Eu sou cheio de tropeços, então eu tropeço em história naval, de lá caio em alguma questiúncula sobre Napoleão e, de alguma forma, no meio disso tudo, vou estudar o kernel do Linux porque as minhas ambições crescem dramaticamente. E de alguma forma, no mágico caleidoscópio de ideias, desatinos, memórias e conhecimento que formam essa pessoa que eu sou, tudo faz o maior sentido. Mas hay um problema.
Porque eu sempre fui assim, mas em maior ou menor medida, sempre me foi difícil estimar um efeito de fastio que venho notando agora, bem agora que a cabeça precisa ter espaço para muito mais coisas e chavear instruções e modos de operação entre todas elas com uma exuberância que eu pensei fosse inoxidável. Mas não é. Eu não sou mais adolescente.
Eu sinto que a minha capacidade de transitar de contextos e minha capacidade de isolar processos e raciocínios, sem considerar a habilidade de lembrar e conectar ideias, já não é mais a mesma. A entropia, a inevitável entropia, alcançou os meus neurônios e não há nada que possamos contra a termodinâmica.
De alento, meu otimismo poderia dizer que esse tipo de percepção, de acuidade em relação a si mesmo seria inviável há algum tempo, que eu só fui notar essa transição a algum custo e depois de ler, por pura falta do que fazer, um artigo a respeito do que os gringos têm chamado de “cognitive gap” entre as gerações (e que me dá o que pensar: serão os meus filhos muito mais espertos do que eu? Eu vou me sentir orgulhoso em 100% dos casos? Não vai doer nenhum pouquinho se sentir burro perante uma criatura que você pôs no mundo? A saber.).
A solução para essa prematura decrepitude deve vir na calma de, mais uma vez, aceitar o que a vida dá. Quem sabe começar a selecionar melhor os assuntos. Ou ainda desenvolver método para casar melhor as informações, criando vínculos e as raízes de tudo que se aprende para que, quando mergulhar nos galhos e nas folhas das pequenas minúcias, elas tenham onde se agarrarem e nessa árvore do que você sabe, tudo tenha laços e vínculos que dão sentido e coesão ao todo. Nunca precisei me preocupar em organizar as minhas informações porque, de alguma forma, meu cérebro entrava num piloto automático fascinante de biblioteconomista que sabe exatamente onde estão trivialidades e informações importantes com rigor e precisões impressionantes.
Sempre morri de orgulho da minha memória.
Talvez do que eu precise, já que a entropia é inevitável, é mesmo de uma receita de overclock do cérebro. Acelerar essas sinapses, prover de todo fosfato possível esses neurônios e elevar a frequência de operação dessas células certamente poria todo o sistema sobre um estresse pronunciado, elevando potencialmente o efeito da tal entropia, quem sabe até antecipando-o de forma perceptível em alguns anos, mas: de que adianta viver se poupando para um ocaso que, se vier, não fara o menor sentido com todas essas luzes guardadas? Mais importante ainda: que pai vou ser eu se não for esperto o suficiente para impressionar e me impressionar com minhas crianças, sem a insegurança bocó de me sentir burrinho perante elas?

0 comentários:
Postar um comentário