nada como a matemática para nos lembrar de que há como extrair ordem do caos. Que tudo que se subtrai também se soma, se multiplica, se potencializa. Viva a frieza retumbante dos números, essas certezas ontológicas, sempre disponíveis para nos lembrar a ordem de tudo, a relação de causas e efeitos, a ditadura da exatidão, do ato de dar às coisas os nomes que elas têm.

É algo a se examinar: eu nasci para humanas, mas sou feliz mesmo é com as exatas.

Eu posso me encantar com a caudalosa prosa penserosa de um Adorno, ficar indignado pelas elucubrações das ciências sociais sobre o nosso tempo, sou um apaixonado pela História, posso me ver cercado por todos os lados pelo "O Ser e o Nada" do Sartre, compungido pelo mundo em desespero antecipado por Nietszche, tudo com um monte de palavra bonita, correndo de um lado para o outro sem saber direito o que fazer e acudir, direitinho como eu, que picado pela fome de bola, pela paixão pelo futebol fui, sucessivamente, lateral direito; meia direita, porque eu corria uma barbaridade o jogo todo, sempre perdido, atrás da bola e sem saber o que fazer com ela. Ciente das severas limitações técnicas, acabei, antes de pendurar as chuteiras, me conformando com o cargo de volante do Clube Atlético União Olímpico.

Mas felicidade mesmo está na ordem inexorável dos números, nas verdades incontornáveis das leis físicas, das regras algébricas, das ligações químicas, da entropia, da termodinâmica, da gravitação universal, da eletricidade, da ótica, da geometria euclidiana, da lógica irredutível dos circuitos eletrônicos, dos mistérios dos números primos, de Fibonacci, do raciocínio, do triunfo da razão sobre o mundo natural, da absoluta falta de ambiguidade. A exatidão fria dos números, das leis, das regras, do que funciona e se sabe, se mede e se verifica. É o que consola, dá ordem e sentido ao caos, me alivia.

Há uma larga literatura a respeito da ideia de felicidade, das suas manifestações nas vidas das pessoas, do que precisa e não precisa ter para atingi-la. Eu, exercitando um pouco os bíceps do cinismo, poderia dizer que, a rigor, não sei muito bem do que se trata e que, talvez, felicidade em si não exista, e o que existam, já dizia a canção, são apenas momentos felizes.

Não que isso venha bem ao caso porque a grande sabedoria, quer a felicidade exista, quer não, é saber abraçá-la generosamente quando ela se manifesta, na forma que for, ao custo que for. Para dar testemunho dessa necessidade, eu vou nadando de braçada nas águas calmas dessa quadra em que a vida se endireita, em que vou me reencontrando fazendo contas, escrevendo algoritmos, desvendando linguagens e dando vazão a essa, há tanto tempo, suprimida parcela lógica, racional e técnica da minha personalidade.

Felicidade, ao menos nesse momento, não é tão somente se encontrar com essas percepções, e com tantas outras de igual proporção e relevância, mas se dar conta de que as vitórias, as boas notícias e essa sensação gostosa de estar em paz são todas elas oriundas do seu esforço, e não do acaso, que são frutas colhidas maduras das sementinhas que você plantou quando se deixou acordar, se libertar, quando abriu os olhos. Virou a mesa e, enfim, pôs todas as coisas em perspectiva.

E é sempre inevitável se confrontar com quantas e quantas vezes você se armou para dar esse bote, e não deu. Ficou esperando as coisas darem certo por si mesmas, como se a vida fosse se ajeitar em passes de mágica, por pura compaixão. Ou quando esqueceu-se das datas para se inscrever, quando achou que a grana era pouca e as dificuldades enormes. Quando ficou com medo de arriscar outras parcelas da sua vida fazendo uma escolha dessas. Lembra daquela feita em que quase, quase mesmo, foi atrás, mas ficou parado, embasbacado com esse embotamento do espírito, essa coisa amortecida de não ir, não buscar, de querer e não fazer, de poder e não ir que, em última análise, é o que você pode chamar de depressão.

Eu não vou desfiar esse novelo do que é felicidade num post de blogue, que desse tipo de pretensão já estou curado há anos e anos, mas posso dizer uma ou outra coisa sobre como é bom se resgatar e perceber-se bem, feliz. Posso dizer que felicidade não é apenas buscar as mudanças, as coisas que você precisa, que te dão sentido e prioridades. Felicidade é abraçar o que a vida dá e correr atrás das que você quer, custem elas o que custarem, deem elas certo ou não porque a raridade da vida está nessa escassez de tempo e em fazer jus a esse suprimento finito de tempo nos esforçando, suando a camisa, indo em buscas. Correndo os riscos da decepção e da derrota, nos encontramos com o que somos, com o que realmente queremos e com o que realmente importa. É no viver de peito aberto e sem medo que você redescobre porque se lembra que você era curioso, sempre teve essa mente lógica de cientista, gosta de laboratório, nunca teve medo de contas, que há um conforto na solidez fria da matemática, no caos louco das equações, das fórmulas que, se por um lado não dão resposta às grandes questões da sua vida, do universo e tudo mais, ao menos dão aquele conforto gostoso de te lembrar mais sobre quem você é: uma criatura curiosa como uma velha, com uma enorme facilidade e boa vontade para aprender coisas novas.

O novo sempre vem. E sempre veio, inclusive nos tempos em que, ensombrecido, perdi tempo com tanta coisa inútil, com tanta obsessão por perfeição que acabei sem essa acuidade que todos nós temos antes das decepções da vida adulta, essa lâmina afiada que a gente é para cortar a existência com desenvoltura de bisturis. Eu gostaria de dizer para quem interessar possa que há uma receita para curar esse embotamento e se afiar novamente, mas não vou tão longe: milênios de religiões, filosofias, misticismo, ciência, pensamento, poesia, literatura, música e tudo mais ainda não encontraram essa resposta, essa receita, esse, olha só, algoritmo universal para colocar todos no caminho da felicidade.

O pouco que eu sei sobre o assunto diz respeito à minha experiência, ao meu algoritmo: coragem, ouvir, receber da vida, ir atrás, calar e nunca, sob hipótese alguma, me dar ao direito de me lamentar pelo que não veio, não deu, não foi, é diferente do que esperava. Porque eu sou muito bom nisso, nessa coisa de tristeza, e a luta contra os humores da bile negra, ao contrário do que calculavam os ingênuos esculápios gregos, tem pouco a ver com dietas e condições físicas, mas muito com descoberta, vontade e decisão. Vencer a bile negra envolve força de vontade, bom ânimo e coragem. E isso eu tenho de sobra.

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