terça-feira, 31 de outubro de 2017

Peso

É semana de finados. No cemitério da cidade há quem me espere e eu digo que não sou muito afeito do lugar. A algum desavisado vai parecer terror da morte, algum medo, quem sabe a justificável dor das lembranças que eu trago comigo de situações que não deviam nunca sair das páginas dos livros para vir empeçonhar a existência das pessoas, ainda que o provérbio de que o elusivo deus nunca dá cruz maior do que a largura das suas costas, ao menos no meu caso, tenha sido sucessivamente verificado com sucesso. Mas deve haver exceções. Em todo caso, não é nada disso porque eu não tenho pavor, medo ou repugnância de cemitério. Eu não gosto desse cemitério, desse. Porque ele me recorda o choro da minha mãe e as coisas que ela dizia e fazia quando morrera a minha avó.

Nada de louco, nada de absurdo, nada de errado, frise-se. Eu só era um menino muito impressionável. E impressionado fiquei.

E, de lá para cá, passei a não gostar e a evitar sempre que possível andar não por cemitérios, no geral, mas por um específico, esse mesmo, esse das minhas memórias, que em típica irresponsabilidade urbanística foram construir em cima de um morro. Ainda que, verdade seja dita, o que não é morro nessa cidade?

E, afinal, por que me desculpo tanto? Há quem goste de cemitérios?

No meu caso, a razão, aparentemente bem explicada e conhecida da sensação, tem toda pinta de ser velha conhecida.

Não é verdade. Fui dar-me com essas explicações bem recentemente, nesses momentos de introspecção que a meditação rende.

Mas eu precisei vencer a repulsa de cemitério porque é semana dos mortos e, embora eu tenha convicção de que eles só existem na minha memória, que a morte é o frio fim de tudo que a entropia antecipa e endereça, resolvi ir prestar meus respeitos para quem já foi. Em especial, meu pai e irmão. Décadas antes, dois tios meus, morreram bebês, foram sepultados no lugar. E eu, que vergonha, não consigo, por mais que faça força, lembrar dos nomes.

Não levei flores, acho que elas devem ser dadas aos vivos, também não fiz orações porque eu não rezo, eu não creio. Mas me aproximei reverente e com peso daquela capela, daquela velha e conhecida capela, daquele ponto final inescapável onde, parece, tudo acaba e se torna pó e irrelevância na escala do tempo.

A sensação de peso me recordou algo que meu pai dizia sobre mortes e cortejos, sobre a sensação de que o caixão ficava mais pesado tanto quanto mais próximo o cortejo chegava do túmulo. A recordação dessa frase me fugira da mente por todos esse anos de sorte que eu lembro muito bem de quando a ouvira pelas duas últimas vezes na minha cabeça, martelando qual verdugo no meu coração de garoto: quando coubera à mim carregá-lo até aquela mesma capela.

Sim, pesa.

Eu cheguei de bermuda e chinelos, com uma escada debaixo do braço. No outro, carregava um balde, nele ia dentro a brocha, um pano, adaptador para o esguicho, extensão para a tomada. Noutra viagem, fui ao estacionamento e busquei uma lata de produto químico e o esguicho desses que vaporizam a água e ajudam uma barbaridade em qualquer tipo de serviço mais pesado em que precise-se de água como solvente.

Minha forma de prestar carinho, recordar, de respeitar, foi subir àquela laje. Fiz uma limpeza daquele pequeno teto que nunca fora feita, está em pé essa construção desde 2002, e nunca, depois que o pedreiro desceu e desfez o andaime, subiu alguém aqui. Eu tenho um sexto sentido para perceber essas efemérides, é quase como outro super poder, faltando ainda descobrir uma forma de, com ele, se encapar e esconder atrás de outra máscara, porque umas já carregamos todos, e sair por aí combatendo o crime.

Fiz a limpeza, removi o musgo, a casca, a vida morta que se agarra nesse concreto. Uma década e meia de acúmulo, de tanta coisa que aconteceu e não houve, que houve e não aconteceu. Esfreguei, escorri litros d’água, garanti que as calhas estivessem brilhando, que a água nunca fluiu desse telhado tão bem quanto agora.

No processo, revelei o que eu temia, descuidada, a laje já tinha focos de infiltração e eu, contente pela minha capacidade de estimar o estrago da entropia, essa anti-heroína da minha vida, desci. Abri a lata de impermeabilizante, fiz a mistura conforme me orientara um pedreiro. Sofri com a escada mal apoiada, os quilos de peso no braço, a dificuldade para fazer tudo sozinho. Mas subi.

Passei aquele impermeabilizante e, avaliando o que eu fazia, garantir boas condições àquela laje a quem não existe, quase que mumificando essa estrutura para que a água não traga oxidação ao ferro que mantém tudo em pé, tive esses meus ataques de niilismo, essa desgraça do existencialismo, esse mal doído de ter lido tanto e de poder ver as coisas por tantos ângulos, tantas formas, e poder tirar tantas conclusões quanto possível, normalmente nenhuma delas útil e redentora porque a sina de perceber essas coisas é atinar sempre com o inescapável nada e a nulidade esmagadora de todas as coisas.

Não é fácil ser eu mesmo.

Parei de questionar o que fazia me recordando do propósito legítimo: demonstrar respeito em foro íntimo, daí a ter escolhido vir tão antes dos finados, não quero ser vitrine, exemplo, nem tenho vaidade para que digam “oh, que dedicado”. Fazer algo de útil, de importante, no silêncio e na discrição de quem se basta com o registro na memória de ter feito e esse texto, quase que anônimo, perdido nesse turbilhão de desatinos e bobagens que tenho escrito.

Mas não pude desarmar a bomba, porque para cada uma das carradas de arrazoados que eu tiro do bolso para explicar como movem-se os planetas, como funciona o computador, porque os juros derretem nossa economia, como o avião pode voar, da importância do estoicismo, da dificuldade de quebrar vícios de comportamento e de formas de levar a vida depois de anos doente, de que é, sim, inútil vir aqui atender a essa laje, mas não deixa de ser importante, algo meu, algo para preservar, enfim, no meio de tudo isso, estoura a bomba, e a bomba é o coração. As saudades, a falta, a distância, as minhas lembranças, o que eu queria ter dito e feito e tudo vai e volta, tudo gira nesse espaço sem fim e propósito, e eu, que sou sempre eu, claro, fui misturar ao impermeabilizante o sal tépido, puro e grande não só do meu suor, como das minhas lágrimas.

Eu sei que o caminho da minha vida vai longe, que não é cedo que eu vou me deitar por lá, mas agora há um pouco de mim naquela morada, porque ficaram, e é poético que tenham sido elas, as minhas lágrimas embutidas no espaço que guarda os restos de irmão, pai e tios. Morremos todos um pouquinho por dia e que bom que nesse eu soube escolher uma morridinha digna e da qual eu me orgulho.

Daqui 15 anos eu entro novamente nesse cemitério e subo de novo naquela laje.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Então me diga quantas vidas você tem.

domingo, 15 de outubro de 2017

Da porra

A obra está parada, a coisa toda foi para a justiça, mas isso não me impede. Acima da lage, onde se forma o telhado, há uma cobertura de chapas de compensado que, mais ou menos incorretamente instaladas, expõe algumas bordas recortadas à ação do tempo. Tempo que, como se sabe, passa. Ele não faz outra coisa, e ao passar, dá o ensejo das chuvas, que se lograrem o êxito de alcançar essas aberturas, vão infiltrar nas camadas da madeira prensada e, com o tempo, farão com que apodreçam e, em apodrecendo, compromete-se de uma só vez toda a vida útil do telhado que, propriamente instalado, deve sobreviver até 40 anos, suportando inclusive borrascas de alguma magnitude no processo.

Aí eu subo na lage, munido de uma lata de tinta à óleo que comprei, pincel e água-rás, armo a escada e esquadrinho cada centímetro quadrado da cobertura em busca dessas aberturas. E as cubro com a tinta a óleo, que as veda e protege, e assim gasto toda uma tarde em meio à delícia do trabalho, da dedicação, do interesse e da responsabilidade de fazer algo simplesmente porque deve, porque precisa, porque é seu, porque a vida também é as responsabilidades que escolhemos.

E aí termino, trabalho bem feito, tenho convicção de que segui todas as instruções reservadas no manual baixado da Internet, que agora sim, esse telhado vai longe, é capaz de sobreviver a nós todos.

E aí me aborreço porque acaba a aventura. Não há mais telhado para corrigir e que pena que, no meio dos erros que são agora seara da justiça, das incorreções e coisas por fazer dessa obra, eu não saiba mais achar nada para me distrair.

Desço do telhado, guardo as coisas. Lamento que tenha sobrado assim tanta tinta, a lata era das pequenas, mas metade ainda fica nessa lata que, à falta de ter mais o que pintar, vai acabar estragando com o tempo. Peguei certa aversão aos desperdícios.

E pintor de meia tigela, me encontro também de certa forma revestido desse vermelho escuro que só larga o abraço do meu couro à força de se esfregar bastante, ou de se aplicar a água-rás, esse líquido de cheiro forte, que eu gosto, mas que resseca a pele e que a faz arder depois de algumas esfregadas. Pelo menos, com o frasco de água-rás não se dá o mesmo que com a tinta, uso até a última gota: considero até que precisava de mais algum do líquido porque, francamente, eu sou desastrado demais para manejar pincéis.

Eu sou, na verdade, desastrado com todas as coisas.

E eu desço dessa escada, me preparo para fechar a construção toda, atar pelo nó do cadeado as correntes, fechar os portões, recolher todo o material que fica, o que vai comigo. Noto a camiseta manchada, que previdente eu fora em ter escolhido uma roupa velha, que agora respingada desse outro vermelho sangue não fara falta que fique à serviço de limpar os chãos, de virar retalho, de ir para no lixo.

Mas só horas mais tarde, no calor do conforto da companhia de quem nos quer, que eu de fato ganhara o dia. Uma tia muito querida, sabendo do porque eu estava de braços esfolados, e ouvindo da minha rotina, que envolve tantas devoções; sabendo dos meus poemas e dos meus pratos, foi me rasgar um elogio que me encheu o peito. Ouvi dela um “mas que homão da porra!”.

Venho me dando bem com elogios. No começo da faculdade, a professora de inglês veio, com o adorável filho ao colo, querer saber porque eu desejava eliminar a matéria. Na conversa, descobrimos que tínhamos compartilhado as mesmas salas de aulas numa outra universidade. Ao saber que eu era jornalista, mas gostava de ciência e de matemática, ela me classificou de união do útil ao agradável, o que me deixou sinceramente comovido. Ainda que, na verdade, mais do que bom domínio do idioma, me decidira a eliminar a disciplina porque me folgaria as noites para as viagens que achava que faria quase semanalmente a uma paulicéia e também porque a professora, em que pese a gentileza e o bom papo, tinha boa parte dos vícios dos maus professores que me levaram a destruir qualquer nesga de seriedade durante a minha primeira formação. Que bom ter eliminado a disciplina, portanto, porque dela fiquei apenas com boas recordações e com a dívida desse elogio tão gentil.

É bom espraiar o penacho preguiçoso dessa minha cauda de pavão que, por tanto tempo, escondi envergonhado de não sei bem o quê. E no fim, eu sou mesmo união de útil ao agradável e, bem sinceramente, um tremendo homão da porra.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Ao mestre, com carinho

O professor Silvio foi o que eu tive de mais próximo daquele colosso de retórica e capacidade de iluminar que, por vezes, pessoas de sorte encontram na vida, em especial quando chegam ao que uns chamam de ensino superior, outros, mais debochados, de máquina de moer sonhos. O professor Silvio era admirado pelo coletivo dos alunos do curso, era um tipo de farol, luminar que desbravava os caminhos tortuosos da filosofia e base teórica do ato de comunicar-se. Tudo, hoje, ciência relativamente vã na minha vida, mas de qualquer forma ainda apaixonante porque toda vez que eu me lembro de Adorno, Walter Benjamin e toda aquela gente boa da Escola de Frankfurt, lembro das perorações e do Silvio conjecturando como deveria ser apavorante levar um esporro de Theodor Adorno.

E quando digo que “foi o mais perto de...” não estou diminuindo o sujeito. Estou apenas atestando que o convívio foi curto demais: por razões pessoais que, hoje, eu entendo porque as encarei na pele, o professor Silvio acabou se transferindo para outro lugar mais aprazível e menos deprimente que uma certa princesa de uns não tão certos campos.

As aulas com ele eram inesquecíveis. Eram importantes, difíceis. As histórias que ele contava, a forma de explicar, o jeito de dizer as coisas de uma maneira que torna claras e pulsantes algumas das querelas mais inconsequentes a respeito das teorias da comunicação, a postura de quem tinha a sincera expectativa de que nós outros ali, apenas crianças, soubéssemos entender a largura de algumas ideias e a bitola larga por onde trafegam os raciocínios e progresso da história era libertadora, era empolgante, nutria em muitos de nós o desejo de aprender mais, de conhecer, de entender o que todas aquelas coisas significavam. De abraçar cada uma das referências culturais que ele encaixava naquelas aulas.

Silvio era redentor principalmente porque reinava sozinho no vácuo da boa parte de professores horríveis que tive. O que não é juízo de valor a respeito das pessoas em si, mas apenas medida da qualidade do trabalho que podiam oferecer no ofício do ensino. E, sinceramente, era mesmo difícil competir com o Silvio.

E foram dessas aulas, dessas referências, desse tempero apaixonante de cultura e descoberta que eu comecei a ouvir Sigur Rós, por exemplo. Ler Hermann Hesse ganhou outro paradigma, porque agora o alemão era mais que um escritor interessante. Italo Calvino redefiniu as possibilidades do narrável e da literatura na minha vida (sem a intenção do trocadilho). Entender o mérito da filosofia, de Nietsche, por exemplo. Filmes obscuros do cinema periférico, que eram mais do que aquela obsessão de parecer cult mesmo que isso custasse horas e horas perante filmes difíceis e aborrecidos, passaram a virar parte do cotidiano porque tudo vinha costurado com embasamento, sensibilidade e uma acuidade que eu nunca tinha sabido encontrar sozinho naqueles que eram, até àquela altura, meus curtos referenciais culturais.

Convivi com Silvio por poucos meses, não tive a sorte de tê-lo como professor nos anos subsequentes da graduação, mas a impressão nunca foi embora. Eu e meus amigos continuamos cultivando essa figura de guru, de sábio, que veio e foi embora das nossas vidas, semeando algumas ideias e impressões profundas sobre a vida, o universo e tudo mais. Algumas frases recorrentes do professor viraram itens constantes nas nossas conversas, como o esmagador “há momentos na vida em que você questiona a validade disso tudo”.

E é revelador desse apreço que aprendi a ter pelo professor que, anos e anos depois, fomos os dois nos reconectarmos no Facebook. Fiquei, a um tempo feliz e orgulhoso, em saber que ele se lembrava de mim e de um amigo querido.

De lá pra cá, nos esbarramos em postagens, em trocas de comentários, em algumas mensagens.

E hoje, completamente por acaso, fui comentar num post em que ele recomendava uma canção, letra de Dylan e voz de Joan Baez, que combinação perfeita, aliás. Nos comentários, fui apresentado a mais um referencial que, não fosse Silvio, jamais teria aparecido na minha vida:

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Breaching the cognitive gap

Eu sou cheio de tropeços, então eu tropeço em história naval, de lá caio em alguma questiúncula sobre Napoleão e, de alguma forma, no meio disso tudo, vou estudar o kernel do Linux porque as minhas ambições crescem dramaticamente. E de alguma forma, no mágico caleidoscópio de ideias, desatinos, memórias e conhecimento que formam essa pessoa que eu sou, tudo faz o maior sentido. Mas hay um problema.

Porque eu sempre fui assim, mas em maior ou menor medida, sempre me foi difícil estimar um efeito de fastio que venho notando agora, bem agora que a cabeça precisa ter espaço para muito mais coisas e chavear instruções e modos de operação entre todas elas com uma exuberância que eu pensei fosse inoxidável. Mas não é. Eu não sou mais adolescente.

Eu sinto que a minha capacidade de transitar de contextos e minha capacidade de isolar processos e raciocínios, sem considerar a habilidade de lembrar e conectar ideias, já não é mais a mesma. A entropia, a inevitável entropia, alcançou os meus neurônios e não há nada que possamos contra a termodinâmica.

De alento, meu otimismo poderia dizer que esse tipo de percepção, de acuidade em relação a si mesmo seria inviável há algum tempo, que eu só fui notar essa transição a algum custo e depois de ler, por pura falta do que fazer, um artigo a respeito do que os gringos têm chamado de “cognitive gap” entre as gerações (e que me dá o que pensar: serão os meus filhos muito mais espertos do que eu? Eu vou me sentir orgulhoso em 100% dos casos? Não vai doer nenhum pouquinho se sentir burro perante uma criatura que você pôs no mundo? A saber.).

A solução para essa prematura decrepitude deve vir na calma de, mais uma vez, aceitar o que a vida dá. Quem sabe começar a selecionar melhor os assuntos. Ou ainda desenvolver método para casar melhor as informações, criando vínculos e as raízes de tudo que se aprende para que, quando mergulhar nos galhos e nas folhas das pequenas minúcias, elas tenham onde se agarrarem e nessa árvore do que você sabe, tudo tenha laços e vínculos que dão sentido e coesão ao todo. Nunca precisei me preocupar em organizar as minhas informações porque, de alguma forma, meu cérebro entrava num piloto automático fascinante de biblioteconomista que sabe exatamente onde estão trivialidades e informações importantes com rigor e precisões impressionantes.

Sempre morri de orgulho da minha memória.

Talvez do que eu precise, já que a entropia é inevitável, é mesmo de uma receita de overclock do cérebro. Acelerar essas sinapses, prover de todo fosfato possível esses neurônios e elevar a frequência de operação dessas células certamente poria todo o sistema sobre um estresse pronunciado, elevando potencialmente o efeito da tal entropia, quem sabe até antecipando-o de forma perceptível em alguns anos, mas: de que adianta viver se poupando para um ocaso que, se vier, não fara o menor sentido com todas essas luzes guardadas? Mais importante ainda: que pai vou ser eu se não for esperto o suficiente para impressionar e me impressionar com minhas crianças, sem a insegurança bocó de me sentir burrinho perante elas?