É semana de finados. No cemitério da cidade há quem me espere e eu digo que não sou muito afeito do lugar. A algum desavisado vai parecer terror da morte, algum medo, quem sabe a justificável dor das lembranças que eu trago comigo de situações que não deviam nunca sair das páginas dos livros para vir empeçonhar a existência das pessoas, ainda que o provérbio de que o elusivo deus nunca dá cruz maior do que a largura das suas costas, ao menos no meu caso, tenha sido sucessivamente verificado com sucesso. Mas deve haver exceções. Em todo caso, não é nada disso porque eu não tenho pavor, medo ou repugnância de cemitério. Eu não gosto desse cemitério, desse. Porque ele me recorda o choro da minha mãe e as coisas que ela dizia e fazia quando morrera a minha avó.
Nada de louco, nada de absurdo, nada de errado, frise-se. Eu só era um menino muito impressionável. E impressionado fiquei.
E, de lá para cá, passei a não gostar e a evitar sempre que possível andar não por cemitérios, no geral, mas por um específico, esse mesmo, esse das minhas memórias, que em típica irresponsabilidade urbanística foram construir em cima de um morro. Ainda que, verdade seja dita, o que não é morro nessa cidade?
E, afinal, por que me desculpo tanto? Há quem goste de cemitérios?
No meu caso, a razão, aparentemente bem explicada e conhecida da sensação, tem toda pinta de ser velha conhecida.
Não é verdade. Fui dar-me com essas explicações bem recentemente, nesses momentos de introspecção que a meditação rende.
Mas eu precisei vencer a repulsa de cemitério porque é semana dos mortos e, embora eu tenha convicção de que eles só existem na minha memória, que a morte é o frio fim de tudo que a entropia antecipa e endereça, resolvi ir prestar meus respeitos para quem já foi. Em especial, meu pai e irmão. Décadas antes, dois tios meus, morreram bebês, foram sepultados no lugar. E eu, que vergonha, não consigo, por mais que faça força, lembrar dos nomes.
Não levei flores, acho que elas devem ser dadas aos vivos, também não fiz orações porque eu não rezo, eu não creio. Mas me aproximei reverente e com peso daquela capela, daquela velha e conhecida capela, daquele ponto final inescapável onde, parece, tudo acaba e se torna pó e irrelevância na escala do tempo.
A sensação de peso me recordou algo que meu pai dizia sobre mortes e cortejos, sobre a sensação de que o caixão ficava mais pesado tanto quanto mais próximo o cortejo chegava do túmulo. A recordação dessa frase me fugira da mente por todos esse anos de sorte que eu lembro muito bem de quando a ouvira pelas duas últimas vezes na minha cabeça, martelando qual verdugo no meu coração de garoto: quando coubera à mim carregá-lo até aquela mesma capela.
Sim, pesa.
Eu cheguei de bermuda e chinelos, com uma escada debaixo do braço. No outro, carregava um balde, nele ia dentro a brocha, um pano, adaptador para o esguicho, extensão para a tomada. Noutra viagem, fui ao estacionamento e busquei uma lata de produto químico e o esguicho desses que vaporizam a água e ajudam uma barbaridade em qualquer tipo de serviço mais pesado em que precise-se de água como solvente.
Minha forma de prestar carinho, recordar, de respeitar, foi subir àquela laje. Fiz uma limpeza daquele pequeno teto que nunca fora feita, está em pé essa construção desde 2002, e nunca, depois que o pedreiro desceu e desfez o andaime, subiu alguém aqui. Eu tenho um sexto sentido para perceber essas efemérides, é quase como outro super poder, faltando ainda descobrir uma forma de, com ele, se encapar e esconder atrás de outra máscara, porque umas já carregamos todos, e sair por aí combatendo o crime.
Fiz a limpeza, removi o musgo, a casca, a vida morta que se agarra nesse concreto. Uma década e meia de acúmulo, de tanta coisa que aconteceu e não houve, que houve e não aconteceu. Esfreguei, escorri litros d’água, garanti que as calhas estivessem brilhando, que a água nunca fluiu desse telhado tão bem quanto agora.
No processo, revelei o que eu temia, descuidada, a laje já tinha focos de infiltração e eu, contente pela minha capacidade de estimar o estrago da entropia, essa anti-heroína da minha vida, desci. Abri a lata de impermeabilizante, fiz a mistura conforme me orientara um pedreiro. Sofri com a escada mal apoiada, os quilos de peso no braço, a dificuldade para fazer tudo sozinho. Mas subi.
Passei aquele impermeabilizante e, avaliando o que eu fazia, garantir boas condições àquela laje a quem não existe, quase que mumificando essa estrutura para que a água não traga oxidação ao ferro que mantém tudo em pé, tive esses meus ataques de niilismo, essa desgraça do existencialismo, esse mal doído de ter lido tanto e de poder ver as coisas por tantos ângulos, tantas formas, e poder tirar tantas conclusões quanto possível, normalmente nenhuma delas útil e redentora porque a sina de perceber essas coisas é atinar sempre com o inescapável nada e a nulidade esmagadora de todas as coisas.
Não é fácil ser eu mesmo.
Parei de questionar o que fazia me recordando do propósito legítimo: demonstrar respeito em foro íntimo, daí a ter escolhido vir tão antes dos finados, não quero ser vitrine, exemplo, nem tenho vaidade para que digam “oh, que dedicado”. Fazer algo de útil, de importante, no silêncio e na discrição de quem se basta com o registro na memória de ter feito e esse texto, quase que anônimo, perdido nesse turbilhão de desatinos e bobagens que tenho escrito.
Mas não pude desarmar a bomba, porque para cada uma das carradas de arrazoados que eu tiro do bolso para explicar como movem-se os planetas, como funciona o computador, porque os juros derretem nossa economia, como o avião pode voar, da importância do estoicismo, da dificuldade de quebrar vícios de comportamento e de formas de levar a vida depois de anos doente, de que é, sim, inútil vir aqui atender a essa laje, mas não deixa de ser importante, algo meu, algo para preservar, enfim, no meio de tudo isso, estoura a bomba, e a bomba é o coração. As saudades, a falta, a distância, as minhas lembranças, o que eu queria ter dito e feito e tudo vai e volta, tudo gira nesse espaço sem fim e propósito, e eu, que sou sempre eu, claro, fui misturar ao impermeabilizante o sal tépido, puro e grande não só do meu suor, como das minhas lágrimas.
Eu sei que o caminho da minha vida vai longe, que não é cedo que eu vou me deitar por lá, mas agora há um pouco de mim naquela morada, porque ficaram, e é poético que tenham sido elas, as minhas lágrimas embutidas no espaço que guarda os restos de irmão, pai e tios. Morremos todos um pouquinho por dia e que bom que nesse eu soube escolher uma morridinha digna e da qual eu me orgulho.
Daqui 15 anos eu entro novamente nesse cemitério e subo de novo naquela laje.

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