Colin Chapman foi um engenheiro inglês que, entre outras coisas, fundou a Lotus Cars, fabricante de carros esportivos simples e baratos, o típico "sports car" britânico (que, em si, é um conceito bem diferente do que nós outros entendemos por carro esportivo). Foi o cidadão que reinventou a Fórmula 1 e aplicou conhecimentos de aviação para dar a seus carros larga vantagem de performance sobre toda a concorrência por uns bons 20 anos. Depois, falido, dizem que forjou a própria morte nos anos 1980, e que teria vindo, escondido de todos, comprar uma fazenda no Brasil para viver anônimo e longe dos credores. Um tipo de Belchior, portanto.
E nada disso importa. Porque Colin Champman, ao menos nos meus olhos, é também um grande filósofo e sua avaliação sobre como extrair a maior quantidade possível de desempenho de um automóvel, sem gastar os tubos no processo, é um lema para a vida toda.
Chapman criou a Lotus Cars e seus carrinhos esportivos com um conceito muito simples. Incapacitado de investir quantias enormes de dinheiro em desenvolvimento tecnológico de motores enormes e potentes, Chapman decidiu fazer dos seus carros mais espertos e rápidos por meio da diminuição do peso. Levinhos e compactos, os Lotus podiam ter motores bem menores e andar muito, a ponto de peitar Porsches e tantos outros menos votados num tempo em que toda a gente se picava de entender e gostar de carros, em especial os mais rápidos.
Em geral, quem tem motorzão faz muito barulho, é rápido de reta e está compensando o tamanho reduzido de certo apêndice anatômico. Quem é leve, no entanto, é rápido na pista toda e tende a terminar na frente, tudo sem escândalo, o que tende a confirmar a ideia de que o sujeito é bem provido do supra mencionado apêndice anatômico. Além disso, carros simples, em geral, são mais duráveis: têm muito menos coisas para quebrar, para dar errado.
A essa filosofia de desenvolvimento, de leveza em contraste ao exagero, Chapman deu o nome de "Simplify and add lightness", ou, numa tradução, livre, direta e descompromissada, feita no meu inglês de anedota, "simplifique e adicione leveza".
Esse valor intrínseco dos Lotus, que sobrevive até hoje, embora as criações da marca estejam longe de despertar o mesmo interesse de décadas atrás, quem diria, é em si uma lição de vida. Vamos mais longe, e até mais rápido, se nos dispusermos a caminhar mais leves, a esgrimir contra as curvas do destino sem carga, sem essas toneladas de coisas que você acaba, mesmo que sem querer, carregando no dia a dia, essa quantidade absurda de memórias, nostalgias, tristezas e derrotas que não simplificam nada, e só adicionam peso, fazem de você lento, preguiçoso, pouco combativo.
Quem carrega mais coisas, não diga, fica pesado e anda devagar demais.
Não que a vida seja uma corrida, que você precise necessariamente de pressa, que a busca pelas coisas que você julga importante e considera necessárias para o seu futuro esteja relacionada com a necessidade de ser rápido. Mas a questão é que quem é leve, quem pode viajar mais rápido se assim desejar, terá sempre mais desenvoltura para se desviar a tempo de obstáculos, de imprevistos, terá mais margem de manobra para reagir ao que a vida, trigueira e sempre disposta a surpreender, estará colocando no meio do seu caminho. Quem pode andar mais rápido também tem mais recursos na hora de se levantar de um tombo e retomar o rumo.
A ideia de simplificar as coisas é uma fórmula certeira para construir bons carros de corrida, ótimos carros esportivos, e para enfrentar a vida de forma mais eficiente, mais madura, mais equilibrada. Simplificar, nos carros, é fazê-los eficientes e comprometidos com o ato de levar pessoas do ponto A e B, e só: sem ar condicionado, revestimento de luxo, aquecimento nos bancos, câmeras e tudo mais. Quanto menos coisas agregadas para dar problema, mais confiável é o automóvel, mais propenso a levar você longe sem dar defeitos ele será.
Na vida, simplificar é abrir mão dessa obsessão de ter controle de tudo. É encarar as coisas pelo que elas são realmente, seja ver o amor que você sente por alguém ser banalizado por uma série de decisões e atitudes idiotas de parte a parte, seja perceber que você criou todas as condições necessárias para passar anos doente. Simplicidade, na vida, é uma postura resiliente diante da vida, é dar às coisas os nomes que elas têm. É se libertar das culpas que você assumiu corretamente, mas de forma bastante infantil decidiu cultivar como um relicário de derrota, merda e atraso que só te fez mal. Simplificar, na vida, é esperar o que ela tem para você e encarar cada uma dessas surpresas com galhardia: porque muitas delas serão desafiadoras, outras tantas ruins, mas muitas também serão boas. É não carregar nada que pese, porque peso representa ficar devagar, letárgico, passivo. Simplificar é planejar e ir atrás, mas aceitar que a vida dispõe de nós e que nada é para ser perfeito e infalível.
Eu passei boa parte da vida "complicating things and adding weight to everything". Deixei de enxergar todas as coisas pelo que elas são realmente. Me fechei para felicidade em coisas simples, para alegria. Me escondi, por medos e outros tantos fantasmas, das escolhas difíceis que a vida espera que a gente faça para seguir em frente. De alguma forma, doente, encarei como naturais a tristeza, a derrota, o fracasso e uma abordagem letárgica em relação à vida, de não assumir riscos e esperar que tudo se resolvesse por si só, num tipo de otimismo absurdo: aquele de quem não faz rigorosamente nada para corrigir problemas e buscar soluções para a própria vida, esperando que um fatalismo irredutível se encarregasse de ajeitar as coisas. Eu andava pesado e devagar, e sem agilidade, fui me perdendo do contato com as coisas realmente importantes, aquelas que eu realmente preciso, aquelas que me definem, que fazem de mim o que eu sou, para o bem e para o mal.
Mas, a vida que nos conduz a caminhos ruins é a mesma que, em condições ideais de temperatura e pressão, te resgata. É na queda que você para, senta na estrada, olha a sua volta, e examina tudo em perspectiva. Vê que a dificuldade em levantar para seguir em frente está unicamente em você, que mais leve, você fica de pé rapidamente e começa a caminhar, se não correr, novamente em pouco tempo. Simplicidade e leveza, portanto, te fazem análogo aos carrinhos pequenos e frágeis da Lotus, que esguios e espertos, iam mais longe e mais rápido que os pesadões, que os lentos, que os assombrados, que os complicados. Simplicidade e leveza é a minha resposta para tudo, para a vida, para o futuro.
Simplificar e adicionar leveza é viver a vida de uma forma equilibrada. É reagir menos, aceitar mais. É agir mais, mas lamentar-se menos.


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