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terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Filmes, lacunas e respostas

Foi um amigo que me recomendou a leitura desse texto, ele também órfão de pai em idade precoce, e o artigo é um registro de um filho que também perdeu o pai em situação talvez mais dramática que a minha, ainda que as dores nossas cabe a nós medir e dizer o quanto pesam, que meu pai foi morrer de outro jeito, mas doeu tanto quanto, quem sabe mais, quem sabe menos, quem sabe. O que importa é que doeu, feriu, marcou. O autor conta que encontrou-se com seu pai no universo da escrita de Philip K. Dick. Eu fui me achar com o meu nos bang-bangs, em Ennio Morricone e Red Dead Redemption.

Teve uma porção de coisas que me pegaram no texto, como a obsessão em se dizer forte na esteira da perda, mostrar que a morte não abala, que você é grande, adulto, muito macho, que não treme e está pronto para arcar com as responsabilidades que você inventa e acha que virão. Essa forma de reagir às tragédias, porque depois dessa me vieram outras, me machucou de formas que eu só pude entender depois de anos, deitado num divã e abrindo a minha vida a estranhos. E tudo começou no jeito atrapalhado com que eu fui reagir à perda do meu pai.

João, o autor desse texto, passou por isso também mas foi outra passagem sobre a sua relação com a perda que me resgatou. Em certa altura do registro, ele conta que percebeu que não tinha muito do seu pai consigo, eram algumas lembranças e um certo vácuo difícil de ser sanado e suprido dos mistérios deixados por quem simplesmente pára de existir de uma hora para ou outra e, ao fazê-lo, rende nós todos confusos com perguntas para as quais não vão aparecer respostas: como você era como adolescente? Quem foi a sua primeira namorada? O que você queria mesmo ser quando crescer? O que você gostava de fazer quando era criança? Como ia na escola? Como eram os seus professores? Como foi a primeira viagem para Curitiba? Como você conheceu a minha mãe? Pai, me conta, a vida fica fácil? Pai, o que te fez mais feliz nesses anos todos? E mais triste? Quais eram seus sonhos? Pai, me explica, por que você gosta tanto desse filme? Pai, quem é seu escritor preferido? Você acha que há vida no universo? Pai, você foi do PDS, que era partido da ditadura, poxa pai, você apoiava? Por que você gosta de bang-bang?

Eram, são e serão sempre tantas e tantas perguntas.

João conta que encontrou a trilha sonora de Blade Runner entre as coisas de seu pai e se imbuiu numa missão para entender o que esse filme tinha de importante, por que seu pai gostava dele, de que forma a adaptação cinematográfica da obra de Philip K. Dick explicaria alguma dessas lacunas que ficam da morte de quem amamos. Blade Runner virou uma ponte para estabelecer um vínculo entre pai e filho, suprir uma lacuna, responder algo e permitir que uma parte de quem era o pai de João se manifestasse no filho.

Eu me encontrei com algo assim no dia em que me dei à tarefa de ver todos os grandes westerns da história do cinema a troco de um interesse que, só fui admitir um tempo depois, tinha origem nessa fascinação que o gênero provocava em meu pai. Fascinação mesmo. Meu pai não dava muita bola para cinema, ele assistia TV para ver futebol, para ver F1 se algum brasileiro tivesse prognóstico de vitória, para ver novela e Jornal Nacional, além do programa do Jô, que me rende tantas boas recordações de começos de madrugada discutindo política e cultura. A única coisa relacionada a entretenimento audiovisual capaz de motivá-lo a transparecer alguma empolgação perceptível eram os westerns. E quando digo que me dei à tarefa de ver todos os westerns, eu não estou sendo deliberadamente exagerado, eu estou dizendo todos, todos os westerns que alguém um dia colocou em listagens de 100 maiores do gênero, eu assisti: dos spaghetti dos anos 1960 aos preto e branco com John Wayne. Assistir a essa massa toda de longas era a forma que encontrei de cobrir todas as bases, porque eu não sabia se meu pai gostava do western mais tradicional, dos spaghetti italianos dos anos 1960 e 1970, da fase áurea, mais antiga do gênero, ou da sua decadência revisionista que, não obstante, ainda foi render coisas maiúsculas na forma de "Os Imperdoáveis", por exemplo. Meu objetivo era compreender porque aquelas histórias de homens brutos em um contexto de atraso e rebeldia interessavam ao garoto nascido no interior do Paraná, filho de guarda-linha da RFFSA. Afinal, por que os bang-bangs e não, sei lá, filmes de pirata, outro gênero caído em ocaso, ou suspenses, ficção-científica, terror, filme policial ou de espião?

Não lembro direito em qual altura dessa epopeia que me consumiu uns 18 meses, os filmes eram difíceis de achar e a Internet não era tão rápida, me percebi interessado emocionalmente pelos westerns. De repente, aquelas histórias tinham aos meus olhos uma fascinação enorme nascida dos conflitos e das poderosas jornadas de superação e redenção que temperam a vida dos caubóis e homens que protagonizam a integridade desses filmes, suas buscas em meio a um mundo inóspito e hostil, seus combates morais, seus dilemas de luta anti-heroica que podem fazer do xerife um crápula e do bandido de bandana na cara e revólver nas mãos o herói de um povo ou de uma revolução. Da superação de condições injustas, da luta pelo amanhã melhor, a redenção saboreada nos pratos frios das vinganças ferozes, do amor improvável no meio do caos embrutecido, tudo em meio a duelos, saloons, enforcamentos, roubos de diligências e gado e muita, muita violência e injustiça. Sem perceber, virei fã de westerns e embora não tenha como responder precisamente o que interessava ao meu pai nessas produções todas, posso ao menos olhar para eles com o mesmo interesse apaixonado de fã e calcular que o que meu pai poderia buscar neles eram essas grandes narrativas de superação, do homem que sozinho dobra e põe no bolso as circunstâncias de uma realidade assaz injusta e cruel. Porque a vida de meu pai pode ser em grande parte sintetizada por essa árdua luta por um amanhã melhor, pelas puxadas de tapete que levou da vida e de ditos amigos, pelo que pode, no maior esforço possível, construir a pleno sacrifício e entrega sem, e aí mora a grande injustiça, ter podido aproveitar um pouco dos frutos da sua cruzada, tal qual um John Marston contemporâneo. Ou talvez tudo seja uma doce ilusão, criada pela minha mente ansiosa de respostas e sentido porque o nosso trabalho enquanto filhos é olhar para nossos pais como heróis, se não invencíveis, ao menos irredimíveis, absolutos: nesse western spaghetti épico da vida, meu pai era o mocinho.

Essa tentativa de diálogo com a memória de quem foi meu pai e das coisas que eu sabia sobre ele renderam uma série de dividendos que são parte do que eu sou hoje: eu conheci o Sérgio Leone, encontrei-me com o filme preferido da minha vida (“Era uma vez a Revolução”, ou “Giù la Testa!”), Ennio Morricone inundou minha existência sem episódios com a trilha sonora da contemplação, da vitória, da emoção, do amor e do triunfo que impregnam as parcerias do compositor com as criações de Leone. “Titoli” é ainda, e sempre será, meu toque de telefone. Eu constantemente ouço “I Figli Morti” e sou transportado para as emoções que o filme me provocou, além de tomado de tantas outras quando ouço "The Man With the Harmonica" e "Ecstasy of Gold", e por aí à fora. No mesmo arco de tempo, lançariam “Red Dead Redemption”, jogo de vídeo-game que fez mais para me aproximar dessa caricatura de quem foi meu pai, da versão bang-bang, do que os anos em que passei me perguntando sobre o que deixei para depois, o que perdemos e essas lacunas teimosas da relação entre pai e filhos que, aos olhos de nós que viramos órfãos antes de resolver essas questões, parecem definitivas. Red Dead Redemption me faria me imaginar mostrando o jogo ao meu pai e a considerar se, ao controlar as ações de John Marston, protagonista do jogo, eu não estaria, de certa forma, vivendo as fantasias que ele alimentara lendo revistas em quadrinhos do Tex e indo aos cinemas ver os bang-bangs. Os filmes ajudaram muito, despertaram o gosto, o jogo me daria a ligação definitiva com essa compreensão da atração que westerns em geral motivam nas pessoas e em meu pai.

Dessa forma, o “meu” Blade Runner na relação com meu pai se manifesta num caleidoscópio de cenas e situações, em geral protagonizadas por Clint Eastwood, ou então por James Coburn e aquela voz de barítono, temperados com Red Dead Redemption e uma trilha incidental comandada pelo toque marcial de “Triggernometry”. Entre essa colagem de momentos que me apresentam a Pedro, meu pai, não há nada mais definitivo do que a sensação de presença que “Pat Garrett and Billy the Kid” me provocaram, porque meu pai falava desse filme, a história é real, existiu efetivamente um xerife com esse nome e que matou com tiro nas costas Billy the Kid, que fora seu amigo e era bandido. O cenário de desolação do oeste norte-americano em processo de colonização me faz pensar na cidade pequena em que ele cresceu, dos campos e prados abertos sobre os planaltos, onde abundava espaço, cavalos e as distrações de guri que cresce em comunhão com a natureza. De repente, vê-lo xerife de cidade do interior, à cavalo e com espora na botina, aplicando o jeitão soturno do Coburn aos seus trejeitos me parece a coisa mais natural do mundo. Em algum momento, “Pat Garrett and Billy the Kid”, de Sam Peckinpah e com Bob Dylan no elenco e trilha sonora, renderizaram uma nova imagem do meu pai, de herói do oeste, de herói confrontado com os demônios e das contradições inerentes ao ofício de quem se vê obrigado a caçar um amigo, ou do herói com família para sustentar, baixo salário e traições da vida, tudo em plena harmonia com a imagem do meu pai de bombacha, chapéu e lenço, escrevendo furiosamente poesias e ganhando troféus de declamação nos rodeios tradicionalistas do interior do Paraná.

E aí fazem sentido outras coisas, porque meu pai em alguma altura da vida comprou cavalos, arrendou um pedaço de terra e pôs ali algumas reses de gado cujo único propósito em vida eram o de servir de distração para meu avô, Adelino, com quem, e só agora eu percebo, meu pai talvez tivesse a mesma coleção de impressões e dúvidas para resolver e sua forma de aproximar-se do meu avô, que morreria ainda antes de eu nascer, fora ir com ele “fazer à tropa”, andar à cavalo e atender do gado. Não sei se às outras pessoas é dada a capacidade dessas grandes epifanias em vida, mas eu tenho dessas coisas e lembro do choro que veio ao ver aquele filme e ir encaixando essas coisas e, desse quebra-cabeças inconcluso, que eu nunca vou terminar, ir surgindo os contornos de alguém tão complexo, interessante e incrível, esse cara que era meu pai, de quem eu não pude perguntar muitas coisas e com quem não vou poder andar à cavalo e ir brincar de tropeiro para me aproximar. Pode, sim, ser que todas as ilusões do mundo tenham se tornado navalhas a rasgar a minha mente, pendurando qual armadilhas esses quadros nessa parede da minha memória, mas Coburn como Pat Garrett nesse filme de 1973 É meu pai. Aquele lugar são os campos do interior e aquelas cenas mostram uma versão heroica de Pedro, professor, mestre, formado em economia, história e contabilidade. Pai de três. Poeta, escritor diletante, articulista de jornal. Ex-vereador, amante do futebol, fora inclusive goleiro do glorioso Renascença. O homem que incomodou a Força Bélica de Porto Amazonas, simpático, bom cozinheiro. Melhor churrasqueiro do mundo. Amante das tradições gaúchas, que ninguém é perfeito. Tinha enorme vontade de publicar um livro. Cardiopata que não soube cortar o cigarro à tempo, fraqueza que lhe custaria a vida. Morto no auge da carreira e da vida pessoal. Não arredava pé do portão, todas as noites, até que eu chegasse de viagem da aula do cursinho que fizera em outra cidade. Herói derrotado pela doença, meses de UTI e, desde uns anos para cá, redimido na encenação da jornada de um parente distante norte-americano em longa praticamente esquecido de 1973.

A sensação que eu tive com aquele filme em especial era de estar assistindo-o ao seu lado, e de no processo entender algo imaterial sobre quem meu pai foi, perceber que talvez quase 40 anos antes ele estava sentado numa sala de cinema, vendo esse mesmo filme porque era bang-bang e porque o personagem principal tinha com ele a singular coincidência do sobrenome. Que a semelhança com os trejeitos do personagem não fosse em absoluto incidental, que talvez de forma inconsciente meu pai projetou algo do filme em seu jeito de ser, ou que talvez ele sempre tenha sido desse jeito e quem está traçando paralelos entre personagem e figura paterna seja eu, hoje, que sozinho ainda tento de vez em quando colar os retalhos das minhas memórias com as minhas especulações de forma a desvendar quem foi, mesmo, o meu pai.

Eu vi "Pat Garrett and Billy the Kid" há uns seis anos e gostaria de abraçar o autor do texto porque ao lê-lo me lembrei de todo esse projeto de investigação e de definição da identidade dessa pessoa tão importante, dessa lacuna e incógnita na minha vida, num processo que acaba também definindo as silhuetas dessa figura que sou eu, das sensações que tive na experiência toda que, agora, postas sob análise com uma perspectiva mais crítica que colhe o benefício da passagem do tempo, me parece ainda mais marcante e definitiva na construção de quem eu sou e do que eu poderei oferecer quando e se couber aos meus ombros a responsabilidade de também ser pai.

Meu pai faleceu há 15 anos. Daqui a pouco, vai fazer mais tempo que estou vivo sem ele do que estive com ele por perto. De ter visto "Pat Garrett and Billy the Kid", faz uns seis. Está na hora de rever porque eu morro de saudades do meu pai.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Nostalgias do futuro

Viver tem sido sonhar com o dia em que, meio velho, você pega no telefone, se eles ainda existirem, e liga para os filhos no meio do dia, sem a menor razão específica, para dizer que morre de saudades do tempo em que eles lhe sorriam com as bocas cheias de janelinhas; tudo isso enquanto sabe da improbabilidade geral dessas coisas e fica aí, cismando consigo mesmo, que já seria um bom começo adotar um desses.

E, no fim das contas, não fazer nada disso porque encarar a vida, sorrir, simplificar e adicionar leveza são todas as coisas que você pode fazer enquanto se ilude a respeito de ter algum controle do que faz, sente, deseja e, no fim das contas, realmente obtém das buscas e lutas nossas de todos os dias.

A vida é um troço engraçado.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Voyagers e Sagan

Por esses dias, as missões Voyager 1 e 2 da Nasa completam 40 anos. No nada absoluto que se tornou a questão da exploração espacial, a data será uma mera vírgula no noticiário do dia e pouco se falará a respeito agora, menos provavelmente em 10 anos, quando as missões completarão 50 anos. Quatro décadas depois, as duas sondas ainda enviam sinais à Terra e assim devem continuar por mais alguns anos, quando finalmente seus reatores esgotarem as pilhas atômicas que os abastecem, ou quando esgotar o suprimento de monopropelente usado para controle de altitude (acredite: poderia aborrecer todo mundo por horas explicando porque isso é importante para que as sondas se comuniquem com a Terra). E, mesmo que a energia dure por muito mais tempo, as Voyager chegarão a uma distância relativa da Terra em que o sinal de rádio enviado por suas antenas se tornará fraco demais para ser captado pelos nossos equipamentos.

Sendo absolutamente injusto, eu vou resumir em um parágrafo porque, do ponto de vista histórico e científico, as Voyager são importantes: foram lançadas com o objetivo de visitar quatro planetas (e assim o fizeram: Júpiter, Saturno, Urano e Netuno), dos quais ninguém sabia muita coisa na época do lançamento. Ambas foram “over-engineered”, adoro o termo, com o nada pouco ambicioso fim de, um dia, serem resgatadas por seres inteligentes: levam gravações de sons da Terra, descrições de como localizar nosso sistema solar, dizem quem somos, é um cartão de visita da nossa espécie enviado às estrelas, algo de uma sensibilidade e doçura que só caberiam mesmo em alguém da dimensão e do otimismo de um Carl Sagan.

Há um relato, inclusive, de que depois que as Voyager terminaram a viagem pelos quatro planetas, uma festa entre toda a equipe que devotou décadas no projeto foi organizada. Chuck Berry tocou, porque uma música sua ia no disco dourado das sondas, e Carl Sagan foi visto dançando. Que tempo para estar vivo.

Mas por que a Voyager é importante para mim? Eu era absolutamente interessado em espaço, em astronomia, e adorava ler sobre planetas nos livros de ciência e geografia da escola. E como os pulos de planeta em planeta das duas sondas levaram anos (só chegaram a Netuno em 1989, 12 anos depois de lançadas), acabei crescendo numa época em que tudo de novo que se descobria sobre o sistema solar vinha na esteira das duas Voyager. Na escola, aborrecia os professores com perguntas e me recordo que, na TV Cultura, todas as tardes, logo depois de Anos Incríveis, passava uma longa série de documentários realizada nos anos 1980 e que, usando material e dados coletados pelas Voyager, me encantava com os prognósticos de mares de metano em Titã, erupções vulcânicas em Io, tempestades supersônicas em Júpiter, crosta congelada e em constante tensão pelo efeito maré em Europa, ou o eixo exuberantemente inclinado de Urano que, em uma altura do seu período solar, faz com que o pólo sul esteja completamente voltado para o sol (já parou pra pensar? Não é bizarro? É como se a rotação do planeta fosse de sul a norte em vez de leste a oeste).

As Voyager, a sensibilidade de Carl Sagan e essa paixão pelo novo, pela descoberta, por aprender, por imaginar, por mesmo imbuídos do mais estrito espírito científico, enviar espaçonaves para o espaço e o tempo sem hipóteses a confirmar, apenas para descobri-las, é o que sempre me encantou nessa história que importa muito pouco para muita gente e, talvez, exatamente por isso, o mundo esteja do jeito que está.



Eu tenho alguns livros de Carl Sagan e, o mais importante deles, Cosmos, que importei de Portugal à falta de versão brasileira na época, guarda, na primeira página, a minha assinatura e o mês de compra do livro (atenção que tenho com toda a minha biblioteca), mas também uma observação importante, transplantada de uma revista que falava da sua morte em 1996, e que fiz, do alto dos meus 11 anos de idade: me comprometendo a ser um cientista e a trazer a inspiração libertadora do conhecimento às pessoas.

O detalhe é que essa anotação, no entanto, veio copiada de uns garranchos meus sobre as páginas amareladas à época de uma revista Super Interessante de 1996, que falava da morte e legado do astrofísico que inspira ainda hoje milhões de pessoas. Aos 11 anos, eu era muito precoce.

Sagan escreveu para Ann Druyan, sua esposa, que “na imensidão do tempo e espaço, é uma honra dividir um planeta e uma época com você”. Tenho impressão de que todos nós que, de alguma forma, tocados pelo exemplo de Sagan, pela jornada da Voyager e capazes de amar podemos dizer o mesmo em relação a todas essas coisas: é um privilégio viver nessa época e é uma honra enorme poder se inspirar em pessoas da dimensão de um Carl Sagan e em histórias de triunfo humano como as Voyager.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Telescópios, noites e quintais

Nas noites limpas de inverno, em que não há nuvem alguma no céu escuro, armo o telescópio que fiz em tempos de marcenaria, do tripé e suporte que cortei em madeira e compensado, da lente perfeitamente polida que veio da Alemanha, do suporte em que entalhei Atlas, essa figura tão interessante, o titã que recebeu a tarefa de erguer e levar o mundo nas costas, essa sensação que todos nós um dia sentimos e que, portanto, faz de todos nós, à nossa maneira e em maior e menor medida, um pouco Atlas.


No gramado, há um espaço que, se venha a calhar de o frio ser suficiente, fazemos uma fogueira e deixamos o pinhão sapecar na chapa. Eu monto o telescópio, afago o cachorro, espero pelas crianças. Aponto a objetiva na direção das estrelas, das nebulosas, dos planetas próximos e convido a curiosidade dos meus filhos, que me enchem de perguntas, que apontam o planetário do computador para outros destinos, e falamos das estrelas, e rimos, e tomamos, eu o café, eles o chocolate, enquanto vamos esperando a noite desandar.


Lamentamos o cintilar provocado pela oscilação de quilômetros e quilômetros de atmosfera que, se generosa por nos fazer o obséquio da vida, bem que atrapalha na hora de admirar o cosmos. Comentamos a estranha figura de Vênus, esse inferno de calor e desolação, o absurdo de Júpiter e aquele conjunto de planetinhas que, qual nós outros, poderiam estar agora sentados ao fogo do sol e, de microscópios em mãos, cogitar o mistério dessas criaturinhas que povoam o planetinha azul. Aí olhamos as nebulosas, onde nascem as estrelas, onde a vida espera por acontecer, onde algo maravilhoso ainda por descobrir aguarda quem, com sorte, se deparar com as pistas, com as novas verdades.


E aí explico que é mentira o que dizem na escola, que não é separando o que brilha do que não brilha que se distingue planeta de estrela, que na verdade nada lá em cima está brilhando, está sim cintilando, e só o faz por conta das camadas da nossa atmosfera a refratar a luz que vem de lá. E a nossa atmosfera não faz favor a ninguém, de forma que ao olho destreinado, vai parecer que Marte, e seu tom avermelhado, brilha a mesma quantidade que Betelgeuse, essa enorme estrela vermelha que, mesmo na lente do telescópio, não é mais que um pontinho despretensioso.


E aí paramos de falar das estrelas, porque a noite vai avançando, amanhã tenho a vida pela frente, eles a deles, que vão à escola, quem sabe sofrer do bullying dos colegas que insistem que estrelas brilham, planetas não.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Perguntas e respostas

Durante muitos anos, eu pensei que a grande questão da vida eram só as respostas. Que saber o que você quer da vida, do futuro, era, em si, tudo uma questão de saber o que são essas coisas, de saber o fim, sem saber da história, de saber do desfecho, sem se importar muito com o mérito da caminhada. Custou muito para entender que as respostas são vazias se você não souber das perguntas.

Eu não estou questionando os seus valores, eu estou questionando você para que você descubra se eles são realmente seus.

E o que eu quero da vida, no fim das contas, não foge muito do que eu sempre disse que queria. Continuo interessado em criar uma família, preciso morar no interior, onde faça frio.

Mas há uma diferença porque essas coisas nunca foram um compromisso meu comigo mesmo. Nunca foram mais do que nuances, sombras, contornos de um futuro hipotético que, confinado a uma redoma de mundo de sonhos intocáveis pela dureza da realidade, me eram elusivos: nunca soube direito o que fazer, como fazer, para ir atrás dessas coisas. E o motivo é simples: sem saber se esses sonhos são mesmo seus, se são mesmo quem você é, não há energia que apareça para planejar, para correr nas buscas e enfrentar as pelejas que são necessárias para construir essas coisas.

Mas agora as coisas mudam porque entender que essas metas são suas, e que são importantes porque na realização delas é que se encontra o sentido para essa vida, dá esse senso de urgência, de importância, de necessidade de fazer escolhas e de orientar um caminho progressivo que direcione as buscas dessas metas. É em transformar sonhos em metas que você se encontra, no fim das contas, com as perguntas, que você sempre achou que eram desnecessárias, para aquelas respostas que sempre ofuscaram a sua percepção do que era realmente importante e necessário.

O que não quer dizer que os sonhos convertidos em metas serão fáceis de serem conquistados, tampouco que serão realizados. Mas viver, de verdade, remonta em assumir certos riscos.

Em tempos nem tão remotos, essa constatação me causaria desespero porque a vida, da forma como eu a via, precisava dessa perfeição: esses sonhos teriam que ser realizados, do contrário, tudo mais teria sido em vão. A sabedoria está em abrir mão da perfeição de todas as coisas, de submeter suas ilusões e quimeras ao duro teste da realidade e em saber que o saldo, qualquer que seja, será sempre positivo se tiver sido fruto de sincera e entregue busca: mesmo que você não se encontre realizando o que hoje parece imprescindível, no fim das contas, há um grande conforto em saber que tentou, buscou, brigou e foi à luta. Nada que vier disso, no fim, terá sido em vão.

E tudo isso me traz a esse senso de urgência que é tão fácil confundir com pressa, com temeridade, com falta de calma, de foco. Não é nada disso. O tempo é precioso e, embora eu veja em tudo na minha vida um caminho que me conduz até esse instante, não posso esconder um certo senso de tempo perdido, de que é preciso apertar o passo. É algo nas linhas do que Saramago escrevera: “não tenhamos pressa, mas não percamos tempo”.


O que eu quero é uma vida mais resolvida, de saber para onde ir e de como chegar lá. O que eu quero é viver num lugar perto da natureza, numa casa com espaço, onde possa abrigar amigos e família. Eu faço voto de fé no sentido de que o que eu quero é adotar ao menos uma criança, quero ter a companhia de cães, quero colocar minha ideia de empresa para funcionar para que tenha qualidade de vida, possa passar com algum conforto, e viver em paz. Quero aprender mais coisas, da marcenaria a o que mais me despertar interesse, quero fazer dos meus dias os meus tesouros, que divido com quem me é caro e importante. Quero parar de correr, quero viver, não quero mais fugir, cansei de esperar, quero construir.

O tempo é precioso, a vida é curta e eu, que vivi sempre disposto a me debruçar na janela e ver a vida passar, hoje vejo que não há tempo a perder.

domingo, 23 de julho de 2017

Diálogos e crianças

Na rodoviária, um pai entretinha o melhor que podia o curioso deslumbramento do garotinho que, olhando a todo movimento, disparava suas perguntas. E eu, sentado ao lado e na minha espera e cismas, resolvi distrair a mente do que tinha comigo e prestar atenção no diálogo.

O garoto, então, esgrimiu um “pai, por que o ônibus faz barulho?”. Confesso que não prestei muita atenção no esforço que o cidadão faria para responder e comecei a reagir como se fosse meu filho, e eu o desafiado a respondê-lo. No começo, fiquei feliz com a primeira pergunta, que é de coisas técnicas, e eu sou bom nessas coisas, posso dizer com facilidade porque um ônibus faz barulho: faz barulho porque tem lá dentro um motor e um motor é uma máquina que transforma um tipo de energia, nesse caso óleo diesel combustível, em outros: som, movimento e calor.


Mas responder uma criança assim não é batalha ganha. Não porque você levanta outras questões (eu adoraria, daí em diante, ir de item a item dando as definições), mas porque a resposta acaba alheia demais ao que, eu acho, um guri vá entender. E, depois, se o guri fosse esperto, poderia desarmar todo esse raciocínio com “mas então porque um ônibus elétrico não faz barulho?”.


E aí me encontrei com a dureza desse desafio de paternidade, que está no diálogo, na forma pela qual estabelecemos as pontes pelas quais trocamos ideias e sentimentos, ou mesmo definições de mecânica, física e química.


Não sei se minha resposta seria adequada para um filho meu. Não sei, também, se quando ele nascer, eu não vá virar uma outra chavinha cá comigo e ganhar todo um novo vernáculo dedicado a como construir conversas com essa criaturinha de sorte que minhas definições e respostas sobre a vida, o universo e tudo mais façam-lhe qualquer sentido.


O que eu sei, crianças, é que espero ter sempre paciência e a calma para responder, para pensar, para dar a vocês somente o melhor de mim. Seja na hora do carinho, da brincadeira, da bronca, do afeto e da hora de dizer porque ônibus fazem barulho.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Amor à vida

Nós estamos a um acidente de carro, a um diagnóstico, a um telefonema inesperado, a um esbarrão na rua, a uma nova paixão, ou a um coração quebrado, de distância de nos tornarmos uma nova pessoa. Cabe a nós, sempre, nos esforçar para que o novo nos faça melhores.

Viver é um eterno diálogo entre você e suas circunstâncias. Somos deliciosamente frágeis diante dessas circunstâncias, custa muito pouco para que esses eventos inesperados nos mudem de formas tão marcantes e definitivas. Em um lapso de segundos, somos novos, outros, melhores, mais sábios, mais doces, mais otimistas, mais gentis, mais compassivos, mais compreensivos, mais românticos, mais sinceros, muito mais corajosos, menos sonhadores porque mais vivos, mais firmes, mais despertos, mais dispostos, mais plenos (sim, estou sendo autobiográfico aqui).

Sou um homem de muitos amores. Dentre eles, vai esse mistério da vida, essa doçura amarga das verdades libertadoras que aprendemos a entender, a aceitar, a viver.

A vida é desespero, existência é dor, o nada leva ao nada, mas no microcosmo das coisas enormes que se passam no interior de cada um de nós, no intenso e perturbado caos das nossas mentes e corações, tudo se acerta, tudo faz sentido, tudo é bom e maravilhoso e a liberdade maior e última é viver essas coisas, saber do desespero da vida, a ainda assim poder dizer que ama, ama muito à vida desesperada.

domingo, 2 de julho de 2017

Construção da paternidade

No meu exercício de construção do homem do amanhã tenho contemplado a minha infância e adolescência de olho nas lições que o percurso, nem sempre bem resolvido, pode me dar quando for a minha vez de, no melhor das minhas capacidades, orientar, guiar e dar condições ao futuro dos meus filhos. Provavelmente penso nisso porque hoje é dia 29 e somaria, caso vivo estivesse, 71 anos o meu pai.

E nesse exercício, um dos capítulos que mais me ocupa a mente é a questão de como se estruturar um futuro cheio de perspectivas para crianças que nascem em um mundo conturbado, à luz de questões ambientais, sociais e políticas que não apontam para um destino assaz alvissareiro. Água vai começar a faltar, nada garante que a dependência dos combustíveis fósseis irá diminuir, a população só aumenta num contexto de automatização e robotização do mercado de trabalho que muito me preocupa.

Mas, olhando a minha experiência, posso encontrar alguns pontos em que posso trabalhar para dar melhores condições aos que terão a honra de ostentar o meu nome, carregar minha informação genética e, com alguma sorte, fazer o favor de potencializar os meus talentos, aptidões e acresce-las de muitas outras. Quero, um dia, me sentir burro diante dos meus filhos.

E um dos pontos que encontrei é de não apenas instigar a curiosidade, coisa que meus pais sempre fizeram, mas tentar alimenta-la. Quero minhas crianças desbravando o mundo, quero que aprendam, entendam as coisas, e tenham mais do que nunca tive: iniciativa, desinibição e um pouco mais de coragem para desafiar os limites impostos – eventualmente até por mim.

Nesse sentido, vou começar uma poupança para ter dinheiro para financiar esse projeto, o da vida dos meus filhos. Vou começar a guardar dinheiro não apenas para poder financiar uma viagem ao exterior, um intercâmbio, educação de qualidade. Vou guardar dinheiro para que eles tenham recursos, que desenvolvam ideias, que as persigam e saibam que o combustível financeiro estará resguardado.

Tenho pensado assim depois de ler muito sobre a vida de grande empreendedores, em especial a de Elon Musk. O homem, com todas as suas excentricidades e perspectivas iludidas, tem grandes chances de mudar o nosso mundo em algumas décadas e, sabendo do seu perfil, de como vê o mundo, de como, sobretudo, cresceu e se tornou o que é hoje, identifico nele alguns traços que eu tive na juventude. Isso quer dizer que eu teria chance de ser um Elon Musk? Não necessariamente, mas apenas que talentos e predisposições mal aproveitados são um grande desperdício e num mundo que fica cada vez mais restrito às pessoas, instigar, valorizar e se esforçar para que seus filhos tenham como potencializar esses talentos é algo de extrema responsabilidade e importância. Paternidade, em qualquer medida, é um grande contrato, uma responsabilidade enorme e eu tenho levado isso muito à sério porque se não for para ser algo feito com atenção, zelo, planejamento e interesse, não faz sentido fazê-lo (até que você engravida alguém por acidente, a garota aborta e a vida nunca mais é a mesma; mas isso é tão 2010, é história para outro dia).

O que não quer dizer que estou jogando às costas de quem sequer existe a responsabilidade de mudar o mundo e virar bilionário. Não. Estou, ao contrário, me obrigando a cuidar do amanhã com o amor e paixão que atendo ao presente, garantindo que, na hipótese de ser pai, essas adoráveis criaturinhas tenham a chance de atingir, na vida, o que de melhor puderem e quiserem ser, seja lá isso o que for: de novo Werner Von Braun a artilheiro do São Paulo FC, de padeiro ou professora a piloto de F1, de oncologista renomada a pastor.

Minha primeira obrigação é zelar, fortalecer e dar todos os meios para que esses potenciais floresçam, amadureçam e frutifiquem.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Herói absurdo

Seria fácil, bem fácil, duvidar da seriedade, da intensidade, da profundidade dessa minha reengenharia, dessa minha força de correção, de solução dos meus problemas, de compreensão íntima das minhas circunstâncias. Seria fácil de duvidar e, eu mesmo, seria o primeiro a questionar a profundidade desses propósitos, a desmontar qualquer argumento mais sério, a suspeitar, a impor o pessimismo, a falar da entropia, que relativiza tudo. Mas estaria errado quem se pusesse a duvidar porque a verdade é que esse processo todo é vida, e eu me abraço da vida ao reconhecer o absurdo, o inerente absurdo dessas buscas todas, do desejo de encontrar sentido nas coisas, de enxergar destino, sonhos, objetivos, metas, e tanta subjetividade nesse universo indiferente, como algo profundo, alusivo a algum sentido íntimo maior e mais verdadeiro do que a irredutível aleatoriedade de todas as coisas. A vida é isso.

Eu sou, de certa forma, uma manifestação daquele herói absurdo que Camus definiu, o sujeito que encontra felicidade em reconhecer que, em última análise, vivemos numa luta eterna contra o aleatório e o inconsequente em um universo que, não apenas é frio e indiferente, mas também é hostil. O que tem ciência de que a vida, no fim, consiste em uma vã luta contra o nada, em uma busca pelo nada, e que mesmo seus sonhos mais profundos, seus desejos mais intensos são redundantes a partir da ideia de que, bem, nada leva a nada.

Poderia parecer uma visão muito obscura das suas circunstâncias, quem sabe um ranço do niilismo que venho exorcizando da minha vida (embora, na prática, Camus seja um existencialista), mas não é nada disso. A percepção de que as coisas, em si, não guardam nenhum sentido emancipa porque lhe dá os recursos para libertar-se do que é ruim e prejudicial e, sobretudo, de encontrar valor, se não mesmo significado, naquelas que são as suas grandes verdades. E vai parecer um contrassenso, essa ideia de que tudo leva ao nada, e no fim falar de encontrar sentido, mas, me desculpem, eu não tenho obrigação nenhuma de fazer... sentido porque, herói absurdo ou não, no fim das contas, eu também sou uma parcela desse nada, desse vazio do existir que nos aflige, quer percebamos, quer não.

Eu iria longe nesse texto, porque entre os reencontros desse ano, tenho me dado ao direito de folhear livros de filosofia, o que me levou, por exemplo, a revisitar o existencialismo (e a ficar muito, muito, muito longe do Emile Cioran, aquele homem destrói qualquer vã pretensão de otimismo com algumas poucas frases. Eu, particularmente, nunca me esqueci do “a consciência é o pesadelo da natureza”, que é como se fosse o negativo exato do “somos uma forma do universo conhecer a si mesmo” de Carl Sagan. Cioran não é para os fracos). E a filosofia também tem ajudado, tudo tem ajudado, na verdade, porque eu agora só extraio das coisas o que há de bom nelas. Com a filosofia, vou me reencontrando com o vazio da vida, com o nada intrínseco a todas as coisas que desejamos, de forma pacífica porque nada mais me assusta.

E isso permite depurar seus sonhos e objetivos e se encontrar com a essência das coisas, com a verdade profunda das coisas que você quer, de verdade, ainda que sejam elas todas manifestações esmagadoras da nulidade, da inconsequência da vida e do fato de que, no fim, nenhum de nós existe porque quer, todos vamos morrer e nenhum de nós tem qualquer ideia do que está fazendo, do porque está fazendo e dos caminhos que temos para percorrer.

A impressão mais emancipadora dessa jornada de debate íntimo, de leitura fragmentada da filosofia – não me escapa, de forma alguma, que estou violentando as ideias dos filósofos para encaixa-las nas molduras que criei para a minha realidade – é, depois do terremoto, se reencontrar com as suas verdades, com os seus valores, com seus objetivos e ter essa convicção íntima de que a sobrevivência deles a todo esse colapso só atesta a firmeza dessas coisas na sua vida. E aí, é hora de arregaçar as mangas, deixar a filosofia para horas vagas, e ir, correndo e de peito aberto, nessa jornada, nessa busca do nada, nessa fria e inevitável inconsequência cósmica que chamamos de viver.

domingo, 21 de maio de 2017

Quando eu tinha 85 anos

Faltava um mês para que eu completasse 86 anos e, assim, superasse em um ano completo a minha meta, a minha estimativa, o número de anos que, um dia, ainda muito jovem, eu tinha decidido arbitrariamente que seria a quantidade ideal para viver. Para ver o mundo, para amar, para chorar, para vencer, para perder, para construir essa coisa nossa, essa coisa de história, de vida, essa estranha sensação de precisar seguir em frente, de precisar experimentar a vida e o mundo, essa sensação tão estranha de, diante de um universo indiferente, de um universo frio, de um universo que nos faz insignificantes, precisar amar, crescer, sorrir, chorar e ser.

Aos 85 anos, como sempre fiz na vida, não era novidade, portanto, dei-me à tarefa de olhar para trás, de fazer os meus balanços porque, a partir de agora, eu recebo o fim e a morte de braços abertos, porque de agora em diante, o que vier me abraçar é lucro, é sobra.

E nesses balanços encontro tanto para sorrir e me orgulhar que me confunde essa sensação agridoce de quem se vê apresentado ao ocaso e ao fim; me deparo com a alegria que me trazem, hoje, os netos e que senti tão esmagadora nos beijos das minhas crianças. Me deparo liberto de tristezas porque dos meus remorsos fiz escada para procurar novas paragens e construir as minhas moradas em fundações mais sólidas.

Olho para o passado e sorrio, com satisfação, diante dos meus processos, tenho orgulho dessas minhas cicatrizes, do que me cortou profundo, mas me fez mais firme, mais inteiro, mais pronto. Hoje, velho, sem muito que esperar da vida, não me sinto sozinho, não me sinto desamparado, tampouco sou fraco que ainda mora em mim o rapaz que não sabia amar, o rapaz que tinha medo, o sujeito que se deprimiu, aquele que soube desistir, levantar, e começar tudo outra vez. Há uma força enorme que ainda sobrevive na fragilidade estranha desses meus ossos, há uma grandeza e vontade de vida que palpita no coração a cada sístole cansada dessas décadas.

Resta um mês para terminar o primeiro ano, o primeiro ano do resto da minha vida.

sábado, 13 de maio de 2017

Silver Linings Playbook

Em 2017, eu me prometi um ano diferente, custasse o que custasse, doesse o que doesse, fosse o que fosse, 2017 não seria ruim, 2017 seria começo, 2017 seria avanço, progresso, vida e batalha. No alvorecer do dia primeiro desse ano, eu jurei de amor que tudo seria diferente, novos caminhos seriam perseguidos e novas formas de pensar, de encarar a vida e de resolver os problemas seriam implementadas. Velhas qualidades resgatadas do fundo do baú e uma porção de vícios, erros e costumes ruins acabariam. Não tenho baixado a guarda nessa construção e persistência, meus caros, paga: as coisas se endireitam, você sorri mais, se preocupa menos e a vida, ah a vida, encontra formas curiosas de ajeitar as coisas.

Porque agora eu deixo. Antes, eu entrava em queda de braço com a realidade. E sempre saia perdendo. Não era uma questão de sabotar-se, mas sim de ser incapaz de reagir, de devotar a mesma paixão que eu tenho pelos meus sonhos, ideais e sentimentos às coisas, às durezas, aos sacrifícios, às incertezas. Hoje, eu não sou mais meu inimigo.

Talvez os três pilares desse novo momento na vida sejam: se conhecer bem e ser absolutamente honesto com o que sente, valorizar-se e reconhecer suas qualidades, colocando-as a serviço dos planos e, por fim, encarar as dificuldades com leveza, sem lamentação. Bater no peito, olhar as perspectivas, respirar fundo e fazer. Tentar e desistir somente quando esgotadas todas as suas possibilidades, ou quando no limiar do absurdo e da falta de dignidade, desses três, o que vier primeiro.

Abre parêntesis. É possível, vejam bem, eu disse possível, que estudar Lógica Matemática tenha qualquer coisa a ver com a situação. É incrível. Mas é possível que tenhamos, enfim, encontrado o assunto matemático, que transcende as operações básicas, e que se ensinado a um sujeito normal, pode realmente fazer a diferença na vida do indigitado. Ainda não tirei minhas conclusões. Mas matemática nunca é demais, atrapalhar é certo que não atrapalha. Fecha parêntesis.

Eu pensava nisso, sobretudo como essa perspectiva mais positiva perante a vida tem me ajudado a escapar ileso de problemas, e me feito mais forte, o que não mata acresce na minha casca, e eu sou cascudo; tudo indo de encontro ao que pode até mesmo explicar o sucesso das minhas novas empreitadas. Como oportunidade de emprego beliscando, bem do meu jeito, trabalho remoto via Internet. Perspectiva alvissareira que me deixou contente e me levou a fazer algo que eu vinha adiando há algum tempo: um balanço desse ano que ainda não está na metade.

- Perdi 14 quilos
- Resolvi colorir o cabelo
- Nova faculdade e a nota mais baixa do primeiro bimestre foi um B
- Emocional em dia e em compasso com a Razão
- Novos círculos de pessoas

- Acampei e fiz uma porção de novas trilhas
- Sentindo-se bem em aprender coisas novas
- Escrevendo MUITO mais do que em anos
- Duas ideias ótimas para livros e que me desobrigam das minhas obsessões com História
- Cicatriz vai sair em disco

- Metas claras e muito mais tranquilidade

E a lista de afazeres, de coisas para resolver e conquistar, só cresce. E isso não me assusta, isso me anima, isso me empurra, porque a minha pressa é boa, é uma pressa de urgência, não de temeridade: é a pressa de quem imprime ritmo à vida, mas caminha com calma ressabiada porque as armadilhas estão por todos os lados. Curso de marcenaria, que não vou eu, um reles curioso, roubar vaga de quem precisa de profissão, e encontrar uma arte marcial que substitua o boxe, que infelizmente todos só querem saber de MMA, são as minhas próximas urgências. E eu preciso de novas paixões, porque o meu coração é enorme, e eu que sou feito de exageros e idiossincrasias, sou movido a paixão, então eu preciso me exagerar um pouco.

E, claro, nem tudo dá certo só porque você decide que tem que dar certo. 2017 também já coleciona seus pequenos fracassos, mas aí entra a capacidade de, resiliente, ver o lado bom das coisas e de encontrar paz nas verdades que você precisa assumir em foro íntimo. Em geral, nesses casos, reflexão e honestidade consigo mesmo vão mostrar que você fez tudo que era possível dentro das suas possibilidades e dentro do que as circunstâncias impostas a você pelo contexto e pela vida. Não tem remorsos quem lutou pelo que quis com boa vontade e honestidade para com o que sente e isso liberta e abre o coração para o novo, que sempre vem.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

A primeira a gente nunca esquece

Há um prazer esquecido dessa coisa de morar no mesmo lugar por muitos anos, em especial aquele em que você cresceu: a cada esquina, o passado anda à espreita. É uma vantagem que, nas metrópoles, tende a acabar diluída, já que os encontros fortuitos com os vestígios do seu passado ficam restritos aos lugares, já que as pessoas se dispersam nas grandes conurbações, vão embora, ou simplesmente moravam longe o suficiente de você desde sempre para que tropeçar nelas se torne uma improbabilidade cósmica irredutível. Na cidade pequena, nunca se sabe, mas de repente, você esbarra e reencontra a primeira garota que você beijou anos e anos depois ou, então, a primeira professora. Hoje, no mercado, eu me encontrei com a Professora Cristina. A mulher que foi a “tia” do primeiro e segundo ano do primário, na portentosa Escola Estadual Nossa Senhora das Graças.

Eu nunca esqueci da Professora Cristina porque, por ter sido de fato a primeira (na minha época, a pré-escola não era obrigatória, razão pela qual não tive outra professora antes) ela construiu na minha cabeça os contornos do que devia ser uma professora, ou professor. Isso pode parecer piegas, e, acreditem, eu sei ser piegas, mas essas impressões são verdadeiras e indeléveis, sobretudo em quem aprendeu a ter tamanho carinho pela palavra escrita: se eu hoje escrevo, se eu me apaixono por personagens, por escritores, se me perco em histórias, se ensaio as minhas, se faço versos, se me entendo com a ciência, se aprendo marcenaria em um novo curso, se tenho esse, e outros blogs, enfim, se interajo com as palavras da forma que for, e com a paixão que normalmente devoto ao que eu aprecio, devo tudo à Professora Cristina.

E aí me recordo que, pouco tempo antes de morrer, prestes a lançar um livro, meu pai resolveu procurar o cidadão que tinha sido o seu primeiro professor para dedicar-lhe a obra. Estava vivo o homem, bem velhinho e, pelo que lembro, chorou de emoção e gratidão pelo gesto. Corre nas veias o carinho pelos primeiros mestres, portanto.

Eu gostaria de ter organizado melhor essas palavras para tê-las dito todas à ela no momento em que a encontrei escolhendo pacotes de macarrão. Gostaria de ter ido além da minha bem honesta demonstração de surpresa por ela lembrar de mim também, que não é pouco prodígio, a mulher tem décadas lecionando, não tem a menor obrigação de lembrar de um menininho que, em 1991, tinha seis anos e não sabia ler e escrever e, hoje, veja só, é esse sujeito barbado e apressado, vive do que escreve e escreve para viver. A obrigação de lembrar dela, portanto, é toda minha. Mas não nego que senti um carinho gentil em vê-la lembrando do meu nome e falando do meu sorriso, que eu sorria muito, que eu era quietinho, interessado, carinhoso e cheio de perguntas. E, em geral, mantenho todas essas qualidades ainda comigo e não tenho a menor intenção de perdê-las.

Agora, ao escrever, me sinto decepcionado por não ter dito um obrigado, ou ter sabido como explicar que ela é mesmo especial e que eu não esqueço, mesmo. Ficamos apenas nas platitudes do que tenho feito, de como vai meu irmão, também foi aluno dela, de como ela vai, de, poxa vida, como assim, não se aposentou ainda? Ah, mas pra falar a verdade, que bom que não, que bom porque quem sai ganhando são os alunos. Ah, que engraçado, eu lembro de ter que olhar para cima para falar com você, mas agora eu olho para baixo, a vida não é engraçada?

Cristina tem uns olhos azuis clarinhos, clarinhos, mais que os da minha mãe, e nunca esqueci aquele olhar e a voz dela na sala. O método para ensinar o alfabeto, explicando como juntar as letras para descobrir o som que elas fazem, as primeiras continhas. É tudo meio esmaecido nas memórias que eu tenho daquele tempo, e que pena, que pena mesmo, que não tenho alguma passagem mais marcante, uma historinha com começo, meio e fim para contar da professora Cristina ,porque se tem uma pessoa do meu passado florido que merece protagonizar boas histórias e lembranças, é a Professora Cristina.

Ou não. Porque a ciência já provou que, toda vez que você busca uma memória na mente, seu cérebro não recorda de nada, ele reconstrói momentos e sensações todas as vezes, mudando um pouco ali, um pouco aqui e, no final, com a passagem de anos e anos lembrando, você acaba com memórias falsas, plantadas por você mesmo, sobre o que passou. Você não passa de um iludido, ou de uma iludida, que crê cegamente em mentiras que você mesmo construiu sem perceber.

E aí me conformo porque há beleza na sabedoria dessas e de outras coisas, há paz para se extrair dessa lição e toma-la do ângulo que importa. Me sinto aliviado em notar que a Professora Cristina vai comigo no coração, e sem historinhas embrenhadas nos trópicos dessa selva de mentiras, racionalizações, bons e maus momentos que são as minhas memórias, não há nada sobre ela para acabar se estragando à luz das mentiras que a gente mesmo constrói sem querer. Professora Cristina vai viver eternamente em meio ao carinho, ao apreço, ao respeito e a enorme gratidão que eu sinto por ela ter sido a minha primeira professora.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Pensamento positivo

Eu sempre desdenhei da ideia de pensamento positivo porque estava em descompasso com a verdade das coisas e de percepção embotada por uma doença. Mas hoje sei valorizar essa capacidade, a capacidade de olhar o lado bom das coisas e de encarar as dificuldades e durezas da vida de uma forma sadia: não é abstrair-se de senti-las pelo que elas são, mas de escolher a forma pela qual você vai permitir que elas impactem no seu dia. E eu aprendi a usar essa coisa de pensar positivo para não deixar que nada me desvie do que eu quero, do que estou fazendo, do que eu sei e preciso.

É um ensinamento bem zen, um dos poucos que absorvi, porque eu não tenho mais idade para ser hippie, quando me interessei por um outro recurso das filosofias orientais. Ao lado da meditação, esse talento de contar até 10, usar empatia e deixar que tudo exploda à sua volta é incrível.

O que eu ainda não aceito muito bem ou, na verdade, desconfio, é da ideia de pensar que tudo tem que dar certo porque sim. O mundo é cruel, a vida é dura, a existência é algo assustadoramente injusto e não há razão nenhuma para otimismo: as guerras continuam, o planeta se degrada, as pessoas se odeiam, crianças morrem de fome, há doenças incuráveis destruindo a vida de tantos e tantos, o poder e o dinheiro não apenas corrompem, como seguem aqueles preceitos físicos das coisas que se aglutinam sobre a água em pequenas porções, inacessíveis a todos. E no fim de tudo, os seus dramas pessoais se acumulam e fazem as grandes mazelas da humanidade parecerem minúsculas em comparação: é conta para pagar, o futuro para resolver e as incógnitas impressas no sangue tépido do coração que ama e pulsa em compasso de espera, sem o sincronismo daquela doce verdade científica da pulsação de dois amantes que entra em harmonia. Não há como escapar da dureza de todas essas coisas e apenas olhar para elas com olhos inocentes e umedecidos esperando que elas darão certo por algum fatalismo reverso é infantilidade.

Mas cada uma das mazelas que se abatem sobre você podem, e devem, ser absorvidas e encaradas de forma positiva no sentido de que é a maneira pela qual você escolhe encará-las que vai lhe dar os melhores subsídios para superar os problemas. Eu tenho escolhido paz e aceitação e qualquer outra resposta que me permita ter equilíbrio diante de humilhação, indiferença, agravos, obtusidade e o que mais aparecer por aí. Eu mato de peito, respiro, sorrio, e de coração leve, resolvo o que eu faço em seguida. Eu tenho me sentido mais leve, mais em paz por conta dessa nova forma de lidar com o mundo. Eu nunca fui assim. Nunca.

O pensamento positivo em relação ao futuro é enganoso e pode levar a amargas decepções. Mas pensar positivo sobre o que te atinge, seja isso algo originário de pessoas, de coisas, do banco, do trabalho, dos colegas, da família, enfim, ajuda, muito, a evitar cair em depressão, a policiar pensamentos negativos, a tristeza que pode aproveitar qualquer brecha para te puxar para aquele niilismo destrutivo e imbecil. E é incrível como uma mente sã, disposta a se libertar, dá esse chão firme para que você se sinta em paz, resiliente e num equilíbrio em que tudo começa a se encaixar: meditação, o cuidado com a forma pela qual você reage, a capacidade de entender como sua mente funciona, os pensamentos ruins esperando na esquina, tudo, fica mais na mão, mais fácil de entender, de seguir. Aí, até as músicas que falam de redenção e vitória dominam a playlist e o videogame, essa deliciosa válvula de escape dos problemas da vida, fica ali, empoeirando, enquanto você faz seus planos, resolve problemas e gasta tempo aprendendo a programar em C# por um curso à distância da Microsoft: algo para que você jamais pensou ter a menor disciplina.

O ano de 2017 está longe da metade. Mas eu já fiz muito por ele, aprendi, parei, reexaminei, busquei ajuda e me proibi de antigos vícios.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Eterno estudante da vida

Coisas que fogem dos padrões ou, vá lá, dos preconceitos com que eu meço o meu mundo me incomodam e me desviam as ideias (o que, claro, é uma definição válida de preconceito, porque se não incomodasse, não seria preconceito).

Ponto, abre parêntesis; eu tenho preconceitos, mas como diria o Louis CK, único comediante em pé que vale a pena, são leves e, a essa altura da vida, é bem provável que eu não mude mais, fecha parêntesis.

Enfim, quando eu me confronto com algo que rompe meus padrões, eu fico fora de prumo porque, cartesiano, não posso explicar valores incongruentes retornando um absoluto, como por exemplo anos de um desempenho horrível em matemática, mesmo achando a ciência e as razões dos números algo fascinante, e, hoje, nadando de braçada, colecionando notas altas e sendo inclusive convidado a oferecer ajuda aos colegas em maiores dificuldades. E há outros casos dessas incongruências ocupando o meu juízo atualmente, eu sou cheio de pensar o mundo. Mas, retornando da digressão, o que explica o sucesso, anos e anos afastado das contas?

Nesse exercício de tentar explicar tudo, venho buscando as razões últimas de cada uma das coisas presentes na minha vida. Para explicar o recém (re)descoberto talento para a matemática e o raciocínio lógico, tenho encontrado respostas: o professor, matemático e phD na área, é excelente porque alia um conhecimento absurdo da matemática com satisfação por dar aula e didática, três grandes qualidades que nem sempre habitam o mesmo professor, em especial os universitários, normalmente de mal com a vida por terem sido expelidos de um mercado de trabalho exíguo e cruel.

Outra explicação igualmente válida é que a matemática que se ensina para aprender engenharia de software está longe das assombrosas dificuldades do cálculo diferencial e integral, esse sim um colosso matemático capaz de fazer empalidecer os melhores alunos do ensino médio quando, de cabeça raspada, aparecem nos primeiros anos dos cursos de engenharia clássica. A Álgebra de Boole, embora rivalize em abstração com o cálculo hardcore de Leibniz e Newton, não goza do mesmo nível de dificuldade. Em geral, dá para dizer que com um bom conhecimento de fundamentos de matemática e um pouquinho de raciocínio, qualquer um aprende esse conteúdo com alguma facilidade.

O engraçado nessas explicações é a minha resistência em dar o mérito a... mim mesmo. Fácil ou difícil, com bom professor ou não, sou eu quem aprende bem, que tem estudado, que vem sentindo alegria com as descobertas. Um dos exercícios de construção de auto-estima e confiança que desenvolvi, com o auxílio de uma querida psicóloga, tem muito a ver com essa quebra de resistência e se dar ao direito do auto-elogio, ainda que em foro íntimo, ou nas páginas de um blogue que ninguém vai ler mais. Porque parece que é mais fácil eu justificar que o professor é brilhante, ainda que isso não seja verdade para outros colegas, e que o conteúdo é fácil, ainda que não seja também para boa parte da minha turma. Tudo vale nesse esforço doente de se puxar para baixo, até mesmo abstrair que, de 30 alunos, uns 20 tiram notas baixíssimas e que muitos deles não conseguem entender rigorosamente nada do que o matemático fala naquela sala de aula.

Eu lembro de um tempo em que essa propensão a se reconhecer como bom em alguma coisa não era nada difícil. Eu sabia onde estavam as minhas qualidades e não tinha problema em reconhecê-las e, verdade seja dita, até de expô-las às outras pessoas. Parei com isso porque fui chamado de arrogante. E acabei, como muita coisa na vida, exagerando a mão e perdendo contato com essa forma de perceber conquistas e vitórias: sim, o mundo externo é parte decisiva de tudo, tudo pode ser relativizado à luz das circunstâncias, mas não há mal algum em ver que você, sim, você mesmo, é agente decisivo das suas vitórias. Então comemore esse 10 em matemática, cara. Porque, tirando o vestibular para engenharia (eu gabaritei a prova de matemática) quando eu ainda era virgem, é o primeiro da minha vida na disciplina.

Então aceitamos que eu, além do bom professor e da relativa leveza do conteúdo, sou responsável pelo meu sucesso na disciplina. Mas, o que explica essa minha capacidade?

Uma porção de coisas. Eu abracei o meu ingresso nesse curso porque estou convicto de que meu futuro profissional e material reside nessa área. Além disso, aprovado no processo seletivo com nota excelente, sem ter estudado nada, me senti vitorioso e realizado num momento delicado da vida, de incertezas. Decidi fazer dessa faculdade o primeiro passo para a construção, dedicada, apaixonada, séria e consciente, da vida que eu quero dar, da vida que eu quero ter.

E essa forma de ver as coisas ajuda a explicar porque, antes de me apavorar com os prognósticos de um curso de exatas, eu resolvi receber todas as novidades de coração aberto: nada me espanta, tudo me deixa curioso e a afinidade natural com o assunto acaba me instigando. Por isso que antes de me preocupar por ter tido alguma dificuldade em entender Diagramas de Venn, eu respiro fundo, estudo, analiso exercícios e dou uma pesquisada e aplico o mesmo comportamento para outras disciplinas. Aí, as notas são boas em tudo, não apenas em matemática. Eu refaço exercícios e estudo por conta, até expandindo o conteúdo que integra a ementa da disciplina, e faço cada uma dessas coisas com interesse absolutamente natural, com curiosidade, com vontade: antes de ser um encargo, uma tarefa, é uma coisa que eu tenho vontade de fazer. Nada me cansa, nada me parece pesar na rotina, como se fossem obrigações, é tudo leve, natural e até divertido.

E eu vejo isso como uma manifestação de maturidade. Toda essa capacidade e interesse por aprender eu sempre tive, mas raramente tirei proveito deles na minha vida acadêmica, ou de estudante. Antes, além de grandes doses de preguiça, me parecia, a perspectiva de precisar estudar para aprender atestava um tipo de fraqueza, de incapacidade da minha parte de aprender em sala de aula. Se eu precisasse estudar, então, estava sendo fraco e ineficiente, logo eu, acostumado a fazer tudo relacionado com estudo sem o menor esforço e dedicação: me bastava ouvir o que o professor falava em sala de aula para ir razoavelmente bem nas provas. Agora, eu enxergo que há prazer em aprender, em aperfeiçoar, em ser bom nas coisas, em melhorar. Que estudar não é feio, não faz de você um chato, que há prazer nesse exercício.

São lições que eu quero levar para toda as faces da minha vida. De agora em diante, o verso "ainda sou estudante da vida que eu quero dar" fará, sempre, um sentido todo novo na minha existência.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Das escolhas

"Escolha é o ato de hesitação que nós fazemos antes de tomar uma decisão”.




Essa, e outras, frases vem me ocupando a mente nesses últimos tempos de reconstrução, de reavaliação, de mudança. Essa, em específico, faz parte de uma palestra de Alan Watts, um escritor e filósofo que morreu há quarenta anos, mas que sabia uma ou outra coisa sobre a vida, sobre crescer, sobre encarar as durezas de existir. Na palestra em que fala sobre escolhas, e as consequências delas na nossa vida, ele insiste em que nós precisamos ser como nuvens e como ondas, que sempre são perfeitas, e que não se importam com o seu destino: apenas o aceitam.

Isso, veja bem, não significa que devemos escolher de forma temerária. Que podemos viver em total desconsideração com os impactos das nossas escolhas, mas que devemos aceitar os resultados com igual valentia: trata-se de saber que o ônus de uma péssima escolha é tão importante, lá na frente, como o benefício de uma aposta certeira. A única certeza é que você não tem como saber de tudo com antecedência.

E eu concordo com Watts. Porque já discordei dramaticamente.

Passei muitos anos acreditando que nós somos reféns de nossas escolhas e que, caso elas não deem resultados positivos, devemos viver em eterna penitência por esses erros de cálculo, essas más decisões, esses tropeços que nos afastaram dos resultados e sonhos que tínhamos quando as fizemos. Não acho que a minha forma de encarar fosse de todo ruim, afinal viver com consciência de onde você errou é sempre uma lição proveitosa, tanto mais se ajudar a prevenir os mesmos agravos no futuro, mas, sem dúvida, fechar-se ao novo, que sempre vem, aos riscos e deixar esse medo de escolher e pular no abismo das coisas novas que envolvem cada grande decisão das nossas vidas é uma forma muito econômica, mas certeira, de perder tempo com bobagem.

Um exemplo: eu abandonei o curso de engenharia. E, na época, o fiz por uma porção de ótimas razões, que iam da tristeza e falta de preparo por conta da morte de meu pai, às próprias inclinações que sempre tive, o interesse pela palavra escrita e pela literatura, por exemplo. Mas, ao longo dos anos, me assombraram os efeitos dessa escolha porque a vida que não tive, ao ter interrompido aquela história, sempre me parecia que poderia ser melhor do que a que tive.

Mas essa não é a questão. Não pode ser porque eu não sei, não tenho como saber. E, de resto, ainda que tivesse como saber com precisão o que seria de mim tendo continuado com aquele curso, não posso deixar de dizer que, hoje, me parece que naquela estrada eu não leria os mesmos livros que li, não conheceria as mesmas músicas, não iria aos mesmos lugares, não teria os mesmos sorrisos e lágrimas, as lições seriam outras e é possível que eu passasse um bom tempo pensando comigo que o melhor teria sido ter largado engenharia para fazer jornalismo. Talvez tivesse me saído até bem pior, eu não sei! Não conheceria e não teria os mesmos amigos, não amaria as mesmas pessoas, o que em si só já é um custo oneroso demais por pagar por uma hipotética chance de voltar no tempo e mudar o rumo.


No resumo, tanto uma escolha como a outra, não importa, as duas estão certas: dão resultados diferentes, levam a histórias distintas, resultam em outras pessoas e em outras narrativas. Mas não há certo e errado, há apenas vida, consequências e a nossa obrigação com nós mesmos de tirar o melhor proveito de tudo e receber o que a vida dá, de bom e de ruim, com resiliência.


É bom redescobrir, depois da cura, que você pode viver sem medo, que era bom nessa coisa de resiliência e que, se nunca fora um otimista, ao menos tinha o excelente hábito de rir das desgraças. Escolhas não são espadas de damôcles a pairar sobre as nossas cabeças, prontinhas para nos fazer em dois ao menor erro. Escolhas são a forma da vida ir adiante, quer ela vá tranquila, quer ela vá agitada e atribulada: cabe a nós decidir da melhor forma possível, com coragem, mas com a conformidade de saber intimamente que não temos como conhecer todos os ângulos de uma escolha, que decisões não são ruins e boas, apenas são.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Aos meus filhos

Meus filhos;

Eu não sei quanta paciência vocês terão para ler esses textos - se forem um pouco como eu, imagino que a curiosidade será suficiente para que não apenas os leiam com interesse, mas os conservem com bastante paixão. Eu sempre me apeguei bastante a qualquer coisa antiga relacionada com a história da minha família e estimo que aprendam a ter o mesmo hábito. Desde origem dos sobrenomes a velhos álbuns e documentos, tudo relacionado aos estranho que vieram antes, e resultaram em quem eu sou, em quem vocês são, sempre me provocaram profunda fascinação.

Na verdade, há uma certa sensação de fuga da premissa depois de tantos anos com essa ideia de registro da minha vida para vocês mais ou menos norteando meus esforços nesse blog, já não sei até que ponto muitas das coisas escritas aqui não se confundem na memória. Há impressões falsas, textos que eu, hoje, jamais escreveria, opiniões que podem ter mudado. Enfim, coisas de que me arrependo, que não aconteceram exatamente como estão escritas e, que mesmo que tivessem, é tudo tão baço e obscurecido pelos anos que fica muito difícil de eu mesmo ser capaz de ler minhas histórias e encontrar exatamente o sentido delas.

Não se trata, portanto, de um diário remotamente preciso desse pai que vos escreve. E antes que pensem que eu fui ficando maluco conforme o tempo passou, eu me defendo dizendo que essa é a vida: é comum que quando olhamos para trás nos deparemos com um estranho, que sorri ou chora, e que de forma absolutamente surpreendente, reconhecemos como nossos eus de outrora.

Embora a precisão desse blog possa ser largamente relativizada, a manutenção do espaço e dos registros não são esforços menos saudáveis porque, e tenho certeza que já o escrevi em algumas postagens antigas, tive essa ideia ao lembrar que meu pai faleceu sem que eu viesse a realmente conhecê-lo. Não sei, por exemplo, que jovem ele foi, com o que sonhava, o que fazia aos 25 anos de idade, como encarou ter 30, começar a ficar careca tão cedo, sua postura sobre a ditadura, as namoradas, por que entrou para a política, por que largou quando parecia que poderia ter sucesso, por que fora estudar economia e história ao mesmo tempo e não, sei lá, engenharia.

Todas perguntas que, talvez, vocês tenham tido a vontade de me fazer e, se mergulharem nesses posts todos, talvez encontrem algo que responda à sua curiosidade. Algo que, se ocorrer, me verei um sujeito feliz porque nada escrito foi em vão.

Além de responder às perguntas que vocês possam ter a respeito de quem eu fui e sou (espero estar vivo quando vocês lerem esse e outros textos), imagino que meus textos também tenham caráter educativo, que possam guiá-los por problemas, que possam fazer com que vocês enxerguem que a vida pode ser realmente dura, mas que há um amanhã para cada dia horrível, que eu tive momentos ruins e momentos bons e é o esforço de cada um de nós para termos mais momentos bons que ruins que define a vida e dá sentido à busca pela felicidade (que, vou avisando, não existe em si: o que podemos conquistar são momentos felizes permeados de realização, de sonhos, vitórias e das pessoas que mais amamos).

Quem sabe uma ou outra passagem sobre minhas desilusões, minhas vitórias (porque não se iludam, aprendemos um bocado com elas), minhas glórias e falhas, enfim, o que eu fiz e deixei de fazer possam guiar vocês em momentos atribulados, em fases de dúvidas, de dificuldades, em que pode parecer que estarão sozinhos, contra tudo, a carregar o mundo nas costas - igualzinho eu me senti quando morreu meu pai e os blogs, por sorte nossa, praticamente não existiam para que eu viesse neles escrever minhas dores. Por mais que eu queira que vocês aprendam as durezas dessa coisa de viver, acho que já me sinto pai mesmo sem saber por quantos anos mais terei de esperá-los, prefiro protegê-los do quanto a morte de seu avô me escureceu a existência por um tempo. Passou, mas doeu bastante.

Espero que minhas músicas sejam interessantes, que os meus poemas, embora sofríveis, criem em vocês o amor por essa forma de arte tão pouco valorizada, que meus escritores favoritos tenham coisas para dizer a vocês ao longo da vida e que sirvam de porta para que vocês encontrem as suas músicas, as suas formas de arte, os seus livros - e tenham sempre o carinho de me explicar porque cada uma dessas coisas os encanta. Escrevo porque quero que vocês lembrem que aos 20 poucos anos de idade eu já os imaginava e desejava na minha vida.

Agora, na iminência de publicar essa carta, me vejo preocupado, ao relê-la, e perceber que ela não soa bonitinha como as crônicas que você lê de gente tão talentosa, que ao escrever para os filhos que crescem no quarto ao lado, enchem o texto de doçuras e de formas leves de ensinar a vida, de falar do passado. Crianças (adolescentes?), eu não sei escrever desse jeito. Ou talvez não o saiba porque esse é um talento que a gente descobre quando nos nascem os filhos, quando nos sentimos cheio desse propósito bonito que é a paternidade. Me perguntem depois, ou sigam lendo para saber se eu soube ficar mais lírico ao longo dos anos ao escrever para vocês.

Eu deixo esse post aqui, que caso eu mantenha o ritmo de umas 10 postagens por ano, será soterrado por outras bobagens, poesias, platitudes e remorsos, como registro, no entanto, do momento em que vocês deixaram de ser uma ideia e uma vontade para o meu futuro para serem um projeto, um compromisso. Eu sinto que vocês não estão mais tão longe da minha vida, não só porque eu os quero e amo muito desde sempre, mas porque querer é poder e estou sentindo essa saudade do que ainda não tive me doendo no peito. Meus amores, eu sinto falta de vocês sem tê-los ainda conhecido e para remediar essa forma mais cruel de saudade só indo mesmo encontrá-los.

Sinto que nos encontraremos em breve, mas que vai demorar um bocado para que vocês aprendam a ler e tenham qualquer crise que os levem a questionar o velho sem graça, grisalho e decididamente calvo, que tenta dialogar com vocês, o que os levaria a ler esse e outros textos esparramados por aqui. Falta tempo não só porque vocês precisam, antes, crescer um pouco mas porque há uma série de obstáculos. Eu, segundo as probabilidades, não encontrei ainda a mãe de vocês, preciso resolver uns problemas práticos, como achar onde vocês vão crescer e meu novo rumo profissional, mas vai tudo à caminho porque, meus amores, eu tenho planos.

Lhes escrevo essa carta em específico porque encontrei antigas fotos e recortes do seu avô há uns dias. Nenhuma daquelas reminiscências eram endereçadas à mim, mas me fizeram feliz. Espero que essa carta tenha para vocês o mesmo efeito aconchegante que aquelas relíquias tiveram comigo, que vocês sintam o calor do meu abraço, a minha voz, o meu jeito de olhar e o amor que eu já desenvolvo por vocês tocando cada pedacinho dos seus corpos e essências, quer eu esteja por perto ou não porque essa vida é bandida e não me arrisco a ir tão longe nas minhas previsões.

E se não estiver, espero ter sido um bom pai, espero que entendam minhas falhas, valorizem meus acertos, reconheçam meu esforço, que não me esqueçam. Deixo-vos, também, alguns bons conselhos: tenham sempre coragem, e se ela faltar, leiam esse parágrafo para lembrar de criá-la e tê-la sempre à mão, quaisquer que sejam as circunstâncias da vida. Façam dessas frases amuleto, usem-no ao redor do pescoço para não esquecer de vibrar, mesmo perante os riscos. Não se esqueçam de ter medo, porque não é feio duvidar e fragilidade não é opróbrio, mas enfrentem as dificuldades com coragem e procurem apoio naqueles que os amam. Vocês têm a obrigação de serem corajosos por duas razões. Em primeiro lugar, são meus filhos e em segundo porque o mundo vai exigir isso de vocês 100 vezes por dia. Não se furtem às oportunidades que a vida dá, experimentem os caminhos, cuidem do corpo e da mente, corram os caminhos do mundo, sangrem, ajudem, peçam ajuda, amem. No mais, tirem o melhor proveito de tudo, procurem viver alegremente, tenham prioridades na vida e, por favor, vivam bem e por muito tempo.

Com amor, do pai.