domingo, 15 de outubro de 2017

Da porra

A obra está parada, a coisa toda foi para a justiça, mas isso não me impede. Acima da lage, onde se forma o telhado, há uma cobertura de chapas de compensado que, mais ou menos incorretamente instaladas, expõe algumas bordas recortadas à ação do tempo. Tempo que, como se sabe, passa. Ele não faz outra coisa, e ao passar, dá o ensejo das chuvas, que se lograrem o êxito de alcançar essas aberturas, vão infiltrar nas camadas da madeira prensada e, com o tempo, farão com que apodreçam e, em apodrecendo, compromete-se de uma só vez toda a vida útil do telhado que, propriamente instalado, deve sobreviver até 40 anos, suportando inclusive borrascas de alguma magnitude no processo.

Aí eu subo na lage, munido de uma lata de tinta à óleo que comprei, pincel e água-rás, armo a escada e esquadrinho cada centímetro quadrado da cobertura em busca dessas aberturas. E as cubro com a tinta a óleo, que as veda e protege, e assim gasto toda uma tarde em meio à delícia do trabalho, da dedicação, do interesse e da responsabilidade de fazer algo simplesmente porque deve, porque precisa, porque é seu, porque a vida também é as responsabilidades que escolhemos.

E aí termino, trabalho bem feito, tenho convicção de que segui todas as instruções reservadas no manual baixado da Internet, que agora sim, esse telhado vai longe, é capaz de sobreviver a nós todos.

E aí me aborreço porque acaba a aventura. Não há mais telhado para corrigir e que pena que, no meio dos erros que são agora seara da justiça, das incorreções e coisas por fazer dessa obra, eu não saiba mais achar nada para me distrair.

Desço do telhado, guardo as coisas. Lamento que tenha sobrado assim tanta tinta, a lata era das pequenas, mas metade ainda fica nessa lata que, à falta de ter mais o que pintar, vai acabar estragando com o tempo. Peguei certa aversão aos desperdícios.

E pintor de meia tigela, me encontro também de certa forma revestido desse vermelho escuro que só larga o abraço do meu couro à força de se esfregar bastante, ou de se aplicar a água-rás, esse líquido de cheiro forte, que eu gosto, mas que resseca a pele e que a faz arder depois de algumas esfregadas. Pelo menos, com o frasco de água-rás não se dá o mesmo que com a tinta, uso até a última gota: considero até que precisava de mais algum do líquido porque, francamente, eu sou desastrado demais para manejar pincéis.

Eu sou, na verdade, desastrado com todas as coisas.

E eu desço dessa escada, me preparo para fechar a construção toda, atar pelo nó do cadeado as correntes, fechar os portões, recolher todo o material que fica, o que vai comigo. Noto a camiseta manchada, que previdente eu fora em ter escolhido uma roupa velha, que agora respingada desse outro vermelho sangue não fara falta que fique à serviço de limpar os chãos, de virar retalho, de ir para no lixo.

Mas só horas mais tarde, no calor do conforto da companhia de quem nos quer, que eu de fato ganhara o dia. Uma tia muito querida, sabendo do porque eu estava de braços esfolados, e ouvindo da minha rotina, que envolve tantas devoções; sabendo dos meus poemas e dos meus pratos, foi me rasgar um elogio que me encheu o peito. Ouvi dela um “mas que homão da porra!”.

Venho me dando bem com elogios. No começo da faculdade, a professora de inglês veio, com o adorável filho ao colo, querer saber porque eu desejava eliminar a matéria. Na conversa, descobrimos que tínhamos compartilhado as mesmas salas de aulas numa outra universidade. Ao saber que eu era jornalista, mas gostava de ciência e de matemática, ela me classificou de união do útil ao agradável, o que me deixou sinceramente comovido. Ainda que, na verdade, mais do que bom domínio do idioma, me decidira a eliminar a disciplina porque me folgaria as noites para as viagens que achava que faria quase semanalmente a uma paulicéia e também porque a professora, em que pese a gentileza e o bom papo, tinha boa parte dos vícios dos maus professores que me levaram a destruir qualquer nesga de seriedade durante a minha primeira formação. Que bom ter eliminado a disciplina, portanto, porque dela fiquei apenas com boas recordações e com a dívida desse elogio tão gentil.

É bom espraiar o penacho preguiçoso dessa minha cauda de pavão que, por tanto tempo, escondi envergonhado de não sei bem o quê. E no fim, eu sou mesmo união de útil ao agradável e, bem sinceramente, um tremendo homão da porra.

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